André Belo: “Não negarás o genocídio” ou, “Não entrarás na União Europeia”

A aprovação na semana passada, pelo Parlamento francês, de uma lei criminalizando o genocídio arménio pelos Turcos Otomanos será talvez uma boa noticia para os arménios de França. Já é muito duvidoso que a causa arménia em geral ganhe muito com ela. Em contrapartida, é uma péssima noticia para os historiadores franceses. Na sequência de outras criminalizaçoes (sobre a escravatura) ou recomendações (sobre o papel positivo da colonizaçao francesa, entretanto anulada) em forma de lei, o novo texto (que precisa de ser ainda aprovado pelo Senado em segunda leitura) coloca uma fundamental reserva à liberdade de investigação. Na altura em que eu, historiador, entrar no arquivo para começar a minha investigaçao sobre a questao, terei deixado (como aprendi na universidade) os meus preconceitos à porta, mas já irei com um mandamento moral terrivel na cabeça. Não negarás o genocidio, sob pena de milhares de euros de multa ou mesmo prisão.

O problema, como em toda a censura, é a porta da interpretação que nunca se fecha. Onde começa um genocídio? A partir de quantos mortos e de que intenções verificáveis? Onde começa a negação do genocídio? E porque não legislar sobre outros genocídios? E porque parar nos genocídios? E se eu negar os piores crimes do estalinismo, não é negacionismo?

Por trás da promoção do reconhecimento, para alguns eventualmente bem intencionado, de horrorosos crimes, a questão de fundo aqui – como notou Pierre Nora – é bem outra. Trata-se de colocar mais obstáculos à entrada da Turquia na União Europeia. Com esta lei, o objectivo é claro: a busca do confronto mediático, a provocação do nacionalismo turco. Pelo caminho, cortam-se as pontes de um diálogo, que já tinha começado, entre moderados turcos e arménios sobre um passado doloroso comum. Os deputados franceses (começando pelos socialistas, que tiveram a iniciativa da lei), esses, já decidiram: alimentando o racismo larvar, não querem a Turquia na Europa e utilizarão todos os pretextos, mesmo os aparentemente mais justos, para o conseguirem.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado, Rui Tavares. Bookmark o permalink.

5 Responses to André Belo: “Não negarás o genocídio” ou, “Não entrarás na União Europeia”

Os comentários estão fechados.