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COMENTÁRIOS

avante!? só se for para trás… :(

29 de Junho de 2009 por zenuno

[ artigo original do jornal www.avante.pt ]

Irão acusa imperialistas de ingerência

O Conselho dos Guardiões rejeitou anular as presidenciais iranianas das quais resultou a reeleição do actual presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad, com quase dois terços dos votos, contra pouco mais de um terço do seu principal opositor, Mir-Hossein Mousavi.
De acordo com informações fornecidas pela máxima autoridade constitucional iraniana, as irregularidades registadas no sufrágio do passado dia 12 não são suficientes para anular a consulta em que participaram mais de 40 milhões de pessoas. Apesar de em 50 dos mais de 360 distritos eleitorais iranianos terem sido registados mais votos que votantes, num total de aproximadamente três milhões, o Conselho sublinha que o resultado não se altera a favor de Mousavi, uma vez que este foi derrotado nas urnas por mais de 11 milhões de votos de diferença, explica. Acresce que a maioria das queixas da oposição refere-se a alegadas irregularidades anteriores à realização da consulta, diz ainda o Conselho.
Simultaneamente, continuam nas ruas do Irão os confrontos envolvendo as autoridades, partidários de Mousavi e apoiantes de Ahmadinejad. Apenas estes últimos acatam a proibição dos protestos decretada pelo governo para evitar tumultos. Segundo dados oficiais divulgados pela imprensa iraniana, citados pela Prensa Latina, em mais de uma semana de crise política morreram 19 pessoas, mil foram feridas, entre as quais 400 polícias, e 457 foram presas.
O governo iraniano diz que os detidos são agitadores ao serviço de potências estrangeiras e, face à colossal mobilização de meios contra o regime (milhões de dólares investidos pela CIA, manipulação de informação, instrumentalização de plataformas de comunicação para difundir uma situação de aparente caos e mobilizar sectores da população com base em boatos), acusa o imperialismo de ingerência nos assuntos internos do país.
EUA, Alemanha, França e Grã-Bretanha estão apostados numa campanha para derrubar o governo do Irão, que depois de convocar vários embaixadores estrangeiros acreditados em Teerão para os esclarecer sobre a situação, equaciona rever as relações com as três potências europeias.

sem mais comentários meus.

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Golf Courses Destroying Iberian Water

26 de Março de 2009 por bicyclemark

A report from the European Environment Agency points to water use in southern Europe, specifically the unsustainable building of more golf courses and swimming pools in the south of the Iberian Penninsula. While on the European Union level much attention is given to finding new sources of water and increasing access, the report points out the little is done to address water use through conservation.

The EEA points to one regional example:

Taking Spain’s Júcar River Basin as an example, it points out that 55 new golf courses are planned there in addition to the existing 19. Each golf course typically uses 500,000 m3 of water. On top of this, huge amounts of water are needed to fill up swimming pools for tourists.

Anyone who’s made their way around the South of Portugal and Spain has seen the rabid growth of golf courses and elaborate swimming pools.  The neverending push for more tourism and more luxurious water consuming activities has rarely taken stock of the way the region would be effected by the increase in use.

The report doesn’t only look at recreation, agriculture is also brought into question in terms of water use and efficiency.  To learn more, read the study.

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Da tradução para o acordo ortográfico

8 de Outubro de 2008 por Filipe Moura

Não sei se seria essa a intenção original do autor, mas como comentário (assinado por “Antónimo”) ao texto da Fernanda encontra-se um excelente argumento a favor do acordo ortográfico da língua portuguesa. Passo a transcrevê-lo (ligeiramente adaptado para este contexto):

Embora as editoras mais do que abusem (por exemplo, é raro pagarem direitos de autor – só o fazem a consagrados -, escondem as vendas a sete chaves e os livros que saem aí com jornais e revistas – tiragens de 30 mil exemplares – têm um custo de produção de 90 cêntimos) é um bocado complicado os livros em português ficarem ao preço de um da Penguin, não é?
Uma Guerra e Paz da Penguin, em inglês tem centenas de milhões de leitores. Até podiam dar os livros que não se sentia. Não há direitos de autor e imagino que as traduções foram pagas há décadas. Se os nossos leitores ainda preferem ir comprá-los em vez dos desgraçados três mil exemplares que a exemplar tradução portuguesa não esgota, mesmo se publicada desde 2005, a coisa piora.
No fundo, paga 15 euros por uma coisa que não custou nada a produzir em vez de pagar 60 euros por algo que custou consideravelmente mais.

Pois é, Fernanda, o que falta para termos livros baratos em português é um verdadeiro mercado global do livro em língua portuguesa!

(Já agora: à entrada da livraria do Instituto Superior Técnico está um anúncio desta editora onde ela se gaba de publicar “autores nacionais”, e recomenda aos estudantes que escolham os livros por ela publicados em detrimento das “traduções brasileiras” (inclui mesmo a frase “Não estudes por traduções brasileiras!”). Esta editora tem desenvolvido um trabalho meritório na publicação de bons livros técnicos de autores portugueses. Mas precisava de os “promover” utilizando um “argumento” tão mesquinho e rasteiro?)

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Esta não é a Ana Sá Lopes

20 de Agosto de 2008 por Filipe Moura

Ainda o assalto à agência de Campolide do BES. Numa crónica no suplemento Gente do DN de sábado, Ana Sá Lopes insurge-se contra quase toda a opinião publicada na imprensa e na blogosfera, que apoia incondicionalmente a suposta arbitrariedade da polícia, sendo que praticamente a única excepção viria da parte de João Miranda, no DN e no blogue Blasfémias. “Esta não é a minha polícia”, afirma a jornalista, indignada, e pede ao ministro da Administração Interna que diga ou faça alguma coisa “de esquerda”.
Ninguém deveria ter ficado feliz com a morte do sequestrador. É verdade que muitos comentadores parecem ter ficado, mas tal não resulta de se aceitar a acção da polícia neste caso. Eu e muitas outras pessoas apoiámo-la como mais um entre tantos males que infelizmente por vezes são necessários, mas sinceramente lamento a morte (e como eu, tenho a certeza, muita gente). Ler o resto »

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we are the web (net neutrality)

6 de Maio de 2008 por zenuno

A Net Neutrality Message for Everyone: We Are the Web
The issue of net neutrality is reaching a boiling point, and the results will affect every Internet user in the US. We Are the Web is here to raise awareness with the help of some of the web’s biggest names: Leslie Hall, The Tron Guy, and Peter Pan. Check out the music video, and share this important message.

Esta é uma mensagem a pedir a neutralidade da net nos EUA.

É um assunto que infelizmente em Portugal não é aparentemente falado e que na minha opinião é bastante real a falta dessa neutralidade.
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Retratos do trabalho na São Caetano à Lapa

30 de Abril de 2008 por Filipe Moura

Os apoiantes de Manuela Ferreira Leite querem um souvenir (TM).

(Foto do DN.)

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Viva a liberdade, viva a igualdade, viva a democracia

25 de Abril de 2008 por Filipe Moura

Existe a tendência de chamar ao 25 de Abril o Dia da Liberdade. É verdade que, durante o fascismo salazarista, o bem mais escasso, o bem mais reprimido, era a liberdade. Não havia liberdades políticas, liberdades cívicas, liberdades mínimas. Porém, num regime totalitário existe sempre uma classe para quem tudo é permitido. Para essa classe a liberdade existe, e é uma liberdade que não conhece limites. Que se confunde com prepotência. Que não acaba nos limites dos que não a têm, ou seja, é uma liberdade que não é admissível numa democracia. No fascismo salazarista, a liberdade era para muito poucos; com o 25 de Abril, a liberdade passou a ser para todos. E isto é liberdade, mas também é igualdade. É a esta combinação que se chama democracia, e é esta a grande conquista do 25 de Abril. Por isso, a meu ver o 25 de Abril deveria chamar-se não Dia da Liberdade, mas Dia da Democracia.
Não é correcto associar-se o 25 de Abril somente à liberdade (ignorando a igualdade) porque, como é bem sabido (na blogosfera é o que não falta) há muita gente que defende a liberdade e não quer nada com a igualdade. A recente (com pouco mais de um ano) campanha para o branqueamento do ditador Salazar, que culminou na sua designação como “O Maior Português” num programa de televisão, teve origem na blogosfera que só defende a liberdade (mas que eu nunca vi defender a democracia). Aliás eu tenho cá para mim que a maior ameaça à democracia, presentemente, provém (não só em Portugal) dos chamados “libertários”, os defensores incondicionais da liberdade. Eles próprios dizem: o 25 de Abril não é o dia deles.
A liberdade não pode ser ilimitada, porque acaba por colidir com a liberdade dos outros. Só pode ser irrestrita quando tal não originar conflitos com a igualdade. Senão, tal viola a democracia. Sobretudo, a mais liberdade corresponde sempre mais responsabilidade. Querer mais liberdade só por querer tem sempre outras consequências. Para o indivíduo e para todos. Pensem nisto.
Bom 25 de Abril.

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Miguel Sousa Tavares: uma sociedade sem deveres

8 de Abril de 2008 por Filipe Moura

Não tenho tido oportunidade de escrever sobre as propostas de lei do casamento civil do PS e do Bloco de Esquerda. Mas subscrevo quase todo o conteúdo do último artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso. Para não entrar numa outra discussão que agora não vem a propósito, transcrevo-o omitindo uma pequena parte.

Uma sociedade sem deveres
Começo por apresentar o meu cadastro ‘fracturante’: fui sempre a favor da despenalização do aborto, porque nunca entendi que a maternidade pudesse ser imposta como um castigo a quem engravidou sem querer, ou o aborto, nessas circunstâncias, fosse tratado como um crime; sou a favor da equiparação de direitos entre as uniões de facto e os casamentos – mas sou contra a transposição integral dos direitos do casamento para as uniões de facto, que é um regime onde apenas existem direitos e não existem deveres; sou a favor do casamento entre homossexuais, exactamente porque a simples união de facto, ainda que com deveres consagrados legalmente, não lhes permite aceder a um regime em que possam ter todos os direitos conjugais e respectivos deveres, apenas porque é diversa a sua orientação sexual; (…) sou contra ‘o fim do divórcio litigioso’, tal como previsto no projecto chumbado do BE e a ser retomado em breve pelo PS, em moldes semelhantes. Em matérias ditas fracturantes, estou assim completamente fracturado. Mas tenho a presunção de manter alguma coerência neste ziguezague ideológico: defendo os regimes em que existem direitos a que correspondem obrigações. Rejeito aqueles em que apenas existem direitos sem deveres.

A lei actual prevê que, não havendo acordo para um divórcio por mútuo consentimento, o cônjuge que se ache não culpado da situação de ruptura conjugal possa intentar contra o outro uma acção de divórcio litigioso, com fundamento em qualquer facto que, pela sua gravidade, comprometa a possibilidade de continuidade da vida comum, designadamente a violação dos deveres de coabitação, assistência e fidelidade. Num mundo perfeito e numa situação serena, esta possibilidade deveria manter-se letra morta, porque um divórcio litigioso nunca aproveita a ninguém: nem ao requerente, nem ao requerido, nem, sobretudo, aos filhos comuns. Mas, apesar de tudo, há alguma salvaguarda que a lei garante ao cônjuge declarado não culpado de um divórcio litigioso – na partilha de bens, por exemplo – e é legítimo que quem não teve culpa no divórcio possa reclamá-la para si. E, acima de tudo, existe uma razão de ordem pessoal e íntima para que alguém recuse divorciar-se contra sua vontade ou, no limite, só aceite fazê-lo de forma litigiosa e pedindo ao tribunal que declare então o outro culpado pela ruptura: acontece com os que pensam que o casamento é um contrato inquebrável, até à morte, e que defendê-lo sempre, por mais difíceis que sejam as circunstâncias, é um dever e um direito que lhes assiste. Eu não penso assim, mas não me sinto no direito de impor o que penso aos casamentos alheios. Ler o resto »

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Trinta anos a ser sustentado por todos os portugueses

17 de Março de 2008 por Filipe Moura

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A receber o que Alberto João Jardim todos os anos recebe do “continente”, qualquer um teria a “obra feita” (que eu em parte admito que ele tenha). O que nem toda a gente faria era manter um controlo policial sobre a ilha, controlar a imprensa, pagar a colunistas e manter sob seu controlo (como empregador) um quarto da população. Mas parece que agora já não lhe chega o subsídio: quer mais dois mil euros do Daniel Oliveira (fora os juros) a título pessoal.

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Grandes liberais e pequenos vigaristas (2)

25 de Fevereiro de 2008 por Filipe Moura

Não há nenhuma reacção especial a registar na blogosfera ao meu texto Grandes liberais e pequenos vigaristas. No Blasfémias, Carlos Abreu Amorim bem se enrola em argumentação da “teoria liberal”, mas não consegue refutar um facto simples: a liberdade do consumidor fica salvaguardada retirando-se por completo o couvert da mesa. Qualquer couvert colocado a priori significa uma coacção. Tal como na questão do tabaco, Carlos Abreu Amorim só se preocupa com a liberdade dos donos dos restaurantes. Eu preocupo-me com os consumidores.

Bem mais interessantes foram as discussões nas caixas de comentários. Aqui no Cinco Dias o estimado Dorean Paxorales lembrou que  

Por exemplo, o português que visita o R.U. ou os E.U.A. também não sabe que há um custo adicional à refeição: é a gorjeta obrigatória que vai pagar o salário ao empregado. Parece-me um hábito mais vigarista pois, acabada a comezaima, já não se pode mandar nada para trás. E ainda por cima é contemporizador de uma filosofia contratual que me parece injusta. 

Devo esclarecer que estou completamente de acordo com o Dorean na sua apreciação ao sistema de gorjetas nos países anglo-saxónicos, algo que me incomoda bastante. Mas há uma diferença importante em relação ao caso português: o sistema é sempre o mesmo. O cliente pode sentir-se surpreendido na primeira vez, mas a partir daí já sabe sempre com o que conta. Pode sentir-se então revoltado (como eu me sentia nos EUA), mas nunca mais se sente enganado. A lei é a mesma, provavelmente estabelecida pelo governo central (estadual, nos EUA). Na pátria do liberalismo!Já em Portugal a regra varia de restaurante para restaurante: há os que só colocam pão e manteiga, e há os que colocam queijo, presunto e entradas mais caras. Há os que, honestamente, só cobram os bens consumidos, e há os que cobram um misterioso “couvert” onde cabe tudo, tenha sido consumido ou não. Há diferentes procedimentos perante a mesma lei, pelo que se justifica a intervenção do governo. 

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Grandes liberais e pequenos vigaristas

22 de Fevereiro de 2008 por Filipe Moura

Há alguns indícios claros de que somos um povo de pequenos vigaristas. Um deles é a forma como esses pequenos vigaristas que são os programadores televisivos nos aldrabam deliberadamente todos os dias comunicando-nos programas que sabem que não vão transmitir em horários que sabem que não vão cumprir, de forma a forçarem-nos a ficar agarrados à espera deles e a ver o que não nos interessa. E a outra é esse hábito extraordinário de, no restaurante, nos colocarem na mesa artigos que não pedimos, obrigando-nos a ter que os mandar para dentro se não os quisermos pagar. São dois hábitos que não ocorrem com mais nenhum povo civilizado, e que me fazem seriamente duvidar de que mereçamos pertencer a esta categoria.

O último hábito, o de impingir entradas nos restaurantes, é particularmente significativo. Ler o resto »

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No metro

8 de Janeiro de 2008 por António Figueira

Uns palmos debaixo da terra, eu a ir para a Duque de Loulé e ele para o Saldanha, cruzo-me com o J., meu colega no 6.º e 7.º anos do liceu e parceiro de canasta nos interins. Ambos gordos e já meio-acabados, sabíamos pouco um do outro: ele a julgar-me ainda no Palais des Besoins, eu a julgá-lo atrás de uma farta banca de advogado. Pois nada disso, eu agora vendo os meus magros talentos ao grande capital (so to say) e ele vai exportar-se para Fortaleza (CE), tentar a inutilidade sob os trópicos (pretexto: gestão hoteleira). Eu contra o ócio não tenho nada, pelo contrário, sabe-me sempre a pouco, e se há alguém que o mereça é o J., que já há trinta anos me impressionava pelo fôlego das suas leituras (ainda lá tenho em casa uma edição da Grundrisse assinada pelo seu punho que eu, uma vez, para imitar um personagem de romance que lia Hegel no metro parisiense e muito me impressionava, levei para o Guincho numa tarde ventosa, e na qual pespeguei uma nojenta e sempiterna nódoa de protector solar); do que eu suspeitava mesmo era do interesse de Fortaleza & do seu sertão, uma paisagem desoladora que me parecia (e parece) um degredo sem sentido, tipo Zabrisky Point. Aí o J. fez uma observação sagaz: que a paisagem é para ver nos filmes, ou melhor, de modo fílmico (to be watched, not seen), que, como dizia o grande Eça, um homem não pode gastar os anos a cantar as veigas do Mondego, e que o que interessa mesmo é a ilha em que vive e de que faz a sua casa. Ah J.!, sempre filósofo, explicaste-me nesse instante o segredo de Portugal, país feio, de paisagem arruínada, mas onde nós nos sentimos bem saltando de ilha em ilha, entre o nosso próprio refúgio e o refúgio de outros parecidos connosco, a quem nós chamamos os nossos amigos, fechando os olhos (e tapando o nariz) in between. -Não achas que há alguma coisa de árabe em tudo isto?, perguntei-lhe eu, -Talvez, disse ele, de sueco é que não há. Trocámos cartões, com sorte voltamos a ver-nos daqui a uns anos.

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Dizer mal, desporto nacional – ou a prosa neotrovadoresca no português contemporâneo

12 de Julho de 2007 por Marta Rebelo

Quando há cerca de dois meses a Fernanda Câncio me dirigiu o colectivo convite de ser a «quinta-feira» do Cinco Dias, aceitei sem pensar, mas também a pensar nesta coisa magnífica que são as caixas de comentários. A Fernanda, vítima habitual dos predadores anónimos – e outros nem tanto – da blogosfera, dizia-me que a coisa habitualmente não corria mal. Mas a verdade é que no meu blogue (linha.de.conta) não há caixas nem caixotes, há um e-mail e quem quiser comentar, para lá comente.
Acontece que é diversão nacional dizer mal, sabe melhor ao palato verbal dizer mal do que dizer bem, e há alvos e alvos. É genético, séculos de herança cultural. Já os Trovadores, que tinham grande liberdade de expressão – comecem, então, as hostilidades: venham lá os «tiques de autoritarismo», a «intimidação» e a «crise da democracia», porque a autora até é socialista, e gostam tanto de, volta não volta, dizê-la menina de fretes e do aparelho –, e entravam em questões políticas, exercendo um destacado papel social desde os primórdios do século XII, elaboravam líricas composições trabalhadas, as «Mestrias», onde se incluíam as cantigas de escárnio e maldizer. Mais tarde a «classificação» mudou, e na literatura galaico-portuguesa os trovadores dividiam-se entre a lírica amorosa e a satírica – o escárnio e o maldizer.
Esta veia trovadoresca veio e ficou. «Trovador» é um francesismo, à época os poetas do norte da França eram conhecidos por «trouvère», cujo radical é «trouver», ou seja, achar. E isso, nós somos muito, com ou sem dotes de retórica e escrita: «achistas». Achamos muito, sobre tudo, sobre o nada que passa a ser qualquer coisa, mas sobretudo achamos mal.
Com esta liberdade sem fronteiras – ainda – que a blogosfera nos proporciona, o neotrovadorismo, na sua vertente satírica, ganha novo fôlego. São verdadeiros cânticos em caixas de comentários, em posts, de escárnio gratuito ou maldizer de borla.
E vem isto a propósito de quê? Da singela observação do comportamento dos frequentadores desta «casa». E de outras, naturalmente.
Eu, que não sou mais do que os outros, também digo mal. E gosto, às vezes gosto. Também sou «achista», não sou menos do que os demais. Porque carrego esse fardo genético. Por desporto, eu que nem vou ao ginásio por preguiça, não obrigada. Mas, continuo a dizer, estejam à vontade. Afinal, eu escrevo sobre sítios desconhecidos nesta metrópole agigantada, sobre a França que não interessa a viv’alma, sobre a diversidade em coisas mais prosaicas do que opções sexuais, ou, pecado mortal, sobre o aborto e dou vivas pela regulamentação – urra! – sem obrigação de olhar para a fotografia.
Se querem dizer mal, continuem. Se preferirem uma variação, bem. Justiça seja feita, por aqui no Cinco Dias há debates animados, com escárnio, enamoramento lírico, maldizer, amizade e veneno doseado – por quem, não sei; podia ser por nós, os cinco-dias-da-semana, mas de censores temos pouco. Justiça seja feita, há por aí muita gente com défice de pimenta na língua maternalmente aposta na infância.
Deixo uma pergunta, para efeitos de discussão, caso alguém queira discutir ou acender: entre o fadinho triste que nos veste a alma lusitana, e as cantigas de escárnio e maldizer dos idos mil e cens, quem é que vence a maratona?
Já dizia o Jorge Palma, esse grande Trovador, «Ai Portugal, Portugal, enquanto tu estás à espera, ninguém te pode ajudar»…

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Geração de 70 e muitos

7 de Junho de 2007 por Marta Rebelo

Poul Rasmussen, Presidente do Partido Socialista Europeu, esteve em Lisboa esta semana. Veio falar da «sua» flexigurança, conceito económico-social da era da economia global e da disseminação tecnológica. Deixou um aviso com a classificação de «inevitabilidade»: os jovens portugueses terão de mudar de emprego entre 20 a 30 vezes ao longo da sua vida laboral. Sob pena de perderem o norte na rapidez do mercado das competências e das competições.
Não pretendo discutir o conceito. De flexigurança (que, citando o DN em citação de Withagen e Rogowski será «uma estratégia política que procura, de forma sincronizada e deliberada, aumentar a flexibilidade do mercado laboral, por um lado, e reforçar a segurança laboral e social dentro e fora do mercado, por outro.»). Interessa-me listar as certezas de gerações anteriores à minha e às que se seguem – dos meus alunos, nomeadamente, que me chegam da geração de oitentas – e procurar as nossas certezas, os nossos valores, contra-valores e as nossas falhas.
Não somos uma «geração rasca», não devemos ser uma «geração à rasca», acho que somos de uma geração-que-se-desenrasca.
As gerações dos nossos pais e avós viviam sobre pressupostos quotidianos e existênciais muito distintos daqueles que hoje se nos perspectivam. Havia «emprego para a vida», havia «estabilidade», havia menos familias «monoparentais» e mais bebés, um país e um mercado pequenitos, os aviões levavam menos gente a menos lugares, os automóveis eram mais poluentes mas menos. A geração de 60 viu nascer ou foi produtora de novos paradigmas. Que aproveitaram à geração de 70, e muito à geração de 70 e muitos. E fomos apanhados na curva.
A minha geração distancia-se dos «baby booms», e contribui muito pouco para um «boom» da natalidade. A minha geração trabalha e vicía-se, independentemente da produtividade decorrente do «vício». A minha geração é protoconservadora, mas cedo percebe que dá razão às estatísticas no que toca a relações e afectos. A minha geração é egoista – ou egocêntrica? –, é tribalista e sobranceira. Altiva e competitiva. Desde os bancos da escola até à cadeira do escritório. Um desenrasca-desconfiado.
A geração de 70 e muitos, e a dos oitentas, é consumista, depressiva, acelerada, ansiosa. Desinteressada das acções em colectivo tendentes à mudança em escala. Crítica da coisa pública, afastada da política, feroz em relação aos partidos, as nossas unidades filiadoras são os clubes de futebol. Para estimular a adrenalina rivalizante. Vamos descobrindo o espaço d(n)a «sociedade civil», num desenrasca tão apático quanto competitivo.
Até aqui, os parágrafos que dedico à minha malha geracional parecem de crítica enraízada. Não é verdade. Mas aqui e ali também não é mentira. A verdade é que o mundo mudou muito, e apanhou-nos em má altura. Estávamos de fraldas no pós-25 de Abril, e de bibe na adesão à CEE. Crescemos em democracia, mas enquanto ela crescia também. Crescemos «na Europa», que é indefinida. Crescemos aproveitando o melhor que a abertura do país ao mundo nos trouxe, mas fomos apanhados pela «globalização». Temos o Euro, mas temos o défice. Temos um acesso muito mais democratizado ao ensino superior e ao conhecimento, mas não temos uma economia preparada para absorver plenamente as nossas altas qualificações. Ou sequer para nos permitir as qualificações altas.
Mas o que mais me atinge no meio deste desenrascanço que nos fulmina, é a descrença individualista na remota hipótese de mudar o que for, milimetricamente, do mundo. Mudamos de casa, vão crescendo as assoalhadas. Mudamos de par, porque o vício laboral é muito, o colega do lado espreita e ambiciona-nos o lugar ou a promoção, e numa economia de mercado a oferta afectiva é liberal e muita. Mudamos de emprego – parece que inevitavelmente condenados a mudar 20 a 30 vezes na vida, em regime de flexigurança. Até nos podemos vir a juntar a gerações que agora mudam da urbe para o campo. Mas mudamos no singular ou num plural de dois ou três. O que é que nós mudamos, efectivamente? Ficaremos na história do país com que marca? À rasca é que não! Desenrascados já não é mau. Somos um país de conservadores polvilhados com pensamentos liberais. E os de 70 e muitos ainda não desdenham a herança.
Não nos revemos em minorias senão para lhes acentuar a diferença. Somos crentes na igualdade dos géneros, mas praticamos pouco. Na roda viva da era globalizada e dos «gadgets», resta pouco espaço para a tolerância, para as mudanças que não mudem nada nas nossas difíceis e exigentes existências, e que mudem mesmo que muito pouco existências alheias.
Claro que a regra não escapa a excepções. É óbvio que estou a partir da abstracção generalizada para dar características a toda uma geração, e às suas sucessoras mais próximas. E, naturalmente, é uma personificação crítica, auto-crítica, mas consciente e nunca desistente. Quem se vai desenrascando como nós, pode muito bem virar o jogo e ser a geração que riscou o à rasca, ultrapassou o desenrasca e aproveitou as portas e janelas, e mudou. Daqui a nada temos 40. E esperam – não esperamos nós de nós próprios? – que mudemos qualquer coisa.
Mudaremos, seguramente!

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E subitamente Portugal perdeu a graça

12 de Fevereiro de 2007 por Rui Tavares

Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um jornal e vê-se, como vencedores, toda a esquerda uma parte da direita liberal que ainda tem alguma consequência no seu liberalismo. Perdedores: a Igreja Católica, o PSD, o CDS, Marcelo Rebelo de Sousa (este em grande), Bagão Félix, Paulo Portas.

E se o nosso trabalho tiver acabado? Resta emigrar para a Polónia.

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