O corpo da política

Li há poucos dias no site da BBC que um prof. da minha saudosa L.S.E. tinha concluído que, dentro de 100.000 anos, a humanidade se dividirá em duas: de um lado, os descendentes das classes possidentes, altos e belos, e do outro os filhos e netos dos desapossados, pequeninos e com mau aspecto. Diz o Prof. Curry (sim, é esse o nome dele) que, até ao ano 3.000, a humanidade vai evoluir em conjunto e para melhor: fruto da inevitável lei da selecção das espécies, os homens serão mais másculos e dinâmicos e terão pénis mais longos, enquanto as mulheres terão peitos empinados, peles macias e cabelos sedosos como nos anúncios; todos viverão mais anos e as diferenças de cor da pele esbater-se-ão por via de uma mestiçagem colectiva, que dará origem a uma humanidade generalizadamente morena. Depois do ano 3.000, diz o nosso evolucionista, é que a cisão começará a produzir-se, entre os ricos que viverão na dependência da tecnologia e os pobres que continuarão a usar o músculo para que essa tecnologia seja possível. O processo será longo, mas no final a humanidade que conhecemos hoje terá cessado de existir e no lugar das antigas classes sociais haverá duas espécies animais diferentes – e o us and them da política passará a ter também um significado biológico.

Eu confesso a minha admiração por gente que consegue prever o sistema social dominante daqui a trinta séculos e fazer prognósticos sobre história humana nos ciclos longos da história natural. Provavelmente (o Prof. Curry que me perdoe), tudo isto não passará das confabulações de um evolucionista lunático, mas ainda assim reconheço-lhe um poderoso efeito sugestivo – como aquele que a “Máquina do Tempo” teve sobre mim quando a li há mais de trinta anos, numa velha edição da “Estúdios Cor” – porque, projectando como o livro de H.G.Wells a luta de classes no último horizonte possível, que é o da desumanização dos explorados, ilumina a relação que sempre liga a política à biologia, recordando que, em última instância, as formas de dominação política se exercem fisicamente, sobre o corpo de cada um.

O conceito foucaultiano de “bio-política” (que antecede e sugere o de Toni Negri, embora não se confunda com ele), vai obviamente muito mais longe do que isto e designa um conjunto de procedimentos, historicamente situado e desenvolvido no quadro de uma determinada racionalidade política e económica, destinado a gerir industrialmente, não só, e como até aí, os indivíduos considerados de per se,  mas a população tomada no seu conjunto, no quadro de políticas da sexualidade, da saúde, da natalidade, etc.; mas mesmo possuindo um sentido muito mais preciso que o de simplesmente afirmar a ultima ratio biológica da dominação política, o conceito de Michel Foucault requer ainda assim como ponto de partida a evidência desta relação – que uma análise ética rigorosa da política sempre exige que seja explicitada.

O “caso Casa Pia” é uma ilustração notável da relação a que faço referência: temos aqui presentes o ser biológico cuja existência é absolutamente determinada pela condição social do nascimento (que a ordem política sanciona), a violência que paira sobre a criança que nasce no sítio errado e é inerente à própria ideia de infância desvalida, e finalmente a sua consumação de um modo inultrapassavelmente simbólico: aqueles menores foram confiados à guarda do Estado português, do nosso Estado incapaz e injusto, que na melhor das hipóteses lhes daria uma infância e uma adolescência a todos os títulos pobres, mas na pior, que se verificou, permitiu mesmo a violentação dos seus corpos por quem pôde e quis – e a violência sexual a que esses menores foram sujeitos é a expressão simbólica suprema da violência latente a que os seus corpos estavam sujeitos em razão somente da sua origem social.

O que há de pior, de mais repugnante na ideologia vulgar que se destila a propósito do “caso Casa Pia” e de outros semelhantes é a insinuação da cumplicidade dos menores em causa: não foram as condições sociais da sua existência que fizeram deles vítimas; foi a sua própria perversidade, presume-se que inata. Este discurso (que tende caracteristicamente a obscurecer a verdadeira relação entre a política e a biologia) procura estabelecer que o “outro”, o que não nasceu como nós, não partilha da nossa humanidade – como se aqueles que tiveram infâncias almofadadas e se atrevem a fazer considerações sobre as virtudes morais dos pensionistas dos orfanatos portugueses pertencessem a uma humanidade merecedora de algum respeito.

Eu não sei se Raymond Aron, que assumia a sua condição de judeu, era para além disso um homem de fé; em qualquer caso, para todos os bem-nascidos sempre prontos atirar a primeira pedra e (em casos como o da Casa Pia) mais dispostos a condenar as vítimas, por puro preconceito, do que os culpados, foi ele que escreveu, creio que a propósito de Durkheim e das suas fantasias sócio-religiosas, que a adoração da ordem social é a própria essência da impiedade.

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SEXTA | António Figueira
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