A grelha queimada

Em vez do cepticismo melancólico dos “Vencidos da Vida” agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos “convencidos da vida”.

A «Geração Rasca» está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo — este mesmo onde escrevo — trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o Público, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano. Ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores “junior”, ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que se fôssemos a olhar mais de perto descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de “terra queimada” na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da “geração rasca”, José Mariano Gago.

Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de “enquadramento” (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de “grelha de leitura”. Ora acontece que quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da “terra queimada”. Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? O cérebro baralha-se e recusa-se a acreditar.

E é por isso também que eu insisto em dar destaque a esta notícia e outras como ela, porque os factos que contradizem a grelha de leitura dominante precisam de poder cumprir o seu papel de antídotos. Antídotos, reparem: a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso —, mas que há coisas boas que demoram tempo a acontecer, investimentos que já estão a dar certo e uma progressão que se arrisca a ficar pelo meio do caminho se a grelha da “terra queimada” não tiver contraditório. Aquilo que eu quero, no fundo, é que a próxima geração possa ser também tão rasca, mas tão rasca, que publique mais ainda na Nature e na Science do que esta.

Seria interessante perceber de onde vem esta ideologia da “terra queimada”. Desde logo, é importante notar que ela não tem nada de original: desde a Antiguidade Clássica que falar da decadência dos saberes e dos valores é um lugar-comum, uma versão intelectual da “queda do paraíso” bíblica. No Ocidente esta tendência é reforçada pela trajectória hoje crescentemente conservadora das gerações dos anos 60 e 70. E o que é ser conservador senão considerar que o futuro é, com toda a probabilidade, pior do que o passado? (Este é o momento em que os extremos se tocam e os conservadores estão de acordo com Rousseau, mas suspeito que esta evidência tampouco possa penetrar em certas grelhas de leitura). Por razões históricas que seria complicado resumir, Portugal tem aspectos reforçados das duas tendências: a decadentista que teve o seu auge no século XIX, e a reviravolta conservadora da geração do 25 de Abril, que se nota não só nos que navegaram até à direita mas até nos que ficaram à esquerda. O problema é que em vez do cepticismo melancólico dos “Vencidos da Vida” agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos “convencidos da vida”.

Os efeitos destas tendências não se fazem apenas sentir nos debates sobre educação. Um exemplo especialmente evidente está na relação entre colunistas da imprensa e blogosfera (a distinção entre ambas é de base tecnológica, mas o debate também se faz sob um pano de fundo geracional). Vejamos alguns casos recentes, começando pela acusação de plágio (quanto a mim, e parece que à maioria das pessoas, perfeitamente infundada) que um blogue anónimo fez a Miguel Sousa Tavares. Esta acusação foi entendida como sintoma de uma espécie de doença crónica da blogosfera. Num editorial do Público, José Manuel Fernandes sugeriu que a blogosfera teria de fazer um esforço colectivo para se limpar destes maus exemplos. A intenção, por boa que fosse, parte de uma incompreensão de base do que é a blogosfera, um meio descentralizado e avesso a hierarquias, onde o máximo que cada blogue pode fazer para corrigir os outros é o que já faz: escrever sobre o assunto. Tudo o mais seria como pedir ao “Jornal de Letras” que se responsabilizasse pelo que escreve “O Crime”, ou à “Nova Cidadania” que tomasse conta daquilo que sai na “Sexus”.

Em casos como estes, não há blogosfera nem imprensa, há blogues e pessoas bem-intencionadas e credíveis e outras que não o são. E Miguel Sousa Tavares tampouco deu um bom exemplo ao responder com acusações genéricas a “um bloguista bloquista” ou a um “escritor frustrado obcecado com plágios” — acusações que não quis concretizar e que lançam suspeitas sobre pessoas individuais. O que vem provar que também na imprensa há quem não saiba cumprir com as regras básicas de enunciação e confirmação de factos. O mesmo se pode dizer da recente incursão de Eduardo Prado Coelho em território blogosférico, acusando de anonimato um blogue assinado por Luís Pedro Coelho [http://blog.luispedro.org] ou descrevendo como “aparvalhado” o estilo de um dos mais sérios bloggers nacionais, Luís Aguiar-Conraria [http://aguiarconraria.blogsome.com/]. Na resposta de Aguiar-Conraria, Eduardo Prado Coelho deve ter descoberto aquilo que Vital Moreira, Vasco Pulido Valente, Constança Cunha e Sá e até José Pacheco Pereira já descobriram: que a blogosfera dá luta e, de caminho, nos prova que afinal Portugal tem mais gente, mais bem informada e mais empenhada do que aquilo que se pensava.

Numa velha canção dos anos 60, Georges Brassens satirizava este tipo de debates explicando que “le temps ne fait rien à l’affaire, quando on est con, on est con”. Traduzindo e adaptando, quer dizer que esta não é uma questão de tempo, de geração ou sequer de tecnologia — quando se é aparvalhado, é-se aparvalhado. Há gente que precisa de voltar a ouvir esta música antes de lançar os seus anátemas — e, curiosamente, os que mais parecem precisar são os que a conheceram logo na altura em que ela saiu.

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