Ainda as touradas e o aborto

O artigo de Francisco Sarsfield Cabral sobre ecologia e aborto publicado no DN de sábado passado é modelar: do ponto de vista da forma, adopta a atitude e o tom que me parecem certos e são os únicos que tornam possível um debate civilizado antes do próximo referendo sobre a despenalização do aborto; do ponto de vista do conteúdo, procura, com inteligência táctica, que a penalização do aborto não seja vista como um anacronismo, mas como um sinal de uma nova consciência, que impõe o respeito pela vida sob todas as suas formas (incluindo a intra-uterina) e em que as preocupações ecológicas se inscrevem também. A tese não me convence (a legislação portuguesa sobre o aborto é objectivamente um anacronismo em termos europeus, e quanto mais depressa nos virmos livres dela melhor, o tema do próximo referendo não é a bondade do aborto em si, mas apenas a questão de saber se quem o pratica deve correr riscos de vida e incorrer em penas de prisão, e o invocado “princípio da responsabilidade”, de Hans Jonas, pouco mais aparenta ser do que uma versão actualizada da célebre aposta de Pascal, que atemorizava como meio de persuadir), mas parece-me apesar disso altamente merecedora de reflexão: fossem todos os artigos, pelo sim e pelo não, tão estimulantes como este.

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SEXTA | António Figueira
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