20 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

(Agora nas livrarias: Elogio da intolerância e Bem-vindo ao deserto do real, editados pela Relógio D’Água)
Slavoj Žižek é um pensador desconcertante. Faz do humor uma arma. Muitas vezes parece que apenas quer épater le bourgeois, mas vai dizendo verdades incómodas. Num tempo de relativismos, garante que pode-se falar das culturas, das sexualidades, das tolerância, mas que se a esquerda deixa de fora as questões da economia, da ideologia e da produção da vida, é apenas uma cereja no cimo do bolo do capitalismo. É óbvio, por exemplo, que uma sociedade que respeita a liberdade sexual é , nesse aspecto, mais avançada que outras formas de vida em conjunto. Mas, é também verdade que é possível ter uma sociedade com pobreza, discriminação e exploração e ter liberdade sexual. Escrevia Hobsbawm que o “sexo é a ópera dos pobres”, há regimes repressivos que coexistem bem com a liberdade sexual e, do mal o menos, os pobres podem sempre ficar prazenteiramente ocupados com isso.
Žižek afirma a necessidade de um certo retorno ao leninismo, quando afirma, por exemplo, na entrevista do El Pais, que mais do que discutir a participação das mulheres na política é preciso forçar essa entrada, mas é também o pensador que nos alerta contra o activismo pelo activismo, dizendo que actividade não é obrigatoriamente movimento. E que, sobretudo, é preciso fazer, nos dias de hoje, uma pausa para pensar.
No fundo, a grande questão é a da verdade na mentira, bem ilustrada na anedota, contada pelo autor, sobre dois russos que se encontram, anos depois da queda da União Soviética, em que o primeiro diz ao segundo: “já viste que os comunistas nos mentiram sobre o socialismo?”; a que o outro responde: “o mais grave é que nos disseram toda a verdade sobre o capitalismo”.
É na construção de uma nova agenda teórica que Slavoj Žižek se insere.
tags: filosofia, intelectuais, Livros, Žižek
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25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares
Este homem, como diria João Carlos Espada, é um sir. O problema é que, nos velhos tempos, João Carlos Espada e a direita portuguesa auto-proclamada de liberal não conseguiria alinhar duas palavras sem citar Ralf Dahrendorf. Hoje, sir Ralf anda mais desaparecido da prosa nacional, talvez por escrever coisas como este artigo sobre “o 11 de Setembro e o novo autoritarismo”. Algumas frases-chave:
«Mas terá mesmo começado uma guerra a 11 de Setembro de 2001? Nem todos se contentam com esta definição americana. Na época alta do terrorismo irlandês no Reino Unido, sucessivos governos britânicos se esforçaram ao máximo para não conceder ao IRA a ideia de que se estava a travar uma guerra. “Guerra” teria significado a aceitação dos terroristas como inimigos legítimos…»
«…os actos terroristas devem ser melhor descritos como actos criminosos. Ao chamar-lhes guerra… o governo dos EUA justificou políticas internas que, antes dos ataques de 11 de setembro, seria inaceitáveis em qualquer país livre.»
«Desde cedo, o campo-prisão de Guantánamo em Cuba tornou-se o símbolo de uma coisa inaudita: a prisão sem julgamento de “combatentes ilegais” privados de todos os direitos humanos. Resta ao mundo imaginar quantos mais destes homens não-humanos permanecem neste momento em quantos outros lugares.»
«As características fundamentais do Ocidente, a democracia e o estado de direito, sofreram mais às mãos dos seus defensores do que dos seus atacantes.»
«…os nossos líderes devem procurar acalmar, ao invés de explorar, a ansiedade pública. Os terroristas com quem estamos em “guerra” não podem vencer, porque a sua visão feita de trevas nunca ganhará ampla legitimidade popular. Essa é mais outra razão para nos erguermos em defesa dos nossos valores — em primeiro lugar, e acima de tudo, agindo de acordo com eles.»
O TPC para esta semana é: traduzir e divulgar este texto, insistir na sua publicação nos nossos jornais. Mostrar à nossa direita quão afastados e adversos andam dos valores que dizem defender.
tags: 11-setembro, democracia, espaço-público, Guerra-ao-terrorismo, intelectuais, media, opinião
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18 de Setembro de 2006 por Rui Tavares
[resposta a um inquérito DN/6a]
A mediatização tornou os intelectuais mais dependentes das massas do que das elites?
Em Portugal dá-se uma inversão curiosa: temos uma elite sem grandes realizações que necessita, para se sentir elite, de rebaixar constantemente as massas. Isto vale tanto para a velha elite que se aguentava com a ditadura como para aquela a quem o estado caiu no colo com a democracia. A nossa elite não tem grande mérito e no fundo sabe-o: basta olhar para aquela necessidade um pouco histriónica de se escandalizar com as ignorâncias dos jovens, a rusticidade do povo, os hábitos da classe média — o écran de plasma e o cartão de crédito e o futebol. Os nossos intelectuais não dependem das massas porque não pensam que as massas sejam o verdadeiro alvo do seu desempenho nos media. Pelo contrário: o público-alvo de que dependem é precisamente essas elites, muitíssimo inseguras com a contemporaneidade, que precisam de ser contantemente mimadas, consoladas e convencidas de que continuam a contar para alguma coisa. Noutros países, a resposta varia muito com o contexto e depende de cada história social. Um factor essencial é o do tamanho e da abertura da esfera pública. Pessoalmente, gosto da concepção do Padre António Vieira, “quem fala para o baixo também o entende o alto”. Quer dizer: o intelectual deve depender apenas de si e falar para toda a gente.
tags: espaço-público, intelectuais, media, opinião
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18 de Setembro de 2006 por Rui Tavares
[resposta a um inquérito DN/6a]
Aceitar o sistema mediático é para o intelectual uma transigência ao facilitismo?
Não há ideia mais perniciosa do que a de reservar certos assuntos “só para especialistas”. Os especialistas são preciosos, mas considerar que certos temas lhes pertencessem em exclusividade consistiria em sequestrá-los da esfera pública, empobrecendo-a. Os assuntos são de todos, dos mais fúteis aos mais cruciais: essa coisa do “não percebo nada de arte” ou “não percebo nada de física” não pega, principalmente se discutirmos um novo museu ou uma central nuclear. O papel do intelectual público consiste em dar precisamente esse exemplo: chegar-se à frente para discutir um assunto que pode não dominar completamente, correndo os riscos da exposição sem rede, para em público tentar entendê-lo e torná-lo inteligível. É muito difícil fazê-lo mantendo o rigor e a honestidade intelectual enquanto se acrescenta vivacidade, um certo sentido de entretenimento e liberdade de espírito. Mas facilitismo seria não tentar.
tags: espaço-público, intelectuais, media, opinião
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18 de Setembro de 2006 por Rui Tavares
[resposta a um inquérito DN/6a]
Em que medida a dimensão mediática altera a noção clássica de intelectual?
Não há nada de intrinsecamente dissonante entre o intelectual e os media, bem pelo contrário. Entre as sucessivas declinações históricas que foi tendo a figura do intelectual (como erudito, filósofo, pensador, professor, pesquisador, etc.) conta-se a de ser um intermediário de opinião e conhecimento. Ser um intermediário, ou seja, estar no meio, — entre disciplinas, entre os seus contemporâneos ou concidadãos, entre instituições e indivíduos — exige familiaridade e compreensão dos media. Sempre foi assim: a altivez com que alguns intelectuais tratam hoje os mass media ou os novos media não seriam entendidas por Montesquieu e Voltaire, que tratavam o romance e o teatro por tu, e muito menos pelos intelectuais do século XIX no seu fulgurante caso de amor pela imprensa (que faz lembrar, em certa medida, o sucesso dos blogues no panorama actual). Deve antes dizer-se que a dimensão mediática completa ou cumpre plenamente o intelectual, convertendo-o em intelectual público.
tags: espaço-público, intelectuais, media, opinião
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