O angelismo americano

Este fim-de-semana passou na Sic-notícias um “60minutes” recente em que é feito um perfil de Condoleezza Rice por Katie Couric, a nova starlet do jornalismo americano. É, como sempre, uma peça competente, abrangente, e que sem ser propriamente esclarecedora, se deixa ver com facilidade (há uma cópia aqui). O ponto de partida da mini-biografia é a experiência de segregação no Sul dos EUA – Condoleezza Rice vivia em Birmingham, Alabama, quando uma bomba colocada por racistas brancos explodiu numa igreja baptista negra e matou quatro meninas da sua idade – e o ponto de chegada a guerra do Iraque.

É aqui que se torna notório um elemento perturbante da cultura e do jornalismo americanos. Katie Couric — para compensar a complacência dos jornalistas antes da guerra — tenta “apertar” com Condoleezza sobre as mentiras da guerra. Dá para ver (pelo menos de um ponto de vista pouco caridoso como o meu) que o faz sem alma, por razões meramente de obrigação. Mas isso não é o pior. O que é estranho para um olhar não-americano é a maneira como Couric já coloca nas suas perguntas o seguinte pressuposto: mesmo que errando, tudo foi feito com a melhor das intenções. Não poderia ser de outra forma; é inconcebível que pudesse ser de outra forma; a questão, aliás, nem se coloca. Nenhuma mentira, nenhuma torção ao direito internacional, nenhum acto de guerra pode ter tido uma má motivação.

Isto é para lá de pró-americanismo. Não se trata do apoio incondicional que (por exemplo) os nossos bushistas dão aos EUA. É uma coisa diferente, puramente interna, de que nos esquecemos com frequência mas que nos surpreende a cada vez que contactamos com a cultura dominante americana: a ideia de que os EUA são um país inteiramente à parte, que as suas motivações não têm nada a ver com as dos outros países, que o seu coração é puro e as suas intenções são, por definição, as melhores. É chocante pensar nisto, mas para muitos americanos os EUA são um país de anjos.

É uma espécie de adolescência eterna, com os resultados que conhecemos. E que me fez lembrar esta citação de William R. Polk, estudioso de relações internacionais, numa conferência recente sobre a questão iraniana. Eis como Polk, ele próprio oriundo de uma família da aristocracia política americana (ele próprio é descendente de um presidente americano do século XIX, James R. Polk), descreve a relação do seu país com a memória e o mundo exterior:

Como povo, somos muito esquecidos. A história deveria ter-nos ensinado que um poder estrangeiro não consegue ganhar uma guerra de guerrilha. Os britânicos aprenderam-no com os nossos antepassados durante a Revolução Americana e e voltaram a aprendê-lo na Irlanda; Napoleão aprendeu-o em Espanha; os alemães aprenderam-no na Jugoslávia; nós devíamos tê-lo aprendido no Vietname; os russos aprenderam-no no Afeganistão e estão a voltar a aprendê-lo na Tchetchénia; nós estamos a aprendê-lo no Iraque.
Como povo, somos orgulhosos. A nossa maneira é a única maneira. Devíamos ter aprendido que os ricos e poderosos não podem sempre levar a melhor contra os pobres e menos poderosos. […]
Como povo, somos incrivelmente ignorantes sobre o mundo. […] Há muito tempo, o grande satirista americano Ambrose Bierce notou que a guerra era a forma que Deus arranjara para ensinar Geografia aos americanos. Mas provámos ser maus alunos.

Já para atalhar as críticas do costume, direi o que sempre digo sobre o anti-americanismo: que é uma forma de racismo e que deve ser deplorada como qualquer forma de racismo. Isso, contudo, nada tem a ver com olhar atentamente e sem complacência para uma cultura que tem um papel central no mundo e cuja crença no seu excepcionalismo tem sido o principal motor dos acontecimentos internacionais nos últimos anos. A propósito, deixo-vos o vídeo da conferência de William R. Polk na Foreign Policy Association, de onde estas palavras foram retiradas. É um bom resumo, embora alarmista, sobre as opções na mesa para com o Irão. O video está aí abaixo, o texto completo está aqui.

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Segunda | Rui Tavares
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