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Jorge Palinhos: A América vulnerável

9 de Outubro de 2006 por Rui Tavares

Oliver Stone, World Trade Center

World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O atentado é tratado de forma tão elíptica e recatada, e as suas consequências de forma tão restrita e intimista, que um extraterrestre que chegasse neste momento à Terra e assistisse ao filme para tentar perceber o que se passou, não lhe atribuiria mais importância que a um incidente local.

Curiosamente, é justamente essa contenção que acaba por dar força emocional ao filme, permitindo-lhe ziguezaguear pelo terreno minado do melodrama televisivo, para atingir o patamar de um filme de alguma intensidade emocional.

Politicamente, não é um filme neutro e agradará a muitos conservadores e apologistas da América de George W. Bush. Porém, este mesmo espectador, embalado pelos valores de família e defesa da invasão do Iraque, talvez não se aperceba da estranha caracterização que o filme faz do poder da América, dos americanos e das instituições americanas.

O enredo é curto: A 11 de Setembro de 2001 um grupo de polícias de Nova Iorque entra nas Torres Gémeas para tentar salvar vítimas, mas ficam soterrados sob escombros quando as torres desabam.

Um filme do género catástrofe, portanto, mas ao contrário dos seus filmes aparentados, o World Trade Center prima pela ausência de um herói, americano, bem entendido. Antes, o que sobressai nesta obra é a falta de preparação das autoridades americanas. Os polícias são levados para o local da catástrofe e pouco mais fazem que olhar horrorizados enquanto corpos tombam das torres. Nenhum deles parece fazer a mínima ideia do que deve fazer, nem tão pouco sabe o que se passa. Os seus líderes pouco mais preparados ou sabedores parecem, liderando mais por palpite e ouvir dizer que por autoridade. E nenhum exibe especial impulso para o heroísmo. Quando o sargento John McLoughlin pede voluntários entre os seus homens para entrar nas Torres e tentar salvar vítimas, apenas dois ou três se oferecem e, segundo diz mais tarde um dos voluntários, William Jimeno, só o fazem porque a recusa os faria sentir mal.

Já o próprio salvamento dos protagonistas é feito por um grupo muito heterogéneo e assaz subequipado de salvadores, alguns deles heróis de ocasião, mais motivados pela busca de auto-redenção – como é o caso da personagem de um paramédico – que por patriotismo ou solidariedade.
E todo o salvamento é baseado no improviso, entrecortado de hesitações e de medo, por parte dos próprios salvadores, de se tornarem vítimas também.

Não importa se estes aspectos se baseiam em factos verídicos ou não, pois tornaram-se ficção a partir do momento em que foram escritos num guião e interpretados por actores, mas é notável a distância que as separa das imagens de hiperpotência da América que os media nos vendem e das imagens de justiça infinita e heroísmo que George W. Bush proclama nos seus discursos.

Mas ao contrário dos discursos de George W. Bush, talvez seja esta mesma imagem de incompetência, ignorância, hesitação, cobardia, improviso e fragilidade que venha salvar a imagem da América perante o mundo e lhe dê uma face profundamente humana.

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Dahrendorf: o “Novo Autoritarismo”

25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares

Este homem, como diria João Carlos Espada, é um sir. O problema é que, nos velhos tempos, João Carlos Espada e a direita portuguesa auto-proclamada de liberal não conseguiria alinhar duas palavras sem citar Ralf Dahrendorf. Hoje, sir Ralf anda mais desaparecido da prosa nacional, talvez por escrever coisas como este artigo sobre “o 11 de Setembro e o novo autoritarismo”. Algumas frases-chave:


«Mas terá mesmo começado uma guerra a 11 de Setembro de 2001? Nem todos se contentam com esta definição americana. Na época alta do terrorismo irlandês no Reino Unido, sucessivos governos britânicos se esforçaram ao máximo para não conceder ao IRA a ideia de que se estava a travar uma guerra. “Guerra” teria significado a aceitação dos terroristas como inimigos legítimos…»

«…os actos terroristas devem ser melhor descritos como actos criminosos. Ao chamar-lhes guerra… o governo dos EUA justificou políticas internas que, antes dos ataques de 11 de setembro, seria inaceitáveis em qualquer país livre.»

«Desde cedo, o campo-prisão de Guantánamo em Cuba tornou-se o símbolo de uma coisa inaudita: a prisão sem julgamento de “combatentes ilegais” privados de todos os direitos humanos. Resta ao mundo imaginar quantos mais destes homens não-humanos permanecem neste momento em quantos outros lugares.»

«As características fundamentais do Ocidente, a democracia e o estado de direito, sofreram mais às mãos dos seus defensores do que dos seus atacantes.»

«…os nossos líderes devem procurar acalmar, ao invés de explorar, a ansiedade pública. Os terroristas com quem estamos em “guerra” não podem vencer, porque a sua visão feita de trevas nunca ganhará ampla legitimidade popular. Essa é mais outra razão para nos erguermos em defesa dos nossos valores — em primeiro lugar, e acima de tudo, agindo de acordo com eles.»

O TPC para esta semana é: traduzir e divulgar este texto, insistir na sua publicação nos nossos jornais. Mostrar à nossa direita quão afastados e adversos andam dos valores que dizem defender.

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Jorge Palinhos: A Conspiração

25 de Setembro de 2006 por Rui Tavares

[E agora apresento o primeiro craque das segundas-feiras: Jorge Palinhos, que já foi do Cruzes Canhoto e do Blogue de Esquerda. Nunca conheci pessoalmente o Jorge, mas sou um fã de longa data. Sei que será o meu primeiro acerto como editor do 5dias, mas o mérito é todo dele.]

Uma parte significativa das pessoas que conheço acredita que o governo americano é responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2001.
Estas pessoas não são, note-se, anti-americanos destravados, leninistas ferozes ou maníacos da conspiração. São pessoas de ordinária normalidade, profissão regular, família burguesa e votantes de partidos centristas. Mas são também pessoas que dão crédito a teorias de que o Pentágono foi atingido por um míssil, de que as Torres Gémeas foram alvo de demolição sistemática, de que o Voo 93 foi abatido por um míssil, e que tudo, no fundo, não passou de uma elaborada e sangrenta desculpa para invadir o Iraque e o Afeganistão. E estas pessoas não estão sós na sua crença, visto que inquéritos recentes revelam que quase 40 % dos americanos acreditam que o seu próprio governo teve mão nos atentados.

Por modéstia própria, e alguma auto-estima, não costumo desconfiar que as pessoas que me rodeiam precisam de apoio psiquiátrico. Acredito até que todos os governos são suspeitos até prova em contrário: não são novos os Estados que enganam e sacrificam os seus concidadãos para desencadear guerras e invasões, e o enorme poder económico e militar de que dispõem justificam a desconfiança e fiscalização extremas.

Mas, apesar disso, olho para o 11 de Setembro e espanto-me: será possível que um governo destrua uma parte da sua sede militar e arrase um importante centro de negócios, no lugar do mundo com maior percentagem por metro quadrado de jornalistas, câmaras de vigilância e eleitores hostis ao governo, só para se ir meter em duas alhadas sem saída visível? E é possível recrutar, para tal operação, centenas de agentes de lealdade à prova de remorsos e inconfidências? E como se calam dezenas de milhar de especialistas capazes de suspeitar de algo? E como é que alguém poderia levar a bom termo uma operação de tanta audácia e inteligência e em seguida ter sucessivos desaires no Afeganistão e no Iraque? E, mais importante ainda, como continuar a discorrer com gosto sobre os índices de inteligência de George W. Bush se há a possibilidade de este ser o mais carismático génio operacional do mundo desde Amílcar Barca?

Para tirar dúvidas, nada como ver a mais reputada denúncia desta alegada conspiração: um documentário divulgado na Internet, montado por um trio de empenhados adolescentes, que se basearam em teorias e factos postos a correr anonimamente na internet.

A minha conclusão foi: é bom ver os jovens de hoje retomarem a sua leitura de Aristóteles! Porque a eficácia retórica do documentário é notável. Começa-se por apontar factos passados pouco abonatórios para o governo americano e indícios de que alguém teria lucrado com os atentados para pôr o espectador a levantar o sobrolho. Passa-se, em seguida, para o sumo da argumentação, apontando inconsistências, contradições e paradoxos da versão oficial de forma a deixar o receptor cheio de suspeitas. Entra-se, então, no acumular de pistas e pontas soltas, sem, contudo, se fornecer qualquer contexto ou sistematização.
Por fim aponta-se um culpado e sugerem-se possíveis motivos de culpa, nenhum deles aprofundado, e termina-se com os autores a dizerem-se perseguidos e ridicularizados pelas suas ideias e acenando patrioticamente a bandeira americana.

O veredicto? 16 em estrutura, 4 em conteúdo. Porque se é admirável o trabalho e empenho destes adolescentes, e parece haver pormenores genuinamente estranhos que mereciam investigação, a existência de líderes maquiavélicos e agentes impiedosos continua a parecer-me do domínio de Ian Fleming. É que, para os paradoxos e inconsistências da versão oficial, continuo a achar mais verosímil a explicação de que muitos fenómenos físicos continuam incompreensíveis para nós e que as instituições americanas está tão cheio de incompetentes, indolentes, débeis mentais e corruptos como todas as outras organizações do mundo.

Serei ingénuo? É uma possibilidade. Mas em toda esta alegada conspiração, o que mais me intriga é a quantidade e qualidade de pessoas que nela acreditam.

Não me refiro à visibilidade e impunidade que os divulgadores da dita conspiração parecem ter, mas à necessidade que tantas pessoas comuns parecem ter em acreditar nela. Falo do facto de que milhões de americanos parecem suspeitar que o seu governo legitimamente eleito as enganou e usou como um horroroso isco e nada fazerem quanto isso. Um político húngaro admitiu recentemente ter mentido para ser reeleito e tem manifestações e protestos quotidianos à porta. O governo americano é suspeito de ter sacrificado mais de 3000 dos seus cidadãos e… nada?

Isto leva-me a duas suspeitas. Uma, é a suspeita de que as pessoas preferem acreditar na omnipotência e perversidade do seu próprio governo a acreditar na fraqueza e impotência deste perante inimigos estrangeiros. A outra é a suspeita de que se as pessoas crêem que o seu governo eleito é totalitário e nada fazem contra isso é porque, talvez, no fundo, guardam o secreto desejo que este seja mesmo totalitário e omnipotente.

E isto é a conspiração mais assustadora de todas.

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