Pesquisa

COMENTÁRIOS

Ciclo Homenagem a Jean Rouch

12 de Fevereiro de 2009 por zenuno

ciclo de cinema em homenagem a a Jean Rouch, IFP, 2-16 Fev
Ciclo de filmes. Entrada livre. Filmes legendados em português.
No Instituto Franco-Português

Em Fevereiro de 2004, Jean Rouch, cineasta e etnógrafo, morre nas estradas do Níger. Deixa uma obra cinematográfica imensa (mais de 120 filmes !) e atípica, intuitiva e inspirada: documentário etnográfico, sociológico, “cinema directo”, ficção…

Durante este mês, o Instituto Franco-Português presta-lhe homenagem apresentando um ciclo de filmes que permitirá descobrir – ou redescobrir – o trabalho de um homem livre, curioso e profundamente humanista: um “mestre louco”!

Nota do 5dias: Apesar da entrada ser livre, aparentemente há que marcar com a antecedência mínima de 2 dias.

Ler o resto »

tags: , , , ,

Falsários, Welles e subversão

27 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

“F de Falsário”, de Orson Welles, é um programa político. Welles fala-nos de enganos e promete-nos toda a verdade durante “uma hora” . Não nos esqueçamos que o autor de “Citizan Kane”, um especialista do engano, começou a sua carreira levando milhões de norte-americanos a fugir devido à transmissão da sua versão radiofónica da “Guerra dos Mundos”. Pelo ecrã, vão desfilar as histórias de um falsário húngaro, Elmyr de Hory, do seu biógrafo, Clifford Irving, e de Howard Hughes. O pintor é a prova viva do falhanço do sistema. Encheu os museus de “legítimos” Matisses, Modiglianis e Picassos. O seu sucesso é a afirmação do insucesso dos especialistas. Há uma ordem de pés de barro que sobrevive porque é, supostamente, capaz de dizer aquilo que é bom e que é mau. Pelo caminho, passeia-se a belíssima actriz e co-argumentista do filme, a croata Oja Kodar, seguida por todos os olhares masculinos. Ela é a neta do falsário. Foi amante de Picasso, que lhe ofereceu 22 quadros. Anos depois do tórrido romance, Kodar organiza uma exposição com as obras trocadas por noites de sexo. Picasso vai à mostra e sai furioso: nenhum dos quadros é dele. Faz uma cena à antiga amante que lhe confessa que o avô está a morrer, e que as obras que estão à vista do público são dele. Para chatear ainda mais o célebre pintor, a crítica especializada garante serem estas obras as mais geniais criadas pelo mestre.
Ficamos atónitos com esta história, como é possível não termos sabido? Durante este momento de dúvida, aparece Orson Welles que nos relembra ter prometido “toda a verdade durante uma hora”, olha para o relógio e diz: ‘passou uma hora e quinze minutos, estes quinze minutos são meus’ .
Grande parte da dominação baseia-se na legitimidade que lhes é outorgada por especialistas e aceite pelos dominados. O “hoax” tem a pretensão de estilhaçar, pelo ridículo, a capa intelectual da dominação.
A palavra inglesa “hoax” significa ‘o truque que se faz a alguém fazendo passar uma coisa falsa por verdadeira’. Segundo André Gatolin, num artigo da revista “Multitudes”, nº25, a origem etimológica da palavra é incerta; derivaria da expressão “hocus pocus”, fórmula utilizada pelo ilusionista no momento crucial do truque. O antropólogo Lévi-Strauss estudava processos similares nas sociedades tradicionais, nas quais, através de rituais e simulacros, determinados elementos conseguiam provocar a subversão e a inversão de papeis sociais.
O “hoax” é pois uma forma de enganar os poderes com as suas próprias regras e taras mediáticas.
Jornalistas, como o Gunter Wallraff – que se disfarçou de trabalhador turco para denunciar, no livro “Cabeça de Turco”, as condições de vida dos imigrantes na Alemanha e passou por militante da extrema direita alemã para entrar nos meandros da conspiração dos bombistas do ELP e do, então, general Spínola, no Verão quente da revolução portuguesa – , ou activistas, como os Yes Man, Luther Blisset e Serpica Naro, que armadilharam os poderosos no seu próprio terreno, são exemplos de utilização do “hoax”.
Muitos destes novos militantes reivindicam-se de escritos críticos de Félix Guattari e Cornélius Castoriadis e da afirmação de um “imaginário social radical”.
É óbvio que numa sociedade mediatizada como a nossa, o “hoax” encaixa bem nas buscas mediáticas do sensacional e diferente, mas também é verdade que pode ser, caso não passe de forma, facilmente recuperado pelas regras do espectáculo e converter-se em mais uma animação para telespectadores.
No entanto, a força do “hoax” está na sua capacidade de ridicularizar, aos olhos do mundo, aquilo que até àquele momento parecia invencível.
A velha história do rei vai nu é o mais antigo “hoax” que se conhece. Estamos perante uma partida que põe literalmente a nu a fraqueza do poder. Os aldrabões convencem o rei e os nobres que toda a gente superiormente inteligente vê a roupa luxuosa por eles confeccionada. Nenhum dos figurões quer dar parte fraca, e vão em pelo para a rua, perante uma plateia que finge ser inteligente e, naturalmente, ver a roupa luxuosa que os cobre, até que uma criança berra: “o rei vai nu!”.

tags: ,

Um filme para hoje

13 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

batalhadeargel5.jpg

O realizador Gillo Pontecorvo morreu ontem. Teve a capacidade de criar uma obra que se mantém perigosamente actual: “A Batalha de Argel” (1965). Há dois anos, o New York Times noticiou que o filme foi passado numa sessão de trabalho no Pentágono. Os responsáveis norte-americanos, a braços com a insurreição iraquiana, pretendiam perceber como é que se domina uma população em revolta. A lição francesa sobre como torturar é uma experiência com muito crédito nos Estados Unidos. Os primeiros formadores da Escola das Américas – escola organizada pela CIA para torcionários de regimes amigos da América Latina – foram veteranos franceses da guerra da Argélia. O livro do Coronel francês Roger Trinquier, “La Guerre Moderne”, que explica pormenorizadamente a necessidade de utilizar a tortura para obter informações, e sobretudo para aterrorizar e humilhar a população civil, era leitura obrigatória dos comandos militares no Vietname. São os militares franceses que primeiro teorizam, de uma forma democrática, o número de civis, por baixa militar do ocupante que é necessário matar para garantir o domínio de um território. A investigação dos altos-comandos franceses dá-se na ressaca da derrota na Indochina francesa.
O filme do realizador Gillo Pontecorvo tem como fio condutor a história de militantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), Ali-la-Pointe e seus companheiros que resistem na Casbah, o maior bairro popular da capital Argel, entre 1954 e 1957. Toda a acção centra-se num militar e ex-resistente aos Nazis, o coronel Mathieu (inspirado no coronel Jacques Massu – “o carrasco de Argel”), que utiliza e defende abertamente a tortura para desbaratar a resistência argelina e manter o país sob domínio dos franceses. O filme é de tal forma realista que esteve proibido na Argélia e em França (só exibido em Paris em 1971, tendo o cinema que o passou sofrido um atentado). Nas imagens sucedem-se cenas de tortura e ataques bombistas a militares e população francesa. A certa altura, é detido um líder da FLN argelina e exibido numa conferência de imprensa. Quando um jornalista francês lhe pergunta se “não tem vergonha de usar as mulheres argelinas para transportar bombas para fazerem atentados terroristas”, o nacionalista responde: “vocês bombardeiam as nossas aldeias com os vossos aviões, se querem trocar os cestos das nossas mulheres pelos vossos bombardeiros, nós trocamos imediatamente”.
Até ao fim do filme, o núcleo da FLN na Casbah é totalmente liquidado. No entanto, as manifestações aumentam, a revolta floresce e os franceses, depois de matarem mais de um milhão de argelinos, são obrigados a sair da Argélia.
Em tempos de “guerra ao terrorismo” e de defesa da tortura legalizada, este filme de Gillo Pontecorvo obriga-nos a pensar.

tags: ,

Dália desbotada

11 de Outubro de 2006 por Joana Amaral Dias

dalia-negra.gifA história é soturna. Trata-se de um famoso e singular homicídio em Hollywood. Uma jovem aspirante ao estrelato foi serrada ao meio. Sangue drenado, rosto e corpo esculpidos com mais uns quantos mimos. O assassino nunca foi encontrado. A moça terminou célebre, sem dúvida.

Apesar de todo este material em bruto, o livro de James Ellroy é mau, mas pessoal. Tratando-se de Brian de Palma, esperar-se-ia que o filme não fosse pior. Mas é pior. E de pessoal tem pouco.

dalia-negra.gifNão é que não tenha o ferrete do autor. Este é, definitivamente, um trabalho de De Palma e o esplendoroso curso da câmara confirma-o insistentemente. Dália Negra nada tem de desleixado. Bem antes pelo contrário. É absolutamente burilado, lavrado até ao osso. Contudo, se o pretexto das beldades condenadas até podia ser bem ao gosto do realizador, De Palma perde-se nos muitos fragmentos legados pela morta. Tanto quanto se embrenha nos olhos dos dois detectives. Um é mau e o outro é bom. Um é gelo e o outro é fogo. Um é louro e o outro é moreno…e duplicam-se no feminino…Enfim…Onde devia estar tragédia, estão comentários sociais. Onde se exigia vigor, espraiam-se puzzles de mil peças. Em vez de entranhas e lâminas, oferecem-nos uma fotografia excepcional. Da paisagem. Cortesia onde devia haver rasgo. Desprezo pela plateia onde se espera gancho. Demasiado enredo, pouco suspense, humor fora de tom, sexo em versão reticências, estranho casting e muitas –demasiadas – camadas, sem unidade ou coerência. Fora isso, está lá tudo.  

dalia-negra.gifLésbicas, perversos, loucos, corruptos, droga. Sem nervo. O que até podia ser caminho. Não fosse ter ficado, assim, tão enfadonho. E se já ninguém se ri com uma certa cena género Addams Family, o melhor ainda é a aparição da assassina zorro estilizada e o mistério em torno da obsessão pelo caso, que consome um dos detectives. Nunca se percebe porquê ou como. Bom. De resto, o homicídio, feito arte nos melhores tempos de De Palma, sumiu. E é pena.

tags:

Tim Burton é um profundo conhecedor da política portuguesa

6 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

0905_timburtoncorpsebride1.jpg

Reparem (da direita para a esquerda): Paulo Portas, Cavaco Silva e Mário Soares. Os seguintes são para despistar.

tags: ,