Os que me saíram na rifa

O Nuno Ramos de Almeida já me tinha avisado que, no escuro da net, as mais suaves criaturas se transformavam em temíveis ogres.

Por eu ter dito e repetido que a presunção de culpa atribuída a posteriori às vítimas do tiros da GNR pelo título do “Correio da Manhã” era lamentável, e que todo esse episódio era mais próprio de um Estado policial que de um Estado de direito, um estimado comentador achou por bem dizer que percebia muito bem que aquilo que os “Antónios Figueira” (sic) desta vida queriam era desmoralizar a polícia para melhor destruírem a nossa querida sociedade, porque do que eles gostavam mesmo era da Albânia do falecido Enver Hoxa… Enver Hoxa! O que hei-de eu dizer – eu, que sempre achei que o “Tomé ao Parlamento!” dos pró-albaneses de outrora era assim uma variante pobrezinha do Coq au vin e do Canard au Porto!… Depois foi uma senhora que alta noite me escreveu cinco-comentários-cinco de rajada, a chamar-me agora “revisa” e “social-fascista”, e ficou muito amofinada quando eu lhe disse que à próxima lhe apagava os comentários; e finalmente um blogue de que eu nunca tinha ouvido falar mas que pelos vistos me conhece chamado “O Insurgente”, que diz que eu sou de “extrema-esquerda” (?) porque, entre outras maldades, questiono a existência, a par dos cadastrados, da categoria dos “referenciados policiais” – que nunca foram condenados por tribunal nenhum, mas que as “fontes policiais” do CM indicam como justificação póstuma (no verdadeiro sentido da palavra) para a bravata nocturna da GNR do Porto… Permitem que me cite a mim próprio? Então aqui vai, com ligeiras adaptações: “Agora um ponto importante: a diferença entre direita e esquerda continua a fazer todo o sentido, mas não é para aqui chamada; no plano das ideias, a grande diferença (que não se sobrepõe senão tendencialmente à anterior) é a que opõe o obscurantismo às luzes; ora comentários como estes são simplesmente obscurantistas – e bem poderiam os seus autores defender o fim do Estado e a felicidade geral que continuariam a ser, objectiva e lamentavelmente, um bando de reaccionários”.

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SEXTA | António Figueira
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6 respostas a Os que me saíram na rifa

  1. zazie diz:

    o teu único problema é seres um tosco. O primeiro grande bimbo esquerdalha a aparecer na blogosfera

    “:O)))

    Isto é apenas uma anedota para se brincar nos intervalos. Que outra coisa podia ser um blogue onde se editam, cortam e rasuram os comentários das pessoas?

  2. zazie diz:

    É claro que se uma pessoa vem a um blogue e tenta mostrar a equivalência de fabricação ideológica da palavra “facho” com a de “revisa” ou “social-fascista” e apanha com um grunho que desta logo a ameaçar que vai apagar comentários que é que acontece. Toma o estamine por uma barraquinha de feira! É mais que óbvio. Não é coisa que entre sequer na “noção de blogosfera”.
    É uma palhaçada. Editam-se comentários. Altera-se o que o que é escrito por quem se recebe. Ameaça-se cortar o pio porque o apertadinho de serviço tem medo que se gastem.

    Perante uma palhaçada destas, que ainda manda indirectas na primeira página enquanto age que nem Pide nos comentários só resta calçar as galochas por causa do esterco e mandar uma bolada na fronha do palhaço mais feio que lhe saiu na rifa

  3. António Figueira diz:

    É claro que estes magníficos comentários não podiam ser apagados (muito obrigado, zazie, pelo seu esclarecedor contributo).

  4. cláudia diz:

    que virulência despertou o tenebroso título do CM, meu caro António Figueira!

    lá vão os tempos do dirty harry, agora temos a série 24h onde a terroristas temíveis e políticas corruptas se opõe o herói que não hesita em abater a seco, ou a torturar a frio, qualquer suspeito que se perfile na sua linha de pensamento…

    e que melhor haverá do que esse obscurantismo de que falas para, servilmente, se manter o enquadramento dos actos de uma sociedade que, por medo (mas não só), prefere abdicar dos direitos construídos no século xx?

    no final de contas, também foi assim que salazar manteve o seu fascismo pobre, mas insidioso e torpe, isolando-nos dos processos múltiplos de um mundo efervescente que se reconstruía no pós-guerra.

    nesta era em que o isolamento já não é possível, resta a essa “propaganda”, disfarçada de personal trainer, de gestor de fortunas, de relações públicas, de heróis justiceiros, ou de bloggers fundamentalistas… os tais que não hesitarão em decidir se somos ou não os maus da fita.

    ps – e quanto à moderação dos comentários, e se me permites a opinião, sê acima de tudo ético. the ethics is the aesthetics of the future, lá dizia a laurie anderson nos anos oitenta.

  5. cláudia diz:

    que me perdoe a laurie anderson pela citação mal informada.
    correcção interessante (após consulta da revista Musician, abril de 1984)

    ethics is the esthetics of the few, of the few, of the few… ture

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