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	<title>cinco dias &#187; palavras</title>
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		<title>A Babilónia Europeia</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jul 2007 11:08:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marta Rebelo</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[constituição-europeia]]></category>
		<category><![CDATA[Europa]]></category>
		<category><![CDATA[palavras]]></category>
		<category><![CDATA[União-Europeia]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 1 deste ano de semestral Presidência portuguesa, a Europa tornou-se monetariamente mais plural (a Eslovénia é o décimo terceiro Estado Membro a aderir ao Euro) e mais poliglota, com a entrada do irlandês – gaélico, em rigor – &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/07/05/a-babilonia-europeia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 1 deste ano de semestral Presidência portuguesa, a Europa tornou-se monetariamente mais plural (a Eslovénia é o décimo terceiro Estado Membro a aderir ao Euro) e mais poliglota, com a entrada do irlandês – gaélico, em rigor – para a lista de línguas oficiais da União. Na Europa, fala-se de 23 maneiras diferentes.<br />
Eis a lista de línguas oficiais:</p>
<p>Bullgarski (Búlgaro)<br />
Čeština (Checo)<br />
Danks (Dinamarquês)<br />
Deutsch (Alemão)<br />
Eesti (Estónio)<br />
Elinika (Grego)<br />
English (Inglês)<br />
Español (Espanhol)<br />
Gaedhilge/Irish (Gaélico/Irlandês)<br />
Italiano (Italiano)<br />
Latviesu valoda (Letão)<br />
Lietuviu kalba (Lituânio)<br />
Magyar (Húngaro)<br />
Malti (Maltês)<br />
Nederlands (Neerlandês)<br />
Polski (Polaco)<br />
Português (Português)<br />
Româno/limba româna (Romeno)<br />
Slovenčina (Eslovaco)<br />
Slovenščina (Esloveno)<br />
Suomi (Finlandês)<br />
Svenska (Sueco)</p>
<p>Aparentemente, a cada nova entrada linguística corresponderão perto de 3,5 milhões de euros por ano. Quando, em 2005, a UE falava 20 idiomas, cada cidadão europeu pagava cerca de 2,30 euros por ano para sustentar a engrenagem da tradução. Mas este esforço financeiro representa apenas 1% do Orçamento da União.<br />
A minha preocupação é outra. E também muito plural.<br />
A diversidade linguística é garantida pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais (artigos 22.º e 21.º), no mapa de uma «Europa dos Povos Europeus» e não de um europeu-povo. Estima-se que cerca de 40 milhões de cidadãos europeus (a cidadania europeia adquire-se pela condição de cidadão de um dos 27) usem regularmente uma língua distinta da tabela de línguas oficiais acima – as designadas «línguas regionais ou minoritárias», que até podem ser oficiais no Estado Membro. Nós temos o mirandês. Os espanhóis têm o catalão, o basco e o galego – que têm já estatuto de língua semi-oficial no seio da UE – mas também o aragonês, o asturiano e o occitan (igualmente falado no Mónaco, em Itália e no sul de França, estimando-se que seja a primeira língua de perto de 2 milhões de pessoas). Só o catalão é falado por 7 milhões, em Espanha, França e numa cidadela da Sardenha que dá pelo nome de Alghero.<br />
Falando na Sardenha, por lá conversa-se em sardo. Entre os franceses, por seu turno, ainda estão falantes de bretão, corso e franco-provençal. Na Grã-Bretanha, além do óbvio inglês, há ainda sonoridades em gaidhlig (gaélico escocês), céltico, cornish e galês.<br />
Estão cansados? Eu também! Mas continuemos: na terra dos esquimós fala-se ainda saami ou lapão, uma família de línguas utilizada no norte da Finlândia, Noruega, Suécia e na Península de Kola, na Rússia; no Luxemburgo ouve-se luxemburguês (que é língua oficial naquele país). Referência ainda ao frísio, língua frísia ou frisã, audível na Alemanha (onde também temos o serbski ou sorábio) e nos Países Baixos.</p>
<p>Nesta Babilónia Europeia, duas questões se levantam: se falamos quantitativamente de modos tão variados, o que é que nos une e serve de base à Constituição Europeia que é já morta mas ressuscitou mas vai ainda ressuscitar? Se falamos qualitativamente de formas tão diversas, poremos em marcha as políticas comuns – a da energia, recentemente nomeada o problema sócio-económico do milénio – e solidificaremos o mercado comum – agora com lanças nos EUA, pela mão da Senhora Merkel?<br />
Aquilo que nos une, apesar da quantidade, é a «europeianidade»: não apenas o sentimento de uma comunidade de destino, ou sequer de origem, mas uma identidade europeia, experiência de identidades acumuladas na diversidade (linguística inclusive, porque as línguas são muitas, mas as suas famílias menos). Esta «europeianidade» é o verdadeiro substrato fundacional da União (Política) Europeia, e reclama um impulso constitucional que associe os europeus faladores de tantas e distintas línguas ao projecto da Europa. Mas, já dizia o meu Mestre António de Sousa Franco, «o que se vê (teoria) e o que se deseja (ideologia) não são facilmente separáveis».<br />
A Constituição morreu? Viva a Constituição! E o seu sucessor «Tratado Reformador»&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: O Ocidente converteu-se em Oriente</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 15:55:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[André-Belo]]></category>
		<category><![CDATA[ocidente]]></category>
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		<category><![CDATA[palavras]]></category>

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		<description><![CDATA[Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/andre-belo-o-ocidente-converteu-se-em-oriente/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas relíquias. São &#8220;legados&#8221;, &#8220;influências&#8221;, &#8220;técnicas agrícolas&#8221;, coisas que, na prática, não nos dizem grande coisa, para lá dos cacos e dos utensílios, excepto a uns poucos estudiosos. Sabemos também que nos deixaram palavras e até sabemos quais são, mas não sabemos de que maneira é que essas palavras foram nossas e foram deles até ao ponto em que o que é &#8220;nosso&#8221; e o que é &#8220;deles&#8221; deixa de fazer sentido. Porque é assim, sem fora nem dentro, que as palavras se partilham entre os povos.
</p>
<p>Há no entanto, ainda ao nível das palavras, uma manifestação muito concreta e muito visível, muito mais concreta do que essa presença em retirada dos &#8220;artefactos&#8221;. Algo que se transmitiu como um discurso e que ficou sendo &#8220;nosso&#8221; não como um &#8220;legado&#8221; exterior, mas por dentro, na estrutura concreta das coisas que chegaram até nós. Foi a poesia oral árabe, com as suas formas (as &#8220;moaxás&#8221; e as &#8220;jaryas&#8221;) que, de algum modo impalpável mas seguro, se comunicaram à tradição poética galego-portuguesa das cantigas de amigo e à castelhana dos <em>villancicos</em>.
</p>
<p>A referida &#8220;moaxá&#8221; ou &#8220;muwassaha&#8221; (ler com dois chapéus invertidos por cima dos &#8220;s&#8221; e um ponto por baixo do &#8220;h&#8221;) é um dos géneros da poesia estrófica árabe que se desenvolveu no Ocidente do mundo árabe (isto é, na Península Ibérica). Aí criou raízes e daí espalhou-se para o Oriente. Sobre ela escreveu o poeta egípcio Ibn Sana al-Mulk (nascido por volta do ano 550 da Hégira &#8211; 1155 do calendário cristão) o ouro puro das palavras que se seguem:
</p>
<blockquote><p>[...] Entre as coisas que os antigos deixaram por descobrir aos modernos — coisas em que as gentes de agora superaram as de antanho, em que os habitantes do Ocidente venceram os do Oriente, e em que os [velhos] poetas &#8220;deixaram [aos seus sucessores]  algo que remendar — figuram as muwassahas, sal da época, Babel da magia, âmbar de Sihr, aloé da Índia, vinho de Qufs, ouro puro do Algarve, patrono de entendimentos, balança de inteligências, quinta-essência suprema, posto que ao mesmo tempo deleitam e emocionam, incitam [à imitação] e fazem desesperar [de lográ-la], seduzem e atraem, libertam [de cuidados] e ocupam [o ócio], acompanham e afugentam. São ditos festivos e graciosos, que são toda a seriedade, e seriedade que parece dito festivo e gracioso; verso que o olho tomaria por prosa e prosa que o gosto diz ser poesia.
</p>
<p>Graças a elas, o Ocidente converteu-se em Oriente, pois por aquele horizonte surgiram e aquele ar iluminaram, fazendo com que os habitantes das terras ocidentais se tornassem nos mais ricos dos homens, ao tornarem-se donos deste tesouro que o destino lhes reservou e desta mina antes desconhecida da humanidade.
</p>
<p>Na flor da minha vida e nos meus verdes anos a elas me liguei, amei-as com paixão, ouvi-as amiúde, aprendi-as de cor, estudei-as a fundo, penetrei os seus segredos, [...] revolvi-as por dentro e por fora, abracei-as suas virgens e as suas matronas, nadei atrás das suas pérolas escondidas e, não contente com as notícias sabidas, internei-me nas suas ocultas dobras. [...]
</p>
<p>Ibn Saba al-Mulk, <em>Dar at-tiraz</em>, citado por Emilio García Gomez na revista <em>Al-Andaluz</em> (1962), traduzido por Aida Fernanda Dias na <em>História Crítica da Literatura Portuguesa</em> (dir. Carlos Reis) da ed. Verbo, vol. I, 1998, p. 153-154.</p></blockquote>]]></content:encoded>
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