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  • Arquivo 'Paulo Pinto'

    5 parágrafos sobre facies e pedofilia

    8 Setembro 2008 | por Paulo Pinto

    O “caso Paulo Pedroso” podia estar encerrado. Já deveria estar encerrado. Mas não está, e corre o risco de arrastar-se indefinidamente. O “erro grosseiro” do juíz Rui Teixeira seria corrigido, justiça seria feita, e os danos causados ao deputado seriam indemnizados. E passávamos adiante. Em vez disso, já se avizinham recursos da Procuradoria, e aquilo a que se chama “colocar uma pedra sobre o assunto” ficou, uma vez mais, adiada. Isto sou eu a divagar. Porque o estigma nunca o largará, por muitos que sejam os reconhecimentos do erro. Sobre Paulo Pedroso penderá sempre a suspeita velada, o “não há fumo sem fogo” e outras manifestações mais ou menos confessadas de desconfiança. Será assim tão difícil admitir de vez que foi erro? Teremos da nossa capacidade de discernimento e dos juízos de Rui Teixeira uma opinião tão próxima da omnisciência e da infalibilidade? Ou há aqui algo mais do que a fria e desapaixonada análise dos factos? Ler o resto »

    Um sorrisozinho irónico…

    5 Setembro 2008 | por Paulo Pinto

    …aflorou ontem no meu rosto ao ver, na SIC-Notícias, o embaraço de Pezarat Correia perante a insistência de Mário Crespo em pedir um comentário às eleições em Angola e ao facto de o governo angolano ter proibido a entrada de jornalistas da SIC (e, de um modo geral, de todos os órgãos do grupo Impresa) para a cobertura das eleições, como represália pelo episódio do convite a Bob Geldof, que classificou a elite dirigente angolana como “um bando de criminosos”. O jornalista, em tom de saborosa bonomia, relembrou que havia muita gente em Angola a assistir, naquele momento. De seguida, e para ver se conseguia desemburrar o gaguejante general, sacou (um “acto de guerrilha”, como ele próprio o classificou) do seu passaporte e mostrou para as câmaras o visto que lhe foi concedido em 1986 para uma entrevista ao já então Presidente José Eduardo dos Santos e que, à última hora, foi anulado. Uma no cravo e outra na ferradura, dizendo que não concorda com essas proibições mas que as declarações do músico foram excessivas, o velho general na reforma engoliu em seco quando o interlocutor o confrontou com o facto de a imprensa portuguesa metralhar incessantemente o presidente Bush mas ser impensável que qualquer jornalista seja impedido de lá entrar em Novembro, e acabou por se sair com um “mas acha que Angola é os Estados Unidos, ou Portugal?”. De facto, quando não se tem (ou não se quer proferir) respostas, fazem-se perguntas.

    Breve tratado sobre relações de vizinhança

    5 Setembro 2008 | por Paulo Pinto

    (Publicado originalmente no Caminhos da Memória)

    Todos os povos têm os seus heróis, os seus mitos fundadores, o seu imaginário fabuloso, o seu cimento identitário. Porém, a massa deste é formada não só por aquilo que une, mas também por aquilo que tenta o efeito contrário. Todos os povos têm inimigos. Não exactamente os inimigos reais, que podem variar consoante as épocas e as conjunturas, mas aqueles que são percepcionados desta forma, os que estão entranhados no fundo da alma de cada povo e sedimentados no imaginário colectivo ao longo de muitas gerações. Historicamente, os inimigos são sempre os nossos vizinhos, os que nos disputam os recursos, os que ameaçam a nossa integridade ou nos tolhem os movimentos. A pior sorte esteve sempre reservada aos pequenos povos que vivem em zonas de disputa de grandes potências hegemónicas e rivais. Os Balcãs e o Cáucaso, mosaicos de povos, línguas e religiões, teimam em recordar-nos este facto. Os polacos têm o supremo azar de estar entre alemães (prussianos, melhor dizendo) e russos. Os persas não morrem de amores por turcos e árabes. Os coreanos têm a poderosa China e o aguerrido Japão sempre à espreita.

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    Sonhei, bebi, delirei, tive uma alucinação…

    3 Setembro 2008 | por Paulo Pinto

    … ou a bandeira portuguesa hasteada hoje em Varsóvia estava mesmo virada ao contrário, ou seja, com o escudo invertido? Foi o que vislumbrei, por breves instantes, no meio de uma reportagem televisiva. Era montagem? Seria a bandeira içada numa cerimónia oficial, ou algum maduro polaco que quis fazer uma gracinha? Ninguém viu, ninguém deu por isso? Presidente da República, jornalistas, corpo diplomático, nada, ninguém? Só têm olhinhos para a joaninha da Biedronka? Bom, se fosse eu a mandar, já se sabia o que iria acontecer: quando o Kaczyński cá viesse, era certinho que seria recebido com a bandeira indonésia.

    Um bom regresso

    31 Agosto 2008 | por Paulo Pinto

    Por antecipação, regressei ontem a casa após uns dias de pausa, evitando os previsíveis congestionamentos de trânsito que se adivinham para hoje. Há anos que não me calhava na rifa esta viagem Algarve-Lisboa em fim do mês de Agosto. Depois da experiência, fiquei com pouca vontade de repeti-la. Há um não-sei-quê de arrepio na viagem de regresso de férias. Por acaso, sei bem o quê: os automobilistas portugueses, que habitualmente conduzem como imbecis, comportam-se como loucos assassinos nestas ocasiões. Ou como energúmenos ressabiados. Ou, ainda, como VIPs a caminho da sua finest hour. Sem ironias: não sei como é que morreram umas dezenas de pessoas na estrada, nesta quadra estival. Não fosse um qualquer deus luso que no Olimpo vai metendo a mão por baixo, e teríamos que fazer uma qualquer conta “ao quadrado”. Ler o resto »

    Aproveito o balanço da Fernanda aí em baixo e pergunto:

    11 Agosto 2008 | por Paulo Pinto

    Alguém me sabe dizer o que fazer a velhas cassetes VHS, já sem uso? A empresa municipal do concelho onde resido não tem destino para elas e aconselhou-me a “colocar tudo num saco e metê-las no contentor”. Aguardam destino final há vários meses e não tardará muito, sigo mesmo o conselho.

    Também tenho CDs e DVDs inutilizados para deitar fora. Ninguém sabe o que lhes fazer. Há dias ouvi, no espaço da Quecus na Antena 1, dizerem que não podem ser reciclados e que o melhor é reutilizá-los, por exemplo, como bases para copos…

    Crónica de férias

    12 Julho 2008 | por Paulo Pinto

    Uns diazinhos de praia no Algarve profundo. Talvez não seja exactamente profundo, mas é, certamente, o mais procurado: uma extensa faixa de areal, gasolina mais barata a poucos quilómetros e uma época do ano propícia, ainda antes da avalanche do típico mês da silly season. As praias têm algum interesse e alguma piada. A começar pela sua ordenação. Em conversa com um nadador-salvador, percebi que ali, para poente, é Vila Real, aqui é Castro Marim e ali, para nascente, é outra vez Vila Real. Curiosamente, descobri que ali, a norte, também é Vila Real, como demonstram os passeios, a 200 m da areia, que ostentam orgulhosamente a sigla “algarve – cidad ra” [sic]. A primeira ainda desculpei, dada a proximidade com Espanha. Já a segunda, que daria algo como “Real António”, ficou obscura. Se daqui a séculos forem encontradas peças destas, os arqueólogos terão matéria para acesa discussão. Hei-de verificar, num mapa administrativo, mais esta deliciosa peculiaridade da estrutura municipal portuguesa.
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    A beata de Toy

    12 Junho 2008 | por Paulo Pinto

    Há dois dias, na TVI, depois de mais uma bela interpretação desse grande hino que é o “sou português”, ouvi o inefável Toy dizer algo como isto: “desde o Tratado de Tordesilhas que Portugal é, como Espanha, um dos maiores países do mundo”. Confesso que na altura não percebi bem se ele se referia ao tamanho do país, do orgulho nacional, da alma lusa ou da selecção de futebol. Hoje, finalmente, fez-se luz: falava da raça portuguesa.

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    31 de Cavalaria

    11 Junho 2008 | por Paulo Pinto

    Vamos imaginar uma qualquer multinacional (veio-me à cabeça a Union Carbide) que tenha causado considerável dano a um país asiático ou africano. Vamos imaginar uma qualquer empresa portuguesa que também se tenha portado mal. Ou vamos imaginar uma ideologia, um indivíduo, uma arma, uma estirpe de vírus, um hábito de consumo, o que quiserem. Algo que tenha causado devastação.

    Um porta-voz espertalhaço poderia justificar o acto dizendo que Luís de Camões também diz, n’Os Lusíadas, que os reis de Portugal “as terras de África e de Ásia andaram devastando”. Todos nós ouviríamos a explicação mal enjorcada e acharíamos um disparate.

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    A crise acaba amanhã, um bocado antes da 5, vai uma aposta?

    10 Junho 2008 | por Paulo Pinto

    Hoje, eram quase 9 da manhã, dirigi-me a um posto de combustível para cumprir mais um episódio da minha missão de poluidor- consumidor- utente- contribuinte e, sobretudo, pagador. Na Galp estava uma bicha (ups, fila, fila) enorme. Na BP, um pouco adiante, estavam duas viaturas. É natural, os preços são um pouco mais elevados e o combustível está pela hora da morte. Já só havia gasóleo numa das bombas. O carro da frente atestou o depósito, até transbordar. A camioneta atestou e encheu três bidões da caixa. Saí do carro e olhei para os que estavam atrás de mim: jerrycans e bidões nas malas. Ler o resto »

    Crónica anti-patriótica

    9 Junho 2008 | por Paulo Pinto

    Portugal está de novo em transe, em mais um ritual colectivo de catarse de pecados, fantasmas, neuras, crises, complexos de Édipo e de inferioridade, psicoses, traumas, dores de crescimento, rinite alérgica, acne e caspa. Dura, na melhor das hipóteses, até ao fim do mês, na pior, até ao próximo domingo. Até lá, em crescendo, a Nação deposita graciosamente nos pés de uns moços a esperança de redenção dos pecados de todo um povo. As expectativas são altas e as consequências, profundas: tanto nos pode sair a glória como a desgraça. Confesso que tudo isto me parece ridículo. Lamento se soa ofensivo, a intenção não é essa. É, apenas, a de relembrar que é apenas um jogo. E que nenhum jogo deveria ser elevado ao estatuto de causa nacional como o é a presença portuguesa em campeonatos internacionais de futebol. Ler o resto »

    Cristóvão Bond e os Bokors nacionais

    23 Maio 2008 | por Paulo Pinto

    Bokors in the religion of vodou are sorcerers or houngan (priests) for hire (…), meaning that they can practice both dark magic and benevolent magic. Their black magic includes the creation of zombies (…). (da Wikipedia) 

    De vez em quando, o zombie-Colombo Português é ressuscitado por algum feiticeiro nacional. A história é velha de barbas brancas, mas de cada vez que há uma crise do orgulho nacional, alguém encarrega-se de o trazer novamente à baila. E como é algo que mexe com os brios cá da terra, tem sempre audiência, livros vendidos e holofotes apontados. A última vez fora em plena euforia do oásis cavaquista, com o pitoresco Mascarenhas Barreto. Se alguém quiser ler a delirante entrevista que deu a Pedro Ayres Magalhães (que pela imparcialidade demonstrada se percebe porque é que faz música e, felizmente, nunca se dedicou ao jornalismo) à Kapa, em 1991, é algo que aconselho vivamente. A coisa deu algum barulho e, até, debates na televisão. Infelizes, porque não é possível desmontar, perante o apertado ritmo do directo, os disparates de quem se apresenta como defensor de Portugal, que puxa pelo orgulho nacional e dispara teorias da conspiração que nos enchem o ego. Alfredo Pinheiro Marques fê-lo e fez figura de “académico” e de “intelectual”, rótulo imperdoável neste país. A coisa morreu de morte natural. R.I.P., pensámos todos.

    O zombie acaba de regressar, uma vez mais, da tumba. Ler o resto »

    Crónica de Abril

    25 Abril 2008 | por Paulo Pinto

    Em 1974 tinha 7 anos e vivia fora de Lisboa. Não tenho, portanto, memórias directas do que foi e do que era esse tempo, nem o “antesnem o “depois“, exceptuando alguns fragmentos do que passava na rádio e do que me chegava pela televisão. mais tarde, na década de 80, é que comecei a compreender melhor o país e o mundo onde vivia. O conhecimento que adquiri desses anos foi, portanto, obtido a posteriori e quase sem vivências directas. Ler o resto »

    PSD 2008, Back to the Future

    23 Abril 2008 | por Paulo Pinto

    Dr. Emmett Brown: Then tell me, “Future Boy”, who’s President in the United States in 1985?
    Marty McFly: Ronald Reagan.
    Dr. Emmett Brown: Ronald Reagan? The actor?
    [chuckles in disbelief]
    Dr. Emmett Brown: Then who’s VICE-President? Jerry Lewis?

    Este post esteve para se chamar “Ronda das Mafarricas”. Depois pensei que seria injusto. Ou, melhor dizendo, que não faria inteira justiça à probabilidade do chibo velho Alberto João Jardim vir a ser candidato à liderança do PSD, algures entre os deserdados da Ala Meneses e o tabu santanista. A imagem das quatrocentas bruxas à espera da lua cheia é interessante e não faltará quem pense que é adequada. Sim, sem dúvida, mas hoje de manhã o cenário mudou com a putativa chegada ao poder de um nome maior do humor nacional. Como quase tudo em Portugal, não se trata de um humor fresco e corrosivo, mas sim de uma anedota rasca de travo amargo. Uma chalaça da revista à portuguesa.

    Ouvi há pouco um senhor da distrital de Lisboa do partido nomear explicitamente o Presidente do Governo Regional como o melhor candidato para a disputa que aí vem. Não era um qualquer militante de base. Era o responsável da maior distrital do maior partido da oposição, que já foi poder e que voltará a sê-lo, um dia. Ouvi-o dizer claramente que a meta de tal candidatura seria “fazer em Portugal o que fez na Madeira” (se não foi isto foi parecido). O meu sorriso, ao escutar estas palavras, foi também ele um misto de humor agridoce. Isto porque há piadas que têm piada, sem dúvida. Mas há o resto, oh se há, que não tem piada nenhuma. Felizmente que o Continente não é a Madeira. No dia em que for, darei graças e cantarei loas à União Europeia que me permite mudar-me para o país vizinho sem precisar de controle de fronteira.

    …E se?

    20 Abril 2008 | por Paulo Pinto

    A imagem é conhecida há muito tempo. Eu, infelizmente, só tomei conhecimento dela anteontem, ao ouvir a crónica da Joana Amaral Dias na TSF. Trata-se da Ministra da Defesa espanhola, Carmen Chacón, a passar revista à tropas no dia da sua posse, grávida de 7 meses. A notícia está, entre outros locais, aqui.

    O facto de o governo Zapatero ter mais mulheres do que homens já era, em si, desconcertante. Ter nomeado uma mulher para a pasta da Defesa já parecia ultrapassar os limites das regras convencionais, que atribuem aos homens os cargos de responsabilidade e deixam às mulheres simples postos honoríficos (como “Primeira Dama” - vai ser um fartote de riso se a Clinton for eleita, ver o maridinho rebaixado à condição de “Presidente Consorte”) ou lugares de segundo plano. É claro que há a Merkel. Mas uma coisa é ser chefe de um governo. Outra é comandar os homens da guerra. Ainda por cima, grávida de 7 meses e de barriguinha saliente. Parece que a hierarquia militar não pestanejou e que já afirmou que a tratará com o mesmo respeito que com os seus predecessores. “Talvez com uma maior delicadeza”. Parece que há reacções dos sectores mais conservadores, a quem a imagem choca. A mim diverte-me e causa-me um profundo respeito, por constituir um inequívoco sinal de maturidade. Há algo de muito enraizado no fundo dos nossos genes greco-romano-judaico-cristãos que nos causa sobressalto. A sacrossanta função maternal e o sublime papel doméstico feminino misturados desta maneira com a suja, fera e viril arte da guerra? Ainda por cima, em posição de domínio? Oh quem viu Espanha há 40 anos e quem a vê agora. Não foi só na dinâmica empresarial que aquilo deu uma volta, e que volta…

    E se alguém se atrevesse a sugerir que esta imagem pudesse ser vista cá, nas Forças Armadas Portuguesas, em 2008? Eu diria que estaria louco, com certeza.

    O Apocalipse é já amanhã (mas hoje há mais do que conquilhas)

    28 Março 2008 | por Paulo Pinto

    Nunca como hoje se discutiu tanto e tão profundamente os problemas do país. Por vezes, demasiadas vezes, mais em extensão que em profundidade, é certo. Ensino, saúde, justiça, segurança, etc. O recente caso EPAT (escola, professora, aluna & telemóvel, perdoem-me a insistência) desencadeou a discussão generalizada e a divulgação, repetida até ao enjôo, do infeliz vídeo. A notícia do dia é a formalização de queixas judiciais, contra a aluna e contra a turma, por parte da docente. A novela soma e segue, até se esgotar o filão. Depois, o assunto cairá no esquecimento e outra notícia bombástica, alarmista, fará as primeiras páginas dos tablóides. Mas há algo que fica e que se vai sedimentando. A ideia generalizada de que isto está tudo pior, a imagem, feita de pequenos pedaços, de que o ensino em Portugal atingiu o ponto de ruptura. O Ensino, como tudo o resto. Reformas curriculares, mudanças de nome e de terminologias, mexidas em todo o sistema educativo, protestos dos professores, agora isto. Tudo cada vez pior, é o que oiço. Até parece que, por exemplo, há 20, 30 anos não havia problemas. O tanas é que não havia.

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    A Escola, a Professora, a sua Aluna e do Telemóvel dela

    26 Março 2008 | por Paulo Pinto

    A novela acaba de conhecer mais um desenvolvimento. Agora é o Ministério Público que quer apurar se houve ilícito penal, indo mover-lhe um processo no Tribunal de Menores. Prevejo que amanhã o assunto seja debatido na Assembleia da República e que, depois de amanhã, conste na agenda do Conselho de Estado. Se é que não foi já. Uma vez mais, lá está a ministra a pagar por tabela. Se a culpa não é da professora (impotente para se fazer respeitar), se não é da aluna (vítima da degradação do sistema educativo e do quadro geral de valores), se não é da escola (possivelmente sobrelotada, mal apetrechada ou sub-financiada) é do “sistema”. E este tem uma cara. Nada demais, a bola da “culpa” sobe a escala até entrar no cesto-costas-largas de Maria de Lurdes Rodrigues. Já ouvi responsáveis sindicais e deputados da oposição virem a terreiro chutarem a bola para cima, para variar, dizendo que algo como “a situação resulta da degradação do ensino, consequência da política deste governo”. E não saímos disto. Ler o resto »

    Orgulho e Preconceito

    23 Março 2008 | por Paulo Pinto

    Fiquei abismado com a mais recente crónica de José Pacheco Pereira (JPP), publicada no Público de ontem e reproduzida hoje no Abrupto. O tema é a invasão do Iraque. Os argumentos não são famosos, a estratégia é primária, o balanço é tristonho. No fim, fiquei convencido de que há ali uma teimosia irredutível, um orgulho indisfarçável, uma falta de humildade gritante. E um conjunto de ideias preconceituosas a roçar o patético. Sempre tive por sensato que reconhecer o erro não é sinal de fraqueza, mas indício de inteligência. Mudar de opinião não é vergonha, é prova de humanidade. Reconhecer que se avaliou mal e que se julgou pior é sinal de maturidade e marca de abertura de espírito, porque estamos sempre a aprender, porque estamos conscientes das nossas limitações, porque erramos. Porque somos humanos, em suma. JPP não faz nada disto. Ninguém, aliás, exigia que o fizesse. Se não mudou de opinião acerca do assunto, está no seu direito. Como no meu direito estou eu de o comentar. Estamos entendidos acerca disto. Mas escusava de se assumir como mártir, em tom de ironia infeliz, ao afirmar que está a cometer “delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes. Na minha terra, chamava-se a isto “atirar areia para os olhos”. Ler o resto »

    Um passeio pelo país real

    11 Março 2008 | por Paulo Pinto

    Hoje fiquei a conhecer um pouco melhor o país em que vivo. Hospital Amadora-Sintra, 9.30 da manhã. Urgência. A pessoa que transporto tem dificuldades respiratórias, logo, em caminhar, portanto, tenho que a deixar à porta. Depois, arrumar o carro. Está tudo congestionado. Impossível arranjar lugar. Nem perto nem longe. Fica a milhas. Mas, mesmo assim, numa zona irregular, embora sem prejudicar acessos ou terceiros. Ler o resto »

    Ainda os Balcãs

    20 Fevereiro 2008 | por Paulo Pinto

    Para os garbosos defensores da recente bambochata kosovar, e para dar pleno cumprimento às legítimas aspirações de independência de todos os povos balcânicos (ou os kosovares serão mais do que os outros?), venho desde já propôr a Lahorização dos Balcãs. Eu explico: em 1940, a All India Muslim League reclamou pela primeira vez o direito à existência de um estado separado muçulmano no que era ainda a Índia Britânica. Foi em Lahore, no que ficou conhecida como a Lahore (ou Pakistan) Resolution. O princípio era simples (e quem já viu o Gandhi de Attenborough reconhecerá a expressão): onde houver maioria muçulmana, aí será o Paquistão. Por acaso, esta operação simples dividiu a Índia em 3 pedaços, Podia ter dividido em muitos mais. Os Balcãs no subcontinente indiano, que giro. Os resultados foram dolorosos e as dores são ainda bem visíveis, 50 anos passados.

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    I beg your pardon?

    18 Fevereiro 2008 | por Paulo Pinto

    O problema do ordenamento do território já não é o mais sério em Portugal“. Palavras do morto-vivo, aka Ministro do Ambiente Nunes Correia, ao responsabilizar as autarquias pelo amanhecer desolador do dia de hoje na região de Lisboa. Pois claro. Não é um problema de ordenamento a menos, que, como todos sabemos, sobeja em Portugal. Talvez seja apenas, no fim de contas, um problema de água a mais. Já quem a mete, é uma outra história.

    O Síndrome Jedi

    18 Fevereiro 2008 | por Paulo Pinto

    O Ocidente lá deu mais um arzinho de boa consciência da Humanidade. Os bravos paladinos da paz e da justiça na Galáxia, perdão, na comunidade internacional, dotados de superiores qualidades morais, poderes sobrehumanos e espadas flamejantes. E a Força, não nos esqueçamos da Força, que é, neste contexto, o Direito Internacional e, tcharan, o direito à autodeterminação dos povos.  Os antecedentes não constituem grande abono, mas enfim. Que o digam os curdos, os tibetanos, os palestinianos. O Kosovo acaba de declarar unilateralmente a independência e os garbosos Jedi, com o chefe supremo Yoda-Bush à frente, dão a sua bênção. Não me admiro com a posição americana. É sabido que os americanos nunca foram dotados de perspicácia para a diplomacia. E os Balcãs ficam muito longe da Florida. Já a da Europa causa-me engulhos, por ser de uma irresponsabilidade a toda a prova. Custa-me muito ver como os europeus plantam minas no seu próprio quintal e depois, qundo elas rebentam, vão a correr, para apagar o fogo, a chamar o amigo americano, que vai-não-volta lá usa napalm para resolver o assunto. Ler o resto »

    O complexo da traça

    13 Fevereiro 2008 | por Paulo Pinto

    “Olho por olho fará com que todo o mundo fique cego”. É mais ou menos isto a célebre frase de Gandhi, não é? Então eu adapto e digo “lustro por lustro fará com que todo o mundo fique ofuscado”. É uma pobre glosa, eu sei, mas foi o que me ocorreu de imediato após a leitura deste post de Henrique Raposo, no sítio do costume. É um post acerca do último número do The American Interest, cuja capa diz “Iraq. What if we win?”. É um conjunto de reflexões sobre a situação actual no Iraque. A revista diz “Thanks to a fragile but real improvement in the security situation in Iraq, it has become possible to imagine the United States and its allies achieving what could plausibly be described as a win” (bold meu). Alguém sabe inglês? Não tenho a certeza de que HR saiba. E porquê? Porque o post é um embandeirar em arco com um “o Iraque, afinal, está a recuperar“. E, no fim de contas, uma pirraça (tipo nham nham nham) contra “o desejo mal escondido de muitos para que o Iraque rebente num caos“. Ler o resto »

    A brincar com o fogo

    8 Fevereiro 2008 | por Paulo Pinto

    Estamos em Fevereiro e o país espreguiça-se à conta dos dias de sol e da ressaca de mais uma ponte de Carnaval, já a pensar na Sexta-Feira Santa e na Páscoa. Não há-de tardar muito, na aproximação da Primavera, a chegada da sazonal maré noticiosa sobre a preparação de mais uma “época de fogos”. Falar-se-á muito dos meios, dos investimentos, dos aviões, da logística e da Protecção Civil. Depois ficaremos todos à espera, que venha ele. E virá, certamente. Em Agosto, entre banhos de Algarve e mais um Verão de seca, lá nos lembraremos do assunto ao abrir os noticiários e ao desfolhar os jornais. Lá virão mais umas imagens aflitivas de gente desesperada, mais umas estatísticas e mais umas leituras de uns comentadores de serviço. No final da estação seca, o balanço será mau ou nem por isso. Mesmo que seja péssimo, será sempre possível achar a média com o Verão de 2007, que foi excepcionalmente bom, mais por graça do S. Pedro que da Protecção Civil.

    Confesso que não sou particularmente alarmista com a questão dos fogos. Não é uma calamidade apocalíptica. Um país de clima mediterrânico tem que saber viver com ele, controlá-lo, minimizá-lo, utilizá-lo favoravelmente. Há dias, porém, ouvi uma notícia na rádio que me fez reflectir sobre a questão. Curiosamente, não a vi reproduzida em nenhum jornal nem em nenhuma televisão. Nem na Net vi qualquer referência ao assunto. Cheguei a pensar que teria sonhado. Só depois percebi que é um tema que não interessa a ninguém, por enquanto. Aposto que lá para Julho virão todos repescá-lo, e algum espirituoso irá dizer, entre outras coisas, que é uma pena que só se fale disto no Verão, quando nos começa a cheirar a queimado.

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