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Da tradução para o acordo ortográfico

8 de Outubro de 2008 por Filipe Moura

Não sei se seria essa a intenção original do autor, mas como comentário (assinado por “Antónimo”) ao texto da Fernanda encontra-se um excelente argumento a favor do acordo ortográfico da língua portuguesa. Passo a transcrevê-lo (ligeiramente adaptado para este contexto):

Embora as editoras mais do que abusem (por exemplo, é raro pagarem direitos de autor – só o fazem a consagrados -, escondem as vendas a sete chaves e os livros que saem aí com jornais e revistas – tiragens de 30 mil exemplares – têm um custo de produção de 90 cêntimos) é um bocado complicado os livros em português ficarem ao preço de um da Penguin, não é?
Uma Guerra e Paz da Penguin, em inglês tem centenas de milhões de leitores. Até podiam dar os livros que não se sentia. Não há direitos de autor e imagino que as traduções foram pagas há décadas. Se os nossos leitores ainda preferem ir comprá-los em vez dos desgraçados três mil exemplares que a exemplar tradução portuguesa não esgota, mesmo se publicada desde 2005, a coisa piora.
No fundo, paga 15 euros por uma coisa que não custou nada a produzir em vez de pagar 60 euros por algo que custou consideravelmente mais.

Pois é, Fernanda, o que falta para termos livros baratos em português é um verdadeiro mercado global do livro em língua portuguesa!

(Já agora: à entrada da livraria do Instituto Superior Técnico está um anúncio desta editora onde ela se gaba de publicar “autores nacionais”, e recomenda aos estudantes que escolham os livros por ela publicados em detrimento das “traduções brasileiras” (inclui mesmo a frase “Não estudes por traduções brasileiras!”). Esta editora tem desenvolvido um trabalho meritório na publicação de bons livros técnicos de autores portugueses. Mas precisava de os “promover” utilizando um “argumento” tão mesquinho e rasteiro?)

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O besteirol dos 500 anos

28 de Julho de 2008 por Filipe Moura

No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do “achamento” versus “descobrimento” do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.

O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000

Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.

A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir “Brasil”: Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um “país” chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três – era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como “muito”. Ler o resto »

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Ir à Feira do Livro e não ver a Caminho nem a D. Quixote

3 de Junho de 2008 por Filipe Moura

Estava à espera de encontrar na Feira do Livro de Lisboa uma “Praça Leya” muito melhor que as outras supostas “barracas”, muito mais vistosa, com muito mais espaço. Puro engano. A Leya representa algumas das editoras portuguesas com melhores catálogos (caso da D. Quixote e da Caminho). Por isso mesmo, anteriormente estas editoras tinham um merecido lugar de destaque na Feira do Livro, ocupando várias das tais “barracas” que são “todas iguais”. Mas não: uma barraquita para a Caminho, duas para a D. Quixote, semivazias, apenas com as principais novidades. Das três ou quatro barracas que cada uma destas editoras costumava ocupar, a atafulharem com todo o seu catálogo, nem sinal. É para isso que eu e, creio, a maioria das pessoas vão a Feiras do Livro: as “novidades” encontram-se em qualquer livraria. Tanto barulho causado pela Leya e, afinal, o resultado é ir à Feira do Livro e não encontrar a Caminho e nem a D. Quixote. Se era esse o objectivo da Leya (desconfio que sim), poderiam ter dito logo, e escusavam de ter vindo com os estafados argumentos do “direito à diferença” e da “liberdade” contra o “igualitarismo” do modelo tradicional. Os “liberais” da Leya, sob o argumento hipócrita da “liberdade individual” de cada editora ter o espaço que quiser, não estão nada interessados na Feira do Livro. Tal como outros liberais falam muito mas não estão nada interessados na escola pública e nem no sistema nacional de saúde.

O José Saramago, que nos outros anos era presença obrigatória na Feira do Livro de Lisboa a dar autógrafos, este ano (segundo li) não vai lá nem um dia.

Para ler mais: Francisco José Viegas (subscrevo inteiramente este texto) e José Mário Silva.

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A ordem das estantes

8 de Dezembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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A geografia dos livros nunca deixa de me surpreender. Ontem, comprei uma biografia de Espinosa na Bulhosa. O livro estava entalado, pelos  desmandos da ordem alfabética, entre uma hagiografia sobre o fundador da Opus Dei e a vida do generalíssimo Franco. É caso para dizer que se Espinosa estivesse vivo, era morto.
Tenho, para mim, a teoria que a distribuição dos livros na estante diz muito sobre a cultura das sociedades. Acho revelador que as ciência sociais estejam ao lado das ciências esotéricas, nas livrarias e nas bibliotecas de Paris. Acho assustador que nas livrarias inglesas haja secções para judeus e gays, para onde se atiram alegremente os escritores que alegadamente ai cabem. Como se um romance, um escritor e uma vida se esgotassem nessas categorias. Acho que para ordem, já basta a alfabética.

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The record shows

16 de Novembro de 2006 por Ivan Nunes

Yes, there were times, I’m sure you knew,
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up, and spit it out.
I faced it all, and I stood tall,
and did it my way.

Li, com gosto, o livro que Filipe Santos Costa acaba de publicar sobre a última campanha eleitoral de Mário Soares para a Presidência da República. O livro é uma crónica detalhada, inteligentemente construída, dos vários passos que levaram Soares desde a decisão de se candidatar até à derrota de 22 de Janeiro. Li com curiosidade todas as partes que não conhecia por não ter estado envolvido – designadamente, as circunstâncias que conduziram à decisão de avançar – e li também com interesse as partes que conhecia e em que estive envolvido. Idealmente, para fazer uma crónica da decisão de avançar, teria sido interessante obter mais informação sobre as outras candidaturas, sobre a forma como as movimentações de Soares foram sendo recebidas naqueles meses de Julho e Agosto – por Alegre, evidentemente, mas também por Cavaco, e até por Jerónimo e Louçã, já que a questão da «unidade da esquerda» assumiu um significado tão relevante.
Filipe Santos Costa falou com Alfredo Barroso, Mega Ferreira, Marcos Perestrello, António Manuel, António Campos, José Manuel dos Santos, entre outros – ou seja, falou com quase todas as pessoas que acompanharam de perto o dia-a-dia da campanha. Falou com todos estes em on e, muito provavelmente, com a maioria deles também em off. É possível que ainda tenha falado com Vasco Pulido Valente (para a história de um almoço), ou pelo menos com Constança Cunha e Sá, que assina o prefácio. As fontes são boas e permitem-lhe reconstruir aspectos cruciais e desconhecidos da campanha com bastante minúcia.
Isto não significa, naturalmente, que não encontre defeitos no relato. O principal é que Filipe Santos Costa está notoriamente mais à vontade a falar de factos que investigou do que a caracterizar psicologicamente os personagens, ou a descrever «estados de alma». A meu ver, as páginas iniciais, que se debruçam sobre os dias da derrota (o sábado de reflexão e o domingo eleitoral) são talvez as mais fracas, porque há poucos factos para relatar, ou quase nenhuns, e muitas «disposições». Filipe Santos Costa não resiste aqui a uma certa tentação de omnisciência – dizer o que os intervenientes estavam a pensar e a sentir para lá daquilo que eles próprios expressaram – e não evita retratar situações de forma um pouco teatralizada, quando a realidade foi talvez um pouco mais rugosa e menos «literária».
Aliás, a questão «psicológica» talvez não seja de pequena monta, e aqui encontro o segundo problema importante do livro. Se pensarmos no plano histórico, é pouco provável que esta campanha de Mário Soares venha a ser vista como um acontecimento relevante; é no plano «psicológico», «humano», que uma candidatura destas, inesperada, «ilógica», oferece uma oportunidade de ouro para fazer um retrato do personagem. Ora, os talentos de Filipe Santos Costa estão notoriamente mais do lado da investigação jornalística (dos factos) e da sua articulação inteligente do que do lado da construção literária (do personagem). É certo que quem queira perceber como e porquê Soares perdeu esta eleição, encontrará no livro a resposta. Mas isso ainda deixa em aberto duas perguntas: Quem? E por quê, se a derrota parecia inevitável a quase todos desde o início? Fico a pensar que o talento de Filipe Santos Costa promete bastante para outros trabalhos de investigação (uma boa crónica do processo Casa Pia desde que rebentou o escândalo, por exemplo, parece-me muito necessária), mas que os detalhes da campanha falhada de Mário Soares só poderão interessar a poucos como eu. Talvez me engane.
De todas as formas, ainda que Filipe Santos Costa não invista (felizmente) o seu trabalho a tentar desenhar um perfil psicológico de Soares, alguma coisa emerge do relato. Tenho para mim que, na sua aparente simplicidade, ou talvez mesmo por causa da sua aparente simplicidade (dizer o que lhe apetece e fazer quase sempre o que quer), Soares é das personagens mais complexas que me foi dado conhecer. Indagações sobre o que motiva a sua acção, sobre o que pretende, são o mais das vezes fúteis e falíveis. Mas um retrato do que foi Soares nesta campanha, da combinação de uma certa inabilidade política com uma determinação, uma energia, uma obstinação extraordinárias, essa imagem emerge claramente deste livro. Sem que Filipe Santos Costa seja condescente, a sua admiração, o seu espanto, perante este personagem singular também transparece, nítida. E a imagem que resulta é, quer-me parecer, muito próxima daquela que eu próprio tinha ao finalizar a campanha. Foi na hora da derrota que Filipe Santos Costa viu os apoiantes da candidatura gritando mais empolgadamente «Soares é fixe» perante o seu candidato, num momento em que a circunstância propriamente política já estava em boa medida superada. Foi com o My Way que nós no Super Mário terminámos a campanha. Não deve ser por acaso.

[Filipe Santos Costa, 2006, A Última Campanha, ed. Palavra, Lisboa.]

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Žižek numa livraria perto de si

20 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água)

Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer épater le bourgeois, mas vai dizendo verdades incómodas. Num tempo de relativismos, garante que pode-se falar das culturas, das sexualidades, das tolerância, mas que se a esquerda deixa de fora as questões da economia, da ideologia e da produção da vida, é apenas uma cereja no cimo do bolo do capitalismo. É óbvio, por exemplo, que uma sociedade que respeita a liberdade sexual é , nesse aspecto, mais avançada que outras formas de vida em conjunto. Mas, é também verdade que é possível ter uma sociedade com pobreza, discriminação e exploração e ter liberdade sexual. Escrevia Hobsbawm que o “sexo é a ópera dos pobres”, há regimes repressivos que coexistem bem com a liberdade sexual e, do mal o menos, os pobres podem sempre ficar prazenteiramente ocupados com isso.
Žižek afirma a necessidade de um certo retorno ao leninismo, quando afirma, por exemplo, na entrevista do El Pais, que mais do que discutir a participação das mulheres na política é preciso forçar essa entrada, mas é também o pensador que nos alerta contra o activismo pelo activismo, dizendo que actividade não é obrigatoriamente movimento. E que, sobretudo, é preciso fazer, nos dias de hoje, uma pausa para pensar.
No fundo, a grande questão é a da verdade na mentira, bem ilustrada na anedota, contada pelo autor, sobre dois russos que se encontram, anos depois da queda da União Soviética, em que o primeiro diz ao segundo: “já viste que os comunistas nos mentiram sobre o socialismo?”; a que o outro responde: “o mais grave é que nos disseram toda a verdade sobre o capitalismo”.
É na construção de uma nova agenda teórica que Slavoj Žižek se insere.

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“Se um remédio pudesse fazer-me mais valente, mais lúcido e mais generoso, onde é que ficaria a ética?”

20 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Excertos da entrevista feita a Slavoj Žižek, por Enric González, publicada no “El Pais” de 25/3/2006.

Slavoj Žižek (Liubliana, 1949) grita, ri, aplaude. Os movimentos dos seus braços tornam-se convulsivos, mas do personagem emana uma grande cordialidade. É um filósofo pluridisciplinar que se deu a conhecer nos círculos psicanalíticos e, em pouco tempo, se converteu numa estrela do pensamento contemporâneo. Colabora no The New York Times, é professor convidado nas universidades de Paris (onde estudou), Columbia, Princeton e Georgetown e preside à Sociedade para a Psicnálise Teórica da Eslovénia. A partir de Karl Marx, Lenine e de Jacques Lacan efectua uma crítica sistemática da pós-modernidade e exige a reinvenção de uma ética de esquerda capaz de enfrentar a revolução tecnológica e a biomedicina. Vive num pequeno apartamento de Liubliana, na capital eslovena. O mobiliário é barato e a roupa está guardada nos móveis da cozinha.

- Como decidiu ser filósofo?

- Penso que para se bom em qualquer coisa faz falta uma vocação alternativa. Como é o caso de Levi Strauss que queria ser músico e se tornou antropólogo. Eu, desde a adolescência, sonhava em ser realizador de cinema, mas aos 18 anos comecei a estudar filosofia. Foi como a descoberta de São Paulo a caminho de Damasco. Nunca tive dúvidas. Comecei a estudar a escola de Frankfurt e de outros marxismos dissidentes, e ao chegar à universidade fiz-me heideggeriano, que na Eslovénia era o máximo da dissidência.

- Por que Heidegger era considerado dissidente?
- Cada uma das repúblicas da Jugoslávia tinha adoptado uma filosofia diferente, mais próxima de cada um dos grupos no poder. Na Eslovénia imperava a Escola de Frankfurt. Na Croácia preferiam os marxistas da Praxis e Heidegger: para ascender no partido comunista croata convinha dominar a femenologia. O da Sérvia era muito diferente, filosofia analítica. Então, quando surgiu o estruturalismo, Lacan, Foucault, Althusser e demais, aconteceu que as escolas rivais da Eslovénia, a de Frankfurt e a de Heidegger, esqueceram as suas diferenças para enfrentar-se de uma forma feroz, paranóica, contra os estruturalistas. Isso intrigou-me. Eu tinha 21 anos. Passei os seis ou sete anos seguintes a ler, de uma forma confusa, a teoria francesa, um pouco de Foucault, um pouco de Derrida, até que descobri a minha própria seita: sou um estalinista ortodoxo lacaniano, dogmático e nada dialogante.

- Como pode recusar o diálogo?
- O meu lema é: nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade. Não, seriamente, a filosofia é necessariamente dogmática. Conhece algum diálogo filosófico que tenha funcionado? Os de Platão? Nada sai dai, sobretudo nos diálogos dos sofistas da última época em que há um tipo que fala todo o tempo, enquanto o interlocutor se limita a dizer “ó sim, por Zeus, quanta razão tens”. Heidegger tinha razão quando dizia que cada filósofo tem uma percepção fundamental e limita-se a repeti-la ao longo da sua obra.

- Qual é a sua percepção fundamental?
- O meu problema é o seguinte: nós, da esquerda, ainda não dispomos de uma boa teoria sobre o que foi o estalinismo. A Escola de Frankfurt, Jurgen Habermas, todos estavam obcecados com o marxismo e o anti-semitismo, mas não disseram nada sobre o estalinismo. Existe um livro de Herbert Marcuse, mas não é mais do que um interpretação dos textos dos congressos do PCUS. Quando se lê Habermas nunca se poderá adivinhar que, enquanto o filósofo escrevia, existiam duas Alemanhas.
Um amigo da Escola de Frankfurt explicou-me que não analisaram os estalinismo para não parecerem anti-comunistas. Como? Mas se eram abertamente anti-comunistas! Alguns apoiaram a intervenção dos Estados Unidos no Vietname!
Qual é a percepção fundamental da Escola de Frankfurt? O que chamam a dialéctica do iluminismo, significa que existe um potencial opressivo e totalitário no iluminismo moderno europeu. Há melhor exemplo que o Estalinismo? Enquanto o fascismo estava abertamente contra o iluminismo, o estalinismo constituía-se como um iluminismo radical. Não digo que o estalinismo tenha sido melhor que o nazismo, afirmo que há nele algo de enigmático e de desconhecido.
Um detalhe revelador: os presos do Gulag tinham a obrigação de enviar a Estaline telegramas de felicitações pelo seu aniversário. Alguém imagina os judeus de Auschwitz a felicitar Hitler? Pela mesma razão, o nazis não organizaram processos para que os judeus confessassem que participavam numa conspiração mundial contra a Alemanha.
Os estalinistas, pelo contrário, necessitavam de confissões de arrependimento, porque consideravam que um traidor, inclusive, integrava a razão universal e podia ver a sua própria mentira.

-O nazismo e o estalinismo desembocam igualmente num anti-semitismo brutal.
- É a modernidade. Até à Revolução Francesa, o objectivo consistia em baptizar e cristianizar os judeus. Acreditava-se na emancipação. Depois dizia-se que o problema radicava na sua natureza e portanto só restava matá-los. É curioso, os modernos crêem ser mais “liberais” que os pré-modernos e isso não é assim.

-Auschwitz é a grande tragédia da nossa época.
- Sim. Mas aquilo não pode ser representado como uma tragédia. Já reparou que os melhores filmes sobre o Holocausto são comédias. Filmes como “A Vida é Bela” ou outros italianos, “Sete Belezas”…
Quando as coisas são demasiado horríveis há que explicá-las no campo da comédia, porque a tragédia requer dignidade. E não houve dignidade em Auschwitz, nem nos juízos do estalinismo.
Na Eslovénia, depois da guerra, tivemos um processo atroz, o chamado caso Dachau. Os sobreviventes do campo de Dachau foram detidos e acusados de cooperar com os nazis, porque se tivessem sido bons comunistas teriam sido mortos. Foram culpados de sobreviver.

-Há dignidade na guerra do Iraque?
- Escrevi sobre isso, utilizando uma velha parábola iraquiana: um tipo queixa-se a um outro, dizendo que lhe devolveu um cantil furado que lhe emprestou. O outro responde que nunca lhe pediu emprestado um cantil. Logo, conclui que o devolveu intacto. E acrescenta que já estava furado quando o levou emprestado.
As justificações de Washington para a guerra do Iraque são igualmente incongruentes. George Bush garantiu que o Iraque possuía armas de destruição maciça. Mais tarde, que ainda que não tivesse essas armas, cooperava com a Al Qaeda e constituía uma ameaça para o mundo. No final, argumentou que Saddam Hussein era um ditador terrível e que isso era razão suficiente para derrubá-lo. Na realidade, as razões eram a extensão da democracia, a demonstração da hegemonia mundial dos Estados Unidos e o controlo do petróleo, argumentos incongruentes entre si que condenavam ao fracasso da invasão.

-Os Estados Unidos utilizam a tortura na sua “guerra contra o terror”.

- Estou contra a tortura, mas posso compreender certas situações. Imaginemos um velho exemplo, tenho ante de mim um tipo que sabe onde está sequestrado o meu filho: não posso prometer que não o torturaria pessoalmente até me dar essa informação. O importante é manter a distinção entre um caso desesperado e a legalização da tortura. Todos sabemos que a CIA é especialista em interrogatórios violentos e brutais, mas não devemos aceitar que se fale da tortura como algo normal.
Alguma coisa está a mudar na moralidade pública nos Estados Unidos. No outro dia, na televisão, um congressista conservador fez o seguinte raciocínio: os nossos prisioneiros eram desde o início “objectivos legítimos” de guerra mas como sobreviveram aos bombardeamentos podemos fazer com eles o que queiramos, já que desde o princípio tínhamos o direito de os matar.
Pôs-se em marcha uma “revolução silenciosa”, as regras fundamentais da ética estão a mudar e nós não queremos sequer estar a par disso. Sobre isso estou de acordo com Habermas.

-Habermas está bastante de acordo com o Papa Benedicto XVI. Escreveram um livro a meias.

- Estou de acordo com o diagnóstico de Habermas, mas não com as soluções que propõe. A sua atitude é puramente defensiva: não façamos isto, não façamos aquilo.
Não podemos dizer, como Habermas, que há um limite na eugenésia e não devemos ultrapassá-lo. Temos que reinventar a ética. Hoje é possível implantar um chip num rato e teledirigi-lo. Obviamente, será possível fazer o mesmo com o ser humano.

-Isso é criar um Golem
-Coloca-se uma questão filosófica: como sentirá o ser humano esse controlo remoto? Terá consciência que o controla uma força exterior? Acreditará que é ele mesmo o emissor das ordens? Inclino-me para a segunda hipótese: o ser humano teledirigido não se aperceberá de nada, sentir-se-á livre.

-Jurgen Habermas propões uma drástica auto-limitação da investigação científica para não destruir a essência do ser humano.

- E isso como se faz? É impossível. Se podem-se manipular os genes, vão ser manipulados. Os chineses já estão a experimentar o controlo remoto do cérebro. Isso espanta muito as pessoas religiosas. No outro dia participei, em Viena, numa mesa redonda em que se encontravam dois Bispos. Perguntei-lhes porque estavam contra experiências com o cérebro. “Porque o homem é uma criatura divina, com uma alma divina, etc”, responderam-me. Mas, se não somos simples mecanismos biológicos, se temos uma alma imortal, podem-nos fazer o que seja ao cérebro. Sobra-nos a alma, não é?
Não, os Bispos são secretamente materialistas e temem que, na realidade, só sejamos o nosso cérebro. Um Bispo bastante esperto observou que o cérebro era um televisor e a alma um descodificador, necessários um ao outro.
Esse foi um argumento inteligente, mas falso. Se um remédio pode fazer-me mais valente, mais lúcido, mais generoso, onde é que fica a ética? Significa que somos só química. Somos então livres? Eu acredito que sim. Mas se bloquearmos a experimentação científica só estaremos a manter uma ficção de liberdade.

- Cita com frequência Lenine e escreveu um livro sobre ele.

- Muita gente discute sobre a escassa participação das mulheres na política e sobre se convém estabelecer quotas. Zapatero não se entreteve com debates e impôs as quotas. Isso é leninismo: deixemos de esperar pelas condições objectivas, façamos e vejamos se funciona.
Sobre a minha posição política existe uma certa confusão. Escrevi um livro sobre a actualidade do pensamento leninista, mas o que proponho é “repetir” o leninismo no sentido que Walter Benjamin dava à palavra “repetir”. Isso pressupõe reconhecer que Lenine está morto. Não tenho soluções, declaro-me mais pessimista que os partidários das “terceiras vias”. Para mim, Tony Blair é um grande traidor. A esquerda deve ser reinventada.

-Pode-se pensar numa esquerda à margem do capitalismo?
- Há quem considere o meu leninismo como uma provocação. Também há que se ria do “fim da história” anunciado por Francis Fukuyama, mas todos actuamos como se Fukuyama tivesse razão, como se o capitalismo liberal fosse a culminação do progresso. Não estou louco nem preconizo a fundação de um novo partido revolucionário. Só proponho que mantenhamos a mente aberta e não acreditemos que a tolerância, o Estado do bem-estar e as “terceiras vias” constituam valores supremos.


-A respeito do capitalismo ele tem demonstrado uma capacidade enorme de vencer que o pretende contradizer

- Verdade. Vivemos várias vezes a “crise final” do capitalismo. Para Marx foi o imperialismo, para Estaline foi o fascismo…o capitalismo está sempre em crise e está cada vez mais forte. Agora há bastante gente que acredita secretamente que uma grande catástrofe ecológica acabe com o capitalismo. Pelo contrário, imaginem-se as oportunidades de negócio que se abririam com uma grande catástrofe?

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À altura do tempo

29 de Setembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

Paulo da Costa Domingos anda escrevendo um longuíssimo poema com as palavras (e as imagens) de outros (aquele que possa dizer como sua uma única palavra, que atire a primeira pedra!). Falava do arrebatamento editorial da Frenesi, voz de resistência que ecoa nos pátios abertos ao vento como na obscura madrugada do espírito descalço. Mas invoque-se agora os seus outros versos de combate, reflexões em reflexo, fruto áspero da raiva, das poucas barbas por fazer do lirismo do burgo. O volume mais recente, Nas Alturas (Frenesi, 2006), transfigura  a torre de marfim em farol de nevoeiros, mas também esconderijo de um snipper ácido, mas benévolo.
Primeiro passo: «Outro Inverno passou, e a verdade/não encontrou a sua morada./ Outra coisa não se esperaria/ senão um manto de silêncio/ sobre a morte de um homem.» Pergunta o poeta-moralista face à neblina, quando «todos os dias é o fim de uma época prodigiosa», se alguma marca pessoal marcará «os séculos do povo?». A verdade está condenada a fugir como o horizonte.
A casa, «sede social de todos os sentimentos», está forrada de livros velhos, anjos vetustos e pálidos. O poeta «adulto/ em roupão, balão com vinho, lareira», sabe que nem por isso é livre. Vê poetas convencidos fumando, vê programas no cabo esfumaçando o tempo. Do outro lado dos vidros, está a cidade-reflexo: a mulher da limpeza, os novos ventos de leste nos porteiros, um tiro. Há frases, movimento, opulência, e com tudo a sujidade. «Desconforto que é ser-se incapaz/de escalar paredes e sentir vertigens,/e contratar “negros” que afinal são/ brancos». Perde-se autonomia para vagas de outros trabalhadores eventuais arrumados por cores. Não conhecemos o próprio lixo. Desconhecemo-nos. Não nos governamos. Desgovernamo-nos. «Os corpos colam-se no calor dos trans-/portes públicos que passam sob/ as ramadas oblíquas de gente/ dormente, desenraizada, onde/ grande inimigo é o tempo.» Espera-se a guerra e vive-se contra o tempo trabalhando electrodomesticamente, tortura a que escapam apenas o gatos, inúteis «como, aliás, devem ser os versos, espreguiçados/ ao longo de um muro». E o poeta, de «faca atravessada na vigília», olha de cima os distintos rumos da alienação, do triste quotidiano, da apatia, do mercado. «Juízes, pediatras, joalheiros: cançonetistas/ preparam a alvorada da gestão da matéria,/ sentem a intensidade das suas existências/ como um espectáculo bem remunerado,/ mais um, enquanto compõem colarinhos perante a frieza espelhado do alumínio.» Dá-se bem com o bulício, mas recolhe daí ensinamentos para diálogos com mortos notáveis. Teme apenas o fogo que apague os anjos lívidos que lhe fazem companhia, mas não o tranquilizam. O passado não é remédio para dormir.
Perde-se bastante lirismo neste sobrevoar atabalhoado do poema que tira como nenhum o retrato da cidade na beira do inferno do presente, mas estou na pressa de chegar à questão esta. «Em/nenhuma época nunca/ tanto cúmplice se acomodou/ numa consensual renúncia». Sabendo de outras épocas apenas pelo relato das fontes interessadas, poderemos afirmar que a apatia de hoje é maior que a de ontem? Quem nos garante que a militância de outros tempos, quando foi, por exemplo, moda obrigatória, não ajudou a carpinteirar o sofá onde agora nos refastelamos? Vive em nós, é certo, restos de um fascismo que tolhe a revolta, colectiva mais ainda; que evita a participação, em colectivo mais ainda; que adia a construção de autonomias, de espaços despudorados, sem poder nem estado. E a sós, no íntimo ou na rua, não haverá combate por travar? Tanta pressa para aqui chegar, mas para nada mais fazer além da defesa da voz solitária do poeta. Esta por exemplo. «O interdito do prazer (fu-/mar, beber, rir, fornicar,/degredar o dinheiro) é/a continuação do fascismo/por outros meios». Estamos de acordo, queimemos o charuto.
JOÃO PAULO CONTRIM

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