As mil faces do Prof. Marcelo

Eu nunca tinha percebido muito bem porque obscura razão o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, qui excelle dans l’art de la politique à la florentine, insistia em impingir ao público outra coisa que não isso nas suas charlas televisivas. O público a querer ouvi-lo dizer mal do Dr. Santana Lopes – e ele a falar de bailado; o público a querer ouvi-lo assassinar o Dr. Portas – e ele a falar de livros; o público a querer ouvi-lo elogiar o Eng.º Sócrates – e ele a falar de desporto. Nunca ninguém, na RTP ou na TVI, se lembrou de lhe dizer que não era para isso que lhe pagavam? O exercício depois prolongou-se, primeiro n’ “A Bola” (onde o Prof. Marcelo “deu a táctica” durante todo o Mundial) e agora no “Sol” (onde ele oferece um diário insípido e algo ridículo, valha a verdade, da sua existência, em vez da politiquice que o público pede). Porquê, Professor? Eu julgava que era um erro dele – mas isso, afinal, era um erro meu. Segundo concordam diversas fontes bem informadas, o Prof. Marcelo quer voltar a sentir the sweet taste of power e, apoiando-se na evidência de que a direcção do Dr. Marques Mendes não passa de um intermezzo que ninguém imagina longo, prepara um regresso à política activa. Aparentemente, os seus altos e indisputados dotes intelectuais não lhe terão ainda permitido alcançar aquilo que a maior parte dos espíritos mais simples já percebeu faz muito tempo, isto é, a incompatibilidade entre o brilho e a inconstância do Prof. Marcelo e a chateza sisuda que caracteriza os negócios da governação. Sucede que, apesar dos beijinhos das avozinhas que o descobrem na rua poderem eventualmente iludi-lo e convencê-lo do contrário, o país vê o Prof. Marcelo como um “queque” em que não se reconhece e um tipo esperto demais para merecer a sua confiança. Infelizmente para ele (e para nós, que temos de ficar a conhecer o “homem” que há por detrás do político), o Prof. Marcelo não acredita em nada disso e insiste em “revelar-se” ao país em que aspira a mandar. Preparem-se, pois, para o pior.

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SEXTA | António Figueira
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