Jorge Palinhos: O Jornal da Paróquia

Nos últimos dias, tem-se falado de Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), por lidar com um protesto contra a privatização da gestão de um teatro municipal, cortando a luz, impedindo o fornecimento de alimentos aos ocupantes e colocando o ar condicionado do teatro na sua máxima força.
Para os mais distraídos: a gentileza nunca foi apanágio de Rio. Como exemplo, tome-se a visita relâmpago que uma delegação do IPPAR fez em meados do ano passado ao Túnel de Ceuta, a meio da polémica que opunha este instituto à câmara. No decurso da visita, um grupo de “populares” parece ter “reconhecido” o grupo de pessoas como sendo do IPPAR, e “espontaneamente” desatou a insultar e ameaçar a delegação, forçando-a a retirar-se. Sem dados conhecidos de que os funcionários do IPPAR sejam uma espécie alienígena ou de que a delegação transportasse consigo um letreiro em néon a identificá-la como tal, permanece até hoje como mistério insondável quem terá informado aquela “população”, como lhe chama o site institucional da CMP, de quem seria tão discreto grupo.
O site institucional da Câmara é, aliás, um magnífico exemplo da acção da autarquia portuense.
Alvo de numerosas críticas em jornais e colunas de opinião, www.cm-porto.pt é sem dúvida o mais original e peculiar site institucional português. Pois, se de um site institucional autárquico se esperam informações úteis, contactos, serviços e alguma publicidade às actividades da câmara, o site www.cm-porto.pt é, mais do que tudo o resto, um verdadeiro campo de batalha onde se trava um luta sem quartel contra a liberdade de imprensa. Disse liberdade de imprensa? Perdão, queria dizer, contra as inverdades, meias verdades e falsidades que toda a imprensa mundial e alguma imprensa marciana dirigem contra Rui Rio.
Tome-se o exemplo de um caso em que, perante a recusa do Jornal de Notícias em publicar um desmentido da Câmara, o site não responde nada menos que afixando um cartaz do 25 de Abril.
Já noutra “notícia” sobre a recusa dos directores do Público e JN em publicarem desmentidos da câmara, o site brinda-nos com um vigoroso e indignado “SEM COMENTÁRIOS!” (com direito a maiúsculas e ponto de exclamação, para o caso de não percebermos que a “notícia” não faz MESMO! comentários).
O JN é, aliás, a grande mascote do site. A propósito da cláusula que obriga as pessoas e instituições que recebem apoios camarários a calarem toda a crítica à autarquia – correcção (ou como diria o site cm-porto.pt CORRECÇÃO!): não é toda e qualquer crítica, mas toda e qualquer crítica que diga respeito à área em que a pessoa ou instituição recebeu o apoio. Ou seja, se o sr. Joaquim receber um apoio menor do que lhe foi prometido para limpar os passeios dos dejectos canídeos, não pode ir queixar-se aos jornais, mas se, saiba-se lá porquê, o sr. Joaquim se lembrar de ir queixar-se aos media de um assunto sobre o qual não tem relação, nada percebe e não tem nenhuma informação relevante e, na hipótese imaginária de algum jornalista achar que a sua opinião interessa, ah, então já pode! (digo: ENTÃO JÁ PODE!)
A propósito de um editorial do director-adjunto do JN, David Pontes, que criticava esta mesma cláusula, não só o site entende emendá-lo com tal preciosismo, como ainda resolve meter a esposa daquele ao barulho. Cito:

“Para além de Pontes, também a sua mulher, Carla Miranda(…), aparece, na mesma edição de hoje do jornal dirigido pelo marido, a criticar a política cultural da autarquia. (…)A actriz das «Boas Raparigas», que foi questionada pelo popular matutino para se pronunciar sobre «O estado actual do teatro que se faz no Porto», responde com a habitual crítica à Câmara: «Os nossos pares reconhecem a nossa qualidade artística, mas ao mesmo tempo somos desprezados de forma singular pela câmara da cidade onde trabalhamos».”

O meticuloso cm-porto.pt não nos esclarece se a intervenção da referida senhora surge somente devido a esta ser esposa do director-adjunto do jornal ou se se justifica antes pelo facto de Carla Miranda dirigir um dos principais grupos de teatro do Porto. Também não esclarece se, no entender do site, é necessário ter algum tipo de ligação afectivo-sexual com David Pontes para se ter razão de queixa do executivo camarário, porém é de destacar a subtilíssima ironia que conclui o artigo:

“A mulher de David Pontes não especifica se o problema reside na falta de público ou na falta de subsídios públicos.”

Subtileza que se realça pelo facto de “a mulher de David Pontes” se referir explicitamente à “câmara” e não à “população do Porto”, pelo que se exige do leitor o esforço adicional de sinonimizar “Câmara Municipal do Porto” com “população do Porto”. Ora esta sinonimização causa-me algum embaraço pois no anterior artigo sobre as agressões ao IPPAR também se sinonimizava “população” com “bando de arruceiros”.
Isto preocupa-me. Não só, pelos vistos, como “população” do Porto que sou, me qualificam de arruaceiro, como, não tendo estes artigos qualquer assinatura, logo se presume serem da responsabilidade do executivo eleito do município do Porto, o que me torna a mim, como munícipe, cúmplice da delacção da vida privada de David Pontes. Creio que nem mesmo o Padre Domingos, no boletim paroquial “A Voz da Verdade”, deixaria de assinar o seu artigo de denúncia da gravidez pré-conjugal da menina Alzira, nem que fosse como “O fiel justiceiro”.
Ainda noutra notícia, sobre o Público desta vez, onde Mário Mesquita, Manuel Pinto e Gomes Canotilho criticam o site, o cm-porto.pt não nos especifica qual a relação civil que cada uma destas personalidades tem para com David Pontes, mas dá-nos mais uma pérola de bom gosto literário:

“Criticar frontalmente opções dos jornais e questionar a sua isenção e competência é, efectivamente, uma matéria virgem no nosso regime e que, no que à CMP diz respeito, tem sido desflorada neste espaço on-line.”

Já a Vasco Pulido Valente (mais uma vez, sem informação se já partilhou cama ou não com David Pontes), que acusa o site de «prosa servil do salazarismo, a pender para o ordinário» o site responde de forma lapidar:

www.cm-porto.pt teve, desde 1 de Janeiro de 2006 mais de 540.000 visitas.”

Eu, infelizmente, devo contar como uma dezena dessas 540.000 visitas, não em busca de notícias da privacidade de David Pontes ou da virilidade cibernética de Rui Rio, somente porque precisava de saber horários e localização dos serviços municipais. E eis que me vejo chamado à colação para testemunhar do elevado gabarito literário e isenção informativa do www.cm-porto.pt!
Julgo, porém, no meio de tudo isto, ter encontrado explicação da paranóia de que acusam Rui Rio. É que, num mundo por onde já passaram e deixaram marca na política personalidades como Demóstenes, Aristóteles, Cícero, Maquiavel, Montaigne, Locke, Voltaire, Jefferson, entre outros, não deve ser fácil ser o último ainda a praticar a política de urros e exibição de genitália.

Nota: Não conheço nem nunca tive qualquer contacto íntimo com David Pontes. Que eu saiba.
Links para os artigos citados e outros da mesma índole:
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1926
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1893
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1465
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1872
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1852
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1816
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1776
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1766
http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&ID=1637

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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4 respostas a Jorge Palinhos: O Jornal da Paróquia

  1. Andrew diz:

    “Nota: Não conheço nem nunca tive qualquer contacto íntimo com David Pontes. Que eu saiba.”

    eh eh eh he eh he eh he funnyyyyy! 🙂

  2. Andrew diz:

    It was a pleasure visiting you nutters!! Going back home…work…work work! When in London, give me a ring-rong. lata Z

  3. eufrásia diz:

    Este André é cá um snob…mother fucker

  4. José Mexia diz:

    Desculpe lá, mas como é que se corta a luz e coloca o ar condicionado no máximo. Quero comprar um igual.

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