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	<title>cinco dias &#187; Žižek</title>
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		<title>A semelhança é coincidência.</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2007 23:44:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Amaral Dias</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[A-Bela-&-o-Mestre]]></category>
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		<description><![CDATA[Com excertos do filme &#8220;Os Homens-Toupeira&#8221; (2002), remontados por Edgar Pêra. Ontem, o jornal Público relatava a história de duas famílias que participaram num reality show, o Extreme Makeover: Home Edition (passa também em Portugal no desconexo People &#38; Arts). &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/05/16/a-semelhanca-e-coincidencia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com excertos do filme &#8220;Os Homens-Toupeira&#8221; (2002), remontados por <a href="http://elementarista.blogs.sapo.pt/">Edgar Pêra</a>.</p>
<p>Ontem, o jornal Público relatava a história de duas famílias que participaram num reality show, o Extreme Makeover: Home Edition (passa também em Portugal no desconexo People &amp; Arts). Nesse concurso- supostamente um espectáculo positivo porque baseado na caridade &#8211; os participantes recebem uma casa nova, em troca da exposição das suas vidas. Numa das edições, um casal acolheu na casa oferecida pela produção, cinco irmãos adolescentes órfãos. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger – ele próprio um reality fiction- foi à inauguração da habitação. Passadas algumas semanas, os irmãos saíram da casa, deixando para trás todos os “luxos” oferecidos pelo programa: mansão, carros, dispendiosos sistemas de som e televisão. Queixam-se que o casal “adoptante” tinha uma “campanha orquestrada para os degradar e insultar”, que os chamavam de estúpidos e preguiçosos, que eram racistas. Os órfãos apresentaram também uma queixa contra a ABC. Alegam que o canal obteve de forma fraudulenta os direitos sobre a sua história e que os enganou relativamente aos direitos sobre a casa. Os irmãos vivem agora separados em casa de amigos. A vivenda ficou para o casal. A ABC ficou com meio milhão de euros em receitas publicitárias. Robert J. Thompson garante que “as cadeias de televisão não trabalham para ser filantropas”. E remata: “O preço de uma casa é uma ninharia em comparação com o sucesso que uma série destas tem”. O Correio da Manhã convidou-me para escrever uma série de nove artigos sobre o reality show A Bela &amp; O Mestre. Alguns desses textos foram republicados aqui. O último saiu ontem e o artigo que se segue é uma versão “revista e aumentada”.</p>
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<script type="text/javascript" src="http://blip.tv/scripts/pokkariPlayer.js"></script><script type="text/javascript" src="http://blip.tv/syndication/write_player?skin=js&amp;posts_id=234736&amp;source=3&amp;autoplay=true&amp;file_type=flv&amp;player_width=&amp;player_height="></script><center id="blip_movie_content_234736"><a href="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-GIGABROTHER356.flv" onclick="play_blip_movie_234736(); return false;"><img border="0" src="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-GIGABROTHER356.flv.jpg" title="Click To Play" /></a><br />
<a href="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-GIGABROTHER356.flv" onclick="play_blip_movie_234736(); return false;">Click To Play</a></center></p>
<p align="left">Nos big brothers &amp; Cª há um detalhe revelador. Cada excluído provoca tristeza nos que ficam “na casa” e alegria na claque “lá de fora”. Quem perde torna-se numa celebridade que dá entrevistas e relata a suas proezas. Estes concursos aspiram à “imitação da vida”, com pessoas e acções comuns, mas ficam-se pelo real light, o real sem substância. O mercado dos produtos sem as suas principais propriedades, de que fala Zizek, da cerveja sem álcool ao sexo virtual, tem a sua melhor expressão nos reality shows. A realidade não mora aí. Os espectadores são convidados a excluir alguém de um acontecimento no qual não participam.<br />
Passou-se do culto da personalidade para o culto da imagem. Agora vive-se no culto da pornografia. Começou-se por mitificar os génios e os self made man, depois glorificaram-se as estrelas e hoje festejam-se as celebridades, um número crescente de pessoas anónimas que têm a oportunidade de comunicar com milhões e milhões de pessoas. Os anónimos não representam nem deixam de representar. A indústria cultural ensinou-lhes, desde o berço, a espectacularização da vida quotidiana. E nesta ânsia do comum não se suporta nada de diferente. Quem assiste a um reality show, assiste ao tédio da sua própria vida. Como se só se pudesse desejar o semelhante. Gera-se uma sociedade indivisível. E promíscua. É o culto da pornografia porque estes participantes não são mais nem menos reais do que os “actores” de pornografia. Esta foi apenas pioneira. Nos filmes pornográficos, os participantes também se podem divertir, zangar, gozar ou enojar. Mas sabem bem que é um negócio. And the show must go on.<br />
Nos reality shows pretende-se que nada seja secreto. Nada é escondido, reprimido, proibido, oculto. Quanto mais obscenidade, melhor. Aliás, como se não bastasse a constante celebração da vulgaridade, os concorrentes deste tipo de programas, habitualmente, são convidados a “ir ao confessionário”. A contar à câmara, num suposto momento de intimidade, os seus sentimentos e emoções. A confissão que foi passando da religião para a pedagogia, depois para a psiquiatria e para a literatura, chegou agora aos meios de comunicação. Porém, há uma diferença fundamental. A confissão em segredo não é o mesmo do que uma transmissão pública e publicitária do desejo.<br />
  “O Big Brother assegura a todos uma glória virtual justamente em função da falta de mérito. (…) É a concretização de uma democracia radical, com base na beatificação do homem sem qualidade. Um grande passo rumo ao niilismo democrático” (Baudrillard). Mas esse mesmo Big Brother é o “espelho e o desastre de uma sociedade inteira, atolada na corrida ao insignificante”. Os reality shows são uma metáfora da nossa sociedade. Vivemos constantemente, e cada vez mais, no regime da vídeo-vigilância e vivemos progressivamente mais enclausurados em gaiolas douradas, cujo paradigma são os condomínios fechados com um centro comercial bem central. Porque o exterior (cada vez mais indistinto do interior, num outro sentido) é vivido como ameaçador e perigoso. Os concorrentes dos BigBrothers só caricaturam: sujeitam-se à vigilância e à monitorização contínuas e ao internamento voluntário numa casa.</p>
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<script type="text/javascript" src="http://blip.tv/scripts/pokkariPlayer.js"></script><script type="text/javascript" src="http://blip.tv/syndication/write_player?skin=js&amp;posts_id=234758&amp;source=3&amp;autoplay=true&amp;file_type=flv&amp;player_width=&amp;player_height="></script><center id="blip_movie_content_234758"><a href="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-MOLEMENSAGA225.flv" onclick="play_blip_movie_234758(); return false;"><img border="0" src="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-MOLEMENSAGA225.flv.jpg" title="Click To Play" /></a><br />
<a href="http://blip.tv/file/get/Edgarpera-MOLEMENSAGA225.flv" onclick="play_blip_movie_234758(); return false;">Click To Play</a></center>Há quem diga até que o século XX só teve um crime pior que Aushwitz: a celebração da banalidade. Nos reality shows não há ficção ou abstracção. É proibido pensar. Espectacular é antónimo de especular. Quem vê considera-se senhor do destino dos concorrentes. Espia a vida alheia “em tempo real”. Acha que tudo vê. Acha que tudo sabe. Sente-se omnipresente e omnisciente. Na sociedade televisivamente modificada, já não há super-heróis. Só pseudo-super-espectadores.<br />
Entre estes concursos e a vida, qualquer semelhança é coincidência. Uma coincidência que se tornou no culto da simulação. Mas o que acontecerá se começarmos por acreditar que o circo é real e depois tomarmos o real por virtual? Há quem pense que isso já aconteceu. Que já extremámos a virtualização. Que observámos as explosões das Torres Gémeas como um cena dejá vu em centenas de filmes e alguns livros, como uma realidade virtual. Que se diluem as fronteiras entre o interno e o externo. E se assim é, o espectador passa a ser, ele próprio, simulado pelos acontecimentos televisivos. Não é o espectador que vê televisão, mas a televisão que o vê. Não nos esqueçamos que a frase é “Big Brother is watching you”.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Žižek em pastilhas</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Nov 2006 05:01:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Nuno Ramos de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[constituição-europeia]]></category>
		<category><![CDATA[Žižek]]></category>

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		<description><![CDATA[Brevemente os sacropantas europeus vão voltar a discutir o processo constitucional. Aqui fica um texto de um reputado pensador esloveno sobre a matéria. Junto deixo um link para um programa do ARTE, colhidos no Klepsydra, em que uma duzia de &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/03/zizek-em-pastilhas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Brevemente os sacropantas europeus vão voltar a discutir o processo constitucional. Aqui fica um texto de um reputado pensador esloveno sobre a matéria. Junto deixo um <a target="_blank" href="http://www.arte.tv/fr/histoire-societe/europe/_C3_80_20saute-mouton/De_20nouvelles_20lignes_20de_20fracture/480208.html">link para um programa do ARTE</a>, colhidos no <a target="_blank" href="http://klepsydra.blogspot.com/">Klepsydra</a>, em que uma duzia de pensadores europeus discute o continente.</p>
<p><strong>Um fantasma ronda o Ocidente</strong><br />
<em>Por Slavoj  Žižek</em></p>
<p>As comunidades amish dos EUA praticam a instituição do &#8220;rumspringa&#8221; (do alemão &#8220;herumspringen&#8221;, que significa saltar aleatoriamente): aos 17 anos, os seus filhos (até então submetidos a uma estrita disciplina familiar) são libertados; recebem permissão e até são incentivados a sair para aprender e experimentar os hábitos do mundo &#8220;inglês&#8221; que os rodeia &#8211; guiam carros, escutam música pop, assistem à televisão, envolvem-se com bebidas, drogas, sexo desenfreado&#8230; Depois de alguns anos, precisam decidir: vão tornar-se membros da comunidade amish ou vão deixá-la e transformar-se em cidadãos norte-americanos comuns?<br />
<em><span id="more-325"></span></em>Longe de ser permissiva e dar aos jovens uma opção realmente livre, isto é, dar-lhes a possibilidade de decidir com base no pleno conhecimento e na experiência dos dois lados da opção, essa solução é preconceituosa da maneira mais brutal, uma opção das mais falsas que poderia haver.<br />
Quando, depois de longos anos de disciplina e fantasias sobre os prazeres ilícitos transgressivos do mundo &#8220;inglês&#8221; exterior, o adolescente amish é súbita e desprevenidamente atirado para ele, é claro que não pode deixar de cair num comportamento extremamente transgressor, &#8220;experimentar tudo&#8221;, atirar-se plenamente numa vida de sexo, drogas e bebida. E, como nessa vida não têm nenhuma limitação ou regulamento inerente, essa situação permissiva retroage inexoravelmente provocando uma ansiedade insuportável &#8211; portanto é seguro prever que depois de alguns anos voltem para a reclusão da sua comunidade. Não admira que 90% dos filhos amish façam exactamente isso.</p>
<p><strong>Metaopção</strong><br />
É um exemplo perfeito das dificuldades que sempre acompanham a ideia de uma &#8220;opção livre&#8221;: enquanto os adolescentes amish formalmente têm uma opção livre, as condições que eles encontram enquanto estão a fazer a opção  tornam-na não-livre. Isso também demonstra claramente as limitações da atitude liberal padrão em relação às mulheres muçulmanas que usam o véu: podem fazê-lo se for de livre opção, e não imposta pelos seus maridos ou familiares.<br />
No entanto, quando as mulheres usam o véu em consequência da sua livre opção individual (por exemplo, para realizar a sua própria espiritualidade), o significado de usar o véu muda completamente: não é mais um sinal de pertencer à comunidade muçulmana ou a expressão da sua individualidade idiossincrática. A diferença é igual à que existe entre um agricultor chinês que se alimenta de comida chinesa porque a sua aldeia faz isso desde tempos imemoriais e um cidadão de uma megalópole ocidental que decide jantar num restaurante chinês local.<br />
Uma opção é, portanto, sempre uma &#8220;metaopção&#8221;, uma opção da modalidade da própria opção: é somente a mulher que não escolhe usar o véu que efectivamente faz uma opção. Isso porque, nas nossas sociedades seculares preferidas, as pessoas que mantêm uma filiação religiosa substancial estão numa posição subordinada: mesmo que elas tenham autorização para manter a sua crença, essa crença é &#8220;tolerada&#8221; como sua opção/opinião pessoal idiossincrática; no momento em que elas a apresentam publicamente como o que significa para elas (uma questão de filiação substancial), são acusadas de &#8220;fundamentalistas&#8221;.<br />
Mas o que é que tudo isso tem a ver com o “não” francês à Constituição europeia? Tudo. Os eleitores franceses foram tratados exactamente como os jovens amish: não receberam uma opção claramente simétrica. Os próprios termos da opção privilegiaram o “sim”: a elite propôs à população uma opção que efectivamente não era uma opção &#8211; a população foi chamada a ratificar o inevitável, o resultado da perícia esclarecida.<br />
Os media e a elite política apresentaram a opção como sendo entre conhecimento e ignorância, entre perícia e ideologia, entre administração pós-política e antigas paixões políticas da esquerda e da direita. O “não” foi portanto rejeitado como uma reacção míope, inconsciente das suas próprias consequências: uma reacção obscura de medo da nova ordem global pós-industrial emergente, um instinto de manter e proteger as confortáveis tradições do Estado providência &#8211; um gesto de recusa sem nenhum programa alternativo positivo.<br />
Não admira que os únicos partidos políticos cuja posição oficial era o “não” foram os partidos no extremo oposto do espectro político: a Frente Nacional de Le Pen, à direita, e os comunistas e trotskistas, à esquerda. Além disso, segundo nos dizem, o “não” era, na verdade, um “não” a muitas outras coisas: ao neoliberalismo anglo-saxão, ao presidente Jacques Chirac e ao actual governo francês, ao ingresso de trabalhadores imigrantes da Polónia, que reduzem os salários dos trabalhadores franceses etc.</p>
<p><strong>Elite condenada</strong><br />
No entanto, mesmo que haja um elemento de verdade em tudo isso, o próprio facto de o “não” não ter sido sustentado por uma visão política coerente alternativa é a mais forte condenação possível da elite política e mediática: um monumento à sua incapacidade em articular, traduzir em visão política, os desejos e insatisfações da população. Em vez disso, numa reacção ao “não”, tratou a população como alunos atrasados que não entenderam a lição dos especialistas: a sua autocrítica foi a do professor que admite que falhou em educar adequadamente os seus alunos.<br />
Por isso, embora a opção não fosse entre duas opções políticas, também não era uma opção entre a visão esclarecida de uma Europa moderna, pronta para se encaixar na nova ordem global, e antigas paixões políticas confusas. Quando os comentaristas descreveram o “não” como uma mensagem de medo confuso, estavam errados. O principal medo que identificamos aqui é o mesmo que o próprio não provocou na nova elite política europeia, o medo de que as pessoas não comprem mais tão facilmente a sua visão &#8220;pós-política&#8221;.<br />
Para todos os outros, o “não” é uma mensagem e uma expressão de esperança: esperança de que a política continue viva e possível, de que o debate sobre o que deve ser a nova Europa continue aberto. É por isso que nós, da esquerda, devemos rejeitar a insinuação de desprezo dos liberais, de que, no nosso “não”, encontramo-nos com estranhos companheiros neofascistas. O que a nova direita populista e a esquerda compartilham é apenas uma coisa: a consciência de que a política propriamente dita continua viva.</p>
<p><strong>Debate adequado</strong><br />
Havia uma opção positiva no “não”: a opção da própria opção. A rejeição à chantagem da nova elite que oferece apenas a opção de confirmar o seu conhecimento de perita ou exibir a nossa imaturidade &#8220;irracional&#8221;. O “não” é a decisão positiva de começar um debate político adequado sobre que tipo de Europa realmente queremos. No final da sua vida, Freud fez a famosa pergunta: &#8220;Was will das Weib?&#8221; [O que quer uma mulher?], admitindo a sua perplexidade quando confrontado com o enigma da sexualidade feminina. O imbróglio com a Constituição europeia não é testemunha da mesma perplexidade? Que Europa queremos?<br />
Para colocar simplesmente, queremos viver num mundo em que a única opção seja entre a civilização norte-americana e a chinesa capitalista-autoritária emergente? Se a resposta for não, então a única alternativa é a Europa. O Terceiro Mundo não pode gerar uma resistência suficientemente forte à ideologia do sonho americano; na actual constelação, somente a Europa pode fazê-lo.<br />
A verdadeira oposição hoje não é entre o Primeiro Mundo e o Terceiro Mundo, mas entre o conjunto do Primeiro e Terceiro mundos (o império global norte-americano e as suas colónias) e o remanescente Segundo Mundo (Europa). A propósito de Freud, Adorno afirmou que o que estamos a receber no &#8220;mundo administrado&#8221; contemporâneo e a sua &#8220;dessublimação repressiva&#8221; não é mais a antiga lógica da repressão do id e seus impulsos, mas um pacto directo e perverso entre o superego (autoridade social) e o id (impulsos agressivos ilícitos) à custa do ego.<br />
Algo estruturalmente semelhante não está a acontecer hoje a nível político &#8211; o estranho pacto entre o capitalismo global pós-moderno e as sociedades pré-modernas, à custa da própria modernidade? É fácil para o império global multiculturalista norte-americano integrar as tradições locais pré-modernas, pois o corpo estranho que efectivamente não consegue assimilar é a modernidade europeia.</p>
<h2><a rel="bookmark" title="Link permanente para Žižek numa livraria perto de si" href="http://5dias.net/2006/10/20/zizek-numa-livraria-perto-de-si/"><br />
</a></h2>]]></content:encoded>
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		<title>Žižek numa livraria perto de si</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Oct 2006 22:30:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
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		<description><![CDATA[(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água) Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer épater le bourgeois, mas vai dizendo verdades &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/20/zizek-numa-livraria-perto-de-si/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="400" height="569" alt="zizekdvd.jpg" id="image262" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2006/10/zizekdvd.jpg" /></p>
<p><em>(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água)</em></p>
<p>Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer <em>épater le bourgeois</em>, mas vai dizendo verdades incómodas. Num tempo de relativismos, garante que pode-se falar das culturas, das sexualidades, das tolerância, mas que se a esquerda deixa de fora as questões da economia, da ideologia e da produção da vida, é apenas uma cereja no cimo do bolo do capitalismo. É óbvio, por exemplo, que uma sociedade que respeita a liberdade sexual é , nesse aspecto, mais avançada que outras formas de vida em conjunto. Mas, é também verdade que é possível ter uma sociedade com pobreza, discriminação e exploração e ter liberdade sexual. Escrevia Hobsbawm que o “sexo é a ópera dos pobres”, há regimes repressivos que coexistem bem com a liberdade sexual e, do mal o menos, os pobres podem sempre ficar prazenteiramente ocupados com isso.<br />
Žižek afirma a necessidade de um certo retorno ao leninismo, quando afirma, por exemplo, na entrevista do <em>El Pais</em>, que mais do que discutir a participação das mulheres na política é preciso forçar essa entrada, mas é também o pensador que nos alerta contra o activismo pelo activismo, dizendo que actividade não é obrigatoriamente movimento. E que, sobretudo, é preciso fazer, nos dias de hoje, uma pausa para pensar.<br />
No fundo, a grande questão é a da verdade na mentira, bem ilustrada na anedota, contada pelo autor, sobre dois russos que se encontram, anos depois da queda da União Soviética, em que o primeiro diz ao segundo: “já viste que os comunistas nos mentiram sobre o socialismo?”; a que o outro responde: “o mais grave é que nos disseram toda a verdade sobre o capitalismo”.<br />
É na construção de uma nova agenda teórica que Slavoj Žižek se insere.</p>]]></content:encoded>
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		<title>“Se um remédio pudesse fazer-me mais valente, mais lúcido e mais generoso, onde é que ficaria a ética?”</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Oct 2006 22:08:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Excertos da entrevista feita a Slavoj Žižek, por Enric González, publicada no “El Pais” de 25/3/2006. Slavoj Žižek (Liubliana, 1949) grita, ri, aplaude. Os movimentos dos seus braços tornam-se convulsivos, mas do personagem emana uma grande cordialidade. É um filósofo &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/20/%e2%80%9cse-um-remedio-pudesse-fazer-me-mais-valente-mais-lucido-e-mais-generoso-onde-e-que-ficaria-a-etica%e2%80%9d/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img id="image260" alt="zizek-vol-1.jpg" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2006/10/zizek-vol-1.jpg" /></p>
<p><em>Excertos da entrevista feita a  Slavoj Žižek, por Enric González, publicada no “El Pais” de 25/3/2006.</em></p>
<p>Slavoj Žižek (Liubliana, 1949) grita, ri, aplaude. Os movimentos dos seus braços tornam-se convulsivos, mas do personagem emana uma grande cordialidade. É um filósofo pluridisciplinar que se deu a conhecer nos círculos psicanalíticos e, em pouco tempo, se converteu numa estrela do pensamento contemporâneo. Colabora no The New York Times, é professor convidado nas universidades de Paris (onde estudou), Columbia, Princeton e Georgetown e preside à Sociedade para a Psicnálise Teórica da Eslovénia.  A partir de Karl Marx, Lenine e de Jacques Lacan efectua uma crítica sistemática da pós-modernidade e exige a reinvenção de uma ética de esquerda capaz de enfrentar a revolução tecnológica e a biomedicina. Vive num pequeno apartamento de Liubliana, na capital eslovena. O mobiliário é barato e a roupa está guardada nos móveis da cozinha.<br />
<strong><br />
-    Como decidiu ser filósofo?</strong><br />
-    Penso que para se bom em qualquer coisa faz falta uma vocação alternativa. Como é o caso de Levi Strauss que queria ser músico e se tornou antropólogo. Eu, desde a adolescência, sonhava em ser realizador de cinema, mas aos 18 anos comecei a estudar filosofia. Foi como a descoberta de São Paulo a caminho de Damasco. Nunca tive dúvidas. Comecei a estudar a escola de Frankfurt e de outros marxismos dissidentes, e ao chegar à universidade fiz-me heideggeriano, que na Eslovénia era o máximo da dissidência.</p>
<p><strong>-    Por que Heidegger era considerado dissidente?</strong><br />
-    Cada uma das repúblicas da Jugoslávia  tinha adoptado uma filosofia diferente, mais próxima de cada um dos grupos no poder. Na Eslovénia imperava a Escola de Frankfurt. Na Croácia preferiam os marxistas da Praxis e Heidegger: para ascender no partido comunista croata convinha dominar a femenologia. O da Sérvia era muito diferente, filosofia analítica. Então, quando surgiu o estruturalismo, Lacan, Foucault, Althusser e demais, aconteceu que as escolas rivais da Eslovénia, a de Frankfurt e a de Heidegger, esqueceram as suas diferenças para enfrentar-se de uma forma feroz, paranóica, contra os estruturalistas. Isso intrigou-me. Eu tinha 21 anos. Passei os seis ou sete anos seguintes a ler, de uma forma confusa, a teoria francesa, um pouco de Foucault, um pouco de Derrida, até que descobri a minha própria seita: sou um estalinista ortodoxo lacaniano, dogmático e nada dialogante.</p>
<p><strong>-    Como pode recusar o diálogo?</strong><br />
-    O meu lema é: nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade. Não, seriamente, a filosofia é necessariamente dogmática. Conhece algum diálogo filosófico que tenha funcionado? Os de Platão?  Nada sai dai, sobretudo nos diálogos dos sofistas da última época em que há um tipo que fala todo o tempo, enquanto o interlocutor se limita a dizer “ó sim, por Zeus, quanta razão tens”. Heidegger tinha razão quando dizia que cada filósofo tem uma percepção fundamental e limita-se a repeti-la ao longo da sua obra.</p>
<p><strong>-    Qual é a sua percepção fundamental?</strong><br />
-    O meu problema é o seguinte: nós, da esquerda, ainda não dispomos de uma boa teoria sobre o que foi o estalinismo. A Escola de Frankfurt, Jurgen Habermas, todos estavam obcecados com o marxismo e o anti-semitismo, mas não disseram nada sobre o estalinismo. Existe um livro de Herbert Marcuse, mas não é mais do que um interpretação dos textos dos congressos do PCUS. Quando se lê Habermas nunca se poderá adivinhar que, enquanto o filósofo escrevia, existiam duas Alemanhas.<br />
Um amigo da Escola de Frankfurt explicou-me que não analisaram os estalinismo para não parecerem anti-comunistas. Como? Mas se eram abertamente anti-comunistas! Alguns apoiaram a intervenção dos Estados Unidos no Vietname!<br />
Qual é a percepção fundamental da Escola de Frankfurt? O que chamam a dialéctica do iluminismo, significa que existe um potencial opressivo e totalitário no iluminismo moderno europeu. Há melhor exemplo que o Estalinismo? Enquanto o fascismo estava abertamente contra o iluminismo, o estalinismo constituía-se como um iluminismo radical. Não digo que o estalinismo tenha sido melhor que o nazismo, afirmo que há nele algo de enigmático e de desconhecido.<br />
Um detalhe revelador: os presos do Gulag tinham a obrigação de enviar a Estaline telegramas de felicitações pelo seu aniversário. Alguém imagina os judeus de Auschwitz a felicitar Hitler? Pela mesma razão, o nazis não organizaram processos para que os judeus confessassem que participavam numa conspiração mundial contra a Alemanha.<br />
Os estalinistas, pelo contrário, necessitavam de confissões de arrependimento, porque consideravam que um traidor, inclusive, integrava a razão universal e podia ver a sua própria mentira.</p>
<p><strong>-O nazismo e o estalinismo desembocam igualmente num anti-semitismo brutal.</strong><br />
- É a modernidade. Até à Revolução Francesa, o objectivo consistia em baptizar e cristianizar os judeus. Acreditava-se na emancipação. Depois dizia-se que o problema radicava na sua natureza e portanto só restava matá-los.  É curioso, os modernos crêem ser mais “liberais” que os pré-modernos e isso não é assim.</p>
<p><strong>-Auschwitz é a grande tragédia da nossa época.</strong><br />
- Sim. Mas aquilo não pode ser representado como uma tragédia. Já reparou que os melhores filmes sobre o Holocausto são comédias. Filmes como “A Vida é Bela” ou outros italianos, “Sete Belezas”&#8230;<br />
Quando as coisas são demasiado horríveis há que explicá-las no campo da comédia, porque a tragédia requer dignidade. E não houve dignidade em Auschwitz, nem nos juízos do estalinismo.<br />
Na Eslovénia, depois da guerra, tivemos um processo atroz, o chamado caso Dachau. Os sobreviventes do campo de Dachau foram detidos e acusados de cooperar com os nazis, porque se tivessem sido bons comunistas teriam sido mortos. Foram culpados de sobreviver.</p>
<p><strong>-Há dignidade na guerra do Iraque?</strong><br />
- Escrevi sobre isso, utilizando uma velha parábola iraquiana: um tipo queixa-se a um outro, dizendo que lhe devolveu um cantil furado que lhe emprestou. O outro responde que nunca lhe pediu emprestado um cantil. Logo, conclui que o devolveu intacto. E acrescenta que já estava furado quando o levou emprestado.<br />
As justificações de Washington para a guerra do Iraque são igualmente incongruentes. George Bush garantiu que o Iraque possuía armas de destruição maciça. Mais tarde, que ainda que não tivesse essas armas, cooperava com a Al Qaeda e constituía uma ameaça para o mundo. No final, argumentou que Saddam Hussein era um ditador terrível e que isso era razão suficiente para derrubá-lo. Na realidade, as razões eram a extensão da democracia, a demonstração da hegemonia mundial dos Estados Unidos e o controlo do petróleo, argumentos incongruentes entre si que condenavam ao fracasso da invasão.<br />
<strong><br />
-Os Estados Unidos utilizam a tortura na sua “guerra contra o terror”.  </strong><br />
- Estou contra a tortura, mas posso compreender certas situações. Imaginemos um velho exemplo, tenho ante de mim um tipo que sabe onde está sequestrado o meu filho: não posso prometer que não o torturaria pessoalmente até me dar essa informação. O importante é manter a distinção entre um caso desesperado e a legalização da tortura.  Todos sabemos que a CIA é especialista em interrogatórios violentos e brutais, mas não devemos aceitar que se fale da tortura como algo normal.<br />
Alguma coisa está a mudar na moralidade pública nos Estados Unidos. No outro dia, na televisão, um congressista conservador fez o seguinte raciocínio: os nossos prisioneiros eram desde o início “objectivos legítimos” de guerra mas como sobreviveram aos bombardeamentos podemos fazer com eles o que queiramos, já que desde o princípio tínhamos o direito de os matar.<br />
Pôs-se em marcha uma “revolução silenciosa”, as regras fundamentais da ética estão a mudar e nós não queremos sequer estar a par disso.  Sobre isso estou de acordo com Habermas.<br />
<strong><br />
-Habermas está bastante de acordo com o Papa Benedicto XVI. Escreveram um livro a meias.</strong><br />
- Estou de acordo com o diagnóstico de Habermas, mas não com as soluções que propõe. A sua atitude é puramente defensiva: não façamos isto, não façamos aquilo.<br />
Não podemos dizer, como Habermas, que há um limite na eugenésia e não devemos ultrapassá-lo. Temos que reinventar a ética. Hoje é possível implantar um chip num rato e teledirigi-lo. Obviamente, será possível fazer o mesmo com o ser humano.</p>
<p><strong>-Isso é criar um Golem</strong><br />
-Coloca-se uma questão filosófica: como sentirá o ser humano esse controlo remoto? Terá consciência que o controla uma força exterior? Acreditará que é ele mesmo o emissor das ordens? Inclino-me para a segunda hipótese: o ser humano teledirigido não se aperceberá de nada, sentir-se-á livre.<br />
<strong><br />
-Jurgen Habermas propões uma drástica auto-limitação da investigação científica para não destruir a essência do ser humano.</strong><br />
- E isso como se faz? É impossível. Se podem-se manipular os genes, vão ser manipulados. Os chineses já estão a experimentar o controlo remoto do cérebro. Isso espanta muito as pessoas religiosas. No outro dia participei, em Viena, numa mesa redonda em que se encontravam dois Bispos. Perguntei-lhes porque estavam contra experiências com o cérebro. “Porque o homem é uma criatura divina, com uma alma divina, etc”, responderam-me. Mas, se não somos simples mecanismos biológicos, se temos uma alma imortal, podem-nos fazer o que seja ao cérebro. Sobra-nos a alma, não é?<br />
Não, os Bispos são secretamente materialistas e temem que, na realidade, só sejamos o nosso cérebro. Um Bispo bastante esperto observou que o cérebro era um televisor e a alma um descodificador, necessários um ao outro.<br />
Esse foi um argumento inteligente, mas falso. Se um remédio pode fazer-me mais valente, mais lúcido, mais generoso, onde é que fica a ética? Significa que somos só química. Somos então livres? Eu acredito que sim. Mas se bloquearmos a experimentação científica só estaremos a manter uma ficção de liberdade.<br />
<strong><br />
- Cita com frequência Lenine e escreveu um livro sobre ele.</strong><br />
- Muita gente discute sobre a escassa participação das mulheres na política e sobre se convém estabelecer quotas. Zapatero não se entreteve com debates e impôs as quotas. Isso é leninismo: deixemos de esperar pelas condições objectivas, façamos e vejamos se funciona.<br />
Sobre a minha posição política existe uma certa confusão. Escrevi um livro sobre a actualidade do pensamento leninista, mas o que proponho é “repetir” o leninismo no sentido que Walter Benjamin dava à palavra “repetir”. Isso pressupõe reconhecer que Lenine está morto. Não tenho soluções, declaro-me mais pessimista que os partidários das “terceiras vias”. Para mim, Tony Blair é um grande traidor. A esquerda deve ser reinventada.</p>
<p><strong>-Pode-se pensar numa esquerda à margem do capitalismo?</strong><br />
- Há quem considere o meu leninismo como uma provocação. Também há que se ria do “fim da história” anunciado por Francis Fukuyama, mas todos actuamos como se Fukuyama tivesse razão, como se o capitalismo liberal fosse a culminação do progresso. Não estou louco nem preconizo a fundação de um novo partido revolucionário. Só proponho que mantenhamos a mente aberta e não acreditemos que a tolerância, o Estado do bem-estar e as “terceiras vias” constituam valores supremos.</p>
<p><strong><br />
-A respeito do capitalismo ele tem demonstrado uma capacidade enorme de vencer que o pretende contradizer</strong><br />
- Verdade. Vivemos várias vezes a “crise final” do capitalismo. Para Marx foi o imperialismo, para Estaline foi o fascismo&#8230;o capitalismo está sempre em crise e está cada vez mais forte. Agora há bastante gente que acredita secretamente que uma grande catástrofe ecológica acabe com o capitalismo. Pelo contrário, imaginem-se as oportunidades de negócio que se abririam com uma grande catástrofe?</p>]]></content:encoded>
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