Alexandre O’Neill adorava deslocar-se de bicicleta. Admirava este veículo obsessivamente, tendo-lhe dedicado poemas lindíssimos.
Nos próximos dias, postarei, por dia, um poema de O’Neill sobre a Chica, o seu grande amor. Dedicá-los-ei ao comentador Saloio:
Elogio Barroco Da Bicicleta
Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais – eu que era um teórico
do ar livre – e revendo o passarame à obra.
Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me etangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.
Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me as asas – trrim! trrim! – pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!
Com a nova aquisição, o 5 Dias volta, em número de blòguéres a pedal, à camisola amarela da blogosfera socialista, ultrapassando o Arrastão e o Spectrum, (tínhamos perdido o lugar por causa de uma lesão e de uma transferência).
Que confusão!
Perestello tem, entre outros 4, o pelouro da mobilidade, que só faz pequeno planeamento a meia dúzia de dias.
Manuel Salgado tem o Urbanismo e ele é que trata da mobilidade e faz o verdadeiro planeamento.
Sá Fernandes tem os jardins mas trata das bicicletas.
E pouco falam uns com os outros.
O projecto de abertura de concurso para um sistema de bicicletas partilhadas, tecnicamente muito sólido , é usado como manobra política, sendo submentido à Assembleia Municipal sem ter que o ser, e sabendo-se que o PSD o ia chumbar. A defesa feita na AM é irrisória e dá a sensação que foi submetido para ser chumbado.
Os Verdes e o BE de Sá Fernandes (cujo gabinete foi responsável pela, repito, impecável proposta) abstém-se na votação. O CDS vota a favor, o PCP contra. Há trocas de insultos, comunicados de imprensa. Os partidos “alternativos” põe-se à defesa. Passa a imagem favorável ao PS de que o PSD empata. Ninguém se entende, e quando um cidadão preocupado relata a galhofa a que assistiu na AM, é visitado por membros do PCP através de um IP da Câmara, que comenta com expressões deliciosas como “… o seu amigo Perestello … “. Ler o resto »
É irónico que, no país que em 2009 será o maior produtor do continente, com uma indústria que dá emprego directo a dezenas de milhares de trabalhadores, o velocípede tenha a misteriosa propriedade da invisibilidade.
- Ninguém pode andar de bicicleta em Lisboa.
- Eu ando.
- Vais ver quando chegar o frio do Inverno / calor do Verão / emprego de fato / chuva dissolvente!
- [...]
A invisibilidade velocípede é uma invisibilidade estranha, porque é activada no sujeito observante, não é uma propriedade directa do objecto da observação. Precursão de incapacidade cognitiva seria uma designação mais precisa.
Quando se fala na sua utilização, lestamente se erguem espantalhos de palhas, para logo serem ferozmente estralhaçados. “Ignoro a existência ergo não existe ergo não posso aceitar provas de que existe” – o mecanismo é uma espécie de raciocínio circular reminiscente da caverna de Platão. Só posso especular sobre as razões para este fenómeno: dizem-me que há 40 anos uma senhora só podia andar de bicicleta às escondidas … Mas 40 anos são muito tempo, e eu estou convencido que a verdadeira razão é uma outra paixão, uma obcessão ofuscante.
Mais irónico é que esta cegueira seja consciente, pelo menos nos organismos públicos. E é esse o assunto com que me estreio nesta casa.
Mais uma vez, o “Dia sem carros” que, em Lisboa, consiste em fechar o trânsito entre o Rossio e o Terreiro do Paço. De utilidade muito duvidosa esta medida. Bem mais úteis são as medidas anunciadas para o transporte público nocturno ao fim de semana e véspera de feriado. De parabéns a Câmara Municipal de Lisboa, Secretaria de Estado dos Transportes e Ministério da Administração Interna.
O “Dia sem carros” é presentemente uma iniciativa simbólica que não incomoda ninguém, e não resolve o problema principal – andar de carro, em Portugal, é uma questão de status. Ainda “parece mal” andar de transporte público ou bicicleta. O “crédito fácil”, a “bolha” que parece que está a rebentar e que se traduz em os portugueses viverem aima das suas possibilidades também se reflecte no número elevado de carros novos. No entanto, conforme é visível, cada vez há mais portugueses a andarem de bicicleta. Por muito que isso custe aos bondosos proponentes destas campanhas cívicas, tal atitude dos portugueses só começou quando começaram a sentir no bolso os efeitos da – abençoada! – “crise do petróleo”.
É útil aliás perder um pouco de tempo a ler os comentários dos leitores destas notícias e comparar os comentários dos portugueses residentes no estrangeiro com alguns dos de residentes em Portugal. Como sempre, em Portugal, o bom exemplo tem que vir de fora – dos países onde há muito andar de bicicleta é um hábito corrente. Talvez assim se torne moda – se torne chic!
Former Talking Heads frontman and bicycling enthusiast, David Byrne, takes a ride out to Brooklyn to show off his latest project, designer bike racks. WSJ’s Reed Albergotti reports. (July 18)
Ainda no rescaldo do Dia do Ambiente, destaco um bom texto – já com alguns dias -, vejam bem, de Luís Rocha (o “mata-mouros” que escreve sempre a azul), no Blasfémias (não é todos os dias): “É tudo uma questão de status”. Já não digo que Luís Rocha ande de bicicleta (o relevo do Porto de facto não ajuda muito), mas espero ao menos que não ande de carro e aproveite o excelente Metro do Porto. Será?
Efectivamente, em Portugal quem não anda de carro não tem “status” – e é nestes pequenos pormenores que se vê como somos um país de gente pobre, que dá muito valor às aparências, preza o enriquecimento fácil e despreza o trabalho. Pode comer-se mal, mas ai de nós se não formos de carrinho. Para não ir de transportes públicos, por exemplo, diz-que que eles “não funcionam bem” (em Lisboa poderiam funcionar melhor, de facto, mas parece que há quem queira ter uma estação de metro sempre à porta, e não se lembre que numa cidade atafulhada de carros não andam nem os carros, nem os autocarros). Para não ir de bicicleta, inventam-se as desculpas mais baratas, como o “relevo de Lisboa” (as colinas de Lisboa são evidentemente acidentadas, mas a maior parte da área da cidade é quase plana ou pouco inclinada, Avenida da Liberdade incluída). Ou, como não poderia deixar de ser, o “status”! É neste texto da sua colega Helena Matos, um belo exemplo de como um suposto “feminismo” pode servir para disfarçar o reaccionarismo. Mas o preço do petróleo tem subido, e há de continuar a subir. Só que enquanto eu vir as nossas cidades cheias de carros privados, não me venham dizer que a gasolina está cara. Leiam a resposta do Tárique.