Sobre o anti-semitismo e outras classificações da zoologia imperial

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Numa célebre passagem de um ensaio de Jorge Luís Borges descreve-se uma enciclopédia chinesa com o sugestivo título de “Empório Celestial dos Conhecimentos Benévolos”. Esse livro estabelece uma útil metodologia de classificação do reino animal, ordenando para todo o sempre os seres menos racionais da seguinte forma: “(a) pertenecientes al Emperador, (b) embalsamados, (c) amaestrados, (d) lechones, (e) sirenas, (f) fabulosos, (g) perros sueltos, (h) incluidos en esta clasificación, (i) que se agitan como locos, (j) innumerables, (k) dibujados con un pincel finísimo de pelo de camello, (l) etcétera, (m) que acaban de romper el jarrón, (n) que de lejos parecen moscas” (Otras Inquisiciones, Alianza Editorial, pp158).
Apesar dos propagados progressos da razão ocidental, a recente utilização da categoria de anti-semita como arma de arremesso ideológico parece tão lógica como a que decorre da mitológica obra, embora muito menos benévola.
Comecemos pelos pormenores, até porque Deus encontra-se nas pequenas coisas: chamam-se semitas a povos da região que incluem, entre outros, hebreus, árabes, assírios e fenícios. Atendendo que na guerra actual, a maioria do exército de Israel é constituída por judeus asquenazes, descendentes de populações caucasianas da Europa central convertidas ao judaísmo no século XII, pode-se afirmar que aqueles que apoiam o bombardeamento de semitas (palestinianos e libaneses) em Gaza e Beirute são anti-semitas. É óbvio que esta informação tem tão pouco interesse como a utilização do apodo de anti-semita para qualificar os que contestam o comportamento do Estado de Israel ou de anti-americanos todos os que não concordam com a política de George W. Bush. Trata-se de uma obra de ilusionismo político: grita-se anti-semita e fica-se absolvido de discutir aquilo que se passa. No fundo, o matraquear destas designações permite a uma série de pessoas abster-se de pensar sobre um conjunto de actos concretos. Deixa-se de estar no domínio dos factos para se ficar na especulação das intenções. O exercício é fácil: em vez de analisarmos o massacre de Qana, passamos a falar da bondade ontológica da “democracia israelita”. A partir daí, tudo o que esse lado faz é santificado. Os massacres, o desprezo pela vida humana, os métodos terroristas de “eliminações selectivas”, o uso da tortura, o assassinato de civis – como forma de continuar a política por outros meios – evaporam-se como por magia.
O expediente é velho, há mais de um século um conjunto de pensadores e governantes conservadores acusou aqueles que discordavam da anexação de Cuba e das Filipinas, pelos Estados Unidos, de estarem contra a civilização. Na altura, Kipling escreveu o célebre poema do “Fardo do Homem Branco”, em que expressava, como ninguém, a profissão de fé dos novos poderosos. O poema apoiava os argumentos do presidente McKinley em favor das “responsabilidades americanas” para com o povo filipino. O presidente tinha repetidamente reafirmado o desejo de manter a sua autoridade no Pacífico, sufocando a rebelião no arquipélago para “conceder a benção da liberdade e da civilização” àquelas pessoas que, até então, “estavam confinadas à escuridão”.
Mal acomodado na casa, em Connecticut, Mark Twain não resistiu a ironizar, dizendo que se tal acontecesse mais valia que os Estados Unidos adoptassem a bandeira dos piratas. Hoje, o autor de Huckleberry Finn seria certamente condenado por anti-americanismo.
Texto originalmente publicado no Caderno de Verão

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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