O estranho caso do Prof. Arroja

Há limites: uma palavra não pode querer dizer uma coisa e o seu contrário. Tomemos a palavra liberal: é sabido que no continente europeu designa um membro do “partido da ordem”, na sequência da tradição liberal francesa: Montesquieu era um arauto dos direitos da aristocracia (de berço e não de mérito, entenda-se) , enquanto Tocqueville, embora conformado com a erosão desses direitos, ainda assim achou por bem – durante o episódio entre os demais revelador da revolução de 1848 e da II República – apoiar Cavaignac e o massacre do proletariado parisiense nas jornadas de Junho. Ora na Grã-Bretanha e nos E.U.A. a palavra tem uma conotação diferente: na era de Bush, to be a liberal equivale quase a ser um perigoso esquerdista e mesmo no Reino Unido, a figura do “liberal de Hamstead”, popularizada por Jack Straw, designa um burguês whigish, não-socialista, mas que partilha com a esquerda mais radical uma intenção emancipatória que o distingue claramente dos conservadores sociais. Evidentemente, comporta diferenças, nomeadamente no plano da relação do Estado com o mercado (entre um liberal radical como Stuart Mill, que admite a intervenção do Estado como forma de assegurar as condições materiais da liberdade individual, e os liberais de extracção vienense do século XX, como Hayek ou mesmo Popper, para quem essa intervenção se arrisca a destruir a sociedade aberta e a abrir a estrada para a servidão, vai uma larga distância), mas implica sempre a crença kantiana no valor supremo da auto-determinação do indivíduo – porque o liberalismo, em qualquer caso, é a doutrina política das Luzes. Em Portugal, os auto-designados liberais (e não só) proclamam-se de obediência anglo-saxónica, mas (a admitir que seguem uma tradição intelectual coerente) são malgré eux de inspiração francesa: dito por outras palavras, encostam inevitavelmente à direita. Isso em si não teria mal nenhum se não implicasse também uma utilização abusiva da palavra liberal, que é preciso denunciar.

Eu estive uns anos fora e, quando me disseram há dias que um tal de Prof. Arroja – que seria um liberal público e notório – iria voltar a produzir opinião, fiquei na mesma: não fazia ideia de quem ele fosse, e tomei o alarido por mais um exagero do meu amigo Nuno Ramos de Almeida (que é, como se sabe, um grande exaltado). Segui, porém, o conselho do Nuno e fui ler ao blog “Glória Fácil” uma notável entrevista que a jornalista Fernanda Câncio fez ao supracitado professor, que me deixou positivamente sem palavras. Veio-me ao espírito que, quando Lenine famosamente desmentiu a possibilidade de que pudesse existir uma “cultura proletária”, estava obviamente a pensar em parvenus como o Prof. Arroja: porque é claro que não se pode se pode fazer tábua rasa de séculos de civilização burguesa e julgar, com o deslumbramento alacre de um novo rico, que se pode começar tudo ex-nihilo a partir de agora – embora seja exactamente isso que o Prof. Arroja faz. O seu discurso é o da ignorância e do simplismo absoluto – e o que choca não é que ele seja Arroja, é que ele seja Prof.!

Passo a exemplificar: sobre a escravatura, o Prof. Arroja diz em resumo o seguinte: Os negros americanos não estão na sua própria terra, foram para lá atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo; alguns foram levados como escravos, é certo, mas o prémio Nobel da economia de 1993, Robert Fogel, provou que o sistema da escravatura, em termos económicos, era um sistema muito eficaz para os negros: o escravo negro vivia melhor que o trabalhador médio branco e a ideia de que o escravo dava tudo ao senhor branco está errada (o senhor ficava no máximo com dez por cento); para além disso, o escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador livre negro e mesmo que o branco, o que, vistas as condições de adversidade em que vivia, é de molde a contrariar a ideia de que os negros não trabalham; em resumo, o Prof. Arroja não quer dizer que a escravatura fosse aceitável, mas salienta que não foi má em termos económicos. Ora este soi-disant liberal certamente nunca leu aquilo que, precisamente sobre a escravatura, escreveu o grande Montesquieu nesse texto fundador que é o Esprit des Lois: é que (já descontando as insinuações racistas de péssimo gosto que afloram neste como noutros pontos da sua entrevista), Montesquieu estabeleceu aí, há mais de 250 anos, que, ao contrário do que o Prof. Arroja pretende, sobre esta matéria não é possível  fazer cálculos de utilidade social desprovidos de conteúdo moral, distinguindo o facto da norma, nem ignorar a questão ética fundamental que a escravatura coloca – e o liberalismo tem um fundamento jusnaturalista que qualquer auto-proclamado liberal tem obrigação de conhecer.

Noutro momento, o Prof. Arroja insiste naquela conversa de motorista de táxi segundo a qual o país deveria ser governado ao estilo empresarial, propondo a criação de um partido representativo dos interesses da região Norte (que luminosamente compara com o parti québécois…) e sugerindo o nome de Pinto da Costa para dirigir esse partido e o país – e eu pergunto o que é que esta espécie de saint-simonismo dos pobres tem a ver com a ver com o liberalismo? E enfim, a sua boutade sobre a compra de votos (“é a pensar nos pobres que eu [ponho] a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados? [Esse sistema] produzia votos em consciência, porque eu para comprar três votos para um partido tinha de ter grande apreço por ele”…), que relação tem este disparate com a liberdade política, que gerações de verdadeiros liberais pagaram muitas vezes com a própria vida?

O Prof. Arroja descreve-se como um “economista, daqueles economistas que fazem muita matemática”; pena foi que o excesso de matemática o tivesse impedido de ler um pouco de história, de filosofia ou de literatura (já que o bom senso e o bom gosto não se ensinam nas escolas). A ideia de que existem assim economistas puros, que vivem no mundo dos números e dos mercados, sem relação com a cidade dos homens, é de um primitivismo intelectual que não me merece comentários – e só me faz ter pena dos pobres alunos que caiam nas suas mãos. Mas o problema não é de hoje: conta o Prof. Arroja que, já em pequenino, ele “era um estudante, como dizê-lo…. excepcional”; ora quem diz inanidades destas na idade adulta foi certamente formado num meio próximo do analfabetismo funcional, de que ele pelos vistos não quer privar a próxima geração. Que o Prof. Arroja tenha de si próprio um elevado conceito, percebe-se facilmente à luz de qualquer manual de psicopatologia, agora que haja quem o descreva como um dos mais importantes defensores da Liberdade que Portugal conheceu nas últimas décadas sem se rir nem corar de vergonha, é um mistério que eu não consigo resolver.
 

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a O estranho caso do Prof. Arroja

  1. «Tomemos a palavra liberal: é sabido que no continente europeu designa um membro do “partido da ordem”, na sequência da tradição liberal francesa»

    Tradicionalmente, na Europa, “liberal” significava um adepto da Constituição espanhola de Cadiz – muito longe de um “partido da ordem”.

    E ao longo do século XIX, a maior parte dos auto-proclamados “liberais” europeus passaram tanto tempoo a lutar contra a Igreja, contra monarquias autoritárias, etc. como contra as revoluções.

    Até creio que, até talvez à segunda guerra mundial, o “liberalismo” predominante na Europa até seria mais o liberalismo “de esquerda” (estilo Partido Radical Francês)

  2. António Figueira diz:

    Caro Miguel,
    Obrigado pelo seu comentário, mas eu não creio que V. tenha completamente razão.
    É evidente que a palavra “liberal” já teve no Ocidente um sentido genericamente mais radical e menos conservador do que aquele que hoje possui; afinal, enquanto actualmente damos as liberdades civis e políticas por adquiridas, todo o trabalho de subversão do Antigo Regime, na transição dos séculos XVIII para XIX, foi feito em nome do liberalismo.
    Agora o carácter particular que essa transição assumiu em França (por oposição à Grã-Bretanha ou mesmo aos E.U.A.) marcou a natureza do liberalismo francês e o papel de quantos dele se reivindicavam, que constituiram desde o início um impossível “partido do centro” entre a reacção e o jacobinismo. Tocqueville e Benjamin Constant são talvez os melhores exemplos desta linhagem – que engrossou as fileiras do “partido da ordem” na II República e alinhou sempre com a direita de cada vez que a contradição direita/esquerda se resumiu aos seus elementos essenciais.
    A tradição dos radicais-socialistas franceses é outra, totalmente distinta: voltando à II República, eles não são orleanistas momentaneamente convertidos à causa republicana; eles são os herdeiros da velha “Montagne”, pequeno-burgueses jacobinos cuja força resultava em boa parte de comandarem politicamente o proletariado urbano, que constituia a sua tropa de choque, até este se autonomizar e criar os seus partidos próprios, inventando a tradição socialista.

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