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COMENTÁRIOS

Falsários, Welles e subversão

27 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

“F de Falsário”, de Orson Welles, é um programa político. Welles fala-nos de enganos e promete-nos toda a verdade durante “uma hora” . Não nos esqueçamos que o autor de “Citizan Kane”, um especialista do engano, começou a sua carreira levando milhões de norte-americanos a fugir devido à transmissão da sua versão radiofónica da “Guerra dos Mundos”. Pelo ecrã, vão desfilar as histórias de um falsário húngaro, Elmyr de Hory, do seu biógrafo, Clifford Irving, e de Howard Hughes. O pintor é a prova viva do falhanço do sistema. Encheu os museus de “legítimos” Matisses, Modiglianis e Picassos. O seu sucesso é a afirmação do insucesso dos especialistas. Há uma ordem de pés de barro que sobrevive porque é, supostamente, capaz de dizer aquilo que é bom e que é mau. Pelo caminho, passeia-se a belíssima actriz e co-argumentista do filme, a croata Oja Kodar, seguida por todos os olhares masculinos. Ela é a neta do falsário. Foi amante de Picasso, que lhe ofereceu 22 quadros. Anos depois do tórrido romance, Kodar organiza uma exposição com as obras trocadas por noites de sexo. Picasso vai à mostra e sai furioso: nenhum dos quadros é dele. Faz uma cena à antiga amante que lhe confessa que o avô está a morrer, e que as obras que estão à vista do público são dele. Para chatear ainda mais o célebre pintor, a crítica especializada garante serem estas obras as mais geniais criadas pelo mestre.
Ficamos atónitos com esta história, como é possível não termos sabido? Durante este momento de dúvida, aparece Orson Welles que nos relembra ter prometido “toda a verdade durante uma hora”, olha para o relógio e diz: ‘passou uma hora e quinze minutos, estes quinze minutos são meus’ .
Grande parte da dominação baseia-se na legitimidade que lhes é outorgada por especialistas e aceite pelos dominados. O “hoax” tem a pretensão de estilhaçar, pelo ridículo, a capa intelectual da dominação.
A palavra inglesa “hoax” significa ‘o truque que se faz a alguém fazendo passar uma coisa falsa por verdadeira’. Segundo André Gatolin, num artigo da revista “Multitudes”, nº25, a origem etimológica da palavra é incerta; derivaria da expressão “hocus pocus”, fórmula utilizada pelo ilusionista no momento crucial do truque. O antropólogo Lévi-Strauss estudava processos similares nas sociedades tradicionais, nas quais, através de rituais e simulacros, determinados elementos conseguiam provocar a subversão e a inversão de papeis sociais.
O “hoax” é pois uma forma de enganar os poderes com as suas próprias regras e taras mediáticas.
Jornalistas, como o Gunter Wallraff – que se disfarçou de trabalhador turco para denunciar, no livro “Cabeça de Turco”, as condições de vida dos imigrantes na Alemanha e passou por militante da extrema direita alemã para entrar nos meandros da conspiração dos bombistas do ELP e do, então, general Spínola, no Verão quente da revolução portuguesa – , ou activistas, como os Yes Man, Luther Blisset e Serpica Naro, que armadilharam os poderosos no seu próprio terreno, são exemplos de utilização do “hoax”.
Muitos destes novos militantes reivindicam-se de escritos críticos de Félix Guattari e Cornélius Castoriadis e da afirmação de um “imaginário social radical”.
É óbvio que numa sociedade mediatizada como a nossa, o “hoax” encaixa bem nas buscas mediáticas do sensacional e diferente, mas também é verdade que pode ser, caso não passe de forma, facilmente recuperado pelas regras do espectáculo e converter-se em mais uma animação para telespectadores.
No entanto, a força do “hoax” está na sua capacidade de ridicularizar, aos olhos do mundo, aquilo que até àquele momento parecia invencível.
A velha história do rei vai nu é o mais antigo “hoax” que se conhece. Estamos perante uma partida que põe literalmente a nu a fraqueza do poder. Os aldrabões convencem o rei e os nobres que toda a gente superiormente inteligente vê a roupa luxuosa por eles confeccionada. Nenhum dos figurões quer dar parte fraca, e vão em pelo para a rua, perante uma plateia que finge ser inteligente e, naturalmente, ver a roupa luxuosa que os cobre, até que uma criança berra: “o rei vai nu!”.

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Falhados da Nação

27 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

Vivíamos no século passado. Estava desempregado. Tinha trabalhado mais de 16 horas por dia no semanário “Já”. As duas dezenas de trabalhadores tinham dado o máximo, durante um ano, mas apesar do esforço o jornal acabou. Tentámos fazer um jornal de esquerda, com 100 mil contos, e falhámos. Durante a ressaca do “Já”, tinha lido numa revista um artigo sobre um novo programa escândalo num canal de televisão norte-americano. Parecia que um tal de Michael Moore fazia uma emissão chamada “TV Nation” que encurtava as fronteiras entre ficção e realidade: fazia acções estranhas, tinha candidatado um ladrão, vindo da prisão, a presidente dos Estados Unidos da América, no Estado do governador George W. Bush.
Não me apetecia voltar para a redacção da SIC. O Sérgio Figueiredo propôs-me a editoria de Cultura no Diário Económico, mas eu tinha uma ideia fisgada. Não me saia da cabeça o texto do Moore e mandei a proposta de um formato ao Emídio Rangel. A SIC ficou interessada, falei com o Luís Rainha a quem tinha “cravado”, muitos anos antes, para imaginar com o Armando Lopes a campanha inicial e o símbolo do SOS Racismo. E fizemos o guião de vários programas. Rangel tinha visto o espanhol “Caiga quien Caiga” e os debates do “Moros y Cristianos”. A nossa proposta, que era uma espécie de um telejornal alternativo, transformou-se num programa de debate com reportagens algo especiais. Os “factoídes” alimentavam o debate sobre questões polémicas. Começámos a rodar o programa sabendo que a partir do momento que ele fosse para o ar , seria muito difícil passar despercebido.
Tentámos “atirar-nos” a todos os nossos alvos ao mesmo tempo. Forjámos uma manifestação de loiras que diziam contestar “os mecanismos de imposição do machismo na cultura popular e nas anedotas de loiras”, para provar que agendas noticiosas estavam cada vez mais sensacionalistas: não houve órgão de comunicação que não desse um grande destaque, maior do que dão a qualquer manifestação de dezenas de milhar de professores; candidatámos um jovem cigano à Câmara Municipal de Vila Verde, para demonstrar que continuávamos num país racista; e criámos uma Igreja que atraiu uma centena de fieis à nossa missa em Beja, para demonstrar como este é um Portugal à espera de milagres fáceis.
Armámos uma verdadeira tempestade. Passámos rapidamente a inimigos públicos de uma série de bem pensantes, mal pensantes e assim-assim. Acusavam-nos de levar à prática a ideia de querer “vender presidentes como pastas de dentes”, diziam que preparávamos a candidatura de Pinto Balsemão à Presidência da República, o presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas inventou que tínhamos despedido uma figurante da manifestação das loiras. Como cantava Brassens em “La Mauvaise Réputation” : “Tout le monde me montre du doigt sauf les manchots, ça va de soi”. Apesar de termos tido um milhão de duzentos mil espectadores por noite, a pressão era muito grande. Rangel não temia o confronto e “aguentou-nos” durante 23 programas até acabar com os “Filhos da Nação”. Conseguimos perceber à nossa custa, que um hoax feito dentro da televisão é muito difícil. As pessoas pensam que tudo o que vêem na televisão é real, tanto a telenovela como o telejornal. De nada servia denunciar as falsidades no meio da falsidade. Provavelmente, Michael Moore safou-se disso, porque já tinha uma grande reputação como activista. O contexto é grande parte da leitura. A ingenuidade e a culpa foi sobretudo nossa. O programa estava a léguas das nossas ideias. Mas a imprensa mais imbecil da Europa ajudou ao disparate. Vejamos, por exemplo, os nossos comentadores: há mais de 30 anos que são os mesmos. Já na altura estes “jovens turcos”, eram “jovens” comentadores com 20 anos de serviço. Só podia dar raia. A maior parte desses tipos faz a mesma crónica há dezenas de anos e não conseguiam ver uma notícia mesmo que ela lhes caísse ao colo.
Temos de facto, uma cultura de subserviência, como dizia, num outro contexto, Steven Colbert na gala dos Correspondentes em Washington: ‘a administração é quem manda, envia-vos os textos, vocês corrigem os erros ortográficos e depois vão para casa ter com as vossas mulheres e escrever aqueles romances sobre o intrépido jornalista que afronta a corrupção e os poderosos, livros de ficção”.
Num dos últimos “Filhos da Nação” refizemos, numa rádio em Monsanto, uma versão da emissão da “guerra dos mundos” de Orson Welles, a população foi para a rua de noite, pensando ter aterrado uma nave espacial. Há coisas que resultam sempre.

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“Milagrete” e “Boboneira” no tempo de Sócrates

13 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Diziam os antigos que quem conhece o nome verdadeiro das coisas tem poder de as controlar. Deus teria criado as coisas nomeando-as.
Uma visita ao serviço de empresas na hora, promovido no âmbito do programa governamental Simplex (mais um expediente cabalístico), revelou-me que o governo tem uma visão muito própria do que deve ser a economia portuguesa. Já toda a gente sabe que temos mais de 400 mil desempregados, quase um milhão de precários e 400 mil pessoas que trabalham através de empresas de trabalho temporário. A maioria das pessoas até já percebeu que em Portugal as soluções são poucas: ou somos criados de mesa no Algarve, ou vamos para um call center ou criamos uma empresa. No futuro, com a implosão do papel do Estado e a destruição dos direitos sociais, feita por sucessivos governos, seremos todos (os que trabalham) empresários sem dinheiro. Bem-vindos ao país dos 10 milhões de patrões!
Como saber é poder, o governo já preveniu as depressões através de um expediente simples. Cada vez que alguém vai constituir uma empresa tem a possibilidade de registar na hora, desde que utilize um menu de palavras livres oferecido pelos serviços. Todos nós podemos ter uma empresa chamada Abóbila, Antrofa, Apopólia, Bambulesco, Bicadinha, Boboneira, Cacarejo, Casa do Chorão, Folhirote, Fraldinhas e Travesuras, Milagrete, Olhonopé, Zoomais (nomes típicos da lista de nomes de empresas livres, disponibilizados pelos serviços, na quarta-feira passada), infelizmente nesse dia já não estavam livres os nomes “Ébano dourado”, “Graças e travessuras” e “Anconelo”… o país progride! Com muita probabilidade seremos miseráveis, mas vamos morrer a rir.

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The Yes Men

29 de Setembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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O guerilheiro Luther Blisset

22 de Setembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Luther Blisset desapareceu com a passagem do milénio: ao contrário do vírus informático ele “existiu” mesmo. Rezam as crónicas que se transformou em Wu Ming , depois de um suicídio ritual (seppuku). No entanto, a pergunta continua sem resposta: quem era Luther Blisset? Ao princípio era a bola e Luther Blisset era um futebolista negro do AC Milan. Em meados dos anos 90, activistas autonomistas italianos usaram o nome de Luther Blisset e forjaram um pseudónimo colectivo (usado por activistas de vários continentes) para realizar determinadas acções no quadro da guerrilha mediática.
Este estranho colectivo produziu um conjunto de acções que enganou os media institucionais, criando uma série de eventos (factoides) que os media passaram a atribuir a um misterioso Luther Blisset.
“Na Itália, no período 1994-1999, o chamado Luther Blissett Project (network mais organizado no seio da comunidade aberta que utiliza o pseudónimo) adquire notoriedade torna-se uma lenda, uma espécie de herói popular, um Robin Hood da era da informação que organiza enganos, passa notícias falsas aos media, coordena heterodoxas campanhas de solidariedade a vítimas da repressão, etc. O romance Q é redigido em 1996-98 por quatro membros do grupo bolonhês do LBP (Luther Blissett Project), sendo publicado pela editora Einaudi, em Março de 1999. Nos anos seguintes, é traduzido para o inglês, espanhol, alemão, holandês, francês, português, dinamarquês e grego”, como se pode ler na Wikipedia, versão portuguesa.
Mas vamos então por partes: guerrilha mediática? Acções? E claro, Luther Blisset?
A guerrilha mediática é só um momento da comunicação guerrilha, que por sua vez é uma parte da mais extensa guerrilha cultural para a conquista da hegemonia, é, pelo menos, o que garante o livro “Guerrilha Psíquica” de Luther Blisset.
Esta guerrilha de “novo tipo” não é uma alternativa. Esta praxis baseia-se no pressuposto que é possível agir dentro do sistema mediático subvertendo as suas intenções e aproveitando as suas taras sensacionalistas. A “guerrilha mediática” não pretende revelar a “verdade verdadeira” que os media oficiais nos escondem. A prática eficaz destas acções subversivas exige o abandono da teoria da conspiração e do big brother. Toda a gente sabe que os media oficiais mentem! Toda o mundo conhece as razões objectivas e subjectivas que produzem esta mentira. Mais do que denunciar a mentira, a guerrilha mediática pretende tornar a mentira ridícula. Abandonar toda a recriminação e adoptar uma prática lúdica que mande um retrovírus para o sistema.
A guerrilha pretende demonstrar, à saciedade e à sociedade, as taras e os traumas dos medias institucionais, o guerrilheiro coloca-se na posição do judoca que usa a força do adversário para o projectar.
Aqui ficam alguns dos relatos das acções:
No Verão de 1994, os jornais de Bolonha começam a ser inundados por muitas cartas de leitores chocados por encontrarem nas ruas entranhas de animais.
Várias pessoas testemunham que um jovem entra em convulsões e retira das calças um intestino (de carneiro) em sangue. Os acontecimentos sucedem-se e os jornais começam a falar do estranho fenómeno do “horrorismo”, psicólogos, sociólogos, comentadores habituais são chamados aos media, e escrevem e peroroam sobre o assunto. Em carta mandada aos jornais um tal de Luther Blisset denuncia: o “horrorismo” nunca existiu, tudo não passou de um pequeno conjunto de acções feitas pelo próprio.

Em Janeiro de 1995, um conhecido programa da TV italiana, “Quem o Viu?” (sobre pessoas desaparecidas), recebe uma denúncia sobre o desaparecimento em Itália do célebre artista Kipper. O caso é noticiado, e a televisão manda uma equipa a Bolonha e a Inglaterra para falar com os amigos do desaparecido. Nas vésperas do programa ir para o ar, uma denúncia anónima (o próprio Luther Blisset?) confessa a fraude.
Na Primavera de 2006, é publicado, na integra, nas páginas de um dos principais jornais de Bolonha uma carta de “uma prostituta infectada com o vírus da Sida” que confessa furar os preservativos para infectar os clientes, como forma de vingança. O escândalo é enorme. Novamente, os comentadores da moda são convidados a “esclarecer” o assunto. Os artigos são ridicularizados pelo Reppublica que descobre estar-se perante a uma acção de … Luther Blisset. O mesmo jornal que distribui, com pompa e circunstância, um livro de Luther Blisset, que se vem a saber não é de Luther Blisset. Afinal os textos tinham sido dados ao jornalista de direita Giuseppe Gena, não eram mais do que uma colecção de testemunhos de bêbados, cozinhados, editados em tom esotérico, dados por activistas para ridicularizar a obra.
Entre 96 e 97, a cidade de Viterbo entra em pânico. Parece que os satanistas tomaram a cidade para fazer misteriosas missas negras, à televisão chegam imagens de cerimónias diabólicas, o bispo de Viterbo toma posição preocupada, nas ruas surgem frases diabólicas e cartazes de ligas de moral. Finalmente, é enviada a filmagem completa da missa negra, em que os autores denunciam a sua própria fraude.
Em 1999, Luther Blisset publica o romance Q (Editado em Portugal), a 6 de Março de 1999, os quatro autores do Q, o Caçador de Hereges, saem a céu aberto em 6 de Março, numa entrevista ao diário Repubblica, os quatro garantem: “os nossos nomes têm importância mínima e a das nossas histórias individuais é ínfima. Somos a equipa que escreveu Q, mas não chegamos a constituir o 0,04% do Luther Blissett Project”. O livro desperta interesse também pelo facto de ter sido publicado numa espécie de fórmula copyleft (permite ser usado e alterado, fazendo referência à fonte e disponibilizando o resultado para posteriores e livres alterações).
Em Dezembro de 1999, termina o Plano Quinquenal do Luther Blissett Project. Todos os veteranos (os que utilizam o nome desde 1994) perpetram um suicídio simbólico. O encerramento do LBP não implica, de forma alguma, o fim do pseudónimo, que continuará a ser adoptado por muitas pessoas em vários países. Em Janeiro de 2000, uma quinta pessoa alia-se aos autores do Q e nasce o grupo de narradores Wu Ming (“anónimo” em mandarim). O espectáculo tem de continuar!

Escrito para o Blocomotiva

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