Comida estragada

Descobri no outro dia um blogue chamado Jantar das Quartas. O menu é farto e a cozinha tradicional: reaccionarismo, anti-semitismo e racismo q.b.; ainda assim, não deixa de ter o seu quê de surpreendente: então os jovens herdeiros do “Portugal multiracial e pluricontinental” e dos “25 milhões de portugueses” não apreciam o convívio dos imigrantes das ex-colónias? Lamentável incoerência histórica – porque provocando Mantorras, provam não estar à altura do Portugal de Eusébio…

O lado bom disto está em que, com um programa assim, a extrema-direita se condena sem remédio a desempenhar um papel irrelevante, pois, como escreveu Raymond Aron a propósito de Le Pen, a questão da imigração é e será sempre uma questão lateral, se comparada com as questões mais “transversais” da política; o lado mais triste está em que põe a nu o equívoco senão a mistificação em que consistia a ideologia luso-tropical do nosso colonialismo tardio: ingénuos que fossem, alguns bem-intencionados houve que acreditaram nela, e hoje dariam voltas na tumba se a soubessem reduzida à expressão do mais rasca dos preconceitos.
(Post publicado originariamente no “Caderno de Verão”, com adaptações)

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SEXTA | António Figueira
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