Ciberpontapé na boca

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Há um fenómeno que me intriga na internet e nos blogues: as transformações psicológicas que os seus autores sofrem. Lendo amigos e desconhecidos, verifiquei que se dá uma metamorfose similar aos condutores de carro quando protegidos pela quentinha armadura do carro ganham palavrão fácil. Tenho estimáveis amigos que rompem o casulo habitual das pacíficas criaturas e aparecem com ademanes de Rambo. Ligados à rede, não há violência verbal ou possível violência física que não sejam capazes. Quando leio, nos blogues, textos que prometem tabefes e bengaladas penso sempre num velho professor de judo que tive, o mestre Vasco.

Certo dia, estávamos à espera dele, já tinham passado 20 minutos da hora do início do treino. O mestre chegou afogueado e bastante alterado como se tivesse corrido a maratona. Perguntamos preocupados: “mestre o que sucedeu!”. Contou-nos que tinha discutido com um homem numa paragem de autocarro, palavra puxa palavra e o sujeito tentou-lhe dar um murro. E nós ainda mais preocupados: “mestre o que é que fez?”. “Projectei-o sobre o ombro e atirei-o ao chão”, disse o experimentado judoca. E nós todos em coro: “e a seguir?”, “A seguir”, respondeu o mestre serenamente, “dei-lhe um pontapé e fugi, não fosse o gajo levantar-se”.

Publicado originalmente no Aspirina B

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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