30 de Outubro de 2008 por João Branco

A semana passada foi posta em funcionamento em Serzedo, Vila Nova de Gaia, a maior fábrica de bicicletas da Europa.
É irónico que, no país que em 2009 será o maior produtor do continente, com uma indústria que dá emprego directo a dezenas de milhares de trabalhadores, o velocípede tenha a misteriosa propriedade da invisibilidade.
- Ninguém pode andar de bicicleta em Lisboa.
- Eu ando.
- Vais ver quando chegar o frio do Inverno / calor do Verão / emprego de fato / chuva dissolvente!
- [...]
A invisibilidade velocípede é uma invisibilidade estranha, porque é activada no sujeito observante, não é uma propriedade directa do objecto da observação. Precursão de incapacidade cognitiva seria uma designação mais precisa.
Quando se fala na sua utilização, lestamente se erguem espantalhos de palhas, para logo serem ferozmente estralhaçados. “Ignoro a existência ergo não existe ergo não posso aceitar provas de que existe” - o mecanismo é uma espécie de raciocínio circular reminiscente da caverna de Platão. Só posso especular sobre as razões para este fenómeno: dizem-me que há 40 anos uma senhora só podia andar de bicicleta às escondidas … Mas 40 anos são muito tempo, e eu estou convencido que a verdadeira razão é uma outra paixão, uma obcessão ofuscante.
Mais irónico é que esta cegueira seja consciente, pelo menos nos organismos públicos. E é esse o assunto com que me estreio nesta casa.

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tags: políticas, Transportes
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2 de Outubro de 2008 por Filipe Moura
O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, queria uma linha a percorrer a avenida da Boavista. Mas o governo central não lhe fez a vontade, e avança antes com uma linha a percorrer a rua do Campo Alegre. Seguiu o parecer da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que afirma que esta opção trará mais utentes. E contrariou a câmara. Um exemplo para os defensores da regionalização. Deve ser por isso que aqui ainda não se escreveu uma linha sobre este assunto.
tags: Regionalização, Transportes
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22 de Setembro de 2008 por Filipe Moura
Mais uma vez, o “Dia sem carros” que, em Lisboa, consiste em fechar o trânsito entre o Rossio e o Terreiro do Paço. De utilidade muito duvidosa esta medida. Bem mais úteis são as medidas anunciadas para o transporte público nocturno ao fim de semana e véspera de feriado. De parabéns a Câmara Municipal de Lisboa, Secretaria de Estado dos Transportes e Ministério da Administração Interna.
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
tags: ecologia, Lisboa, Transportes
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6 de Junho de 2008 por Filipe Moura
Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto - já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o “mata-mouros” que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): “É tudo uma questão de status”. Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem “status” - e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles “não funcionam bem” (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o “relevo de Lisboa” (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o “status”! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto “feminismo” pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.
tags: ecologia, Transportes
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6 de Maio de 2008 por Filipe Moura
Há sessenta anos que há aeroporto na Portela, e há cinquenta que há metropolitano em
Lisboa. Há quantos anos há metro no aeroporto (dentro da cidade)? Ainda não há; estão a construí-lo. Há cinquenta anos que os utentes do Aeroporto de Lisboa poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação do aeroporto existisse. Não existe, e os autocarros são escassos e não estão preparados para bagagens – na sua maioria, os utentes têm que ir de carro ou táxi. Parece que a estação de metro finalmente vai ser inaugurada… pela mesma altura em que o aeroporto da Portela supostamente será desactivado.
Não sei há quantos anos existe a estação de comboios de Santa Apolónia, mas foi muito antes de haver metro. Desde que há metro que os utentes da estação de Santa Apolónia poderiam usar o metro para lá chegar – se a estação de Santa Apolónia existisse. Já existe: foi inaugurada há quatro meses. Construí-la foi uma monumental obra pública, que teve seriíssimos problemas durante a sua execução, demorou anos e anos e custou o triplo ou o quádruplo do inicialmente previsto. E quatro meses depois de inaugurada a conclusão de tão longa empreitada, tão trabalhosa, tão cara e tão custosa para os lisboetas, qual é a ideia? Encerrar a estação de Santa Apolónia à actividade ferroviária (e guardá-la para “terminal de cruzeiros” – é bem sabido que quem faz cruzeiros em Portugal anda de metro todos os dias). Digam lá – há coisa mais bem planeada que o metro de Lisboa? Haverá pessoas mais iluminadas que os autarcas de Lisboa?
tags: ecologia, Transportes
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