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Em que altura é que se fodeu este blogue?

31 de Janeiro de 2008 por Filipe Moura

Era para começar a escrever só para a semana (e só para a semana é que começo a sério), mas ao ler o texto da Maria João sobre o “membro viril” não resisti. (Não é à toa que andámos na mesma escola.)

Escreveu a Maria João sobre o “caralho”. Pessoalmente, prefiro foder. Ou antes, “foder”. Prefiro o verbo “foder” ao substantivo “caralho”. Literariamente, nem se fala. Dois dos meus escritores favoritos, Mario Vargas Llosa e Rubem Fonseca, são verdadeiros artistas a “foder”. Fazem maravilhas. A Vargas Llosa roubei o título desta postagem; à falta de melhor exemplo (há muitos, mas é o único que tenho à mão) repare-se neste texto de Rubem (com que, por coincidência, comecei a escrever regularmente no Blogue de Esquerda há quatro anos):

«Prender um macumbeiro, um receptador, é uma estupidez. O sujeito preso custa um dinheirão à sociedade, cumpre algum tempo na cadeia e sai pior do que entrou. (…) Se o sujeito for um risco grande para a sociedade, um criminoso psicopata, coisa assim, aí o cara tem que ser tratado apenas.»
«E a família da vítima?»
«Foda-se a família da vítima. Você fala como se estivéssemos no século dezoito, antes de Feuerbach. A pena como vingança. Você devia ter estudado melhor esta merda na faculdade.»

O “merda” também é bom, mas a força toda vem do “foda-se”. Muito melhor que o “caralho”. Existem então dois grupos de pessoas (eu divido sempre as pessoas em grupos, seitas, categorias e tal, e os bons são sempre aqueles a que eu pertenço): as que preferem o “caralho” e as que preferem o “foder”. Eu pertenço sem dúvida a estas últimas.

A fonética do “foda-se” é muito melhor que a do “caralho”, principalmente aquele “fô” inicial. Não há nada mais irritante do que a abreviatura (muito comum na escrita dos jovens de hoje) da-se (ou dasse). Não sei se julgam que parecem “bem educados” por omitirem a sílaba tónica, mas quem tira o “fô” ao “foda-se” tira-lhe tudo. É um “foda-se” que broxou. Nem sequer é um coito interrompido: a foda nem começou. A alternativa fónix, tão do agrado de Luís Nazaré, é um bocadinho melhor, mas não há nada que chegue a um fooooooda-se, com o “ô” bem prolongado. Ou então um “que se foda”. Este último é o mais indicado para a pronúncia brasileira: quissifoda! Lindo, não é? Na foda, como na língua portuguesa, os brasileiros têm sempre razão. Bom Carnaval para todos. Fodam muito e em segurança.

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Uma proposta salomónica

4 de Dezembro de 2006 por Rui Tavares

[do Público de 2 de Dezembro]

Há uma tensão que me intriga e estimula: para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura.
A TLEBS vai matar as nossas criancinhas. Não sabia? Vai penetrar naqueles encéfalos tenrinhos e secar-lhes os neurónios. Proteja os seus filhos. Caso contrário, ao fim de uma geração ninguém mais falará português em Portugal. Você foi avisado por Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Helena Matos, Maria Alzira Seixo e muitos outros: uma conspiração de linguistas motivados pelo ódio à língua portuguesa e a raiva à literatura inventou os epicenos e os nomes contáveis, vírus de uma epidemia de TLEBS que pode vir a ser pior do que a gripe das aves ou a pneumonia asiática, juntas.

A reacção pública à TLEBS — que, no mundo real, é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário — foi, mais uma vez, exemplar dos debates sobre educação em Portugal. Os comentadores do costume (e algumas adições) continuam viciados em criar o pânico a qualquer gesto, com uma desconfiança crónica dos técnicos e professores, e sempre prontos a investir no sensacionalismo e na confusão, a serviço de um suposto tempo em que as coisas eram evidentes e “se aprendia”. Como me dizia um amigo biólogo, repete-se aqui o fundo da discussão sobre Plutão: como toda a gente tinha aprendido que Plutão era um planeta, era forçoso que Plutão continuasse a ser um planeta para sempre, independentemente do que entretanto tivessem descoberto os astrónomos.

Do outro lado, temos uma comunidade técnica e científica assarapantada no meio do espaço público como um bicho na auto-estrada. Ironicamente, os linguistas não são capazes de comunicar com a comunidade. Mas não lamentemos demasiado os académicos, que só têm de se queixar pelas suas culpas, principalmente quando a impotência desliza para o “não falem do que não sabem”, como fez Maria Helena Mira Mateus. Os académicos têm de entender que quando está em causa a generalização dos seus saberes, não só é natural como desejável que as pessoas acabem “falando do que não sabem”. Ou falamos todos do que não sabemos, ou sucumbimos à ditadura tecnocrática — e se os especialistas querem ajudar ao debate a melhor maneira de o fazer não é exigir-lhe que termine. Além de que, se os linguistas tivessem pensado no resultado final, teriam feito bem em trabalhar menos e não mais: a TLEBS desce efectivamente a um nível minucioso que, como se viu, atrapalhou mais do que ajudou.

Se eu fosse linguista, teria especial cuidado com este particular, porque já se chegou ao ponto em que Vasco Graça Moura conseguiu convencer as pessoas de que o linguista é o inimigo da língua e abomina a literatura. O que é uma especificidade portuguesa muito infeliz: nos EUA, por exemplo, basta ver a importância pública de autores como Steven Pinker e, de forma diferente, George Lakoff. A Linguística é talvez a disciplina das humanidades que mais evoluiu e que melhor diálogo tem com as ciências naturais: perguntem a António Damásio sobre os ecos entre o seu trabalho e o dos linguistas, na neurologia, nas ciências cognitivas e na inteligência artificial. A Linguística ocupa um lugar-charneira no arquipélago dos saberes, o que explica parte das linhas de fractura na discussão da TLEBS: os linguistas são hoje uma espécie bem diferente dos seus restantes colegas das Faculdades de Letras.

Acabamos então demonizando uma disciplina de ponta e, a acreditar nas últimas notícias, ferindo de morte a TLEBS. E para quê? Para voltar a uma terminologia obsoleta, divergente da utilizada no maior país de língua portuguesa e que não é menos específica nem complicada do que a TLEBS? Não haverá então nada que se aproveite desta discussão?

Claro que há. Há um aspecto que me intriga e estimula: esta tensão fundamental entre os que defendem a prioridade ao estudo da língua e os que defendem a prioridade à literatura. Para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura. Por experiência pessoal, sou sensível ao argumento de Vasco Graça Moura de que o domínio da língua vem depois do entusiasmo da leitura, como quem diz: levem-nos a visitar o mosteiro da Batalha em vez de lhes dizerem o que é um arcobotante. Por outro lado, quem ainda não esqueceu o último grande pânico a propósito dos níveis de literacia compreende que se os estudantes desconhecerem os materiais de que é feita a língua não só nunca atingirão as alturas do mosteiro da Batalha (ou d’Os Maias) como terão dificuldades em ler um artigo de jornal ou em escrever uma carta de reclamação. Mas que devemos, então, ensinar-lhes: a engenharia, a arquitectura ou a decoração de interiores da língua portuguesa? A resposta a essa pergunta é outra pergunta: desde quando uma coisa nos obriga a prescindir da outra?

Este momento é o ideal para uma proposta salomónica. Em vez de termos apenas uma gaveta, a que se chama Língua e Literatura Portuguesa, para volta e meia assistirmos a uma nova batalha pela porção que deve caber a uma e a outra, deveríamos finalmente dar a dignidade merecida às duas matérias.

De um lado, teríamos a Literatura, não só pelo benefício que dela resulta para a língua mas reconhecendo a centralidade das letras na cultura universal. Os clássicos da literatura em Língua Portuguesa continuariam a ser o núcleo fundamental desta disciplina, mas tampouco há razão para excluir dela alguns clássicos fundamentais em tradução — Cervantes, Shakespeare ou Tolstoi. Além disso, desobrigada do estudo linguístico aprofundado, sobraria algum espaço para iniciar experiências de escrita criativa e estimular o talento literário. Idealmente, poderia aflorar as outras Artes: penso em Drama, Música ou Cinema.

Do outro lado, a Linguagem. Mais uma vez, o eixo central seria a Língua Portuguesa, mas não nos deteríamos aí. Desde os saberes clássicos com contributos pragmáticos — a retórica, a gramática e a dialéctica — à análise de discurso, à construção de argumentos e às distinções entre fonética, morfologia e sintaxe (ou entre dialectos e idiomas, tão incompreendida), há aqui muito de fundamental para os dias de hoje. Saber interpretar e analisar; conhecer a história dos media e o panorama linguístico do mundo — temas importantes e entusiasmantes de ensinar e aprender. Ajudando a combater o analfabetismo funcional e a melhorar os níveis de literacia sem se poder ser acusado de “matar” o gosto pela fruição estética ou roubar espaço aos clássicos da literatura.

Ao contrário do que se diz, não é de agora que vivemos na sociedade da comunicação. Os humanos respiram comunicação e cultura como respiram oxigénio, e provavelmente desapareceriam sem elas. Duas disciplinas diferentes não são demais para os desafios de um estudante médio. Por um lado, ampliar e sofisticar a sua cultura geral, pelo contacto com os melhores exemplos históricos da literatura e mesmo das restantes artes. Por outro, ganhar ferramentas de análise e construção do discurso nos seus vários níveis. Não temos de excluir uma opção pela outra — nem devemos.

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Lombada

4 de Outubro de 2006 por Joana Amaral Dias

Nada mais trivial do que, perante a pergunta “Qual é o livro da sua vida?”, que me fizeram há uns dias, responder que é difícil escolher um, que se leram muitos e se amaram outros tantos. Pode ser difícil evitar um clássico, por pudor ou falta de arrojo, ou fácil escolher o último, encapado na novidade do escaparate, no subterfúgio da divulgação ou protegido por esse ente pérfido que se dá pelo nome de memória. Podemos sempre interpretar a questão como um convite para escolher um livro de uma fase da nossa vida, um livro metarmofeseante. Embora seja esta a hipótese que, apesar de tudo, mais me agrada, não vou escolher livro algum. Queiram desculpar.

C.S. Lewis, no A Experiência de Ler, afirma que para certo tipo de leitores – os felizes contemplados com a “sensibilidade literária” – “a primeira leitura de uma obra literária constitui frequentemente uma experiência tão importante que só experiências amorosas, religiosas ou de profunda perda se lhe podem comparar. Toda a sua consciência se transforma”. Confesso que, ainda assim, prefiro a formulação de Carlos Maria Domínguez. Conta este senhor, apaixonado por livros, edições, livrarias e alfarrabistas, logo no debutar do seu A Casa de Papel, que “ Na Primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas, de Emily Dickinson, e, ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.” Pois é. “Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram os Tigres da Malásia e converteram-se em professores de literatura em remotas universidades. Siddartha levou ao hinduísmo dezenas de milhares de jovens, Hemingway converteu-os em desportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi vítima deles”. E eu também, que até era capaz de escolher uma destas obras e agora, por motivos evidentes, já não tenho o desplante de o fazer.

Mais à frente, Domínguez dá o veredicto: “Sempre que a minha avó me via a ler na cama, costumava dizer-me: “larga isso, que os livros são perigosos.” Durante muitos anos acreditei na sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez da minha avó alemã”. Talvez porque a minha avó não é alemã, nunca fui tão sabiamente alvitrada. E por isso neste momento, o que me ocorre são as palavras de Vila-Matas, nessa coisa crepitante que se dá pelo nome Da cidade nervosa, em que o autor descreve a sua angústia perante a escolha. Conta que lhe pediram para, no Dia do Livro, escolher um fragmento de uma obra literária, de modo a que os ouvintes da rádio descobrissem a origem. E explica: “Parecia uma operação simples, mas logo me apercebi que o não era. Escolher um fragmento de entre todos os fragmentos da história da literatura universal era tão difícil como começar uma conferência ou escrever a primeira frase de um romance”. E a primeira frase de um romance é coisa mesmo difícil. Steiner, aliás, dedica a primeira linha do seu Gramáticas da Criação à seguinte declaração: “Já não temos começos. Incipt: a orgulhosa palavra latina que designa o início sobrevive ao poeirento vocábulo inglês inception. O escriba da Idade Média assinala o início de uma linha, o novo capítulo, por meio de uma capital iluminada”. É pena. Como diz Bragança de Miranda, em Da gaveta para fora- Ensaios sobre Marxistas – prometo desde já que, contra todas as expectativas, não vou falar de Marx – “Todo o começo é radical”. E Bragança de Miranda, vai daí, cita um outro: “Não dizia Platão que no começo está um Deus?” Mas voltando a Vila- Matas e ao “momento crucial” da opção. Não satisfeito com a sua inquietude, vale-se das palavras de Ítalo Calvino: “É o instante da escolha; é-nos dada a possibilidade de dizer tudo, de todos os modos possíveis. (…) Até ao instante anterior ao momento em que começamos a escrever, temos o mundo à nossa disposição.”. Depois, começa-se e o universo afunila. E nós situamo-nos.

Por isso, quando nos perguntam qual é o livro da nossa vida, podemos sempre fazer qualquer coisa deste género. Mais ou menos como pergunta Barthes em Barthes by Barthes (vai mesmo em inglês, porque não sei francês suficiente para traduzir): “Have we not enough freedom to receive a text without the letter?” (o sublinhado não é meu). Podemos tentar explicar que ainda andamos perdidos e que os livros, tal como prova o caso de Bluma, não estão para brincadeiras. É favor ler, então. Diz Ramón Gómez de la Serna, no Greguerías que “a posição mais incómoda para um livro é ficar aberto e de bruços no braço de um sofá”.

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