Holocausto,judeus, arménios e ortografia

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(Trinta anos antes da fundação do Estado de Israel, foi fundada a República Soviética dos Judeus do Birobidzhan)

Numa altura em que muita gente contesta a criminalização daqueles que negam em França o genocídio dos arménios, é interessante reler um texto de Jacques Rancière sobre a discussão do holocausto, publicado em 2001, na Folha de São Paulo. O texto é tão polémico que o tradutor para português adulterou o original. Sempre que Rancière escreveu “holocausto” com minúscula, o esforçado tradutor, ou o editor de turno, passou para “Holocausto” com maiúscula. A ideia de Rancière é que esta operação ortográfica significa a colocação do genocídio do judeus fora do tempo histórico: no domínio do mal absoluto, relativizando assim outros massacres, e, correlativamente, conseguindo colocar para além de qualquer julgamento humano o comportamento do Estado de Israel. Acho, sinceramente, que aqueles que subalternizam a morte dos arménios, em relação à morte dos judeus, incorrem no pecado de racismo: o mesmo que permite ver, à hora do jantar, a morte de sudaneses e ruandeses com um infinito tédio, e reservar momentos de indignação quando são vitimados europeus ou norte-americanos.
Pessoalmente, tendo a não estar de acordo com a lei francesa, como não estou de acordo com leis que criminalizem opiniões, por mais imbecis ou fascistas que sejam os opinadores. Mas basta ler os textos do Público, para perceber que grande parte daqueles que contestaram a lei francesa são aqueles que qualificam qualquer opinião diferente de anti-americanismo ou de anti-sionista.
Segue o texto de Rancière, corrigida a tradução, segundo a versão do livro do autor: “Chroniques Des Temps Consensuels”. Sempre que Rancière escreveu “holocausto”, sairá assim, tal e qual.
A nova discussão do holocausto

Jacques Rancière

Uma atmosfera de escândalo paira sobre as recentes obras de Peter Novick (“The Holocaust in American Life”, O Holocausto na Vida Americana, ed. Houghton Mifflin Co., EUA) e de Norman Finkelstein (“A Indústria do Holocausto”, ed. Record). A segunda, em particular, já desencadeou nos Estados Unidos e na Inglaterra, e depois na Alemanha e na França, uma violenta polémica. Eis aqui um judeu, filho de sobreviventes de Auschwitz, que denuncia, com a mais extrema violência, a exploração política, ideológica e financeira do genocídio pelas grandes organizações judaicas. A essa virulência respondeu uma reacção veemente de rejeição, e o autor foi acusado de negacionismo. Acusação caluniosa, responde ele: um negacionista é alguém que nega a existência do holocausto. Ora, de sua parte, ele afirma resolutamente a existência do holocausto, com h minúsculo, como facto histórico. Denuncia, em compensação, o Holocausto com H maiúsculo, seja a elaboração ideológica do holocausto como acontecimento único, incomparável a nenhuma outra forma histórica de massacre ou de genocídio, especificamente ligado ao ódio ancestral dos gentios contra os judeus, seja como justificativa de um apoio incondicional ao Estado de Israel e à sua política -isto é, também ao Estado federal norte-americano, purificado com esse apoio de toda mácula em relação a índios ou negros da América, tal como a crianças vietnamitas queimadas com napalm ou crianças iraquianas esfaimadas. Se essa resposta pouco satisfez aos contraditores é porque, precisamente, a questão negacionista pôs a descoberto o que há de problemático na simples distinção entre os factos e as interpretações dos factos. Um facto histórico é constituído como tal pela interpretação que liga de uns aos outros uma multiplicidade de factos materiais. Um dos pioneiros do negacionismo, o francês Paul Rassinier, ele próprio sobrevivente do campo de Buchenwald, fornecera, nos anos 50, a primeira demonstração disso. Ele não negava as selecções regulares nos campos nem a presença das câmaras de gás. Apenas punha em dúvida o nexo entre esses dois factos. Estava mesmo disposto a aceitar a ideia de que houve, efectivamente, mortes por asfixia. Apenas punha em dúvida a dependência delas a uma vontade planificadora global. Podemos dizer que os documentos reunidos desde então fizeram jus a essas argúcias. Mas, se o negacionismo ainda perdura e se podemos hoje acusar de negacionismo mesmo alguém que reconhece a realidade do extermínio nazista dos judeus da Europa, é porque o traçado da fronteira entre os “factos” e as “interpretações” é infinitamente mais sinuoso do que parece à primeira vista.

A causa primeira
Onde situar a fronteira que permite declarar o facto constituído como tal, em sua auto-suficiência, e considerar todo nexo suplementar como uma interpretação extrínseca? Se a polémica sobre a excepcionalidade do massacre dos judeus parece interminável, é porque duas exigências contraditórias se defrontam aqui. Para que o holocausto seja reconhecido como um facto indiscutível, é preciso que seja isolado em sua brutalidade factual, fora de todo o debate interpretativo sobre as razões que o puseram na ordem do dia nazista. Mas, para que seja reconhecido como realidade de holocausto anti-judeu, é preciso inversamente que a interpretação remonte a uma causa primeira, a uma razão necessária e suficiente, que assegure que foi, de facto, uma vontade original de extermínio dos judeus que foi posta em aplicação nos campos da morte. Mas onde fixar essa causa primeira? O delírio único de um chefe de Estado ou de um grupo fanático não constitui uma razão necessária. Esta é identificada então pelos teóricos da singularidade radical do holocausto ao velho ódio dos gentios contra os judeus. A realidade do holocausto é posta assim como indissociável de uma determinada interpretação. Mas aqui retorna o argumento: por que esse ódio antigo e universal assumiu somente nesse país e nesse momento essa forma específica sobre a qual sabemos, aliás, que também foi aplicada a outras categorias de “degenerados”: doentes mentais e ciganos? A dialéctica do facto e da “intenção” ameaça então desdobrar-se ao infinito, pondo em xeque a intenção própria daquele que se detém em tal ou qual ponto da cadeia de nexos. O livro de Finkelstein denuncia assim, na tese do ódio imemorável, uma submissão dos fatos a uma interpretação interessada. Vincular o holocausto a uma vontade exterminadora impossível de erradicar é para ele justificar, em todos os aspectos, a política de auto-conservação do Estado israelita e a política de apoio americano. Mas o que ele opõe ao cenário do holocausto que denuncia não é a simples nudez dos fatos; é um outro cenário interpretativo, o cenário clássico da suspeita, que se indaga a razão oculta pela qual se fala tanto de tal facto e de tal sofrimento e que conclui invariavelmente que é para ocultar outros factos. O “Holocausto” transforma-se assim, no seu discurso, na cobertura e no abrigo com a qual Israel perpetua a espoliação dos palestinianos, enquanto os EUA podem esquecer os massacres e as injustiças que marcaram sua história. Mas a suspeita sobre a “intenção” logo se volta contra ele: pôr em relação os mortos do holocausto não mais com as causas do massacre, mas com os índios americanos exterminados ou os vietnamitas bombardeados é submeter os factos a um cenário de comparação que os dissolve na longa história das atrocidades humanas, na qual tudo se equilibra e se equivale. E, no coração desse cenário, o que se manifesta é a intenção de enfraquecer a posição moral de Israel diante dos palestinos.

Tradição interpretativa

Mas tão logo o problema é posto, tem início uma troca de argumentos inverificáveis entre partidários de Israel ou da Palestina. Essa interiorização da querela do negacionismo remete a dois fenómenos intelectuais mais profundos. Trata-se primeiro do desdobramento de nossa ideia de realidade. A prova do real se faz duplamente: pela inserção dos fenómenos num encadeamento de causas e efeitos e, ao contrário, pelo seu carácter bruto, sem razão.
Se essa dualidade está no coração do conflito teórico sobre o holocausto, é, claro, porque o processo mesmo de extermínio e o apagar programado dos vestígios reclamaram o longo desvio da reconstrução argumentativa para impor a realidade dos factos. E é também porque a impossibilidade de atribuir uma relação necessária e suficiente põe em questão a racionalidade dos fenómenos políticos e sociais.
É evidentemente sintomático que os ataques presentes contra a “indústria do holocausto” venham de um judeu marxista norte-americano. Este se apresenta como uma espécie de último dos moicanos, alguém que permaneceu fiel à tradição progressista que foi, nos Estados Unidos, a dos imigrantes judeus. Mas não é somente uma tradição política que ele reivindica. É antes uma tradição de interpretação: aquela que liga os fenómenos políticos e ideológicos a suas causas sociais e os fatos locais, qualquer que seja a singularidade ou enormidade, ao emaranhado global de causas e interesses. A discussão sobre o holocausto põe em xeque a validade das explicações globalistas de tipo económico-social, às quais se vê oposto um irracional irredutível: seja aquele dos fatos brutos, seja aquele do ódio primordial que lhe dá causa. O que há no pano de fundo do furor de um marxista judeu norte-americano contra seus pares é essa situação ideológica singular, na qual as novas formas radicais da dominação mundial são acompanhadas de um interdito pronunciado sobre as formas de explicação globais que com elas se pretendem medir.
A partir disso, é possível compreender a temporalidade singular do facto consumado, segundo a qual o facto do holocausto se impôs como ruptura histórica. Novick e Finkelstein lembram como o holocausto estava pouco presente na consciência ocidental depois de 1945 e atribuem à guerra árabe-israelita e à vitória israelita de 1967 a reviravolta do espíritos. Porém foi ainda mais nos anos 90 que se impôs a visão do holocausto como divisor de águas da história do mundo. Claramente essa ruptura retrospectiva marcava o luto de uma outra ruptura da história do mundo, esta chamada revolução, e cujos últimos avatares ruíram na queda do império soviético e na esperança frustrada de ver nascer de suas ruínas uma democracia regenerada.
É nesse contexto que a irredutibilidade do holocausto se tornou a recusa emblemática do pensamento marxista da história: da história como racionalidade global dos fatos históricos e como temporalidade orientada por uma promessa de emancipação. A invocação do “imemorável” ódio dos gentios contra os judeus e da impossibilidade, depois de Auschwitz, de pensar e viver como antes, é coisa totalmente diversa do argumento interessado denunciado por Finkelstein. Ela opera uma reviravolta emblemática da direcção do tempo, opondo às promessas do futuro que guiava os pensamentos da emancipação a hipótese de um passado imemorial, que não acaba de passar.
Se a explicação entre os partidários da excepcionalidade do holocausto judeu e aqueles que querem integrá-lo no grande entrelaçamento histórico e mundial de causas é tão violenta, é porque ela põe frente a frente dois avatares de certezas militantes e da expectativa histórica de ontem. Ela opõe aqueles que devolveram a grande promessa na forma de um passado imemorial e aqueles que querem mantê-la em vigor mesmo que ela seja de simples furor argumentativo. A discussão sobre o holocausto é também um luto do pensamento revolucionário. Eis porque o simples conhecimento dos factos está, sem dúvida, longe de liquidar a querela das intenções.

Jacques Rancière é professor da Universidade de Paris 8 (França)

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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