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	<title>cinco dias &#187; convidado</title>
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		<title>Carta aberta aos responsáveis do arquivo de comentários do 5 Dias</title>
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		<pubDate>Sun, 17 May 2009 17:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>o engenheiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[Publicamos este comentário chegado das catacumbas: Como líder do Comité de Comentadores do Rogério Costa Pereira não podia deixar de exprimir a minha solidariedade para com este grande vulto da blogosfera. Um homem que consegue manifestar a sua angústia face &#8230; <a href="http://5dias.net/2009/05/17/carta-aberta-aos-responsaveis-do-arquivo-de-comentarios-do-5-dias/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Publicamos este comentário chegado das <a href="http://5dias.net/2009/05/17/transito-solar/">catacumbas:</a></p>
<p>Como líder do Comité de Comentadores do Rogério Costa Pereira não podia deixar de exprimir a minha solidariedade para com este grande vulto da blogosfera. Um homem que consegue manifestar a sua angústia face à sobrevivência do seu legado com <a href="http://jugular.blogs.sapo.pt/887771.html">uma tirada em verso</a> – «à respectiva paternidade e à garantia da sua genuinidade e integridade» – é um farol que nos ilumina o caminho a todos.<br />
Sabemos que a blogosfera e as letras lusas nada têm a temer, pois os grandes momentos de RCP já ficaram a salvo no <a href="http://jugular.blogs.sapo.pt/user/rogeriodacostapereira">arquivo do Jugular</a>, talvez o único blogue do mundo a arrancar logo com uma história de meses. Só assim se preservam em segurança <a href="http://devagares.weblog.com.pt/2006/08/qwert">pérolas</a> como o auto-descritivo «Mesmo que o produto de toda essa presença no local da ilusória faina não passe dum enorme flato», parte de <a href="http://www.google.pt/search?q=%22Mesmo+que+o+produto+de+toda+essa+presen%C3%A7a+no+local+da+ilus%C3%B3ria+faina+n%C3%A3o+passe+dum+enorme+flato&#038;hl=pt-PT&#038;safe=off&#038;client=firefox-a&#038;rls=org.mozilla:en-US:official&#038;hs=MWx&#038;filter=0">um texto tão refulgente e valioso</a> que o próprio RCP já o afixou em seis blogues diferentes, sob três nomes igualmente diversos.</p>
<p>Poderemos, pelos séculos vindouros, continuar a usufruir de passagens em que a inspiração sublime desafia os perigos do <a href="http://jugular.blogs.sapo.pt/422873.html">kitsch</a> mais berrante, como «Antes, minutos antes: não queira ter o filho pela boca, mulher, que seria caso nunca visto. Força, força, amor. Já o vejo.» Sem jamais olvidar a forma como ele nos assevera que «apraz-me sempre apalpar o pulso ao zé-povinho», antes de mais uma vez cumular os «posts da Fernanda» de encómios, justificações e outras lambuzices doces. Aliás, não custa imaginar o vulto, perorando face aos colegas estarrecidos, na comarca de Cebolais de Basto, algo como “sabem, é que eu sou amigo da Fernanda”. Após deixar que o espanto e a bica descafeinada assentem, segue a estocada final: “pois, essa mesmo!” Só os invejosos é que poderiam <a href="http://marsalgado.blogspot.com/2009/05/dona-rosetes-dream-team-uma-escreve.html">escarnecer</a> quando confrontados com uma alma assim!<span id="more-20096"></span></p>
<p>E que dizer do momento já histórico em que RCP sacou de todas as suas formidáveis capacidades mentais e estilísticas para <a href="http://jugular.blogs.sapo.pt/424638.html">denunciar</a> uma cabala em torno do suposto namorado da venerada Fernanda? Que o assunto tenha redundado num dos episódios mais acabrunhantes de <a href="http://5dias.net/2008/10/15/uma-gravidez-histerica/">humilhação pública</a> já lidos na blogosfera só fala em favor de um espírito capaz de aguentar as maiores provações, os risos da turbamulta raivosa, e seguir sempre em frente, sem ligar ao mundo que o rodeia.</p>
<p>Não nos preocupemos, pois. Todo este imprescindível espólio está bem guardado. Sobretudo a actual produção literária de RCP, dividida a meio entre dois magnos temas: o futebol e o 5 Dias. E ficou já imortalizada a forma genial como ele se insurge contra os comentadores anónimos, após anos e anos a escrever sob pseudónimos. Mas os Grandes têm destas excentricidades, como esquecer o nome da pessoa a quem se pediu, implorou, em dia de fraqueza, um lugarzito nesse asqueroso antro que é o 5 Dias – também essa parte da história já se encontra convenientemente refeita: hoje, RCP «foi convidado». Um genial exercício de remodelação da realidade, só ao alcance de mentes afortunadas.</p>
<p>Por todos estes argumentos que acima ficam expostos, venho exigir que apaguem também todos os comentários dos membros do CCRCP. Não apenas os que ficarão órfãos com o imininte desaparecimento dos posts do nosso alma pater, mas todos mesmo. E queremos isto feito até quinta ou sexta-feira. Domingo da outra semana o mais tardar.</p>
<p>Saudações revisionistas,</p>
<p>O sec. geral do CCRCP</p>
<p>Anon.</p>
<p>PS: Sei que se perderão algumas importantes exegeses da obra de RCP com esta amputação irreversível. Mas permanecem vivas para todo o sempre muitas prosas de militantes do CCRCP, como esta eloquente <a href="http://5dias.net/2008/10/15/uma-gravidez-histerica/">passagem</a>:<br />
« &#8211; Houve pressões.<br />
- Mentira! És um feirante!<br />
- Aqui estão os depoimentos de algumas pessoas com credibilidade<br />
que confirmam a existência de pressões inaceitáveis.<br />
- erm… uh… xixi e cócó!»</p>]]></content:encoded>
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		<title>faz de conta (texto de Jaime Roriz)</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/15/faz-de-conta-colaboracao-de-jaime-roriz/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Sep 2008 13:45:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério da Costa Pereira</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sr Presidente da República vetou a lei do divórcio. Os partidos políticos chamaram ao novo regime do divórcio, lei do divórcio. Os jornais, a televisão e a imprensa em geral (ainda não percebi porque carga d&#8217;água rádio e televisão &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/15/faz-de-conta-colaboracao-de-jaime-roriz/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sr Presidente da República vetou a lei do divórcio. Os partidos políticos chamaram ao novo regime do divórcio, lei do divórcio. Os jornais, a televisão e a imprensa em geral (ainda não percebi porque carga d&#8217;água rádio e televisão são imprensa) continuam a clamar pela lei do divórcio, uns contra outros a favor. Na blogosfera discute-se assanhadamente que &#8230; porque tal &#8230; e coiso &#8230; ai &#8230; que não querem que as pessoas se divorciem &#8230; ou pelo contrário que o divórcio fica um contrato a prazo.<br />
Resumindo, todos andam muito preocupados com aquilo que pode acontecer a adultos, capazes de consentir, caso queiram, ou não queiram, divorciar-se. Todos acham que vão surgir umas pobres pessoas vitimadas pela lei actual ou pelo novo regime.<br />
Porém, e eu não me conformo com isto, será que alguma destas cabeças pensantes terá efectivamente lido os documentos todos? É que, não devem ter reparado ainda mas, metade do texto da alteração legislativa refere-se às responsabilidades parentais.<br />
<span id="more-5840"></span><br />
O Presidente &#8220;faz de conta&#8221; que não deu por isso, os partidos fazem de conta que não deram por isso, a ordem dos advogados, a imprensa e até na <a href="http://5dias.net">blogosfera</a>, a jornalista Fernanda Câncio invectivando, muito bem, contra o veto presidencial – sempre tão atenta e com análises profundas dignas do melhor jornalismo que por cá se faz – &#8220;faz de conta(?!?)&#8221; que não deu por isso.<br />
O texto aprovado na Assembleia da República vem rectificar uma situação profundamente injusta e dar o primeiro passo no sentido de as crianças terem direito ao pai e à mãe em caso de separação. O texto, repito, muda o termo &#8220;Poder Paternal&#8221; para &#8220;Responsabilidades Parentais&#8221; retirando do ordenamento jurídico essa expressão medieval, rural e sexista. Ao mesmo tempo o novo regime preconiza que ambos os progenitores devem estar o mais próximo possível dos filhos, mesmo em caso de separação, plasmando na lei o regime de guarda conjunta como regime obrigatório (salvas algumas, raras, excepções).<br />
Como membro de uma IPSS e parceiro social, tive o privilégio de poder discutir com todos os grupos parlamentares as questões relativas às responsabilidades parentais. Fiquei abismado pelo facto de estar a dar novidades aos srs deputados – que nos receberam sempre bem e com um interesse que, pelo menos no que se via, parecia genuíno – ninguém tinha pensado ainda, de tão preocupados que estavam com o divórcio, nas consequências benéficas desta alteração legislativa, mais uma vez, lá estavam todos preocupados com as contas dos divorciados e com todas as questões de sexismo, conservadorismo, religião, etc etc. E as crianças Senhor? (&#8220;porque lhes dais tanta dor?&#8221; como dizia o poeta Augusto Gil)<br />
Eis, assim, um assunto que apaixonou a opinião pública e em que o mais importante passou completamente ao lado a toda a gente. Adultos capazes de consentir que se cuidem, digo eu, ao contrário de toda a gente. Dos menores temos todos nós que cuidar, não só porque são o futuro de Portugal, porque também é hoje que, formando os homens e mulheres de amanhã, faremos deste país um lugar melhor, ou pior, para se viver. Mas as crianças não dão polémica, não servem para fazer chicana política, não votam enfim.<br />
No fim serão as crianças que hoje vocês maltrataram, pela via da chicana política, que, quando crescerem, vos assaltarão os carros, vos violarão as filhas e que encherão o, depauperado, sistema de saúde de pedidos de consultas de psicologia. Vocês estão a roubar-lhes um dos pais.<br />
<strong>Do direito &#8230;</strong><br />
Fiquei a saber que a disposição transitória no que respeita aos processos pendentes foi feita à pressa porque algum jurista presente nas comissões de especialidade lá se terá lembrado &#8230; &#8220;Errr&#8230;. e a disposição transitória?&#8221; &#8230;. &#8220;Não se aplica aos processos pendentes&#8221; pronto(s)! Esqueceu-se, neste caso, o legislador e o sr jurista que os processos relativos às responsabilidades parentais só deixam de estar pendentes com a maioridade da criança (repare-se no disposto no artigo 292.º do CPC [aplicável aos processos de jurisdição voluntária, ex vi artigo 463.º/1 do CPC], que considera renovada a instância nos casos ali previstos, onde se pode incluir a regulação do poder paternal). Ou seja, um processo que seja regulado quando a criança tem 1 ano de idade manter-se-á regulado pela lei actual, na melhor das hipóteses, durante dezassete anos, ou, na pior das hipóteses, durante até 25 anos.<br />
Resta-me levantar aqui a questão. Quando daqui a 20 anos se queixarem da juventude mostrar-vos-ei este texto.</p>
<p><strong>Jaime Roriz</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: apocalypto</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 19:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, México [clique para aumentar numa nova janela]"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: channel 4 madras</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 13:57:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[índia]]></category>
		<category><![CDATA[politeísmo]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;. [nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/pedro-vieira-channel-4-madras/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, Madras [clique para abrir numa nova janela"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;.</i></p>
<p><i>[nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas desculpas.]</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A ilusão e a crença</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 18:32:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/29/jorge-palinhos-a-ilusao-e-a-crenca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/curandeiro1.JPG" border="0"></p>
<p>A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.<br/><br/>É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Eug%C3%A8ne_Robert-Houdin'>Jean-Eugène Robert-Houdin</a>, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.<br/><br/>Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Harry_Houdini'>Harry Houdini</a>, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “<a href='http://skepdic.com/ectoplasm.html'>Margery</a>”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.<br/><br/>Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como <a href='http://www.uri-geller.com/http:/www.uri-geller.com/'>Uri Geller</a>, foi <a href='http://video.google.com/videoplay?docid=-3396869920557391806'>James Randi</a>, que em vários episódios do programa <em>Tonight Show</em> desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.<br/><br/>Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e <a href='http://aspirinab.weblog.com.pt/2007/01/pior_que_o_diabo_na_terra.html'>rico</a>) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.<br/><br/>O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.<br/><br/>Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Nostradamus'>Nostradamus</a>, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:<br/><br/>“Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.”<br/>(Tradução minha a partir da versão inglesa)<br/><br/>Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.<br/><br/>As profecias de Nostradamus popularizaram-se em meados do séc. XV, mas quinhentos anos depois os seus sucessores continuam a escrever “<a href='http://astrologia.sapo.pt/Xz22011?prev=diaria&#038;signo=gemeos'>Proteja-se do frio; está sujeito a problemas nas vias respiratórias</a>”, uma profecia dificílima de fazer no pico do Inverno.<br/><br/>Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um <a href='http://www.paulocardoso.com/'>famoso astrólogo português</a>. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós. <br/><br/>É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.<br/><br/>Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.<br/><br/>Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.<br/><br/>Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.<br/><br/>P. S, &#8211; Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: marés vivas</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 03:35:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" alt="Pedro Vieira: Borda d'Água" width="85%" border="0"></a><br/>Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Impossible is writing</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:52:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “bbc lança site de treino jornalístico“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/ginasio.jpg" alt="Pedro Vieira: Impossible is writing" width="85%" border="0"><br /><br/><br />Público: “bbc lança site de treino jornalístico“. </p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A arte da ilusão</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:47:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/jorge-palinhos-a-arte-da-ilusao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas porque prefiro ver as obras com o mínimo de ideias feitas possível e só depois confrontar as minhas opiniões com as dos críticos.
</p>
<p>Quando vi o filme <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">O Terceiro Passo</a>, de Christopher Nolan, sabia apenas três coisas: quem era o realizador; que tratava de rivalidades no mundo do ilusionismo profissional de finais do séc. XIX; que o David Bowie tinha um pequeno papel.
</p>
<p>Saí do filme com mais algumas ideias, que me dediquei a comparar com <u>as críticas nacionais e estrangeiras</u>. Surpreendeu-me, no entanto, que o que mais via escrito nelas é que o filme era “um entretenimento agradável sem pretensões a profundidade”.<br />É certo que <em>O Terceiro Passo</em> não tem as mesmas implicações perturbadoras sobre memória e identidade que tinha <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">Memento</a>, o filme que lançou Christopher Nolan para a ribalta. Mas no filme pareceu-me identificar várias linhas de força tudo menos desprezíveis: a necessidade que temos de acreditar em algo que não conseguimos explicar, a necessidade de alguns darem aos outros essa ilusão e o desejo desmedido que move muitos a acreditarem e tornarem aquilo que sabem mero truque e ilusão em modo de vida e justificação para todos os crimes.
</p>
<p>De um lado havia a personagem Borden, disposto a sacrificar a sua família, o seu corpo, a sua própria identidade, em prol de uma ilusão. Do outro, a personagem Angier, que atravessou meio mundo e desbaratou a sua fortuna e a sua ética para tornar possível uma ilusão. E, contudo, ambas as personagens são ilusionistas profissionais, plenos conhecedores de que por de trás de cada coelho fora da cartola está uma verdade simples. Tão simples que, uma vez revelada, todo o encantamento do ilusionismo se perde, pelo que o segredo dessa verdade deve ser protegido como se pedra preciosa fosse. Porém, estarem na posse desse segredo não torna as personagens cínicas, mas antes mais idealistas, fazendo-as ansiar por que a ilusão que constroem deixe de ser truque e se torne verdadeira magia.
</p>
<p>Esta situação surpreendeu-me. Robert Louis Stevenson, entre outros, escreveu, a propósito da literatura, que quem apreciasse a sua magia deveria tentar saber o menos possível das suas roldanas e contrapesos, pois nada estraga mais o encantamento de uma ilusão do que saber como funciona. E, de facto, o senso comum indica que é mais cínico e desencantado em relação a toda a arte ou mistério quem está no seu interior.
</p>
<p>Por outro lado, paradoxalmente, também é o senso comum que diz que os praticantes de qualquer arte são também os mais fervorosos defensores da sua importância. Tal poderá dever-se a puro pragmatismo, mas também é difícil acreditar que alguém devote a sua vida a uma causa sem crer profundamente nela.
</p>
<p>Estes pensamentos erráticos levaram-me para uma arte muito próxima do ilusionismo e, em grande parte, sua antecessora: o charlatanismo, também conhecido por divinação, espiritismo, curas de fé, e muitas, muitas outras coisas, de que falarei nas próximas semanas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: bedtime for pinocchio</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 23:08:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" title="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio [clique para aumentar]" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" alt="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio" width="85%" border="0"></a><br/><br /><em>Público</em>: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Na cova dos lobos</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 02:36:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Blitz de novembro] Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/15/na-cova-dos-lobos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Blitz</em> de novembro]
</p>
<p>Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: &#8220;na cova dos lobos não há ateus&#8221;.
</p>
<p>Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.
</p>
<p>Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz &#8220;não há ateus em trincheiras&#8221;, embora a origem talvez seja comum, porque &#8220;trincheira&#8221; em inglês americano é <em>foxhole</em>, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?
</p>
<p>***
</p>
<p>Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de &#8220;sentir&#8221; a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse &#8220;a esse caminho&#8221; (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.
</p>
<p>Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer &#8220;não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada&#8221;. Demora alguns anos até se conseguir dizer: &#8220;não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços&#8221;. E demora ainda mais alguns anos até se dizer &#8220;não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal&#8221;.
</p>
<p>Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes &#8220;godless&#8221; como quem lhes chama órfãos (&#8220;fatherless&#8221;) ou zarolhos (&#8220;eyeless&#8221;). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi &#8220;brights&#8221;). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer &#8220;godless&#8221;. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.
</p>
<p>***
</p>
<p>Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?
</p>
<p>Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a &#8220;aposta pascaliana&#8221;. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.
</p>
<p>Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.
</p>
<p>De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: &#8220;só tenho uma vida&#8221;, e sorrindo, &#8220;só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar&#8221;.
</p>
<p>E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, &#8220;parece um religião&#8221;), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa.  Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.
</p>
<p>***
</p>
<p>Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: &#8220;sou um optimista trágico&#8221;, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.
</p>
<p>Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.
</p>
<p>Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Leave the kids alone</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:57:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" title="Pedro Vieira, Leave the kids alone. Clique para aumentar." target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" alt="Pedro Vieira: Leave the kids alone" width="85%" border="0"></a></p>
<p>“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Ops, lá foi um país pelo cano</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:53:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 6 dezembro 2006] Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/ops-la-foi-um-pais-pelo-cano/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 6 dezembro 2006]
</p>
<p>Na <em>Aljazira</em> árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um <em>verdadeiro</em> iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.<br />A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al&#8217;Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.<br />Terá isto alguma importância? O editorial do <em>Le Monde</em> sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.<br />Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —,  tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.<br />É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al&#8217;Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.<br />Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.<br />Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.<br />Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.<br />Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 10:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-final/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser lê-la ou relê-la, aqui está <a href="http://5dias.net/2006/11/20/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-1ª-parte/" target="">a primeira parte</a>, <a href="http://5dias.net/2006/11/27/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-2ª-parte/" target="">aqui a segunda</a>, <a href="http://5dias.net/2006/12/05/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-3ª-parte/" target="">aqui a terceira</a>, e <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4ª-parte/" target="">aqui a quarta</a>. Bom proveito.]</strong>
</p>
<p>Na sua obra <em>O prazer do texto</em> Roland Barthes declara: “Como instituição, o autor morreu: a sua pessoa civil, passional, biográfica, desapareceu; desapossada, já não exerce sobre a sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham por função estabelecer e renovar a narrativa; mas no texto, de um certo modo, eu desejo o autor: tenho necessidade da sua figura (que não é nem a sua representação nem a sua projecção), tal como ele tem necessidade da minha&#8230;”
</p>
<p>Que diz Barthes neste fragmento? Que não importa a biografia, a vivência, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_the_Author'>a ideia do autor</a> por trás de um determinado texto, visto que este será sempre interpretado segundo o enquadramento do leitor e da sociedade que o lêem. Posso, n’ <em>O</em> <em>Mercador de Veneza</em>, ler uma defesa da dignidade dos judeus, mesmo que a época em que foi escrita e o próprio autor da peça pudessem estar pejados de preconceitos anti-semitas.
</p>
<p>Barthes defendia a autonomia da interpretação do sentido do texto, independentemente da intenção ou psicologia do respectivo autor. Fazia-o com o objectivo de promover o papel da leitura individual e crítica literária na interpretação do texto, em detrimento da investigação biográfica ou histórica.
</p>
<p>Mas, de uma forma algo perversa, também se pode interpretar este excerto à luz dos ciberapócrifos que temos analisado nas últimas semanas. Pois que o aspecto singular destes textos é o de “desejarem um autor”. Mais concretamente, para os seus verdadeiros autores e leitores é absolutamente vital que aqueles tenham uma autoria atribuída. É essa autoria que faz existir o texto pois é ela que justifica a sua existência e a sua divulgação. Porém, é o conteúdo do texto que se torna popular e “deseja o autor”. Ou seja, se “Instantes”, “A Marioneta”, “Morre lentamente”, “História de dois aeroportos” não tivessem o conteúdo que têm, provavelmente não seriam reenviados de <em>e-mail</em> em <em>e-mail</em>, como tentei demonstrar no último artigo; mas se não tivessem o autor que se propõem ter, provavelmente nem seriam lidos.
</p>
<p>Gera-se assim a simbiose perfeita: o autor faz o texto ser lido, o seu conteúdo faz com que seja divulgado, num fenómeno inverso ao que é frequente no mundo editorial, onde um livro pode ser vendido pela força do nome do seu autor, mas é o conteúdo que determina se é lido ou não – basta olharem para as vossas estantes e contarem o número de livros de autores famosos que nunca leram ou abandonaram a meio.
</p>
<p>Curiosamente, o fenómeno dos ciberapócrifos parece demonstrar a teoria que <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault'>Michel Foucault</a> defendia na sua obra <em>O que é um autor</em>, onde propunha que as obras literárias são produtos culturais colectivos, não cabendo ao autor mais do que uma função de legitimação institucional. Essa legitimação traduz-se, nos ciberapócrifos, na atribuição da autoria à mais alta autoridade (leitores atentos notarão aqui uma significativa proximidade morfológica e etimológica) reconhecida dentro do contexto sociocultural da sua produção: Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez, no meio literário latino-americano; Millôr Fernandes e Luis Fernando Veríssimo num contexto brasileiro de humor, Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho no âmbito do comentário político-social português.
</p>
<p>Apesar desta explicação, o caso encerra em si um paradoxo: textos de origem anónima lidos por pessoas anónimas precisam da assinatura dos que se ergueram acima do anonimato para garantir a sua divulgação. E textos genuínos destes mesmos autores não têm uma fracção da popularidade e perdurabilidade que os apócrifos demonstram no mundo virtual.
</p>
<p>Porque será? Para esta questão, não tenho ainda resposta cabal. Mas, tendo em conta o que foi dito no anterior artigo desta série,  talvez a demagogia não seja apenas uma estratégia política mas antes revele o enorme desejo que as pessoas anónimas têm de ver legitimado e proferido pelos não-anónimos aquilo em que acreditam e desejam ouvir. De forma grossa, as massas precisam das elites para delas escutarem o que já sabiam à partida.
</p>
<p>Não tenho provas do que digo, mas sugiro que vejam o filme <em>A Rainha</em>, de Stephen Frears. Quando, no final, Isabel II e o marido chegam ao Palácio de Buckingham rodeados da população que faz luto por Diana Spencer, é quase inevitável sentir que naquele momento, e provavelmente em todos os outros, a rainha é a pessoa com menos poder em toda a Grã-Bretanha, joguete da vontade e caprichos dos seus súbditos.
</p>
<p>Quem sabe se o autor não é também o mais impotente dos leitores, incapaz até de escrever os textos que lhe atribuem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Filipe Moura: Juramentos e religiões</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jan 2007 00:32:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[O Filipe Moura manda este texto para preparar caminho para a semana, altura em que está prometido um grande texto. Apreciemos, então, o aperitivo O caso que neste momento se discute na política americana é-nos relatado, por exemplo, por Vital &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/05/filipe-moura-juramentos-e-religioes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a target="_blank" href="http://avesso-do-avesso.blogspot.com/"><strong> </strong>O Filipe Moura</a> manda este texto para preparar caminho para a semana, altura em que está prometido um grande texto. Apreciemos, então, o aperitivo<br />
<font face="Times New Roman">O caso que neste momento se discute na política americana é-nos relatado, por exemplo, por Vital Moreira, no Público de 26-12-2006:</font></p>
<p><font face="Times New Roman"><em>&#8220;Tomemos, por exemplo, o caso que neste momento se discute nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história política norte-americana, nas eleições de Novembro foi eleito um deputado muçulmano. Tendo-se criado uma tradição política no Congresso, segundo a qual, depois da tomada de posse oficial, os deputados realizam uma cerimónia privada, para amigos e familiares, em que juram sobre a Bíblia, até agora ninguém tinha colocado a hipótese de usar outro livro sagrado. Quando muito, os poucos não crentes optavam por não fazer o juramento religioso. Por isso, causou escândalo, especialmente nos círculos da direita cristã, o anúncio feito pelo dito deputado de que fará a seu juramento sobre o Corão. Um deputado mais intolerante da direita religiosa chegou ao ponto de defender que ele deve ser proibido de levar o Corão e que, se o fizer, deve perder o mandato. A pergunta que se deve fazer é obviamente a seguinte: se os crentes cristãos têm o direito de jurar sobre o seu livro sagrado, por que é que um deputado muçulmano não goza de igual direito?&#8221;</em></font></p>
<p><font face="Times New Roman">O tema do texto anterior dá pano para mangas. Pode ou não um deputado levar o Corão para fazer um juramento? A direita religiosa, como o <a target="_blank" href="http://www.oinsurgente.org/2006/12/31/feeding-the-trolls/">André Azevedo Alves</a> (que continua a confundir-se com O Insurgente) certamente pensa que a Bíblia é autorizada (e provavelmente deveria ser obrigatória), mas não é essa a questão mais importante. Essa questão, que (creio eu) dividirá opiniões entre as pessoas sensatas, é: &#8220;Deve ou não um representante político fazer um juramento religioso antes de tomar posse?&#8221; Muita gente reconhecerá ao deputado muçulmano o direito de jurar sobre o Corão, se outros juram sobre a Bíblia. Para mim, nenhum dos juramentos é aceitável: a religião é do foro privado, e não deve ser confundida com o exercício de funções públicas. Mesmo que tal possa ser visto como uma &#8220;restrição de liberdade&#8221;. É evidente que cada deputado poderá fazer os juramentos que quiser, se for religioso – e mesmo se os deputados forem eleitos enquanto religiosos, ou devido às suas convicções religiosas. Mas tais juramentos devem constituir uma cerimónia religiosa, e nunca uma cerimónia oficial de Estado.<br />
Aqui temos, de repente, e como quem não quer a coisa, um excelente &#8220;toy model&#8221; para o problema do véu islâmico, tema a que tenciono voltar em breve.</font></p>
<p><strong>Filipe Moura </strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Manneken Slice</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 22:35:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira: Manneken Slice (clique para aumentar)"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" alt="Pedro Vieira: Manneken Slice" border="0" width="85%"></a></p>
<p><br/>
</p>
<p><em>DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (4.ª parte)</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4%c2%aa-parte/</link>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 21:52:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[(Nota: Os links no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade) Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de e-mail em e-mail, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Nota: Os <em>links</em> no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade)
</p>
<p>Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de <em>e-mail </em>em <em>e-mail</em>, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve haver neles que leva cada homem ou mulher desta cadeia de transmissão a achar que o clique de reenvio, a selecção dos destinatários, o <em>send</em> e a espera pelo aviso de boa recepção não são tempo perdido.
</p>
<p>Como se mencionou num dos artigos anteriores, estes ciberapócrifos versam maioritariamente dois temas: a auto-ajuda e a política, com predominância da primeira. Vou por isso debruçar-se sobre a análise deste género.
</p>
<p>De que fala o texto <a href='http://www.revista.agulha.nom.br/jlb02e.html'>Instantes</a>? Parece ser um texto escrito por um idoso “de oitenta e cinco anos” e “morrendo” que nos diz o que faria se “pudesse viver novamente” a sua vida. O texto abre com uma declaração aparentemente paradoxal: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros”. O senso comum diz-nos que devemos lamentar os erros cometidos e tentar evitá-los no futuro. Esta frase, ao enunciar o contrário, desperta a atenção do potencial leitor.
</p>
<p>Os ditos “erros” – actividades e características que o narrador teria ou faria – são enumerados: menos perfeito, mais relaxado, mais tolo, levar as coisas menos a sério, menos higiénico, mais aventureiro, mais contemplativo e mais apreciador das sensações.<br />À lista segue-se a explicação: “fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria”.
</p>
<p>Esta passagem é muito interessante. Por um lado gera empatia com o destinatário, que obviamente também se considerará uma pessoa “sensata” e “produtiva” e com “momentos de alegria”. Por outro, é intrigante a adversativa implícita na frase “claro que tive momentos de alegria”. Será que viver de forma sensata e produtiva não dá alegria? Não, segundo o senso comum, para o qual felicidade é não fazer nada, não ter preocupações, estar com amigos e família, estar de férias. Mesmo que estudos neuro-comportamentais apontem maiores índices de felicidade nas pessoas com excesso de trabalho…
</p>
<p>Ou seja, é neste ponto que o texto mergulha no senso comum, quando apela a uma vida mais emocional, mais dedicada à (suposta) auto-satisfação de sentidos e instintos, que se conclui de forma dramática: “Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo”. Deste modo, ao invocar-se a inevitabilidade da morte, e tendo antes criado empatia com o leitor, força-se este a reflectir na sua própria mortalidade e a ponderar com cuidado os conselhos inscritos no texto.
</p>
<p>A texto atribuído a <a href='http://missdevil.blogs.sapo.pt/arquivo/777533.html'>Pablo Neruda</a> recorre a uma estrutura estilística menos subtil e, diria mesmo, ridiculamente bombástica. O texto está construído sobre paralelismos de construção sintáctica e semântica repetitivas, levados ao limite do suportável, que lhe conferem um tom apocalíptico. A “morre lentamente quem” sucedem-se condições desta “morte lenta”, numa estrutura aberta, que se presta a acrescentos infinitos de todo género.
</p>
<p>No entanto, a maioria das condições que o texto condena dizem respeito a um estilo de vida mais passivo, racional, conformado e desprovido de curiosidade intelectual: “não viaja”, “não lê”, “escravo do hábito”, “televisão o seu guru”, “evita uma paixão”, “os pontos sobre os iis”.
</p>
<p>Neste caso, a identificação com o leitor faz-se também através do senso comum, visto que ninguém se vê a si próprio como conformado e acomodado, mas inclina-se a heroicizar o seu quotidiano, justificando como inevitável o próprio comodismo. Mas, ao mesmo tempo, o texto finge ignorar que um certo grau de adaptação e rotina é também necessário para uma vida em sociedade. Deste modo, o texto prefigura-se como um texto moralista, destinado a alimentar uma imagem idealizada da vida, sendo fácil para o leitor aplicá-lo parcialmente a si próprio, mas cabalmente à massa dos “outros”.
</p>
<p>O terceiro e quarto textos desta série – há outros, mas estes serão suficientes –apresentam maior complexidade e subjectividade que os anteriores.
</p>
<p>No caso da <a href='http://www.naweb.info/alvo/blogger.php?page=news_photo&#038;id=1091549244'>Marioneta</a>, há mais empenho na liricização dos conselhos, que se tornam menos imediatos e mais subjectivos: “escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse”.
</p>
<p>Pelo contrário, os conselhos de <a href='http://www.davidpbrown.co.uk/poetry/mary-schmich.html'>Sunscreen</a> são de tal modo pragmáticos que o texto ganha um certo humor: “Sing”, “Floss”, “Stretch”.
</p>
<p>No entanto, ambos fazem a apologia do momento, das sensações, da natureza e da vida sem planos, constrangimentos ou preocupações: “Enjoy your body”, “viveria enamorado do amor”.
</p>
<p>Aqui assenta, julgo eu, o que faz correr e perdurar estes textos: a imagem idílica e despreocupada da vida que proporcionam. Para um enervado trabalhador ou para um entediado doméstico que abre os seus <em>e-mails</em>, estes textos funcionam como escapismo, espelho e sensação de superioridade. Ao descreverem uma vida despreocupada, fazem o leitor sentir que essa vida é possível, existe e traz felicidade. Ao admitir que alguns dos conselhos seriam bons para si, o leitor considera o texto importante para si próprio, mas ao não se reconhecer a si próprio em algumas das condições condenadas e reconhecer “o outro” sente-se superior e o comprazimento samaritano leva-o a reenviar o texto para amigos e conhecidos para que eles aprendam.
</p>
<p>Deixem-me reforçar a questão do reenvio. Ao sermos nós a revelar o texto a outrem, sentimo-nos um pouco autores daquele, sentimos que somos nós que estamos a dizer aquelas palavras “sábias” a quem nos rodeia. Ao mesmo tempo, sendo o texto assinado por outro, evitamos o sermão directo e não nos expomos como pregadores e moralistas.
</p>
<p>Aqui assenta o grande trunfo dos textos reenviados: agradam duplamente. Porque dizem o que já conhecíamos, e logo não nos ameaçam. Porque nos permitem partilhar com os outros o “saber” que é nosso, mas que preferimos não admitir como nosso.
</p>
<p>Julgo que este mecanismo é verdadeiro para grande parte dos textos que continuam a circular na <em>internet</em>: tanto os de auto-ajuda, como os politizados, os anúncios de vírus, os pedidos de ajuda, os casos verídicos e, de uma forma mais básica e óbvia, as promessas de dinheiro ou prémios grátis.
</p>
<p>Na próxima semana concluo esta série com uma análise do papel do autor.</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 03:29:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/andre-belo-a-tlebs-a-plebs-e-a-mao-na-massa-2/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me ao ler um pouco mais de informação e opiniões sobre a questão da TLEBS (o <a href="http://ciberduvidas.sapo.pt/">Ciberdúvidas da Língua Portuguesa</a> tem bons <i>links</i> para perceber melhor a questão, com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/php/resposta.php?id=18678'>documentos legais que criaram esta experiência pedagógica</a> e com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/index.html'>artigos de opinião que têm saído nos jornais</a>). E decidi partilhar convosco, depois da dobra, alguns <i>links</i> e impressões sobre o assunto.
</p>
<p>No momento em que escrevo, parece-me, há um sério problema pedagógico em curso, prioritário até em relação à avaliação que se faça da nova terminologia. É o de saber se se pode levar ao fim a própria experiência pedagógica em que ela aparece (que deve, por lei, decorrer até ao ano lectivo de 2007-2008). O fogo sobre a TLEBS tem sido tão cerrado que se criou hoje uma situação difícil de sustentar pedagogicamente, a não ser que o Ministério da Educação clarifique imediatamente a sua posição sobre o assunto, como deveria fazer e não tem feito. <a href=“<a href='http://dn.sapo.pt/2006/11/23/tema/governo_admite_recuar_novos_termos_g.html'>Tem dado sinais contraditórios</a> que não satisfazem nenhuma das posições em confronto e afectam, evidentemente, a credibilidade da experiência pedagógica no próprio momento em que ela está a ser feita. 
</p>
<p>Por outro lado, parece a um leigo como eu — apesar de tudo, professor de língua portuguesa para estrangeiros e não mais leigo do que outros que têm participado no debate — que existem esclarecimentos importantes dados por alguns dos autores da TLEBS (por exemplo <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_13.html'>neste</a>, <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_14.html'>neste</a> e <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_9.html'>neste</a> artigos). E que sublinham, com razão, a confusão mediática entretanto criada em relação ao estatuto da experiência pedagógica, destinada a actualizar e normalizar parte da (muitas vezes incoerente) terminologia linguística actual. É claro que os propositores dos novos termos linguísticos e o Ministério não foram claros a passar a sua mensagem e por isso têm responsabilidades na criação dessa confusão. Mas os críticos da TLEBS, ao satirizarem a sigla (tornando-a pejorativa, sinónimo de mau português vindo dos próprios professores de português) e ao transformarem um instrumento pedagógico destinado a orientar os professores e os documentos do Ministério (é o que diz <a href='http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/Portaria1488%2024Dez2004.pdf'>a portaria do governo do PSD/PP</a> que instituiu a TLEBS) numa nova ortodoxia gramatical pronta a ser decorada pelas criancinhas portuguesas, pobres coitadas abandonadas, lá deram o seu contributo para mistificar e muito a questão. 
</p>
<p>(Acho graça que <a href='http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html'>quem se opõe à nova terminologia</a> exija o “fim das experiências pedagógicas <i>não autorizadas</i> em crianças“ e “um ensino de<strong> </strong>qualidade, científica e pedagogicamente <i>válido e validado</i>“ (itálico meu). “Não autorizadas“ por quem? “Válido e validado“ por quem? Pelos pais? E por que mais outras figuras tutelares? Os professores têm a obrigação de fazer experiências pedagógicas com as nossas criancinhas, é para isso que lhes pagam. Não sabiam?)
</p>
<p>A elaboração da nova terminologia foi iniciada em 1997 e teve, ao que parece, ampla participação de professores de português pelo país inteiro. Estes professores deveriam merecer um bocadinho de mais confiança da nossa parte, tanto mais que têm manifestado abertura para reavaliar a experiência, ao fim dos três anos que ela deve durar, em função das críticas que têm sido feitas. Seria bastante estúpido deitar abaixo todo o trabalho de anos por causa de uma má sigla e de uma colecção de citações reduzidas a uma caricatura.</p>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Jorge Palinhos: Gramática para principiantes</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/11/jorge-palinhos-gramatica-para-principiantes/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 15:51:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da pen-drive com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana. Todo o português &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/jorge-palinhos-gramatica-para-principiantes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da </em>pen-driv<em>e com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana.</em>
</p>
<p>Todo o português está dominado por uma nova terminologia. Todo? Não, um grupo acérrimo de polemistas, <em>opinion-makers</em>, pais consternados e escritores enfurecidos luta ainda e sempre contra a invasão.
</p>
<p>De um lado afirma-se estar a antiga terminologia desactualizada e errónea, sendo necessário actualizá-la e corrigi-la, pois não conhecendo os “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção“ é impossível pedir um quilo de carne de novilho no talho. Do outro lado, acena-se com pais baralhados, com o “ódio dos linguistas à literatura”, com a impossibilidade de se compreender um relato de futebol sem se ter identificado os argumentos de catorze sermões eclesiásticos do séc. XVII, com o fim da língua portuguesa em geral e da civilização cristã do Ocidente em particular.
</p>
<p>Nesta guerra sangrentas batalhas se travam entre o “complemento circunstancial” e o modificador”, com inúmeras baixas a registarem-se entre “pronomes” e “quantificadores” de ambos os lados.
</p>
<p>Passa-se isto na Gália?<br />Não. <br />Em Portugal.
</p>
<p>Noutras paragens, o respectivo governo encomenda um estudo a especialistas sobre a reforma e melhoramento do ensino da gramática.<br />Estes produzem um relatório onde se recomenda que a gramática seja ensinada à margem do ensino da literatura e se esboça uma escala de progressão do ensino da gramática: no infantário ensinar a ver uma frase como um “palco”, onde há “actores”, “acções” e “cenários”; no nível seguinte aprender a distinguir as partes da frase e para que servem; no segundo ciclo a distinguir as classes de palavras; no terceiro aprender a identificar as classes de palavras e suas funções na frase; no secundário descobrir os mecanismos com que se constroem textos.
</p>
<p>O relatório faz a apologia da redução ou eliminação do jargão nos níveis iniciais, para que os pais possam ajudar os filhos nos primeiros passos, e constata que o objectivo das aulas de gramática não é formar linguistas nem fossilizar o ensino, mas permitir que os alunos aprendam a usar a língua, a expressar-se e a compreender os discursos e textos que os rodeiam, para o que, entende o relatório, mais proveitoso é o estudo da gramática que a decomposição métrica de cantigas de amor medievais.
</p>
<p>Acontece isto em Portugal? Não, na França.
</p>
<p>Estes gauleses são todos malucos.
</p>
<p>P.S. – Eis o relatório: <a href='http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf'>http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 02:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da Educação, a TLEBS é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, ela transforma-se, quando vituperada pelo grupo dos <a href="http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/017735.html">Convencidos da Vida</a> (não vou dar nomes, são as siglas do costume), em Tremenda Ladaínha sobre a Educação que nos Brutaliza e Satura. TLEBS também rima com <a href="http://www.livius.org/pi-pm/plebs/plebs.html"><i>plebs</i></a>, a massa pobre e ignara dos que estão de fora, aqueles com quem os Patrícios da opinião recusam partilhar a cidadania deste quinhão. Tudo isto é uma longa história, com muitas barbas em Portugal.
</p>
<p>Longe de mim querer dizer que o único discurso legítimo sobre a educação é o dos especialistas (a ditatura tecnocrática de que o Rui falava <a href=”http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/”>nesta crónica</a>). Mas quem bota discurso sobre educação tem pelo menos de fazer um esforço para se informar, para aprofundar o assunto, para fazer propostas, para ajudar. Numa palavra, para meter a mão na massa. Mas para isso é preciso acreditar minimamente numa tarefa educativa comum, o que me parece estar claramente longe dos horizontes dos Convencidos da Vida. É muito mais fácil afunilar tudo numa uma discussão ácida sobre terminologia e siglas. Fica tudo na mesma, e no fim a culpa é do ministério e dos professores.
</p>
<p>Para meter a mão na massa, é preciso ir além das siglas e falar de pedagogia, um assunto que me parece urgentíssimo, em qualquer país ou geração, e que raramente se discute em concreto, mesmo (sobretudo?) entre os professores. Um assunto que dá (ou devia dar) imenso trabalho. Um assunto que vai desde o pré-escolar à universidade. Um assunto em que nunca nada está adquirido. Um assunto que tem a ver com planos curriculares (como defendeu o Rui no texto citado), com métodos de avaliação, mas também, e talvez sobretudo, com perceber, de forma prática e inteligente, como aprendem hoje os alunos, como é que eles entendem o que lhes transmitimos, de que modo é que podemos ajudá-los a serem mais cultos e de que modo é que, com isso, ficamos nós próprios mais cultos.  Para a semana, com a vossa paciência, vou tentar desenvolver um pouco isto.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: &#8220;never trust youtube, cosmo kramer&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Dec 2006 18:08:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/kramer.jpg" alt="Pedro Vieira: Never trust youtube, Cosmo Kramer" width="75%" border="0"><br/><i>Pedro Vieira: &#8220;never trust youtube, cosmo kramer&#8221;</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (3.ª parte)</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Dec 2006 15:32:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[nota de Rui Tavares: por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.] Quem terá &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/05/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-3%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[<strong>nota de Rui Tavares:</strong> por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.]
</p>
<p>Quem terá escrito a <em>Ilíada</em> e a <em>Odisseia</em>? <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Homer'>Homero</a>, dizem os antigos e muitos contemporâneos. No entanto, em grego “homero” significa “refém”. Os reféns eram os filhos dos prisioneiros de guerra que, sendo dúbia a sua lealdade, estavam isentos de participar nas batalhas. Por isso, era-lhes frequentemente entregue a responsabilidade de memorizarem e conservarem os poemas épicos orais e a história antiga da sociedade a que pertenciam.
</p>
<p>Seria Homero um destes reféns? Ou será que “homero” se refere a uma sociedade destes poetas que conservariam e refinariam estas tradições orais até ganharem corpo naqueles dois clássicos? A questão é muito discutida, mas o que está fora de dúvida é que os dois alicerces da literatura ocidental se basearam em histórias orais que foram passadas de geração em geração, de boca em boca, até alguém as fixar definitivamente por escrito.<br />Se estas duas obras são discutíveis, outras já não o são. Por exemplo, hoje há certezas quanto que a colecção <em>Hinos Homéricos</em> não pode ser atribuída ao mesmo autor da Ilíada e a que as obras que os eruditos gregos atribuíam a Orfeu certamente não lhe pertenceriam.
</p>
<p>O terceiro alicerce da literatura ocidental, a <em>Bíblia,</em> também é alvo de discussão quanto a algumas das suas passagens. Debate-se, por exemplo, se os seus livros  teriam sido mesmo escritos pelos seus autores nominais, se ditados por estes, se seguiriam tradições próximas destes ou se seriam, simplesmente, obras anónimas atribuídas a um autor prestigioso para ganharem o peso da autoridade. É certo que o <em>Cântico dos cânticos</em> não foi composto por Salomão, mas fazia parte das tradições orais das núpcias judaicas, e que o Evangelho de São João terá sido escrito por alturas do séc. II d. C., muito depois falecimento do apóstolo.
</p>
<p>Mesmo nos Evangelhos há passagens abertamente reconhecidas como apócrifas. Na obra <a href='http://www.asa.pt/produtos/produto.php?id_produto=302036'>Os Monges que Traíram Jesus</a> (2006) há a indicação de várias. A mais famosa é a de Marcos 16:9-19, na qual se descreve a ressurreição de Cristo, que é hoje universalmente reconhecida como um acrescento posterior – a versão oficial católica da <em>Bíblia</em> o diz. O Evangelho, o mais antigo dos quatro, terminaria originalmente com a morte de Jesus. <br />Uma das histórias mais famosas dos Evangelhos, João 7:53-8:11, do encontro com a mulher adúltera e do “quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”, é considerado por muitos autores como uma invenção posterior: surge uma única vez nos manuscritos mais antigos, aparece em vários sítios diferentes nos manuscritos posteriores, interrompe o fluxo do texto do evangelho e está escrito num estilo bastante diferente.
</p>
<p>Foi com a descoberta da imprensa e a disseminação de livros e leitores que os problemas de autoria se agudizaram.
</p>
<p>Um desses casos é o de Shakespeare. Sendo já de si polémica a atribuição das peças ao indivíduo chamado William Shakespeare, o caso agrava-se quando a maior parte das suas peças foram publicadas após a sua morte, por actores da sua companhia, que se basearam nas notas, na memória e em notas de representação, dando origem a versões muito díspares.
</p>
<p>Outro exemplo mais próximo de nós é o de <a href='http://fredb.sites.uol.com.br/lusdecam.htm'>Camões</a>. Quando, quinze anos depois da morte do poeta, o impressor Lobo Soropita publicou pela primeira vez as suas obras, teve as recolher da oralidade ou de manuscritos de terceiros. Na segunda edição, teve já de retirar alguns sonetos que concluiu não serem de Camões e acrescentar outros que tinham surgido. Este método foi-se repetindo de edição a edição, até ao ponto de haver mais 400 sonetos atribuídos a Camões. Jorge de Sena estabeleceu 119 sonetos como autênticos. A questão ainda <a href='http://abrupto.blogspot.com/2003_12_01_abrupto_archive.html%22%20%5Cl%20%22107185217947701251'>perdura hoje</a>.
</p>
<p>Como surgiriam todos estes sonetos apócrifos? Do mesmo modo que surgem muitos textos da Internet – alguém deparava com um soneto de que gostava e sentir-se-ia tentado a atribuí-lo ao poeta mais famoso da altura, outro escrevia um poema e, inseguro do seu próprio dom lírico, atribuía-o a alguém considerado.
</p>
<p>A prática não era, aliás, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Forgery'>exclusiva da literatura</a>. Miguel Ângelo em início de carreira terá feito passar um <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Michelangelo%27s_Cupid'>Cupido</a> de sua autoria por uma peça antiga. Muitos impressores renascentistas acrescentavam a sigla AD às suas xilografias para as valorizarem, atribuindo-as a Albrecht Dürer. No séc. XVII não eram desconhecidos os pintores anónimos que assinavam os seus quadros com <em>Rembrandt fecit</em>.
</p>
<p>Se alguma desta pseudo-epigrafia era inconsequente, servindo apenas para alimentar egos e carteiras, algumas destas falsificações tiveram efeitos surpreendentes.
</p>
<p>Um destes casos foi o de <a href='http://www.bbc.co.uk/legacies/myths_legends/scotland/highland/index.shtml'>Ossian</a>, um suposto poeta medieval, cujas obras, “descobertas” no séc. XVIII, viriam a inspirar o movimento romântico. Porém, a real autoria do texto era do seu suposto “tradutor”, James MacPherson, um autor de obras históricas.
</p>
<p>Os exemplos de falsificação de autoria são intermináveis, mas julgo que estes servem para verificar como aquela sempre foi um conceito frágil, muitas vezes mais definida por uso e contingências que por uma autêntica ligação entre autor e obra.
</p>
<p>Deste facto, talvez se possa depreender que, muitas vezes, é o estilo e o conteúdo do texto que vão determinar a autoria atribuída.
</p>
<p>No caso dos textos apócrifos que correm pela Internet, isso suscita a questão: o que é que há num texto que faça os seus leitores sentirem a necessidade de atribuí-lo a outro que não o verdadeiro autor?
</p>
<p>Na próxima semana vou debruçar-me sobre o conteúdo e estilo dos ciberapócrifos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Daily Shit &amp; Fan</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 22:59:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;when the shit hits the fan: tablóide condenado por difamação&#8221; – notícia do DN, sobre condenação ao Daily Mirror]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/difamacao.jpg" title="Pedro Vieira: Shit &#038; Fan [clique para aumentar]" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/difamacao.jpg" width="85%" border="0"></a><br/>&#8220;when the shit hits the fan: tablóide condenado por difamação&#8221; – notícia do DN, sobre condenação ao Daily Mirror</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedimos desculpa por esta interrupção</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 16:11:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma cadeia de acontecimentos imprevistos encalacrada numa outra cadeia de acontecimentos, esses já previstos, fez com que eu hoje não pudesse pôr as minhas mãos pecadoras em qualquer teclado de computador, com excepção para este momento em que aproveito para dar conta da indisponibilidade aos leitores, antes de partir para o que o destino me reservar ainda neste dia. Felizmente, o texto do Jorge Palinhos que fica aí abaixo enche as medidas de qualquer blogue. Usufruam e — quer-me parecer — até para a semana.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (2.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 16:06:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eduardo Prado Coelho foi acusado de plágio. Situação escandalosa mas não inaudita em Portugal. Só que o inesperado acontece quando o suposto autor plagiado, João Ubaldo Ribeiro, nega veementemente a autoria do texto original. E o caso torna-se rocambolesco quando &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/27/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-2%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eduardo Prado Coelho foi acusado de plágio. Situação escandalosa mas não inaudita em Portugal. Só que o inesperado acontece quando o suposto autor plagiado, João Ubaldo Ribeiro, nega veementemente a autoria do texto original. E o caso torna-se rocambolesco quando o próprio Eduardo Prado Coelho desconhece o texto de que deveria reclamar autoria.
</p>
<p>O texto intitulava-se “Precisa-se de Matéria-Prima para Construir um País” e era um texto indignado sobre a corrupção do país, em que se acusa o povo, e não os políticos, desta. O texto, alegadamente publicado no <em>Público</em>, em Novembro de 2005, seria praticamente igual a um texto de João Ubaldo Ribeiro, publicado nos jornais brasileiros <em>O Globo</em> e <em>Jornal do Meio Ambiente</em>, variando apenas nas referências a políticos e eventos portugueses e brasileiros, respectivamente.
</p>
<p>Um anónimo verificou as semelhanças, mais que muitas, e foi fazer a acusação, anónima, para a blogosfera. No entanto, o <em>Público</em> não tem qualquer registo de ter publicado o texto. Eduardo Prado Coelho afirma nunca o ter escrito. João Ubaldo Ribeiro também. Num <em>e-mail</em> para os amigos, o escritor brasileiro avisa: “Estou lhe mandando o texto abaixo porque está circulando na internet como meu e, antes que você tome um susto ao eventualmente recebê-lo, quero explicar que não tem nada de meu, eu nunca escreveria esse negócio nunca. Até o detalhe de molhar a mão do guarda é inverídico, porque não tenho carteira e não dirijo mais há uns trinta anos. Mas não posso fazer nada, só posso desmentir a quem me pergunte. E agora você, a quem lhe perguntarem. Abraços chateados de João Ubaldo”.
</p>
<p>O aborrecimento de João Ubaldo Ribeiro é cada vez mais frequente entre escritores e cronistas brasileiros. A Millôr Fernandes é atribuído um texto intitulado “O direito ao palavrão”, que este nunca escreveu e cuja suposta autoria o deixa enraivecido. Arnaldo Jabor, furioso por lhe ser imputado um texto com o título de “Bunda Dura”, escreveu no Estado de São Paulo: “Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não fiz. Toda semana tento ser inteligente, escrevo sobre o Bush, a crise internacional, espremo meus pobres conhecimentos filosóficos ou sociológicos, capricho na língua, tudo para ser chamado de “profundo” e aí, “Bunda dura” vem e é meu Prêmio Jabuti, minha medalha”. A propósito ainda de outro texto, contou “Fiquei sabendo que tinha um texto com o meu nome circulando na internet. Critiquei publicamente o conteúdo dele e pouco depois descobri que o autor era um jornalista. O sujeito ficou uma fera&#8230;” E a partir disto tira a conclusão que os textos que circulam pela internet têm sucesso porque “as pessoas gostam de m&#8230;”.
</p>
<p>Até o mais famoso cronista brasileiro da actualidade, Luis Fernando Verissimo, contou numa das suas crónicas que havia recebido grandes elogios por um texto chamado “Quase”, em que ele nunca pusera mão, e rematou dizendo que tinha sido incluído numa colectânea francesa dedicada a escritores brasileiros: “Eu estava entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos, adivinha com que texto? Em francês ficou ‘Presque’”. Posteriormente, Verissimo descobriu que o texto fora escrito por uma estudante universitária de 22 anos, que o escrevera depois do falhanço de uma quase relação amorosa.
</p>
<p>O fenómeno atingiu tal dimensão no Brasil que a jornalista Cora Rónai fez um livro e um blog, chamado <em>Caiu na rede</em>, sobre estes apócrifos da era digital, onde elencava dezenas destes textos, com indicação da verdadeira autoria, quando era possível descobri-la. Em vários artigos escritos a propósito da obra, discutiu-se a origem destes textos. Cora Rónai considera que “Há dois tipos de apócrifos: aqueles em que os nomes dos autores verdadeiros são substituídos por outros mais conhecidos, e outros escritos como se fossem de outros autores. No fundo, a maior parte é ou humor ou auto-ajuda, o que me leva a crer que a motivação é basicamente espalhar a piada ou o conselho. Ou, eventualmente, a revolta com aspectos do mundo contemporâneo.”
</p>
<p>Martha Medeiros, uma colunista que, inversamente, tem vários textos seus a correr na net com a assinatura de outros escritores mais famosos (ver texto da semana anterior) acha que isso se explica por as pessoas sempre quererem partilhar aquilo que gostam de ler e a <em>internet</em> ter vindo facilitar de tal modo essa partilha que muitos, por preguiça, distracção ou maldade, acabam por deturpar a autoria ou o próprio texto. Mas já às pessoas que escrevem e assinam com outro nome, atribui medo de exposição e de assumirem os seus textos. Por sua vez, a psicóloga Carla Leitão atribui a deturpação da autoria ao desejo dos falsários de ver o seu texto difundido, dando-lhe a estampa de um autor credível.<br />Incidentalmente, em Portugal temos um pequeno exemplo visível da evolução de um apócrifo cibernético. Há um ano, João Caetano Dias, usando o <em>Blogsearch</em> do <em>Google</em> observava a evolução de um texto seu sobre o aeroporto da Ota. O texto, publicado no seu blog de então, <em>Jaquinzinhos</em>, comparava números entre os aeroportos de Málaga e da Portela para defender a dispensabilidade do novo Aeroporto da Ota. O texto foi citado por outros blogs e entrou no circuito secreto dos <em>e-mails</em> reenviados. Algumas semanas depois o texto citado já apresentava frases que não constavam do original, incluindo acusações a políticos conhecidos. E algum tempo depois, o texto continha a assinatura de Miguel Sousa Tavares. Ou seja, alguém achou que o texto era demasiado “importante” para ser assinado por um pouco conhecido João Caetano Dias e promoveu-o ao “estatuto” de Miguel Sousa Tavares.
</p>
<p>Apesar das queixas, os apócrifos não são apanágio da era cibernética. Por exemplo, o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luís Borges, começou a sua carreira de apócrifo na era pré-internet, na revista <em>Plural</em>, então dirigida por Octávio Paz.<br />Falarei disso na próxima semana.
</p>
<p>Fontes:<br /><a href='http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=218165&#038;idselect=92&#038;idCanal=92&#038;p=200'>www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=218165&#038;idselect=92&#038;idCanal=92&#038;p=200</a><br /><a href='http://livrocaiunarede.blogspot.com'>http://livrocaiunarede.blogspot.com</a><br /><a href='http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/337912.shtml'>www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/337912.shtml</a><br /><a href='http://www.condominiobrasil.net/archives/2006/03/caiu_na_rede.html'>www.condominiobrasil.net/archives/2006/03/caiu_na_rede.html</a><br /><a href='http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-March/002456.html'>http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-March/002456.html</a><br /><a href='%22'>http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/boatos-blogosfricos-chegou-hoje-por-e.html</a><br /><a href='%22'>http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/ainda-sobre-o-boato.html</a><br /><a href='http://assimobservo.blogspot.com/2005/07/do-jaquinzinhos-andar-nas-nuvens-via.html'>http://assimobservo.blogspot.com/2005/07/do-jaquinzinhos-andar-nas-nuvens-via.html</a><br /><a href='http://lookatthebrightsideoflife.blogspot.com/2006/05/umahistria-de-2-aeroportos.html'>http://lookatthebrightsideoflife.blogspot.com/2006/05/umahistria-de-2-aeroportos.html</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: ImplanteTV</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2006 18:28:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: &#8220;cirurgia plástica em directo chega à TVI&#8221;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/tvi.jpg" title="Pedro Vieira, ImplanteTV [Clique para aumentar]"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/tvi.jpg" width="85%" border="0"></a><br/><br /><em>Público: &#8220;cirurgia plástica em directo chega à TVI&#8221;.</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (1.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2006 14:29:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi com o poeta chileno Pablo Neruda que aprendi que: Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/20/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-1%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi com o poeta chileno Pablo Neruda que aprendi que:
</p>
<p><em>Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não </em><br /><em>ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. </em><br /><em>Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem </em><br /><em>não se deixa ajudar. </em><br /><em>Morre lentamente quem se transforma em escravo do </em><br /><em>hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, </em><br /><em>não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não </em><br /><em>conhece. </em>
</p>
<p>Descobri-o nas sábias palavras de Martha Medeiros, uma publicitária brasileira radicada no Chile.
</p>
<p>Dir-se-ia que a América do Sul é um farol para a vida de muitos, pois é também de outro sul-americano, escritor, argentino, Jorge Luís Borges, que tive esta inspiração:
</p>
<p><em>Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. </em><br /><em>Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. </em><br /><em>Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério. </em><br /><em>Seria menos higiénico. </em><br /><em>Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. </em><br /><em>Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. </em><br /><em>Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria. </em><br /><em>Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos&#8230;</em>
</p>
<p>Bons momentos, sim, que devemos agradecer à autora Nadine Stair, uma poetisa norte-americana mediana, que escreveu estes ensinamento pelo punho de Don Herold, um cartoonista esquecido do Reader’s Digest.
</p>
<p>Um pouco mais a norte, o escritor de ficção científica Kurt Vonnegut, de forma mais pragmaticamente norte-americana, deu uma série de conselhos úteis aos alunos do Massachusetts Institute of Technology:
</p>
<p><em>If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience. I will dispense this advice now. </em><br /><em>Enjoy the power and beauty of your youth. Oh, never mind. You will not understand the power and beauty of your youth until they&#8217;ve faded. But trust me, in 20 years, you&#8217;ll look back at photos of yourself and recall in a way you can&#8217;t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are not as fat as you imagine.  </em><br />Agradeça-se estas palavras à autora, Mary Schmich, que as escreveu para o Chicago Tribune.
</p>
<p>E quero terminar com mais luminosidade de um Nobel, Gabriel Garcia Márquez, que nos revela:<br /><em>Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.  Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. </em>
</p>
<p>Sábias palavras as desta marioneta de trapos onde o ventríloquo mexicano Johnny Welch colocou as suas palavras.
</p>
<p>***
</p>
<p>Provavelmente já quase todos lemos alguns destes textos, quase sempre atribuídos a Neruda, Borges, Vonnegut e Márquez. O mais certo é os termos lido em e-mails reencaminhados por amigos, mas também referidos em jornais e revistas, programas de televisão e até mesmo filmes e livros.
</p>
<p>E, contudo, estes textos têm a espantosa particularidade de não terem sido escritos pelos autores supostos, mas serem de autoria de Martha Medeiros, Don Herold, Martha Schmich e Johnny Welch, embora não tenha havido qualquer tipo de plágio. Aliás, Neruda e Borges provavelmente ficariam horrorizados por lhes serem atribuídos tais textos, Vonnegut é indiferente e Gabriel Garcia Márquez já declarou inconcebível que alguém pudesse acreditar que um texto daqueles pudesse ser seu.
</p>
<p>Contudo, apesar dos esforços de esclarecer a autoria de autores, viúvas e amigos, estes textos continuam a circular de mão para mão, indiferentes a autoria, qualidade literária ou tempo.
</p>
<p>Como e porquê é o que vou tentar explorar nas próximas semanas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos:  …e a retórica também</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 22:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[Em 1860 morria o filósofo Arthur Schopenhauer. Quatro anos depois publicava-se um texto inédito seu, cinicamente chamado A Arte de Ter Sempre Razão. Ao contrário dos nossos compatriotas, cuja arte de ter sempre razão é calarem-se antes e vociferarem “Eu &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/13/jorge-palinhos-%e2%80%a6e-a-retorica-tambem/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1860 morria o filósofo Arthur Schopenhauer. Quatro anos depois publicava-se um texto inédito seu, cinicamente chamado A Arte de Ter Sempre Razão. Ao contrário dos nossos compatriotas, cuja arte de ter sempre razão é calarem-se antes e vociferarem “Eu já sabia! Eu já sabia!” depois, Schopenhauer achava que durante as discussões era fácil ter sempre razão, independentemente da validade dos argumentos ou da constatação dos factos. Bastava usar alguns dos 38 estratagemas que enunciava no seu livro.<br />Não sei bem porquê, lendo os argumentos que muitos dos blogs liberais e de direita empregam para tentar dissociar a derrota do Partido Republicano da Guerra no Iraque, não pude deixar de interrogar-me se esses argumentos não seriam, em parte, fruto da aprendizagem dos estratagemas de Schopenhauer. Afinal, os próprios derrotados assumiram essa ligação e o estratega da guerra, Donald Rumsfeld, foi demitido em consequência das eleições.<br />Para verificar tal possibilidade, resolvi confrontar alguns posts de João Miranda, o mais conhecido e reputado blogger liberal, com as 38 estratégias de Schopenhauer. Sem nenhuma ordem em especial:
</p>
<p><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/pretextos-no-so-causas.html">Os gregos cercaram Tróia para resgatar Helena. A explosão do USS Maine causou a guerra Hispano-Americana. A 1ª Guerra Mundial foi travada por causa do assassinado do Arquiduque da Áustria. (…)Os EUA invadiram o Iraque por causa das Armas de Destruíção em Massa.</a> <strong>Estratagema n.º 2, Ex homonymia</strong> – Associar à premissa do adversário outras permissas superficialmente similares para depois, ao refutar estas, parecer que se está também a refutar a do adversário.
</p>
<p><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/consequncias-da-vitria-do-partido.html">Consequências da vitória do Partido Democrata</p>
<p>1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz.  2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto.  3. Guantanamo fechará em menos de 6 meses e os presos voltarão para as suas terras.  4. Os Taliban serão finalmente derrotados. ### 5. Os Patriot Act e similares serão revogados.  6. Fidel Castro e Hugo Chavez reconhecerão a grandeza dos EUA.  7. Francisco Louçã emigrará para os EUA.  8. Bin Laden será finalmente capturado, será julgado num tribunal americano e ilibado por causa de uma &#8220;technicality&#8221;.  9. Miguel Sousa Tavares escreverá um artigo sobre a felicidade que é ter a América de volta ao seio das nações civilizadas.  10. O Congresso atribuirá direito de voto nas eleições americanas a todos os cidadãos do mundo.  11. O planeta começará a arrefecer. Aliás, já se nota. Hoje já está mais frio que ontem.  12. O McDonalds começará a servir alta cozinha francesa.  13. O Irão desistirá de fazer uma bomba nuclear e pedirá a adesão à União Europeia.  14. O líder da Coreia do Norte abdicará de toda a sua tecnologia nuclear e entregará o poder a um governo de transição composto por Sul-Coreanos cuja missão será preparar a reunificação da Coreia. Os Norte-Coreanos crescerão 20 cm passando a ter, em média, a estatura normal de um coreano bem alimentado.  15. Uma investigação do Congresso revelará novas provas sobre a conspiração para destruir o World Trade Center e iniciar guerras no estrangeiro. O Bush será julgado por um tribunal internacional, que o condenará a prestar serviço cívico por crimes contra a humanidade.  16. Saddam Hussein será perdoado e reabilitado iniciando uma nova carreira como conferencista de nível internacional.  17. Os bible belters converter-se-ão ao ateísmo militante e os red necks passarão a frequentar a ópera de Nova Iorque e a participar nas campanhas da GreenPeace.  18. Fidel Castro terá permissão para anexar a Florida.  Grandes esperanças. Grandes esperanças. 1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz. 2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto. (…)Grandes esperanças. Grandes esperanças.</a> <strong> Estratagema n.º1, A generalização</strong> – Levar a proposta do adversário até aos limites do absurdo.
</p>
<p> <a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/voltou-boa-amrica.html">Voltou a Boa América  A esquerda que vê a política internacional como uma espécie de jogo de futebol está eufórica com a vitória da boa América sobre a má. Soma-se à vitória do bom Brasil sobre o mau Brasil, da boa Venezuela sobre a má Venezuela, da boa Bolívia sobre a má Bolívia e à boa prestação da selecção do Scolari no último mundial. Como se diz no futebol, o clube deles só lhes dá alegrias… </a> <strong>Estratagema n.º 29, A paródia</strong> – Quando estamos vencidos começamos a falar de coisas só vagamente relacionadas, de modo a obter algum tipo de humor.
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 3, A reinterpretação</strong> – Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.<br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006_11_05_ablasfemia_archive.html#titleof116299625568600981">Há duas atitudes perante os resultados das eleições americanas. Uma passa por confirmar preconceitos com outros preconceitos. Do género &#8220;eu acredito que a guerra do Iraque é má, logo, os eleitores americanos decidiram punir o Bush por causa da guerra no Iraque&#8221;</a>. Outra atitude passa por usar a informação disponível de forma objectiva para tirar conclusões. 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º30, Argumentum ad verecundiam</strong> – À falta de argumentação lógica, recorre-se a uma suposta autoridade. <br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/agora-que-ningum-pra-paz-universal.html">Agora é que ninguém pára a paz universal GOP officials: Rumsfeld stepping down</a> 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 3, A reinterpretação </strong>– Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.<br /> <a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/afinal-boa-amrica-perdeu.html">Afinal a Boa América perdeu  Lincoln Chafee, pro-choice, pelo casamento entre homossexuais, contra a exploração das reservas de petróleo no Alaska, contra a pena de morte, contra a guerra do Iraque, pelo financiamento federal da investigação em células estaminais, pela discriminação positiva e pelo controlo da posse de armas. É Republicano. Perdeu.</a> 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 25, Exemplum in contrarium</strong> – Encontrar um único exemplo do contrário do que o adversário defende. <br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/new-direction.html<">Então, a Pelosi já sabe como é que se vai resolver aquilo do Iraque?</a> p></p>
<p><strong>Estratagema n.º 38, Argumentum ad personam</strong> – Quando se perde a possibilidade de ter razão, ataca-se por todos os meios o adversário.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: baixa penetração</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 20:33:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[DN: «portugal com baixa penetração de net»]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/penetracao.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/penetracao.jpg" width="85%" border="0" title="Pedro Vieira: penetração [clique para aumentar]"></a><br /><em>DN: «</em>portugal com baixa penetração de net<em>»</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: Madrid é nossa</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 15:23:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Li nos blogues que um grupo de generais pediu há dias a demissão do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, por causa de declarações pró-iberistas deste membro do governo. Mas não sei se sonhei, porque, continuando a percorrer blogues, vi &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/13/andre-belo-madrid-e-nossa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Li nos blogues que um grupo de generais pediu há dias a demissão do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, por causa de declarações pró-iberistas deste membro do governo. Mas não sei se sonhei, porque, continuando a percorrer blogues, vi também que as declarações do ministro, na verdade, já datavam da primavera passada. Será tudo isto verdade? E, se sim, que raio de generais são estes que reagem com quase meio ano de atraso a umas declarações que põem em causa a integridade do nosso nacional mental territorial? Teriam a mesma capacidade de reacção num terreno de batalha? Com generais destes, como poderemos fazer face a um eventual ataque espanhol?
</p>
<p>E a propósito: há quanto tempo é que não atacamos Madrid? Eu tenho a resposta: há exactamente trezentos anos, quatro meses e quinze dias. Desde 28 de Junho de 1706, com a gloriosa entrada do Marquês de Minas na capital castelhana, ao serviço do Arquiduque Carlos de Áustria, durante a guerra de Sucessão de Espanha. Um despautério de tempo. E onde estavam os nossos generais anti-iberistas quando se celebrou a efeméride? Estavam entretidos a <em>não ouvir</em> as declarações do ministro das Obras Públicas.
</p>
<p>Tudo isto é uma vergonha. Madrid é nossa. Os espanhóis são nossos e as espanholas também. Queremos tudo a que temos direito que nos ofusca: o Prado e o Arco e a direcção de actores dos filmes do Almodóvar. Queremos os touros de morte e os huevos dos nuestros hermanos. Quanto ao ministro, não devia ser defenestrado, não. Devia ser obrigado a ir no TGV de Lisboa a Madrid em manobra de diversão ofensiva, com laranjas do Algarve na mão. Enquanto os generais seguiriam a cavalo, à antiga portuguesa, por Badajoz, Alcantara e a estrada de Placencia.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: telegraph</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 19:47:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[daily telegraph corta 133 funcionários. não sabemos em quantas partes]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/telegraph.jpg" alt="Pedro Vieira, Telegraph" width="85%" border="0"><br/><i>daily telegraph corta 133 funcionários. não sabemos em quantas partes</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Mercedes versus Daewoo</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 13:56:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A história é paradigmática. Tão paradigmática que nem se acredita. Uma jovem de liceu, de família abastada e, depreende-se, inesgotavelmente mimada, enraivece-se com uma colega que se recusa a fazer sexo com ela e como vingança promete matar-se. Envia repetidos &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/06/jorge-palinhos-mercedes-versus-daewoo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A história é paradigmática. Tão paradigmática que nem se acredita. Uma jovem de liceu, de família abastada e, depreende-se, inesgotavelmente mimada, enraivece-se com uma colega que se recusa a fazer sexo com ela e como vingança promete matar-se. Envia repetidos SMS à colega para a assustar, o último dos quais com uma contagem decrescente. Depois, enfia-se num dos Mercedes Benz da família – um daqueles carros de luxo gigantescos, com 300 airbags, quilómetros de superfícies deformáveis e a última gritaria em kits de segurança rodoviária – (pormenor anedótico: a jovem não se esquece de pôr o cinto de segurança) e sai da garagem para se ir atirar&#8230; por uma ribanceira abaixo? Para diante de um comboio? Para debaixo das rodas de um colossal camião de carga? Nada disso. A jovem condutora intrépida, para executar o seu premeditado suicídio próprio, não tem melhor que lançar o seu avantajado e pesadíssimo Mercedes contra um minúsculo Daewoo, daqueles com solidez de casca de noz, leveza de pena e equipamento de segurança mínimo, conduzido por uma senhora de proveniência mexicana, mãe de três crianças menores, uma das quais seguia com ela no carro.
</p>
<p>O resultado, até o mais acérrimo ignorante das leis da física o pode prever: a jovem de hormonas em ebulição, no meio de muitos apitos, avisos luminosos e airbags insuflados, fica com algumas nódoas negras, a mãe de família morre e a sua filha de seis anos é brutalmente ferida, provavelmente com sequelas para o resto da vida.
</p>
<p>E agora? Se o caso é bizarro, as consequências são rotineiras: a família rica da adolescente contratou um bom advogado para impedir que a filha acabe na cadeia e esta terá apanhado uma reprimenda e uma proibição de sair à noite durante as próximas semanas; a família mexicana vê-se a braços com a perda de um dos progenitores e a perspectiva de contas médicas infindáveis com a filha incapacitada para o resto da vida, possibilidade atenuada com a esmola que a família rica certamente não lhe deixará de dar, nem que seja para calar a própria consciência.
</p>
<p>Como eu disse, a história é tão paradigmática que milhentas conclusões se podem tirar. Mas uma única vou mencionar aqui: a de que atenuar as desigualdades económicas é também uma forma de proteger os inocentes da imbecilidade alheia.
</p>
<p>Fontes: <br />http://www.msnbc.msn.com/id/15349057/<br />http://beautyandthebeltway.blogspot.com/search/label/Ranting<br />http://crimeblog.us/?p=175</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: &#8220;al jazeera já tem versão inglesa&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 02:24:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/aljazeera.jpg" border="0" width="85%"></p>]]></content:encoded>
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		<title>João Paulo Cotrim: Cidades entrevadas</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Nov 2006 09:09:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lisboa está de cama e o Porto teve um acidente: está de coma. Rui Rio, o que gosta de carros, mudou as placas com os nomes das ruas da Invicta. Foi o seu maior gesto, encher as esquinas com placas &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/03/joao-paulo-cotrim-cidades-entrevadas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Lisboa está de cama e o Porto teve um acidente: está de coma. Rui Rio, o que gosta de carros, mudou as placas com os nomes das ruas da Invicta. Foi o seu maior gesto, encher as esquinas com placas verdes: Rua da Alegria anuncia-se a cada cem metros desde cá de baixo até lá ao alto. De vistas largas, Rio pouco mais precisou de fazer. Pode até tentar vender um pulmão, que às vezes a cultura respira-se. O Rivoli é só mais um acidente que faz a cidade coxear. A cultura, esse «desporto das classes médias», é praticado pelos privados desde que seja negócio, essa ginástica interclassista. Erro: não é já a cultura que interessa, sendo disciplina cansativa. É de lazer que o povo precisa: uma imensa sardinha, o pimba de abertura fácil, anedotas da treta e por aí fora. Sem isso, garantem fontes seguríssimas e muito próximas, o Rivoli não será viável nem visível. Rio devia montar empresa, quem sabe municipal, para encher de placas todas as ruas do país. Todas, mesmo as que estão por vir. Na mais visionária das atitudes podia repetir «todos os nomes»: Rua Firmeza seria popular no lugar de Teimosia ou Cegueira. Substituiria com propriedade as Ruas do Imaginário que poluem outros sítios. Em Lisboa, a confusão é outra. Carmona, o que gosta de motas, olhou para trás e virou estátua de sal. O sangue deixou de bombear: não se compram livros para as bibliotecas há anos, que deixaram de ser centros de cultura para se tornarem cemitérios, o São Jorge é visto como futuro centro de congressos, os orçamentos desapareceram, exposições anunciadas desaparecem do mapa, morrem festivais, fogem funcionários, não se ouve uma palavra acerca de orientações globais, uma explicação, só se fala de cinema&#8230; mas em inglês, que é melhor para a imagem. Cinema? É um teatro triste gorduroso a vida política de uma coligação partida, inerte, desesperada. A oposição não opõe grande coisa, não faz as perguntas certas, não aponta o nepotismo, a corrupção. A Baixa agacha-se, os interesses imobiliários aguardam o momento certo: agora mesmo. Estava na altura de uma outra cidade surgir, por exemplo à noite, uma cidade de costas voltadas para o seu (des)governo. Não haverá algures espontaneidade ou uma ideia que nos livre deste pesado nevoeiro?</p>
<p>JOÃO PAULO COTRIM</p>]]></content:encoded>
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		<title>Filipe Moura:Lula de novo com a força do povo</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Nov 2006 05:07:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A vitória esmagadora de Lula na segunda volta das presidenciais brasileiras é verdadeiramente notável. Conseguiu a proeza de &#8220;roubar&#8221; votos ao seu adversário directo, que teve menos votos na segunda volta do que na primeira! Se na primeira volta foi &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/03/filipe-mouralula-de-novo-com-a-forca-do-povo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A vitória esmagadora de Lula na segunda volta das presidenciais brasileiras é verdadeiramente notável. Conseguiu a proeza de &#8220;roubar&#8221; votos ao seu adversário directo, que teve menos votos na segunda volta do que na primeira! Se na primeira volta foi penalizado pela atitude sobranceira de fugir aos debates, a partir de então finalmente entrou em campanha e não deu a mínima hipótese ao cinzento e beato Alckmin. É inegável o mérito do presidente-operário, mérito tanto mais notável se considerarmos as condições em que decorreu a campanha e a posição da comunicação social.</p>
<p>Com efeito, desde que surgiram os primeiros sinais do &#8220;mensalão&#8221; começou uma campanha inédita contra um presidente que, digam o que disserem, nunca foi directamente implicado nos escândalos que foram aparecendo. O escândalo mais recente, o dossiê contra José Serra, é um bom exemplo: Lula não tinha nada a beneficiar com ele. O seu partido, sim, numa eleição estadual. Os membros da cúpula do PT não conseguiram distinguir-se dos restantes políticos corruptos brasileiros que, infelizmente, estão em todos os partidos. É o modo como o Brasil funciona: como afirmaram Wagner Tiso e Paulo Betti, para fazer política a sério tem de se jogar sujo, mesmo se com as melhores intenções. Se houve domínio em que o Brasil não melhorou com Lula foi nos índices de corrupção. Mas já era assim, e continuaria a ser, com os adversários de Lula. E com Lula aumentou substancialmente o combate à corrupção. E o país melhorou em muitos outros domínios, tornando-se menos desigual e mais justo.</p>
<p>Não foi o &#8220;mensalão&#8221; que deu origem à campanha contra Lula na comunicação social. Apenas a ampliou, mas esta já era bem patente na &#8220;Veja&#8221; ou na &#8220;Folha de São Paulo&#8221;. E também na comunicação social estrangeira. Recordo-me do episódio que tanto deu que falar da acusação do &#8220;The New York Times&#8221; de que Lula bebia demais (sob que parâmetros?), e a repercussão que isso teve em Portugal. Refiro-me a quando <a target="_blank" href="http://origemdasespecies.blogspot.com/">Francisco José Viegas</a>, nos intervalos entre as receitas triviais e a crítica (ironicamente) a cervejas, a maior parte das vezes de que só ele ouvira falar, nos presenteou nas páginas da então &#8220;Grande Reportagem&#8221; com uma recolha nada selectiva de charges dedicadas a Lula e aos seu suposto consumo alcoólico. Só que o que no Brasil é um saudável exercício de crítica, quando publicado noutro país pode ser uma ofensa a um Chefe de Estado. Uma coisa seria publicar uma charge a título de exemplo; a outra foi ter publicado uma recolha exaustiva dessas charges. Uma outra coisa ainda seria ter publicado essas charges num blogue pessoal como a Origem das Espécies; outra completamente diferente foi publicá-las nas páginas da &#8220;Grande Reportagem&#8221; como ilustração de uma notícia sobre a polémica com o &#8220;The New York Times&#8221;. Mas para dizer mal de Lula, como se vê, vale tudo: confundir boato ou zombaria com notícia, confundir notícia com opinião…Conforme afirmou Chico Buarque numa entrevista à &#8220;Folha de São Paulo&#8221;, « o preconceito de classe contra o Lula continua existindo &#8211;e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: &#8220;Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?&#8221;. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! &#8211;até assassino eu já ouvi. (&#8230;) Como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. &#8220;Agora sai já daí, vagabundo!&#8221;. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. &#8220;Agora volta pra senzala!&#8221;.»<br />
O notável é que Lula sobrevive a isso tudo. Resiste a todos os ataques. Se não foi eleito à primeira volta, foi por erros próprios e do seu partido, e não propriamente por causa dos muitos ataques sofridos. O mais curioso é que a certa altura parecia que os ataques eram contraproducentes, pois só o fortaleciam: quanto mais Lula era atacado, mais subia nas sondagens e na taxa de aprovação. O povo via que se tratava de uma campanha, e identificava-se com Lula: era um dos seus na Presidência. O carisma e a genuinidade de Lula garantiam o resto. Há outros exemplos de políticos assim, que parecem mais fortes que os fazedores de opinião. Invencíveis eles não serão, mas será que poderão ser vencidos através da tradicional influência dos comentadores políticos? Pessoalmente agrada-me ver que é possível um político ganhar eleições livres contra a corrente mediática, tendo a maioria da comunicação social vista como &#8220;mais influente&#8221; contra si. Lula deu esse exemplo e mostrou que Diogo Mainardi ou Arnaldo Jabor não mandam no Brasil. A sua reeleição, como bem diz o seu slogan, demonstra a força do povo.</p>
<p><a target="_blank" href="http://avesso-do-avesso.blogspot.com/">FILIPE MOURA</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: O Ocidente converteu-se em Oriente</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 15:55:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/andre-belo-o-ocidente-converteu-se-em-oriente/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas relíquias. São &#8220;legados&#8221;, &#8220;influências&#8221;, &#8220;técnicas agrícolas&#8221;, coisas que, na prática, não nos dizem grande coisa, para lá dos cacos e dos utensílios, excepto a uns poucos estudiosos. Sabemos também que nos deixaram palavras e até sabemos quais são, mas não sabemos de que maneira é que essas palavras foram nossas e foram deles até ao ponto em que o que é &#8220;nosso&#8221; e o que é &#8220;deles&#8221; deixa de fazer sentido. Porque é assim, sem fora nem dentro, que as palavras se partilham entre os povos.
</p>
<p>Há no entanto, ainda ao nível das palavras, uma manifestação muito concreta e muito visível, muito mais concreta do que essa presença em retirada dos &#8220;artefactos&#8221;. Algo que se transmitiu como um discurso e que ficou sendo &#8220;nosso&#8221; não como um &#8220;legado&#8221; exterior, mas por dentro, na estrutura concreta das coisas que chegaram até nós. Foi a poesia oral árabe, com as suas formas (as &#8220;moaxás&#8221; e as &#8220;jaryas&#8221;) que, de algum modo impalpável mas seguro, se comunicaram à tradição poética galego-portuguesa das cantigas de amigo e à castelhana dos <em>villancicos</em>.
</p>
<p>A referida &#8220;moaxá&#8221; ou &#8220;muwassaha&#8221; (ler com dois chapéus invertidos por cima dos &#8220;s&#8221; e um ponto por baixo do &#8220;h&#8221;) é um dos géneros da poesia estrófica árabe que se desenvolveu no Ocidente do mundo árabe (isto é, na Península Ibérica). Aí criou raízes e daí espalhou-se para o Oriente. Sobre ela escreveu o poeta egípcio Ibn Sana al-Mulk (nascido por volta do ano 550 da Hégira &#8211; 1155 do calendário cristão) o ouro puro das palavras que se seguem:
</p>
<blockquote><p>[...] Entre as coisas que os antigos deixaram por descobrir aos modernos — coisas em que as gentes de agora superaram as de antanho, em que os habitantes do Ocidente venceram os do Oriente, e em que os [velhos] poetas &#8220;deixaram [aos seus sucessores]  algo que remendar — figuram as muwassahas, sal da época, Babel da magia, âmbar de Sihr, aloé da Índia, vinho de Qufs, ouro puro do Algarve, patrono de entendimentos, balança de inteligências, quinta-essência suprema, posto que ao mesmo tempo deleitam e emocionam, incitam [à imitação] e fazem desesperar [de lográ-la], seduzem e atraem, libertam [de cuidados] e ocupam [o ócio], acompanham e afugentam. São ditos festivos e graciosos, que são toda a seriedade, e seriedade que parece dito festivo e gracioso; verso que o olho tomaria por prosa e prosa que o gosto diz ser poesia.
</p>
<p>Graças a elas, o Ocidente converteu-se em Oriente, pois por aquele horizonte surgiram e aquele ar iluminaram, fazendo com que os habitantes das terras ocidentais se tornassem nos mais ricos dos homens, ao tornarem-se donos deste tesouro que o destino lhes reservou e desta mina antes desconhecida da humanidade.
</p>
<p>Na flor da minha vida e nos meus verdes anos a elas me liguei, amei-as com paixão, ouvi-as amiúde, aprendi-as de cor, estudei-as a fundo, penetrei os seus segredos, [...] revolvi-as por dentro e por fora, abracei-as suas virgens e as suas matronas, nadei atrás das suas pérolas escondidas e, não contente com as notícias sabidas, internei-me nas suas ocultas dobras. [...]
</p>
<p>Ibn Saba al-Mulk, <em>Dar at-tiraz</em>, citado por Emilio García Gomez na revista <em>Al-Andaluz</em> (1962), traduzido por Aida Fernanda Dias na <em>História Crítica da Literatura Portuguesa</em> (dir. Carlos Reis) da ed. Verbo, vol. I, 1998, p. 153-154.</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Histórias mesmo curtas</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 00:44:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[ficção-estrangeira]]></category>
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		<description><![CDATA[Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebé. Nunca usados”, e chamou-lhe a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos (por razões do público-alvo da revista, maioritariamente ligados &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/jorge-palinhos-historias-mesmo-curtas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebé. Nunca usados”, e chamou-lhe a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos (por razões do público-alvo da revista, maioritariamente ligados à ficção científica) a escreverem contos igualmente curtos, e inspirou-me a mim a traduzir alguns dos que gostei mais, com as únicas restrições de ser fiel ao espírito da história e fazê-lo também em 6 palavras. Razão para isso? Nenhuma além do gosto pessoal. Ou para os mais pensantes entre nós, porque a concisão é o elemento mais desejado da comunicação hoje, e eu estava curioso para ver como funcionaria exemplo tão extremo.<br />Aqui estão elas:
</p>
<p>Computador, nós trouxemos pilhas? Computador? Computador?<br />- Eileen Gunn
</p>
<p>Camisa tirada à pressa. Cabeça não.<br />- Joss Whedon
</p>
<p>do tempo. Inesperadamente, inventara uma máquina <br />- Alan Moore
</p>
<p>Eu desejei-o. Eu tive-o. Que merda.<br />- Margaret Atwood
</p>
<p>O pénis dele rasgou-se; ele engravidou!<br />- Rudy Rucker
</p>
<p>A Internet acordou? Estupi… Unknown error.<br />- Charles Stross
</p>
<p>Com as mãos sangrentas, digo adeus.<br />- Frank Miller
</p>
<p>Dia perdido. Vida perdida. A sobremesa.<br />- Steven Meretzky
</p>
<p>Demasiado caro continuar a ser humano.<br />- Bruce Sterling
</p>
<p>Atrás de ti! Corre antes que<br />- Rockne S. O&#8217;Bannon
</p>
<p>Morri. E tive saudades tuas. Beijas-me?<br />- Neil Gaiman
</p>
<p>O Kirby nunca tinha comido unhas.<br />- Kevin Smith
</p>
<p>Para salvar a humanidade, morreu outra vez.<br />- Ben Bova
</p>
<p>“Não acreditava que disparara sobre mim.&#8221;<br />- Howard Chaykin
</p>
<p>Coração partido, 45, desejo conhecer mutilado.<br />- Mark Millar
</p>
<p>Tic tac, tic tac, tic tic.<br />- Neal Stephenson
</p>
<p>Epitáfio: Não o devia ter alimentado.<br />- Brian Herbert
</p>
<p>Pensei que tinha razão. Não tinha.<br />- Graeme Gibson
</p>
<p>Por favor, é tudo. Eu juro.<br />- Orson Scott Card
</p>
<p>Isto serve? – perguntou o escritor preguiçoso.<br />- Ken MacLeod
</p>
<p>No começo a Palavra já existia<br />- Gregory Maguire
</p>
<p>Escândalo sexual mediático. Molusco gigante suspeito.<br />- Margaret Atwood
</p>
<p>Leia: &#8220;É teu filho.&#8221; Luke: &#8220;Ups&#8230;&#8221;<br />- Steven Meretzky
</p>
<p>Estas histórias no original, e outras, estão aqui: <a href='http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html'>http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html</a>
</p>
<p>Que conclusão tirar? Não serão muitas, mas nota-se que a concisão em extremo tem a necessidade de partir do que o leitor já conhece, e não ir mais além. Isto porque a brevidade, tanto na ficção como no comentário ou na notícia, pressupõe retirar do texto todas as<em> nuances</em> e elementos estranhos que necessitem de explicação adicional. E sem corpos estranhos, o texto torna-se mais do mesmo, a confirmação do que já se conhece. Por isso, quem defende mais brevidade na comunicação, tem de considerar se não está a defender uma informação mais conformista e obediente ao mundo que temos.
</p>
<p>P.S. – Quem se interessar por histórias curtas (talvez não tão curtas), tem uma boa fonte aqui: <a href='http://www.minguante.com'>http://www.minguante.com</a></p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Pedro Vieira: a semana de media num detalhe</title>
		<link>http://5dias.net/2006/10/23/pedro-vieira-a-semana-de-media-num-detalhe/</link>
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		<pubDate>Mon, 23 Oct 2006 22:59:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[portugueses apostam no boom mediático angolano, titulava assim o Público há dias. Veremos se em Angola continuará a verificar-se uma situação de democracia como que em absorção mas ao contrário. A julgar pelo comportamento dos luso-empresários do costume não antevejo &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/23/pedro-vieira-a-semana-de-media-num-detalhe/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/dossantoscopy.jpg" title="ilustração Pedro Vieira. clique para aumentar" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/dossantoscopy.jpg" width="85%" border="0"></a>
</p>
<p>portugueses apostam no boom mediático angolano, titulava assim o Público há dias. Veremos se em Angola continuará a verificar-se uma situação de democracia como que em absorção mas ao contrário. A julgar pelo comportamento dos luso-empresários do costume não antevejo grandes melhoras.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Outono, esse travesti do Inverno</title>
		<link>http://5dias.net/2006/10/20/outono-esse-travesti-do-inverno/</link>
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		<pubDate>Fri, 20 Oct 2006 10:32:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[Admito que a confusão dos dias me faz hesitar. Ao passar na cidade, em qualquer cidade, na minha cidade, são folhas que caem ou árvores? São árvores que cospem. Agacho-me, a mais triste das alegres posições de antigo regime, e &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/20/outono-esse-travesti-do-inverno/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img width="400" height="280" id="image256" alt="mamadu.jpg" src="http://5dias.net/wp-content/uploads/2006/10/mamadu.jpg" /></p>
<p>Admito que a confusão dos dias me faz hesitar. Ao passar na cidade, em qualquer cidade, na minha cidade, são folhas que caem ou árvores? São árvores que cospem. Agacho-me, a mais triste das alegres posições de antigo regime, e apanho uma folha. Todos os meus problemas se resolvem, daquele mais íntimo como um calo barbudo ao mais social o sorriso de dentição amarelada. Por momentos vivo na Pontinha, mora na Quinta da Marinha. Mamadu Soares, mestre, astrólogo, vidente e confidente, sussurra-me ao ouvido um telemóvel e promete mundos e fundos. Nos fundos das minhas calças vive um mundo, garanto a quem não saiba, prenhe de pedintes que batem palmas com os pés descalços. Juro, prometo, ou pelo menos insisto. Para começo de conversa confesso a minha vontade de desviver, modo macio de suicídio. Aspiro à limpeza de interruptor, um clique que evitasse para sempre aquela dor que é não menor de ver nascer macio o dia. Macio porque o dia trará o novo pulsar do coração, um riso explosivo, o deslizar do corpo jovem, a dúvida doce, enfim, uma surpresa que se confirma. E nessa está o Inverno das coisas. Agachei-me e apanhei a folha, que não será nunca para o trabalho do meu filho acerca da chegada do Outono. Olhai! Vede! É a promessa da solução. Está assinado Soares, mas Mamadu não quererá dizer Sócrates? Gostava de poder afirmar assim uma proposta, uma venda, uma proposta de venda acerca do mundo pronunciando o meu apelido. O meu apelido diz Lisboa, lamento os que vivem fora. E é em Lisboa que vivem as supermagias, notem o texto, que afirma como sede a Rua da Boavista. Bendito mamundo onde se apanham miradouros agachados! A preto e branco, que o serviço é poderoso, aceitam qualquer das bolas disparadas do lado de lá da rede. Há sempre um lado de lá as estações, das coisas, da vida. Agora hesito, eu que gosto de ler nas linhas, esta folha não possui veios, as aspirações sadomaso: prenda a si quem desejar. Mas não é isso que faz o desejo, prender a meus pés? Amarre a si os desejáveis, mas afaste os outros. Como? Com as supermagias, notem o texto, porra, que está lá tudo: belo e consolação. Saúde, bebo a isso; Negócios, cago nisso; Exames, só à próstata; Jogo, na boa; Doenças Espirituais, desde que nuas e despidas; Impotência Sexual, nos dias pares; Vícios e Álcool, ao pequeno almoço; Droga, porque não, Casas Assombradas pelo desejo; Maus olhados e mal de inveja, política não! Máxima garantia e trabalhos à distância, eis a cura única das doenças que se apanham no chão. Só um Grande Cientista Pessoalmente nos resolve este problema das estações sem saída: o Outono apresenta-se pessoalmente como se fosse o Inverno, chuvoso e problemático. A mim, que me falha a filosofia, perco a resposta ao debruçar-me . Felizmente só tenho que pagar depois de resultar. As moedas retinem na calçada. Chovem ratazanas e penso em desejo. Cuspo, feliz como o cinzento.</p>
<p>JOÃO PAULO COTRIM</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: quebra cabeças</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 22:59:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[acha para a fogueira das divindades à moda da imprensa dinamarquesa, com saída cínica pela esquerda baixa sem mostrar a verdadeira face do profeta]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mao_me.jpg" title="Pedro Vieira, 2006 (clique para aumentar)" target="blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mao_me.jpg" border="0" width="75%"></a><br /><em>acha para a fogueira das divindades à moda da imprensa dinamarquesa, com saída cínica pela esquerda baixa sem mostrar a verdadeira face do profeta</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: &#8220;Não negarás o genocídio&#8221; ou, &#8220;Não entrarás na União Europeia&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 15:32:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A aprovação na semana passada, pelo Parlamento francês, de uma lei criminalizando o genocídio arménio pelos Turcos Otomanos será talvez uma boa noticia para os arménios de França. Já é muito duvidoso que a causa arménia em geral ganhe muito &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/andre-belo-nao-negaras-o-genocidio-ou-nao-entraras-na-uniao-europeia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A aprovação na semana passada, pelo Parlamento francês, de uma lei criminalizando o genocídio arménio pelos Turcos Otomanos será talvez uma boa noticia para os arménios de França. Já é muito duvidoso que a causa arménia em geral ganhe muito com ela. Em contrapartida, é uma péssima noticia para os historiadores franceses. Na sequência de outras criminalizaçoes (sobre a escravatura) ou recomendações (sobre o papel positivo da colonizaçao francesa, entretanto anulada) em forma de lei, o novo texto (que precisa de ser ainda aprovado pelo Senado em segunda leitura) coloca uma fundamental reserva à liberdade de investigação. Na altura em que eu, historiador, entrar no arquivo para começar a minha investigaçao sobre a questao, terei deixado (como aprendi na universidade) os meus preconceitos à porta, mas já irei com um mandamento moral terrivel na cabeça. Não negarás o genocidio, sob pena de milhares de euros de multa ou mesmo prisão.
</p>
<p>O problema, como em toda a censura, é a porta da interpretação que nunca se fecha. Onde começa um genocídio? A partir de quantos mortos e de que intenções verificáveis? Onde começa a negação do genocídio? E porque não legislar sobre outros genocídios? E porque parar nos genocídios? E se eu negar os piores crimes do estalinismo, não é negacionismo?
</p>
<p>Por trás da promoção do reconhecimento, para alguns eventualmente bem intencionado, de horrorosos crimes, a questão de fundo aqui  &#8211; como notou Pierre Nora &#8211; é bem outra. Trata-se de colocar mais obstáculos à entrada da Turquia na União Europeia. Com esta lei, o objectivo é claro: a busca do confronto mediático, a provocação do nacionalismo turco. Pelo caminho, cortam-se as pontes de um diálogo, que já tinha começado, entre moderados turcos e arménios sobre um passado doloroso comum. Os deputados franceses (começando pelos socialistas, que tiveram a iniciativa da lei), esses, já decidiram: alimentando o racismo larvar, não querem a Turquia na Europa e utilizarão todos os pretextos, mesmo os aparentemente mais justos, para o conseguirem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A utopia viva</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 13:56:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há 50 anos, a 8 de Outubro de 1956, numa cidadezinha dos arredores de Mineápolis, nos E.U.A, abriu o primeiro centro comercial moderno. O conceito de espaços comerciais fechados não era novidade – afinal, o maior de todos, o Grande &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/jorge-palinhos-a-utopia-viva/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://www.metrotown.info/img--site/mall-bby-crystal/crystal-mall-SEcorner6c.jpg" width="70%" border="0"></p>
</p>
<p>Há 50 anos, a 8 de Outubro de 1956, numa cidadezinha dos arredores de Mineápolis, nos E.U.A, abriu o primeiro centro comercial moderno.
</p>
<p>O conceito de espaços comerciais fechados não era novidade – afinal, o maior de todos, o Grande Bazar de Istambul, foi construído no séc. XV, com mais de 4000 lojas a ocuparem quase 60 ruas. Mas, até meados do século XX, estes espaços eram abertos ao exterior e à cidade que os envolvia, com grandiosos pórticos de acesso para peões.
</p>
<p>Com a chegada do automóvel nasceram os subúrbios citadinos. E atrás dos subúrbios vieram os centros comerciais como os conhecemos hoje.
</p>
<p>O primeiro foi criado por Victor Gruen, um arquitecto judeu austríaco, de simpatias socialistas, que fugiu para os E.U.A. quando a Áustria foi invadida por Hitler.<br />Inspirado na Galleria Vittorio Emanuele, uma galeria comercial oitocentista de Milão, desenhou então o Centro Comercial de Southdale, modelo de todos os centros comerciais posteriores.
</p>
<p>A concepção destes centros é notável pelo seu isolamento e detalhe.
</p>
<p>Tem clarabóias para receber a luz do sol e cavernas subterrâneas para acolher os veículos dos visitantes, mas as portas são quase indistinguíveis da parede e o centro vive sobre si próprio. No seu interior, tudo é cuidadosamente planeado. A maioria dos centros comerciais tem só dois pisos, para que a força da gravidade não torne o cliente a renitente a subir a um terceiro ou quarto. Há vistas amplas entre pisos, para que um comprador no piso de baixo possa saber que lojas tem por cima da sua cabeça. As clarabóias que recebem o sol têm também pequenas luzes que se acendem ao crepúsculo para evitar que o visitante do centro se aperceba que está a ficar noite e comece a pensar que talvez seja hora de ir para casa, o ar condicionado mantém uma temperatura amena, as lojas estão dispostas por complementaridade ou tipo de produto: se um cliente comprou um fato caro numa loja, ao sair da loja provavelmente verá que quase ao lado tem também uma sapataria de luxo, para poder complementar o fato, os prontos-a-vestir estão aglomerados, as lojas para crianças também, as lojas de electrodomésticos também, a zona de restauração está convenientemente situada longe de tudo (para que o cheiro a caril não agrida as narinas da senhora que experimenta um vestido Prada) excepto dos cinemas, para que o cliente possa ficar com ideias onde digerir o jantar.
</p>
<p>Mais interessante é que as chamadas lojas-âncora – aquelas que motivam o cliente a visitar o centro comercial – estão sempre afastadas entre si, com numerosas lojas menos importantes de entremeio, para incentivar que o cliente as visite e nelas compre, num terno e inesperado momento de capitalismo cooperativo.
</p>
<p>Porque, sim, o centro comercial moderno é a verdadeira, viva e resistente utopia capitalista – um local de permanente dia e eterna primavera, onde se pode passar o resto da vida em infinitas compras, ao abrigo das agruras de clima, da rotina e da realidade, em saudável cooperação entre vendedores.
</p>
<p>E, tudo isto, graças a um entusiástico socialista.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Grandito de Portugal</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Oct 2006 23:47:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/salazar.jpg" target="blank" title="Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/salazar.jpg" width="85%"></a><br/><i>Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: os filhos de Putin</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 02:14:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/putin.jpg"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/putin.jpg" width="85%" title="Pedro Vieira: os filhos de Putin [clique para aumentar]"></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A América vulnerável</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 01:54:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/09/jorge-palinhos-a-america-vulneravel/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://www.hollywoodreporter.com/hollywoodreporter/photos/2006/08/world_trade_center366x156.jpg" alt="Oliver Stone, World Trade Center" width="55%"></p>
<p>World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O atentado é tratado de forma tão elíptica e recatada, e as suas consequências de forma tão restrita e intimista, que um extraterrestre que chegasse neste momento à Terra e assistisse ao filme para tentar perceber o que se passou, não lhe atribuiria mais importância que a um incidente local.</p>
<p>Curiosamente, é justamente essa contenção que acaba por dar força emocional ao filme, permitindo-lhe ziguezaguear pelo terreno minado do melodrama televisivo, para atingir o patamar de um filme de alguma intensidade emocional.</p>
<p>Politicamente, não é um filme neutro e agradará a muitos conservadores e apologistas da América de George W. Bush. Porém, este mesmo espectador, embalado pelos valores de família e defesa da invasão do Iraque, talvez não se aperceba da estranha caracterização que o filme faz do poder da América, dos americanos e das instituições americanas.</p>
<p>O enredo é curto: A 11 de Setembro de 2001 um grupo de polícias de Nova Iorque entra nas Torres Gémeas para tentar salvar vítimas, mas ficam soterrados sob escombros quando as torres desabam.</p>
<p>Um filme do género catástrofe, portanto, mas ao contrário dos seus filmes aparentados, o World Trade Center prima pela ausência de um herói, americano, bem entendido. Antes, o que sobressai nesta obra é a falta de preparação das autoridades americanas. Os polícias são levados para o local da catástrofe e pouco mais fazem que olhar horrorizados enquanto corpos tombam das torres. Nenhum deles parece fazer a mínima ideia do que deve fazer, nem tão pouco sabe o que se passa. Os seus líderes pouco mais preparados ou sabedores parecem, liderando mais por palpite e ouvir dizer que por autoridade. E nenhum exibe especial impulso para o heroísmo. Quando o sargento John McLoughlin pede voluntários entre os seus homens para entrar nas Torres e tentar salvar vítimas, apenas dois ou três se oferecem e, segundo diz mais tarde um dos voluntários, William Jimeno, só o fazem porque a recusa os faria sentir mal.</p>
<p>Já o próprio salvamento dos protagonistas é feito por um grupo muito heterogéneo e assaz subequipado de salvadores, alguns deles heróis de ocasião, mais motivados pela busca de auto-redenção – como é o caso da personagem de um paramédico – que por patriotismo ou solidariedade.<br />
E todo o salvamento é baseado no improviso, entrecortado de hesitações e de medo, por parte dos próprios salvadores, de se tornarem vítimas também.</p>
<p>Não importa se estes aspectos se baseiam em factos verídicos ou não, pois tornaram-se ficção a partir do momento em que foram escritos num guião e interpretados por actores, mas é notável a distância que as separa das imagens de hiperpotência  da América que os <em>media</em> nos vendem e das imagens de justiça infinita e heroísmo que George W. Bush proclama nos seus discursos.</p>
<p>Mas ao contrário dos discursos de George W. Bush, talvez seja esta mesma imagem de incompetência, ignorância, hesitação, cobardia, improviso e fragilidade que venha salvar a imagem da América perante o mundo e lhe dê uma face profundamente humana.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Rendez-vous</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Oct 2006 08:01:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O vulto chegou furtivo como só os vultos sabem. Bateu na porta, evitando o toque demasiado sonoro da campainha. Era esperado, pois nem um segundo passou antes da porta lhe dar entrada na casa pouco iluminada. O vulto levava consigo &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/06/rendez-vous/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O vulto chegou furtivo como só os vultos sabem. Bateu na porta, evitando o toque demasiado sonoro da campainha. Era esperado, pois nem um segundo passou antes da porta lhe dar entrada na casa pouco iluminada. O vulto levava consigo um pequeno saco negro. Agora que o descrevo vejo outro vulto nocturno como só os vultos sabem ser. Repete os gestos do anterior, acompanhado também por um semelhante saco negro, que brilha de tão opaco. Eis outro vulto, que coincide com mais outro, formando um elegante cortejo de encapuzados que, pelos gestos, não é grande risco afirmar como feminino.<br />
A descrição passa doravante a ser mais justa. Um dos vultos que chegava apanhou-me distraído na observação e estou agora prisioneiro de um grupo que cresce, tumefacto, a cada minuto. A minha intuição masculina diz-me que algo de macabro se prepara. O cenário interior da casa cruza o perfume parado de um Museu de História Natural com a simplicidade higiénica de um hospital. Visto apenas as cordas com que me prenderam. Escrevo de cabeça estas palavras, para não me deixar tomar pelo medo. Assinalo as diferentes origens das mulheres, com predominância asiática, acho que tailandesa. Uma delas, talvez a dona da casa, dá início ao ritual exortando à abertura dos sacos negros, opacos e palpitantes. Em macabra coreografia, as mulheres que foram vultos retiram e colocam sobre uma mesa os pénis: tingidos de sangue, assustadores na sua tristeza inerte. Reparo no brilho das lâminas e desmaio.</p>
<p><strong>JOÃO PAULO COTRIM</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>O blogueiro desasado</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 21:14:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje foram os convidados a salvar a honra do convento. Temos logo aqui abaixo um belo texto do Jorge Palinhos sobre o tema central das segundas-feiras, os media. O Pedro Vieira contribuiu com um post radioactivo. O André Belo fez &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/o-blogueiro-desasado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje foram os convidados a salvar a honra do convento. Temos logo aqui abaixo <a href="http://5dias.net/2006/10/02/jorge-palinhos-blogs-e-traseiros/" target="_self">um belo texto do Jorge Palinhos sobre o tema central das segundas-feiras</a>, os <em>media</em>. O <a href="http://5dias.net/2006/10/02/20061002-pedro-vieira-olhos-nos-olhos/" target="_self">Pedro Vieira contribuiu com um post radioactivo</a>. O <a href="http://5dias.net/2006/10/02/andre-belo-de-como-me-tornei-anarquista/" target="_self">André Belo fez um balanço político-pessoal</a> (e uma coisa é a outra bem mais do que normalmente admitiremos) que muita gente assinará certamente por baixo. E eu — nada — nada de nada. Virão outras segundas-feira de chuva como esta, boas para ficar em casa a blogar. O 5dias ainda está só a aquecer. Resta-me agradecer ao André, ao Pedro e ao Jorge e prometer ser um anfitrião mais cooperante nas muitas semanas em que, espero, contaremos com as ideias deles.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Blogs e Traseiros</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 19:59:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como muitas pessoas – duzentas e tal mil, segundo a sua inchada direcção editorial &#8211; comprei o novo semanário Sol. Passei-lhe os olhos rapidamente e formei uma opinião. Depois, liguei-me à internet e fui à procura de comentários nos blogs &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/jorge-palinhos-blogs-e-traseiros/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como muitas pessoas – duzentas e tal mil, segundo a sua inchada direcção editorial &#8211; comprei o novo semanário <em>Sol</em>. Passei-lhe os olhos rapidamente e formei uma opinião. Depois, liguei-me à <em>internet</em> e fui à procura de comentários nos <em>blogs</em> sobre o mesmo.<br />Tal procedimento não é novidade para mim e, desconfio, nem se quer me é específico. Creio que cada vez mais gente, confrontada com uma novidade ou evento, digita <a href='%22'>http://blogseach.google.com</a> em busca de opiniões sobre o tópico que lhe interessa.<br />Opiniões, digo, e não informações. É certo que os meios de informação portugueses são poucos, lentos e limitados . Mas desde sempre os <em>mass media</em> sentiram a necessidade de integrar secções de opinião, mesmo antes de surgir o dito jornalismo isento. É como se houvesse em cada humano uma necessidade incontornável de confrontar ou alinhar as suas opiniões com as opiniões de outros.
</p>
<p>Os americanos têm um dito do género: “As opiniões são como traseiros, cada um tem o seu e ninguém gosta de olhar para o dos outros”. Mas este aforismo parece-me falacioso, não só do ponto de vista sexual, mas também do ponto de vista geral. Basta ver a popularidade de que colunistas de jornal, comentadores de televisão e <em>bloggers</em> parecem gozar.
</p>
<p>E porquê esta necessidade de opinião alheia? Porque uma opinião isolada não existe. Só no confronto de opiniões diversas e similares é possível estabelecer contextos, campos e narrativas: este defende isto porque acredita nisto, aquele defende aquilo porque acredita naquilo, eu defendo isto, que está a meio caminho entre este e aquele, porque acredito nisto e naquilo, e ao acreditar nisto devo ser isto, e se sou isto tenho de fazer isto, isto e isto. Esta necessidade de identificação explica em grande parte a recepção emocional que os textos de opinião geram: as descargas de adrenalina geradas pela indignação que sentimos diante de uma opinião que confronta e mina a nossa, o prazer reconfortante de uma defesa lógica e argumentada de uma posição que partilhamos, embora não soubéssemos explicar porquê.
</p>
<p>E é neste processo de constante reconfiguração de mapas sociais e ideológicos que os <em>blogs</em> parecem ter vencido definitivamente os jornais. Instantânea e gratuitamente tenho agora acesso a milhares de opiniões que ajudam a situar &#8211; talvez mesmo a redefinir e completar &#8211; a minha opinião e a definir-me como pessoa e cidadão. E ao poder redefinir-me a cada instante, posso também a cada instante redefinir o meu comportamento e reagir imediatamente às circunstâncias que me envolvem. Por outro lado, passo a ser eu próprio a escolher os tópicos em relação aos quais me interessa “ter opinião”, isto é, a tomar contacto com a opinião dos outros, e deixam de ser os meios de comunicação a escolher que tópicos são suficientemente importante para merecerem comentário opinativo e quando é que posso ter acesso aos mesmos.
</p>
<p>Nem sequer se coloca o problema de, como alguns acreditam, a maioria poder agora ter só acesso às opiniões que confirmam as suas. Isso sempre foi possível e, de qualquer modo, a minha experiência constata que a maioria das pessoas prefere ler <em>opinion-makers</em> dos quais discorda &#8211; porque a opinião própria se desenvolve  mais rápida e profundamente através do confronto do que através da confirmação e porque a adrenalina do confronto se torna viciante.
</p>
<p>Perigos? O incremento da calúnia, da má-fé, da demagogia, da aldrabice pura e dura, claro. Estas também existem na imprensa dita séria, só que com menor facilidade de refúgio no anonimato. Mais grave é que a disseminação e fragmentação da informação na <em>internet</em> tornam mais difícil o desmentido e a reposição da verdade. Logo, opiniões assentes em perfeitas mentiras são mais fáceis de propagar e mais difíceis de exterminar. Mas isso são questões que têm de ser consideradas e solucionadas. Porque os <em>blogs</em> estarem a tornar-se uma fortíssima ferramenta de opinião é um facto incontornável que não se pode simplesmente desejar que desapareça.
</p>
<p>E, caso estejam interessados, a minha opinião sobre o <em>Sol</em> é que é um jornal bom para uma dada camada socioeconómica na qual não me revejo. É tudo.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: olhos nos olhos</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 13:31:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;exijo ao ocidente que me olhe olhos nos olhos e que prove que nós andamos a fazer experiências nucleares sem segurança&#8221;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/ahmadinejad.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/ahmadinejad.jpg" alt="Pedro Vieira, Olhos nos olhos [clique para aumentar]" width="85%" border="0"></a><br/><em>&#8220;exijo ao ocidente que me olhe olhos nos olhos e que prove que nós andamos a fazer experiências nucleares sem segurança&#8221;</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: relativizar é preciso</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 13:30:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Do Pedro Vieira, autor da ilustração acima, e que chama ao cinco dias um &#8220;pentágono de bloggers&#8221;, recebemos o seguinte recado: «caro leitor do 5 dias, compreendo o horror de assistir hoje à presença de um blogger metediço e subterrâneo &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/pedro-vieira-relativizar-e-preciso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Do <a href="http://irmaolucia.blogspot.com" target="_blank">Pedro Vieira</a>, autor da ilustração acima, e que chama ao cinco dias um &#8220;pentágono de bloggers&#8221;, recebemos o seguinte recado:
</p>
<blockquote><p>«caro leitor do 5 dias, compreendo o horror de assistir hoje à presença de um<em> blogger </em>metediço e subterrâneo como eu em tamanha constelação de estrelas da palavra escrita. porém, se levarmos em linha de conta que foi num 2 de outubro que foi fundada a opus dei, que morreu marcel duchamp ou que foi lançado o álbum &#8216;the x factor&#8217; dos iron maiden, compreendemos que a minha intrusão é uma desgraça em escala menor.»</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: De como me tornei anarquista</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 10:33:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[Em matéria de política sempre fui uma Maria-Vai-Com-As-Outras. Digo-o sem falsa modéstia nenhuma porque o meu currículo político — se exceptuarmos uma passagem por uma Associação de Estudantes nos gloriosos anos da luta contra as propinas e do estertor cavaquista &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/andre-belo-de-como-me-tornei-anarquista/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em matéria de política sempre fui uma Maria-Vai-Com-As-Outras. Digo-o sem falsa modéstia nenhuma porque o meu currículo político — se exceptuarmos uma passagem por uma Associação de Estudantes nos gloriosos anos da luta contra as propinas e do estertor cavaquista — não tem nada digno de nota. Nunca fiz coisa de grande monta e, sobretudo, nunca me meti na política de alma e coração. Mesmo alinhando em movimentos políticos, nunca fui, por exemplo, capaz de me definir com rigor politicamente, áparte o ser de esquerda. Quem o fazia — ou pelo menos a mim assim parecia — eram vários dos meus amigos, cuja ideologia, coerência e referências admirava profunda e ardentemente. Na verdade, acho que foi sempre por adesão aos ideais dos amigos e não a um determinado grupo ou causa, que me envolvi em política. Aderia aos amigos, não à política em si. Pensando bem, esta última coisa, sim, eu fiz de alma e coração e, pensando bem, esta já é uma causa suficientemente nobre.
</p>
<p>A excepção, repito, foi a luta contra as propinas. Envolvi-me efectivamente, criei a minha própria ideia sobre o assunto e tomei, com outros, iniciativas próprias. Foi um momento de politização intensa, de união, mas também de separação de águas (para mim e vários outros) em relação aos métodos de outras Associações de Estudantes anti-propinas, na altura dominadas pelos comunistas da JCP ou próximas dos trotskistas do PSR.
</p>
<p>Depois dos meus anos de faculdade, ao longo dos anos, e vivendo em França, tive outros momentos de politização. Embora apenas como espectador, eles funcionaram na minha cabeça como chamadas a uma tomada de posição indispensável. O mais importante desses momentos foi a clamorosa derrota da esquerda nas presidenciais de Abril/Maio de 2002, com a eliminação de Lionel Jospin à primeira volta. Nos tempos mais recentes, o referendo europeu ao Projecto de Constituição Europeia e a luta anti-CPE fizeram um pouco o mesmo. Aqui há uns meses, vi na televisão uma entrevista de Claudio Magris em que ele dizia, cito muito de memória, que há momentos em que a política nos interpela <i>forçosamente</i>, que há momentos de urgência em que temos mesmo de lidar com ela. Identifiquei-me com isto.
</p>
<p>Mas basta de autobiografia política. Isto tudo é para dizer que a minha autodefinição mais recente é a adesão ao anarquismo. Um anarquismo limitado, mas de base, contra o estatismo (não contra o Estado), contra o centralismo, contra as imposições piramidais, contra o burocratismo irracional. A favor da descentralização regional e local; a favor da autonomia para quem pode decidir perto dos que são afectados pelas decisões; a favor da abolição tanto quanto possível de intermediários entre a base e as sucessivas cúpulas; a favor, enfim, de um serviço público capaz de procurar o melhor meio para <em>realmente</em> combater desigualdades — e que não apareça como mero <em>slogan</em> defensivo do Estado em tempos difíceis. Tão simples e irrealizável quanto isto. Se o ser de esquerda tem a ver, no fundo, com ter confiança nos outros — e acredito que sim —, então o estatismo, com a sua desconfiança intrínseca em relação ao que não depende de si, é uma enorme perversão deste princípio fundador da esquerda. Esta é uma ideia a que tenho chegado por experiência própria e indignação genuína, observando o funcionamento da universidade pública francesa. Anarquista em França por reacção ao jacobinismo, não sei se o seria, por exemplo, nos Estados Unidos (em matéria de política, o ter sido muitos anos uma Maria-Vai-Com-As-Outras ensinou-me a ser prudente). E aderi ao anarquismo, não aos anarquistas. Serei talvez um anarquista local, inorgânico, incoerente, inconsequente, individualista. Em suma, um verdadeiro anarca.
</p>
<p>Não encontro melhor lugar para anunciar isto do que este espaço editado pelo Rui Tavares e para o qual ele me convidou a escrever. O Rui que sempre se definiu, muito coerentemente, como um anarquista com contradições e que, nem é preciso acrescentar, é um dos tais amigos a que sempre aderi com a maior das convicções políticas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A importância de se chamar confronto</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Sep 2006 08:56:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>

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		<description><![CDATA[Convidou-me o meu adversário ideológico e camarada de jornalismo Nuno Ramos de Almeida para escrever um texto sobre a importância do confronto de ideias nos blogues. Aceite o desafio, algo precipitadamente, há que responder com o mínimo de elevação. Aviso &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/29/a-importancia-de-se-chamar-confronto/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Convidou-me o meu adversário ideológico e camarada de jornalismo Nuno Ramos de Almeida para escrever um texto sobre a importância do confronto de ideias nos blogues. Aceite o desafio, algo precipitadamente, há que responder com o mínimo de elevação. Aviso prévio: não utilizarei aqui expressões como “antro de esquerdistas”, “reaccionários neo-marxistas”, “saudosistas de esquerda” – e outras que tais. Prefiro acreditar que não estou a cair numa armadilha ardilosamente montada.<br />
Quando perguntam de que blogues sinto hoje mais falta, quase três anos depois de entrar neste glorioso mundo, respondo sem pestanejar: um era de direita e dois de esquerda. <a target="_blank" href="http://colunainfame.blogspot.com/">Coluna Infame</a>, <a target="_blank" href="http://barnabe.weblog.com.pt/">Barnabé</a> e <a href="http://bde.weblog.com.pt/">Blogue de Esquerda</a>, por esta exacta ordem. Foi em grande medida o desaparecimento do primeiro e a extrema influência dos seguintes que me levou a criar <a target="_blank" href="http://oacidental.blogspot.com/">O Acidental</a>, esse sim, um assumido antro de perigosos direitistas. Existindo já outros blogues de centro e de direita, parecia-me talvez erradamente que os dois nichos de esquerda dominavam a cena. Facto: eram os que mais visitava. Podiam irritar, mas faziam pensar. Pode ser simplista ou um lugar-comum, mas acredito que da discussão pode nascer a luz.<br />
O confronto de ideias é o sal e a pimenta da blogosfera – como da democracia. Há quem as prefira insossas, moles, institucionais, cinzentas, adormecidas, sem “dicotomias” – palavra sinistra –  entre esquerdas e direitas. Mas apenas por interesse próprio, por pura razão de mercado, porque o mercado de ideias na comunicação social tradicional ainda está nacionalizado ao centro – o vulgar centrão, buraco negro das ideologias – e só se abre às diferenças por excepção.<br />
O mercado das ideias tem de ser liberalizado e a blogosfera é uma opção amplamente revolucionária. Porque representa uma nova oportunidade para o debate, para além dos condicionalismos dos partidos e do discurso politicamente correcto. Mesmo que excessiva nas  opiniões e nos termos, muitas vezes despachados à velocidade de um clique. É isso: a blogosfera pode ser um clique democrático.</p>
<p>PS. Sosseguem os espíritos mais inquietos: não me rendi às esquerdas. Produto sobretudo da iniciativa do Rodrigo Moita de Deus vem aí o 31 da Armada. Muito mais do que um blogue. Aproveito ainda esta oportunidade para fazer publicidade à revista Atlântico – hoje nas bancas – e ao respectivo <a target="_blank" href="http://revista-atlantico.blogspot.com/">blogue</a>. Muito obrigado.</p>
<p><strong><br />
Paulo Pinto Mascarenhas</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>À altura do tempo</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Sep 2006 08:49:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulo da Costa Domingos anda escrevendo um longuíssimo poema com as palavras (e as imagens) de outros (aquele que possa dizer como sua uma única palavra, que atire a primeira pedra!). Falava do arrebatamento editorial da Frenesi, voz de resistência &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/29/a-altura-do-tempo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo da Costa Domingos anda escrevendo um longuíssimo poema com as palavras (e as imagens) de outros (aquele que possa dizer como sua uma única palavra, que atire a primeira pedra!). Falava do arrebatamento editorial da Frenesi, voz de resistência que ecoa nos pátios abertos ao vento como na obscura madrugada do espírito descalço. Mas invoque-se agora os seus outros versos de combate, reflexões em reflexo, fruto áspero da raiva, das poucas barbas por fazer do lirismo do burgo. O volume mais recente, <strong>Nas Alturas</strong> (Frenesi, 2006), transfigura  a torre de marfim em farol de nevoeiros, mas também esconderijo de um snipper ácido, mas benévolo.<br />
Primeiro passo: «Outro Inverno passou, e a verdade/não encontrou a sua morada./ Outra coisa não se esperaria/ senão um manto de silêncio/ sobre a morte de um homem.» Pergunta o poeta-moralista face à neblina, quando «todos os dias é o fim de uma época prodigiosa», se alguma marca pessoal marcará «os séculos do povo?». A verdade está condenada a fugir como o horizonte.<br />
A casa, «sede social de todos os sentimentos», está forrada de livros velhos, anjos vetustos e pálidos. O poeta «adulto/ em roupão, balão com vinho, lareira», sabe que nem por isso é livre. Vê poetas convencidos fumando, vê programas no cabo esfumaçando o tempo. Do outro lado dos vidros, está a cidade-reflexo: a mulher da limpeza, os novos ventos de leste nos porteiros, um tiro. Há frases, movimento, opulência, e com tudo a sujidade. «Desconforto que é ser-se incapaz/de escalar paredes e sentir vertigens,/e contratar “negros” que afinal são/ brancos». Perde-se autonomia para vagas de outros trabalhadores eventuais arrumados por cores. Não conhecemos o próprio lixo. Desconhecemo-nos. Não nos governamos. Desgovernamo-nos. «Os corpos colam-se no calor dos trans-/portes públicos que passam sob/ as ramadas oblíquas de gente/ dormente, desenraizada, onde/ grande inimigo é o tempo.» Espera-se a guerra e vive-se contra o tempo trabalhando electrodomesticamente, tortura a que escapam apenas o gatos, inúteis «como, aliás, devem ser os versos, espreguiçados/ ao longo de um muro». E o poeta, de «faca atravessada na vigília», olha de cima os distintos rumos da alienação, do triste quotidiano, da apatia, do mercado. «Juízes, pediatras, joalheiros: cançonetistas/ preparam a alvorada da gestão da matéria,/ sentem a intensidade das suas existências/ como um espectáculo bem remunerado,/ mais um, enquanto compõem colarinhos perante a frieza espelhado do alumínio.» Dá-se bem com o bulício, mas recolhe daí ensinamentos para diálogos com mortos notáveis. Teme apenas o fogo que apague os anjos lívidos que lhe fazem companhia, mas não o tranquilizam. O passado não é remédio para dormir.<br />
Perde-se bastante lirismo neste sobrevoar atabalhoado do poema que tira como nenhum o retrato da cidade na beira do inferno do presente, mas estou na pressa de chegar à questão esta. «Em/nenhuma época nunca/ tanto cúmplice se acomodou/ numa consensual renúncia». Sabendo de outras épocas apenas pelo relato das fontes interessadas, poderemos afirmar que a apatia de hoje é maior que a de ontem? Quem nos garante que a militância de outros tempos, quando foi, por exemplo, moda obrigatória, não ajudou a carpinteirar o sofá onde agora nos refastelamos? Vive em nós, é certo, restos de um fascismo que tolhe a revolta, colectiva mais ainda; que evita a participação, em colectivo mais ainda; que adia a construção de autonomias, de espaços despudorados, sem poder nem estado. E a sós, no íntimo ou na rua, não haverá combate por travar? Tanta pressa para aqui chegar, mas para nada mais fazer além da defesa da voz solitária do poeta. Esta por exemplo. «O interdito do prazer (fu-/mar, beber, rir, fornicar,/degredar o dinheiro) é/a continuação do fascismo/por outros meios». Estamos de acordo, queimemos o charuto.<br />
<strong>JOÃO PAULO CONTRIM</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Das árvores</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Sep 2006 08:46:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nuno Ramos de Almeida</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Naquele lugar as árvores possuem sopé em forma de vaso. São como um poste no expressivo no topo do qual crescem raios, traços ziguezagueantes bojudos ou tracejantes. Ou farfalhantes como cabeleiras encarapinhadas ou electrificadas. Vi algumas feitas de sorvete derretido, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/29/das-arvores/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Naquele lugar as árvores possuem sopé em forma de vaso. São como um poste no expressivo no topo do qual crescem raios, traços ziguezagueantes bojudos ou tracejantes. Ou farfalhantes como cabeleiras encarapinhadas ou electrificadas. Vi algumas feitas de sorvete derretido, outras crescendo em telescópio, mas o mais habitual é vê-las terminando em pequenos ramos como dedos em súplica ao céu. Pode ser que seja apenas ponto de contacto, modo de ligar na paisagem desenhada a terra barrenta ao céu azul de cor directa. Deve ficar afirmado antes que esqueça, aquele lugar é a preto e branco, mas sofre de sazonais coloridos. Dirão: não nascem árvores como as conhecemos, de raízes enterradas no solo, tronco largo e copa frondosa, assim como embondeiro, plátano ou carvalho? Responda-se que sim. Uma espécie de embondeiro serve muitas vezes de ponto de encontro dos habitantes daquele longínquo lugar que dista não mais de um palmo se contado a partir do livro. Quando assim é, a copa parece desaparecer no desenho do céu. Raras são as de fruto. Quase todas mergulham em vaso de um barro ancestral e decorado à maneira de um sul não menos antigo. Como se um grande encenador, não contente com o natural do sítio, resolvesse pela sua mão acrescentar flora. A maioria continua esticada como indicado, terminada em ziguezagues que marcam o alto com riscos de máquinas de costura voadoras. O objectivo, se o possuem, aparece como sendo esse mesmo: escrita ou desenho no pano dos céus. Queda-se o baixo ligado ao alto por estes traços, movediços por força do vento, pela intervenção dos habitantes. Quem sabe se não são as árvores que impedem o céu de se rasgar. Quem sabe se não servem para prender relâmpagos e nuvens. Pedras há que gostam de imitar as árvores.</p>
<p><strong>JOÃO PAULO COTRIM</strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A Conspiração</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 13:50:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[11-setembro]]></category>
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		<description><![CDATA[[E agora apresento o primeiro craque das segundas-feiras: Jorge Palinhos, que já foi do Cruzes Canhoto e do Blogue de Esquerda. Nunca conheci pessoalmente o Jorge, mas sou um fã de longa data. Sei que será o meu primeiro acerto &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/jorge-palinhos-a-conspiracao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[E agora apresento o primeiro craque das segundas-feiras: Jorge Palinhos, que já foi do <a href="http://cruzescanhoto.weblog.com.pt/">Cruzes Canhoto</a> e do <a href="http://bde.weblog.com.pt">Blogue de Esquerda</a>. Nunca conheci pessoalmente o Jorge, mas sou um fã de longa data. Sei que será o meu primeiro acerto como editor do 5dias, mas o mérito é todo dele.]
</p>
<p>Uma parte significativa das pessoas que conheço acredita que o governo americano é responsável pelos atentados de 11 de Setembro de 2001.<br />Estas pessoas não são, note-se, anti-americanos destravados, leninistas ferozes ou maníacos da conspiração. São pessoas de ordinária normalidade, profissão regular, família burguesa e votantes de partidos centristas. Mas são também pessoas que dão crédito a teorias de que o Pentágono foi atingido por um míssil, de que as Torres Gémeas foram alvo de demolição sistemática, de que o Voo 93 foi abatido por um míssil, e que tudo, no fundo, não passou de uma elaborada e sangrenta desculpa para invadir o Iraque e o Afeganistão. E estas pessoas não estão sós na sua crença, visto que inquéritos recentes <a href="http://newspolls.org/story.php?story_id=55 ">revelam que quase 40 % dos americanos acreditam que o seu próprio governo teve mão nos atentados</a>.
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<p>Por modéstia própria, e alguma auto-estima, não costumo desconfiar que as pessoas que me rodeiam precisam de apoio psiquiátrico. Acredito até que todos os governos são suspeitos até prova em contrário: não são novos os Estados que enganam e sacrificam os seus concidadãos para desencadear guerras e invasões, e o enorme poder económico e militar de que dispõem justificam a desconfiança e fiscalização extremas.
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<p>Mas, apesar disso, olho para o 11 de Setembro e espanto-me: será possível que um governo destrua uma parte da sua sede militar e arrase um importante centro de negócios, no lugar do mundo com maior percentagem por metro quadrado de jornalistas, câmaras de vigilância e eleitores hostis ao governo, só para se ir meter em duas alhadas sem saída visível? E é possível recrutar, para tal operação, centenas de agentes de lealdade à prova de remorsos e inconfidências? E como se calam dezenas de milhar de especialistas capazes de suspeitar de algo? E como é que alguém poderia levar a bom termo uma operação de tanta audácia e inteligência e em seguida ter sucessivos desaires no Afeganistão e no Iraque? E, mais importante ainda, como continuar a discorrer com gosto sobre os índices de inteligência de George W. Bush se há a possibilidade de este ser o mais carismático génio operacional do mundo desde Amílcar Barca?
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<p>Para tirar dúvidas, nada como ver a mais reputada denúncia desta alegada conspiração: um documentário divulgado na Internet, montado por um trio de empenhados adolescentes, que se basearam em teorias e factos postos a correr anonimamente na internet.
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<p>A minha conclusão foi: é bom ver os jovens de hoje retomarem a sua leitura de Aristóteles! Porque a eficácia retórica do documentário é notável. Começa-se por apontar factos passados pouco abonatórios para o governo americano e indícios de que alguém teria lucrado com os atentados para pôr o espectador a levantar o sobrolho. Passa-se, em seguida, para o sumo da argumentação, apontando inconsistências, contradições e paradoxos da versão oficial de forma a deixar o receptor cheio de suspeitas. Entra-se, então, no acumular de pistas e pontas soltas, sem, contudo, se fornecer qualquer contexto ou sistematização.<br />Por fim aponta-se um culpado e sugerem-se possíveis motivos de culpa, nenhum deles aprofundado, e termina-se com os autores a dizerem-se perseguidos e ridicularizados pelas suas ideias e acenando patrioticamente a bandeira americana.
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<p>O veredicto? 16 em estrutura, 4 em conteúdo. Porque se é admirável o trabalho e empenho destes adolescentes, e parece haver pormenores genuinamente estranhos que mereciam investigação, a existência de líderes maquiavélicos e agentes impiedosos continua a parecer-me do domínio de Ian Fleming. É que, para os paradoxos e inconsistências da versão oficial, continuo a achar mais verosímil a explicação de que muitos fenómenos físicos continuam incompreensíveis para nós e que as instituições americanas está tão cheio de incompetentes, indolentes, débeis mentais e corruptos como todas as outras organizações do mundo.
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<p>Serei ingénuo? É uma possibilidade. Mas em toda esta alegada conspiração, o que mais me intriga é a quantidade e qualidade de pessoas que nela acreditam.
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<p>Não me refiro à visibilidade e impunidade que os divulgadores da dita conspiração parecem ter, mas à necessidade que tantas pessoas comuns parecem ter em acreditar nela. Falo do facto de que milhões de americanos parecem suspeitar que o seu governo legitimamente eleito as enganou e usou como um horroroso isco e nada fazerem quanto isso. Um político húngaro admitiu recentemente ter mentido para ser reeleito e tem manifestações e protestos quotidianos à porta. O governo americano é suspeito de ter sacrificado mais de 3000 dos seus cidadãos e… nada?
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<p>Isto leva-me a duas suspeitas. Uma, é a suspeita de que as pessoas preferem acreditar na omnipotência e perversidade do seu próprio governo a acreditar na fraqueza e impotência deste perante inimigos estrangeiros. A outra é a suspeita de que se as pessoas crêem que o seu governo eleito é totalitário e nada fazem contra isso é porque, talvez, no fundo, guardam o secreto desejo que este seja mesmo totalitário e omnipotente.
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<p>E isto é a conspiração mais assustadora de todas.</p>]]></content:encoded>
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