Um país à parte

Na mesma edição do “Público” que indignou o Ivan Nunes, vinha a noticiazinha anódina de que num país deste planeta, membro da comunidade das nações e com lugar na ONU, um membro do Governo propôs expulsar do território nacional uma parte da principal minoria étnica nele residente (e que corresponde a cerca de um quinto da sua população total), com o objectivo de torná-lo etnicamente “mais homogéneo” e explicando que entre maioria e minoria existia uma insanável “fricção” de povos e religiões. O chefe do Governo distanciou-se destas palavras, mas as declarações em causa não prejudicaram a permanência do seu autor nas funções ministeriais que continua a ocupar.

Em qualquer outra parte do mundo, esta proposta teria um nome: “limpeza étnica” – que é consensual constituir, na ordem jurídica internacional, um crime contra a humanidade. Aliás, por menos do que isto, foi Milosevic julgado – mas isto passa-se em Israel, um país que vive à margem do direito e que os seus amigos insistem sempre em recordar que é a única democracia do Médio Oriente. Eu gostaria igualmente de recordar que a África do Sul (branca) dos tempos do apartheid era provavelmente a única democracia de África, o que não a impedia de ser também aquilo que era.

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SEXTA | António Figueira
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