Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (3.ª parte)

[nota de Rui Tavares: por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.]

Quem terá escrito a Ilíada e a Odisseia? Homero, dizem os antigos e muitos contemporâneos. No entanto, em grego “homero” significa “refém”. Os reféns eram os filhos dos prisioneiros de guerra que, sendo dúbia a sua lealdade, estavam isentos de participar nas batalhas. Por isso, era-lhes frequentemente entregue a responsabilidade de memorizarem e conservarem os poemas épicos orais e a história antiga da sociedade a que pertenciam.

Seria Homero um destes reféns? Ou será que “homero” se refere a uma sociedade destes poetas que conservariam e refinariam estas tradições orais até ganharem corpo naqueles dois clássicos? A questão é muito discutida, mas o que está fora de dúvida é que os dois alicerces da literatura ocidental se basearam em histórias orais que foram passadas de geração em geração, de boca em boca, até alguém as fixar definitivamente por escrito.
Se estas duas obras são discutíveis, outras já não o são. Por exemplo, hoje há certezas quanto que a colecção Hinos Homéricos não pode ser atribuída ao mesmo autor da Ilíada e a que as obras que os eruditos gregos atribuíam a Orfeu certamente não lhe pertenceriam.

O terceiro alicerce da literatura ocidental, a Bíblia, também é alvo de discussão quanto a algumas das suas passagens. Debate-se, por exemplo, se os seus livros 
teriam sido mesmo escritos pelos seus autores nominais, se ditados por estes, se seguiriam tradições próximas destes ou se seriam, simplesmente, obras anónimas atribuídas a um autor prestigioso para ganharem o peso da autoridade. É certo que o Cântico dos cânticos não foi composto por Salomão, mas fazia parte das tradições orais das núpcias judaicas, e que o Evangelho de São João terá sido escrito por alturas do séc. II d. C., muito depois falecimento do apóstolo.

Mesmo nos Evangelhos há passagens abertamente reconhecidas como apócrifas. Na obra Os Monges que Traíram Jesus (2006) há a indicação de várias. A mais famosa é a de Marcos 16:9-19, na qual se descreve a ressurreição de Cristo, que é hoje universalmente reconhecida como um acrescento posterior – a versão oficial católica da Bíblia o diz. O Evangelho, o mais antigo dos quatro, terminaria originalmente com a morte de Jesus.
Uma das histórias mais famosas dos Evangelhos, João 7:53-8:11, do encontro com a mulher adúltera e do “quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”, é considerado por muitos autores como uma invenção posterior: surge uma única vez nos manuscritos mais antigos, aparece em vários sítios diferentes nos manuscritos posteriores, interrompe o fluxo do texto do evangelho e está escrito num estilo bastante diferente.

Foi com a descoberta da imprensa e a disseminação de livros e leitores que os problemas de autoria se agudizaram.

Um desses casos é o de Shakespeare. Sendo já de si polémica a atribuição das peças ao indivíduo chamado William Shakespeare, o caso agrava-se quando a maior parte das suas peças foram publicadas após a sua morte, por actores da sua companhia, que se basearam nas notas, na memória e em notas de representação, dando origem a versões muito díspares.

Outro exemplo mais próximo de nós é o de Camões. Quando, quinze anos depois da morte do poeta, o impressor Lobo Soropita publicou pela primeira vez as suas obras, teve as recolher da oralidade ou de manuscritos de terceiros. Na segunda edição, teve já de retirar alguns sonetos que concluiu não serem de Camões e acrescentar outros que tinham surgido. Este método foi-se repetindo de edição a edição, até ao ponto de haver mais 400 sonetos atribuídos a Camões. Jorge de Sena estabeleceu 119 sonetos como autênticos. A questão ainda perdura hoje.

Como surgiriam todos estes sonetos apócrifos? Do mesmo modo que surgem muitos textos da Internet – alguém deparava com um soneto de que gostava e sentir-se-ia tentado a atribuí-lo ao poeta mais famoso da altura, outro escrevia um poema e, inseguro do seu próprio dom lírico, atribuía-o a alguém considerado.

A prática não era, aliás, exclusiva da literatura. Miguel Ângelo em início de carreira terá feito passar um Cupido de sua autoria por uma peça antiga. Muitos impressores renascentistas acrescentavam a sigla AD às suas xilografias para as valorizarem, atribuindo-as a Albrecht Dürer. No séc. XVII não eram desconhecidos os pintores anónimos que assinavam os seus quadros com Rembrandt fecit.

Se alguma desta pseudo-epigrafia era inconsequente, servindo apenas para alimentar egos e carteiras, algumas destas falsificações tiveram efeitos surpreendentes.

Um destes casos foi o de Ossian, um suposto poeta medieval, cujas obras, “descobertas” no séc. XVIII, viriam a inspirar o movimento romântico. Porém, a real autoria do texto era do seu suposto “tradutor”, James MacPherson, um autor de obras históricas.

Os exemplos de falsificação de autoria são intermináveis, mas julgo que estes servem para verificar como aquela sempre foi um conceito frágil, muitas vezes mais definida por uso e contingências que por uma autêntica ligação entre autor e obra.

Deste facto, talvez se possa depreender que, muitas vezes, é o estilo e o conteúdo do texto que vão determinar a autoria atribuída.

No caso dos textos apócrifos que correm pela Internet, isso suscita a questão: o que é que há num texto que faça os seus leitores sentirem a necessidade de atribuí-lo a outro que não o verdadeiro autor?

Na próxima semana vou debruçar-me sobre o conteúdo e estilo dos ciberapócrifos.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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5 respostas a Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (3.ª parte)

  1. ivan diz:

    Gostei do texto. O link para o abrupto não está a funcionar.

  2. Caro Jorge Palinhos,

    Há um livro do Foucault, “O que é um autor” , traduzido em português, pela Vega, que aborda a questão da autoria como uma “função” que tem uma história. Se bem me lembro, e simplificando muito, ele diz que a partir do século XVIII, mais ou menos, há nos discursos em torno da literatura uma associação crescente entre as obras e os seus autores, que se individualizam (ganham um nome próprio como autores) e se tornam uma espécie de íman para as obras. Isso explica a progressiva consagração literária e as atribuições estilísticas de poemas a posteriori a um autor como Camões (ou Cervantes, ou Shakespeare, ou os escritores românticos, etc, etc). A cronologia e os exemplos do Foucault se calhar são discutíveis, mas a obra dele (e de outros) permitiu abrir uma série de perguntas históricas sobre a autoria. O nascimento do copyright, entre o séc. XVIII e XIX, tem a ver com isso. Assim como antes, provavelmente, a imprensa e antes ainda, o livro manuscrito, já tinham contribuído para criar uma unidade entre autores e obras. Talvez seja essa unidade que esteja a desaparecer (o Foucault também teorizou a “morte do autor”, não sei se com razão ou não), para o que a publicação sem intermediários na internet parece contribuir. A proliferação de apócrifos, plágios, etc, de que tu falas (e que parece um retorno à época em que a maior parte dos textos que existiam eram manuscritos) tem a ver com isso: a autoria bem identificada necessita de mediações como as editoras tradicionais, revistas, instituições, academias, e isso é o que a internet tem posto muito fortemente em causa.

    Desculpa o testamento, abraço, André

  3. Jorge diz:

    Muito obrigado pelos comentários.
    André: conheço o livro do Foucault e ia justamente abordá-lo posteriormente, mas agradeço o contributo.

  4. Caro André Belo:

    “a autoria bem identificada necessita de mediações como as editoras tradicionais, revistas, instituições, academias, e isso é o que a internet tem posto muito fortemente em causa.”

    Eu concordo que a publicação sem mediação na internet facilita que o surgimento de obras em que a autoria é menos clara ou mesmo falsa. No fundo se não há mediação é mais difícil arranjar testemunhas no caso de uma falsificação.

    Quando às referidas instituições, com base na minha experiência, elas podem também ser usadas como instrumentos nessa falsificação. Convem não ser ingénuo.

  5. parca diz:

    Podias acrescentar os evangelhos apócrifos e a doação de constantino, esta sim, deu dores de cabeça durante séculos.

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