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	<title>cinco dias &#187; Literatura</title>
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		<title>&#8220;As ruínas crescem na terra quente do futuro&#8221; &#8211; debatendo com Manuel Gusmão</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Nov 2011 22:56:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João Valente Aguiar</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Manuel Gusmão]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;As ruínas crescem na terra quente do futuro&#8221; &#8211; debatendo com Manuel Gusmão   Sala 210 &#8211; Faculdade de Letras da Universidade do Porto 30 de novembro &#8211; 14h30 às 17h30   Oradores: Rosa Martelo &#8211; FLUP Miguel Ramalhete Gomes &#8230; <a href="http://5dias.net/2011/11/28/as-ruinas-crescem-na-terra-quente-do-futuro-debatendo-com-manuel-gusmao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;As ruínas crescem na terra quente do futuro&#8221; &#8211; debatendo com Manuel Gusmão<br />
 <br />
Sala 210 &#8211; Faculdade de Letras da Universidade do Porto<br />
30 de novembro &#8211; 14h30 às 17h30<br />
 <br />
Oradores:<br />
Rosa Martelo &#8211; FLUP<br />
Miguel Ramalhete Gomes &#8211; FLUP<br />
Giovanni Alves &#8211; UNESP, Brasil<br />
João Valente Aguiar &#8211; FLUP<br />
Manuel Gusmão – FLUL</p>
<p><a href="http://5dias.net/2011/11/28/as-ruinas-crescem-na-terra-quente-do-futuro-debatendo-com-manuel-gusmao/gusmao/" rel="attachment wp-att-74780"><img class="aligncenter size-full wp-image-74780" title="" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/11/Gusmão.jpg" alt="" width="842" height="595" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>]]></content:encoded>
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		<title>Call me Ishmael e outros berlindes (Alexandra Lucas Coelho)</title>
		<link>http://5dias.net/2011/07/04/call-me-ishmael-e-outros-berlindes-alexandra-lucas-coelho/</link>
		<comments>http://5dias.net/2011/07/04/call-me-ishmael-e-outros-berlindes-alexandra-lucas-coelho/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 04 Jul 2011 16:19:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Penilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Alexandra Lucas Coelho]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[(Ainda o jogo literário) The_voyage_of_the_Pequod_Everett Henry (1893-1961) &#160; 1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes? Quase nenhum dos meus livros está comigo. Estão a 8 mil quilómetros, em Alfama. Nesta encosta do Cosme Velho, tenho apenas duas &#8230; <a href="http://5dias.net/2011/07/04/call-me-ishmael-e-outros-berlindes-alexandra-lucas-coelho/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Ainda o <a href="http://5dias.net/2011/06/25/o-meu-nome-e-rumpelstiltskin/">jogo literário</a>)</p>
<p><img class="alignnone size-large wp-image-67741" title="The_voyage_of_the_Pequod_Everett Henry (1893-1961)" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/07/The_voyage_of_the_Pequod_Everett-Henry-1893-1961-520x392.jpg" alt="" width="520" height="392" /></p>
<address style="padding-left: 150px;">The_voyage_of_the_Pequod_Everett Henry (1893-1961)<br />
</address>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong></p>
<p>Quase nenhum dos meus livros está comigo. Estão a 8 mil quilómetros, em Alfama. Nesta encosta do Cosme Velho, tenho apenas duas prateleiras de livros quase todos ainda não lidos. A excepção são quatro de Herberto Helder que trouxe para continuar a ler (e como fui deixar para trás o <em>Photomaton &amp; Vox</em>???). Mas se pensar num livro para as minhas várias vidas será <em>Em Busca do Tempo Perdido</em>, que li, reli, e hei-de ler pela primeira vez. Por exemplo, Robert de Saint-Loup, dreyfusiano por amor, esperou que eu voltasse de Jerusalém. Havemos de coincidir outra vez, daqui a uns anos.</p>
<p><strong><span id="more-67718"></span>2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?</strong></p>
<p>Para não me alongar, vai só um par, <em>Odisseia </em>e <em>Ulisses</em>.</p>
<p><strong>3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?</strong></p>
<p>Girl meets boy (or girl). Orlando meets Diadorim. Corto meets Alcolmalcolm. Sandokan meets Kurtz. Ahab meets Raduan Nassar. Mário Cesariny oh meu deus de Vasconcelos meets Richard Burton. J. Alfred Prufrockmeets Henri Michaux. Agustina Bessa-Luís meets Aliocha Karamazov. Heathcliff meets Ana Karenina. Emily Brontë, claro, meets Hélia Correia. Gilgamesh c&#8217;est moi. A suivre.</p>
<p><strong>4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?</strong></p>
<p>Além do supracitado par, dava para mil e uma noites.</p>
<p><strong>5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?</strong></p>
<p>Tal como o Pedro, não me lembro da maior parte dos finais, e suspeito de que aqueles de que me lembro não sejam ainda o fim ou não sejam assim. Por exemplo, o Werther: ele veste a casaca de veludo e executa a decisão, ou ainda há algo depois? Seja como for, não vou contar.</p>
<p><strong>6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong></p>
<p>Os coelhinhos de Dick Bruna em que aprendi a ler. <em>Os três Meninos Verdes</em> que nunca mais vi nas livrarias. <em>Anita na Praia</em>. Os contos de Anderson e os contos de Grimm, com gravuras. Jonas e a Baleia e a Bíblia ilustrada. <em>Os Cinco</em>, <em>Os Sete</em>, o <em>Colégio das Quatro Torres</em> em edições desbotadas. A Condessa de Ségur (Leão!). Odette de Saint-Maurice (a Arabela!). <em>A Cabana do Pai Tomás</em>. O Príncipe Escravo Esculápio. <em>As Mulherzinhas</em> (eu ia ser a Jo). Júlio Dinis. Carradas de Júlio Verne com as gravuras originais. Todo o Tintin e mais Jo, Zette &amp; Jocko em francês. Os Peanuts em inglês. Os mundos alternativos do Tarzan com pterodáctilos. Sandokan. Todo o Astérix e todo o Lucky Luke. <em>O Ninho dos Marsupilamis</em>. Todos os Blake &amp; Mortimer. As aventuras da Patrícia. O Gulliver. Agatha Christie. Sophia de Mello Breyner. Sherlock Holmes. <em>A Guerra dos Mundos</em>. <em>A Loja de Antiguidades</em>. <em>Huckleberry Finn. Jane Eyre</em>. <em>Capitães da Areia</em> e por aí fora de Jorge Amado.<em> Clarissa</em> e <em>Olhai os Lírios do Campo</em> do Érico Veríssimo. <em>As Meninas</em> da Lygia Fagundes Telles. <em>Quo Vadis</em> debaixo das parras do quintal da minha avó. <em>A Metamorfose</em> numa edição dos meus pais que tinha gravuras, e até hoje tenho pesadelos com o escaravelho Samsa. Devia ter uns 13 anos. Conta até que idade?</p>
<p><strong>7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?</strong></p>
<p>Vários na escola, mesmo aqueles que afinal não eram.</p>
<p><strong>8. Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong></p>
<p>Passei a adolescência a ler romances. Li poesia tarde, e não em português primeiro. E mais tarde ainda, diários, viagens, ensaios. Não gosto da distinção ficção/não ficção. Não sei bem o que seja ficção. <em>Moby Dick</em>. <em>A Balada do Mar Salgado</em> e todo o <em>Corto Maltese</em>. <em>Robinson Crusoé</em>. <em>O Monte dos Vendavais</em>. <em>Os Irmãos Karamazov</em>. <em>Crime e Castigo</em>. <em>Noites Brancas</em>. <em>O Vermelho e o Negro</em>. <em>Madame Bovary</em>. A poesia de Kavafis, Dylan Thomas, cummings, Eliot, Herberto, Cesariny, Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão, Ruy Belo, Rimbaud, Baudelaire, Whitman, Rilke. <em>Os Cadernos de Malte Laurids Brigge</em>. Goethe. Novalis/Rui Chafes. <em>Orlando</em>. <em>As Ondas</em>. <em>Mrs. Dalloway</em>. <em>O Caçador de Tesouros</em>. <em>Deserto</em>. <em>Ecuador. Um Bárbaro na Ásia</em>. <em>The Road to Oxiana</em>. Todo o Salinger. <em>As Memórias de Adriano</em>. <em>O Coração das Trevas</em>. <em>Dom Quixote</em>. <em>A Montanha Mágica</em>. Turguéniev revolucionário. Forster em viagem. Henry James em geral. O português de Maria Gabriela Llansol, de Maria Velho da Costa, de António Lobo Antunes, de Eduardo Lourenço. Os sonetos de Camões. <em>Fernanda</em>, de Ernesto Sampaio. <em>Lavoura Arcaica. Copo de Cólera. Grande Sertão: Veredas. Perto do Coração Selvagem</em>. <em>A Paixão de GH</em>. <em>O Manifesto Antropofágico</em> de Oswald de Andrade. João Cabral e Drummond. <em>Cem Anos de Solidão</em>. Alejandra Pizarnik. <em>Se Isto É Um Homem</em>. Os poemas de Mahmoud Darwish e de Taha Mohammed Ali. O Mediterrâneo de Braudel, de Orlando Ribeiro, de Cláudio Torres. Cosmogonias ameríndias. A volúpia de Barthes. A cabeça de Foucault. Duras. <em>O Livro Por Vir</em>. <em>Semear na Neve</em> de Maria Filomena Molder. A descoberta dos ensaios de Joaquim Manuel Magalhães. <em>Jerusalém </em>e <em>Aprender a Rezar na Era da Técnica</em>. O grande romance-em-viagem da minha geração, <em>Baía dos Tigres</em>. O grande cronista da minha geração, Rui Cardoso Martins. Os poemas da minha geração e depois: Rui Pires Cabral, José Miguel Silva, Manuel de Freitas, Ana Paula Inácio. A poesia incompleta do Changuito.</p>
<p><strong>9. Que livro estás a ler neste momento?</strong></p>
<p>Coisas amazónicas como <em>A Inconstância do Pensamento Selvagem</em>, de Eduardo Viveiros de Castro. Venho de ler dois grandes livros de poemas em português, <em>Nervo</em>, de Diogo Vaz Pinto, e <em>2010-2011</em>, de Ana Paula Inácio, para escangalhar as ideias feitas. E hei-de ler <em>Griffin e Sabine: an extraordinary correspondance</em>, graças ao Theo.</p>
<p><strong>10. Indica dez amigos para o meme literário.</strong></p>
<p>Em Portugal: Changuito, Luis Manuel Gaspar, Diogo Vaz Pinto, Vítor Silva Tavares, Renata Correia Botelho. No Brasil: Tatiana Salem Levy, Christiane Tassis, Frederico Coelho, Luiz Ruffato, Daniela Moreau.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O meu nome é Rumpelstiltskin!</title>
		<link>http://5dias.net/2011/06/25/o-meu-nome-e-rumpelstiltskin/</link>
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		<pubDate>Sat, 25 Jun 2011 15:09:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro Penilo</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Helena Borges]]></category>
		<category><![CDATA[inquérito]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; 1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes? Há um livro que pego sempre com prazer para reler: Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Além do célebre ensaio sobre a obra de arte na era da sua &#8230; <a href="http://5dias.net/2011/06/25/o-meu-nome-e-rumpelstiltskin/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-full wp-image-66847" title="antologia" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/06/antologia.jpg" alt="" width="298" height="436" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Há um livro que pego sempre com prazer para reler: <em>Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política</em>. Além do célebre ensaio sobre a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, e outros muito citados, há um maravilhoso ensaio sobre <em>o narrador</em>, onde se lê esta pérola:<span id="more-66846"></span></span></p>
<address style="padding-left: 30px;"><span style="color: #000000;">O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos &#8211; as actividades intimamente associadas ao tédio &#8211; já se extinguiram na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados, depois de ter sido tecida, há milénios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual.</span></address>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #000000;">E há um livrinho, que não só relerei, como costumo ler em voz alta a pessoas de quem gosto muito. Em particular, a passagem onde o velho rico de Macau decide que uma história vai passar a poder ser realidade, por capricho seu. Um marinheiro pobre será pago para passar uma noite com uma bela mulher. <em>Uma história imortal</em>.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Não consegui ainda, mas vou fazê-lo. Não é um livro longo. É um livro fascinante. É denso, mas não inacessível. No primeiro capítulo, uma criança desenha uma paisagem nas dunas, sentada sobre o osso de uma baleia. No segundo capítulo, descreve-se com exactidão a mesma paisagem vista da janela de uma casa. Depois descrevem-se diferentes imagens representando aquela vista da janela. A criança conversa com um adulto sobre o desenho que fez. Há uma memória (um sonho?) de aranhiços invadindo um berço. Mede-se a casa, avalia-se a sua resistência às intempéries. Fazem-se mapas. Sempre que retomo este livro, <em>Finisterra</em>, volto ao princípio para não perder o fio do pensamento. Porque não é uma história. É um poema. Uma leitura alerta e pensante.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Quereria que fosse um livro muito, muito longo.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Escolheria uma de três possibilidades, não podendo tê-las todas juntas. O livro que contivesse todas as palavras, um livro sobre o mundo, onde estivesse contida toda a informação disponível e as explicações necessárias à correcta identificação das coisas. Ou então, o Primeiro Livro: o livro que contasse as histórias primordiais dos homens, os seu poemas, as suas lendas e acontecimentos, com os seu nomes, os nomes dos seu filhos e filhas e os lugares por onde passaram e viveram. Ou então, finalmente, o livro onde se explica a sociedade contemporânea e as relações entre os homens, desde a sua formação, expondo-as de tal modo que que nos permitisse compreendê-las e transformá-las.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Ainda não li, inteiro, nenhum destes livros.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><em>O Capital, </em><em>Em busca do tempo perdido, </em><em>Moby Dick.</em></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Curiosamente, descubro que, dos livros que muito me marcaram, de poucos me lembro da cena final. Li recentemente a cena inicial e a cena final de <em>Tom Sawyer</em>. A minha cena inicial era afinal a segunda cena &#8211; aquela em que Tom pinta um tapume. Do final já nem me lembrava. Só de Becky&#8230;</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Mas sei de alguns, de cuja cena final não só me lembro, como me marcou tanto como o próprio livro. Dou-me conta de como são descurados os fins dos livros. E de como os finais que nos marcam são como inícios de outro livro, de outra história. São ricos, mudam o ritmo da história, surpreendem-nos com decepção, ou com novidade.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Na <em>Praça do Diamante</em>, ficamos sem chão quando &#8211; lembrando o amargo final do <em>Esplendor </em>(quem souber, sabe de qual falo, o único <em>Esplendor</em>&#8230;!) &#8211; quando a mulher sofrida e cansada no meio da guerra, se abraça na noite ao anónimo merceeiro adormecido, que substituiu na cama o seu marido. O enigmático e soberbo diálogo da catedral, n&#8217;<em>O Processo</em>, que, não sendo cena final &#8211; pois não sabemos o que seria a cena final -, mata tudo o que pudesse crescer depois. E, por fim, a cena final antes de todas: aquela em que o jovem dos <em>esteiros</em> se atira (nada? corre? viaja?) ao rio, rumo a Lisboa, a cidade como promessa para os homens que nunca foram meninos.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">(Seria desonesto se ocultasse um final ainda mais enraizado no fundo do meu tempo: a absurda raiva da criatura <em>Rumpelstiltskin</em> que, ao ser descoberta, bate violentamente com os pés no chão até se afundar e desaparecer para sempre.)</span></p>
<address style="padding-left: 120px;"><span style="color: #000000;">Hoje eu asso, amanhã eu cozo!</span></address>
<address style="padding-left: 120px;"><span style="color: #000000;">O filho da rainha vem depois por fim! </span></address>
<address style="padding-left: 120px;"><span style="color: #000000;">Ninguém sabe, é o que me dá gozo,</span></address>
<address style="padding-left: 120px;"><span style="color: #000000;">Que o meu nome é Rumpelstiltskin!</span><br />
</address>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><em>Mafaldas</em> lidas em voz alta com a minha tia. Toda a prateleira de livros da minha mãe e do Manuel. Livros antigos da biblioteca das raparigas. Banda desenhada em francês. A fabulosa <em>Antologia do Humor Português.</em> Trágicas vidas de pobrezinhos, numa escola italiana, intercaladas com lendas nacionalistas. Intermináveis páginas iniciais da famosa colecção de policiais. E, inteiros, alguns desses policiais que, tendo agradado o início, tivessem como características: um espaço e um tempo delimitados e fechados, um grupo de protagonistas definido desde o princípio, uma atmosfera que lembrasse aquele <em>Crime no Expresso do Oriente</em> e a inexistência de detective profissional (a resolução do crime deveria recair no médico, no convidado, na governanta, etc). Livros de aventuras ilustrados, com viagens acidentadas através da Rússia de um <em>mensageiro do Czar</em> que chega cego ao seu destino, ou desesperadas fugas <em>submarinas</em>, interrompidas pelo ataque da lula gigante e os acessos de loucura do capitão.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">E dois livros apenas, os meus dois únicos livros neo-realistas: um passado no Vale do Tejo, outro em Salvador da Bahia. Meninos, em ambos os casos.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Vários, escritos por amigos. Tinha de os ler.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Outros, foram por amigos recomendados: um conto sobre um gato zangado dentro de uma sarjeta a falar com os transeuntes &#8211; planeavam fazer comigo um filme de animação a partir dele; uma história sobre um artista revoltado que tem o jejum como programa &#8211; era a prenda da minha namorada de então.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Quase toda a leitura obrigatória (Concordo com a leitura obrigatória. Mas há muito a fazer quanto às estratégias de leitura, e quanto aos títulos escolhidos). <em>Os Maias</em> têm um início brutalmente chato e extenso. Li-o integralmente. Chegado à parte em que poderia ter começado a gostar, desisti. Muitos anos mais tarde, numa noite de passagem de ano em Praga, num apartamento emprestado, só com a minha namorada finladesa, li de uma assentada <em>A Capital</em> e fiquei rendido ao Eça. Dessa noite, lembro-me ainda dos bolos que a minha namorada fez e de uns desenhos mauzitos que fiz dela e dos bolos.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>8. Indica alguns dos teus livros preferidos.</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Para além dos já enunciados: <em>Carpinteiros, levantai bem alto o pau de fileira!</em> (e <em>Seymour &#8211; uma introdução</em>) &#8211; onde se suspende a narrativa para se falar de um irmão, com amor; <em>A noite e o riso</em> &#8211; a mais fascinante traição à burguesia nacional; <em>Comunidade </em>- contra a vontade do autor: Ámen; <em>A Divina Comédia</em> &#8211; uma <em>sociologia</em> subvertida e subversiva da moral da Idade Média; <em>Ficções, de Borges</em> &#8211; esqueletos de história que fazem explodir a imaginação; <em>Poemas, de Brecht</em> &#8211; as jóias que esconjuram a simplificação programática que se faz do autor. <em>Dois sóis, a rosa &#8211; A arquitectura do mundo</em>, &#8211; uma aula sobre poesia e partilha, enquanto modo geral de fazer o mundo. <em>Ensaios críticos, de Roland Barthes</em> &#8211; lição número um: inexprimir o exprimível. <em>Uma das possíveis posições no modo de estar com a arte</em>, do meu professor em Praga (incluindo o ensaio <em>O interstício entre media enquanto novo medium</em>) &#8211; o livro que me ajudou a perceber que havia um lugar na arte para mim.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>9. Que livro estás a ler neste momento?</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Na pilha perto da minha cama, destacam-se: <em>Tahrir &#8211; os dias da revolução</em>, da mulher que daqui correu para viver aqueles dias; <em>Tatuagem &amp; Palimpsesto</em>, e <em>Uma razão dialógica, </em>do poeta que sempre para mim escreve.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>10. Indica dez amigos para o meme literário.</strong></span></p>
<p><span style="color: #000000;">Os meus três irmãos que escrevem por aí. </span><span style="color: #000000;">O meu cunhado de coração mole. </span><span style="color: #000000;">O casal de mouros que me dá guarida. </span><span style="color: #000000;">O Poeta que para mim sempre escreve, se estiver na praia aborrecido. </span><span style="color: #000000;">Aquela que com ele vive. A jornalista que me pôs na Praça Tahrir. </span><span style="color: #000000;">Tu, que lês isto. E tu. E tu.</span></p>
<p>Um beijinho à Helena Borges, que me emprestou <a href="http://5dias.net/2011/06/24/o-henry-miller-e-para-meninos/">este jogo</a>.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-66865" title="John B. Gruelle" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/06/John-B.-Gruelle.jpg" alt="" width="331" height="450" /></p>
<address>Grimm, Jacob and Wilhelm. <em>Grimm&#8217;s Fairy Tales</em>. </address>
<address>John B. Gruelle, illustrator. Margaret Hunt, translator. </address>
<address>New York: Cupples &amp; Leon, 1914.<br />
</address>]]></content:encoded>
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		<title>Mas quem raio foi Mário Dionísio?</title>
		<link>http://5dias.net/2011/04/29/mas-quem-raio-foi-mario-dionisio/</link>
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		<pubDate>Fri, 29 Apr 2011 17:36:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Dionísio</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[artes plásticas]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Achada]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mário Dionísio]]></category>
		<category><![CDATA[pintura]]></category>

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		<description><![CDATA[Mas quem raio foi Mário Dionísio? Enquanto viveu e trabalhou, e com altos e baixos segundo as épocas, o seu nome aparecia em jornais, revistas, ouvia-se na rádio e na televisão &#8211; por ser autor de artigos, por dar entrevistas ou &#8230; <a href="http://5dias.net/2011/04/29/mas-quem-raio-foi-mario-dionisio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-62499" title="FOT1-MD-R-EP-1" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/04/FOT1-MD-R-EP-1-300x217.jpg" alt="" width="300" height="217" /></p>
<p>Mas quem raio foi Mário Dionísio?</p>
<p>Enquanto viveu e trabalhou, e com altos e baixos segundo as épocas, o seu nome aparecia em jornais, revistas, ouvia-se na rádio e na televisão &#8211; por ser autor de artigos, por dar entrevistas ou por ser falado por outros. Hoje, passados 18 anos da sua morte, e porque foi alguém que pôs questões à arte, à vida e à política, é natural que já ninguém o conheça.</p>
<p>Foi por isso que nasceu a <a href="http://www.centromariodionisio.org/">Casa da Achada - Centro Mário Dionísio</a> &#8211; para dar a conhecer a obra e o pensamento deste homem de cultura e para, a partir dele e do que fez, se continuarem a fazer novas coisas. O seu rico espólio está agora disponível para consulta de todos os que quiserem. E o seu nome tem-se ouvido mais, graças à actividade intensa e imparável do Centro Mário Dionísio.</p>
<p>Mesmo assim, continuamos a perguntar-nos: mas quem raio foi Mário Dionísio? </p>
<p>No dia 25 de Abril inaugurou na Casa da Achada uma nova exposição: <strong>Mário Dionísio &#8211; Vida e Obra</strong>. No dia da inauguração, a casa encheu, <a href="http://noticias.centromariodionisio.org/?p=2381">como se conta na página da associação</a>, e foi de facto difícil para muita gente ver a exposição com olhos de ver.</p>
<p>A exposição <strong>Mário Dionísio &#8211; Vida e Obra</strong> é constituída por 13 <strong>painéis biográficos</strong>, várias <strong>pinturas e desenhos</strong> do autor e de outros seus companheiros e documentos de todos os tipos, que fazem parte do seu espólio: <strong>fotografias, cartas, jornais, livros, rascunhos, um passaporte, alguns dos seus cachimbos, uma das suas paletas&#8230;</strong> Estão também sempre a correr na sala <strong>entrevistas filmadas com Mário Dionísio</strong>.</p>
<p><strong><span style="color: #ff0000;">Amanhã, sábado<span style="color: #000000;">, 30 de Abril, às 16h, há uma </span>visita guiada à exposição, por Eduarda Dionísio<span style="color: #000000;">.</span></span></strong><span style="color: #000000;"> Claro que a entrada é livre e digo eu que é uma ocasião a não perder. Até amanhã.</span></p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-62514" title="capa MDC" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/04/capa-MDC.jpg" alt="" width="176" height="235" />       <img class="alignnone size-full wp-image-62516" title="dia cinzento" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/04/dia-cinzento.jpg" alt="" width="150" height="193" />       <img class="alignnone size-full wp-image-62517" title="Público 18 Nov 1993 - 1" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2011/04/Público-18-Nov-1993-1.jpg" alt="" width="126" height="182" /></p>]]></content:encoded>
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		<title>Igualdade : Mário Dionísio e José Gomes Ferreira</title>
		<link>http://5dias.net/2010/12/27/igualdade-mario-dionisio-e-jose-gomes-ferreira/</link>
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		<pubDate>Mon, 27 Dec 2010 16:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Dionísio</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[em confronto ou em coro duas vozes diferentes]]></category>
		<category><![CDATA[José Gomes Ferreira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mário Dionísio]]></category>

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		<description><![CDATA[«Olhe, queria uma sociedade organizada de modo a que não houvesse nem exploradores nem explorados, por um lado; em que, por outro lado, as pessoas tivessem as possibilidades de partir do mesmo ponto, quer dizer, à partida todos iguais (…). &#8230; <a href="http://5dias.net/2010/12/27/igualdade-mario-dionisio-e-jose-gomes-ferreira/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>«<strong>Olhe, queria uma sociedade organizada de modo a que não houvesse nem exploradores nem explorados, por um lado; em que, por outro lado, as pessoas tivessem as possibilidades de partir do mesmo ponto, quer dizer, à partida todos iguais (…). Isto não quer dizer, como os caricaturistas destas ideias normalmente dizem, que depois sejamos todos iguais porque nós, efectivamente, não somos todos iguais, somos todos muito diferentes e ainda bem porque é isso que faz o encanto da vida, o interesse do mundo… é a desigualdade das pessoas… mas essa desigualdade não tem de ser fatalmente uns terem muitas coisas e outros não terem nada, uns viverem em barracas e outros… enfim, não é preciso descrever, não.</strong>»</p>
<p><strong><span style="color: #ff0000">Mário Dionísio</span></strong>, entrevista para a RDP, emitida em 1 de Maio de 1986, <em>in Entrevistas</em>, Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, Lisboa, 2010</p>
<p>«<strong>- É muito fácil&#8230; Eu e a Rã, para não termos inveja, combinámos o seguinte: eu minguar um bocadinho e ela aumentar, até ficarmos iguais!<br />
- Mas – aduziu o rapaz – na fábula de La Fontaine o Senhor Boi desdenhava ostensivamente das pretensões da Rã.<br />
- Isso era dantes. Hoje tudo evolucionou no país da Fábula – objectou o paciente ruminante impaciente. – Decidimos ser iguais e ninguém tem nada com isso.<br />
João Sem Medo abanou a cabeça, discordante. E preparou-se para abandonar os dois bichos na sua luta pela igualdade. Mas à laia de despedida foi-lhes dizendo com tacto hábil de pessoa bem educada:<br />
- Considero a vossa atitude muito louvável, embora, confesso, o método me pareça um pouco&#8230; como direi&#8230; Bem&#8230; Talvez primário&#8230;<br />
- Porquê? – bramiu mestre Boi sempre a babar-se de estupidez suave.<br />
Como resposta, João Sem Medo começou a meter os pés pelas mãos numa tentativa de atinar com as palavras justas para exprimir o seu pensamento um pouco tataranha:<br />
- Bem&#8230; Porque&#8230; Ou me engano muito ou&#8230; Bem&#8230; não devemos confundir igualdade com identidade&#8230; baralhada muito comum, aliás&#8230; Do ponto de vista exterior vocês serão sempre desiguais.<br />
E bem fincado ao fio do raciocínio, para não se perder:<br />
- Imaginem, por exemplo, que a Senhora Rã, alcançado o tamanho do mestre Boi, lhe invejava os chifres. Como solucionariam o caso?<br />
- Ora! Falou a Rã pela primeira vez. – Encomendava uns postiços. De borracha&#8230; Ou plástico&#8230;<br />
- Está bem. Era uma solução&#8230; – aprovou João Sem Medo. – Mas&#8230; E se ao mestre Boi lhe apetecesse coaxar?<br />
João Sem Medo aproveitou o silêncio embaraçado dos dois comparsas para prosseguir:<br />
- Só se o Senhor Boi engolisse um disco com os coaxos gravados da Senhora Rã&#8230; Não vejo outra forma&#8230; Desenganem-se, pois. Façam os esforços que fizerem, haverá sempre desigualdades externas entre ambos&#8230; que, a bem dizer, não constituem propriamente desigualdades, mas diferenças&#8230;<br />
- E então? – ruminou o Boi com os olhos meigos de quem não percebia patavina.<br />
- Então, nada. Sigam o meu conselho e voltem ao estado normal. O Senhor Boi, grandalhão&#8230; e a Senhora Rã, pequenota&#8230; E se aspiram a ser iguais conquistem a liberdade de não serem idênticos e de poderem atirar as desigualdades à cara um do outro. Ou então&#8230;</strong>»</p>
<p><span style="color: #ff0000"><strong>José Gomes Ferreira</strong></span>, <em>As aventuras de João Sem Medo</em>, 1963.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Mário Dionísio contista, Mário Dionísio poeta</title>
		<link>http://5dias.net/2010/10/13/mario-dionisio-contista-mario-dionisio-poeta/</link>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 15:41:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diana Dionísio</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Casa da Achada]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mário Dionísio]]></category>

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		<description><![CDATA[            Conhecer de maneiras muito diferentes o Mário Dionísio contista e poeta: a leitura de trechos de contos pelo actor Antonino Solmer já amanhã; no sábado um espectáculo de pintura ao vivo, leitura ao vivo e música ao vivo a partir da &#8230; <a href="http://5dias.net/2010/10/13/mario-dionisio-contista-mario-dionisio-poeta/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-large wp-image-48544" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2010/10/Antonino-Solmer-367x520.jpg" alt="" width="216" height="307" />            <img class="alignnone size-large wp-image-48549" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2010/10/Direis-que-4-520x362.jpg" alt="" width="307" height="214" /></p>
<p>Conhecer de maneiras muito diferentes o Mário Dionísio contista e poeta: a leitura de trechos de contos pelo actor <strong>Antonino Solmer</strong> já <strong><span style="color: #ff6600">amanhã</span>;</strong> no <strong><span style="color: #ff6600">sábado</span></strong> um espectáculo de pintura ao vivo, leitura ao vivo e música ao vivo a partir da poesia de Mário Dionísio, com <strong>Bárbara Assis Pacheco</strong> no pincel e seus convidados músicos, leitores e cantores <strong>dSCI, João Pacheco, Miguel-Manso e os meninos da escola do Castelo com a professora Ariana</strong>. A entrada é livre, na Casa da Achada. Continuo a minha batalha pela «<a href="http://5dias.net/2010/10/13/e-uma-arma-gac-e-manuela-porto/" target="_blank">poderosíssima arma de cultura</a>». E dedico estes <em>posts</em> a quem está sempre a pôr a arte fora da política e da vida.</p>
<p>«Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado, come­çavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmente mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da mala e pas­savam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra per­dera uma luva na confusão. Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olhavam umas para as outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignidade que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.»</p>
<p><strong>Mário Dionísio, «Assobiando à vontade», <em>in O Dia cinzento e outros contos</em>, Europa-América, 1967</strong></p>
<p>Une pluie de taureaux est tombée sur la ville<br />
Comme les autres peu à peu j&#8217;ai accepté mon sort<br />
en creusant dans la chair l&#8217;ennui de mon asile</p>
<p>Tout est tranquille enfin chez moi   Enfin tout dort<br />
Les souvenirs et les désirs et les remords<br />
tout doucement s&#8217;étiolent</p>
<p>Adieu les rêves et les colères qui s&#8217;envolent<br />
sans amertume et sans regret</p>
<p>Mais sous la peau de tout mon corps<br />
dans les replis les plus caches comment le taire<br />
le feu qui dort est éveillé</p>
<p><strong>Mário Dionísio, <em>Le feu qui dort</em>, Europa América e Editions de la Bâconniêre, 1967</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Em que altura é que se fodeu este blogue?</title>
		<link>http://5dias.net/2008/01/31/em-que-altura-e-que-se-fodeu-este-blogue/</link>
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		<pubDate>Thu, 31 Jan 2008 19:04:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Filipe Moura</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[língua-portuguesa]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Era para começar a escrever só para a semana (e só para a semana é que começo a sério), mas ao ler o texto da Maria João sobre o &#8220;membro viril&#8221; não resisti. (Não é à toa que andámos na mesma escola.) Escreveu a &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/01/31/em-que-altura-e-que-se-fodeu-este-blogue/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"><font face="Times New Roman">Era para começar a escrever só para a semana (e só para a semana é que começo a sério), mas ao ler o texto da Maria João sobre o &#8220;membro viril&#8221; não resisti. (Não é à toa que andámos na mesma escola.)</font></p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"><font face="Times New Roman">Escreveu a Maria João sobre o “caralho”. Pessoalmente, prefiro foder. Ou antes, “foder”. Prefiro o verbo “foder” ao substantivo “caralho”. Literariamente, nem se fala. Dois dos meus escritores favoritos, Mario Vargas Llosa e Rubem Fonseca, são verdadeiros artistas a &#8220;foder&#8221;. Fazem maravilhas. A Vargas Llosa roubei o título desta postagem; à falta de melhor exemplo (há muitos, mas é o único que tenho à mão) repare-se neste texto de Rubem (com que, por coincidência, comecei a escrever regularmente no <a target="_blank" href="http://bde.weblog.com.pt/arquivo/008717.html">Blogue de Esquerda</a> há quatro anos):</font></p>
<p><o:p></o:p></p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"><em><span style="color: #666666"><font face="Times New Roman">«Prender um macumbeiro, um receptador, é uma estupidez. O sujeito preso custa um dinheirão à sociedade, cumpre algum tempo na cadeia e sai pior do que entrou. (&#8230;) Se o sujeito for um risco grande para a sociedade, um criminoso psicopata, coisa assim, aí o cara tem que ser tratado apenas.»<br />
«E a família da vítima?»<br />
«<strong>Foda-se</strong> a família da vítima. Você fala como se estivéssemos no século dezoito, antes de Feuerbach. A pena como vingança. Você devia ter estudado melhor esta merda na faculdade.»</font></span></em></p>
<p><o:p></o:p></p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"><font face="Times New Roman">O “merda” também é bom, mas a força toda vem do “foda-se”. Muito melhor que o “caralho”. Existem então dois grupos de pessoas (eu divido sempre as pessoas em grupos, seitas, categorias e tal, e os bons são sempre aqueles a que eu pertenço): as que preferem o “caralho” e as que preferem o “foder”. Eu pertenço sem dúvida a estas últimas. </font></p>
<p style="margin: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"><span style="font-size: 12pt; font-family: 'Times New Roman'">A fonética do &#8220;foda-se” é muito melhor que a do “caralho”, principalmente aquele “fô” inicial. Não há nada mais irritante do que a abreviatura (muito comum na escrita dos jovens de hoje) <em>da-se</em> (ou <em>dasse</em>). Não sei se julgam que parecem &#8220;bem educados&#8221; por omitirem a sílaba tónica, mas quem tira o “fô” ao “foda-se” tira-lhe tudo. É um “foda-se” que broxou. Nem sequer é um coito interrompido: a foda nem começou. A alternativa <em>fónix</em>, tão do agrado de <a target="_blank" href="http://causa-nossa.blogspot.com/">Luís Nazaré</a>, é um bocadinho melhor, mas não há nada que chegue a um <em>fooooooda-se</em>, com o “ô” bem prolongado. Ou então um “que se foda”. Este último é o mais indicado para a pronúncia brasileira: <em>quissifoda</em>! Lindo, não é? Na foda, como na língua portuguesa, os brasileiros têm sempre razão. Bom Carnaval para todos. Fodam muito e em segurança.</span></p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma proposta salomónica</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/</link>
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		<pubDate>Mon, 04 Dec 2006 15:48:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[TLEBS]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 2 de Dezembro] Há uma tensão que me intriga e estimula: para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura.A TLEBS vai matar &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 2 de Dezembro]</p>
<p><center><strong>Há uma tensão que me intriga e estimula: para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura.</strong></center>A TLEBS vai matar as nossas criancinhas. Não sabia? Vai penetrar naqueles encéfalos tenrinhos e secar-lhes os neurónios. Proteja os seus filhos. Caso contrário, ao fim de uma geração ninguém mais falará português em Portugal. Você foi avisado por Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Helena Matos, Maria Alzira Seixo e muitos outros: uma conspiração de linguistas motivados pelo ódio à língua portuguesa e a raiva à literatura inventou os epicenos e os nomes contáveis, vírus de uma epidemia de TLEBS que pode vir a ser pior do que a gripe das aves ou a pneumonia asiática, juntas.</p>
<p>A reacção pública à TLEBS — que, no mundo real, é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário — foi, mais uma vez, exemplar dos debates sobre educação em Portugal. Os comentadores do costume (e algumas adições) continuam viciados em criar o pânico a qualquer gesto, com uma desconfiança crónica dos técnicos e professores, e sempre prontos a investir no sensacionalismo e na confusão, a serviço de um suposto tempo em que as coisas eram evidentes e “se aprendia”. Como me dizia um amigo biólogo, repete-se aqui o fundo da discussão sobre Plutão: como toda a gente tinha aprendido que Plutão era um planeta, era forçoso que Plutão continuasse a ser um planeta para sempre, independentemente do que entretanto tivessem descoberto os astrónomos.</p>
<p>Do outro lado, temos uma comunidade técnica e científica assarapantada no meio do espaço público como um bicho na auto-estrada. Ironicamente, os linguistas não são capazes de comunicar com a comunidade. Mas não lamentemos demasiado os académicos, que só têm de se queixar pelas suas culpas, principalmente quando a impotência desliza para o “não falem do que não sabem”, como fez Maria Helena Mira Mateus. Os académicos têm de entender que quando está em causa a generalização dos seus saberes, não só é natural como desejável que as pessoas acabem “falando do que não sabem”. Ou falamos todos do que não sabemos, ou sucumbimos à ditadura tecnocrática — e se os especialistas querem ajudar ao debate a melhor maneira de o fazer não é exigir-lhe que termine. Além de que, se os linguistas tivessem pensado no resultado final, teriam feito bem em trabalhar menos e não mais: a TLEBS desce efectivamente a um nível minucioso que, como se viu, atrapalhou mais do que ajudou.</p>
<p>Se eu fosse linguista, teria especial cuidado com este particular, porque já se chegou ao ponto em que Vasco Graça Moura conseguiu convencer as pessoas de que o linguista é o inimigo da língua e abomina a literatura. O que é uma especificidade portuguesa muito infeliz: nos EUA, por exemplo, basta ver a importância pública de autores como Steven Pinker e, de forma diferente, George Lakoff. A Linguística é talvez a disciplina das humanidades que mais evoluiu e que melhor diálogo tem com as ciências naturais:  perguntem a António Damásio sobre os ecos entre o seu trabalho e o dos linguistas, na neurologia, nas ciências cognitivas e na inteligência artificial. A Linguística ocupa um lugar-charneira no arquipélago dos saberes, o que explica parte das linhas de fractura na discussão da TLEBS: os linguistas são hoje uma espécie bem diferente dos seus restantes colegas das Faculdades de Letras.</p>
<p>Acabamos então demonizando uma disciplina de ponta e, a acreditar nas últimas notícias, ferindo de morte a TLEBS. E para quê? Para voltar a uma terminologia obsoleta, divergente da utilizada no maior país de língua portuguesa e que não é menos específica nem complicada do que a TLEBS? Não haverá então nada que se aproveite desta discussão?</p>
<p>Claro que há. Há um aspecto que me intriga e estimula: esta tensão fundamental entre os que defendem a prioridade ao estudo da língua e os que defendem a prioridade à literatura. Para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura. Por experiência pessoal, sou sensível ao argumento de Vasco Graça Moura de que o domínio da língua vem depois do entusiasmo da leitura, como quem diz: levem-nos a visitar o mosteiro da Batalha em vez de lhes dizerem o que é um arcobotante. Por outro lado, quem ainda não esqueceu o último grande pânico a propósito dos níveis de literacia compreende que se os estudantes desconhecerem os materiais de que é feita a língua não só nunca atingirão as alturas do mosteiro da Batalha (ou d&#8217;<em>Os Maias</em>) como terão dificuldades em ler um artigo de jornal ou em escrever uma carta de reclamação. Mas que devemos, então, ensinar-lhes: a engenharia, a arquitectura ou a decoração de interiores da língua portuguesa? A resposta a essa pergunta é outra pergunta: desde quando uma coisa nos obriga a prescindir da outra?</p>
<p>Este momento é o ideal para uma proposta salomónica. Em vez de termos apenas uma gaveta, a que se chama Língua e Literatura Portuguesa, para volta e meia assistirmos a uma nova batalha pela porção que deve caber a uma e a outra, deveríamos finalmente dar a dignidade merecida às duas matérias.</p>
<p>De um lado, teríamos a Literatura, não só pelo benefício que dela resulta para a língua mas reconhecendo a centralidade das letras na cultura universal. Os clássicos da literatura em Língua Portuguesa continuariam a ser o núcleo fundamental desta disciplina, mas tampouco há razão para excluir dela alguns clássicos fundamentais em tradução — Cervantes, Shakespeare ou Tolstoi. Além disso, desobrigada do estudo linguístico aprofundado, sobraria algum espaço para iniciar experiências de escrita criativa e estimular o talento literário. Idealmente, poderia aflorar as outras Artes: penso em Drama, Música ou Cinema.</p>
<p>Do outro lado, a Linguagem. Mais uma vez, o eixo central seria a Língua Portuguesa, mas não nos deteríamos aí. Desde os saberes clássicos com contributos pragmáticos — a retórica, a gramática e a dialéctica — à análise de discurso, à construção de argumentos e às distinções entre fonética, morfologia e sintaxe (ou entre dialectos e idiomas, tão incompreendida), há aqui muito de fundamental para os dias de hoje. Saber interpretar e analisar; conhecer a história dos <em>media</em> e o panorama linguístico do mundo — temas importantes e entusiasmantes de ensinar e aprender. Ajudando a combater o analfabetismo funcional e a melhorar os níveis de literacia sem se poder ser acusado de “matar” o gosto pela fruição estética ou roubar espaço aos clássicos da literatura.</p>
<p>Ao contrário do que se diz, não é de agora que vivemos na sociedade da comunicação. Os humanos respiram comunicação e cultura como respiram oxigénio, e provavelmente desapareceriam sem elas. Duas disciplinas diferentes não são demais para os desafios de um estudante médio. Por um lado, ampliar e sofisticar a sua cultura geral, pelo contacto com os melhores exemplos históricos da literatura e mesmo das restantes artes. Por outro, ganhar ferramentas de análise e construção do discurso nos seus vários níveis. Não temos de excluir uma opção pela outra — nem devemos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Lombada</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Oct 2006 18:25:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Amaral Dias</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nada mais trivial do que, perante a pergunta “Qual é o livro da sua vida?”, que me fizeram há uns dias, responder que é difícil escolher um, que se leram muitos e se amaram outros tantos. Pode ser difícil evitar um clássico, por pudor ou falta de arrojo, ou fácil escolher o último, encapado na novidade do escaparate, no subterfúgio da divulgação ou protegido por esse ente pérfido que se dá pelo nome de memória. Podemos sempre interpretar a questão como um convite para escolher um livro de uma fase da nossa vida, um livro metarmofeseante. Embora seja esta a hipótese que, apesar de tudo, mais me agrada, não vou escolher livro algum. Queiram desculpar.</p>
<p>C.S. Lewis, no <em>A Experiência de Ler</em>, afirma que para certo tipo de leitores &#8211; os felizes contemplados com a “sensibilidade literária” – “a primeira leitura de uma obra literária constitui frequentemente uma experiência tão importante que só experiências amorosas, religiosas ou de profunda perda se lhe podem comparar. Toda a sua consciência se transforma”. Confesso que, ainda assim, prefiro a formulação de Carlos Maria Domínguez. Conta este senhor, apaixonado por livros, edições, livrarias e alfarrabistas, logo no debutar do seu <em>A Casa de Papel</em>, que “ Na Primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos <em>Poemas</em>, de Emily Dickinson, e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.” Pois é. “Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram os <em>Tigres da Malásia </em>e converteram-se em professores de literatura em remotas universidades. <em>Siddartha </em>levou ao hinduísmo dezenas de milhares de jovens, Hemingway converteu-os em desportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi vítima deles”. E eu também, que até era capaz de escolher uma destas obras e agora, por motivos evidentes, já não tenho o desplante de o fazer.</p>
<p>Mais à frente, Domínguez dá o veredicto: “Sempre que a minha avó me via a ler na cama, costumava dizer-me: “larga isso, que os livros são perigosos.” Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez da minha avó alemã”. Talvez porque a minha avó não é alemã, nunca fui tão sabiamente alvitrada. E por isso neste momento, o que me ocorre são as palavras de Vila-Matas, nessa coisa crepitante que se dá pelo nome <em>Da cidade nervosa</em>, em que o autor descreve a sua angústia perante a escolha. Conta que lhe pediram para, no Dia do Livro, escolher um fragmento de uma obra literária, de modo a que os ouvintes da rádio descobrissem a origem. E explica: “Parecia uma operação simples, mas logo me apercebi que o não era. Escolher um fragmento de entre todos os fragmentos da história da literatura universal era tão difícil como começar uma conferência ou escrever a primeira frase de um romance”. E a primeira frase de um romance é coisa mesmo difícil. Steiner, aliás, dedica a primeira linha do seu <em>Gramáticas da Criação</em> à seguinte declaração: “Já não temos começos. <em>Incipt</em>: a orgulhosa palavra latina que designa o início sobrevive ao poeirento vocábulo inglês <em>inception</em>. O escriba da Idade Média assinala o início de uma linha, o novo capítulo, por meio de uma capital iluminada”. É pena. Como diz Bragança de Miranda, em <em>Da gaveta para fora- Ensaios sobre Marxistas</em> – prometo desde já que, contra todas as expectativas, não vou falar de Marx &#8211; “Todo o começo é radical”. E Bragança de Miranda, vai daí, cita um outro: “Não dizia Platão que no começo está um Deus?” Mas voltando a Vila- Matas e ao “momento crucial” da opção. Não satisfeito com a sua inquietude, vale-se das palavras de Ítalo Calvino: “É o instante da escolha; é-nos dada a possibilidade de dizer tudo, de todos os modos possíveis. (…) Até ao instante anterior ao momento em que começamos a escrever, temos o mundo à nossa disposição.”. Depois, começa-se e o universo afunila. E nós situamo-nos.</p>
<p>Por isso, quando nos perguntam qual é o livro da nossa vida, podemos sempre fazer qualquer coisa deste género. Mais ou menos como pergunta Barthes em <em>Barthes by Barthes</em> (vai mesmo em inglês, porque não sei francês suficiente para traduzir): “Have we not enough freedom to receive a text <em>without the letter</em>?” (o sublinhado não é meu). Podemos tentar explicar que ainda andamos perdidos e que os livros, tal como prova o caso de Bluma, não estão para brincadeiras. É favor ler, então. Diz Ramón Gómez de la Serna, no <em>Greguerías</em> que “a posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá”.</p>]]></content:encoded>
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