Lombada

Nada mais trivial do que, perante a pergunta “Qual é o livro da sua vida?”, que me fizeram há uns dias, responder que é difícil escolher um, que se leram muitos e se amaram outros tantos. Pode ser difícil evitar um clássico, por pudor ou falta de arrojo, ou fácil escolher o último, encapado na novidade do escaparate, no subterfúgio da divulgação ou protegido por esse ente pérfido que se dá pelo nome de memória. Podemos sempre interpretar a questão como um convite para escolher um livro de uma fase da nossa vida, um livro metarmofeseante. Embora seja esta a hipótese que, apesar de tudo, mais me agrada, não vou escolher livro algum. Queiram desculpar.

C.S. Lewis, no A Experiência de Ler, afirma que para certo tipo de leitores – os felizes contemplados com a “sensibilidade literária” – “a primeira leitura de uma obra literária constitui frequentemente uma experiência tão importante que só experiências amorosas, religiosas ou de profunda perda se lhe podem comparar. Toda a sua consciência se transforma”. Confesso que, ainda assim, prefiro a formulação de Carlos Maria Domínguez. Conta este senhor, apaixonado por livros, edições, livrarias e alfarrabistas, logo no debutar do seu A Casa de Papel, que “ Na Primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas, de Emily Dickinson, e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.” Pois é. “Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram os Tigres da Malásia e converteram-se em professores de literatura em remotas universidades. Siddartha levou ao hinduísmo dezenas de milhares de jovens, Hemingway converteu-os em desportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi vítima deles”. E eu também, que até era capaz de escolher uma destas obras e agora, por motivos evidentes, já não tenho o desplante de o fazer.

Mais à frente, Domínguez dá o veredicto: “Sempre que a minha avó me via a ler na cama, costumava dizer-me: “larga isso, que os livros são perigosos.” Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez da minha avó alemã”. Talvez porque a minha avó não é alemã, nunca fui tão sabiamente alvitrada. E por isso neste momento, o que me ocorre são as palavras de Vila-Matas, nessa coisa crepitante que se dá pelo nome Da cidade nervosa, em que o autor descreve a sua angústia perante a escolha. Conta que lhe pediram para, no Dia do Livro, escolher um fragmento de uma obra literária, de modo a que os ouvintes da rádio descobrissem a origem. E explica: “Parecia uma operação simples, mas logo me apercebi que o não era. Escolher um fragmento de entre todos os fragmentos da história da literatura universal era tão difícil como começar uma conferência ou escrever a primeira frase de um romance”. E a primeira frase de um romance é coisa mesmo difícil. Steiner, aliás, dedica a primeira linha do seu Gramáticas da Criação à seguinte declaração: “Já não temos começos. Incipt: a orgulhosa palavra latina que designa o início sobrevive ao poeirento vocábulo inglês inception. O escriba da Idade Média assinala o início de uma linha, o novo capítulo, por meio de uma capital iluminada”. É pena. Como diz Bragança de Miranda, em Da gaveta para fora- Ensaios sobre Marxistas – prometo desde já que, contra todas as expectativas, não vou falar de Marx – “Todo o começo é radical”. E Bragança de Miranda, vai daí, cita um outro: “Não dizia Platão que no começo está um Deus?” Mas voltando a Vila- Matas e ao “momento crucial” da opção. Não satisfeito com a sua inquietude, vale-se das palavras de Ítalo Calvino: “É o instante da escolha; é-nos dada a possibilidade de dizer tudo, de todos os modos possíveis. (…) Até ao instante anterior ao momento em que começamos a escrever, temos o mundo à nossa disposição.”. Depois, começa-se e o universo afunila. E nós situamo-nos.

Por isso, quando nos perguntam qual é o livro da nossa vida, podemos sempre fazer qualquer coisa deste género. Mais ou menos como pergunta Barthes em Barthes by Barthes (vai mesmo em inglês, porque não sei francês suficiente para traduzir): “Have we not enough freedom to receive a text without the letter?” (o sublinhado não é meu). Podemos tentar explicar que ainda andamos perdidos e que os livros, tal como prova o caso de Bluma, não estão para brincadeiras. É favor ler, então. Diz Ramón Gómez de la Serna, no Greguerías que “a posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá”.

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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4 respostas a Lombada

  1. jose carlos silva diz:

    Não entendi a questão do Barthes. O original é francês. Se não sabe o suficiente da língua para fazer a tradução porque faz a citação em inglês. A versão que tem é inglesa? Porque não pôs em francês? Os leitores estã mais à vontade com o inglês? Será o já velho problema da “superioridade” actual da cultura anglo-saxónica em relação à francófona?

  2. francisco trigo de abreu diz:

    Excelente texto, Joana. Surpreendente.

  3. joana diz:

    Caro José Carlos,
    Tenho o livro em Inglês e, efectivamente, não sei o suficiente de Francês para traduzir. Só isso. Lamento desapontá-lo.

  4. jose carlos silva diz:

    Cara Joana
    Peço desculpa pelo atraso e pela precipitação no comentário. Como não conheço a tradução inglesa não me posso pronunciar. A versão portuguesa será melhor?

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