O regresso do espectro

manif.jpg

Há uma anedota, que se contava no tempo da União Soviética, que relata a visita da mãe de Brejnev à residência oficial do filho Leónidas. O dirigente soviético mostra à mãe a gigantesca casa, as pratas, as loiças preciosas, a fabulosa colecção de carros. No fim da visita, a mãe olha Brejnev com bastante orgulho, misturado de algum receio, e sussurra-lhe: “meu filho, tudo isto é maravilhoso, mas se vêm os comunistas, tiram-te tudo”.
A história aplica-se como uma luva a determinados participantes da reunião de partidos comunistas que se realiza em Lisboa, a convite do PCP. Partidos como o dos “comunistas” chineses têm de facto uma relação especial com o proletariado: passaram da defesa da sua libertação à sua exploração e aquilo que mais temem é que algum dia os operários se levantem e se libertem deles. Neste mundo global, os capitalistas estão em todo o lado e os seus polícias em Washington; grande parte da classe operária vive na China, sem sindicatos e sem liberdade, com um governo que usurpa a sua ideologia e o nome de “comunista”. Estranhamente, o partido dos resistentes anti-fascistas, o partido de tantos operários portugueses, vira a cara para o lado e nega a sua solidariedade aos trabalhadores chineses.
Este texto de Marshall Berman, autor de um dos livros mais brilhantes sobre o modernismo, cujo título é uma frase do Manifesto Comunista (“Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar”), fala-nos no texto que reproduzo das condições do renascimento do marxismo na China. Naturalmente, refere-se a um marxismo longe da ideologia do Estado/partido opressor, e próximo da liberdade dos operários. Leiamos então, sobre a criatura mitológica que renasce das cinzas da opressão.

A FÉNIX VERMELHA
Por MARSHALL BERMAN

As grandes manifestações na Praça Tiananmen, em Pequim, em 1989, foram discussões poderosas com um governo que saudara a queda do autoritarismo maoísta, mas nunca chegou a reconhecer o seu povo como pessoas ou cidadãos livres. O governo de hoje parece ser tão resoluto quanto o de ontem quando se trata de conservar fechadas as portas à democracia e aos direitos humanos. Mas o governo de hoje está a ter um êxito brilhante na abertura da economia nacional e na capacitação da China para participar da vida económica global. As fábricas do sul da China, hoje, são as maiores produtoras mundiais não apenas de bens relativamente simples, como roupas e calçados, mas também de máquinas cada vez mais sofisticadas: computadores pessoais, aparelhos de DVD, fotocopiadoras e máquinas fotográficas digitais. A China não só dominou as técnicas de produção em massa como demonstrou uma queda impressionante pelas altas finanças. Enquanto isso, desenvolveu uma cultura cinematográfica brilhante – um cinema que lembra o neo-realismo italiano e que mostra ao mundo uma visão tanto do espaço maravilhoso das ruas quanto das pressões internas que movem as vidas chinesas. O aumento vertiginoso do poder da China e o seu desenvolvimento acelerado formam uma das histórias mais intrigantes do final do século XX. O governo fala num discurso triunfalista, que, na realidade, é um eco notável da linguagem da Inglaterra do século XIX, na época áurea daquilo que, mais tarde, os historiadores aprenderam a chamar de “Revolução Industrial”. A Inglaterra, na época, desfrutava de um crescimento industrial tremendo e, a cada ano que passava, dominava uma parte maior do mundo. Os seus meios de comunicação de massa estavam unidos numa orgia de autocelebração. No entanto, o seu nível de sofrimento humano também era assustadoramente alto. A Inglaterra vitoriana era líder mundial em termos de poder produtivo, mas também de miséria humana. Muitas pessoas tinham consciência dessa miséria, mas, quando pensavam criticamente, criticavam a vida moderna como um todo: desejavam “livrar-se das artes modernas para livrar-se dos conflitos modernos”. Marx era mais complexo – queria afirmar e celebrar o progresso humano, mas também combater os seus custos humanos ultrajantes.

Discurso da contradição
O seu pensamento pode ser descrito como um discurso da contradição. “Nos nossos tempos, tudo parece conter em si o seu contrário. Vemos as máquinas, dotadas do poder de diminuir e frutificar a mão-de-obra humana, impelindo essa mão-de-obra à fome e sobrecarregando-a de trabalho. As fontes modernas de riqueza transformam-se em fontes de carência, como sob o efeito de um feitiço estranho. As vitórias da arte parecem ser compradas pela perda do carácter. “Existem bons motivos para dizer que, na China de hoje, “tudo parece conter em si o seu contrário”. É irónico que, durante décadas, uma paródia de marxismo tenha sido imposta a uma China atrasada e camponesa, que não podia de maneira nenhuma digeri-la. É apenas agora, quando a China passa por um processo de desenvolvimento dramático e explosivo, que o discurso da contradição de Marx pode ser uma poderosa visão crítica da sua vida real. Quando apresento esse argumento, falo na condição de alguém formado pela nova esquerda americana e europeia. O nosso movimento, pós-estalinista e anti-estalinista, nasceu em 1956, quando eu era jovem. Hoje, meio século depois, talvez pudéssemos ser descritos como a esquerda usada. É possível que não restem muitos de nós; é provável que nunca tenhamos sido muitos. Mas temos algo proveitoso a dizer. Para nós, a visão de subjectividade moderna de Marx é o seu tema central. Marx compartilha a ideia de Hegel de que “o princípio do mundo moderno é a liberdade da subjectividade”. Argumentamos que Marx parte dessa ideia e a aprofunda. A liberdade da subjectividade é o cerne vital da crítica que Marx faz ao capitalismo moderno. Marx pressupõe o Iluminismo e as suas ideias centrais, os direitos humanos universais e a democracia política. Pressupõe as revoluções inglesa, americana, francesa; vê o comunismo como uma maneira dessas revoluções cumprirem as suas promessas rompidas de cidadania democrática e direitos humanos. Entre as gerações que fizeram as revoluções russa e chinesa, houve milhões de homens e mulheres que imaginaram o triunfo dessas revoluções, em 1917 e 1949, como uma oportunidade de cumprir essas promessas durante as suas próprias vidas. Mas as elites de Estado e partido que assumiram o controle da União Soviética e da República Popular da China eram, na melhor das hipóteses, indiferentes a essas liberdades e, com frequência, agressivamente hostis a elas. As massas soviéticas e chinesas ansiavam pelo cumprimento das promessas da vida moderna. Mas as novas elites negaram que tais promessas alguma vez tivessem sido feitas. Os modelos políticos que mais significado tinham eram os das comunas camponesas, dos mosteiros religiosos e dos impérios militares, todos colectividades avassaladoras que esmagavam o eu individual. O comunismo dos dirigentes foi formulado com mais clareza e simplicidade tosca no “Livrinho Vermelho” de Mao, nos anos 1960: “O eu não é nada; o colectivo é tudo”. O que Marx queria dizer com comunismo não pode nem sequer ser imaginado até que o estalinismo e o maoísmo fossem derrubados. Só então é que sujeitos modernos podem emergir e agir.

Visão irónica
A visão de Marx da vida moderna é saturada de ironia. A primeira grande ironia de Marx é trágica: o capitalismo moderno promete a liberdade subjectiva, mas aliena as pessoas delas mesmas. As pressões da sociedade de mercado distorcem o indivíduo, convertendo-o em máquina de dinheiro (algumas dessas máquinas geram bem mais dinheiro do que outras). Mas descobrimos que os trabalhadores têm o poder de superar a sua alienação, graças à segunda grande ironia de Marx, que é cómica. No “Manifesto”, escreve: “A burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção e, com isso, as relações de produção, e, com elas, todas as relações da sociedade. […] O revolucionar constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a incerteza e a agitação duradouras distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e congeladas […] são varridas e todas as recém-formadas se tornam antiquadas antes de conseguirem ossificar-se. Tudo o que é sólido desmancha-se no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é forçado a enfrentar […] as suas verdadeiras condições de vida e as suas relações com os outros homens”. O capitalismo é o único sistema social que oprime as pessoas de uma maneira que realmente as torna mais fortes e mais inteligentes. Crescendo e tentando viver em meio à perturbação ininterrupta, à incerteza e agitação constantes, com tudo a desfazer-se no ar, todos os trabalhadores ganham uma educação gratuita e obrigatória naquilo que a velha gíria americana chamava de “a escola dos golpes duros”. Que os trabalhadores se organizem, que criem sindicatos radicais não é apenas uma vitória política mas uma vitória da subjectividade.

Nostalgia iluminista
Parece existir, entre os intelectuais chineses de hoje, uma grande melancolia e nostalgia do demasiado breve “Iluminismo” chinês, desde a queda do Bando dos Quatro [grupo de líderes do Partido Comunista Chinês preso após a morte de Mao e apontado como responsável pela violência durante a Revolução Cultural] até às grandes manifestações da Praça Tiananmen e um sentimento de amargura sem esperança em relação à repressão ao pensamento ocorrida após o massacre de Tiananmen. O que tudo isso tem a ver com Karl Marx? O “Manifesto Comunista” inclui duas sentenças incisivas que nos ajudam a perceber a relação. “A burguesia”, diz Marx, “destituiu do seu halo todas as ocupações anteriormente honradas e vistas com respeito reverente. Converteu o médico, o advogado, o sacerdote, o poeta, o homem de ciência nos seus assalariados pagos”. Segundo essa visão, os intelectuais continuam presentes, mas foram rebaixados, incapacitados, destituídos das suas habilidades, afundados no proletariado, onde sobrevivem vendendo os seus cérebros para finalidades puramente técnicas. Para Marx, porém, reconhecer-se como proletário, como membro da “moderna classe trabalhadora”, é apenas o primeiro capítulo numa história dialéctica. Na sua narrativa, assim como nalgumas das maiores obras da literatura mundial (“Édipo Rei”, de Sófocles, “O Rei Lear”, de Shakespeare), o herói é atirado do topo da sociedade para o seu patamar mais baixo – e então reergue-se. O homem que é “destituído do seu halo”, do seu poder sobre as velhas ideias, desenvolve o poder de gerar novas ideias. Ser “proletarizado” é um destino terrível. Mas o capitalismo possui o poder irónico de oprimir as pessoas de uma maneira que as torna inteligentes e fortes. Assim, o intelectual que é expulso da sua classe pode aprender uma nova maneira de enxergar a sociedade como um todo, de estabelecer conexões entre seres humanos que possuem um horizonte mais amplo e mobilizam emoções mais profundas do que os banqueiros e burocratas são capazes de conceber. Quando ele “reforma a sua cabeça”, alimentando a sua subjectividade ferida, pode aprender uma nova solidariedade com outros sujeitos tão feridos quanto ele. Eles podem imaginar um mundo em que “o livre desenvolvimento de cada um é a base do livre desenvolvimento de todos”. Será que eles podem realmente criar um tal mundo? Será que alguém pode? Não sei. Mas o poder de pelo menos imaginar um mundo em que as pessoas sejam sujeitos livres juntos, em lugar de máquinas de gerar dinheiro, é capaz de alimentar e enriquecer o mundo em que vivemos hoje. No momento em que a China se recobre de máquinas de fazer dinheiro, a história de Karl Marx na China pode estar apenas a começar.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias, Nuno Ramos de Almeida and tagged , . Bookmark the permalink.

17 Responses to O regresso do espectro

Os comentários estão fechados.