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Brevíssima meditação sobre a escatologia do poder e dos media

3 de Novembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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A secção mais esclarecedora da imprensa portuguesa encontra-se na Pública. Chama-se “O Lixo dos Famosos” e consiste em mostrar , para deleite dos leitores, o conteúdo do lixo de uma pessoa “conhecida”. Embora quase toda a imprensa se tenha transformado num revelador de intimidades e excreções, é natural que tenha sido o diário de Belmiro o primeiro a destapar a tampa e a ir directamente ao lixo, em si. O hábito faz o público, e os leitores desse diário já estão habituados a esse tipo de eflúvios: lêem a sua secção editorial e têm acesso ao telúrico universo mental do director. Enquanto a imprensa sensacionalista oficial se concentra na roupa interior e no luxo dos ricos, o “jornal de referência” inova e com um toque de José Manuel Fernandes transforma, num passe de mágica, o “luxo” em “lixo” e coloca a populaça ignara a prestar vassalagem aos despojos dos poderosos. Estamos perante o último degrau do domínio ideológico. Os cientistas sociais criaram o conceito de empowerment para falar de práticas que concedem mais poder a determinados grupos e populações, podemos dizer que a acção do Público tem o efeito contrário: é um completo ‘enlixerment’ (num inglês do Casaquistão) dos leitores: a ideia que os compradores de um jornal devem adorar os excrementos dos ricos, para além de determinadas taras sexuais entre adultos consentâneos, transforma-os literalmente em gente abaixo da merda dos ditos.
Um dos aspectos mais geniais neste processo é que o sistema tornou rentável esta abjecção: as revistas e os jornais que vendem a vida maravilhosa dos muito ricos, do casamento até ao caixote de lixo, têm imensos pobres a comprar. Estamos perante uma submissão muito lucrativa. Não só exploram, não só criam um sistema económico que atira 80% da população do mundo para a miséria, como ainda lhes vendem a vida fantástica dos ricos, em fascículos.
O lugar dos jornalistas neste processo é um dos maiores achados: antigamente, pedia-se aos profissionais da comunicação social que noticiassem aquilo que de importante aconteceu no mundo; hoje pede-se que escrevam, gravem, filmem aquilo que vai “vender” e que o público quer, supostamente, conhecer. Num dos grupos de media em que trabalhei, o proprietário explicou-me que ‘a maioria das pessoas tem vidas horríveis e que não querem ver a sua situação retratada ou denunciada, o que as pessoas querem é sonhar’. Para isso devemos mostrar-lhes os ricos e famosos. Por um passe de mágica entramos no eugenismo jornalístico, em grande parte das revistas portuguesas, ditas de informação, está proibido, pelas direcções editoriais, aparecerem “pobres, velhos, negros e feios”. Toda a gente sabe que não vendem. Há, obviamente, excepções: uma negra voluptuosa e famosa pode ter fotografia e um multimilionário parecido com uma abóbora tem de ser publicado. Mas são excepções que confirmam o espírito da regra.
Nem o mais horrível dos totalitarismos conseguiu fazer isso às suas vítimas, por muito que tentasse, duvido que Hitler conseguisse impingir aos judeus que iam para os campos de concentração as crónicas sentimentais dos chefes das SS.
Digamos que para quem vê, chegámos a um momento profundamente esclarecedor: no fundo, tanto do ponto de vista do conteúdo, como do ponto de vista da propriedade a maioria da nossa comunicação social não passa de “lixo dos ricos”.

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Dahrendorf: o “Novo Autoritarismo”

25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares

Este homem, como diria João Carlos Espada, é um sir. O problema é que, nos velhos tempos, João Carlos Espada e a direita portuguesa auto-proclamada de liberal não conseguiria alinhar duas palavras sem citar Ralf Dahrendorf. Hoje, sir Ralf anda mais desaparecido da prosa nacional, talvez por escrever coisas como este artigo sobre “o 11 de Setembro e o novo autoritarismo”. Algumas frases-chave:


«Mas terá mesmo começado uma guerra a 11 de Setembro de 2001? Nem todos se contentam com esta definição americana. Na época alta do terrorismo irlandês no Reino Unido, sucessivos governos britânicos se esforçaram ao máximo para não conceder ao IRA a ideia de que se estava a travar uma guerra. “Guerra” teria significado a aceitação dos terroristas como inimigos legítimos…»

«…os actos terroristas devem ser melhor descritos como actos criminosos. Ao chamar-lhes guerra… o governo dos EUA justificou políticas internas que, antes dos ataques de 11 de setembro, seria inaceitáveis em qualquer país livre.»

«Desde cedo, o campo-prisão de Guantánamo em Cuba tornou-se o símbolo de uma coisa inaudita: a prisão sem julgamento de “combatentes ilegais” privados de todos os direitos humanos. Resta ao mundo imaginar quantos mais destes homens não-humanos permanecem neste momento em quantos outros lugares.»

«As características fundamentais do Ocidente, a democracia e o estado de direito, sofreram mais às mãos dos seus defensores do que dos seus atacantes.»

«…os nossos líderes devem procurar acalmar, ao invés de explorar, a ansiedade pública. Os terroristas com quem estamos em “guerra” não podem vencer, porque a sua visão feita de trevas nunca ganhará ampla legitimidade popular. Essa é mais outra razão para nos erguermos em defesa dos nossos valores — em primeiro lugar, e acima de tudo, agindo de acordo com eles.»

O TPC para esta semana é: traduzir e divulgar este texto, insistir na sua publicação nos nossos jornais. Mostrar à nossa direita quão afastados e adversos andam dos valores que dizem defender.

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Jorge Palinhos: A Conspiração

25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares

[E agora apresento o primeiro craque das segundas-feiras: Jorge Palinhos, que já foi do Cruzes Canhoto e do Blogue de Esquerda. Nunca conheci pessoalmente o Jorge, mas sou um fã de longa data. Sei que será o meu primeiro acerto como editor do 5dias, mas o mérito é todo dele.]

Uma parte significativa das pessoas que conheço acredita que o governo americano é responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2001.
Estas pessoas não são, note-se, anti-americanos destravados, leninistas ferozes ou maníacos da conspiração. São pessoas de ordinária normalidade, profissão regular, família burguesa e votantes de partidos centristas. Mas são também pessoas que dão crédito a teorias de que o Pentágono foi atingido por um míssil, de que as Torres Gémeas foram alvo de demolição sistemática, de que o Voo 93 foi abatido por um míssil, e que tudo, no fundo, não passou de uma elaborada e sangrenta desculpa para invadir o Iraque e o Afeganistão. E estas pessoas não estão sós na sua crença, visto que inquéritos recentes revelam que quase 40 % dos americanos acreditam que o seu próprio governo teve mão nos atentados.

Por modéstia própria, e alguma auto-estima, não costumo desconfiar que as pessoas que me rodeiam precisam de apoio psiquiátrico. Acredito até que todos os governos são suspeitos até prova em contrário: não são novos os Estados que enganam e sacrificam os seus concidadãos para desencadear guerras e invasões, e o enorme poder económico e militar de que dispõem justificam a desconfiança e fiscalização extremas.

Mas, apesar disso, olho para o 11 de Setembro e espanto-me: será possível que um governo destrua uma parte da sua sede militar e arrase um importante centro de negócios, no lugar do mundo com maior percentagem por metro quadrado de jornalistas, câmaras de vigilância e eleitores hostis ao governo, só para se ir meter em duas alhadas sem saída visível? E é possível recrutar, para tal operação, centenas de agentes de lealdade à prova de remorsos e inconfidências? E como se calam dezenas de milhar de especialistas capazes de suspeitar de algo? E como é que alguém poderia levar a bom termo uma operação de tanta audácia e inteligência e em seguida ter sucessivos desaires no Afeganistão e no Iraque? E, mais importante ainda, como continuar a discorrer com gosto sobre os índices de inteligência de George W. Bush se há a possibilidade de este ser o mais carismático génio operacional do mundo desde Amílcar Barca?

Para tirar dúvidas, nada como ver a mais reputada denúncia desta alegada conspiração: um documentário divulgado na Internet, montado por um trio de empenhados adolescentes, que se basearam em teorias e factos postos a correr anonimamente na internet.

A minha conclusão foi: é bom ver os jovens de hoje retomarem a sua leitura de Aristóteles! Porque a eficácia retórica do documentário é notável. Começa-se por apontar factos passados pouco abonatórios para o governo americano e indícios de que alguém teria lucrado com os atentados para pôr o espectador a levantar o sobrolho. Passa-se, em seguida, para o sumo da argumentação, apontando inconsistências, contradições e paradoxos da versão oficial de forma a deixar o receptor cheio de suspeitas. Entra-se, então, no acumular de pistas e pontas soltas, sem, contudo, se fornecer qualquer contexto ou sistematização.
Por fim aponta-se um culpado e sugerem-se possíveis motivos de culpa, nenhum deles aprofundado, e termina-se com os autores a dizerem-se perseguidos e ridicularizados pelas suas ideias e acenando patrioticamente a bandeira americana.

O veredicto? 16 em estrutura, 4 em conteúdo. Porque se é admirável o trabalho e empenho destes adolescentes, e parece haver pormenores genuinamente estranhos que mereciam investigação, a existência de líderes maquiavélicos e agentes impiedosos continua a parecer-me do domínio de Ian Fleming. É que, para os paradoxos e inconsistências da versão oficial, continuo a achar mais verosímil a explicação de que muitos fenómenos físicos continuam incompreensíveis para nós e que as instituições americanas está tão cheio de incompetentes, indolentes, débeis mentais e corruptos como todas as outras organizações do mundo.

Serei ingénuo? É uma possibilidade. Mas em toda esta alegada conspiração, o que mais me intriga é a quantidade e qualidade de pessoas que nela acreditam.

Não me refiro à visibilidade e impunidade que os divulgadores da dita conspiração parecem ter, mas à necessidade que tantas pessoas comuns parecem ter em acreditar nela. Falo do facto de que milhões de americanos parecem suspeitar que o seu governo legitimamente eleito as enganou e usou como um horroroso isco e nada fazerem quanto isso. Um político húngaro admitiu recentemente ter mentido para ser reeleito e tem manifestações e protestos quotidianos à porta. O governo americano é suspeito de ter sacrificado mais de 3000 dos seus cidadãos e… nada?

Isto leva-me a duas suspeitas. Uma, é a suspeita de que as pessoas preferem acreditar na omnipotência e perversidade do seu próprio governo a acreditar na fraqueza e impotência deste perante inimigos estrangeiros. A outra é a suspeita de que se as pessoas crêem que o seu governo eleito é totalitário e nada fazem contra isso é porque, talvez, no fundo, guardam o secreto desejo que este seja mesmo totalitário e omnipotente.

E isto é a conspiração mais assustadora de todas.

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