Citações

Vale a pena ler, na íntegra, o texto de Juan José Tamayo, (regente da disciplina de Teología y Ciencias de las Religiones da Universidad Carlos III de Madrid e autor de da obra Fundamentalismos y diálogo de religiones), publicado no El País de hoje.
Tamayo explica como o discurso de Bento XVI em Ratisbona faz parte de um percurso que tem vindo a trilhar, desde os anos setenta, e que incluiu a condenação de vários teólogos que reflectiam sobre uma teologia do pluralismo religioso.
O autor remete também para as palavras de Ratzinger, em 2000, que cavaram o fosso entre igrejas cristãs, nomeadamente porque o cardeal considerava que a igreja católica é “a verdadeira” e as igrejas ortodoxas, protestantes e anglicanas “não são igrejas em sentido próprio”. E Tamayo destaca a seguinte passagem do actual Papa: “Si bien es cierto que los no cristianos pueden recibir la gracia divina, también es cierto que, objetivamente se hallan en una situación gravemente deficitaria si se compara con la de aquellos que, en la Iglesia, tienen la plenitud de los medios salvífica
Assim, socorrendo-se de vários exemplos que ilustram o posicionamento de Ratzinger, Tamayo conclui que: “La crítica del relativismo lleva derechamente a la simplificación, deformación y falseamiento de las posiciones del contrario. Esas desviaciones son las que se dan en el discurso de la Universidad de Ratisbona del 12 de septiembre, a partir de una cita, a mi juicio desafortunada, del emperador bizantino Miguel II Paleólogo, que ofrece una idea beligerante de la religión musulmana y una imagen violenta del profeta Mahoma. La propia cita, independientemente de que se comparta o no, no es casual, revela ya la tendenciosidad del discurso”.
Portanto, para Tamayo, o problema nem sequer é a citação. O problema é “Es el discurso en sí, en su conjunto, cristiano-céntrico y euro-céntrico, el que hay que revisar en profundidad, porque no contribuye al diálogo.”
Igualmente interessante, e abordando a questão num outro ângulo, é a coluna do jornalista Jonathan Freedland, no The Guardian de hoje. Freedland mostra que o que está em questão no discurso do Papa, agora tomado como símbolo da liberdade de expressão, não é esse mesmo direito. O exercício da liberdade de expressão depende de múltiplos vectores – não é absoluto – e depende, designadamente, do poder e da responsabilidade intrínseca a determinado cargo ou papel. As palavras proferidas pelo “ilustre académico” ou por Bento XVI, sendo as mesmas, são diferentes. Diz Freedland: “This is what makes the Pope’s defenders so disingenuous when they insist that he was merely engaged in a “scholarly consideration of the relationship between reason and faith”.
Muitos parecem acreditar que as declarações de Ratzinger foram apenas infelizes e/ou descontextualizadas Tal como Karen Armstrong (Autora de Islam: A Short History), tenho dificuldades em crer que a citação do Papa, imediatamente a seguir ao quinto aniversário do 11 de Setembro, tenha sido acidental. Fala-se tanto da rua árabe e talvez não fosse pior falar da rua ocidental. Porque o que ficou nas esquinas e botequins dessa rua foi a ideia de o Islão como violento. E o cumprimento daquilo que mais parece uma profecia.
Proponho ainda a leitura dos seguintes artigos:
L’oecuménisme, victime collatérale de Benoît XVI, de Jean-François Colosimo, Le Monde, 20 de Setembro.
Return to the dark ages, de Soumaya Ghannoushi, The Guardian, 19 de Setembro.
Pope Gets it Wrong on Islam, de Juan Cole, blog Informed Comment, 15 de Setembro.

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QUARTA | Joana Amaral Dias
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