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Os selvagens devem ser vestidos (despidos) civilizadamente

15 de Dezembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Sobre o espectro do lenço islâmico que assola o 5 Dias vou dar a minha opinião.

1.Durante dezenas de anos o lenço islâmico não incomodou. Hoje, em virtude do progresso (segundo o António Figueira), o lenço passou a ser uma questão fundamental.
Em França impede-se a entrada na escola a raparigas com lenço islâmico, no Reino Unido foi despedida uma professora que se recusou tirar o lenço nas aulas e na Holanda pretende-se proibir as mulheres de o usarem nas ruas. Esta polémica não é independente do contexto da “luta contra o terrorismo”, da confusão feita entre terroristas e muçulmanos, da defesa da “Europa Fortaleza”, do conceito da Europa cristã e da consequente afirmação que o islamismo é uma religião “estrangeira” usada por hordas de imigrantes invasores, pobres e ignorantes (basta ler o “Raiva e Orgulho”, da finada Oriana Fallaci, para compartilhar pitorescas e escatológicas descrições de como os imigrantes árabes profanam os monumentos de Florença com a sua presença, os seus sexos e a sua urina, para encontrar uma expressão simplista dessa doutrina).
Não é, portanto, de admirar que um porta-voz do Vaticano tenha dito que na ‘Europa os muçulmanos deviam abster-se de usar o véu, pois estavam em países de tradição cristã’. Aliás, em matéria de controlo de vestuário, a Santa Igreja Católica tem uma longa tradição. Passou séculos a obrigar as aborígenes da Polinésia e de outros sítios a cobrir os seios (são sobre isso algumas das descrições mais cómicas do livro de Vargas Llosa sobre Paul Gauguin) e agora descobre a sua verdadeira vocação: tirar roupa às muçulmanas.

2.O Estado não é fiscal de vestuário. Tem apenas a obrigação de legislar de modo que as mulheres, muçulmanas ou não, não possam ser obrigadas a usar uma qualquer peça de roupa, mas não deve proibir que, caso o queiram, as usem.
As jovens muçulmanas da Europa vivem em países onde vão à escola, trabalham, votam e vêem televisão. Se algumas delas escolheram livremente usar o lenço islâmico, a sociedade deve proteger essa escolha.
Muita gente contesta esta posição, garantindo que as mulheres muçulmanas não são realmente livres e estão coagidas pela sua cultura e pela sua família. Como se as jovens muçulmanas fossem as únicas que tivessem família, tivessem nascido numa cultura e sido influenciadas por uma sociedade. Como se todas as escolhas “livres” (as nossas e as dos outros) não fossem feitas nesse contexto.
Tentar, a respeito desta discussão, colocar o lenço islâmico, a excisão genital e a pena de morte no mesmo saco é uma falácia. Nós todos respeitamos códigos de conduta e, em matéria de vestuário, o próprio António Figueira quando vai trabalhar é “obrigado” a usar fato e gravata e não lhe passa pela cabeça que isso seja igual a cortar uma parte do corpo. O maior perigo de vida que com isso corre é engasgar-se ao almoço.

3.No fundo, o que está aqui em causa é a vetusta ideia que há civilizações e culturas superiores a outras. Parece-me óbvio que há melhorias no mundo: a abolição da pena de morte, os direitos e liberdades. Mas esses progressos não são inerentes a uma etnia ou a uma cultura, são fruto de determinadas condições sociais e históricas: tempos houve em que os povos muçulmanos eram mais tolerantes para com as outras religiões, culturas e ciência do que os católicos. Hoje a França é mais tolerante do que o Afeganistão.
A ideia de povos e civilizações “superiores” é perigosa. Até porque foi a “nossa civilização” superior que inventou os campos de concentração, a solução final, a bomba atómica. Como dizia Edward Said, na sua conferência sobre “O Mito do Choque de Civilizações”, a propósito de uma conhecida passagem do artigo de Bernard Lewis intitulado de Roots of Muslim Rage (em que este defendia a “nossa” civilização judaica-cristã contra os “outros”), “quando ouvimos a palavra ‘nossa’ é melhor fugirmos pela porta de saída”.

4.Finalmente, essa ideia da evolução do inferior para o superior e da inevitabilidade do progresso, tão cara ao iluminismo e ao positivismo, parece-me muito duvidosa. Ainda mais perigosa quando se torna doutrina republicana de Estado com pretensão de educar à força os selvagens. A esse respeito, compartilho das preocupações de Walter Benjamin quando escreveu, em “Le Surrealisme. Le dernier instantané de l’inteligence européene” : “ Pessimismo em toda a linha. Sim, sem duvida, e completamente. Desconfiança em relação ao destino da literatura. Desconfiança em relação ao destino da liberdade. Desconfiança em relação ao destino do homem europeu; sobretudo três vezes desconfiança em relação à possibilidade de qualquer solução – entre as classes, entre os povos, entre os indivíduos. Só confiança ilimitada na I. G Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Lufwafe” (este texto foi escrito em 1928 e fala da empresa que 12 anos depois ia comercializar o Zyklon B, usado no genocídio dos judeus e o aperfeiçoamento pacífico da Lufwafe foi o que se sabe…).

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Alain Badiou:Por detrás da lei do lenço islâmico, o medo

9 de Dezembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Para contribuir para a discussão sobre o lenço islâmico suscitada pelos textos da Joana Amaral Dias e António Figueira comecei a traduzir um texto que o filósofo francês Alain Badiou publicou no Le Monde. Infelizmente, não tive tempo para traduzir os 17 mil caracteres. Deixo aos leitores a parte traduzida , mais o orginal em francês e uma versão em inglês. Parece-me suficientemente interessante, para continuar a aprofundar a discussão. Aproveitando os próximos dias, pretendo escrever qualquer coisa sobre o assunto.
TEXTO DE ALAIN BADIOU.

Le Monde, 22/3/2004

1. As amáveis republicanas e republicanos defenderam um dia que era necessária uma lei para proibir todos os lenços muçulmanos sobre os cabelos das raparigas. Em primeiro lugar, na escola, depois se possível em todo o lado. Que digo eu, uma lei? Uma Lei! O presidente da República que era um político tão limitado como insubmersível. Totalitariamente eleito por 82% dos eleitores, entre os quais todos os socialistas, gente em que é recrutada um número razoável dos amáveis republicanos em questão, decidiram legislar sobre a roupa: uma lei, sim, uma Lei, contra o pequeno milhar de jovens que colocam o lenço islâmico sobre a cabeça. As peladas, as atrevidas! Muçulmanas, ainda por cima!
É assim, mais uma vez, na linha da capitulação de Sedan, de Pétain, da guerra da Argélia, dos pequenos golpes de Miterrand, das leis celeradas contra os operários sem papeis, a França surpreende o mundo. Depois da tragédia, a farsa.
2. Sim, a França conseguiu finalmente encontrar um problema à sua altura: o lenço que cobre a cabeça de algumas jovens. Podemos dizer, a decadência deste país parou. A invasão muçulmana, há muito tempo diagnosticada por Le Pen, e hoje confirmada pelos intelectuais indubitáveis, encontrou a sua resposta. A batalha de Potiers não passava de tremoços, Carlos Martel, uma segunda faca. Chirac, os socialistas, as feministas e os intelectuais Iluministas cheios de islamofobia ganharam a batalha do lenço islâmico. De Potiers ao lenço, a consequência é boa e o progresso considerável.
3. A causa grandiosa tem argumentos de novo tipo. Por exemplo: o lenço deve ser proscrito porque é o sinal da dominação do machos (o pai, os irmãos) sobre as jovens e as mulheres. Aquelas que se obstinam a usar o lenço têm que ser excluídas. Resumindo: as jovens e as mulheres são oprimidas. Logo, devem ser punidas. É como se disséssemos: “Esta mulher foi violada, tem que ser presa”. O lenço islâmico é tão importante que merece uma lógica de axiomas renovados.
4. Se, pelo contrario: são elas que querem livremente usar o maldito lenço islâmico, as rebeldes, as patifes! Devem ser punidas. Esperem: isso não é um sinal de opressão pelos machos? O pai e os irmãos não são para aqui chamados? De onde vem, então, a necessidade de proibir esse lenço? É que ele é ostentatoriamente religioso. As patifes “ostentam” as suas crenças. Ao castigo, já!
5. Ou é o pai e os irmãos, e em nome do feminismo o lenço deve ser arrancado. Ou é a própria jovem segundo a sua crença, e devido ao laicismo o lenço deve ser arrancado. Cabeças despidas! Por todo o lado! Que todo o mundo, como se dizia antigamente – mesmo os não muçulmanos – saiam “em pelo”.
6. Tomem nota que o pai e os irmãos da jovem do lenço muçulmano não são simples comparsas familiares. Insinua-se muitas vezes, chega-se mesmo a declarar: o pai é um operário embrutecido, um pobre tipo vindo directamente da aldeia e preso às linhas da Renault. Arcaico. Mas estúpido. O irmão mais velho negoceia shit. Moderno. Mas corrompido. Subúrbios patibulares. Gente perigosa.
7. A religião muçulmana junta às taras das outras religiões, uma gravíssima: é, neste país, a religião dos pobres.
8. Imaginemos o reitor dum liceu, seguido de um esquadrão de inspectores munidos de réguas, tesouras e livros de jurisprudência: para verificar à porta do estabelecimento se os lenços, as kippas e outra coberturas são “ostentatórias”. Este lenço grande como um selo dos correios? Esta Kippa como uma moeda de dois euros? Perigoso, muito perigoso. O minúsculo poderá muito bem ser a ostentação do maior. Mas, que vejo eu? Bolas! Um chapéu alto! Hélas! Mallarmé, interrogado sobre o chapéu alto, disse: “Quem colocou uma coisa dessas não a pode tirar. O mundo acabará, não o chapéu.” Ostentação de eternidade.
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Velado

22 de Novembro de 2006 por Joana Amaral Dias

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                                         PROÍBA-SE!

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O debate em torno do véu islâmico regressou. Primeiro, foram as declarações de Jack Straw e de Blair. Este último considerou o véu uma “marca de separação”, defendendo a decisão de suspender uma professora, que se recusou a tirar o niqab na sala de aula. Romano Prodi, instado a comentar as afirmações de Straw, afiançou que “Não estamos a falar do que as pessoas vestem, mas se estão ou não a esconder-se”. O seu vice- primeiro ministro admitiu, então, legislar sobre essa matéria. Há uma semana, o Vaticano afirmou que os imigrantes devem “respeitar as tradições, os símbolos, a cultura e a religião dos países para onde se mudam” (!) Na passada sexta-feira, na Holanda, a ministra para a imigração Rita Verdonk, anunciou intenção de interditar o uso do véu em público.

Como muitos saberão, a controvérsia sobre o véu começou em 2003, quando a França proibiu o hijab nas escolas públicas. Seguiu-se a inibição em alguns estados da Alemanha e na Bélgica. Em Maaseik, designadamente, o uso da burqa em público é punido com uma multa de 125 euros.

Não obstante o facto do véu ter significados muito diferentes, há quem o considere “um símbolo de estagnação nos sistemas políticos árabes”, como afirmou Elham Manea ao jornal Público de Domingo. Um atentado contra o secularismo. Neste prisma, o uso do véu é encarado como uma diferenciação inaceitável, relacionada com o fundamentalismo islâmico e com a humilhação da mulher. Os que sustentam esta opinião, dizem que são a favor do laicismo e argumentam que a proibição do véu faz parte do caminho para o secularismo. Do outro lado, posição com a qual- apesar de tudo – me identifico mais, há quem considere o uso do véu um direito na medida em que é um sinal distintivo das confissões. Argumenta-se que a proibição do véu apenas faz com que a sociedade perca “em direito de escolha”.

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Uma das razões pelas quais tendo para esta última posição é porque, de facto, a proibição do véu tem por fundamento a islamofobia e não a verdadeira promoção da laicidade na escola pública ou dos direitos das mulheres. Não me revendo no relativismo cultural, noto que em França, berço desta senda, continuam a persistir lacunas graves no acesso à cidadania para os imigrantes e seus descendentes, tanto quanto na promoção do cosmopolitismo. Pierre Tévanian, autor de Le Voile Médiatique, aqui citado, considera que a polémica sobre o uso do véu revela “um racismo pós-colonial arreigado que cruza todas as formações políticas e sociais, mesmo as mais progressivas”. Asma Barlas, autora de Believing Women in Islam, afirma que: “quanto aos não muçulmanos obcecados com o véu, há mais medo da diferença do que uma preocupação com a integração (…) [os debates sobre o véu] parecem ser representações culturais do Ocidente para si próprio”.

E estou mais próxima desta opinião também porque observo os resultados, concluindo que, realmente, com a proibição do véu aumentou a guetização das escolas, algumas mulheres muçulmanas ficaram ainda mais isoladas, com menos oportunidades na sua emancipação, consolidou-se a visão do véu enquanto símbolo identitário. Com a polémica instalada no Reino Unido, por exemplo, oito dias depois das declarações de Straw – como relatava o Público (19/11) – a BBC falou com os donos do Centro Hijab. Esta loja, um grande espaço comercial dedicado à venda de véus, tinha registado um importante aumento das vendas.

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O artigo da jornalista e investigadora francesa Naima Bouteljda, publicado no The Guardian de ontem, é imprescindível. Na Holanda, a proibição do véu afectaria apenas 100 mulheres. Em Itália o véu é utilizado por 50 mulheres. Nas escolas públicas francesas, dos 10 milhões de alunos, apenas 1000 usavam o dito lenço. Depois das declarações de Sarkozy, o grande responsável pela proibição em França, a bolha rebentou na comunicação social. Em 2003, e em três jornais – Le Monde, Libération e Le Fígaro- foram publicados 1284 artigos sobre este tema. Naima Bouteljda relembra que sobre a reforma da segurança social, que trouxe milhares de pessoas às ruas, apenas 478 artigos foram publicados.

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Como diz a autora: “em cada país europeu, a véu-mania parece seguir um padrão semelhante: uma declaração pública de um político proeminente resulta numa resposta política e mediática frenética, desviando convenientemente a atenção de medidas governamentais impopulares ou de crises políticas”.

O debate iniciado em França surgiu desse modo. Nem em França nem nos restantes países europeus existe ou existia, propriamente, um movimento cívico ou uma vox pop acerca desta questão. Nem exigências da parte de professores ou outros agentes educativos. Antes da comissão Stasi, a opinião pública estava dividida. Depois de todo o tal frenetismo, 76% defendiam a proibição. 

O resultado destas medidas, que são mais sobre a sujeição aos costumes da maioria do que à lei nacional, agora em escalada – já que a promessa holandesa é banir a niqab e a burka em todos os espaços públicos e não apenas nas instituições públicas – tem sido desastrosos, como já mencionei. Além disso, se a comissão Stasi incluía outras recomendações para a promoção do secularismo – como a inclusão nos currículos escolares da escravatura e da colonização – praticamente só a proibição do uso do véu foi levada em linha de conta.  A jornalista conclui que quanto mais se alimentar esta histeria, “mais parece que um consenso islamofóbico pan-europeu está a ser construído, enquanto os políticos procuram bodes-expiatórios para os problemas sociais e pretextos para legislar no âmbito a guerra contra o terror”. Nem mais. 

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  Quero continuar a ter o direito a andar na rua de capuz e de óculos escuros, simultaneamente e sempre que me apetecer. Obrigadobebe-oculos.jpg

  

   

 

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