André Belo: De como me tornei anarquista

Em matéria de política sempre fui uma Maria-Vai-Com-As-Outras. Digo-o sem falsa modéstia nenhuma porque o meu currículo político — se exceptuarmos uma passagem por uma Associação de Estudantes nos gloriosos anos da luta contra as propinas e do estertor cavaquista — não tem nada digno de nota. Nunca fiz coisa de grande monta e, sobretudo, nunca me meti na política de alma e coração. Mesmo alinhando em movimentos políticos, nunca fui, por exemplo, capaz de me definir com rigor politicamente, áparte o ser de esquerda. Quem o fazia — ou pelo menos a mim assim parecia — eram vários dos meus amigos, cuja ideologia, coerência e referências admirava profunda e ardentemente. Na verdade, acho que foi sempre por adesão aos ideais dos amigos e não a um determinado grupo ou causa, que me envolvi em política. Aderia aos amigos, não à política em si. Pensando bem, esta última coisa, sim, eu fiz de alma e coração e, pensando bem, esta já é uma causa suficientemente nobre.

A excepção, repito, foi a luta contra as propinas. Envolvi-me efectivamente, criei a minha própria ideia sobre o assunto e tomei, com outros, iniciativas próprias. Foi um momento de politização intensa, de união, mas também de separação de águas (para mim e vários outros) em relação aos métodos de outras Associações de Estudantes anti-propinas, na altura dominadas pelos comunistas da JCP ou próximas dos trotskistas do PSR.

Depois dos meus anos de faculdade, ao longo dos anos, e vivendo em França, tive outros momentos de politização. Embora apenas como espectador, eles funcionaram na minha cabeça como chamadas a uma tomada de posição indispensável. O mais importante desses momentos foi a clamorosa derrota da esquerda nas presidenciais de Abril/Maio de 2002, com a eliminação de Lionel Jospin à primeira volta. Nos tempos mais recentes, o referendo europeu ao Projecto de Constituição Europeia e a luta anti-CPE fizeram um pouco o mesmo. Aqui há uns meses, vi na televisão uma entrevista de Claudio Magris em que ele dizia, cito muito de memória, que há momentos em que a política nos interpela forçosamente, que há momentos de urgência em que temos mesmo de lidar com ela. Identifiquei-me com isto.

Mas basta de autobiografia política. Isto tudo é para dizer que a minha autodefinição mais recente é a adesão ao anarquismo. Um anarquismo limitado, mas de base, contra o estatismo (não contra o Estado), contra o centralismo, contra as imposições piramidais, contra o burocratismo irracional. A favor da descentralização regional e local; a favor da autonomia para quem pode decidir perto dos que são afectados pelas decisões; a favor da abolição tanto quanto possível de intermediários entre a base e as sucessivas cúpulas; a favor, enfim, de um serviço público capaz de procurar o melhor meio para realmente combater desigualdades — e que não apareça como mero slogan defensivo do Estado em tempos difíceis. Tão simples e irrealizável quanto isto. Se o ser de esquerda tem a ver, no fundo, com ter confiança nos outros — e acredito que sim —, então o estatismo, com a sua desconfiança intrínseca em relação ao que não depende de si, é uma enorme perversão deste princípio fundador da esquerda. Esta é uma ideia a que tenho chegado por experiência própria e indignação genuína, observando o funcionamento da universidade pública francesa. Anarquista em França por reacção ao jacobinismo, não sei se o seria, por exemplo, nos Estados Unidos (em matéria de política, o ter sido muitos anos uma Maria-Vai-Com-As-Outras ensinou-me a ser prudente). E aderi ao anarquismo, não aos anarquistas. Serei talvez um anarquista local, inorgânico, incoerente, inconsequente, individualista. Em suma, um verdadeiro anarca.

Não encontro melhor lugar para anunciar isto do que este espaço editado pelo Rui Tavares e para o qual ele me convidou a escrever. O Rui que sempre se definiu, muito coerentemente, como um anarquista com contradições e que, nem é preciso acrescentar, é um dos tais amigos a que sempre aderi com a maior das convicções políticas.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias, convidado. Bookmark o permalink.

6 Responses to André Belo: De como me tornei anarquista

Os comentários estão fechados.