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  • Arquivo 'convidado'

    faz de conta (texto de Jaime Roriz)

    15 Setembro 2008 | por Rogério da Costa Pereira

    O Sr Presidente da República vetou a lei do divórcio. Os partidos políticos chamaram ao novo regime do divórcio, lei do divórcio. Os jornais, a televisão e a imprensa em geral (ainda não percebi porque carga d’água rádio e televisão são imprensa) continuam a clamar pela lei do divórcio, uns contra outros a favor. Na blogosfera discute-se assanhadamente que … porque tal … e coiso … ai … que não querem que as pessoas se divorciem … ou pelo contrário que o divórcio fica um contrato a prazo.
    Resumindo, todos andam muito preocupados com aquilo que pode acontecer a adultos, capazes de consentir, caso queiram, ou não queiram, divorciar-se. Todos acham que vão surgir umas pobres pessoas vitimadas pela lei actual ou pelo novo regime.
    Porém, e eu não me conformo com isto, será que alguma destas cabeças pensantes terá efectivamente lido os documentos todos? É que, não devem ter reparado ainda mas, metade do texto da alteração legislativa refere-se às responsabilidades parentais.
    Ler o resto »

    Pedro Vieira: apocalypto

    12 Fevereiro 2007 | por Rui Tavares



    Público: “jornalismo, profissão de alto risco no méxico”.

    Pedro Vieira: channel 4 madras

    12 Fevereiro 2007 | por Rui Tavares



    Público: “actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico”.

    [nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas desculpas.]

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    Jorge Palinhos: A ilusão e a crença

    29 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.

    É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, Jean-Eugène Robert-Houdin, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.

    Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de Harry Houdini, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “Margery”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.

    Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como Uri Geller, foi James Randi, que em vários episódios do programa Tonight Show desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.

    Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e rico) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.

    O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.

    Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi Nostradamus, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:

    “Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.”
    (Tradução minha a partir da versão inglesa)

    Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.

    As profecias de Nostradamus popularizaram-se em meados do séc. XV, mas quinhentos anos depois os seus sucessores continuam a escrever “Proteja-se do frio; está sujeito a problemas nas vias respiratórias”, uma profecia dificílima de fazer no pico do Inverno.

    Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um famoso astrólogo português. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós.

    É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.

    Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.

    Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.

    Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.

    P. S, - Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.

    Pedro Vieira: marés vivas

    29 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: Borda d'Água
    Público: “vendas do borda d’água continuam a subir“.

    Pedro Vieira: Impossible is writing

    22 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: Impossible is writing


    Público: “bbc lança site de treino jornalístico“.

    Jorge Palinhos: A arte da ilusão

    22 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas porque prefiro ver as obras com o mínimo de ideias feitas possível e só depois confrontar as minhas opiniões com as dos críticos.

    Quando vi o filme O Terceiro Passo, de Christopher Nolan, sabia apenas três coisas: quem era o realizador; que tratava de rivalidades no mundo do ilusionismo profissional de finais do séc. XIX; que o David Bowie tinha um pequeno papel.

    Saí do filme com mais algumas ideias, que me dediquei a comparar com as críticas nacionais e estrangeiras. Surpreendeu-me, no entanto, que o que mais via escrito nelas é que o filme era “um entretenimento agradável sem pretensões a profundidade”.
    É certo que O Terceiro Passo não tem as mesmas implicações perturbadoras sobre memória e identidade que tinha Memento, o filme que lançou Christopher Nolan para a ribalta. Mas no filme pareceu-me identificar várias linhas de força tudo menos desprezíveis: a necessidade que temos de acreditar em algo que não conseguimos explicar, a necessidade de alguns darem aos outros essa ilusão e o desejo desmedido que move muitos a acreditarem e tornarem aquilo que sabem mero truque e ilusão em modo de vida e justificação para todos os crimes.

    De um lado havia a personagem Borden, disposto a sacrificar a sua família, o seu corpo, a sua própria identidade, em prol de uma ilusão. Do outro, a personagem Angier, que atravessou meio mundo e desbaratou a sua fortuna e a sua ética para tornar possível uma ilusão. E, contudo, ambas as personagens são ilusionistas profissionais, plenos conhecedores de que por de trás de cada coelho fora da cartola está uma verdade simples. Tão simples que, uma vez revelada, todo o encantamento do ilusionismo se perde, pelo que o segredo dessa verdade deve ser protegido como se pedra preciosa fosse. Porém, estarem na posse desse segredo não torna as personagens cínicas, mas antes mais idealistas, fazendo-as ansiar por que a ilusão que constroem deixe de ser truque e se torne verdadeira magia.

    Esta situação surpreendeu-me. Robert Louis Stevenson, entre outros, escreveu, a propósito da literatura, que quem apreciasse a sua magia deveria tentar saber o menos possível das suas roldanas e contrapesos, pois nada estraga mais o encantamento de uma ilusão do que saber como funciona. E, de facto, o senso comum indica que é mais cínico e desencantado em relação a toda a arte ou mistério quem está no seu interior.

    Por outro lado, paradoxalmente, também é o senso comum que diz que os praticantes de qualquer arte são também os mais fervorosos defensores da sua importância. Tal poderá dever-se a puro pragmatismo, mas também é difícil acreditar que alguém devote a sua vida a uma causa sem crer profundamente nela.

    Estes pensamentos erráticos levaram-me para uma arte muito próxima do ilusionismo e, em grande parte, sua antecessora: o charlatanismo, também conhecido por divinação, espiritismo, curas de fé, e muitas, muitas outras coisas, de que falarei nas próximas semanas.

    Pedro Vieira: bedtime for pinocchio

    15 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: bedtime for pinocchio

    Público: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“

    Na cova dos lobos

    15 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    [do Blitz de novembro]

    Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: “na cova dos lobos não há ateus”.

    Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.

    Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz “não há ateus em trincheiras”, embora a origem talvez seja comum, porque “trincheira” em inglês americano é foxhole, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?

    ***

    Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de “sentir” a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse “a esse caminho” (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.

    Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer “não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada”. Demora alguns anos até se conseguir dizer: “não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços”. E demora ainda mais alguns anos até se dizer “não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal”.

    Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes “godless” como quem lhes chama órfãos (”fatherless”) ou zarolhos (”eyeless”). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi “brights”). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer “godless”. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.

    ***

    Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?

    Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a “aposta pascaliana”. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.

    Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.

    De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: “só tenho uma vida”, e sorrindo, “só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar”.

    E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, “parece um religião”), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa. Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.

    ***

    Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: “sou um optimista trágico”, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.

    Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.

    Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.

    Pedro Vieira: Leave the kids alone

    8 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: Leave the kids alone

    “bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“

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    Ops, lá foi um país pelo cano

    8 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    [do Público de 6 dezembro 2006]

    Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um verdadeiro iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.
    A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al’Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.
    Terá isto alguma importância? O editorial do Le Monde sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.
    Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —, tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.
    É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al’Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.
    Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.
    Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.
    Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.
    Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.

    Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)

    8 Janeiro 2007 | por Rui Tavares

    [A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser lê-la ou relê-la, aqui está a primeira parte, aqui a segunda, aqui a terceira, e aqui a quarta. Bom proveito.]

    Na sua obra O prazer do texto Roland Barthes declara: “Como instituição, o autor morreu: a sua pessoa civil, passional, biográfica, desapareceu; desapossada, já não exerce sobre a sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham por função estabelecer e renovar a narrativa; mas no texto, de um certo modo, eu desejo o autor: tenho necessidade da sua figura (que não é nem a sua representação nem a sua projecção), tal como ele tem necessidade da minha…”

    Que diz Barthes neste fragmento? Que não importa a biografia, a vivência, a ideia do autor por trás de um determinado texto, visto que este será sempre interpretado segundo o enquadramento do leitor e da sociedade que o lêem. Posso, n’ O Mercador de Veneza, ler uma defesa da dignidade dos judeus, mesmo que a época em que foi escrita e o próprio autor da peça pudessem estar pejados de preconceitos anti-semitas.

    Barthes defendia a autonomia da interpretação do sentido do texto, independentemente da intenção ou psicologia do respectivo autor. Fazia-o com o objectivo de promover o papel da leitura individual e crítica literária na interpretação do texto, em detrimento da investigação biográfica ou histórica.

    Mas, de uma forma algo perversa, também se pode interpretar este excerto à luz dos ciberapócrifos que temos analisado nas últimas semanas. Pois que o aspecto singular destes textos é o de “desejarem um autor”. Mais concretamente, para os seus verdadeiros autores e leitores é absolutamente vital que aqueles tenham uma autoria atribuída. É essa autoria que faz existir o texto pois é ela que justifica a sua existência e a sua divulgação. Porém, é o conteúdo do texto que se torna popular e “deseja o autor”. Ou seja, se “Instantes”, “A Marioneta”, “Morre lentamente”, “História de dois aeroportos” não tivessem o conteúdo que têm, provavelmente não seriam reenviados de e-mail em e-mail, como tentei demonstrar no último artigo; mas se não tivessem o autor que se propõem ter, provavelmente nem seriam lidos.

    Gera-se assim a simbiose perfeita: o autor faz o texto ser lido, o seu conteúdo faz com que seja divulgado, num fenómeno inverso ao que é frequente no mundo editorial, onde um livro pode ser vendido pela força do nome do seu autor, mas é o conteúdo que determina se é lido ou não – basta olharem para as vossas estantes e contarem o número de livros de autores famosos que nunca leram ou abandonaram a meio.

    Curiosamente, o fenómeno dos ciberapócrifos parece demonstrar a teoria que Michel Foucault defendia na sua obra O que é um autor, onde propunha que as obras literárias são produtos culturais colectivos, não cabendo ao autor mais do que uma função de legitimação institucional. Essa legitimação traduz-se, nos ciberapócrifos, na atribuição da autoria à mais alta autoridade (leitores atentos notarão aqui uma significativa proximidade morfológica e etimológica) reconhecida dentro do contexto sociocultural da sua produção: Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez, no meio literário latino-americano; Millôr Fernandes e Luis Fernando Veríssimo num contexto brasileiro de humor, Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho no âmbito do comentário político-social português.

    Apesar desta explicação, o caso encerra em si um paradoxo: textos de origem anónima lidos por pessoas anónimas precisam da assinatura dos que se ergueram acima do anonimato para garantir a sua divulgação. E textos genuínos destes mesmos autores não têm uma fracção da popularidade e perdurabilidade que os apócrifos demonstram no mundo virtual.

    Porque será? Para esta questão, não tenho ainda resposta cabal. Mas, tendo em conta o que foi dito no anterior artigo desta série, talvez a demagogia não seja apenas uma estratégia política mas antes revele o enorme desejo que as pessoas anónimas têm de ver legitimado e proferido pelos não-anónimos aquilo em que acreditam e desejam ouvir. De forma grossa, as massas precisam das elites para delas escutarem o que já sabiam à partida.

    Não tenho provas do que digo, mas sugiro que vejam o filme A Rainha, de Stephen Frears. Quando, no final, Isabel II e o marido chegam ao Palácio de Buckingham rodeados da população que faz luto por Diana Spencer, é quase inevitável sentir que naquele momento, e provavelmente em todos os outros, a rainha é a pessoa com menos poder em toda a Grã-Bretanha, joguete da vontade e caprichos dos seus súbditos.

    Quem sabe se o autor não é também o mais impotente dos leitores, incapaz até de escrever os textos que lhe atribuem.

    Filipe Moura: Juramentos e religiões

    5 Janeiro 2007 | por Nuno Ramos de Almeida

    O Filipe Moura manda este texto para preparar caminho para a semana, altura em que está prometido um grande texto. Apreciemos, então, o aperitivo
    O caso que neste momento se discute na política americana é-nos relatado, por exemplo, por Vital Moreira, no Público de 26-12-2006:

    “Tomemos, por exemplo, o caso que neste momento se discute nos Estados Unidos. Pela primeira vez na história política norte-americana, nas eleições de Novembro foi eleito um deputado muçulmano. Tendo-se criado uma tradição política no Congresso, segundo a qual, depois da tomada de posse oficial, os deputados realizam uma cerimónia privada, para amigos e familiares, em que juram sobre a Bíblia, até agora ninguém tinha colocado a hipótese de usar outro livro sagrado. Quando muito, os poucos não crentes optavam por não fazer o juramento religioso. Por isso, causou escândalo, especialmente nos círculos da direita cristã, o anúncio feito pelo dito deputado de que fará a seu juramento sobre o Corão. Um deputado mais intolerante da direita religiosa chegou ao ponto de defender que ele deve ser proibido de levar o Corão e que, se o fizer, deve perder o mandato. A pergunta que se deve fazer é obviamente a seguinte: se os crentes cristãos têm o direito de jurar sobre o seu livro sagrado, por que é que um deputado muçulmano não goza de igual direito?”

    O tema do texto anterior dá pano para mangas. Pode ou não um deputado levar o Corão para fazer um juramento? A direita religiosa, como o André Azevedo Alves (que continua a confundir-se com O Insurgente) certamente pensa que a Bíblia é autorizada (e provavelmente deveria ser obrigatória), mas não é essa a questão mais importante. Essa questão, que (creio eu) dividirá opiniões entre as pessoas sensatas, é: “Deve ou não um representante político fazer um juramento religioso antes de tomar posse?” Muita gente reconhecerá ao deputado muçulmano o direito de jurar sobre o Corão, se outros juram sobre a Bíblia. Para mim, nenhum dos juramentos é aceitável: a religião é do foro privado, e não deve ser confundida com o exercício de funções públicas. Mesmo que tal possa ser visto como uma “restrição de liberdade”. É evidente que cada deputado poderá fazer os juramentos que quiser, se for religioso – e mesmo se os deputados forem eleitos enquanto religiosos, ou devido às suas convicções religiosas. Mas tais juramentos devem constituir uma cerimónia religiosa, e nunca uma cerimónia oficial de Estado.
    Aqui temos, de repente, e como quem não quer a coisa, um excelente “toy model” para o problema do véu islâmico, tema a que tenciono voltar em breve.

    Filipe Moura

    Pedro Vieira: Manneken Slice

    18 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: Manneken Slice


    DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”

    Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (4.ª parte)

    18 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    (Nota: Os links no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade)

    Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de e-mail em e-mail, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve haver neles que leva cada homem ou mulher desta cadeia de transmissão a achar que o clique de reenvio, a selecção dos destinatários, o send e a espera pelo aviso de boa recepção não são tempo perdido.

    Como se mencionou num dos artigos anteriores, estes ciberapócrifos versam maioritariamente dois temas: a auto-ajuda e a política, com predominância da primeira. Vou por isso debruçar-se sobre a análise deste género.

    De que fala o texto Instantes? Parece ser um texto escrito por um idoso “de oitenta e cinco anos” e “morrendo” que nos diz o que faria se “pudesse viver novamente” a sua vida. O texto abre com uma declaração aparentemente paradoxal: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros”. O senso comum diz-nos que devemos lamentar os erros cometidos e tentar evitá-los no futuro. Esta frase, ao enunciar o contrário, desperta a atenção do potencial leitor.

    Os ditos “erros” – actividades e características que o narrador teria ou faria – são enumerados: menos perfeito, mais relaxado, mais tolo, levar as coisas menos a sério, menos higiénico, mais aventureiro, mais contemplativo e mais apreciador das sensações.
    À lista segue-se a explicação: “fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria”.

    Esta passagem é muito interessante. Por um lado gera empatia com o destinatário, que obviamente também se considerará uma pessoa “sensata” e “produtiva” e com “momentos de alegria”. Por outro, é intrigante a adversativa implícita na frase “claro que tive momentos de alegria”. Será que viver de forma sensata e produtiva não dá alegria? Não, segundo o senso comum, para o qual felicidade é não fazer nada, não ter preocupações, estar com amigos e família, estar de férias. Mesmo que estudos neuro-comportamentais apontem maiores índices de felicidade nas pessoas com excesso de trabalho…

    Ou seja, é neste ponto que o texto mergulha no senso comum, quando apela a uma vida mais emocional, mais dedicada à (suposta) auto-satisfação de sentidos e instintos, que se conclui de forma dramática: “Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo”. Deste modo, ao invocar-se a inevitabilidade da morte, e tendo antes criado empatia com o leitor, força-se este a reflectir na sua própria mortalidade e a ponderar com cuidado os conselhos inscritos no texto.

    A texto atribuído a Pablo Neruda recorre a uma estrutura estilística menos subtil e, diria mesmo, ridiculamente bombástica. O texto está construído sobre paralelismos de construção sintáctica e semântica repetitivas, levados ao limite do suportável, que lhe conferem um tom apocalíptico. A “morre lentamente quem” sucedem-se condições desta “morte lenta”, numa estrutura aberta, que se presta a acrescentos infinitos de todo género.

    No entanto, a maioria das condições que o texto condena dizem respeito a um estilo de vida mais passivo, racional, conformado e desprovido de curiosidade intelectual: “não viaja”, “não lê”, “escravo do hábito”, “televisão o seu guru”, “evita uma paixão”, “os pontos sobre os iis”.

    Neste caso, a identificação com o leitor faz-se também através do senso comum, visto que ninguém se vê a si próprio como conformado e acomodado, mas inclina-se a heroicizar o seu quotidiano, justificando como inevitável o próprio comodismo. Mas, ao mesmo tempo, o texto finge ignorar que um certo grau de adaptação e rotina é também necessário para uma vida em sociedade. Deste modo, o texto prefigura-se como um texto moralista, destinado a alimentar uma imagem idealizada da vida, sendo fácil para o leitor aplicá-lo parcialmente a si próprio, mas cabalmente à massa dos “outros”.

    O terceiro e quarto textos desta série – há outros, mas estes serão suficientes –apresentam maior complexidade e subjectividade que os anteriores.

    No caso da Marioneta, há mais empenho na liricização dos conselhos, que se tornam menos imediatos e mais subjectivos: “escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse”.

    Pelo contrário, os conselhos de Sunscreen são de tal modo pragmáticos que o texto ganha um certo humor: “Sing”, “Floss”, “Stretch”.

    No entanto, ambos fazem a apologia do momento, das sensações, da natureza e da vida sem planos, constrangimentos ou preocupações: “Enjoy your body”, “viveria enamorado do amor”.

    Aqui assenta, julgo eu, o que faz correr e perdurar estes textos: a imagem idílica e despreocupada da vida que proporcionam. Para um enervado trabalhador ou para um entediado doméstico que abre os seus e-mails, estes textos funcionam como escapismo, espelho e sensação de superioridade. Ao descreverem uma vida despreocupada, fazem o leitor sentir que essa vida é possível, existe e traz felicidade. Ao admitir que alguns dos conselhos seriam bons para si, o leitor considera o texto importante para si próprio, mas ao não se reconhecer a si próprio em algumas das condições condenadas e reconhecer “o outro” sente-se superior e o comprazimento samaritano leva-o a reenviar o texto para amigos e conhecidos para que eles aprendam.

    Deixem-me reforçar a questão do reenvio. Ao sermos nós a revelar o texto a outrem, sentimo-nos um pouco autores daquele, sentimos que somos nós que estamos a dizer aquelas palavras “sábias” a quem nos rodeia. Ao mesmo tempo, sendo o texto assinado por outro, evitamos o sermão directo e não nos expomos como pregadores e moralistas.

    Aqui assenta o grande trunfo dos textos reenviados: agradam duplamente. Porque dizem o que já conhecíamos, e logo não nos ameaçam. Porque nos permitem partilhar com os outros o “saber” que é nosso, mas que preferimos não admitir como nosso.

    Julgo que este mecanismo é verdadeiro para grande parte dos textos que continuam a circular na internet: tanto os de auto-ajuda, como os politizados, os anúncios de vírus, os pedidos de ajuda, os casos verídicos e, de uma forma mais básica e óbvia, as promessas de dinheiro ou prémios grátis.

    Na próxima semana concluo esta série com uma análise do papel do autor.

    André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa (2)

    18 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me ao ler um pouco mais de informação e opiniões sobre a questão da TLEBS (o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa tem bons links para perceber melhor a questão, com os documentos legais que criaram esta experiência pedagógica e com os artigos de opinião que têm saído nos jornais). E decidi partilhar convosco, depois da dobra, alguns links e impressões sobre o assunto.

    No momento em que escrevo, parece-me, há um sério problema pedagógico em curso, prioritário até em relação à avaliação que se faça da nova terminologia. É o de saber se se pode levar ao fim a própria experiência pedagógica em que ela aparece (que deve, por lei, decorrer até ao ano lectivo de 2007-2008). O fogo sobre a TLEBS tem sido tão cerrado que se criou hoje uma situação difícil de sustentar pedagogicamente, a não ser que o Ministério da Educação clarifique imediatamente a sua posição sobre o assunto, como deveria fazer e não tem feito. Tem dado sinais contraditórios que não satisfazem nenhuma das posições em confronto e afectam, evidentemente, a credibilidade da experiência pedagógica no próprio momento em que ela está a ser feita. 

    Por outro lado, parece a um leigo como eu — apesar de tudo, professor de língua portuguesa para estrangeiros e não mais leigo do que outros que têm participado no debate — que existem esclarecimentos importantes dados por alguns dos autores da TLEBS (por exemplo neste, neste e neste artigos). E que sublinham, com razão, a confusão mediática entretanto criada em relação ao estatuto da experiência pedagógica, destinada a actualizar e normalizar parte da (muitas vezes incoerente) terminologia linguística actual. É claro que os propositores dos novos termos linguísticos e o Ministério não foram claros a passar a sua mensagem e por isso têm responsabilidades na criação dessa confusão. Mas os críticos da TLEBS, ao satirizarem a sigla (tornando-a pejorativa, sinónimo de mau português vindo dos próprios professores de português) e ao transformarem um instrumento pedagógico destinado a orientar os professores e os documentos do Ministério (é o que diz a portaria do governo do PSD/PP que instituiu a TLEBS) numa nova ortodoxia gramatical pronta a ser decorada pelas criancinhas portuguesas, pobres coitadas abandonadas, lá deram o seu contributo para mistificar e muito a questão. 

    (Acho graça que quem se opõe à nova terminologia exija o “fim das experiências pedagógicas não autorizadas em crianças“ e “um ensino de qualidade, científica e pedagogicamente válido e validado“ (itálico meu). “Não autorizadas“ por quem? “Válido e validado“ por quem? Pelos pais? E por que mais outras figuras tutelares? Os professores têm a obrigação de fazer experiências pedagógicas com as nossas criancinhas, é para isso que lhes pagam. Não sabiam?)

    A elaboração da nova terminologia foi iniciada em 1997 e teve, ao que parece, ampla participação de professores de português pelo país inteiro. Estes professores deveriam merecer um bocadinho de mais confiança da nossa parte, tanto mais que têm manifestado abertura para reavaliar a experiência, ao fim dos três anos que ela deve durar, em função das críticas que têm sido feitas. Seria bastante estúpido deitar abaixo todo o trabalho de anos por causa de uma má sigla e de uma colecção de citações reduzidas a uma caricatura.

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    Jorge Palinhos: Gramática para principiantes

    11 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da pen-drive com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana.

    Todo o português está dominado por uma nova terminologia. Todo? Não, um grupo acérrimo de polemistas, opinion-makers, pais consternados e escritores enfurecidos luta ainda e sempre contra a invasão.

    De um lado afirma-se estar a antiga terminologia desactualizada e errónea, sendo necessário actualizá-la e corrigi-la, pois não conhecendo os “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção“ é impossível pedir um quilo de carne de novilho no talho. Do outro lado, acena-se com pais baralhados, com o “ódio dos linguistas à literatura”, com a impossibilidade de se compreender um relato de futebol sem se ter identificado os argumentos de catorze sermões eclesiásticos do séc. XVII, com o fim da língua portuguesa em geral e da civilização cristã do Ocidente em particular.

    Nesta guerra sangrentas batalhas se travam entre o “complemento circunstancial” e o modificador”, com inúmeras baixas a registarem-se entre “pronomes” e “quantificadores” de ambos os lados.

    Passa-se isto na Gália?
    Não.
    Em Portugal.

    Noutras paragens, o respectivo governo encomenda um estudo a especialistas sobre a reforma e melhoramento do ensino da gramática.
    Estes produzem um relatório onde se recomenda que a gramática seja ensinada à margem do ensino da literatura e se esboça uma escala de progressão do ensino da gramática: no infantário ensinar a ver uma frase como um “palco”, onde há “actores”, “acções” e “cenários”; no nível seguinte aprender a distinguir as partes da frase e para que servem; no segundo ciclo a distinguir as classes de palavras; no terceiro aprender a identificar as classes de palavras e suas funções na frase; no secundário descobrir os mecanismos com que se constroem textos.

    O relatório faz a apologia da redução ou eliminação do jargão nos níveis iniciais, para que os pais possam ajudar os filhos nos primeiros passos, e constata que o objectivo das aulas de gramática não é formar linguistas nem fossilizar o ensino, mas permitir que os alunos aprendam a usar a língua, a expressar-se e a compreender os discursos e textos que os rodeiam, para o que, entende o relatório, mais proveitoso é o estudo da gramática que a decomposição métrica de cantigas de amor medievais.

    Acontece isto em Portugal? Não, na França.

    Estes gauleses são todos malucos.

    P.S. – Eis o relatório: http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf

    André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa

    11 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da Educação, a TLEBS é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, ela transforma-se, quando vituperada pelo grupo dos Convencidos da Vida (não vou dar nomes, são as siglas do costume), em Tremenda Ladaínha sobre a Educação que nos Brutaliza e Satura. TLEBS também rima com plebs, a massa pobre e ignara dos que estão de fora, aqueles com quem os Patrícios da opinião recusam partilhar a cidadania deste quinhão. Tudo isto é uma longa história, com muitas barbas em Portugal.

    Longe de mim querer dizer que o único discurso legítimo sobre a educação é o dos especialistas (a ditatura tecnocrática de que o Rui falava nesta crónica). Mas quem bota discurso sobre educação tem pelo menos de fazer um esforço para se informar, para aprofundar o assunto, para fazer propostas, para ajudar. Numa palavra, para meter a mão na massa. Mas para isso é preciso acreditar minimamente numa tarefa educativa comum, o que me parece estar claramente longe dos horizontes dos Convencidos da Vida. É muito mais fácil afunilar tudo numa uma discussão ácida sobre terminologia e siglas. Fica tudo na mesma, e no fim a culpa é do ministério e dos professores.

    Para meter a mão na massa, é preciso ir além das siglas e falar de pedagogia, um assunto que me parece urgentíssimo, em qualquer país ou geração, e que raramente se discute em concreto, mesmo (sobretudo?) entre os professores. Um assunto que dá (ou devia dar) imenso trabalho. Um assunto que vai desde o pré-escolar à universidade. Um assunto em que nunca nada está adquirido. Um assunto que tem a ver com planos curriculares (como defendeu o Rui no texto citado), com métodos de avaliação, mas também, e talvez sobretudo, com perceber, de forma prática e inteligente, como aprendem hoje os alunos, como é que eles entendem o que lhes transmitimos, de que modo é que podemos ajudá-los a serem mais cultos e de que modo é que, com isso, ficamos nós próprios mais cultos. Para a semana, com a vossa paciência, vou tentar desenvolver um pouco isto.

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    Pedro Vieira: “never trust youtube, cosmo kramer”

    5 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    Pedro Vieira: Never trust youtube, Cosmo Kramer
    Pedro Vieira: “never trust youtube, cosmo kramer”

    Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (3.ª parte)

    5 Dezembro 2006 | por Rui Tavares

    [nota de Rui Tavares: por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.]

    Quem terá escrito a Ilíada e a Odisseia? Homero, dizem os antigos e muitos contemporâneos. No entanto, em grego “homero” significa “refém”. Os reféns eram os filhos dos prisioneiros de guerra que, sendo dúbia a sua lealdade, estavam isentos de participar nas batalhas. Por isso, era-lhes frequentemente entregue a responsabilidade