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	<title>cinco dias &#187; Rui Tavares</title>
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		<title>Ideias perfeitas</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jul 2008 09:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/29/ideias-perfeitas-por-rui-tavares/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma alternativa é alojar cada família para casas a custos controlados, em bairros comuns, e tratar com as mesmas responsabilidades quem tiver acesso a essas casas, sejam eles pobres, classe média ou jovens casais. Em vez de enfiar as pessoas em depósitos de pobres e as crianças em escolas para onde os professores não querem ir, os serviços, o comércio e as escolas que já existem servem toda a gente.</p>
<p>Naturalmente, há quem também não goste desta ideia, que apresentei numa crónica da semana passada. Rui Ramos, nas páginas deste jornal, ataca-a como “experimentalismo” que faz dos pobres “cobaias” e “carne para canhão”, colocando-os “à mercê dos funcionários” que exigem contrapartidas a quem usufruir das casas (manter os filhos na escola, cuidar das casas, pagar as rendas ou prestações, não armazenar armas ilegais) — isto como se alguém fosse obrigado a aceitar e alguma casa viesse sem contrapartidas.</p>
<p>Com Rui Ramos, tudo se passa como se houvesse vinte mil modelos disponíveis mas não tivéssemos de dizer qual defendemos. Eis afinal a única ideia perfeita neste país. Mas é bom que as pessoas — a começar por Rui Ramos — entendam que não ter nada para apresentar também tem custos.</p>
<p>Não saímos da estaca zero. Continuamos a poder optar pela mistura social na cidade, como fazem muitas cidades do mundo desenvolvido, com vantagens e inconvenientes. Ou prosseguir com o bairro social como fazem outras, sabendo que vamos ter de o acompanhar e nele investir durante décadas. Mas há mais opções. Podemos voltar ao modelo de uma cidade envolta por uma cintura de bairros de lata, onde havia os mesmos problemas de hoje e mais alguns. Ou evoluir para o modelo do Rio de Janeiro: condomínios de luxo no sopé do morro e favelas na encosta, onde teremos os mesmos problemas de hoje e muitos mais ainda.</p>
<p>Para Rui Ramos, pelo contrário, a única ideia genial para a pobreza é não fazer nada. Pensará ele que nunca foi experimentada?<span id="more-3859"></span></p>
<p>***</p>
<p>Já agora: depois do exercício, sobram umas linhas sobre “responsabilidade pessoal”. Pois bem, o que é a responsabilidade pessoal para Rui Ramos? É simples: a responsabilidade pessoal é uma coisa estupenda que o autor acha que deveria ser exigida aos outros.</p>
<p>Mas como descreveríamos, por exemplo, a responsabilidade pessoal de alguém que participa num debate público? A rectidão, a honestidade e a franqueza são a basezinha obrigatória e traduzem-se nisto: respeitar a inteligência do leitor e dar-lhe a informação suficiente para que ele possa decidir sozinho.</p>
<p>Manipular o leitor seria sempre mais fácil e, muito francamente, é o que Rui Ramos faz. Embora se ocupe exclusivamente da crónica que eu escrevi, nunca a cita nem refere directamente, vedando aos leitores uma simples comparação — nem sequer diz com quem fala, para lá de descrições nebulosas como “descendentes de Afonso de Albuquerque”. Com o jogo escondido, o que o deixaria a salvo de uma resposta, não há limites: o que eu escrevi pode ser retorcido e distorcido até onde lhe dá mais jeito.</p>
<p>É preciso ser o contrário disto, que é a forma mais velha do que passa por debate em território nacional e nos deixou em herança um panorama intelectual mesquinho, enfatuado e pouco corajoso. A nossa elite conservadora nunca gostou de jogar em terreno aberto e com argumentos à vista de todos.</p>
<p><a href="http://static.scribd.com/profiles/images/726xl00ochqte-full.jpg" target="_blank"><br />
</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Adeus, Iracema</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 20:55:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a Blitz, e que eu deixo aí abaixo. É também o meu último &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/adeus-iracema/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a <i>Blitz</i>, e que eu deixo aí abaixo.</p>
<p>É também o meu último contributo como editor para o 5dias. Como vocelências devem ter reparado, não bloguei com a quantidade e a qualidade que este sítio merecia, muito menos como mereciam os meus colegas dos outros dias que estiveram uns furos acima em ambas as categorias. Orgulho-me, contudo, de ter contado com a colaboração de três excelentes <i>bloggers</i> em texto e imagem: o Jorge Palinhos, o Pedro Vieira e o André Belo. O Jorge, o Pedro e o André são três valores seguros em qualquer projecto e poderão continuar a colaborar aqui no 5dias, se eles e os outros amigos o desejarem. Eu também não me desligarei do projecto. Tenho aqui amigos e bastante confiança na ideia com que fundámos este espaço e nas suas possibilidades. Mas, pelo menos para já, <a href="http://ruitavares.weblog.com.pt">o meu blogue pessoal</a>, mesmo em jeito modesto, chega-me e sobra-me.</p>
<p>As segundas-feiras passarão a ser editadas por uma nova e fulgurante contratação, que será revelada na próxima semana. Continuem a passar por aqui nos dias úteis.</p>
<p>E agora, <b>Paciência Iracema</b>.</p>
<p align=center><object width="425" height="350"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/qG_hKeFtSF8"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/qG_hKeFtSF8" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"></embed></object></p>
<p>É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. A musiquinha é uma curta obra-prima ternurenta e macabra. Isso mesmo: ternurenta e macabra ao mesmo tempo. É, também, uma letra supremamente equilibrada: nem excessivamente piegas nem maldosa, apesar de ser uma das raras músicas da história da humanidade — talvez a única — que tenta responder filosoficamente à seguinte pergunta: que fazer quando a nossa noiva é atropelada mortalmente a vinte dias do casamento?</p>
<p>Para quem não conhece, aqui vai uma descrição abreviada. No início, o cantor dirige-se a uma mulher chamada Iracema, chamando-lhe o “grande amor” da sua vida, como em qualquer banal música romântica. Logo notamos que há qualquer coisa de estranho quando o cantor recorda o aviso que costumava dar a Iracema, “cuidado ao atravessar essas ruas”, um tema inesperado numa declaração de amor. “Cuidado ao atravessar essas ruas, eu falava, mas você não me escutava não; Iracema, você &#8216;travessou contramão”. Aí entendemos a segunda coisa bizarra nesta música: Iracema já morreu, e toda a letra é o diálogo imaginário entre o cantor e a sua — como diria Tim Burton — noiva-cadáver. Mas para quem acha que a história já é estranha que chegue, vem agora outro pormenor absurdo: o cantor dirige-se à sua amada para pedir desculpas porque, como homem descuidado e trapalhão que é, perdeu o retrato dela. Restam-lhe então, como lembranças do grande amor da sua vida, apenas as meias e os sapatos recuperados no lugar do acidente (“Guardo somente suas meias e seus sapatos. Iracema, eu perdi o seu retrato.”). As meias e os sapatos?! Mas então esta música é para rir ou para chorar? Precisamente, nem uma coisa nem outra. Quando nos damos conta da profunda tristeza da história, a letra dá uma guinada absurda. E quando a ridícula referência às meias e aos sapatos quase nos dispara uma gargalhada, o cantor pede desculpa à amada morta por ter perdido o retrato dela, e aí quem consegue rir de um homem que no futuro terá dificuldade em lembrar-se do rosto do grande amor da sua vida? A coisa perde a piada, apesar de toda a história ser divertidíssima. É tão desconcertante quanto isto.</p>
<p>***</p>
<p>Com a combinação certa de palavras-chave, é fácil encontrar na internet — vocês sabem do que eu estou a falar — essa gravação de 1978 em que Adoniran Barbosa e Elis Regina cantam Iracema no bar da Carmela, no bairro italiano da maior cidade brasileira. A cena também em si é absurda, porque esta música de fazer chorar as pedras da calçada é acompanhada por uma roda de samba saltitante como de costume, isto à volta de uma mesa e dos seus copos de cerveja de uma alegre noite de bar. Mas Adoniran Barbosa olha em direcção nenhuma com ar seríssimo e absorto, à espera da deixa para a sua parte falada — e não cantada — da música, pronunciada num sotaque paulistano com exagerados erros de português, também para chamar a atenção e o rídiculo sobre a sua pobre personagem. E diz:</p>
<p>(Iracema, fartavam 20 dias Pra o nosso casamento Que nóis ia se casá Você atravessô a São João Vem um carro te pega E te pincha no chão O chofer não teve curpa, Iracema. Você &#8216;travessou contramão Paciência, Iracema, paciência!)<br />
Haverá coisa mais incoerente? No início, parece que a letra toma uma direcção melodramática (“fartavam 20 dias pra o nosso casamento”), mas logo descamba para os detalhes mórbidos, brutais e exagerados (“vem um carro te pega e te pincha no chão”). Para mim, no entanto, nada é mais absurdo e, ao mesmo tempo, mais encantador do que a referência ao “chofer” que “não teve curpa”: que tipo de homem seria capaz de, evocando a amada morta, estar preocupado em explicar-lhe se o condutor do automóvel que a matou teve ou não culpa do acidente? Talvez o mesmo tipo de homem que perdendo o retrato dela guarda como recordação as suas meias e os sapatos&#8230;</p>
<p>***</p>
<p>Chegado a este ponto, é já evidente que Adoniran Barbosa, actor, cantor e compositor que nasceu em 1912 e morreu em 1982, dominava como poucos todas as manhas do efeito cómico: as suas mudanças de ritmo, as súbitas viragens na narrativa, o efeito de acumulação de absurdos. Mas esse embrulho cómico nas suas músicas traz consigo uma atitude profundamente filosófica a que eu me referia no início. Essa é a que aparece na última frase do seu monólogo. Perante a brutalidade absurda da existência, que lhe rouba a noiva e lhe faz perder o seu retrato, qual é a resposta que Adoniran dá à adversidade? Raiva? Revolta? Rebeldia? Não: apenas paciência. “Paciência, Iracema, paciência”.</p>
<p>A este tipo de atitude chama-se por vezes de fatalismo, e tem pouco de surpreendente na cultura portuguesa uma vez que é um sentimento dominante no género musical do fado, cujo nome tem precisamente essa origem do fatum latino, o destino. Mas tal como por vezes há fados melodramaticamente absurdos e divertidos em Portugal (o Fado da Mãezinha Tuberculosa&#8230;) também aqui encontramos um samba fatalista em ambiente brasileiro. Poderíamos explorar as correntes subterrâneas que ligam estes dois géneros musicais e a cultura dos seus respectivos países, mas parto do princípio de que este tema já está bastante explorado. Prefiro antes chamar a atenção para a longa história do fatalismo de que, de certa forma, encontro ecos naquela música de Adoniran Barbosa.</p>
<p>***</p>
<p>Um filósofo grego antigo, Pirro de Eleia, era fatalista porque achava que nada se podia saber. Diz-se que o seu cepticismo era tão radical que, ao saber que Sócrates tinha dito “só sei que nada sei”, respondeu “pois eu nem isso sei”. Mais tarde um dos seus discípulos, que tinha o belo nome de Sexto Empírico, resumiu a filosofia pirronista numa fórmula sucinta:</p>
<p>Nada se pode saber — nem sequer isto.</p>
<p>Os pirronistas defendiam que, uma vez que nada se podia saber, o melhor era não acreditar em nada. A via mais sensata consistiria então em ir abandonando todas as crenças e até todas as opiniões forte sobre as coisas até chegar a um estado em que nada nos provoque inquietação alguma. A esse estado chamavam de imperturbabilidade, ou seja, a capacidade de não nos perturbarmos com nada. O nome em grego era ataraxia e há quem o compare a uma espécie de nirvana budista. Eu comparo-o antes à atitude de Adoniran Barbosa na sua música: não culpar o chofer do carro, recolher as meias e os sapatos da noiva, e conversar calmamente com ela através de um sambinha, como quem diz, é preciso levar a vida. A noiva atravessou em contra-mão. Já&#8217;não volta mais. Paciência.</p>
<p>***</p>
<p>Há muitos fatalismos diferentes, e não temos aqui espaço para todos. Um consiste em dizer, como vimos, que é tudo tão absurdo e incerto que não adianta tomar decisões. Outro fatalismo, porventura mais conhecido, consiste em dizer que tudo está pré-determinado e que, portanto, também não adianta tomar decisões. Conta-se que, na Antiguidade, certos guerreiros fatalistas andavam descuidados pelo campo de batalha, achando que não valia a pena protegerem-se uma vez que morreriam apenas no momento predestinado e não antes. Para quê usar armadura? Hoje, todavia, não se leva a filosofia tão a sério, até porque todos estes fatalismos têm uma coisa em comum: as suas raízes são muito antigas, sempre de um tempo em que não havia automóveis nem avenidas largas. E os automóveis são um argumento importante contra uma atitude de imperturbabilidade fatalista, como lembrou o físico Stephen Hawking quando escreveu:</p>
<p>“Reparo que mesmo as pessoas que afirmam que tudo está predestinado e que não há nada a fazer contra isso não deixam de olhar antes de atravessar a rua”</p>
<p>Ou seja, precisamente aquilo que deveria ter feito Iracema.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: apocalypto</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 19:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, México [clique para aumentar numa nova janela]"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>E se contarmos com os gatos? Como o &#8220;Não&#8221; ainda pode vir a ganhar</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 19:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No Blogue do Não, no artigo de Luís Delgado no DN, na reacção de Luís Filipe Menezes, nas respostas do CDS e do &#8220;Não&#8221; (mas, vá lá, o PSD e Marques Mendes evitaram esse caminho) aparece timidamente um tema: o &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/e-se-contarmos-com-os-gatos-como-o-nao-ainda-pode-vir-a-ganhar/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No Blogue do Não, no artigo de Luís Delgado no DN, na reacção de Luís Filipe Menezes, nas respostas do CDS e do &#8220;Não&#8221; (mas, vá lá, o PSD e Marques Mendes evitaram esse caminho) aparece timidamente um tema: o de que se juntarmos os abstencionistas ao voto do &#8220;Não&#8221;, há uma maioria de pessoa que se opõe à despenalização do aborto. A ideia é tão hilariamente absurda e desajeitada que está para lá de qualquer comentário. Mas os cenários ainda vão mais longe: Luís Filipe Menezes e Pedro Picoito contam com aqueles que não poderão nunca vir a votar, porque não nascerão: os fetos&#8230; Bagão Félix poderia até aduzir que se trata do voto do nascituro não concebido, que garantiria naturalmente a vitória do &#8220;Não&#8221;. E porquê parar por aí? Não viriam esses fetos a ter filhos (eleitores do &#8220;Não&#8221;, pois claro)? E os netos dos fetos?</p>]]></content:encoded>
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		<title>E subitamente Portugal perdeu a graça</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 13:58:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/e-subitamente-portugal-perdeu-a-graca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um jornal e vê-se, como vencedores, toda a esquerda uma parte da direita liberal que ainda tem alguma consequência no seu liberalismo. Perdedores: a Igreja Católica, o PSD, o CDS, Marcelo Rebelo de Sousa (este em grande), Bagão Félix, Paulo Portas.</p>
<p>E se o nosso trabalho tiver acabado? Resta emigrar para a Polónia.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: channel 4 madras</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 13:57:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;. [nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/pedro-vieira-channel-4-madras/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, Madras [clique para abrir numa nova janela"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;.</i></p>
<p><i>[nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas desculpas.]</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Transistor</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 23:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/transistor/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?</p>
<p>Seria errado dizer que o rádio iluminava a noite, mas antes que se infiltrava pela escuridão encontrando pequenos clarões de sons compreensíveis, retraindo momentaneamente o vasto ignoto, como um par de faróis num carro solitário. Passavam programas para camionistas acordados na estrada. O rádio de onda média apanhava estações espanholas com flamenco, relatos de touradas, noticiários. Espanha: havia um lugar chamado fronteira e depois dela as pessoas falavam outra língua — todas! — das crianças aos velhos. Mas havia mais. Havia Marrocos. Com sorte, nas noites favoráveis, encontrava-se uma daquelas estações com sumptuosa música oriental sinfónica, instrumentos de arco sinuosos, descendo e subindo languidamente as escalas. Depois um locutor interrompia a emissão para dizer umas palavras em árabe, não sei se eu já sabia que havia uma língua chamada assim, aquelas articulações guturais e vogais bruscamente interrompidas, uma espécie de regato brotando e dimanando por uma paisagem seca e acidentada. Mas às vezes — e isto era completamente diferente — ouvia-se falar a mesma língua por uma voz velosa de mulher, balsâmica e sedante, antes de entrar na noite sem estrelas com mais uma daquelas orquestras douradas. Eu adormecia.</p>
<p>Marrocos era um reino. O rei chamava-se Hassan II. Tinha cidades chamadas Casablanca, Fez, Tânger. Isso vinha na enciclopédia em três volumes, comprada às prestações. O atlas universal tinha as bandeiras de todos os países do mundo; alguém tinha assinalado com um pontinho os países comunistas e com um traço os países capitalistas, para fazer as contas à guerra fria e às medalhas nos jogos olímpicos.</p>
<p>A televisão foi muito tempo a preto e branco e, seja como for, tinha só dois canais. Tinha horário: começava ao fim da tarde e desligava-se depois do hino nacional. Eu às vezes implorava-lhe que me desse mais qualquer coisa; carregava em todos os botões e percorria UHF acima e VHF abaixo nessa vã busca de um surpresa. Uma noite, com todos já deitados, consegui apanhar a Radiotelevisión Española, por detrás de uma névoa de pontinhos brancos. Não voltou a aparecer.</p>
<p>Não havia comparação possível com a telefonia. Em casa de não sei qual tia havia uma enorme, com nomes de cidades dispersos pelo mostrador. Aquilo sim era o mundo: Johannesburg – Cairo – Leningrad. De regresso a casa no automóvel, pela Estrada Nacional nº 1, eu encostava a cabeça ao vidro do carro e via as luzes ao longe. O que eu via nem sempre eram cidades mas terreolas somente. E cada uma daquelas tremeluzindo na distância devia ser como essas cidades do mostrador da telefonia. Cada uma delas deveria cintilar contra o negrume à força da luz eléctrica, e certamente com várias vezes mais força do que Castanheira do Ribatejo ou Vila Nova da Rainha. Algumas delas teriam forçosamente de ser clarões enormes, estelares, belos quando vistos de cima com fieiras infindas de candeeiros nas ruas como gotículas de humidade numa teia de aranha. Essas cidades teriam prédios grandes e elevadores com muitos botões; e desses prédios grandes sairia gente para entrar nos automóveis; essa gente seria também ela grande, homens adultos com chapéus e sobretudos, mulheres com casacos de peles e os lábios pintados. E por vezes famílias inteiras, com cães de estimação.</p>
<p>E a questão então era a seguinte: poderia numa dessas famílias acabadas de entrar agora para o seu automóvel ir um miúdo com a testa encostada ao vidro embaciado de vapor, e poderia esse miúdo estar a pensar em cidades grandes do outro lado do mundo? E poderia ele imaginar a hipótese de numa dessas cidades haver um miúdo como ele? Quem seria esse miúdo que ele imaginava existir — conseguiria descobrir que era eu mesmo? — ou inventaria um terceiro? E se havia um terceiro porque não haveria um quarto? A propósito: um em cada quatro humanos era chinês. Poderia então haver um outro rapaz igualzinho a mim na China, um irmão gémeo de mim mas em chinês, e teria ele consciência da possibilidade da minha existência? E se em vez de um miúdo fosse uma miúda, quer dizer: não poderia antes acontecer que do outro lado do mundo eu fosse o meu exacto oposto de tudo quanto eu aqui era? Teria eu essa irmã chinesa do outro lado do mundo? Estaria ela a pensar no mesmo que eu neste preciso momento? Viria eu a conhecê-la? E se sim — agora é levemente embaraçoso — poderíamos vir a casar?</p>
<p>Tenho hoje a certeza que muitas crianças estavam ao mesmo tempo perguntando-se as mesmas coisas, e se não eram exactamente as mesmíssimas, a verdade é que talvez sempre se tenham feito perguntas que não são em si muito diferentes destas. O que me intriga agora é saber quantos desses meus companheiros e companheiras se lembram de um dia as terem feito. O que farão eles agora? Terão certamente morrido alguns; e quantos dos sobreviventes terão já tido filhos? Quais desses filhos já se terão perguntado as mesmas coisas? Quantos serão na proporção total das crianças de olhos esbugalhados?</p>
<p>Quando penso que bastava um rádio de pilhas para tudo isto, vejo que tão certo como ter tido um irmão gémeo chinês, é termos ambos tido um irmão mais velho no Japão. Porque foi lá que começaram a substituir-se as rádios antigas dos velhos tubos de vácuo por novíssimas, agora de transístores, e por um momento conhecidas apenas por esse nome. Os transístores aguentavam-se bem com baterias apenas. Eram pequenos e poupados, passado pouco tempo começaram também a ser baratos, e não deixariam nunca mais de se tornar cada vez mais baratos e pequenos e poupados. Hoje imprimimo-los aos milhões em cada bolacha de silicone dos circuitos integrados, junto com díodos e condensadores e resistências. Vistos de cima parecem cidades carregadas de prédios e casas e estradas paralelas, como as nossas cidades que cresceram juntando os tentáculos umas às outras, futuramente envolvendo o mundo inteiro, perpetuamente acesas num dia constante.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O fiasco do milénio</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 23:25:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/o-fiasco-do-milenio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.</p>
<p>Olho para os rodapés da minha casa. Que dificuldade haveria em instalar-lhes umas dobradiças oscilantes para, no momento certo, deixarem passar os ratóides? Eu chegaria a casa esvaziando os bolsos, deixando cair moedas, papéis diversos, poeiras submilimétricas, parafusos encontrados na rua. Os ratóides levam tudo para dentro, separam o lixo do resto, sabem que facturas se declaram aos impostos, arquivam-nas no lugar certo, colocam o material indeciso num tabuleirinho, para minha consideração, que guardam depois inobservado. Transcrevem os números de telefone anotados em bilhetes de cinema. Deixam as chaves no prego da porta. Aquelas paredes têm espaço que chegue para um exército de ratóides e mais ainda: eles podem trazer-me de lá dentro o que eu quiser. Chinelos. Jornal. Preservativos. Corta-unhas.</p>
<p>Meus amigos, eu li as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Li até o livro se desfazer. Li até me mandarem apagar a luz. Várias vezes. E li “Virão Chuvas Suaves”, o melhor conto do livro, vezes incontáveis, em leitura mental, ou em voz alta, ou imaginando uma versão cinematográfica, ou gravando um programa de rádio caseiro. E, tudo contado, sei perfeitamente que em 2006 já deveria haver ratóides que me limpassem a casa. E já nem sequer teimo que tudo isto se passaria em Marte, depois de um cataclismo nuclear, terrível mas necessário, que levara todos os gajos chatos do liceu, mas também algumas das miúdas bonitinhas e doces, memoráveis ao meu coração sofrido.</p>
<p>No fundamental, quero dizer que o milénio é a grande desilusão da minha vida. Fui dolorosamente envergonhado: o milénio é a fraude do milénio.</p>
<p>Consideremos o dia em que fui para o hospital com uma apendicite. O augustus imperator do Ocidente era um homem  chamado Bush. O primeiro-ministro de Portugal chamava-se Cavaco Silva, professor de educação física — ou moral e religiosa, ou trabalhos oficinais — se a memória não erra. O ditador da Líbia chamava-se Muhammar Kadhafi, ou Gadhdhaffyi (há mais de trinta alternativas). A questão era saber se Bush devia bombardear  Kadhafi, e que cara, no seu registo fisionómico limitado, deveria Cavaco fazer quando apoiasse o ataque. Passaram os anos. Bush foi substituído por um filho que é uma cabal refutação à teoria de Darwin. Ninguém sabe o que foi feito de Cavaco Silva. Kadhafi continuou a sua carreira a solo, mas perdeu credibilidade como vilão, e já foi substituído por dois ou três gajos diferentes — o último ainda à experiência.</p>
<p>Tenho, como troféu de batalha, a cicatriz destes anos. Está numa posição rara em apendicites, dois ou três centímetros acima do lugar normal. Quando acordei da anestesia, pedi que me trouxessem livros de ficção científica: Stanisław Lem, Karel Čapek, Ray Bradbury, Robert Heinlein, os irmãos Strugatski, Harry Harrison, John Wyndham. E um ou outro policial para desenjoar. Os pais, os irmãos e os primos corresponderam. Um professor do Técnico, que tinha sido operado à vesícula, emprestou-me um dos seus Isaac Asimov. Nas camas em frente à minha, um comunista e um saudosista da ditadura discutiam política sem conseguirem ver-se, intercalados por um homem em coma, ou talvez já morto, que supúnhamos encontrar-se por detrás daquela cortina de plástico verde-claro. No canto oposto um militar da Guarda Nacional Republicana, em severa privação alcoólica, atirava as pantufas contra a janela, tentando atingir gatos invisíveis para a restante enfermaria. Um açoriano mostrava com orgulho a sua cicatriz, grossa como uma corda, que ia da traqueia até à bexiga: “foi revisão geral”, dizia.</p>
<p>Eu ia lendo os meus livros, que narravam acontecimentos que viriam a passar-se no futuro, especialmente em torno do ano 2000. À beira do fim, de Harry Harrison [no original, Make Room! Make Room!]: 9 de Agosto de 1999, vivem trinta e cinco milhões de pessoas em Nova Iorque, sem água potável, sem comida e sem papel. Para comunicar, usam tésseras de ardósia distribuídas por um exército de crianças de rua. Regresso das Estrelas, de Stanisław Lem [no original Powrót z gwiazd]: as bibliotecas são colecções de cristais que se copiam de graça e inserem num visor de plástico. A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [no original The Door into Summer]: as pessoas guardam o seu pé-de-meia no banco, congelam-se, e acordam no ano 2000 milionárias, mas potenciais vítimas ingénuas de esquemas preparados pela população acordada, que trata os ressuscitados mais ou menos como nós tratamos os imigrantes. No que diz respeito ao trabalho doméstico — oh, meus amigos — não se preocupem: o Flexible Frank rega o jardim, muda as fraldas do miúdo e prepara cocktails [em português: cacharoletes] com vermute.</p>
<p>É certo que Heinlein escreveu em 1957, Lem em 1961 e Harrison em 1966. O milénio ainda vinha lá longe. Na altura em que eu recuperava da apendicite o tempo já começava a ser apertado. Tínhamos cerca de uma década. Não daria para colonizar Alfa-Centauro mas, que diabo, não se admitia chegar ao ano 2000 sem um robot doméstico.</p>
<p>Nada me preparou, porém, para o que se passou recentemente. Vi uma antologia de Ray Bradbury na livraria, e trouxe-a para casa, mais por nostalgia do que por empenho. Recolhi a minha colecção de Lem quando o autor morreu, em Março passado, para lhe prestar o melhor tributo que um leitor pode prestar. Reli A Porta para o Verão, de Heilein, talvez pela décima vez mas a primeira desde a adolescência, em menos de duas tardes.</p>
<p>E a evidência fulgurante impõe-se: estes livros estão escritos no passado.</p>
<p>Já não posso ler estes livros e projectar-me satisfatoriamente no futuro porque as datas estão lá, aquelas datas, e atrapalham-me. Como ler futurologia passada em 1999? Lembro-me perfeitamente de 1999: não foi assim tão mau. E também não foram assim tão bons dois mil e um, dois mil e dois e por aí adiante.</p>
<p>Tudo bem: tenho a internet, que me faz perder tempo em vez de escrever. Mas quando escrevo, ainda tenho de me sentar a uma cadeira, ainda tenho de premir teclas com dedos. As articulações queixam-se, os músculos exigem levantar-se, preciso de urinar. E onde está o eléctrodo implantado na nuca, mais o transmissor sem fios, que registasse directamente os meus pensamentos? Se precisar de rever o texto, onde está o monitor na lente dos óculos, controlado pelo mover brando da retina?</p>
<p>Lembro-me de ter seis anos e fazer contas para saber que idade teria no ano 2000. Não posso aceitar esta desfeita. Quero saber onde está o estéreo-tanque, televisor tridimensional que me permite contornar o apresentador do telejornal e vigiar a progressão da sua calvície. Onde está a noiva mecânica? Onde está o organizador de matéria e o teletransportador? Onde estão as cidades rotativas, itinerantes e suspensas? Onde estão as cúpulas de controle meteorológico? Onde está calster, a impressora portátil de dinheiro? Onde está o levitador magnético ou o seu rival, o elevador de repulsão gravítica? Onde está a electricidade sem fios?</p>
<p>Estamos prontos.</p>
<p>http://ruitavares.weblog.com.pt</p>
<p>[com um agradecimento especial a João Macdonald pela tradução portuguesa de cocktail.]</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma pergunta directa para uma resposta honesta</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 01:14:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 3 de Fevereiro] Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/uma-pergunta-directa-para-uma-resposta-honesta/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 3 de Fevereiro]
</p>
<p><strong>Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua.
</p>
<p></strong>A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.
</p>
<p><strong>“Concorda com a despenalização&#8230;”</strong>.  A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo de próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bébés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.
</p>
<p>Numa pergunta que começa com aquele “concorda com a despenalização”, os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e anti-aborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem “Sim” à pergunta são “pró-despenalização”. Os que respondem “Não” são “pró-penalização” (ou “anti-despenalização”, o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso.
</p>
<p><strong>“&#8230;da interrupção voluntária da gravidez&#8230;”. </strong>Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo. Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos de aborto. Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta.
</p>
<p><strong>“&#8230;se realizada, por opção da mulher”. </strong>No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.
</p>
<p>No mundo do “Não”, porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. “Por opção da mulher”? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado. Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante “por opção da mulher” ali está.
</p>
<p><strong>“&#8230;nas primeiras dez semanas&#8230;”. </strong>Aborto livre, grita o “não”! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas!  Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre&#8230; Ou o facto de só se poder andar até cinquenta quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade?<br />Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do “Não” mudam de estratégia. Então o que acontece às onze semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema?
</p>
<p><strong>“&#8230;em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”</strong> Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um “estabelecimento de saúde” quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e “legalmente autorizado” quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse. Mas vale a pena notar o que “legalmente autorizado” não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.
</p>
<p>Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a “segunda pergunta” de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco. Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde “legalmente autorizado” significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio.
</p>
<p>Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto.
</p>
<p>Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada. É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei “Sim”. Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A ilusão e a crença</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 18:32:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/29/jorge-palinhos-a-ilusao-e-a-crenca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/curandeiro1.JPG" border="0"></p>
<p>A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.<br/><br/>É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Eug%C3%A8ne_Robert-Houdin'>Jean-Eugène Robert-Houdin</a>, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.<br/><br/>Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Harry_Houdini'>Harry Houdini</a>, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “<a href='http://skepdic.com/ectoplasm.html'>Margery</a>”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.<br/><br/>Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como <a href='http://www.uri-geller.com/http:/www.uri-geller.com/'>Uri Geller</a>, foi <a href='http://video.google.com/videoplay?docid=-3396869920557391806'>James Randi</a>, que em vários episódios do programa <em>Tonight Show</em> desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.<br/><br/>Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e <a href='http://aspirinab.weblog.com.pt/2007/01/pior_que_o_diabo_na_terra.html'>rico</a>) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.<br/><br/>O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.<br/><br/>Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Nostradamus'>Nostradamus</a>, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:<br/><br/>“Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.”<br/>(Tradução minha a partir da versão inglesa)<br/><br/>Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.<br/><br/>As profecias de Nostradamus popularizaram-se em meados do séc. XV, mas quinhentos anos depois os seus sucessores continuam a escrever “<a href='http://astrologia.sapo.pt/Xz22011?prev=diaria&#038;signo=gemeos'>Proteja-se do frio; está sujeito a problemas nas vias respiratórias</a>”, uma profecia dificílima de fazer no pico do Inverno.<br/><br/>Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um <a href='http://www.paulocardoso.com/'>famoso astrólogo português</a>. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós. <br/><br/>É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.<br/><br/>Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.<br/><br/>Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.<br/><br/>Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.<br/><br/>P. S, &#8211; Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: marés vivas</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 03:35:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" alt="Pedro Vieira: Borda d'Água" width="85%" border="0"></a><br/>Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Da vontade de não ser levado a sério</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 03:17:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 28 janeiro] Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize. &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/29/da-vontade-de-nao-ser-levado-a-serio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público </em>de 28 janeiro]<br/><br/> <strong>Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.</strong><br/><br/> No meu tempo de faculdade, a única maneira de ainda ter aulas com o professor José Mattoso era inscrevermo-nos numa cadeira opcional de História das Religiões na Idade Média. Eu fui um dos sortudos que assistiu a essas aulas — e uma em particular é o ponto de partida para esta crónica. Naquele dia o professor comentava um catecismo medieval irlandês e, de passagem, notou como muitas das suas interdições sobre alimentação e sexualidade eram praticamente impossíveis de cumprir, seja pelo seu grau de pormenor, seja pela profusão de dias sagrados (e respectivos interditos) que quase chegavam a ocupar um terço do ano. Tal não nos devia espantar, dizia o professor, pois o cristianismo medieval tem uma relação que se poderia chamar de “dialógica” com o Ideal da lei. O Ideal era para ser aclamado, consagrado, glorificado; não tanto para ser cumprido. Quanto mais próximo do ideal, melhor. Porém, todos nascemos em pecado e vivemos em pecado, tendo a doutrina margem suficiente para cobrir a lacuna entre esse Ideal que está escrito e as práticas de nós todos pecadores aqui em baixo. Aliás, se pensássemos bem, essa relação “dialógica” com a lei sobrevivera muito mais no catolicismo e muito menos no protestantismo, sendo especialmente visível em países como a Irlanda (de que tinhamos ali um vestígio antigo naquele catecismo) e Portugal, onde a relação com a lei era fluida e cheia de folgas. <br/><br/>Espero ter sido fiel ao pensamento do professor Mattoso, e devo desde já deixar muito claro que não faço ideia se ele concordaria com o resto do que vou escrever. Mas o facto é que me tenho lembrado muitas vezes dessa sua lição sobre a natureza “dialógica” da nossa relação com a lei, e nunca tantas vezes como desde que a campanha do referendo sobre o aborto entrou a todo o vapor. <br/><br/>Reparem se grande parte do debate que temos tido não é a tal relação “dialógica” — aqui dúplice, elástica, acomodatícia — em toda a sua glória. Sabemos que a actual lei não diminui o número de abortos; no entanto, há quem sendo contra o aborto insista em ela continuar como está. Sabemos que a lei não é cumprida nem respeitada; no entanto, há quem ache que o grande escândalo social seria mudá-la. Sabemos que a lei prevê penas de prisão até três anos para as mulheres que abortarem; no entanto, os mesmos que defendem a lei parecem estar aliviados por não haver nenhuma mulher presa (apesar de haver mulheres condenadas à prisão com pena suspensa). Note-se, porém, que muitos destes são os mesmos que equiparam o aborto ao homicídio; ora, pergunta-se, como é possível esta intermitência da lógica? Acaso se regozijam quando não se prende os homicidas? <br/><br/>Na verdade, por detrás de tamanha falta de clareza, tem havido uma evolução. Arriscaria dizer que, na prática, já ninguém acha que o aborto de um embrião até às dez semanas é equivalente ao homicídio (e, no entanto, o pároco de Lordelo do Ouro diz que é pior do que o infanticídio&#8230;). Enfim, praticamente ninguém acha que uma mulher deva ser presa por três anos por ter abortado. Chegou até o momento em que grande parte do movimento do &#8216;não&#8217; começa a perceber que a despenalização é uma coisa boa. O bispo de Viseu diz que votaria “só” pela despenalização. O próprio Cardeal Patriarca fala de uma solução política e demonstra abertura para deixar a fórmula definitiva aos juristas — despenalização, descriminalização ou legalização. <br/><br/>Temos então consenso? Ainda não. Ainda não, e mais uma vez teremos de nos socorrer da nossa relação dialógica com a lei, que por vezes desce a caminhos verdadeiramente tortuosos. Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize. <br/><br/>É precisamente pela sua participação dual neste caminho que vai da mesquinhez política portuguesa à maleabilidade da lei que ninguém mais do que Marcelo Rebelo de Sousa, nos vídeos com que tem intervindo no debate do referendo, tão bem sabe compor o discurso mais adequado às suas circunstâncias. Em primeiro lugar, eu até ia a escrever “uma posição”, mas a verdade é que não Marcelo Rebelo de Sousa não tem uma posição: tem uma série delas, mutuamente exclusivas entre si, e crescentemente elaboradas em contradição. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de uma posição; precisa apenas da aparência de uma posição. Não precisa que ela seja clara; pelo contrário, ela é obscuríssima mas envolta numa aparente facilidade, num mecanismo típico de sofista. O seu principal efeito é confundir; mas também não faz mal porque a confusão é precisamente o seu valor acrescentado. <br/><br/>Não sei se Marcelo sabe, ou se é apenas o seu instinto natural que lho diz, que a “confusão” era no início um termo militar (que depois passou para a retórica), sinónimo de “desbaratar os adversários” e “desmobilizar”. Que a intenção é desmobilizar fica evidente ao ver um vídeo de Marcelo em que ele apela à desconfiança crónica dos portugueses para insinuar algo como “esta lei não é cumprida, a próxima também não vai ser, é o costume”. O efeito é claro: assim sendo, para quê dar-se ao trabalho de ir votar? <br/><br/>Mas há mais: acaba por passar a impressão de que neste referendo há, além do “sim” e do “não”, uma espécie de “não de Marcelo” que seria um “assim não”. Para confusão mais perfeita, essa posição seria pela despenalização total (sem limites de tempo!) mas, por uma série encalacrada de pretextos, votaria contra a despenalização. E o que aconteceria se esta atitude vingasse? A prisão continuaria na lei. E o que diríamos quando um juiz (ou juíza) condenasse uma mulher por aborto? Que a intenção não era essa, meretíssimo? E o que diríamos a uma mulher que quisesse abortar em condições de segurança? Que abortasse clandestinamente, sem limites de tempo (nem de preço, nem de risco), porque combinmos todos fazer vista grossa? E quando a lei doesse, — o que como vimos recentemente inevitavelmente acontece —, viríamos chorar-nos por não a ter mudado? Alegaríamos que a lei não quer dizer aquilo que ela literalmente diz? Ou diríamos apenas que, tal como Marcelo, temos uma irresistível pulsão para que não nos levem a sério? <br/><br/>Simplesmente, não existe um “não de Marcelo”. Não existe um “assim não” que seja favorável à despenalização mas que vote contra a despenalização. Nada de confusões: existe apenas uma pergunta “Concorda com a despenalização (por opção da mulher, até às dez semanas, em estabelecimento legalmente autorizado)?”. Quem é pela despenalização vota sim.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Impossible is writing</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:52:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “bbc lança site de treino jornalístico“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/ginasio.jpg" alt="Pedro Vieira: Impossible is writing" width="85%" border="0"><br /><br/><br />Público: “bbc lança site de treino jornalístico“. </p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A arte da ilusão</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:47:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/jorge-palinhos-a-arte-da-ilusao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas porque prefiro ver as obras com o mínimo de ideias feitas possível e só depois confrontar as minhas opiniões com as dos críticos.
</p>
<p>Quando vi o filme <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">O Terceiro Passo</a>, de Christopher Nolan, sabia apenas três coisas: quem era o realizador; que tratava de rivalidades no mundo do ilusionismo profissional de finais do séc. XIX; que o David Bowie tinha um pequeno papel.
</p>
<p>Saí do filme com mais algumas ideias, que me dediquei a comparar com <u>as críticas nacionais e estrangeiras</u>. Surpreendeu-me, no entanto, que o que mais via escrito nelas é que o filme era “um entretenimento agradável sem pretensões a profundidade”.<br />É certo que <em>O Terceiro Passo</em> não tem as mesmas implicações perturbadoras sobre memória e identidade que tinha <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">Memento</a>, o filme que lançou Christopher Nolan para a ribalta. Mas no filme pareceu-me identificar várias linhas de força tudo menos desprezíveis: a necessidade que temos de acreditar em algo que não conseguimos explicar, a necessidade de alguns darem aos outros essa ilusão e o desejo desmedido que move muitos a acreditarem e tornarem aquilo que sabem mero truque e ilusão em modo de vida e justificação para todos os crimes.
</p>
<p>De um lado havia a personagem Borden, disposto a sacrificar a sua família, o seu corpo, a sua própria identidade, em prol de uma ilusão. Do outro, a personagem Angier, que atravessou meio mundo e desbaratou a sua fortuna e a sua ética para tornar possível uma ilusão. E, contudo, ambas as personagens são ilusionistas profissionais, plenos conhecedores de que por de trás de cada coelho fora da cartola está uma verdade simples. Tão simples que, uma vez revelada, todo o encantamento do ilusionismo se perde, pelo que o segredo dessa verdade deve ser protegido como se pedra preciosa fosse. Porém, estarem na posse desse segredo não torna as personagens cínicas, mas antes mais idealistas, fazendo-as ansiar por que a ilusão que constroem deixe de ser truque e se torne verdadeira magia.
</p>
<p>Esta situação surpreendeu-me. Robert Louis Stevenson, entre outros, escreveu, a propósito da literatura, que quem apreciasse a sua magia deveria tentar saber o menos possível das suas roldanas e contrapesos, pois nada estraga mais o encantamento de uma ilusão do que saber como funciona. E, de facto, o senso comum indica que é mais cínico e desencantado em relação a toda a arte ou mistério quem está no seu interior.
</p>
<p>Por outro lado, paradoxalmente, também é o senso comum que diz que os praticantes de qualquer arte são também os mais fervorosos defensores da sua importância. Tal poderá dever-se a puro pragmatismo, mas também é difícil acreditar que alguém devote a sua vida a uma causa sem crer profundamente nela.
</p>
<p>Estes pensamentos erráticos levaram-me para uma arte muito próxima do ilusionismo e, em grande parte, sua antecessora: o charlatanismo, também conhecido por divinação, espiritismo, curas de fé, e muitas, muitas outras coisas, de que falarei nas próximas semanas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O enguiço nacional</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 15:12:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[da Blitz de outubro 2006] Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/o-enguico-nacional/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[da <em>Blitz</em> de outubro 2006]
</p>
<p>Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um coio de ignorantes, aliás sempre foi. É o que dizem senhores e senhoras de ar severo. Não se consegue encontrar um clássico — em lado nenhum — muito menos uma obra menor, como por exemplo <em>O Mandarim</em>. E no entanto. Outro dia comprei <em>O</em> <em>Mandarim</em>, de Eça de Queirós, por um euro. Lá estava ele, um eurinho somente, na banca de jornais. Segundo parece, fizeram uns cem mil e desapareceram todos em poucos dias. Eu fiquei com um.
</p>
<p>Enquanto esperava pela <em>pita shoarma </em>sem salada, de pé em frente ao balcão, fui lendo o resumo na contra-capa. Além de um excerto longo da obra, as informações básicas: novela publicada pela primeira vez em 1880, de estilo fantasioso, foi criticado pelos companheiros realistas de Eça de Queirós, etc. E depois acrescenta-se isto: &#8220;Cento e vinte seis anos depois, Portugal continua lá, mordazmente retratado&#8221;.<br />Já cá faltava esta.
</p>
<p>***
</p>
<p>Cinco segundos de pausa para vos fazer subir três linhas. Reparem naquela maravilha do lugar-comum: dois pelo preço de um. Para começar: &#8220;não sei quantos anos depois, Portugal continua lá&#8221;. Evidentemente. Portugal continua. Como poderia não continuar, sempre o mesmo século após século após século? O que valia para 1880 também vale certamente para 2006. Portugal vê-se uma vez e está visto.
</p>
<p>Depois vem este &#8220;mordazmente retratado&#8221;, que não poderia faltar tratando-se de Eça de Queirós, mas poderia ser um &#8220;genialmente satirizado&#8221; ou um &#8220;friamente analisado&#8221;, como poderia ser &#8220;um duro retrato&#8221; ou &#8220;uma pintura sarcástica&#8221;. Parte-se do princípio que Eça de Queirós não fazia outra coisa senão:
</p>
<p>1. retratar. O termo não cai ali por acaso: tudo o que está em Eça deve ser considerado realidade objectiva, como numa fotografia.<br />2. mordazmente. Porque o objecto do seu retrato, evidentemente, não mereceria outra coisa, nem outro tipo de retrato poderia ser feito dele.<br />3. Portugal. E que outro tema poderia haver? A única coisa que merece a atenção de um escritor português é Portugal, o pai, a mãe e a tia de todos os portugueses.
</p>
<p>Tudo bem. Vamos admitir que este é um ponto de partida. Mas não teria Eça nada mais para fazer senão consumir-se pelo seu país natal, onde aliás passava pouco tempo, e isto sem intervalo, sem respiração, sem descanso? Nunca tiraria Eça de Queirós umas férias de Portugal?
</p>
<p>***
</p>
<p>Já agora, há outra coisa notável naquela frase: não ter nada a ver com o bendito livro. <em>O Mandarim</em> não é especialmente mordaz sobre Portugal. Tampouco é um retrato do país, na medida em que não basta a acção decorrer num lugar para o livro ter pretensões a retrato desse lugar. Se assim fosse, <em>O Mandarim</em> seria também um &#8220;retrato mordaz&#8221; da China, porque metade do livro se passa nesse grande país asiático, &#8220;do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo&#8221;, onde Eça de Queirós nunca pôs os pés.
</p>
<p>Quem for ler <em>O Mandarim </em>à procura de Portugal não chega muito longe. Pior ainda: perderá uma excelente pequena obra de literatura, uma das melhores novelas do século XIX (apesar de alguns defeitos evidente, por exemplo uma perda progressiva de objectividade do meio para a frente). <em>O Mandarim</em> conta a história de Teodoro, também conhecido por &#8220;Enguiço&#8221;, um triste funcionário público que vive com outros solteirões na casa de hóspedes de uma certa Dona Augusta, à Travessa da Conceição. Uma certa noite, enquanto lê à luz da vela, aparece-lhe o Diabo. O Diabo aponta-lhe uma campainha (que imaginaremos redonda, como as dos balcões de hotéis antigos) e diz-lhe que se tocar nela matará nos confins da China um mandarim &#8220;mais rico que todos os homens&#8221;; em troca, será Teodoro o herdeiro da sua fortuna. Que fazer?
</p>
<p>***
</p>
<p>A passagem em que o Diabo tenta Teodoro com a fortuna do mandarim Ti-Chin-Fú é, para mim, o melhor momento da novela:
</p>
<p>«Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar o seu pai&#8230;». «Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais&#8230; só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres — diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma <em>folha de vinha</em>. Hoje,Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos&#8230; Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para o cinco dedos de um cristão, percorrer, palpar estas maravilhas macias; — mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins&#8230;». «De resto as suas pupilas já rebrilham&#8230; Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês&#8230;».
</p>
<p>***
</p>
<p>Eça de Queirós estava no seu direito inalienável de escrever sobre um país que não conhecia, a China. E também tinha o direito de iniciar a acção da novela na Travessa da Conceição sem estar obrigado a fazer o retrato mordaz e perpétuo da Travessa da Conceição ou do país onde ela se encontra. Mas a nós ninguém obriga a uma leitura claustrofóbica de tudo quanto o homem escreveu, muito menos proclamar a sua eterna validade<em>.</em>
</p>
<p>Temos de reconhecer isto: chega o momento, na obra de um grande escritor, em que o país de origem se torna instrumental. Mesmo que aparentemente o autor viva obcecado com ele. Mesmo que nos garanta que não pensa noutra coisa e que não escreve sobre mais nada. Na verdade, o grande escritor está principalmente ocupado em ser (em tornar-se) um grande escritor. Aliás, é por ele ser um grande escritor que nos reconhecemos naquilo que lemos; não por esse disparate de Portugal ser diferente de tudo o resto e continuar sempre o mesmo. Ou não haveria amanuenses solteirões e tristonhos na São Petersburgo de Nikolai Gogol? Na Nova Iorque de Herman Melville? No Rio de Janeiro de Machado de Assis?
</p>
<p>Mesmo que não se tenha dado conta, o grande escritor estendeu a mão para a campainha, deu-lhe um toque seco, e fez desaparecer o seu país. Sem remorsos: fê-lo para ganhar uma fortuna maior do que a de um mandarim do outro lado do mundo. Todos saíram a ganhar. Tu que me lês e és mortal, tocarás a campainha?</p>]]></content:encoded>
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		<title>Mais medo, incerteza e dúvidas</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 15:01:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 20 janeiro 2007] Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/mais-medo-incerteza-e-duvidas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 20 janeiro 2007]
</p>
<p>Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 de Fevereiro. O nome do cónego é Tarcísio Fernandes Alves, e reparem num pormenor curioso: se em condições semelhantes um patrão ameaçasse despedir os seus empregados ou uma associação expulsar os seus associados, ninguém teria dificuldade em identificar ali um caso claro de chantagem, intimidação e constrangimento da liberdade de voto. Ora não é de excluir que para muitos paroquianos de Castelo de Vide e do país inteiro seja igualmente grave a ameaça de ser expulso da comunidade dos fiéis, com todas as suas implicações terrenas e celestes, que aliás o cónego faz questão de também desenvolver, avisando já que pretende excluir da missa os abstencionistas e anunciando para mais tarde uma interdição de enterros religiosos. Colocadas no seu contexto, são ameaças sérias — caso contrário, a chantagem não funcionaria — além de ilegais se forem repetidas em período oficial de campanha.<br />(Já agora, note-se a má-fé do cónego: o que o Código Canónico diz sobre a excomunhão “automática” pode apenas aplicar-se a quem estiver envolvido num aborto — “Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit”, diz o cânone 1398 — e não tem absolutamente nada a ver com votar “Sim” no referendo, até porque muitos cristãos votarão “Sim” precisamente porque acham que essa é a melhor maneira de combater o aborto clandestino e tentar fazer diminuir o número de interrupções da gravidez, — com as suas consequentes excomunhões automáticas. E digo apenas má-fé, porque não se pode supor tão oportuna ignorância por parte de um doutorado em Direito Canónico por Salamanca.)<br />Algures em Coimbra, um grupo chamado “Acção Família” mandou imprimir uns milhares de folhetos ornados com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima chorando por causa do referendo. “Nossa Senhora chora”, diz o texto, “e Ela chora por milhares de inocentes que podem perder a vida”, pelo que “é indispensável você ir às urnas&#8230; dizer que NÃO está de acordo com o assassinato brutal de inocentes ainda no ventre materno!”.<br />Quando na semana passada escrevi sobre o FUD — “Fear, Uncertainty and Doubt” na abreviatura inglesa para a utilização do Medo, da Incerteza e das Dúvidas como armas de propaganda cujo objectivo é desmobilizar e confundir o público — estava a pensar em exemplos menos caricatos do que estes. Mas a simples razão de serem caricatos não deve desobrigar-nos de os levar a sério. Desde logo, por uma questão de equidade: se todo o movimento do “Sim” tem sido fustigado pela fortuita razão de alguém, há oito anos atrás, ter decidido escrever “aqui mando eu” na barriga, como se justifica esta complacência quando autoridades religiosas e grupos organizados fazem da coacção e da violência psicológica uma forma de propaganda?<br />Mas é principalmente ao movimento do “Não” que cabe tomar uma posição oficial sobre estes métodos de pressão. Como é evidente, caso não haja uma demarcação clara do movimento e uma declaração sobre a total inadmissibilidade destas atitudes junto dos seus apoiantes, será legítimo inferir que o movimento do “Não” se permite beneficiar delas. Ou seja, é preciso saber se as lideranças do “Não” calam, consentem, saem incólumes e ainda esperam lucrar com propaganda desta.<br />Enquanto isso, no discurso oficial do “Não” vai aparecendo outro tipo de Medo, Incerteza e Dúvidas, em exemplos elaborados para um público-alvo diferenciado. E a campanha do “Sim” até colabora na desconversa, com alguma moleza, parecendo não se aperceber de que nestas coisas cada lado só faz o que o outro deixa fazer. Dou um exemplo da semana passada. O “Não” organizou uma conferência na qual se afirmava que as sequelas psicológicas a que estão sujeitas as mulheres que abortam são medonhas. O “Sim” respondeu entrando num debate sobre se elas não estariam sobreavaliadas e assim contribuiu para desviar mais uma vez o assunto da pergunta a referendo, perdendo a oportunidade de devolver a pergunta ao “Não”: se as sequelas psicológicas a que está sujeita uma mulher que aborta são assim tão terríveis, então como se justifica abandonar as mulheres ao aborto clandestino? Mais ainda: se uma mulher que aborta corre riscos de saúde psíquica (não sei se corre ou não, nem compete a este referendo deslindar a questão), como se justifica manter uma lei que a criminaliza? Se esse sofrimento é tão mau, como podem defender que a mulher ainda por cima continue sujeita a uma pena de prisão prevista até três anos? Os apoiantes do “Não” tem de nos dizer se acham correcto que seja perseguida judicialmente uma mulher que eles próprios afirmam estar sujeita a grave sofrimento psíquico.<br />Por vezes, são até os próprios convidados do “Não” que melhor põem o dedo nas contradições do seu discurso. Esta semana uma autora espanhola convidada falar de casos de abortos forçados respondeu assim quando informada da lei portuguesa: “Discordo completamente. Não serve de nada castigar as mulheres.” Mas não podemos andar dependentes destas demonstrações ocasionais de clareza.<br />Chegou o momento de o “Não” começar a responder a algumas perguntas. Uma delas até deveria ser simples para quem demonstra tanto ardor na condenação: afinal de contas, quantos abortos terá evitado a lei que defendem? Alguma mulher deixa de abortar por causa da lei que temos? A criminalização resulta em menos abortos, ou em mais abortos?<br />O tempo urge, e o “Não” tem andado a evitar explicar-nos que a lei actual funciona. Talvez se tenham esquecido, mas é essa lei que defendem e cabe-lhes por inteiro a demonstração das suas virtudes. Caso contrário, talvez seja melhor mudá-la.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: bedtime for pinocchio</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 23:08:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" title="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio [clique para aumentar]" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" alt="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio" width="85%" border="0"></a><br/><br /><em>Público</em>: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Medo, incerteza e dúvidas</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 15:31:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[Aborto]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 13 de janeiro 2007] Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/15/medo-incerteza-e-duvidas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 13 de janeiro 2007]</p>
<p>Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O Medo, Incerteza e Dúvida é uma arma poderosa na luta pela opinião pública. Por isso os defensores do “Não” no referendo de 11 de Fevereiro sobre a descriminalização do aborto não parecem muito preocupados com as sondagens que dão grande vantagem ao “Sim” nas intenções de voto. Em primeiro lugar, porque já no primeiro referendo sobre o assunto, em 1998, o quadro era semelhante e o “Não” conseguiu uma vitória surpreendente, embora curta e pouco participada. Mas principalmente porque o “Não” tem a sua campanha construída em torno do medo, das incertezas e das dúvidas, e conta com essa campanha para desmobilizar o campo do “Sim” e repetir 1998. Não é ilegítimo, embora possa ser reprovável; é certamente muito eficaz e já está a dar efeitos.<br />
Considere-se o cartaz do “Não” onde se lê: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”. Eis um exemplo básico da utilização do FUD, que consiste em pôr as pessoas a discutir uma incerteza  para as desmobilizar da questão que vai efectivamente a referendo, que é saber se o aborto até às dez semanas deve deixar de ser crime. O cartaz destina-se a suscitar dúvidas às muitas pessoas que acham que o aborto até às dez semanas deveria deixar de ser crime (que é aquilo que vai a referendo) e confundi-las com uma questão de gestão dos dinheiros públicos que pertence a um debate mais geral. A formulação é intencionalmente vaga para dar a ideia de que o dinheiro (público) dos “meus” impostos poderia servir para financiar clínicas (privadas), desmobilizando também quem ache que o dinheiro público deve ir apenas para o Sistema Nacional de Saúde.<br />
Mais uma vez, não é nada disto que está em causa. Cada governo terá certamente a sua opinião sobre como devem ser utilizados os dinheiros dos impostos, e cada parlamento sucessivo legislará em conformidade, na área da saúde pública como na da economia ou das artes. Mas é certamente muito útil para o campo do “Não” que as pessoas se ponham a discutir incertezas em vez de certezas, porque essa é sempre a maneira mais eficiente de evitar que qualquer coisa mude. Basta perguntar a quem se quiser mudar se a casa nova não tem goteiras (ainda que a casa velha as tenha em maior quantidade): atiram-se as dúvidas para um futuro que ainda não existe e escondem-se os defeitos do presente que existe.<br />
Para contrariar o espírito e responder à letra bastaria ao campo do “Sim” fazer algumas perguntas simples. A diferença está em que nenhuma delas remete para possibilidades vagas num futuro incerto, mas todas dizem respeito à realidade e à lei que hoje em dia temos. São elas:<br />
“Contribuir com os meus impostos para financiar a perseguição de mulheres que abortaram?” — afinal de contas, de quem são os impostos que pagam as investigações policiais, as escutas telefónicas, os interrogatórios? Terá esse dinheiro caído do céu? Em Aveiro, mulheres que tinham acabado de abortar foram detidas na rua e obrigadas a fazer um exame ginecológico sob alçada da polícia. Quem pagou esse acto de violência e humilhação? Os “meus” impostos. Os “seus” impostos. Os “meus” impostos pagaram àqueles agentes que teriam certamente melhores coisas para fazer. Os “meus” impostos pagaram a papelada. Os “meus” impostos pagaram aos inspectores, aos procuradores e aos funcionários.<br />
Mas há mais perguntas para entreter os nossos amigos do “Não”: “Contribuir com os meus impostos para financiar julgamentos a dezenas de mulheres?” é um exemplo. Outra: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a entupir os tribunais com uma decisão que os próprios juízes dizem ser política?”. Melhor ainda: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar clínicas de aborto (em Espanha)?”. E que tal: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar o aborto (clandestino)?”. E contribuir com os meus impostos para atender mulheres em risco após abortos improvisados? E contribuir com os meus impostos para perpetuar um problema de saúde pública?<br />
Poderia estar aqui a coluna inteira com estas perguntas, que não são possibilidades vagas ou a discutir no futuro mas realidades indiscutíveis que existem com a lei que temos hoje — e que os partidários do “Não” querem manter.<br />
Esse é outro aspecto revelador que a táctica do medo, da incerteza e das dúvidas permite esconder. Afinal de contas, o campo do “Não” é favorável à lei actual, mas faz tudo o que pode para evitar referir-se a ela, chegando ao cúmulo de nunca citar a lei que defende, nomeadamente a parte que é a mais visada pela pergunta do referendo: “A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos” (sugestão para uma campanha que não seja de “Medo, Incerteza e Dúvidas”: colocar este artigo da lei ao lado da pergunta do referendo e deixar as pessoas decidir).<br />
Mais uma vez, trata-se de substituir a certeza da lei que existe pelas incertezas na sua aplicação, e preconizar mesmo o seu desrespeito, nem que para isso o “Não” tenha que rever periodicamente o seu discurso. Lembrem-se que durante anos eles nos garantiram que não havia “mulheres julgadas por aborto” (embora houvesse). Depois aconteceram os primeiros julgamentos divulgados pelos media, e os partidários do “Não” passaram a dizer que não havia “mulheres condenadas por aborto”, como se a investigação policial e a suspeita não fossem já uma forma social de condenação. Mas entretanto houve mulheres efectivamente condenadas em tribunal por terem abortado, e agora os partidários do “Não” agarram-se à última réstia de credibilidade para dizer que “não há mulheres presas por aborto”, embora saibam perfeitamente que a prisão até três anos está prevista pela lei que defendem.<br />
Um dia, se esta lei não for mudada, poderemos sempre vir a ter mulheres presas por terem abortado. Adivinhem de onde virá o dinheiro para pagar as suas celas na penitenciária? Dos impostos de Ribeiro e Castro ou de Maria José Nogueira Pinto? Seria justo. Mas terá de vir dos “meus” impostos também.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Na cova dos lobos</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 02:36:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Blitz de novembro] Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/15/na-cova-dos-lobos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Blitz</em> de novembro]
</p>
<p>Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: &#8220;na cova dos lobos não há ateus&#8221;.
</p>
<p>Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.
</p>
<p>Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz &#8220;não há ateus em trincheiras&#8221;, embora a origem talvez seja comum, porque &#8220;trincheira&#8221; em inglês americano é <em>foxhole</em>, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?
</p>
<p>***
</p>
<p>Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de &#8220;sentir&#8221; a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse &#8220;a esse caminho&#8221; (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.
</p>
<p>Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer &#8220;não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada&#8221;. Demora alguns anos até se conseguir dizer: &#8220;não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços&#8221;. E demora ainda mais alguns anos até se dizer &#8220;não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal&#8221;.
</p>
<p>Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes &#8220;godless&#8221; como quem lhes chama órfãos (&#8220;fatherless&#8221;) ou zarolhos (&#8220;eyeless&#8221;). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi &#8220;brights&#8221;). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer &#8220;godless&#8221;. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.
</p>
<p>***
</p>
<p>Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?
</p>
<p>Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a &#8220;aposta pascaliana&#8221;. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.
</p>
<p>Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.
</p>
<p>De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: &#8220;só tenho uma vida&#8221;, e sorrindo, &#8220;só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar&#8221;.
</p>
<p>E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, &#8220;parece um religião&#8221;), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa.  Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.
</p>
<p>***
</p>
<p>Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: &#8220;sou um optimista trágico&#8221;, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.
</p>
<p>Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.
</p>
<p>Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Leave the kids alone</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:57:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" title="Pedro Vieira, Leave the kids alone. Clique para aumentar." target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" alt="Pedro Vieira: Leave the kids alone" width="85%" border="0"></a></p>
<p>“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Ops, lá foi um país pelo cano</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:53:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 6 dezembro 2006] Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/ops-la-foi-um-pais-pelo-cano/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 6 dezembro 2006]
</p>
<p>Na <em>Aljazira</em> árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um <em>verdadeiro</em> iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.<br />A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al&#8217;Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.<br />Terá isto alguma importância? O editorial do <em>Le Monde</em> sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.<br />Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —,  tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.<br />É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al&#8217;Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.<br />Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.<br />Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.<br />Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.<br />Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 10:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-final/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser lê-la ou relê-la, aqui está <a href="http://5dias.net/2006/11/20/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-1ª-parte/" target="">a primeira parte</a>, <a href="http://5dias.net/2006/11/27/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-2ª-parte/" target="">aqui a segunda</a>, <a href="http://5dias.net/2006/12/05/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-3ª-parte/" target="">aqui a terceira</a>, e <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4ª-parte/" target="">aqui a quarta</a>. Bom proveito.]</strong>
</p>
<p>Na sua obra <em>O prazer do texto</em> Roland Barthes declara: “Como instituição, o autor morreu: a sua pessoa civil, passional, biográfica, desapareceu; desapossada, já não exerce sobre a sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham por função estabelecer e renovar a narrativa; mas no texto, de um certo modo, eu desejo o autor: tenho necessidade da sua figura (que não é nem a sua representação nem a sua projecção), tal como ele tem necessidade da minha&#8230;”
</p>
<p>Que diz Barthes neste fragmento? Que não importa a biografia, a vivência, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_the_Author'>a ideia do autor</a> por trás de um determinado texto, visto que este será sempre interpretado segundo o enquadramento do leitor e da sociedade que o lêem. Posso, n’ <em>O</em> <em>Mercador de Veneza</em>, ler uma defesa da dignidade dos judeus, mesmo que a época em que foi escrita e o próprio autor da peça pudessem estar pejados de preconceitos anti-semitas.
</p>
<p>Barthes defendia a autonomia da interpretação do sentido do texto, independentemente da intenção ou psicologia do respectivo autor. Fazia-o com o objectivo de promover o papel da leitura individual e crítica literária na interpretação do texto, em detrimento da investigação biográfica ou histórica.
</p>
<p>Mas, de uma forma algo perversa, também se pode interpretar este excerto à luz dos ciberapócrifos que temos analisado nas últimas semanas. Pois que o aspecto singular destes textos é o de “desejarem um autor”. Mais concretamente, para os seus verdadeiros autores e leitores é absolutamente vital que aqueles tenham uma autoria atribuída. É essa autoria que faz existir o texto pois é ela que justifica a sua existência e a sua divulgação. Porém, é o conteúdo do texto que se torna popular e “deseja o autor”. Ou seja, se “Instantes”, “A Marioneta”, “Morre lentamente”, “História de dois aeroportos” não tivessem o conteúdo que têm, provavelmente não seriam reenviados de <em>e-mail</em> em <em>e-mail</em>, como tentei demonstrar no último artigo; mas se não tivessem o autor que se propõem ter, provavelmente nem seriam lidos.
</p>
<p>Gera-se assim a simbiose perfeita: o autor faz o texto ser lido, o seu conteúdo faz com que seja divulgado, num fenómeno inverso ao que é frequente no mundo editorial, onde um livro pode ser vendido pela força do nome do seu autor, mas é o conteúdo que determina se é lido ou não – basta olharem para as vossas estantes e contarem o número de livros de autores famosos que nunca leram ou abandonaram a meio.
</p>
<p>Curiosamente, o fenómeno dos ciberapócrifos parece demonstrar a teoria que <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault'>Michel Foucault</a> defendia na sua obra <em>O que é um autor</em>, onde propunha que as obras literárias são produtos culturais colectivos, não cabendo ao autor mais do que uma função de legitimação institucional. Essa legitimação traduz-se, nos ciberapócrifos, na atribuição da autoria à mais alta autoridade (leitores atentos notarão aqui uma significativa proximidade morfológica e etimológica) reconhecida dentro do contexto sociocultural da sua produção: Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez, no meio literário latino-americano; Millôr Fernandes e Luis Fernando Veríssimo num contexto brasileiro de humor, Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho no âmbito do comentário político-social português.
</p>
<p>Apesar desta explicação, o caso encerra em si um paradoxo: textos de origem anónima lidos por pessoas anónimas precisam da assinatura dos que se ergueram acima do anonimato para garantir a sua divulgação. E textos genuínos destes mesmos autores não têm uma fracção da popularidade e perdurabilidade que os apócrifos demonstram no mundo virtual.
</p>
<p>Porque será? Para esta questão, não tenho ainda resposta cabal. Mas, tendo em conta o que foi dito no anterior artigo desta série,  talvez a demagogia não seja apenas uma estratégia política mas antes revele o enorme desejo que as pessoas anónimas têm de ver legitimado e proferido pelos não-anónimos aquilo em que acreditam e desejam ouvir. De forma grossa, as massas precisam das elites para delas escutarem o que já sabiam à partida.
</p>
<p>Não tenho provas do que digo, mas sugiro que vejam o filme <em>A Rainha</em>, de Stephen Frears. Quando, no final, Isabel II e o marido chegam ao Palácio de Buckingham rodeados da população que faz luto por Diana Spencer, é quase inevitável sentir que naquele momento, e provavelmente em todos os outros, a rainha é a pessoa com menos poder em toda a Grã-Bretanha, joguete da vontade e caprichos dos seus súbditos.
</p>
<p>Quem sabe se o autor não é também o mais impotente dos leitores, incapaz até de escrever os textos que lhe atribuem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O dia do carneiro</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 03:10:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 30 dezembro 2006] Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/o-dia-do-carneiro/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 30 dezembro 2006]
</p>
<p>Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos filmes de acção é quando o herói desarmadilha a bomba no último segundo. No Antigo Testamento é quando Abraão, obedecendo a uma ordem directa de Deus, se prepara para sacrificar o seu próprio filho. O joelho segura firmemente o rapaz ao altar e a faca está já encostada ao seu pescoço quando a voz do Senhor (em off) revela que aquela ideia de ter de Abraão sacrificar o filho não passava afinal de um teste para ver até que ponto Abraão era afinal um homem devoto. Mais: em vez de se matar o menino, Abraão tem permissão para sacrificar um carneiro, o que provoca o tal grande alívio da plateia (e até nos permite concluir que o público-alvo do autor do texto é humano e não ovino).
</p>
<p>A superioridade estilística do Antigo Testamento sobre os filmes de aventuras está em que todos os filmes de aventuras têm sempre, mas sempre, uma cena destas. O Deus do Antigo Testamento, pelo contrário, habituou-nos a cumprir com as suas ameaças, das Pragas do Egipto à destruição de Sodoma e Gomorra, pelo que o efeito-surpresa é muito maior quando o pior não ocorre. De momento, lembro-me de duas excepções importantes, das quais a segunda é a minha história favorita da Bíblia (está até guardada para uma crónica futura): quando Deus poupa Niníve, no Livro de Jonas. Esta parcimónia faz com que os momentos-chave fiquem guardados na memória colectiva. A cena de Abraão, do seu filho e do carneiro, ao apresentar-nos um Deus misericordioso (para os humanos) impressionou judeus, cristãos e muçulmanos até à época contemporânea. Woody Allen refere-se várias vezes a esta história, sempre estupefacto por Abraão estar mesmo até ao último momento seriamente decidido a matar o seu filho, prova de que “um homem cumpre com qualquer ordem estúpida desde que lhe seja transmitida por uma voz grave e bem colocada”. Os vestígios desta história encontram-se no cerne do cristianismo, pois é o próprio Filho, Jesus Cristo, que é o “cordeiro de Deus” sacrificado pelos pecado de todos os humanos. Também os muçulmanos preservam esta história fundadora do judaísmo, e de que maneira, uma vez que ela é comemorada todos os anos com uma festa importantíssima que cai (se a memória não me falha) quarenta e oito dias depois do fim do Ramadão, e que tem o nome de Aid Al Adha ou Aid El Quebir, o Dia do Carneiro — este ano, dadas as errâncias dos anos lunares e solares, coincide exactamente com a passagem do ano 2006 para 2007, de Domingo para Segunda-feira próximos.
</p>
<p>Vamos imaginar o que sucederia se o leitor, em vez de se encontrar por exemplo em Lisboa, capital da República Portuguesa, se encontrasse antes seiscentos quilómetros mais ao Sul.  De que falariam então os jornais que se vendem em Rabat, capital do Reino de Marrocos? Em geral, dos preparativos para o Dia do Carneiro. O diário <em>Libération</em>, cuja redacção se situa em Casablanca e me parece ser de tendência mais pessimista, informa-nos que a aproximação da festa levou a uma subida dos preços da carne de carneiro até limites pouco comportáveis para as famílias marroquinas. Numa secção de inquéritos de rua, pergunta-se mesmo se será aceitável que os agreados familiares se endividem para pagar os custos destes festejos. O patriótico <em>L&#8217;Opinion</em> assegura-nos que a oferta de carneiro no mercado satisfará amplamente a procura, e dá-nos conta das medidas de segurança rodoviária especiais no quadro da “Operação Aid Al Ahda”. O solícito e profissional <em>Le Matin</em> tem um caderno com os horários dos comboios especiais para todos aqueles que se deslocam para passar a quadra com a família. Há de tudo sobre o tema, desde conselhos culinários a um dossier especial sobre como lidar com as expectativas das crianças quando passar a meia-noite do Aid el Quebir. A impressão geral é a de que, se os jornalistas marroquinos se quisessem poupar ao trabalho, bastar-lhes-ia ter traduzido os jornais portugueses da semana passada, substituindo o nome da festa e alguns detalhes, porque de resto o tom é o mesmo, incluindo — sim! — os textos dos religiosos e conservadores lamentando-se de que os festejos do Dia do Carneiro têm vindo a perder o seu carácter sagrado e de que há uma importação crescente de hábitos novos e estrangeiros, como o de substituir a comemoração cristã do Natal pela sua versão pagã, com a venda de pinheiros e figurinhas do Pai Natal em certas lojas. E isto sem fazer o resumo da imprensa em árabe, que terá de esperar pela aquisição das competências linguísticas adequadas.
</p>
<p>Há no entanto diferenças assinaláveis. Sendo o carneiro um animal manso, é possível comprá-lo no mercado, trazê-lo para casa e sacrificá-lo na data certa. Esta é uma grande vantagem que os marroquinos possuem sobre os portugueses, a quem é pouco prático trazer um bacalhau da Terra Nova ou da Noruega e alimentá-lo durante uns dias num aquário instalado no meio da sala para depois proceder à respectiva salga e cozinhá-lo na consoada. Assim sendo, e ao contrário do que sucede no <em>L&#8217;Opinion</em>, os nossos jornalistas não precisam de incluir no dossier “crianças” uma entrevista com um psicólogo sobre como evitar traumatizar os filhos à vista da degolação do carneiro (os pais com um sentido de humor arrevesado podem sempre dizer aos miúdos que ou se calam ou Deus pode voltar a mudar de ideias).
</p>
<p>O Dia do Carneiro é então uma ocasião para os muçulmanos confraternizarem com a família em torno de uma refeição, mas também de cederem ao consumismo, de se endividarem, de passarem horas presos nos engarrafamentos das grandes cidades e de arriscarem a vida nas estradas. Não sei se isto vos lembra alguma coisa. A mim, dada a minha grande afeição pessoal e gastronómica pelo carneiro, torna-me nostálgico. De tal forma que vou suspender a reserva pessoal e contar aos leitores que em tempos, eu também vivi no campo, e logo numa casa com carneiros. Mais ainda, que cheguei a pastoreá-los uma vez ou outra e que tenho grande orgulho em ter lido <em>As Aventuras</em> de Mark Twain em algumas dessas ocasiões. Quando criança, também eu me lembro de implorar aos meus pais que poupassem um dos carneiros de quem eu mais gostava. Uma das vezes terei até chorado e berrado enquanto a faca se aproximava do pescoço do bicho, tanto que a mão (do meu pai ou da minha mãe?) hesitava e voltava a avançar, hesitava e voltava a avançar, sempre mudando de ideias, num momento de tensão quase insuportável.
</p>
<p>Se não me engano, comêmo-lo no dia em que os futuros sogros do meu irmão foram jantar lá a casa.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Feliz Natal, ó excelências!</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Dec 2006 23:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 23 de dezembro 2006] Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/25/feliz-natal-o-excelencias/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <i>Público</i> de 23 de dezembro 2006]</p>
<p align=center><b>Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.</b></p>
<p>Quando o leitor do Público estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal. Ao chegar, feche as janelas para ocultar as luzes compradas na loja dos chineses, e para que ninguém veja a avozinha enquanto ela frita os filhoses.
</p>
<p>Por todo o país e em todo o mundo ocidental, não deve haver questão mais premente do que a dos cristãos perseguidos por comemorarem o Natal. Basta consultar este vosso jornal, na edição de ontem, e ver como lhe foram dedicadas as duas páginas do “destaque” da autoria de António Marujo (na sua segunda incursão pelo tema: a primeira chamava-se “quando o Natal é proibido”), o editorial de Nuno Pacheco, e os artigos de opinião de Esther Mucznik e Constança Cunha e Sá. E creio que não são os únicos nem serão os últimos, à medida que a data se aproxima.
</p>
<p>Pode ser que a leitora, perdida entre as iluminações natalícias, o trânsito e os horários alargados dos centros comerciais, não se tenha dado conta de que o Natal está para acabar, não sabemos se por decreto. Talvez ao lisboeta lhe tenha escapado isso enquanto fazia o trajecto da “maior árvore de Natal da Europa” (oferta de um banco), atravessando uma Rua Augusta coberta de anjinhos, até um Rossio patrocinado por outro banco, comprando pelo caminhos os seus presentes em cada loja e cadeia comercial. Mas é precisamente para dar este alerta que o jornalismo de referência e a opinião informada aqui estão. Para lhe dizer que, este ano, não se vê outra coisa senão uma sanha persecutória contra o Natal, movida por perigosos secularistas e pelo grande capital, que morre de medo de ofender as outras religiões. É a “Guerra contra o Natal”.
</p>
<p>É irónico que no artigo de António Marujo o professor da Católica António Teixeira se queixe da importação de festividades, como o Halloween, que “nada têm a ver com a nossa cultura”. Isto porque a própria “Guerra contra o Natal” que lhe pediram para comentar, longe de existir, é uma importação da agenda americana do ano passado, quando o canal FoxNews e a sua coligação de evangélicos decidiram que, no país mais cristão do mundo desenvolvido, havia uma ofensiva contra os cristãos. Tudo isto já foi ridicularizado que baste pelos restantes americanos, que não deixariam de olhar com condescendência para esta reciclagem em terras lusitanas, com um ano de atraso.
</p>
<p>Como nos EUA, a nossa “Guerra contra o Natal” é uma amálgama de histórias contadas pela metade, lendas urbanas, inversões retóricas e interpretações extravagantes. Mas como, se no Editorial do Público nos é dito que “em Birmingham a câmara decidiu mudar Christmas (Natal) para Wintervall (intervalo de Inverno)”? Ora, não só a história vem com quase dez anos de atraso (o Wintervall ocorreu em 1997 e 1998), como nem sequer é verdadeira. A Câmara de Birmingham não “substituiu” o Natal por coisa nenhuma; limitou-se a fazer um festival de inverno, como fazem milhares de cidades por esse mundo fora, e incluiu nele as celebrações dos feriados religiosos. A própria sede do município estava iluminada com a frase “Happy Christmas Birmingham”. Mas cuidado, senhores autarcas, se fizerem para o ano um “Festival da Primavera”, ainda podem daqui a dez anos ser acusados de apoiar uma “Guerra contra a Páscoa e a Ressureição”.
</p>
<p>Outras são insufladas até ao limite do inconcebível, como se vê quando o professor da Católica entrevistado por António Marujo declara que se pode caminhar “para sociedades assépticas e controladas a partir de um big brother, como as descritas em Admirável Mundo Novo e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. Sério, senhor Professor? Esta guerra fictícia feita em torno de não-notícias vai levar-nos a um pesadelo orwelliano? E que dizer quando se lê que “o Fórum Andaluz da Família concedeu o Prémio Herodes 2006 à directora de uma escola pública em Mijas (Málaga, Espanha) que colocou no lixo um presépio feito por alunos da disciplina de Religião”? O Prémio Herodes! O Prémio Herodes — do nome do rei que (segundo o Evangelho de Mateus) mandou matar todas as crianças menores de dois anos — para a professora de Mijas! Não terá o bom Deus dado o sentido das proporções aos professores da Católica, ou feito a graça do bom-gosto ao Fórum Andaluz da Família?
</p>
<p>A regra destas coisas é: qualquer algo que um alguém tenha dito pode ser usado na espiral pirotécnica do sensacionalismo. Assim Constança Cunha e Sá escreve que, se alguém sugeriu substituir o perú (se bem me lembro, bicho que não constava na Terra Santa) por um frango, então “bolo-rei, rabanadas, sonhos e fatias douradas deviam, com maioria de razão, abandonar o menu da consoada”, como se <br />alguém cogitasse proibir essas iguarias. Coma rabanadas, Constança! Olhe que para mim não há maior metafísica no Natal senão comer rabanadas.
</p>
<p>O problema é que, no meio de tanta sofreguidão vitimizada, ficamos sem perceber qual é afinal&#8230; o problema. Falta de liberdade ou excesso dela? Constança Cunha e Sá lamenta que o consumismo tenha substituído o sentido do sagrado. Mas se as pessoas são livres, afinal, tanto podem comemorar o Natal numa orgia consumista como os comentadores conservadores numa orgia de paranóia e mania da perseguição. O dizer-se “Boas Festas” em vez de “Bom Natal”, como alega o Editorial de Nuno Pacheco? Ora, eu desejo Bom Natal aos meus amigos cristãos e Boas Festas a todos os outros, e ainda não me lembro de alguém se ter queixado da minha intolerância.
</p>
<p>Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? Ë que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.
</p>
<p>Há muita gente que se lamenta do regime de “felicidade obrigatória” desta quadra a que chegamos quase sempre cansados, endividados e a tiritar de frio. Mas algo de muito estranho se passa — talvez qualquer coisa que puseram na água canalizada — quando um ateu anarquista vai desfrutar tranquilamente da quadra com a família de várias crenças e filosofias, ao passo que religiosos e conservadores parecem preferir passá-la mergulhados numa atmosfera de frenicoques, resmunguices e vibrações negativas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Manneken Slice</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 22:35:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira: Manneken Slice (clique para aumentar)"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" alt="Pedro Vieira: Manneken Slice" border="0" width="85%"></a></p>
<p><br/>
</p>
<p><em>DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (4.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 21:52:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[(Nota: Os links no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade) Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de e-mail em e-mail, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Nota: Os <em>links</em> no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade)
</p>
<p>Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de <em>e-mail </em>em <em>e-mail</em>, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve haver neles que leva cada homem ou mulher desta cadeia de transmissão a achar que o clique de reenvio, a selecção dos destinatários, o <em>send</em> e a espera pelo aviso de boa recepção não são tempo perdido.
</p>
<p>Como se mencionou num dos artigos anteriores, estes ciberapócrifos versam maioritariamente dois temas: a auto-ajuda e a política, com predominância da primeira. Vou por isso debruçar-se sobre a análise deste género.
</p>
<p>De que fala o texto <a href='http://www.revista.agulha.nom.br/jlb02e.html'>Instantes</a>? Parece ser um texto escrito por um idoso “de oitenta e cinco anos” e “morrendo” que nos diz o que faria se “pudesse viver novamente” a sua vida. O texto abre com uma declaração aparentemente paradoxal: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros”. O senso comum diz-nos que devemos lamentar os erros cometidos e tentar evitá-los no futuro. Esta frase, ao enunciar o contrário, desperta a atenção do potencial leitor.
</p>
<p>Os ditos “erros” – actividades e características que o narrador teria ou faria – são enumerados: menos perfeito, mais relaxado, mais tolo, levar as coisas menos a sério, menos higiénico, mais aventureiro, mais contemplativo e mais apreciador das sensações.<br />À lista segue-se a explicação: “fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria”.
</p>
<p>Esta passagem é muito interessante. Por um lado gera empatia com o destinatário, que obviamente também se considerará uma pessoa “sensata” e “produtiva” e com “momentos de alegria”. Por outro, é intrigante a adversativa implícita na frase “claro que tive momentos de alegria”. Será que viver de forma sensata e produtiva não dá alegria? Não, segundo o senso comum, para o qual felicidade é não fazer nada, não ter preocupações, estar com amigos e família, estar de férias. Mesmo que estudos neuro-comportamentais apontem maiores índices de felicidade nas pessoas com excesso de trabalho…
</p>
<p>Ou seja, é neste ponto que o texto mergulha no senso comum, quando apela a uma vida mais emocional, mais dedicada à (suposta) auto-satisfação de sentidos e instintos, que se conclui de forma dramática: “Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo”. Deste modo, ao invocar-se a inevitabilidade da morte, e tendo antes criado empatia com o leitor, força-se este a reflectir na sua própria mortalidade e a ponderar com cuidado os conselhos inscritos no texto.
</p>
<p>A texto atribuído a <a href='http://missdevil.blogs.sapo.pt/arquivo/777533.html'>Pablo Neruda</a> recorre a uma estrutura estilística menos subtil e, diria mesmo, ridiculamente bombástica. O texto está construído sobre paralelismos de construção sintáctica e semântica repetitivas, levados ao limite do suportável, que lhe conferem um tom apocalíptico. A “morre lentamente quem” sucedem-se condições desta “morte lenta”, numa estrutura aberta, que se presta a acrescentos infinitos de todo género.
</p>
<p>No entanto, a maioria das condições que o texto condena dizem respeito a um estilo de vida mais passivo, racional, conformado e desprovido de curiosidade intelectual: “não viaja”, “não lê”, “escravo do hábito”, “televisão o seu guru”, “evita uma paixão”, “os pontos sobre os iis”.
</p>
<p>Neste caso, a identificação com o leitor faz-se também através do senso comum, visto que ninguém se vê a si próprio como conformado e acomodado, mas inclina-se a heroicizar o seu quotidiano, justificando como inevitável o próprio comodismo. Mas, ao mesmo tempo, o texto finge ignorar que um certo grau de adaptação e rotina é também necessário para uma vida em sociedade. Deste modo, o texto prefigura-se como um texto moralista, destinado a alimentar uma imagem idealizada da vida, sendo fácil para o leitor aplicá-lo parcialmente a si próprio, mas cabalmente à massa dos “outros”.
</p>
<p>O terceiro e quarto textos desta série – há outros, mas estes serão suficientes –apresentam maior complexidade e subjectividade que os anteriores.
</p>
<p>No caso da <a href='http://www.naweb.info/alvo/blogger.php?page=news_photo&#038;id=1091549244'>Marioneta</a>, há mais empenho na liricização dos conselhos, que se tornam menos imediatos e mais subjectivos: “escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse”.
</p>
<p>Pelo contrário, os conselhos de <a href='http://www.davidpbrown.co.uk/poetry/mary-schmich.html'>Sunscreen</a> são de tal modo pragmáticos que o texto ganha um certo humor: “Sing”, “Floss”, “Stretch”.
</p>
<p>No entanto, ambos fazem a apologia do momento, das sensações, da natureza e da vida sem planos, constrangimentos ou preocupações: “Enjoy your body”, “viveria enamorado do amor”.
</p>
<p>Aqui assenta, julgo eu, o que faz correr e perdurar estes textos: a imagem idílica e despreocupada da vida que proporcionam. Para um enervado trabalhador ou para um entediado doméstico que abre os seus <em>e-mails</em>, estes textos funcionam como escapismo, espelho e sensação de superioridade. Ao descreverem uma vida despreocupada, fazem o leitor sentir que essa vida é possível, existe e traz felicidade. Ao admitir que alguns dos conselhos seriam bons para si, o leitor considera o texto importante para si próprio, mas ao não se reconhecer a si próprio em algumas das condições condenadas e reconhecer “o outro” sente-se superior e o comprazimento samaritano leva-o a reenviar o texto para amigos e conhecidos para que eles aprendam.
</p>
<p>Deixem-me reforçar a questão do reenvio. Ao sermos nós a revelar o texto a outrem, sentimo-nos um pouco autores daquele, sentimos que somos nós que estamos a dizer aquelas palavras “sábias” a quem nos rodeia. Ao mesmo tempo, sendo o texto assinado por outro, evitamos o sermão directo e não nos expomos como pregadores e moralistas.
</p>
<p>Aqui assenta o grande trunfo dos textos reenviados: agradam duplamente. Porque dizem o que já conhecíamos, e logo não nos ameaçam. Porque nos permitem partilhar com os outros o “saber” que é nosso, mas que preferimos não admitir como nosso.
</p>
<p>Julgo que este mecanismo é verdadeiro para grande parte dos textos que continuam a circular na <em>internet</em>: tanto os de auto-ajuda, como os politizados, os anúncios de vírus, os pedidos de ajuda, os casos verídicos e, de uma forma mais básica e óbvia, as promessas de dinheiro ou prémios grátis.
</p>
<p>Na próxima semana concluo esta série com uma análise do papel do autor.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O menino nas palhas deitado</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 14:58:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já é pouco caridoso que um partido Democrata-Cristão como o CDS/PP aproveite o seu jantar de natal para achincalar o actual líder com uma cena piegas de saudades pelo ex-líder. Foi um jantar de natal que, para dizer o mínimo, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/o-menino-nas-palhas-deitado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já é pouco caridoso que um partido Democrata-Cristão como o CDS/PP aproveite o seu jantar de natal para achincalar o actual líder com uma cena piegas de saudades pelo ex-líder. Foi um jantar de natal que, para dizer o mínimo, não fez grande coisa pela paz entre os homens de boa vontade. Mas nada justifica a resposta que Ribeiro e Castro deu a esta ofensiva, dizendo que estava preocupado “com o aborto”. Nós compreendemos a irritação, mas não é aceitável lançar um insulto destes, nem sequer a Paulo Portas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 03:29:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/andre-belo-a-tlebs-a-plebs-e-a-mao-na-massa-2/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me ao ler um pouco mais de informação e opiniões sobre a questão da TLEBS (o <a href="http://ciberduvidas.sapo.pt/">Ciberdúvidas da Língua Portuguesa</a> tem bons <i>links</i> para perceber melhor a questão, com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/php/resposta.php?id=18678'>documentos legais que criaram esta experiência pedagógica</a> e com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/index.html'>artigos de opinião que têm saído nos jornais</a>). E decidi partilhar convosco, depois da dobra, alguns <i>links</i> e impressões sobre o assunto.
</p>
<p>No momento em que escrevo, parece-me, há um sério problema pedagógico em curso, prioritário até em relação à avaliação que se faça da nova terminologia. É o de saber se se pode levar ao fim a própria experiência pedagógica em que ela aparece (que deve, por lei, decorrer até ao ano lectivo de 2007-2008). O fogo sobre a TLEBS tem sido tão cerrado que se criou hoje uma situação difícil de sustentar pedagogicamente, a não ser que o Ministério da Educação clarifique imediatamente a sua posição sobre o assunto, como deveria fazer e não tem feito. <a href=“<a href='http://dn.sapo.pt/2006/11/23/tema/governo_admite_recuar_novos_termos_g.html'>Tem dado sinais contraditórios</a> que não satisfazem nenhuma das posições em confronto e afectam, evidentemente, a credibilidade da experiência pedagógica no próprio momento em que ela está a ser feita. 
</p>
<p>Por outro lado, parece a um leigo como eu — apesar de tudo, professor de língua portuguesa para estrangeiros e não mais leigo do que outros que têm participado no debate — que existem esclarecimentos importantes dados por alguns dos autores da TLEBS (por exemplo <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_13.html'>neste</a>, <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_14.html'>neste</a> e <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_9.html'>neste</a> artigos). E que sublinham, com razão, a confusão mediática entretanto criada em relação ao estatuto da experiência pedagógica, destinada a actualizar e normalizar parte da (muitas vezes incoerente) terminologia linguística actual. É claro que os propositores dos novos termos linguísticos e o Ministério não foram claros a passar a sua mensagem e por isso têm responsabilidades na criação dessa confusão. Mas os críticos da TLEBS, ao satirizarem a sigla (tornando-a pejorativa, sinónimo de mau português vindo dos próprios professores de português) e ao transformarem um instrumento pedagógico destinado a orientar os professores e os documentos do Ministério (é o que diz <a href='http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/Portaria1488%2024Dez2004.pdf'>a portaria do governo do PSD/PP</a> que instituiu a TLEBS) numa nova ortodoxia gramatical pronta a ser decorada pelas criancinhas portuguesas, pobres coitadas abandonadas, lá deram o seu contributo para mistificar e muito a questão. 
</p>
<p>(Acho graça que <a href='http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html'>quem se opõe à nova terminologia</a> exija o “fim das experiências pedagógicas <i>não autorizadas</i> em crianças“ e “um ensino de<strong> </strong>qualidade, científica e pedagogicamente <i>válido e validado</i>“ (itálico meu). “Não autorizadas“ por quem? “Válido e validado“ por quem? Pelos pais? E por que mais outras figuras tutelares? Os professores têm a obrigação de fazer experiências pedagógicas com as nossas criancinhas, é para isso que lhes pagam. Não sabiam?)
</p>
<p>A elaboração da nova terminologia foi iniciada em 1997 e teve, ao que parece, ampla participação de professores de português pelo país inteiro. Estes professores deveriam merecer um bocadinho de mais confiança da nossa parte, tanto mais que têm manifestado abertura para reavaliar a experiência, ao fim dos três anos que ela deve durar, em função das críticas que têm sido feitas. Seria bastante estúpido deitar abaixo todo o trabalho de anos por causa de uma má sigla e de uma colecção de citações reduzidas a uma caricatura.</p>]]></content:encoded>
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		<title>As cidades</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 03:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 16 dezembro 2006] Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. Na Grécia antiga, os &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/as-cidades/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <i>Público</i> de 16 dezembro 2006]</p>
<p align=center><b>Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas.</b></p>
<p>Na Grécia antiga, os cidadãos que governavam o dia-a-dia das cidades democráticas como Atenas, onde tinham o nome de <em>buleutas</em>, eram escolhidos por sorteio. Não é um método que eu defenda. Mas é um método que dá que pensar: imaginem que alguém abria ao acaso uma lista telefónica da capital e punha o dedo em cima do nome da senhora Maria da Conceição Silva, de São Domingos de Benfica, ou do senhor Manuel Ferreira, de Marvila. Alguém acredita francamente que seriam piores presidentes da Câmara Municipal de Lisboa do que Carmona Rodrigues?
</p>
<p>Muitos lisboetas devem ter sentido o mesmo, esta semana, durante a emissão daquela maratona televisiva que dá pelo nome de <em>Prós-e-Contras</em>. Só ali, na mesa em frente, estavam quatro vereadores da oposição — por ordem crescente de votação, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Manuel Maria Carrilho — e pelo menos três desses quatro parecem passar como mais sérios e consequentes do que o Presidente da Câmara. Pior ainda para Carmona Rodrigues, os “seus” vereadores na Câmara também não estão longe de andar convencidos que são melhores do que o chefe, e pareciam olhá-lo com cara de quem o considera um mero pretexto para que cada um deles se mantenha no seu respectivo pelouro.  A presidente da Assembleia Municipal, Paula Teixeira da Cruz, também já fez questão de demonstrar que tem vida própria. Nada disto pode ser bom para a “liderança” de Carmona Rodrigues, caso não fosse este um termo demasiado caridoso: desconfio que parte da sua equipa não desdenharia fazer o mesmo que fez Maria José Nogueira Pinto, e fugir ao primeiro pretexto desta presidência em torpor radioactivo.
</p>
<p>Carmona Rodrigues sabe que deve a sua eleição a ter-se mantido inodoro, insípido e incolor perante dois termos de comparação que eram as personagens mais escarnecidas do Portugal do momento: Pedro Santana Lopes (de quem ele foi braço-direito) e Manuel Maria Carrilho. No início era importante não ser o primeiro, com cujos desastres colaborou, e no fim teve a sorte de não ser o segundo, queimado numa campanha suicida. Com essas comparações, Carmona Rodrigues consegue parecer menos um produto da imagem do que efectivamente ele é. Carmona Rodrigues tem imagem de engenheiro tecnocrata mas não consegue acabar um túnel. Tem imagem discreta mas não há condomínio que ele não aprove. Tem imagem de “independente” mas veta o nome de um administrador em obediências ao líder de um partido. Tem imagem de não ser “político profissional” mas quando acossado recorre a todas as manhas da cartilha politiqueira (incluindo trazer uma claque organizada para o aplaudir). E finalmente, tem uma imagem de eficiência absoluta conquistada a fazer rigorosamente nada.
</p>
<p>A gravidade de tudo isto em Lisboa seria menor no tempo em que o estado-nação era a unidade quase exclusiva da política, cuja acção determinava por arrasto a evolução das capitais. Então o presidente de uma cidade não precisaria de ser mais do que um regedor, e talvez Carmona Rodrigues chegasse para isso. Hoje, com as fronteiras nacionais diluídas (por causa da “globalização”, da concorrência intra-europeia e até da emergência de certas regiões), as escalas misturaram-se e o papel das cidades sofreu uma mutação notável. Há poucos anos, Londres não tinha sequer um <em>mayor</em>; hoje em dia não será propriamente uma cidade-estado como a Atenas do tempo dos buleutas mas aparece aos olhos contemporâneos como uma realidade autónoma, uma cidade-mundo que possui uma identidade particular ao mesmo tempo que é um motor do seu próprio país. Isto — que não começou ontem — não vale só para uma <em>cosmopolis</em> como Londres.
</p>
<p>Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. O deficiente que não consegue contornar o carro estacionado no passeio, a mãe que não passa com o carrinho de bébé, o filho de imigrantes que não sai do subúrbio, o idoso que está preso no centro — é aqui que se jogam os conflitos futuros. É nas cidades que se sente a primeira exclusão e injustiça (ou é nelas que, se as políticas forem boas, nos é dada a primeira oportunidade — que se entra na primeira biblioteca pública — que se participa num torneio desportivo).
</p>
<p>Nada disto deixa de ser banal; inquietante é que Carmona Rodrigues não tenha sabido cumprir com nenhuma das estratégias possíveis e evidentes. Não tem servido para competir globalmente (tirando a ideia vaga — e lenta, lenta, lenta — de imitar Bilbao, sem pensar que Bilbao não chegou lá pela imitação). Mas o pior é que não tem sequer servido para tapar buracos no passeio.
</p>
<p>(Olhando em torno, o panorama não é melhor. No Porto governa um populista que elegeu como principais adversários, não os especuladores, não a precariedade, mas os artistas. Braga parece ter passado directamente do feudo do Arcebispo para o feudo de Mesquita Machado. Coimbra curte ainda e sempre a sua crise de personalidade.)
</p>
<p>Se passarmos cinco anos — os mesmos cinco anos que Carmona Rodrigues já leva de responsabilidade política na capital — sem visitar uma qualquer cidade europeia, as mudanças saltam imediatamente à vista. Em Lisboa é preciso puxar muito pela cabeça para lembrar algo que Carmona tenha feito (começado e acabado) ou que vá melhorar a cidade para o futuro. E não faltam coisas para fazer: de ano para ano Lisboa é cada vez mais dura para os seus habitantes, mais infestada de automóveis, entupida até à asfixia, com quartéis vazios a ocuparem espaços nobres na zona antiga (à espera do imobiliário?) e uma rede de transportes sem soluções. O potencial de Lisboa é grande e reconhecido, mas a cidade está hoje mais longe de o cumprir do que de tornar-se insustentável. Carmona Rodrigues não tem unhas para esta guitarra.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Paciência, Iracema</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 21:49:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. Para quem não conheça a letra, aqui fica &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/paciencia-iracema/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><object width="425" height="350"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/V66d47KUPCc"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/V66d47KUPCc" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"></embed></object></p>
<p><br/><br />É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos <em>Iracema</em>, da autoria do primeiro. Para quem não conheça a letra, aqui fica esta pequena obra-prima de ternurento humor macabro, sobre uma noiva que morreu atropelada — “veio um carro, te pega e te pincha no chão” — isto na Avenida São João, a poucos dias do casamento. “O chófer não teve culpa, você &#8216;travessou contra a mão. Paciência, Iracema.” Paciência.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma questão de glândula</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/11/uma-questao-de-glandula/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 21:23:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Num comentário da semana passada, um leitor queixava-se de ter de ler aqui os meus textos já repetidos do Público. Aparte a imprecisão e as justificações técnicas (ninguém “tem” que ler nada e se ponho aqui os textos é para &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/uma-questao-de-glandula/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num comentário da semana passada, um leitor queixava-se de ter de ler aqui os meus textos já repetidos do <em>Público</em>. Aparte a imprecisão e as justificações técnicas (ninguém “tem” que ler nada e se ponho aqui os textos é para aproveitar os comentários que estão avariados no meu blogue) o leitor está com a razão, porque mereceria um cardápio mais variado da minha parte. Eu poderia justificar-me com a falta de tempo e com o excesso de trabalho em outras coisas, mas para quê? A verdade é que, como dizia o Fernando Pessoa numa carta à Ophelinha, tenho desculpas mas não tenho desculpa. E, pior ainda, acho que já usei esta citação em ocasiões anteriores.
</p>
<p>Isto da bloga funciona como uma glândula que segrega textos como outras segregam as secreções delas. Chamemos-lhe a glândula blogácea. Quando lhe dá na bolha ao hipotálamo, segrega que é uma maravilha, em quaisquer condições, mesmo com falta de tempo ou excesso de trabalho. Às vezes vai lá com um empurrãozito e alguma prática. Outras vezes, não há nada a fazer, e esta é uma dessas vezes. A glândula pode estar entupida, pode estar com falta de uso, pode ter atrofiado, pode ter perdido o apetite, pode até ter morrido. Não há transplante que lhe valha.
</p>
<p>Aquilo de que o leitor se queixa, também eu me queixo: estou sem glândula blogácea. Não sei se, nem quando, voltará. Felizmente, esse não é o meu único papel aqui: como mostra lá em cima, eu sou editor às segundas-feiras, e em termos espirituais uma espécie de <em>medium </em>através do qual o Jorge Palinhos, o André Belo e o Pedro Vieira encarnam para benefício de vossas excelências (para evitar mal entendidos: os três espíritos que eu aqui canalizo estão vivos e em localizações concretas em Matosinhos, Rennes e Lisboa; o Pedro só voltará ao nosso convívio na semana que vem porque está com o computador avariado e isto ainda não funciona com mesa de pé-de-galo).
</p>
<p>E é assim que depois de, para me justificar, vos ter passeado por estes agradáveis <em>similes</em> de secreções, incorporações espíritas e canalizações em mau estado, me despeço do meu dia com aquilo que para o trabalhador da bloga com problemas na glândula é um verdadeiramente abono de família: um vídeo antigo, apropriadamente em tons de humor negro e tendo por tema noivas atropeladas nas vésperas do casamento.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Gramática para principiantes</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 15:51:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da pen-drive com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana. Todo o português &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/jorge-palinhos-gramatica-para-principiantes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da </em>pen-driv<em>e com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana.</em>
</p>
<p>Todo o português está dominado por uma nova terminologia. Todo? Não, um grupo acérrimo de polemistas, <em>opinion-makers</em>, pais consternados e escritores enfurecidos luta ainda e sempre contra a invasão.
</p>
<p>De um lado afirma-se estar a antiga terminologia desactualizada e errónea, sendo necessário actualizá-la e corrigi-la, pois não conhecendo os “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção“ é impossível pedir um quilo de carne de novilho no talho. Do outro lado, acena-se com pais baralhados, com o “ódio dos linguistas à literatura”, com a impossibilidade de se compreender um relato de futebol sem se ter identificado os argumentos de catorze sermões eclesiásticos do séc. XVII, com o fim da língua portuguesa em geral e da civilização cristã do Ocidente em particular.
</p>
<p>Nesta guerra sangrentas batalhas se travam entre o “complemento circunstancial” e o modificador”, com inúmeras baixas a registarem-se entre “pronomes” e “quantificadores” de ambos os lados.
</p>
<p>Passa-se isto na Gália?<br />Não. <br />Em Portugal.
</p>
<p>Noutras paragens, o respectivo governo encomenda um estudo a especialistas sobre a reforma e melhoramento do ensino da gramática.<br />Estes produzem um relatório onde se recomenda que a gramática seja ensinada à margem do ensino da literatura e se esboça uma escala de progressão do ensino da gramática: no infantário ensinar a ver uma frase como um “palco”, onde há “actores”, “acções” e “cenários”; no nível seguinte aprender a distinguir as partes da frase e para que servem; no segundo ciclo a distinguir as classes de palavras; no terceiro aprender a identificar as classes de palavras e suas funções na frase; no secundário descobrir os mecanismos com que se constroem textos.
</p>
<p>O relatório faz a apologia da redução ou eliminação do jargão nos níveis iniciais, para que os pais possam ajudar os filhos nos primeiros passos, e constata que o objectivo das aulas de gramática não é formar linguistas nem fossilizar o ensino, mas permitir que os alunos aprendam a usar a língua, a expressar-se e a compreender os discursos e textos que os rodeiam, para o que, entende o relatório, mais proveitoso é o estudo da gramática que a decomposição métrica de cantigas de amor medievais.
</p>
<p>Acontece isto em Portugal? Não, na França.
</p>
<p>Estes gauleses são todos malucos.
</p>
<p>P.S. – Eis o relatório: <a href='http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf'>http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Quatro frases e uma admiradora desconsolada</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 03:16:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[-“No se mueve ninguna hoja en este país si yo no la estoy moviendo. ¡Quiero que quede claro!“. Revista Ercilla, octubre de 1981 - “Si el senador Kennedy resulta elegido presidente de los EE.UU., el gobierno de Chile tomará las &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/cinco-frases-de-pinochet/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-“No se mueve ninguna hoja en este país si yo no la estoy moviendo. ¡Quiero que quede claro!“. Revista Ercilla, octubre de 1981
</p>
<p>- “Si el senador Kennedy resulta elegido presidente de los EE.UU., el gobierno de Chile tomará las medidas necesarias“. Revista Hoy, 11 septiembre de 1979</strong>
</p>
<p>- “Yo me voy a morir. El que me suceda también tendrá que morir. Pero elecciones no habrá“ . La Segunda, 17 junio de 1975
</p>
<p>- “El país está tranquilo, porque disponemos de un buen servicio de inteligencia“. Las Ultimas Noticias, septiembre de 1974
</p>
<p>São citações de Augusto Pinochet (podem ver mais <a href="http://www.lanacion.cl/prontus_noticias/site/artic/20041207/pags/20041207144254.html" target="_blank">aqui</a>). É por causa da morte deste homem que a baronesa Thatcher se declarou, ontem, <a href="http://www.timesonline.co.uk/article/0,,3-2498310,00.html">&#8220;profundamente triste&#8221;</a>.</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 02:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>

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		<description><![CDATA[Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/andre-belo-a-tlebs-a-plebs-e-a-mao-na-massa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da Educação, a TLEBS é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, ela transforma-se, quando vituperada pelo grupo dos <a href="http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/017735.html">Convencidos da Vida</a> (não vou dar nomes, são as siglas do costume), em Tremenda Ladaínha sobre a Educação que nos Brutaliza e Satura. TLEBS também rima com <a href="http://www.livius.org/pi-pm/plebs/plebs.html"><i>plebs</i></a>, a massa pobre e ignara dos que estão de fora, aqueles com quem os Patrícios da opinião recusam partilhar a cidadania deste quinhão. Tudo isto é uma longa história, com muitas barbas em Portugal.
</p>
<p>Longe de mim querer dizer que o único discurso legítimo sobre a educação é o dos especialistas (a ditatura tecnocrática de que o Rui falava <a href=”http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/”>nesta crónica</a>). Mas quem bota discurso sobre educação tem pelo menos de fazer um esforço para se informar, para aprofundar o assunto, para fazer propostas, para ajudar. Numa palavra, para meter a mão na massa. Mas para isso é preciso acreditar minimamente numa tarefa educativa comum, o que me parece estar claramente longe dos horizontes dos Convencidos da Vida. É muito mais fácil afunilar tudo numa uma discussão ácida sobre terminologia e siglas. Fica tudo na mesma, e no fim a culpa é do ministério e dos professores.
</p>
<p>Para meter a mão na massa, é preciso ir além das siglas e falar de pedagogia, um assunto que me parece urgentíssimo, em qualquer país ou geração, e que raramente se discute em concreto, mesmo (sobretudo?) entre os professores. Um assunto que dá (ou devia dar) imenso trabalho. Um assunto que vai desde o pré-escolar à universidade. Um assunto em que nunca nada está adquirido. Um assunto que tem a ver com planos curriculares (como defendeu o Rui no texto citado), com métodos de avaliação, mas também, e talvez sobretudo, com perceber, de forma prática e inteligente, como aprendem hoje os alunos, como é que eles entendem o que lhes transmitimos, de que modo é que podemos ajudá-los a serem mais cultos e de que modo é que, com isso, ficamos nós próprios mais cultos.  Para a semana, com a vossa paciência, vou tentar desenvolver um pouco isto.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Sentido do timing</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 01:18:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Pinochet morreu no Dia Internacional dos Direitos Humanos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pinochet morreu no <a href="http://www.un.org/events/humanrights/2004/" target="">Dia Internacional dos Direitos Humanos</a>.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Tortura para os amigos</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 00:02:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 9 dezembro 2006] Os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”. Convenção &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/tortura-para-os-amigos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 9 dezembro 2006]
</p>
<p align=center><strong>Os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”. </strong></p>
</p>
<p>
<blockquote><em>Convenção das Nações Unidas contra a tortura, artigo 3: 1) “Nenhum Estado signatário pode expulsar, devolver ou extraditar uma pessoa para outro Estado se existirem razões substanciais para acreditar que existe perigo de essa pessoa ser submetida a tortura.”</p></blockquote>
<p></em>
</p>
<p>Sim, já entendemos todas as indirectas: não se deve remexer nesta história das “rendições extraordinárias” dos chamados “voos da CIA”. As cabeças simples dos europeus não devem ser baralhadas com todos os pormenores desta história mal explicada: nem os voos são exactamente da CIA, mas de uma série de proprietários-biombo, nem “rendições extraordinárias” dá uma ideia correcta daquilo que terá sido um programa de trânsito de presos ilegais, envolvendo por vezes sequestros, envio para prisões clandestinas e, com grande probabilidade, tortura por países terceiros. Até a proverbial incompetência portuguesa dá uma ajuda preciosa à confusão: as listas de passageiros fornecidas por diferentes serviços do Estado divergem entre si, isto para além dos voos que simplesmente (e estranhamente) não têm lista de passageiros. Para compor este ramalhete muitíssimo abreviado, a comissão do Parlamento Europeu que investiga estes voos-fantasma, de passagem por Lisboa, não teve acesso à Sala do Senado para uma reunião com os deputados portugueses. Sim, já entendemos as indirectas. É melhor não mexer neste assunto.
</p>
<p>Tomemos o exemplo de Paulo Portas, Ministro da Defesa durante o período em que ocorreu a maior parte destes voos-fantasma e um inesgotável poço de ironias da vida. Paulo Portas refugiou-se em questões técnicas para evitar prestar declarações à comissão do Parlamento Europeu sobre um assunto que diz desconhecer. Paulo Portas poderia ter usado uma parcela deste seu zelo técnico e processual para controlar os aviões-fantasma que passavam por aeroportos sob a sua responsabilidade. E pensando bem, se desconhece este assunto qual é o problema de dizer isso mesmo aos eurodeputados? E pensando melhor ainda, como explicar este seu desconhecimento e despreocupação com tão graves suspeitas sobre dezenas de voos com escala por território nacional? Aquele Paulo Portas inflexível defensor das fronteiras fechadas e grande adversário do imigrante ilegal, parece (pelos vistos) significativamente menos soberanista se os ilegais em causa forem transportados por aviões executivos de empresas associadas à CIA. E claro que já volta a ser soberanista se for convidado a falar perante uma comissão do Parlamento Europeu.
</p>
<p>Mas deixemos Paulo Portas e o seu soberanismo de plasticina. Os serviços secretos portugueses, no mínimo negligentes aquando da passagem destes voos, estão sob a alçada directa do primeiro-ministro, hoje José Sócrates, mas no início desta história Durão Barroso. Se o assunto não morrer depressa, quantos europeus gostarão de saber se o seu presidente da Comissão, como primeiro-ministro do país-anfitrião da “Cimeira das Lajes” era um homem que não se preocupou muito em controlar voos ilegais, transportando presos ilegais, provavelmente sujeitos a tratamento ilegal, para prisões ilegais, longe do olhar de qualquer juiz ou tribunal? Felizmente para Durão Barroso, não foi só ele: também sobre Tony Blair ou Gerhard Schroeder se podem levantar as mesmas perguntas. Só que nada disto parece muito “europeu”, não é verdade? Boa pergunta: como pode a União Europeia fazer exigências à Turquia sobre tortura quando uma mão-cheia dos seus governantes parece preocupar-se muito menos com o assunto desde que os torturadores tenham sido certificados pelos rapazes certos?
</p>
<p>Por essas e outras razões, já entendemos a indirecta. E mesmo que não tivéssemos entendido, há sempre um apoiante da guerra para nos explicar que nada disto tem importância. Para começar, e por definição, os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”. E a própria definição de tortura esteja agora em vias de ser reescrita para permitir que se provoque “dor severa” desde que reversível. Quer dizer: continua a não valer arrancar olhos. Pelo menos, “nós” não o fazemos. Já no Egipto, na Jordânia ou no Uzbequistão&#8230; haverá alguma coisa que não se deslocalize neste mundo globalizado? Por outro lado, toda a gente sabe que não existem prisões clandestinas — ou pelo menos sabia, até o próprio George W. Bush ter admitido que existiam e que eram muito úteis para a segurança dos EUA. E recentemente foi até divulgado que o próprio cérebro do 11 de Setembro, Khalid Sheikh Mohammed, foi transferido de uma destas prisões clandestinas para Guantánamo.
</p>
<p>(Sim, o cérebro do 11 de Setembro está preso. E agora pergunta o leitor porque não é ele levado a julgamento, como os terroristas do 11 de Março em Madrid? Segundo Seymour Hersh da New Yorker, pela simples razão de que a sua prisão está tão contaminada por ilegalidades, incluindo muita tortura, que qualquer juiz americano teria muita dificuldade em não se ver obrigado a soltá-lo.)
</p>
<p>Chegados a este momento, vem normalmente o encolher de ombros final: tudo bem que é ilegal, mas quem se preocupa com terroristas? Ao que se pode responder: e como se sabe que eram todos terroristas? Não foram apresentados a nenhum juiz. Não houve nenhuma investigação independente. Não tiveram direito a advogado de defesa. Tanto podem ser terroristas como o primeiro barbudo da esquina. E em vários casos, já se provou que houve engano: um cidadão alemão foi torturado por cinco meses no Paquistão e depois abandonado numa estrada da Albânia.
</p>
<p>Os norte-americanos lá saberão com o que contam, uma vez que os seus governantes são tão francos sobre os seus métodos. E os europeus, poderão confiar nos seus governos? Afinal a União Europeia respeita e faz respeitar a convenção de Genebra no seu território? E a convenção das Nações Unidas contra a tortura, cujo artigo 3 cito no início, e de que somos signatários? É para aplicar? Então porque deixámos passar incontrolados, em Portugal e na UE, aviões destinados a países onde se pratica a tortura e (já agora) de onde são oriundos terroristas, isto em pleno alerta máximo de segurança anti-terrorista? E quando Putin (ou a China, ou a Arábia Saudita) nos pedir um favor semelhante, que devemos responder? Que lamentamos, mas é só para os amigos?
</p>
<p>Já entendemos que não dá muito jeito fazer perguntas destas. Mas agora que já entendemos, podem parar com as indirectas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: &#8220;never trust youtube, cosmo kramer&#8221;</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Dec 2006 18:08:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
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		<description><![CDATA[Pedro Vieira: &#8220;never trust youtube, cosmo kramer&#8221;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/kramer.jpg" alt="Pedro Vieira: Never trust youtube, Cosmo Kramer" width="75%" border="0"><br/><i>Pedro Vieira: &#8220;never trust youtube, cosmo kramer&#8221;</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (3.ª parte)</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Dec 2006 15:32:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[nota de Rui Tavares: por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.] Quem terá &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/05/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-3%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[<strong>nota de Rui Tavares:</strong> por culpa inteiramente minha, não consegui ontem publicar as contribuições regulares das segundas-feiras, por Jorge Palinhos e Pedro Vieira. O António Figueira, com a simpatia do costume, concordou em emprestar-me aqui um espacinho dele.]
</p>
<p>Quem terá escrito a <em>Ilíada</em> e a <em>Odisseia</em>? <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Homer'>Homero</a>, dizem os antigos e muitos contemporâneos. No entanto, em grego “homero” significa “refém”. Os reféns eram os filhos dos prisioneiros de guerra que, sendo dúbia a sua lealdade, estavam isentos de participar nas batalhas. Por isso, era-lhes frequentemente entregue a responsabilidade de memorizarem e conservarem os poemas épicos orais e a história antiga da sociedade a que pertenciam.
</p>
<p>Seria Homero um destes reféns? Ou será que “homero” se refere a uma sociedade destes poetas que conservariam e refinariam estas tradições orais até ganharem corpo naqueles dois clássicos? A questão é muito discutida, mas o que está fora de dúvida é que os dois alicerces da literatura ocidental se basearam em histórias orais que foram passadas de geração em geração, de boca em boca, até alguém as fixar definitivamente por escrito.<br />Se estas duas obras são discutíveis, outras já não o são. Por exemplo, hoje há certezas quanto que a colecção <em>Hinos Homéricos</em> não pode ser atribuída ao mesmo autor da Ilíada e a que as obras que os eruditos gregos atribuíam a Orfeu certamente não lhe pertenceriam.
</p>
<p>O terceiro alicerce da literatura ocidental, a <em>Bíblia,</em> também é alvo de discussão quanto a algumas das suas passagens. Debate-se, por exemplo, se os seus livros  teriam sido mesmo escritos pelos seus autores nominais, se ditados por estes, se seguiriam tradições próximas destes ou se seriam, simplesmente, obras anónimas atribuídas a um autor prestigioso para ganharem o peso da autoridade. É certo que o <em>Cântico dos cânticos</em> não foi composto por Salomão, mas fazia parte das tradições orais das núpcias judaicas, e que o Evangelho de São João terá sido escrito por alturas do séc. II d. C., muito depois falecimento do apóstolo.
</p>
<p>Mesmo nos Evangelhos há passagens abertamente reconhecidas como apócrifas. Na obra <a href='http://www.asa.pt/produtos/produto.php?id_produto=302036'>Os Monges que Traíram Jesus</a> (2006) há a indicação de várias. A mais famosa é a de Marcos 16:9-19, na qual se descreve a ressurreição de Cristo, que é hoje universalmente reconhecida como um acrescento posterior – a versão oficial católica da <em>Bíblia</em> o diz. O Evangelho, o mais antigo dos quatro, terminaria originalmente com a morte de Jesus. <br />Uma das histórias mais famosas dos Evangelhos, João 7:53-8:11, do encontro com a mulher adúltera e do “quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”, é considerado por muitos autores como uma invenção posterior: surge uma única vez nos manuscritos mais antigos, aparece em vários sítios diferentes nos manuscritos posteriores, interrompe o fluxo do texto do evangelho e está escrito num estilo bastante diferente.
</p>
<p>Foi com a descoberta da imprensa e a disseminação de livros e leitores que os problemas de autoria se agudizaram.
</p>
<p>Um desses casos é o de Shakespeare. Sendo já de si polémica a atribuição das peças ao indivíduo chamado William Shakespeare, o caso agrava-se quando a maior parte das suas peças foram publicadas após a sua morte, por actores da sua companhia, que se basearam nas notas, na memória e em notas de representação, dando origem a versões muito díspares.
</p>
<p>Outro exemplo mais próximo de nós é o de <a href='http://fredb.sites.uol.com.br/lusdecam.htm'>Camões</a>. Quando, quinze anos depois da morte do poeta, o impressor Lobo Soropita publicou pela primeira vez as suas obras, teve as recolher da oralidade ou de manuscritos de terceiros. Na segunda edição, teve já de retirar alguns sonetos que concluiu não serem de Camões e acrescentar outros que tinham surgido. Este método foi-se repetindo de edição a edição, até ao ponto de haver mais 400 sonetos atribuídos a Camões. Jorge de Sena estabeleceu 119 sonetos como autênticos. A questão ainda <a href='http://abrupto.blogspot.com/2003_12_01_abrupto_archive.html%22%20%5Cl%20%22107185217947701251'>perdura hoje</a>.
</p>
<p>Como surgiriam todos estes sonetos apócrifos? Do mesmo modo que surgem muitos textos da Internet – alguém deparava com um soneto de que gostava e sentir-se-ia tentado a atribuí-lo ao poeta mais famoso da altura, outro escrevia um poema e, inseguro do seu próprio dom lírico, atribuía-o a alguém considerado.
</p>
<p>A prática não era, aliás, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Forgery'>exclusiva da literatura</a>. Miguel Ângelo em início de carreira terá feito passar um <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Michelangelo%27s_Cupid'>Cupido</a> de sua autoria por uma peça antiga. Muitos impressores renascentistas acrescentavam a sigla AD às suas xilografias para as valorizarem, atribuindo-as a Albrecht Dürer. No séc. XVII não eram desconhecidos os pintores anónimos que assinavam os seus quadros com <em>Rembrandt fecit</em>.
</p>
<p>Se alguma desta pseudo-epigrafia era inconsequente, servindo apenas para alimentar egos e carteiras, algumas destas falsificações tiveram efeitos surpreendentes.
</p>
<p>Um destes casos foi o de <a href='http://www.bbc.co.uk/legacies/myths_legends/scotland/highland/index.shtml'>Ossian</a>, um suposto poeta medieval, cujas obras, “descobertas” no séc. XVIII, viriam a inspirar o movimento romântico. Porém, a real autoria do texto era do seu suposto “tradutor”, James MacPherson, um autor de obras históricas.
</p>
<p>Os exemplos de falsificação de autoria são intermináveis, mas julgo que estes servem para verificar como aquela sempre foi um conceito frágil, muitas vezes mais definida por uso e contingências que por uma autêntica ligação entre autor e obra.
</p>
<p>Deste facto, talvez se possa depreender que, muitas vezes, é o estilo e o conteúdo do texto que vão determinar a autoria atribuída.
</p>
<p>No caso dos textos apócrifos que correm pela Internet, isso suscita a questão: o que é que há num texto que faça os seus leitores sentirem a necessidade de atribuí-lo a outro que não o verdadeiro autor?
</p>
<p>Na próxima semana vou debruçar-me sobre o conteúdo e estilo dos ciberapócrifos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Continuação do choque por outros meios</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Dec 2006 16:37:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[América-Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Chávez]]></category>
		<category><![CDATA[Pinochet]]></category>

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		<description><![CDATA[No seu Vício de forma, o Pedro Lomba publicou uma adenda à discussão que tivemos no Choque Ideológico sobre esquerda e América Latina. Salto por cima das queixas sobre o meu alegado paternalismo moral (eu acho que o apoio dos &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/04/continuacao-do-choque-por-outros-meios/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No seu Vício de forma, o Pedro Lomba publicou uma <a href="http://vicio-de-forma.blogspot.com/2006/11/amrica-latina_116488392065159237.html">adenda à discussão que tivemos no Choque Ideológico sobre esquerda e América Latina</a>. Salto por cima das queixas sobre o meu alegado paternalismo moral (eu acho que o apoio dos EUA às ditaduras militares na América do Sul foi criminoso; o Pedro Lomba acha-o apenas criticável — e se há ocasião em que aproveito para exercer a fundo o meu paternalismo moral é precisamente quando se trata de condenar ditaduras que prendiam, torturavam e faziam desaparecer gente mentindo às suas famílias durante décadas, na América do Sul ou na Europa de Leste). O contributo factual deste post do Pedro Lomba é uma lista de presidências interrompidas na América Latina desde 1985, lista essa que refutaria a impressão generalizada (e que eu corroborei) de que durante muito tempo a América Latina não tinha governos de esquerda porque, simplesmente, <em>não os podia ter</em> e eles seriam devidamente derrubados por um golpe militar apoiado por Washington. Exemplos: João Goulart no Brasil, Allende no Chile, e o resto do Cone Sul, sendo talvez o caso mais criminoso o da Argentina. Na lista que o Pedro Lomba divulga, não estão lá estes casos (o tempo só começa a contar, por razões não explicadas, em 1985) e tampouco se fala de golpes de estado, mas apenas de “presidências interrompidas”. A presença nessa lista da “presidência interrompida” de Fernando Collor de Mello (por impugnação no Congresso brasileiro) ou da “presidência interrompida” de Fernando de La Rua (resignou depois do “consenso de Washington” neoliberal ter rebentado com a economia Argentina) só serve para demonstrar que “presidência interrompida” é qualquer coisa. Admira-me não estar o Tancredo Neves. Assim como assim, morreu em 1985 depois de ganhar a presidência do Brasil&#8230;</p>
<p>O que continua por explicar é o seguinte: porque ganham os candidatos de esquerda (de várias esquerdas, mas sempre assumidamente de esquerda) eleição após eleição na América do Sul? Haverá certamente novas ocasiões para falar disto no Choque Ideológico, até mesmo já nesta semana em que um senhor chamado Pinochet recebeu a extrema-unção e um senhor chamado Chávez ganhou as eleições na Venezuela.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma proposta salomónica</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Dec 2006 15:48:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[TLEBS]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 2 de Dezembro] Há uma tensão que me intriga e estimula: para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura.A TLEBS vai matar &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 2 de Dezembro]</p>
<p><center><strong>Há uma tensão que me intriga e estimula: para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura.</strong></center>A TLEBS vai matar as nossas criancinhas. Não sabia? Vai penetrar naqueles encéfalos tenrinhos e secar-lhes os neurónios. Proteja os seus filhos. Caso contrário, ao fim de uma geração ninguém mais falará português em Portugal. Você foi avisado por Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Helena Matos, Maria Alzira Seixo e muitos outros: uma conspiração de linguistas motivados pelo ódio à língua portuguesa e a raiva à literatura inventou os epicenos e os nomes contáveis, vírus de uma epidemia de TLEBS que pode vir a ser pior do que a gripe das aves ou a pneumonia asiática, juntas.</p>
<p>A reacção pública à TLEBS — que, no mundo real, é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário — foi, mais uma vez, exemplar dos debates sobre educação em Portugal. Os comentadores do costume (e algumas adições) continuam viciados em criar o pânico a qualquer gesto, com uma desconfiança crónica dos técnicos e professores, e sempre prontos a investir no sensacionalismo e na confusão, a serviço de um suposto tempo em que as coisas eram evidentes e “se aprendia”. Como me dizia um amigo biólogo, repete-se aqui o fundo da discussão sobre Plutão: como toda a gente tinha aprendido que Plutão era um planeta, era forçoso que Plutão continuasse a ser um planeta para sempre, independentemente do que entretanto tivessem descoberto os astrónomos.</p>
<p>Do outro lado, temos uma comunidade técnica e científica assarapantada no meio do espaço público como um bicho na auto-estrada. Ironicamente, os linguistas não são capazes de comunicar com a comunidade. Mas não lamentemos demasiado os académicos, que só têm de se queixar pelas suas culpas, principalmente quando a impotência desliza para o “não falem do que não sabem”, como fez Maria Helena Mira Mateus. Os académicos têm de entender que quando está em causa a generalização dos seus saberes, não só é natural como desejável que as pessoas acabem “falando do que não sabem”. Ou falamos todos do que não sabemos, ou sucumbimos à ditadura tecnocrática — e se os especialistas querem ajudar ao debate a melhor maneira de o fazer não é exigir-lhe que termine. Além de que, se os linguistas tivessem pensado no resultado final, teriam feito bem em trabalhar menos e não mais: a TLEBS desce efectivamente a um nível minucioso que, como se viu, atrapalhou mais do que ajudou.</p>
<p>Se eu fosse linguista, teria especial cuidado com este particular, porque já se chegou ao ponto em que Vasco Graça Moura conseguiu convencer as pessoas de que o linguista é o inimigo da língua e abomina a literatura. O que é uma especificidade portuguesa muito infeliz: nos EUA, por exemplo, basta ver a importância pública de autores como Steven Pinker e, de forma diferente, George Lakoff. A Linguística é talvez a disciplina das humanidades que mais evoluiu e que melhor diálogo tem com as ciências naturais:  perguntem a António Damásio sobre os ecos entre o seu trabalho e o dos linguistas, na neurologia, nas ciências cognitivas e na inteligência artificial. A Linguística ocupa um lugar-charneira no arquipélago dos saberes, o que explica parte das linhas de fractura na discussão da TLEBS: os linguistas são hoje uma espécie bem diferente dos seus restantes colegas das Faculdades de Letras.</p>
<p>Acabamos então demonizando uma disciplina de ponta e, a acreditar nas últimas notícias, ferindo de morte a TLEBS. E para quê? Para voltar a uma terminologia obsoleta, divergente da utilizada no maior país de língua portuguesa e que não é menos específica nem complicada do que a TLEBS? Não haverá então nada que se aproveite desta discussão?</p>
<p>Claro que há. Há um aspecto que me intriga e estimula: esta tensão fundamental entre os que defendem a prioridade ao estudo da língua e os que defendem a prioridade à literatura. Para uns é essencial conhecer os alicerces, os tijolos e as traves-mestras da língua; para outros, habituar-se a passear pelos palácios da literatura. Por experiência pessoal, sou sensível ao argumento de Vasco Graça Moura de que o domínio da língua vem depois do entusiasmo da leitura, como quem diz: levem-nos a visitar o mosteiro da Batalha em vez de lhes dizerem o que é um arcobotante. Por outro lado, quem ainda não esqueceu o último grande pânico a propósito dos níveis de literacia compreende que se os estudantes desconhecerem os materiais de que é feita a língua não só nunca atingirão as alturas do mosteiro da Batalha (ou d&#8217;<em>Os Maias</em>) como terão dificuldades em ler um artigo de jornal ou em escrever uma carta de reclamação. Mas que devemos, então, ensinar-lhes: a engenharia, a arquitectura ou a decoração de interiores da língua portuguesa? A resposta a essa pergunta é outra pergunta: desde quando uma coisa nos obriga a prescindir da outra?</p>
<p>Este momento é o ideal para uma proposta salomónica. Em vez de termos apenas uma gaveta, a que se chama Língua e Literatura Portuguesa, para volta e meia assistirmos a uma nova batalha pela porção que deve caber a uma e a outra, deveríamos finalmente dar a dignidade merecida às duas matérias.</p>
<p>De um lado, teríamos a Literatura, não só pelo benefício que dela resulta para a língua mas reconhecendo a centralidade das letras na cultura universal. Os clássicos da literatura em Língua Portuguesa continuariam a ser o núcleo fundamental desta disciplina, mas tampouco há razão para excluir dela alguns clássicos fundamentais em tradução — Cervantes, Shakespeare ou Tolstoi. Além disso, desobrigada do estudo linguístico aprofundado, sobraria algum espaço para iniciar experiências de escrita criativa e estimular o talento literário. Idealmente, poderia aflorar as outras Artes: penso em Drama, Música ou Cinema.</p>
<p>Do outro lado, a Linguagem. Mais uma vez, o eixo central seria a Língua Portuguesa, mas não nos deteríamos aí. Desde os saberes clássicos com contributos pragmáticos — a retórica, a gramática e a dialéctica — à análise de discurso, à construção de argumentos e às distinções entre fonética, morfologia e sintaxe (ou entre dialectos e idiomas, tão incompreendida), há aqui muito de fundamental para os dias de hoje. Saber interpretar e analisar; conhecer a história dos <em>media</em> e o panorama linguístico do mundo — temas importantes e entusiasmantes de ensinar e aprender. Ajudando a combater o analfabetismo funcional e a melhorar os níveis de literacia sem se poder ser acusado de “matar” o gosto pela fruição estética ou roubar espaço aos clássicos da literatura.</p>
<p>Ao contrário do que se diz, não é de agora que vivemos na sociedade da comunicação. Os humanos respiram comunicação e cultura como respiram oxigénio, e provavelmente desapareceriam sem elas. Duas disciplinas diferentes não são demais para os desafios de um estudante médio. Por um lado, ampliar e sofisticar a sua cultura geral, pelo contacto com os melhores exemplos históricos da literatura e mesmo das restantes artes. Por outro, ganhar ferramentas de análise e construção do discurso nos seus vários níveis. Não temos de excluir uma opção pela outra — nem devemos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Daily Shit &amp; Fan</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 22:59:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;when the shit hits the fan: tablóide condenado por difamação&#8221; – notícia do DN, sobre condenação ao Daily Mirror]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/difamacao.jpg" title="Pedro Vieira: Shit &#038; Fan [clique para aumentar]" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/difamacao.jpg" width="85%" border="0"></a><br/>&#8220;when the shit hits the fan: tablóide condenado por difamação&#8221; – notícia do DN, sobre condenação ao Daily Mirror</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedimos desculpa por esta interrupção</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 16:11:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma cadeia de acontecimentos imprevistos encalacrada numa outra cadeia de acontecimentos, esses já previstos, fez com que eu hoje não pudesse pôr as minhas mãos pecadoras em qualquer teclado de computador, com excepção para este momento em que aproveito para dar conta da indisponibilidade aos leitores, antes de partir para o que o destino me reservar ainda neste dia. Felizmente, o texto do Jorge Palinhos que fica aí abaixo enche as medidas de qualquer blogue. Usufruam e — quer-me parecer — até para a semana.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (2.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Nov 2006 16:06:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eduardo Prado Coelho foi acusado de plágio. Situação escandalosa mas não inaudita em Portugal. Só que o inesperado acontece quando o suposto autor plagiado, João Ubaldo Ribeiro, nega veementemente a autoria do texto original. E o caso torna-se rocambolesco quando &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/27/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-2%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eduardo Prado Coelho foi acusado de plágio. Situação escandalosa mas não inaudita em Portugal. Só que o inesperado acontece quando o suposto autor plagiado, João Ubaldo Ribeiro, nega veementemente a autoria do texto original. E o caso torna-se rocambolesco quando o próprio Eduardo Prado Coelho desconhece o texto de que deveria reclamar autoria.
</p>
<p>O texto intitulava-se “Precisa-se de Matéria-Prima para Construir um País” e era um texto indignado sobre a corrupção do país, em que se acusa o povo, e não os políticos, desta. O texto, alegadamente publicado no <em>Público</em>, em Novembro de 2005, seria praticamente igual a um texto de João Ubaldo Ribeiro, publicado nos jornais brasileiros <em>O Globo</em> e <em>Jornal do Meio Ambiente</em>, variando apenas nas referências a políticos e eventos portugueses e brasileiros, respectivamente.
</p>
<p>Um anónimo verificou as semelhanças, mais que muitas, e foi fazer a acusação, anónima, para a blogosfera. No entanto, o <em>Público</em> não tem qualquer registo de ter publicado o texto. Eduardo Prado Coelho afirma nunca o ter escrito. João Ubaldo Ribeiro também. Num <em>e-mail</em> para os amigos, o escritor brasileiro avisa: “Estou lhe mandando o texto abaixo porque está circulando na internet como meu e, antes que você tome um susto ao eventualmente recebê-lo, quero explicar que não tem nada de meu, eu nunca escreveria esse negócio nunca. Até o detalhe de molhar a mão do guarda é inverídico, porque não tenho carteira e não dirijo mais há uns trinta anos. Mas não posso fazer nada, só posso desmentir a quem me pergunte. E agora você, a quem lhe perguntarem. Abraços chateados de João Ubaldo”.
</p>
<p>O aborrecimento de João Ubaldo Ribeiro é cada vez mais frequente entre escritores e cronistas brasileiros. A Millôr Fernandes é atribuído um texto intitulado “O direito ao palavrão”, que este nunca escreveu e cuja suposta autoria o deixa enraivecido. Arnaldo Jabor, furioso por lhe ser imputado um texto com o título de “Bunda Dura”, escreveu no Estado de São Paulo: “Fico louco, porque estou sendo elogiado justamente pelo que não fiz. Toda semana tento ser inteligente, escrevo sobre o Bush, a crise internacional, espremo meus pobres conhecimentos filosóficos ou sociológicos, capricho na língua, tudo para ser chamado de “profundo” e aí, “Bunda dura” vem e é meu Prêmio Jabuti, minha medalha”. A propósito ainda de outro texto, contou “Fiquei sabendo que tinha um texto com o meu nome circulando na internet. Critiquei publicamente o conteúdo dele e pouco depois descobri que o autor era um jornalista. O sujeito ficou uma fera&#8230;” E a partir disto tira a conclusão que os textos que circulam pela internet têm sucesso porque “as pessoas gostam de m&#8230;”.
</p>
<p>Até o mais famoso cronista brasileiro da actualidade, Luis Fernando Verissimo, contou numa das suas crónicas que havia recebido grandes elogios por um texto chamado “Quase”, em que ele nunca pusera mão, e rematou dizendo que tinha sido incluído numa colectânea francesa dedicada a escritores brasileiros: “Eu estava entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos, adivinha com que texto? Em francês ficou ‘Presque’”. Posteriormente, Verissimo descobriu que o texto fora escrito por uma estudante universitária de 22 anos, que o escrevera depois do falhanço de uma quase relação amorosa.
</p>
<p>O fenómeno atingiu tal dimensão no Brasil que a jornalista Cora Rónai fez um livro e um blog, chamado <em>Caiu na rede</em>, sobre estes apócrifos da era digital, onde elencava dezenas destes textos, com indicação da verdadeira autoria, quando era possível descobri-la. Em vários artigos escritos a propósito da obra, discutiu-se a origem destes textos. Cora Rónai considera que “Há dois tipos de apócrifos: aqueles em que os nomes dos autores verdadeiros são substituídos por outros mais conhecidos, e outros escritos como se fossem de outros autores. No fundo, a maior parte é ou humor ou auto-ajuda, o que me leva a crer que a motivação é basicamente espalhar a piada ou o conselho. Ou, eventualmente, a revolta com aspectos do mundo contemporâneo.”
</p>
<p>Martha Medeiros, uma colunista que, inversamente, tem vários textos seus a correr na net com a assinatura de outros escritores mais famosos (ver texto da semana anterior) acha que isso se explica por as pessoas sempre quererem partilhar aquilo que gostam de ler e a <em>internet</em> ter vindo facilitar de tal modo essa partilha que muitos, por preguiça, distracção ou maldade, acabam por deturpar a autoria ou o próprio texto. Mas já às pessoas que escrevem e assinam com outro nome, atribui medo de exposição e de assumirem os seus textos. Por sua vez, a psicóloga Carla Leitão atribui a deturpação da autoria ao desejo dos falsários de ver o seu texto difundido, dando-lhe a estampa de um autor credível.<br />Incidentalmente, em Portugal temos um pequeno exemplo visível da evolução de um apócrifo cibernético. Há um ano, João Caetano Dias, usando o <em>Blogsearch</em> do <em>Google</em> observava a evolução de um texto seu sobre o aeroporto da Ota. O texto, publicado no seu blog de então, <em>Jaquinzinhos</em>, comparava números entre os aeroportos de Málaga e da Portela para defender a dispensabilidade do novo Aeroporto da Ota. O texto foi citado por outros blogs e entrou no circuito secreto dos <em>e-mails</em> reenviados. Algumas semanas depois o texto citado já apresentava frases que não constavam do original, incluindo acusações a políticos conhecidos. E algum tempo depois, o texto continha a assinatura de Miguel Sousa Tavares. Ou seja, alguém achou que o texto era demasiado “importante” para ser assinado por um pouco conhecido João Caetano Dias e promoveu-o ao “estatuto” de Miguel Sousa Tavares.
</p>
<p>Apesar das queixas, os apócrifos não são apanágio da era cibernética. Por exemplo, o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luís Borges, começou a sua carreira de apócrifo na era pré-internet, na revista <em>Plural</em>, então dirigida por Octávio Paz.<br />Falarei disso na próxima semana.
</p>
<p>Fontes:<br /><a href='http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=218165&#038;idselect=92&#038;idCanal=92&#038;p=200'>www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=218165&#038;idselect=92&#038;idCanal=92&#038;p=200</a><br /><a href='http://livrocaiunarede.blogspot.com'>http://livrocaiunarede.blogspot.com</a><br /><a href='http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/337912.shtml'>www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/337912.shtml</a><br /><a href='http://www.condominiobrasil.net/archives/2006/03/caiu_na_rede.html'>www.condominiobrasil.net/archives/2006/03/caiu_na_rede.html</a><br /><a href='http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-March/002456.html'>http://listas.ibict.br/pipermail/bib_virtual/2006-March/002456.html</a><br /><a href='%22'>http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/boatos-blogosfricos-chegou-hoje-por-e.html</a><br /><a href='%22'>http://ablasfemia.blogspot.com/2005/10/ainda-sobre-o-boato.html</a><br /><a href='http://assimobservo.blogspot.com/2005/07/do-jaquinzinhos-andar-nas-nuvens-via.html'>http://assimobservo.blogspot.com/2005/07/do-jaquinzinhos-andar-nas-nuvens-via.html</a><br /><a href='http://lookatthebrightsideoflife.blogspot.com/2006/05/umahistria-de-2-aeroportos.html'>http://lookatthebrightsideoflife.blogspot.com/2006/05/umahistria-de-2-aeroportos.html</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: ImplanteTV</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2006 18:28:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: &#8220;cirurgia plástica em directo chega à TVI&#8221;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/tvi.jpg" title="Pedro Vieira, ImplanteTV [Clique para aumentar]"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/tvi.jpg" width="85%" border="0"></a><br/><br /><em>Público: &#8220;cirurgia plástica em directo chega à TVI&#8221;.</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (1.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2006 14:29:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi com o poeta chileno Pablo Neruda que aprendi que: Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/20/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-1%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi com o poeta chileno Pablo Neruda que aprendi que:
</p>
<p><em>Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não </em><br /><em>ouve música, quem não encontra graça em si mesmo. </em><br /><em>Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem </em><br /><em>não se deixa ajudar. </em><br /><em>Morre lentamente quem se transforma em escravo do </em><br /><em>hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, </em><br /><em>não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não </em><br /><em>conhece. </em>
</p>
<p>Descobri-o nas sábias palavras de Martha Medeiros, uma publicitária brasileira radicada no Chile.
</p>
<p>Dir-se-ia que a América do Sul é um farol para a vida de muitos, pois é também de outro sul-americano, escritor, argentino, Jorge Luís Borges, que tive esta inspiração:
</p>
<p><em>Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. </em><br /><em>Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. </em><br /><em>Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério. </em><br /><em>Seria menos higiénico. </em><br /><em>Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. </em><br /><em>Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. </em><br /><em>Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria. </em><br /><em>Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos&#8230;</em>
</p>
<p>Bons momentos, sim, que devemos agradecer à autora Nadine Stair, uma poetisa norte-americana mediana, que escreveu estes ensinamento pelo punho de Don Herold, um cartoonista esquecido do Reader’s Digest.
</p>
<p>Um pouco mais a norte, o escritor de ficção científica Kurt Vonnegut, de forma mais pragmaticamente norte-americana, deu uma série de conselhos úteis aos alunos do Massachusetts Institute of Technology:
</p>
<p><em>If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience. I will dispense this advice now. </em><br /><em>Enjoy the power and beauty of your youth. Oh, never mind. You will not understand the power and beauty of your youth until they&#8217;ve faded. But trust me, in 20 years, you&#8217;ll look back at photos of yourself and recall in a way you can&#8217;t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are not as fat as you imagine.  </em><br />Agradeça-se estas palavras à autora, Mary Schmich, que as escreveu para o Chicago Tribune.
</p>
<p>E quero terminar com mais luminosidade de um Nobel, Gabriel Garcia Márquez, que nos revela:<br /><em>Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo.  Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. </em>
</p>
<p>Sábias palavras as desta marioneta de trapos onde o ventríloquo mexicano Johnny Welch colocou as suas palavras.
</p>
<p>***
</p>
<p>Provavelmente já quase todos lemos alguns destes textos, quase sempre atribuídos a Neruda, Borges, Vonnegut e Márquez. O mais certo é os termos lido em e-mails reencaminhados por amigos, mas também referidos em jornais e revistas, programas de televisão e até mesmo filmes e livros.
</p>
<p>E, contudo, estes textos têm a espantosa particularidade de não terem sido escritos pelos autores supostos, mas serem de autoria de Martha Medeiros, Don Herold, Martha Schmich e Johnny Welch, embora não tenha havido qualquer tipo de plágio. Aliás, Neruda e Borges provavelmente ficariam horrorizados por lhes serem atribuídos tais textos, Vonnegut é indiferente e Gabriel Garcia Márquez já declarou inconcebível que alguém pudesse acreditar que um texto daqueles pudesse ser seu.
</p>
<p>Contudo, apesar dos esforços de esclarecer a autoria de autores, viúvas e amigos, estes textos continuam a circular de mão para mão, indiferentes a autoria, qualidade literária ou tempo.
</p>
<p>Como e porquê é o que vou tentar explorar nas próximas semanas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Palhaço pobre, palhaço rico</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Nov 2006 02:12:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 18 de novembro 2006] Durão Barroso tem sido o palhaço rico desta dupla desde nem se sabe quando. Dos tempos da faculdade, talvez? No governo de Cavaco, Santana Lopes era o secretário de estado estouvado e Durão &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/20/palhaco-pobre-palhaco-rico/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 18 de novembro 2006]
</p>
<p><strong>Durão Barroso tem sido o palhaço rico desta dupla desde nem se sabe quando. Dos tempos da faculdade, talvez? No governo de Cavaco, Santana Lopes era o secretário de estado estouvado e Durão Barroso o secretário de estado atiladinho.</strong>
</p>
<p>Portugal precisa de Pedro Santana Lopes. Não como primeiro-ministro nem líder da oposição, não como autarca nem presidente de clube recreativo. Precisa de Santana Lopes como artista de variedades. Num café da baixa, às primeiras imagens de uma nova entrevista sua, os olhos abandonaram por momentos os tristes copos de cerveja e o empregado de avental correu a subir o volume do aparelho de televisão: “deixa ouvir o gajo, pá!”. E os clientes ali ficaram, suspensos do desempenho daquele velho conhecido, recordando incrédulos os meses em que ele foi primeiro-ministro, pontuando aqui e ali com um gargalhada. O “gajo” é uma diversão: nos seus lamentos sobre as interpretações maldosas da sesta e da ModaLisboa, nos voos rasantes sobre a ingratidão dos que lhe sucederam, nas exortações aos portugueses: “só peço aos portugueses que leiam o meu livro”. Santana Lopes sente-se espoliado; por vezes refere-se aos cargos que teve como “o lugar que era meu” — Marques Mendes ficou com “o lugar que era meu no PPD/PSD”, Carmona Rodrigues na Câmara de Lisboa, José Sócrates no Governo. Como uma <em>vedette</em> que já viu melhores dias, agarra-se aos sucessos do passado, o tempo em que se dizia que era imbatível em eleições: “ganhei em Lisboa contra tudo e contra todos”, “fui a votos sozinho na Figueira”. Lisboa, Figueira da Foz, os congressos do PPD/PSD. Parece a lista de salas de espectáculos onde o grande Santana apresentou o seu número de triplo salto mortal sem rede política. “Não o deixem sozinho, que ele vai para a floresta estilo Rambo”, diz de si mesmo, como quem decorou uma crítica dos tempos em que era cabeça de cartaz.
</p>
<p>Santana Lopes entretém como poucos, mas acontecem-lhe coisas como a ninguém. Ele é o ministro que se demite sem avisar, ele é o discurso da incubadora que foi mal entendido, ele é o presidente que lhe garantiu que não dissolvia o parlamento. Os clientes do café abanam a cabeça, saboreando: aquilo é que eram tempos, pá. Todos os dias havia uma nova. Ele foi o Professor Marcelo que aproveitou a primeira ocasião para o tramar. Santana, enquanto primeiro-ministro, comprou uma guerra com um comentador de televisão, mas até hoje ainda não entendeu como é que as pessoas foram achar que o governo queria condicionar os <em>media</em>.
</p>
<p>Neste seu jeito de dar um trambolhão em público e depois vir mostrar as nódoas negras à plateia, Santana Lopes é uma espécie de palhaço pobre da política portuguesa. Por isso o público e os comentadores gostam tanto dele e não há quem não tenha molhado o pão naquela sopa. Eu sei como é irresistível, eu sei como é fácil. Fácil de mais, até. É por isso que se deve aproveitar este regresso às memórias do santanismo e dirigir o holofote para uma personagem que já se tinha escapado pelos bastidores quando o circo pegou fogo.
</p>
<p>Durão Barroso tem sido o palhaço rico desta dupla desde nem se sabe quando. Dos tempos da faculdade, talvez? No governo de Cavaco, Santana Lopes era o secretário de estado estouvado e Durão Barroso o secretário de estado atiladinho, que chegou a ministro. Mais tarde, era Santana que levantava os congressos do partido, mas foi a Durão que lhe caiu a chefia do governo no colo. Guterres acabara de recusar o cargo de Presidente da Comissão Europeia declarando não desejar abandonar o governo do seu país, para depois de uma derrota eleitoral a meio do mandato convocar eleições antecipadas. Dois anos depois de ganhar o cargo de Primeiro-ministro nesse processo, Durão encarou uma derrota eleitoral a meio do mandato dizendo que ia continuar no governo, para depois aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia que — sabemo-lo agora — já ambicionava desde antes das eleições, quando ainda dizia apoiar a candidatura de&#8230; Guterres. Confidencialmente, foi dizendo a Santana que se preparasse para o substituir e, finalmente, fez-lhe aquilo que os palhaços ricos fazem aos palhaços pobres: passar-lhes a batata quente para as mãos no mais periclitante dos momentos e deixar que eles se estatelem em palco à vista de toda a gente.
</p>
<p>Anos passados, ambos permanecem firmes nos seus papéis. Santana dá entretenimento, fala do que poderia ter sido mas não foi e diz que não voltará à política enquanto “não estabilizar a vida profissional”. Como telenovela, não duvido que tenha ultrapassado em audiências o Presidente da República, que falava noutro canal. Quanto a Durão, também ele tem aparecido com mais frequência nas capas das revistas, patenteando aos seus compatriotas a honra que devem sentir por termos exportado para a Europa um Primeiro-ministro fraco que se tornou num Presidente da Comissão medíocre. Ainda não se lhe viu uma actuação decisiva em nenhum dos muitos problemas que a União Europeia tem, mas parece preparar já o dia em que regressará à pátria, na mó de cima, sempre.<br /> <br /><strong>Revisitando a “Grelha Queimada”:</strong> o meu texto de há duas semanas, nas sua parte sobre educação, foi comentado na blogosfera e também aqui, nas páginas do Público, através de um artigo bastante equilibrado de Paulo C. Rangel. Na medida em que este concorda que a visão dominante sobre educação, com a sua insistência na decadência e na catástrofe, se tornou injusta e (diria eu) asfixiante, temos motivo para acordo, como na ambição de ter um ensino verdadeiramente democrático e na consciência do muito que nos falta para lá chegar. Já não vejo como pode Paulo C. Rangel descrever como de “optimismo antropológico” um texto onde escrevi que “a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso” e defendi apenas que uma comunidade é tão socialmente irresponsável quando ignora informação negativa como quando recusa ver sinais de progressão. Também a ideia, que Paulo Rangel sugere, de que Portugal começa a ter uma elite científica sem passar pelo fomento a uma “classe média do conhecimento”, uma população escolar com um fosso entre “excepecionalmente bons” e “fartamente medíocres”, me parece um tanto artificial. Brevemente, tentarei desenvolver o tema, respondendo também ao que se escreveu nos blogues, em <a href='http://ruitavares.weblog.com.pt/'>http://ruitavares.weblog.com.pt</a>/ e <a href='http://5dias.net/'>http://5dias.net</a>/.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos:  …e a retórica também</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 22:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 1860 morria o filósofo Arthur Schopenhauer. Quatro anos depois publicava-se um texto inédito seu, cinicamente chamado A Arte de Ter Sempre Razão. Ao contrário dos nossos compatriotas, cuja arte de ter sempre razão é calarem-se antes e vociferarem “Eu &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/13/jorge-palinhos-%e2%80%a6e-a-retorica-tambem/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 1860 morria o filósofo Arthur Schopenhauer. Quatro anos depois publicava-se um texto inédito seu, cinicamente chamado A Arte de Ter Sempre Razão. Ao contrário dos nossos compatriotas, cuja arte de ter sempre razão é calarem-se antes e vociferarem “Eu já sabia! Eu já sabia!” depois, Schopenhauer achava que durante as discussões era fácil ter sempre razão, independentemente da validade dos argumentos ou da constatação dos factos. Bastava usar alguns dos 38 estratagemas que enunciava no seu livro.<br />Não sei bem porquê, lendo os argumentos que muitos dos blogs liberais e de direita empregam para tentar dissociar a derrota do Partido Republicano da Guerra no Iraque, não pude deixar de interrogar-me se esses argumentos não seriam, em parte, fruto da aprendizagem dos estratagemas de Schopenhauer. Afinal, os próprios derrotados assumiram essa ligação e o estratega da guerra, Donald Rumsfeld, foi demitido em consequência das eleições.<br />Para verificar tal possibilidade, resolvi confrontar alguns posts de João Miranda, o mais conhecido e reputado blogger liberal, com as 38 estratégias de Schopenhauer. Sem nenhuma ordem em especial:
</p>
<p><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/pretextos-no-so-causas.html">Os gregos cercaram Tróia para resgatar Helena. A explosão do USS Maine causou a guerra Hispano-Americana. A 1ª Guerra Mundial foi travada por causa do assassinado do Arquiduque da Áustria. (…)Os EUA invadiram o Iraque por causa das Armas de Destruíção em Massa.</a> <strong>Estratagema n.º 2, Ex homonymia</strong> – Associar à premissa do adversário outras permissas superficialmente similares para depois, ao refutar estas, parecer que se está também a refutar a do adversário.
</p>
<p><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/consequncias-da-vitria-do-partido.html">Consequências da vitória do Partido Democrata</p>
<p>1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz.  2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto.  3. Guantanamo fechará em menos de 6 meses e os presos voltarão para as suas terras.  4. Os Taliban serão finalmente derrotados. ### 5. Os Patriot Act e similares serão revogados.  6. Fidel Castro e Hugo Chavez reconhecerão a grandeza dos EUA.  7. Francisco Louçã emigrará para os EUA.  8. Bin Laden será finalmente capturado, será julgado num tribunal americano e ilibado por causa de uma &#8220;technicality&#8221;.  9. Miguel Sousa Tavares escreverá um artigo sobre a felicidade que é ter a América de volta ao seio das nações civilizadas.  10. O Congresso atribuirá direito de voto nas eleições americanas a todos os cidadãos do mundo.  11. O planeta começará a arrefecer. Aliás, já se nota. Hoje já está mais frio que ontem.  12. O McDonalds começará a servir alta cozinha francesa.  13. O Irão desistirá de fazer uma bomba nuclear e pedirá a adesão à União Europeia.  14. O líder da Coreia do Norte abdicará de toda a sua tecnologia nuclear e entregará o poder a um governo de transição composto por Sul-Coreanos cuja missão será preparar a reunificação da Coreia. Os Norte-Coreanos crescerão 20 cm passando a ter, em média, a estatura normal de um coreano bem alimentado.  15. Uma investigação do Congresso revelará novas provas sobre a conspiração para destruir o World Trade Center e iniciar guerras no estrangeiro. O Bush será julgado por um tribunal internacional, que o condenará a prestar serviço cívico por crimes contra a humanidade.  16. Saddam Hussein será perdoado e reabilitado iniciando uma nova carreira como conferencista de nível internacional.  17. Os bible belters converter-se-ão ao ateísmo militante e os red necks passarão a frequentar a ópera de Nova Iorque e a participar nas campanhas da GreenPeace.  18. Fidel Castro terá permissão para anexar a Florida.  Grandes esperanças. Grandes esperanças. 1. O terrorismo no Iraque desaparecerá e as tropas americanas retirarão em paz. 2. Os EUA adoptarão o Protocolo de Quioto. (…)Grandes esperanças. Grandes esperanças.</a> <strong> Estratagema n.º1, A generalização</strong> – Levar a proposta do adversário até aos limites do absurdo.
</p>
<p> <a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/voltou-boa-amrica.html">Voltou a Boa América  A esquerda que vê a política internacional como uma espécie de jogo de futebol está eufórica com a vitória da boa América sobre a má. Soma-se à vitória do bom Brasil sobre o mau Brasil, da boa Venezuela sobre a má Venezuela, da boa Bolívia sobre a má Bolívia e à boa prestação da selecção do Scolari no último mundial. Como se diz no futebol, o clube deles só lhes dá alegrias… </a> <strong>Estratagema n.º 29, A paródia</strong> – Quando estamos vencidos começamos a falar de coisas só vagamente relacionadas, de modo a obter algum tipo de humor.
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 3, A reinterpretação</strong> – Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.<br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006_11_05_ablasfemia_archive.html#titleof116299625568600981">Há duas atitudes perante os resultados das eleições americanas. Uma passa por confirmar preconceitos com outros preconceitos. Do género &#8220;eu acredito que a guerra do Iraque é má, logo, os eleitores americanos decidiram punir o Bush por causa da guerra no Iraque&#8221;</a>. Outra atitude passa por usar a informação disponível de forma objectiva para tirar conclusões. 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º30, Argumentum ad verecundiam</strong> – À falta de argumentação lógica, recorre-se a uma suposta autoridade. <br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/agora-que-ningum-pra-paz-universal.html">Agora é que ninguém pára a paz universal GOP officials: Rumsfeld stepping down</a> 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 3, A reinterpretação </strong>– Interpretar uma posição relativa numa aplicação geral e absoluta.<br /> <a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/afinal-boa-amrica-perdeu.html">Afinal a Boa América perdeu  Lincoln Chafee, pro-choice, pelo casamento entre homossexuais, contra a exploração das reservas de petróleo no Alaska, contra a pena de morte, contra a guerra do Iraque, pelo financiamento federal da investigação em células estaminais, pela discriminação positiva e pelo controlo da posse de armas. É Republicano. Perdeu.</a> 
</p>
<p><strong>Estratagema n.º 25, Exemplum in contrarium</strong> – Encontrar um único exemplo do contrário do que o adversário defende. <br /><a href="http://ablasfemia.blogspot.com/2006/11/new-direction.html<">Então, a Pelosi já sabe como é que se vai resolver aquilo do Iraque?</a> p></p>
<p><strong>Estratagema n.º 38, Argumentum ad personam</strong> – Quando se perde a possibilidade de ter razão, ataca-se por todos os meios o adversário.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: baixa penetração</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 20:33:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[DN: «portugal com baixa penetração de net»]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/penetracao.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/penetracao.jpg" width="85%" border="0" title="Pedro Vieira: penetração [clique para aumentar]"></a><br /><em>DN: «</em>portugal com baixa penetração de net<em>»</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: Madrid é nossa</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 15:23:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Li nos blogues que um grupo de generais pediu há dias a demissão do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, por causa de declarações pró-iberistas deste membro do governo. Mas não sei se sonhei, porque, continuando a percorrer blogues, vi &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/13/andre-belo-madrid-e-nossa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Li nos blogues que um grupo de generais pediu há dias a demissão do ministro das Obras Públicas, Mário Lino, por causa de declarações pró-iberistas deste membro do governo. Mas não sei se sonhei, porque, continuando a percorrer blogues, vi também que as declarações do ministro, na verdade, já datavam da primavera passada. Será tudo isto verdade? E, se sim, que raio de generais são estes que reagem com quase meio ano de atraso a umas declarações que põem em causa a integridade do nosso nacional mental territorial? Teriam a mesma capacidade de reacção num terreno de batalha? Com generais destes, como poderemos fazer face a um eventual ataque espanhol?
</p>
<p>E a propósito: há quanto tempo é que não atacamos Madrid? Eu tenho a resposta: há exactamente trezentos anos, quatro meses e quinze dias. Desde 28 de Junho de 1706, com a gloriosa entrada do Marquês de Minas na capital castelhana, ao serviço do Arquiduque Carlos de Áustria, durante a guerra de Sucessão de Espanha. Um despautério de tempo. E onde estavam os nossos generais anti-iberistas quando se celebrou a efeméride? Estavam entretidos a <em>não ouvir</em> as declarações do ministro das Obras Públicas.
</p>
<p>Tudo isto é uma vergonha. Madrid é nossa. Os espanhóis são nossos e as espanholas também. Queremos tudo a que temos direito que nos ofusca: o Prado e o Arco e a direcção de actores dos filmes do Almodóvar. Queremos os touros de morte e os huevos dos nuestros hermanos. Quanto ao ministro, não devia ser defenestrado, não. Devia ser obrigado a ir no TGV de Lisboa a Madrid em manobra de diversão ofensiva, com laranjas do Algarve na mão. Enquanto os generais seguiriam a cavalo, à antiga portuguesa, por Badajoz, Alcantara e a estrada de Placencia.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A vida dá muitas voltas</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2006 00:58:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 11 novembro 2006] Os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/13/a-vida-da-muitas-voltas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <i>Público</i> de 11 novembro 2006]</p>
<p><strong>Os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores.</strong></p>
<p>Os homens da semana: Saddam Hussein e Donald Rumsfeld. Saddam Hussein foi condenado à morte pelo massacre de mais de uma centena de xíitas na cidade de Dujail. Corria o ano de 1982 e não consta que Donald Rumsfeld, ex-Secretário de Estado da Defesa do presidente Gerald Ford, tenha tido grande reacção. Pelo contrário: no ano seguinte, já como enviado especial do Presidente Reagan ao Médio Oriente, Donald Rumsfeld visitou Saddam em Bagdad e de entre as amenidades trocadas na ocasião ficou a ideia de que Saddam Hussein era um aliado na luta contra (tente adivinhar) o terrorismo islâmico. O massacre de Dujail foi visto com uma retaliação a um atentado contra Saddam por parte do Partido do Chamamento Islâmico (Partido Dawa), que os EUA consideravam como sendo um grupo terrorista, aliado do Irão e logo depois grande apoiante do Hezbollah. O Partido Dawa defendia um estado islâmico, com a lei baseada na <em>sharia</em> e cujas decisões políticas não pudessem contradizer o Corão. E ainda defende. Mas a vida dá muitas voltas: o actual primeiro-ministro do Iraque, apoiado pelos EUA, é do Partido Dawa, tal como o anterior já foi.
</p>
<p>Saddam foi condenado à morte a poucos dias de umas eleições intercalares nos EUA dominadas pela guerra do Iraque, entretanto conduzida a partir do Pentágono pela sua antiga visita nos palácios de Bagdad, que voltou a ser nomeado Secretário de Estado da Defesa por George Bush (não, não se trata do Vice-Presidente americano à época do massacre de Dujail, mas do seu filho George W. Bush, cujo vice-presidente, Dick Cheney, é o antigo Secretário de Estado da Defesa do pai). Nem toda a gente ficou contente com esta condenação à morte, por razões de princípio, de método ou de oportunidade. Mas uma das razões menos lembrada é que Saddam Hussein será executado logo que esta decisão passe pelo recurso, interrompendo e esvaziando de sentido os outros 14 processos contra ele. Poderemos nunca ver julgados até ao fim os piores crimes de Saddam Hussein, nomeadamente o genocídio dos curdos na campanha de Anfal, durante a qual morreram talvez cem mil pessoas. Será triste para a humanidade que não chegue a julgamento este crime. E seria fascinante ouvir o que Saddam Hussein tivesse para dizer sobre estes anos de 1987 a 1989 em que a campanha de Anfal decorria e George Bush pai subia de Vice-Presidente a Presidente dos EUA. Mais uma vez, sem grandes protestos contra o ditador iraquiano, — e assim continuou até ao dia em que Saddam Hussein, habituado à trela solta, decidiu invadir o Kuwait.
</p>
<p>Sim, Saddam Hussein massacrava o seu próprio povo, como costuma dizer George Bush, filho. Sim, Saddam Hussein teve armas de destruição em massa, e até as usou sob os olhos semicerrados do Ocidente, na guerra contra o Irão. Sim, gostaríamos de saber tudo o que há para saber sobre estes assuntos, de preferência num tribunal internacional.
</p>
<p>Nesta mesma semana, os americanos puniram este Partido Republicano e a sua política iraquiana numas eleições intercalares para o Congresso dos EUA onde, supostamente, a política externa não desempenharia qualquer papel. Ora, o Partido Republicano é o partido do Iraque. Não foi Carter que usou Saddam Hussein para atacar o Irão, apesar da crise dos reféns da embaixada americana em Teerão. E depois dos anos de Reagan e Bush pai, Clinton recebeu o Iraque já como facto consumado, com Saddam agora finalmente insuflado no seu papel de “monstro de Bagdad”. Tampouco foi um membro do Partido Democrático que, logo depois de um 11 de Setembro planeado no Afeganistão e perpretado por sauditas, insistia que se atacasse imediatamente o Iraque pela singela razão de que lá é que estavam “os bons alvos”. Foi antes o nosso velho conhecido Donald Rumsfeld. Aliás, os nomes nesta farsa são sempre os mesmos — Bush, Bush, Cheney, e uma corte de intelectuais tão prestimosos quanto caducos — sempre com a mesma mistura de cinismo, manipulação e hipocrisia. De resto, esta gente gosta imenso de falar de valores. Os valores são óptimos. Para os outros.
</p>
<p>O que espanta é a moleza com que tudo isto ainda vai sendo recebido pela opinião instalada nos <em>media</em> ocidentais. Os mesmos comentadores que nos garantiram que o Iraque não teria qualquer peso nas escolhas dos americanos foram desmentidos pelo próprio George W. Bush, que poucas horas depois da derrota demitiu o arquitecto da guerra, Donald Rumsfeld, e declarou que estava aberto a qualquer ideia nova sobre o Iraque — demonstrando que ele, pessoalmente, não faz a mínima sobre como lidar com os seus próprios disparates.
</p>
<p>Falido um modelo explicativo, passa-se com desenvoltura para a segunda hipótese da moda: afinal o resultado das eleições americanas é a demonstração da moderação do eleitorado e uma vitória dos centristas. Mas, que diabo, não foram estes mesmos comentadores que nos garantiram que os americanos nunca votariam na nova presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, porque esta era uma esquerdista de San Francisco, anti-guerra e apoiante do casamento dos homossexuais? E não pertence esta vitória também a Howard Dean, um dos líderes do Partido Democrático, diabolizado desde 2003 como um lunático pacifista? Ah, as virtudes da moderação. Vejam como as palavras de George W. Bush na sua mais recente conferência de imprensa foram descritas por John Murtha, porta-voz democrático para o Iraque: “lixo retórico”.
</p>
<p>O mesmo se poderia dizer sobre as justificações de muitos outros apoiantes da guerra, nomeadamente daqueles que agora nos dizem que os seus adversários não têm nenhum plano para sair do Iraque. Pois é: só a retaliação das tropas americanas contra Falluja provocou mais mortos que os de Dujail e uma onda de terrorismo que não cessa de aumentar. Que surpresa: o nosso plano para sair do Iraque teria sido, simplesmente, não lá ter entrado. Dissemo-lo, aos milhões, nos meses que antecederam a guerra. Saddam deveria ter sido combatido com as armas do direito internacional, com um apoio consistente à oposição democrática, com paciência e superioridade moral. Mas há mais: talvez o melhor fosse mesmo não o ter visitado nem lhe ter dado apoio entre 1983 e 1989.
</p>
<p>A vida dá muitas voltas, e a última delas é apenas o princípio do fim para esta amoral aliança entre a arrogância neo-conservadora e o egoísmo neo-liberal, que guardava os votos do fundamentalismo evangélico no bolso e chantageava a opinião pública com o pânico do terrorismo e o fervor patriótico. Donald Rumsfeld terá agora tempo e sossego para reflectir em tudo isto.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Money can&#8217;t buy me love</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 23:19:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No princípio, Rui Rio só dava subsídio a quem falasse bem da Câmara do Porto. Agora, decidiu cortar todos os subsídios às artes. Se calhar foi antes que descobrisse que não sobrava ninguém para os receber.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No princípio, Rui Rio  só dava subsídio a quem falasse bem da Câmara do Porto. Agora, decidiu cortar todos os subsídios às artes. Se calhar foi antes que descobrisse que não sobrava ninguém para os receber.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: telegraph</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 19:47:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[daily telegraph corta 133 funcionários. não sabemos em quantas partes]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/telegraph.jpg" alt="Pedro Vieira, Telegraph" width="85%" border="0"><br/><i>daily telegraph corta 133 funcionários. não sabemos em quantas partes</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Mercedes versus Daewoo</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 13:56:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A história é paradigmática. Tão paradigmática que nem se acredita. Uma jovem de liceu, de família abastada e, depreende-se, inesgotavelmente mimada, enraivece-se com uma colega que se recusa a fazer sexo com ela e como vingança promete matar-se. Envia repetidos &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/06/jorge-palinhos-mercedes-versus-daewoo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A história é paradigmática. Tão paradigmática que nem se acredita. Uma jovem de liceu, de família abastada e, depreende-se, inesgotavelmente mimada, enraivece-se com uma colega que se recusa a fazer sexo com ela e como vingança promete matar-se. Envia repetidos SMS à colega para a assustar, o último dos quais com uma contagem decrescente. Depois, enfia-se num dos Mercedes Benz da família – um daqueles carros de luxo gigantescos, com 300 airbags, quilómetros de superfícies deformáveis e a última gritaria em kits de segurança rodoviária – (pormenor anedótico: a jovem não se esquece de pôr o cinto de segurança) e sai da garagem para se ir atirar&#8230; por uma ribanceira abaixo? Para diante de um comboio? Para debaixo das rodas de um colossal camião de carga? Nada disso. A jovem condutora intrépida, para executar o seu premeditado suicídio próprio, não tem melhor que lançar o seu avantajado e pesadíssimo Mercedes contra um minúsculo Daewoo, daqueles com solidez de casca de noz, leveza de pena e equipamento de segurança mínimo, conduzido por uma senhora de proveniência mexicana, mãe de três crianças menores, uma das quais seguia com ela no carro.
</p>
<p>O resultado, até o mais acérrimo ignorante das leis da física o pode prever: a jovem de hormonas em ebulição, no meio de muitos apitos, avisos luminosos e airbags insuflados, fica com algumas nódoas negras, a mãe de família morre e a sua filha de seis anos é brutalmente ferida, provavelmente com sequelas para o resto da vida.
</p>
<p>E agora? Se o caso é bizarro, as consequências são rotineiras: a família rica da adolescente contratou um bom advogado para impedir que a filha acabe na cadeia e esta terá apanhado uma reprimenda e uma proibição de sair à noite durante as próximas semanas; a família mexicana vê-se a braços com a perda de um dos progenitores e a perspectiva de contas médicas infindáveis com a filha incapacitada para o resto da vida, possibilidade atenuada com a esmola que a família rica certamente não lhe deixará de dar, nem que seja para calar a própria consciência.
</p>
<p>Como eu disse, a história é tão paradigmática que milhentas conclusões se podem tirar. Mas uma única vou mencionar aqui: a de que atenuar as desigualdades económicas é também uma forma de proteger os inocentes da imbecilidade alheia.
</p>
<p>Fontes: <br />http://www.msnbc.msn.com/id/15349057/<br />http://beautyandthebeltway.blogspot.com/search/label/Ranting<br />http://crimeblog.us/?p=175</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: &#8220;al jazeera já tem versão inglesa&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 02:24:08 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/aljazeera.jpg" border="0" width="85%"></p>]]></content:encoded>
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		<title>A grelha queimada</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2006 00:37:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em vez do cepticismo melancólico dos &#8220;Vencidos da Vida&#8221; agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos &#8220;convencidos da vida&#8221;. A «Geração Rasca» está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo — este mesmo onde escrevo — trazia &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/11/06/a-grelha-queimada/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Em vez do cepticismo melancólico dos &#8220;Vencidos da Vida&#8221; agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos &#8220;convencidos da vida&#8221;.<br /></strong>
</p>
<p>A «Geração Rasca» está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo — este mesmo onde escrevo — trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o Público, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano. Ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se tratam de investigadores &#8220;junior&#8221;, ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que se fôssemos a olhar mais de perto descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de &#8220;terra queimada&#8221; na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da &#8220;geração rasca&#8221;, José Mariano Gago.
</p>
<p>Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de &#8220;enquadramento&#8221; (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de &#8220;grelha de leitura&#8221;. Ora acontece que quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da &#8220;terra queimada&#8221;. Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? O cérebro baralha-se e recusa-se a acreditar.
</p>
<p>E é por isso também que eu insisto em dar destaque a esta notícia e outras como ela, porque os factos que contradizem a grelha de leitura dominante precisam de poder cumprir o seu papel de antídotos. Antídotos, reparem: a minha ideia jamais seria dizer que tudo é maravilhoso na educação portuguesa dos últimos anos — o que além de falso seria pernicioso —, mas que há coisas boas que demoram tempo a acontecer, investimentos que já estão a dar certo e uma progressão que se arrisca a ficar pelo meio do caminho se a grelha da &#8220;terra queimada&#8221; não tiver contraditório. Aquilo que eu quero, no fundo, é que a próxima geração possa ser também tão rasca, mas tão rasca, que publique mais ainda na Nature e na Science do que esta.
</p>
<p>Seria interessante perceber de onde vem esta ideologia da &#8220;terra queimada&#8221;. Desde logo, é importante notar que ela não tem nada de original: desde a Antiguidade Clássica que falar da decadência dos saberes e dos valores é um lugar-comum, uma versão intelectual da &#8220;queda do paraíso&#8221; bíblica. No Ocidente esta tendência é reforçada pela trajectória hoje crescentemente conservadora das gerações dos anos 60 e 70. E o que é ser conservador senão considerar que o futuro é, com toda a probabilidade, pior do que o passado? (Este é o momento em que os extremos se tocam e os conservadores estão de acordo com Rousseau, mas suspeito que esta evidência tampouco possa penetrar em certas grelhas de leitura). Por razões históricas que seria complicado resumir, Portugal tem aspectos reforçados das duas tendências: a decadentista que teve o seu auge no século XIX, e a reviravolta conservadora da geração do 25 de Abril, que se nota não só nos que navegaram até à direita mas até nos que ficaram à esquerda. O problema é que em vez do cepticismo melancólico dos &#8220;Vencidos da Vida&#8221; agora estamos resumidos aos sermões agressivos dos &#8220;convencidos da vida&#8221;.
</p>
<p>Os efeitos destas tendências não se fazem apenas sentir nos debates sobre educação. Um exemplo especialmente evidente está na relação entre colunistas da imprensa e blogosfera (a distinção entre ambas é de base tecnológica, mas o debate também se faz sob um pano de fundo geracional). Vejamos alguns casos recentes, começando pela acusação de plágio (quanto a mim, e parece que à maioria das pessoas, perfeitamente infundada) que um blogue anónimo fez a Miguel Sousa Tavares. Esta acusação foi entendida como sintoma de uma espécie de doença crónica da blogosfera. Num editorial do Público, José Manuel Fernandes sugeriu que a blogosfera teria de fazer um esforço colectivo para se limpar destes maus exemplos. A intenção, por boa que fosse, parte de uma incompreensão de base do que é a blogosfera, um meio descentralizado e avesso a hierarquias, onde o máximo que cada blogue pode fazer para corrigir os outros é o que já faz: escrever sobre o assunto. Tudo o mais seria como pedir ao &#8220;Jornal de Letras&#8221; que se responsabilizasse pelo que escreve &#8220;O Crime&#8221;, ou à &#8220;Nova Cidadania&#8221; que tomasse conta daquilo que sai na &#8220;Sexus&#8221;.
</p>
<p>Em casos como estes, não há blogosfera nem imprensa, há blogues e pessoas bem-intencionadas e credíveis e outras que não o são. E Miguel Sousa Tavares tampouco deu um bom exemplo ao responder com acusações genéricas a &#8220;um bloguista bloquista&#8221; ou a um &#8220;escritor frustrado obcecado com plágios&#8221; — acusações que não quis concretizar e que lançam suspeitas sobre pessoas individuais. O que vem provar que também na imprensa há quem não saiba cumprir com as regras básicas de enunciação e confirmação de factos. O mesmo se pode dizer da recente incursão de Eduardo Prado Coelho em território blogosférico, acusando de anonimato um blogue assinado por Luís Pedro Coelho [http://blog.luispedro.org] ou descrevendo como &#8220;aparvalhado&#8221; o estilo de um dos mais sérios bloggers nacionais, Luís Aguiar-Conraria [http://aguiarconraria.blogsome.com/]. Na resposta de Aguiar-Conraria, Eduardo Prado Coelho deve ter descoberto aquilo que Vital Moreira, Vasco Pulido Valente, Constança Cunha e Sá e até José Pacheco Pereira já descobriram: que a blogosfera dá luta e, de caminho, nos prova que afinal Portugal tem mais gente, mais bem informada e mais empenhada do que aquilo que se pensava.
</p>
<p>Numa velha canção dos anos 60, Georges Brassens satirizava este tipo de debates explicando que &#8220;le temps ne fait rien à l&#8217;affaire, quando on est con, on est con&#8221;. Traduzindo e adaptando, quer dizer que esta não é uma questão de tempo, de geração ou sequer de tecnologia — quando se é aparvalhado, é-se aparvalhado. Há gente que precisa de voltar a ouvir esta música antes de lançar os seus anátemas — e, curiosamente, os que mais parecem precisar são os que a conheceram logo na altura em que ela saiu.</p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>André Belo: O Ocidente converteu-se em Oriente</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 15:55:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/andre-belo-o-ocidente-converteu-se-em-oriente/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salvo raras excepções, quando se fala na presença árabe (e judaica também) em Portugal e Espanha, é quase sempre  como uma peça arqueológica: um &#8220;artefacto&#8221;, uma &#8220;coisa&#8221;. Depois vem a &#8220;Reconquista&#8221;, os árabes retiram-se da história e deixam-nos cá essas relíquias. São &#8220;legados&#8221;, &#8220;influências&#8221;, &#8220;técnicas agrícolas&#8221;, coisas que, na prática, não nos dizem grande coisa, para lá dos cacos e dos utensílios, excepto a uns poucos estudiosos. Sabemos também que nos deixaram palavras e até sabemos quais são, mas não sabemos de que maneira é que essas palavras foram nossas e foram deles até ao ponto em que o que é &#8220;nosso&#8221; e o que é &#8220;deles&#8221; deixa de fazer sentido. Porque é assim, sem fora nem dentro, que as palavras se partilham entre os povos.
</p>
<p>Há no entanto, ainda ao nível das palavras, uma manifestação muito concreta e muito visível, muito mais concreta do que essa presença em retirada dos &#8220;artefactos&#8221;. Algo que se transmitiu como um discurso e que ficou sendo &#8220;nosso&#8221; não como um &#8220;legado&#8221; exterior, mas por dentro, na estrutura concreta das coisas que chegaram até nós. Foi a poesia oral árabe, com as suas formas (as &#8220;moaxás&#8221; e as &#8220;jaryas&#8221;) que, de algum modo impalpável mas seguro, se comunicaram à tradição poética galego-portuguesa das cantigas de amigo e à castelhana dos <em>villancicos</em>.
</p>
<p>A referida &#8220;moaxá&#8221; ou &#8220;muwassaha&#8221; (ler com dois chapéus invertidos por cima dos &#8220;s&#8221; e um ponto por baixo do &#8220;h&#8221;) é um dos géneros da poesia estrófica árabe que se desenvolveu no Ocidente do mundo árabe (isto é, na Península Ibérica). Aí criou raízes e daí espalhou-se para o Oriente. Sobre ela escreveu o poeta egípcio Ibn Sana al-Mulk (nascido por volta do ano 550 da Hégira &#8211; 1155 do calendário cristão) o ouro puro das palavras que se seguem:
</p>
<blockquote><p>[...] Entre as coisas que os antigos deixaram por descobrir aos modernos — coisas em que as gentes de agora superaram as de antanho, em que os habitantes do Ocidente venceram os do Oriente, e em que os [velhos] poetas &#8220;deixaram [aos seus sucessores]  algo que remendar — figuram as muwassahas, sal da época, Babel da magia, âmbar de Sihr, aloé da Índia, vinho de Qufs, ouro puro do Algarve, patrono de entendimentos, balança de inteligências, quinta-essência suprema, posto que ao mesmo tempo deleitam e emocionam, incitam [à imitação] e fazem desesperar [de lográ-la], seduzem e atraem, libertam [de cuidados] e ocupam [o ócio], acompanham e afugentam. São ditos festivos e graciosos, que são toda a seriedade, e seriedade que parece dito festivo e gracioso; verso que o olho tomaria por prosa e prosa que o gosto diz ser poesia.
</p>
<p>Graças a elas, o Ocidente converteu-se em Oriente, pois por aquele horizonte surgiram e aquele ar iluminaram, fazendo com que os habitantes das terras ocidentais se tornassem nos mais ricos dos homens, ao tornarem-se donos deste tesouro que o destino lhes reservou e desta mina antes desconhecida da humanidade.
</p>
<p>Na flor da minha vida e nos meus verdes anos a elas me liguei, amei-as com paixão, ouvi-as amiúde, aprendi-as de cor, estudei-as a fundo, penetrei os seus segredos, [...] revolvi-as por dentro e por fora, abracei-as suas virgens e as suas matronas, nadei atrás das suas pérolas escondidas e, não contente com as notícias sabidas, internei-me nas suas ocultas dobras. [...]
</p>
<p>Ibn Saba al-Mulk, <em>Dar at-tiraz</em>, citado por Emilio García Gomez na revista <em>Al-Andaluz</em> (1962), traduzido por Aida Fernanda Dias na <em>História Crítica da Literatura Portuguesa</em> (dir. Carlos Reis) da ed. Verbo, vol. I, 1998, p. 153-154.</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>À escolha do freguês</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 14:41:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[O cardápio da tarde vai incluir um texto do André Belo sobre Oriente e Ocidente e, se houver tempo, um texto meu sobre Miguel Sousa Tavares e a blogosfera. Entretanto, um resumo do cardápio matinal: começámos com o meu texto &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/a-escolha-do-fregues/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O cardápio da tarde vai incluir um texto do André Belo sobre Oriente e Ocidente e, se houver tempo, um texto meu sobre Miguel Sousa Tavares e a blogosfera. Entretanto, um resumo do cardápio matinal: começámos com o meu texto de sábado passado no <em>Público</em> (que irei pós-publicando aqui no 5dias e, como sempre, no Pobre e Mal Agradecido); com mais uma estupenda ilustração do Pedro Vieira e, permitam-me que destaque, uma série de traduções de micro-contos, pelo Jorge Palinhos. Sugiro que votem, através dos comentários, nos micro-contos preferidos. A minha escolha vai para os micro-contos de Margaret Atwood, Bruce Sterling e Graeme Gibson.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Histórias mesmo curtas</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 00:44:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<category><![CDATA[ficção-estrangeira]]></category>
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		<description><![CDATA[Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebé. Nunca usados”, e chamou-lhe a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos (por razões do público-alvo da revista, maioritariamente ligados &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/jorge-palinhos-historias-mesmo-curtas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebé. Nunca usados”, e chamou-lhe a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos (por razões do público-alvo da revista, maioritariamente ligados à ficção científica) a escreverem contos igualmente curtos, e inspirou-me a mim a traduzir alguns dos que gostei mais, com as únicas restrições de ser fiel ao espírito da história e fazê-lo também em 6 palavras. Razão para isso? Nenhuma além do gosto pessoal. Ou para os mais pensantes entre nós, porque a concisão é o elemento mais desejado da comunicação hoje, e eu estava curioso para ver como funcionaria exemplo tão extremo.<br />Aqui estão elas:
</p>
<p>Computador, nós trouxemos pilhas? Computador? Computador?<br />- Eileen Gunn
</p>
<p>Camisa tirada à pressa. Cabeça não.<br />- Joss Whedon
</p>
<p>do tempo. Inesperadamente, inventara uma máquina <br />- Alan Moore
</p>
<p>Eu desejei-o. Eu tive-o. Que merda.<br />- Margaret Atwood
</p>
<p>O pénis dele rasgou-se; ele engravidou!<br />- Rudy Rucker
</p>
<p>A Internet acordou? Estupi… Unknown error.<br />- Charles Stross
</p>
<p>Com as mãos sangrentas, digo adeus.<br />- Frank Miller
</p>
<p>Dia perdido. Vida perdida. A sobremesa.<br />- Steven Meretzky
</p>
<p>Demasiado caro continuar a ser humano.<br />- Bruce Sterling
</p>
<p>Atrás de ti! Corre antes que<br />- Rockne S. O&#8217;Bannon
</p>
<p>Morri. E tive saudades tuas. Beijas-me?<br />- Neil Gaiman
</p>
<p>O Kirby nunca tinha comido unhas.<br />- Kevin Smith
</p>
<p>Para salvar a humanidade, morreu outra vez.<br />- Ben Bova
</p>
<p>“Não acreditava que disparara sobre mim.&#8221;<br />- Howard Chaykin
</p>
<p>Coração partido, 45, desejo conhecer mutilado.<br />- Mark Millar
</p>
<p>Tic tac, tic tac, tic tic.<br />- Neal Stephenson
</p>
<p>Epitáfio: Não o devia ter alimentado.<br />- Brian Herbert
</p>
<p>Pensei que tinha razão. Não tinha.<br />- Graeme Gibson
</p>
<p>Por favor, é tudo. Eu juro.<br />- Orson Scott Card
</p>
<p>Isto serve? – perguntou o escritor preguiçoso.<br />- Ken MacLeod
</p>
<p>No começo a Palavra já existia<br />- Gregory Maguire
</p>
<p>Escândalo sexual mediático. Molusco gigante suspeito.<br />- Margaret Atwood
</p>
<p>Leia: &#8220;É teu filho.&#8221; Luke: &#8220;Ups&#8230;&#8221;<br />- Steven Meretzky
</p>
<p>Estas histórias no original, e outras, estão aqui: <a href='http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html'>http://wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html</a>
</p>
<p>Que conclusão tirar? Não serão muitas, mas nota-se que a concisão em extremo tem a necessidade de partir do que o leitor já conhece, e não ir mais além. Isto porque a brevidade, tanto na ficção como no comentário ou na notícia, pressupõe retirar do texto todas as<em> nuances</em> e elementos estranhos que necessitem de explicação adicional. E sem corpos estranhos, o texto torna-se mais do mesmo, a confirmação do que já se conhece. Por isso, quem defende mais brevidade na comunicação, tem de considerar se não está a defender uma informação mais conformista e obediente ao mundo que temos.
</p>
<p>P.S. – Quem se interessar por histórias curtas (talvez não tão curtas), tem uma boa fonte aqui: <a href='http://www.minguante.com'>http://www.minguante.com</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>O fim do mês como problema político</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2006 00:23:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
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		<description><![CDATA[Entre o &#8220;fim do mês&#8221; individual e o &#8220;fim do ano&#8221; colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas. O mundo tem medo do fim do mundo. Portugal &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/30/o-fim-do-mes-como-problema-politico/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Entre o &#8220;fim do mês&#8221; individual e o &#8220;fim do ano&#8221; colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas.</strong>
</p>
<p>O mundo tem medo do fim do mundo. Portugal tem medo do fim do mês. Nos últimos dias, enquanto na ONU se discutia a reacção aos testes nucleares norte-coreanos, nós por aqui discutíamos a questão das SCUT em todos os seus cambiantes técnicos.
</p>
<p>O caso das auto-estradas Sem Custos para o Utilizador, e se devem ou não deixar de sê-lo, tem peso no &#8220;fim do mês&#8221; de muitos portugueses, e logo tem uma importância que eu não quero menosprezar. Por outro lado, diz-se que os portugueses têm de fazer mais um esforço (na verdade, sucessivos novos esforços) no seu fim do mês para ajudar o Estado a lidar com o seu próprio &#8220;fim do ano&#8221; orçamental. Sendo este o equivalente colectivo ao &#8220;fim do mês&#8221; de cada um, também não nos podemos desresponsabilizar. Entre o &#8220;fim do mês&#8221; individual e o &#8220;fim do ano&#8221; colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas. Daí a discussão, com contornos algo bizantinos, sobre que auto-estradas têm ou não alternativas e se o programa do governo tinha ou não margem retórica que permitisse a oneração destes trajectos.
</p>
<p>O mal, como já foi dito, é que tudo isto obscurece uma questão política de base: os eleitores votaram na certeza de que as auto-estradas em questão não seriam pagas e agora sentem-se enganados. Isto, que já é sério, encobre algo ainda pior: os portugueses estão habituados a este ciclo de sacrifícios, promessas não cumpridas, fugas para a frente (e para Bruxelas), trocas de actores, novos sacrifícios e novas promessas não cumpridas. Escandalizam-se mas não vêem alternativas.
</p>
<p>Portugal tem pelo menos três problemas: um problema financeiro (do Estado), um problema económico (do País) e um problema político. Qualquer deles é serio; nenhum deles é inultrapassável. A estratégia comum tem sido: devemos dar toda a prioridade ao problema das finanças (vulgo, “do deficit”) para depois intervir no problema da economia. Eu defenderei que o problema prioritário é o político.
</p>
<p>Mas antes, vejamos o que temos em termos de diagnóstico, onde há duas escolas dominantes. Uma delas é a culturalista, que põe as culpas na piolheira que o país sempre foi e sempre será e nos defeitos morais e temperamentais do espécime que povoa este habitat (preguiçoso, desorganizado, etc.). É um diagnóstico sem soluções: nenhum remédio poderá funcionar, porque nenhum funcionou antes. Salvo substituir todos os portugueses por finlandeses ou suíços, não há nada a fazer. Como, apesar do pessimismo com que tratam os nativos, os defensores deste diagnóstico não tomam a única posição possível que seria defender o aumento da imigração, a posição culturalista vale mais como anedota velha do que como proposta original.
</p>
<p>A segunda escola é a economicista: o seu principal objecto é o das contas certinhas. Sem tempo para perder com metapsicologia barata, o que esta escola nos diz é apenas: quem não tem dinheiro não tem vícios. Se for verdade (como dizem os culturalistas) que o país não pode mudar, então teremos de nos conformar a ser um país pobre ou remediado, e ter hábitos de pobre ou remediado. Esta prescrição, que em princípio valeria para toda a gente, é inaceitável para a nossa elite, que nunca teve hábitos de pobre ou remediada. Corte-se então nos &#8220;vícios&#8221; de quem se puder cortar, que são os restantes. Acontece que estes “vícios”, na verdade, são aquela garantia de um mínimo de dignidade a que a grande maioria dos portugueses acedeu tarde e a más horas, conservou por pouco tempo, e agora nos dizem que é incomportável. Os economicistas respondem friamente: tanto pior.
</p>
<p>Quem tiver uma visão um pouquinho mais abrangente, porém, não poderá esquecer que os portugueses prejudicados são os que estão presos à armadilha do trabalho pouco qualificado ou desqualificado. É mais de metade do país. Não podem fazer planos a longo prazo, não têm possibilidades de arriscar, não vêem como dar a volta por cima — nem podem, porque precisamos deles como estão. São eles a base de tudo o que aqui se faz. Na sua faixa superior, a dos funcionários públicos, ainda têm algum poder de reivindicação, mas têm sido apresentados como os principais adversários dos restantes, chamados de &#8220;privilegiados&#8221;, e seja como for o &#8220;fim do mês&#8221; não dá grande espaço à solidariedade entre categorias profissionais.
</p>
<p>O nosso problema económico é que, como um todo, Portugal também está preso na armadilha do trabalho desqualificado. Tentámos subir de divisão, não conseguimos, e agora estamos a lutar para não descer.
</p>
<p>O problema político é o que nos ocupa menos: descrença generalizada na política (tão grande que não pode ser subestimada), conformação com os vícios da democracia (como a corrupção), ausência de propostas claras ou alternativas de poder, nenhuma renovação de actores, partidos fechados no seu mundo, etc. Enquanto tivemos líderes que respeitámos pelo seu passado, a coisa disfarçou. Agora está difícil fazer a transição, mas ao contrário do que se possa pensar, a culpa não é dos políticos: é nossa.
</p>
<p>Não é da falta de consenso político: há lá mais consenso do que em torno do deficit e dentro do bloco central? Não é da falta de estratégia: o governo propõe o plano tecnológico, que só peca por vir tarde e não ter resultados imediatos. Não é da falta de informação: os telejornais duram uma hora, o prós-e-contras parece durar para sempre. É da falta de acção: o “fim do mês” não nos deixa pensar em voluntarismo político, mas só vamos resolver o problema do fim do mês se resolvermos o outro primeiro. Não é só nosso: toda a Europa e muitos países por esse mundo fora sofrem do mesmo.
</p>
<p>No nosso caso, trata-se da incapacidade de um país com dez milhões de habitantes se tornar numa república com dez milhões de cidadãos. É o problema-base da democracia, apenas isso; não deveria ser tão difícil.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: a semana de media num detalhe</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Oct 2006 22:59:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[portugueses apostam no boom mediático angolano, titulava assim o Público há dias. Veremos se em Angola continuará a verificar-se uma situação de democracia como que em absorção mas ao contrário. A julgar pelo comportamento dos luso-empresários do costume não antevejo &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/23/pedro-vieira-a-semana-de-media-num-detalhe/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/dossantoscopy.jpg" title="ilustração Pedro Vieira. clique para aumentar" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/dossantoscopy.jpg" width="85%" border="0"></a>
</p>
<p>portugueses apostam no boom mediático angolano, titulava assim o Público há dias. Veremos se em Angola continuará a verificar-se uma situação de democracia como que em absorção mas ao contrário. A julgar pelo comportamento dos luso-empresários do costume não antevejo grandes melhoras.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: O Jornal da Paróquia</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Oct 2006 03:46:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos últimos dias, tem-se falado de Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), por lidar com um protesto contra a privatização da gestão de um teatro municipal, cortando a luz, impedindo o fornecimento de alimentos aos ocupantes e &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/23/jorge-palinhos-o-jornal-da-paroquia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos dias, tem-se falado de Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), por lidar com um protesto contra a privatização da gestão de um teatro municipal, cortando a luz, impedindo o fornecimento de alimentos aos ocupantes e colocando o ar condicionado do teatro na sua máxima força. <br />Para os mais distraídos: a gentileza nunca foi apanágio de Rio. Como exemplo, tome-se a visita relâmpago que uma delegação do IPPAR fez em meados do ano passado ao Túnel de Ceuta, a meio da polémica que opunha este instituto à câmara. No decurso da visita, um grupo de “populares” parece ter “reconhecido” o grupo de pessoas como sendo do IPPAR, e “espontaneamente” desatou a insultar e ameaçar a delegação, forçando-a a retirar-se. Sem dados conhecidos de que os funcionários do IPPAR sejam uma espécie alienígena ou de que a delegação transportasse consigo um letreiro em néon a identificá-la como tal, permanece até hoje como mistério insondável quem terá informado aquela “população”, como lhe chama o site institucional da CMP, de quem seria tão discreto grupo.<br />O site institucional da Câmara é, aliás, um magnífico exemplo da acção da autarquia portuense.<br />Alvo de numerosas críticas em jornais e colunas de opinião, www.cm-porto.pt é sem dúvida o mais original e peculiar site institucional português. Pois, se de um site institucional autárquico se esperam informações úteis, contactos, serviços e alguma publicidade às actividades da câmara, o site www.cm-porto.pt é, mais do que tudo o resto, um verdadeiro campo de batalha onde se trava um luta sem quartel contra a liberdade de imprensa. Disse liberdade de imprensa? Perdão, queria dizer, contra as inverdades, meias verdades e falsidades que toda a imprensa mundial e alguma imprensa marciana dirigem contra Rui Rio.<br />Tome-se o exemplo de um caso em que, perante a recusa do Jornal de Notícias em publicar um desmentido da Câmara, o site não responde nada menos que afixando um cartaz do 25 de Abril.<br />Já noutra “notícia” sobre a recusa dos directores do Público e JN em publicarem desmentidos da câmara, o site brinda-nos com um vigoroso e indignado “SEM COMENTÁRIOS!” (com direito a maiúsculas e ponto de exclamação, para o caso de não percebermos que a “notícia” não faz MESMO! comentários).<br />O JN é, aliás, a grande mascote do site. A propósito da cláusula que obriga as pessoas e instituições que recebem apoios camarários a calarem toda a crítica à autarquia – correcção (ou como diria o site cm-porto.pt CORRECÇÃO!): não é toda e qualquer crítica, mas toda e qualquer crítica que diga respeito à área em que a pessoa ou instituição recebeu o apoio. Ou seja, se o sr. Joaquim receber um apoio menor do que lhe foi prometido para limpar os passeios dos dejectos canídeos, não pode ir queixar-se aos jornais, mas se, saiba-se lá porquê, o sr. Joaquim se lembrar de ir queixar-se aos media de um assunto sobre o qual não tem relação, nada percebe e não tem nenhuma informação relevante e, na hipótese imaginária de algum jornalista achar que a sua opinião interessa, ah, então já pode! (digo: ENTÃO JÁ PODE!)<br />A propósito de um editorial do director-adjunto do JN, David Pontes, que criticava esta mesma cláusula, não só o site entende emendá-lo com tal preciosismo, como ainda resolve meter a esposa daquele ao barulho. Cito:
</p>
<p>“Para além de Pontes, também a sua mulher, Carla Miranda(&#8230;), aparece, na mesma edição de hoje do jornal dirigido pelo marido, a criticar a política cultural da autarquia. (&#8230;)A actriz das «Boas Raparigas», que foi questionada pelo popular matutino para se pronunciar sobre «O estado actual do teatro que se faz no Porto», responde com a habitual crítica à Câmara: «<em>Os nossos pares reconhecem a nossa qualidade artística, mas ao mesmo tempo somos desprezados de forma singular pela câmara da cidade onde trabalhamos»</em>.”
</p>
<p>O meticuloso cm-porto.pt não nos esclarece se a intervenção da referida senhora surge somente devido a esta ser esposa do director-adjunto do jornal ou se se justifica antes pelo facto de Carla Miranda dirigir um dos principais grupos de teatro do Porto. Também não esclarece se, no entender do site, é necessário ter algum tipo de ligação afectivo-sexual com David Pontes para se ter razão de queixa do executivo camarário, porém é de destacar a subtilíssima ironia que conclui o artigo:
</p>
<p>“A mulher de David Pontes não especifica se o problema reside na falta de público ou na falta de subsídios públicos.”
</p>
<p>Subtileza que se realça pelo facto de “a mulher de David Pontes” se referir explicitamente à “câmara” e não à “população do Porto”, pelo que se exige do leitor o esforço adicional de sinonimizar “Câmara Municipal do Porto” com “população do Porto”. Ora esta sinonimização causa-me algum embaraço pois no anterior artigo sobre as agressões ao IPPAR também se sinonimizava “população” com “bando de arruceiros”.<br />Isto preocupa-me. Não só, pelos vistos, como “população” do Porto que sou, me qualificam de arruaceiro, como, não tendo estes artigos qualquer assinatura, logo se presume serem da responsabilidade do executivo eleito do município do Porto, o que me torna a mim, como munícipe, cúmplice da delacção da vida privada de David Pontes. Creio que nem mesmo o Padre Domingos, no boletim paroquial “A Voz da Verdade”, deixaria de assinar o seu artigo de denúncia da gravidez pré-conjugal da menina Alzira, nem que fosse como “O fiel justiceiro”.<br />Ainda noutra notícia, sobre o Público desta vez, onde Mário Mesquita, Manuel Pinto e Gomes Canotilho criticam o site, o cm-porto.pt não nos especifica qual a relação civil que cada uma destas personalidades tem para com David Pontes, mas dá-nos mais uma pérola de bom gosto literário:
</p>
<p>“Criticar frontalmente opções dos jornais e questionar a sua isenção e competência é, efectivamente, uma matéria <u>virgem</u> no nosso regime e que, no que à CMP diz respeito, tem sido <u>desflorada</u> neste espaço on-line.”
</p>
<p>Já a Vasco Pulido Valente (mais uma vez, sem informação se já partilhou cama ou não com David Pontes), que acusa o site de  <em>«prosa servil do salazarismo, a pender para o ordinário» </em>o site responde de forma lapidar:
</p>
<p>“<a href='http://www.cm-porto.pt/%22%20%5Ct%20%22_blank'>www.cm-porto.pt</a> teve, desde 1 de Janeiro de 2006 mais de 540.000 visitas.”
</p>
<p>Eu, infelizmente, devo contar como uma dezena dessas 540.000 visitas, não em busca de notícias da privacidade de David Pontes ou da virilidade cibernética de Rui Rio, somente porque precisava de saber horários e localização dos serviços municipais. E eis que me vejo chamado à colação para testemunhar do elevado gabarito literário e isenção informativa do www.cm-porto.pt!<br />Julgo, porém, no meio de tudo isto, ter encontrado explicação da paranóia de que acusam Rui Rio. É que, num mundo por onde já passaram e deixaram marca na política personalidades como Demóstenes, Aristóteles, Cícero, Maquiavel, Montaigne, Locke, Voltaire, Jefferson, entre outros, não deve ser fácil ser o último ainda a praticar a política de urros e exibição de genitália.
</p>
<p>Nota: Não conheço nem nunca tive qualquer contacto íntimo com David Pontes. Que eu saiba.<br />Links para os artigos citados e outros da mesma índole:<br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1926</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1893</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1465</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1872</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1852</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1816</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1776</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1766</a><br /><a href='%22'>http://www.cm-porto.pt/pageGen.asp?SYS_PAGE_ID=455902&#038;ID=1637</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Você tem culpa</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Oct 2006 03:31:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 21 Setembro 2006]Já sabemos que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda.  Que pena o Secretário de Estado Adjunto &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/23/voce-tem-culpa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 21 Setembro 2006]<br /><strong>Já sabemos que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda. </strong>
</p>
<p>Que pena o Secretário de Estado Adjunto da Indústria e Inovação, António Castro Guerra, ter retirado o que disse quando culpou os consumidores pelos aumentos de dezasseis por cento na tarifa da electricidade. O senhor Secretário de Estado Adjunto justificou-se dizendo que teve um mau momento, mas não é verdade: pelo contrário, as suas palavras foram o ponto alto, o auge da discreta carreira de um Secretário de Estado Adjunto. Melhor ainda: estas palavras foram toda a carreira do Secretário de Estado Adjunto, o princípio e o fim dela, condensados. O Secretário de Estado Adjunto saltou por cima das barreiras hierárquicas para nos dar aquilo que nem um Secretário de Estado dos verdadeiros (ou seja, não-adjunto), um ministro ou um primeiro-ministro nos podem dar: a verdade. Na prática, é um desastre, o equivalente político a deixar a bomba de nitroglicerina rebolar pelas escadas abaixo; por isso o governo se apressou a garantir que o dito aumento não fosse tão exagerado. Mas já que o mal estava feito, o senhor Secretário de Estado Adjunto deveria ter aproveitado para despejar a alma de todas as banalidades, num momento único de sinceridade e perfeição ideológica. Bastaria encarar a câmara com vigor, esticar o dedo indicador e denunciar: você tem a culpa.
</p>
<p>Porque é verdade. Você vive durante mais tempo do que é comportável para os cofres da Segurança Social. Você tem menos filhos do que deveria ter. O seu salário é demasiado alto para o nosso Estado; o seu despedimento é demasiado difícil para as nossas empresas. Caso tenha sido despedido, você é um privilegiado do subsídio de desemprego ou, pior ainda, um privilegiado do rendimento mínimo. O país produz pouco e você tem culpa. O país não é competitivo e você tem culpa. Você tem culpa porque se endividou. Você tem culpa porque é professor e não ensina. Você tem culpa porque é aluno e não aprende. Você tem culpa porque é funcionário público e nem vale a pena pormenorizar as suas culpas. Você tem culpa porque trabalha no privado, mas não tanto como deveria. Se você é português, tem culpa. Se é estrangeiro, tem mais culpa ainda.
</p>
<p>Neste país, há pouquíssima gente que não tem culpa. Não têm culpa alguns economistas, que são quem nos explica as nossas culpas (embora não esteja completamente certo em relação a Medina Carreira, que admitiu ao Expresso não tomar medidas contra o aquecimento global, ou seja, não combater o desperdício de energia — e portanto também tem as suas culpas no défice dos consumidores domésticos de electricidade). Não têm culpa os empresários do Compromisso Portugal, que fazem o que podem para tornar o país competitivo (embora haja entre eles pouquíssimos casos de sucesso fora deste rectângulo à beira-mar — e você sabe como tem culpa disso). Não têm culpa alguns gestores e juristas de topo, que temos de conquistar a peso de ouro ao sector privado e premiar abundantemente para que se sintam motivados. Alguém, neste país, tem de ser motivado. Não têm culpa aqueles que sempre sentiram que o país é fraco e que o destino os injustiçou ao fazê-los nascer numa terra pequena demais e incivilizada demais para o seu génio (penso, por exemplo, em Paulo Portas ou Herman José).
</p>
<p>Para lá destas excepções, resta você, que tem culpa. Tem culpa de, como contribuinte, ter pago a reabilitação do Rivoli para agora o entregar a um privado que teria dinheiro para o reabilitar sozinho. Tem culpa de, como cidadão, ter acreditado que a privatização da EDP e a liberalização da energia iriam fazer baixar os preços e beneficiar o consumidor final (como lhe disse Durão Barroso, chefe de um governo onde pontificava o hoje escandalizado Marques Mendes, — e você tem culpa de lhes ter dado ouvidos). Tem culpa de, como acusa um certo Joaquim Pina Moura, o mercado da electricidade ainda não estar suficientemente liberalizado. Tem culpa de acreditar que os impostos que paga sirvam para alguma coisa que não seja para esta versão invertida da luta de classes.
</p>
<p>Reparem: a electricidade é cara de produzir e o consumidor não paga o seu preço real. Nada muda esta realidade, quer o aumento seja de dezasseis por cento, de oito por cento como o governo agora propõe, ou de acordo com a inflação como a lei antiga determinava com mais justiça. O Secretário de Estado Adjunto estava, pois, correcto no particular. O que surpreende é que um Secretário de Estado, mesmo que Adjunto, e para mais de um governo socialista, não saiba ver o quadro geral e se limite a encolher os ombros quando colocado perante um aumento brutal dos preços, no país das pensões de duzentos euros, antes do Inverno começar. Já sabemos que o lugar-comum consiste em dizer que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda. Mas, mesmo assim, dói ver como um governante socialista se contenta com o lugar-comum.
</p>
<p>A candura e o voluntarismo com que tantos assumem este lugar-comum do mercado faz lembrar a vida e obra de Simão Bacamarte, personagem principal de <em>O Alienista</em>, uma das melhores obras do escritor brasileiro Machado de Assis (nota para Santana Lopes: morreu em 1908). O Doutor Simão Bacamarte, licenciado em Medicina por Coimbra, regressa à sua Itaguaí natal com tanta confiança nas leis da ciência psiquiátrica como hoje em dia se tem nas leis da ciência económica. Fundou um manicómio e pôs tanto esforço no internamento dos loucos da terra como hoje se põe na identificação dos culpados da crise. E descobriu tantos loucos como nós descobrimos culpados: o vigário e o prefeito, o boticário e o barbeiro. Quando toda a cidade estava internada, restava-lhe a conclusão lógica: diagnosticou-se a si mesmo e encerrou-se no manicómio. Também nós estamos nos estágios finais deste processo: explicaram-nos as razões do atraso do país, provaram-nos que não há alternativa, e propuseram-nos um remédio mais forte que a doença. Antes éramos apenas miseráveis. Agora dizem-nos que somos miseráveis e mal habituados. Quem tem culpa disto? Você — e eu também.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: quebra cabeças</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 22:59:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<category><![CDATA[sinofilia]]></category>
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		<description><![CDATA[acha para a fogueira das divindades à moda da imprensa dinamarquesa, com saída cínica pela esquerda baixa sem mostrar a verdadeira face do profeta]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mao_me.jpg" title="Pedro Vieira, 2006 (clique para aumentar)" target="blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mao_me.jpg" border="0" width="75%"></a><br /><em>acha para a fogueira das divindades à moda da imprensa dinamarquesa, com saída cínica pela esquerda baixa sem mostrar a verdadeira face do profeta</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>O angelismo americano</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 22:55:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este fim-de-semana passou na Sic-notícias um &#8220;60minutes&#8221; recente em que é feito um perfil de Condoleezza Rice por Katie Couric, a nova starlet do jornalismo americano. É, como sempre, uma peça competente, abrangente, e que sem ser propriamente esclarecedora, se &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/o-angelismo-americano/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://wwwimage.cbsnews.com/images/2006/09/21/image2029726g.jpg" width="65%"></p>
<p>Este fim-de-semana passou na Sic-notícias um &#8220;60minutes&#8221; recente em que é feito um perfil de Condoleezza Rice por Katie Couric, a nova <em>starlet</em> do jornalismo americano. É, como sempre, uma peça competente, abrangente, e que sem ser propriamente esclarecedora, se deixa ver com facilidade (há uma cópia <a href="http://www.cbsnews.com/stories/2006/09/21/60minutes/main2029782.shtml">aqui</a>). O ponto de partida da mini-biografia é a experiência de segregação no Sul dos EUA – Condoleezza Rice vivia em Birmingham, Alabama, quando uma bomba colocada por racistas brancos explodiu numa igreja baptista negra e matou quatro meninas da sua idade – e o ponto de chegada a guerra do Iraque.
</p>
<p>É aqui que se torna notório um elemento perturbante da cultura e do jornalismo americanos. Katie Couric — para compensar a complacência dos jornalistas antes da guerra — tenta &#8220;apertar&#8221; com Condoleezza sobre as mentiras da guerra. Dá para ver (pelo menos de um ponto de vista pouco caridoso como o meu) que o faz sem alma, por razões meramente de obrigação. Mas isso não é o pior. O que é estranho para um olhar não-americano é a maneira como Couric já coloca nas suas perguntas o seguinte pressuposto: mesmo que errando, tudo foi feito com a melhor das intenções. Não poderia ser de outra forma; é inconcebível que pudesse ser de outra forma; a questão, aliás, nem se coloca. Nenhuma mentira, nenhuma torção ao direito internacional, nenhum acto de guerra pode ter tido uma má motivação.</p>
<p>Isto é para lá de pró-americanismo. Não se trata do apoio incondicional que (por exemplo) os nossos bushistas dão aos EUA. É uma coisa diferente, puramente interna, de que nos esquecemos com frequência mas que nos surpreende a cada vez que contactamos com a cultura dominante americana: a ideia de que os EUA são um país inteiramente à parte, que as suas motivações não têm nada a ver com as dos outros países, que o seu coração é puro e as suas intenções são, por definição, as melhores. É chocante pensar nisto, mas para muitos americanos os EUA são um país de anjos.
</p>
<p>É uma espécie de adolescência eterna, com os resultados que conhecemos. E que me fez lembrar esta citação de William R. Polk, estudioso de relações internacionais, numa conferência recente sobre a questão iraniana. Eis como Polk, ele próprio oriundo de uma família da aristocracia política americana (ele próprio é descendente de um presidente americano do século XIX, James R. Polk), descreve a relação do seu país com a memória e o mundo exterior:
</p>
<blockquote><p>Como povo, somos muito esquecidos. A história deveria ter-nos ensinado que um poder estrangeiro não consegue ganhar uma guerra de guerrilha. Os britânicos aprenderam-no com os nossos antepassados durante a Revolução Americana e e voltaram a aprendê-lo na Irlanda; Napoleão aprendeu-o em Espanha; os alemães aprenderam-no na Jugoslávia; nós devíamos tê-lo aprendido no Vietname; os russos aprenderam-no no Afeganistão e estão a voltar a aprendê-lo na Tchetchénia; nós estamos a aprendê-lo no Iraque.<br />Como povo, somos orgulhosos. A nossa maneira é a única maneira. Devíamos ter aprendido que os ricos e poderosos não podem sempre levar a melhor contra os pobres e menos poderosos. [...]<br />Como povo, somos incrivelmente ignorantes sobre o mundo. [...] Há muito tempo, o grande satirista americano Ambrose Bierce notou que a guerra era a forma que Deus arranjara para ensinar Geografia aos americanos. Mas provámos ser maus alunos.</p></blockquote>
<p>Já para atalhar as críticas do costume, direi o que sempre digo sobre o anti-americanismo: que é uma forma de racismo e que deve ser deplorada como qualquer forma de racismo. Isso, contudo, nada tem a ver com olhar atentamente e sem complacência para uma cultura que tem um papel central no mundo e cuja crença no seu excepcionalismo tem sido o principal motor dos acontecimentos internacionais nos últimos anos. A propósito, deixo-vos o vídeo da conferência de William R. Polk na Foreign Policy Association, de onde estas palavras foram retiradas. É um bom resumo, embora alarmista, sobre as opções na mesa para com o Irão. O video está aí abaixo, o texto completo está <a href="http://www.fpa.org/topics_info2414/topics_info_show.htm?doc_id=404719">aqui</a>.</p>
<p align=center><embed style="width:400px; height:326px;" id="VideoPlayback" type="application/x-shockwave-flash" src="http://video.google.com/googleplayer.swf?docId=-3013538790563353035&#038;hl=en"> </embed></p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: &#8220;Não negarás o genocídio&#8221; ou, &#8220;Não entrarás na União Europeia&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 15:32:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[A aprovação na semana passada, pelo Parlamento francês, de uma lei criminalizando o genocídio arménio pelos Turcos Otomanos será talvez uma boa noticia para os arménios de França. Já é muito duvidoso que a causa arménia em geral ganhe muito &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/andre-belo-nao-negaras-o-genocidio-ou-nao-entraras-na-uniao-europeia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A aprovação na semana passada, pelo Parlamento francês, de uma lei criminalizando o genocídio arménio pelos Turcos Otomanos será talvez uma boa noticia para os arménios de França. Já é muito duvidoso que a causa arménia em geral ganhe muito com ela. Em contrapartida, é uma péssima noticia para os historiadores franceses. Na sequência de outras criminalizaçoes (sobre a escravatura) ou recomendações (sobre o papel positivo da colonizaçao francesa, entretanto anulada) em forma de lei, o novo texto (que precisa de ser ainda aprovado pelo Senado em segunda leitura) coloca uma fundamental reserva à liberdade de investigação. Na altura em que eu, historiador, entrar no arquivo para começar a minha investigaçao sobre a questao, terei deixado (como aprendi na universidade) os meus preconceitos à porta, mas já irei com um mandamento moral terrivel na cabeça. Não negarás o genocidio, sob pena de milhares de euros de multa ou mesmo prisão.
</p>
<p>O problema, como em toda a censura, é a porta da interpretação que nunca se fecha. Onde começa um genocídio? A partir de quantos mortos e de que intenções verificáveis? Onde começa a negação do genocídio? E porque não legislar sobre outros genocídios? E porque parar nos genocídios? E se eu negar os piores crimes do estalinismo, não é negacionismo?
</p>
<p>Por trás da promoção do reconhecimento, para alguns eventualmente bem intencionado, de horrorosos crimes, a questão de fundo aqui  &#8211; como notou Pierre Nora &#8211; é bem outra. Trata-se de colocar mais obstáculos à entrada da Turquia na União Europeia. Com esta lei, o objectivo é claro: a busca do confronto mediático, a provocação do nacionalismo turco. Pelo caminho, cortam-se as pontes de um diálogo, que já tinha começado, entre moderados turcos e arménios sobre um passado doloroso comum. Os deputados franceses (começando pelos socialistas, que tiveram a iniciativa da lei), esses, já decidiram: alimentando o racismo larvar, não querem a Turquia na Europa e utilizarão todos os pretextos, mesmo os aparentemente mais justos, para o conseguirem.</p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Jorge Palinhos: A utopia viva</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 13:56:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há 50 anos, a 8 de Outubro de 1956, numa cidadezinha dos arredores de Mineápolis, nos E.U.A, abriu o primeiro centro comercial moderno. O conceito de espaços comerciais fechados não era novidade – afinal, o maior de todos, o Grande &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/jorge-palinhos-a-utopia-viva/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://www.metrotown.info/img--site/mall-bby-crystal/crystal-mall-SEcorner6c.jpg" width="70%" border="0"></p>
</p>
<p>Há 50 anos, a 8 de Outubro de 1956, numa cidadezinha dos arredores de Mineápolis, nos E.U.A, abriu o primeiro centro comercial moderno.
</p>
<p>O conceito de espaços comerciais fechados não era novidade – afinal, o maior de todos, o Grande Bazar de Istambul, foi construído no séc. XV, com mais de 4000 lojas a ocuparem quase 60 ruas. Mas, até meados do século XX, estes espaços eram abertos ao exterior e à cidade que os envolvia, com grandiosos pórticos de acesso para peões.
</p>
<p>Com a chegada do automóvel nasceram os subúrbios citadinos. E atrás dos subúrbios vieram os centros comerciais como os conhecemos hoje.
</p>
<p>O primeiro foi criado por Victor Gruen, um arquitecto judeu austríaco, de simpatias socialistas, que fugiu para os E.U.A. quando a Áustria foi invadida por Hitler.<br />Inspirado na Galleria Vittorio Emanuele, uma galeria comercial oitocentista de Milão, desenhou então o Centro Comercial de Southdale, modelo de todos os centros comerciais posteriores.
</p>
<p>A concepção destes centros é notável pelo seu isolamento e detalhe.
</p>
<p>Tem clarabóias para receber a luz do sol e cavernas subterrâneas para acolher os veículos dos visitantes, mas as portas são quase indistinguíveis da parede e o centro vive sobre si próprio. No seu interior, tudo é cuidadosamente planeado. A maioria dos centros comerciais tem só dois pisos, para que a força da gravidade não torne o cliente a renitente a subir a um terceiro ou quarto. Há vistas amplas entre pisos, para que um comprador no piso de baixo possa saber que lojas tem por cima da sua cabeça. As clarabóias que recebem o sol têm também pequenas luzes que se acendem ao crepúsculo para evitar que o visitante do centro se aperceba que está a ficar noite e comece a pensar que talvez seja hora de ir para casa, o ar condicionado mantém uma temperatura amena, as lojas estão dispostas por complementaridade ou tipo de produto: se um cliente comprou um fato caro numa loja, ao sair da loja provavelmente verá que quase ao lado tem também uma sapataria de luxo, para poder complementar o fato, os prontos-a-vestir estão aglomerados, as lojas para crianças também, as lojas de electrodomésticos também, a zona de restauração está convenientemente situada longe de tudo (para que o cheiro a caril não agrida as narinas da senhora que experimenta um vestido Prada) excepto dos cinemas, para que o cliente possa ficar com ideias onde digerir o jantar.
</p>
<p>Mais interessante é que as chamadas lojas-âncora – aquelas que motivam o cliente a visitar o centro comercial – estão sempre afastadas entre si, com numerosas lojas menos importantes de entremeio, para incentivar que o cliente as visite e nelas compre, num terno e inesperado momento de capitalismo cooperativo.
</p>
<p>Porque, sim, o centro comercial moderno é a verdadeira, viva e resistente utopia capitalista – um local de permanente dia e eterna primavera, onde se pode passar o resto da vida em infinitas compras, ao abrigo das agruras de clima, da rotina e da realidade, em saudável cooperação entre vendedores.
</p>
<p>E, tudo isto, graças a um entusiástico socialista.</p>]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>550 biliões de documentos e não está nada a dar</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Oct 2006 03:18:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Conhecem aquela do Bruce Springsteen &#8220;57 channels and there&#8217;s nothing on&#8221;? Como é evidente, refere-se à experiência de percorrer todos os canais disponíveis num televisor e não encontrar nada que desperte o nosso interesse. Já vejo pouca televisão. Às vezes, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/16/550-bilioes-de-documentos-e-nao-esta-nada-a-dar/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://991.com/newgallery/Bruce-Springsteen-57-Channels-6255.jpg" width="50%" border="0"></p>
</p>
<p>Conhecem aquela do Bruce Springsteen &#8220;57 channels and there&#8217;s nothing on&#8221;? Como é evidente, refere-se à experiência de percorrer todos os canais disponíveis num televisor e não encontrar nada que desperte o nosso interesse.
</p>
<p>Já vejo pouca televisão. Às vezes, a minha ideia de um serão bem passado é procurar coisas na web (nos primeiros tempos da <em>world wide web </em>eu e os meus fascinados amigos decidimos chamar-lhe uó-uai-ué, mas a designação nunca se expandiu para lá de uma dúzia de pessoas — ismael para e-mail teve um pouco mais de sucesso), imprimir textos mais longos, ver vídeos curtos, ir aos blogues. E o curioso está no seguinte: à vezes desisto e digo para mim &#8220;não está a dar nada de jeito na internet&#8221;. Isto coloca uma questão interessante acerca da realidade quantidade de informação e saciedade intelectual. Pergunto: &#8220;não está nada a dar&#8221; por causa de uma tendência humana para a homogeneidade? porque deixamos de nos surpreender? por pura incapacidade de acompanhar? enquanto era só TV, podíamos dizer que a culpa era do meio; e agora, é do emissor ou do receptor?</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Grandito de Portugal</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Oct 2006 23:47:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/salazar.jpg" target="blank" title="Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/salazar.jpg" width="85%"></a><br/><i>Pedro Vieira, Salazar (clique para aumentar)</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Avante, buddy, avante</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 18:51:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em dia de anúncio do nobel da economia o maior penetra da [curta] estória do 5 Dias vem apresentar algumas notas sobre a economia norte-americana com base em dados vindos a público na imprensa. Nos dias que correm, sob a &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/09/pedro-vieira-avante-buddy-avante/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em dia de anúncio do nobel da economia o maior penetra da [curta] estória do 5 Dias vem apresentar algumas notas sobre a economia norte-americana com base em dados vindos a público na imprensa. Nos dias que correm, sob a presidência de &#8216;mr dubya&#8217;, ou &#8216;companheiro bush&#8217;, como lhe chama o sábio da folk-caldeirada tom zé, sabe-se o seguinte – o salário médio dos americanos recuou 2% desde 2003, curiosamente num perído de crescimento da produtividade, a parcela dos salários nunca foi tão baixa no PIB desde 1947, os lucros das empresas nunca foram tão avultados desde 1960, o valor das regalias sociais, paralelas ao salário, já não acompanham os valores da inflação, o poder de compra do salário mínimo é o mais baixo desde há 50 anos, e no meio disto tudo pensa o leitor do 5 Dias &#8220;mas por que é que andamos a ler propaganda do <em>Avante</em> trazida por um tipo tão sinistro que até duvidamos da sua existência real?&#8221; e o tipo sinistro, vieira de sua graça, responde que os dados são do muito comunista <em>New York Times</em>, vertidos para português naquele que é o verdadeiro livrinho vermelho dos sinistros cá do burgo &#8211; o <em>Courrier internacional</em>, edição portuguesa. camaradas, ainda havemos de ver o Fernando Madrinha a servir bifanas com os meninos das FARC, ou eu não me chamo José Manuel Fernandes!!</p>]]></content:encoded>
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		<title>A espiral da redução</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 14:18:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A já célebre Lei de Godwin: numa qualquer discussão (originalmente na internet, mas pode aplicar-se a outros suportes), a probabilidade de os nazis ou Hitler serem citados em comparação com o adversário aproxima-se de um. Mais tarde ou mais cedo, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/09/a-espiral-da-reducao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A já célebre <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Godwin">Lei de Godwin</a>: numa qualquer discussão (originalmente na internet, mas pode aplicar-se a outros suportes), a probabilidade de os nazis ou Hitler serem citados em comparação com o adversário aproxima-se de um. Mais tarde ou mais cedo, corre o risco de ocorrer. Corolário: o autor da comparação a Hitler perde a discussão. Leo Strauss ridicularizava este tipo de retórica chamando-lhe a <em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Reductio_ad_hitlerum" target="">reductio ad hitlerum</a></em>.
</p>
<p>Com isto em mente, vejamos um artigo de opinião no <em>Público</em> de hoje &#8220;O aborto: as razões e a vergonha&#8221;, por Mário Pinto [<a href="http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&#038;m=10&#038;d=09&#038;uid={AFEE4C31-C9C8-4CBA-844C-4F2397FB0868}&#038;id=101399&#038;sid=11198">link só para assinantes</a>]. A comparação aos nazis (e a Stalin também, por segurança) demora exactamente&#8230; um parágrafo a aparecer.
</p>
<blockquote><p><a href="http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&#038;m=10&#038;d=09&#038;uid={AFEE4C31-C9C8-4CBA-844C-4F2397FB0868}&#038;id=101399&#038;sid=11198" target="">«É um golpe baixo da propaganda ideológica e política a favor da legalização do aborto lançar agora a campanha de que a motivação da defesa daquela punição é ver as mulheres na cadeia. Só os Goebbels e os Estalines estão à altura de uma tal calúnia.»</p></blockquote>
<p></a><br />Mário Pinto é um craque da Lei de Godwin: não só marca um golo na própria baliza, como faz questão de o marcar no primeiro minuto de jogo. Deixemos de lado que a lei que Mário Pinto defende determina a prisão por crime de aborto: esse é o resultado; se é a motivação ou não (e ver os criminosos castigados costuma ser uma motivação, nas leis que cada um defende e considera justas) é matéria para filigrana semântica.
</p>
<p>Mais importante é ver outros dois passos do artigo de Mário Pinto. O primeiro é uma defesa da utilização de imagens chocantes na campanha para o referendo:
</p>
<p><a href="http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&#038;m=10&#038;d=09&#038;uid={AFEE4C31-C9C8-4CBA-844C-4F2397FB0868}&#038;id=101399&#038;sid=11198"><br />
<blockquote>«Esconder, fazer evaporar a vítima do crime, é tão importante que se faz tabu de mostrar as técnicas do aborto e os restos mortais do embrião, do feto abortado. Qualquer pessoa razoável poderá então interrogar-se: mas porque é que se não hão-de mostrar-se as técnicas do aborto? E até os embriões e bebés abortados? Mostrar honradamente o horror não é imoral; imoral é escondê-lo, <strong>[LEI de GODWIN: OCORRÊNCIA #2] </strong>como se fez nos campos de concentração nazis.»<br /></a></p></blockquote>
<p>
<p>Quando alguém precisa de mostrar embriões abortados para ganhar uma discussão, podemos dizer que o desespero é grande. Chamem-lhe a Lei de Pinto. Mas o texto não acaba aqui, sem antes entrar no muito divertido domínio das teorias da conspiração, tão desacreditadas se aplicadas a outras realidades. Mário Pinto ainda vai a tempo de insinuar que a culpa do movimento de descriminalização do aborto é de Henry Kissinger. Uma tentativa de ganhar votos à esquerda?</p>
<p><a href="http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?a=2006&#038;m=10&#038;d=09&#038;uid={AFEE4C31-C9C8-4CBA-844C-4F2397FB0868}&#038;id=101399&#038;sid=11198" target=""><br />
<blockquote>«E pode, efectivamente, identificar-se um factor político candidato a este papel detonador e propulsor desta nova era fracturante. Refiro-me ao célebre relatório Kissinger, precisamente de 1974, que esteve classificado durante 15 anos e, muito significativamente, não costuma constar dos destaques nem da imprensa nem da política, sobre &#8220;as implicações do crescimento da população mundial para a segurança dos Estados Unidos e para os seus interesses nas relações internacionais&#8221;.»</p></blockquote>
<p></a><br />Os nazis, Goebbels, Stalin, imagens de fetos abortados mostrada &#8220;horadamente&#8221;, campos de concentração e <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/National_Security_Study_Memorandum_200" target="">Kissinger</a>. Vale a pena perguntarmo-nos o que leva um sisudo professor a escrever este frankenstein da opinião quando a campanha para o referendo ainda não começou. Tenho uma resposta: Mário Pinto não quer ganhar a discussão; o que ele e o movimento a que pertence desejam é que a discussão seja de tal forma inquinada que gere uma espiral de reduções sucessivas. As pessoas afastar-se-ão gradualmente do debate, os jornalistas farão o seu papel <em>blasé</em> de distribuir as culpas pelos &#8220;dois campos&#8221;, todos se declararão enfastiadíssimos e, se tudo correr bem, o referendo sairá descredibilizado. Depois, com o público enojado e distanciado, uma minoria de fanáticos poderá ter peso eleitoral. Tudo isto &#8220;honradamente&#8221;, como não podia deixar de ser.</p>
<p>[nota: houve uma pequena edição no primeiro parágrafo deste texto. siga os comentários para identificá-la]</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: os filhos de Putin</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 02:14:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/putin.jpg"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/putin.jpg" width="85%" title="Pedro Vieira: os filhos de Putin [clique para aumentar]"></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A América vulnerável</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Oct 2006 01:54:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/09/jorge-palinhos-a-america-vulneravel/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://www.hollywoodreporter.com/hollywoodreporter/photos/2006/08/world_trade_center366x156.jpg" alt="Oliver Stone, World Trade Center" width="55%"></p>
<p>World Trade Center, o filme de Oliver Stone, é uma obra peculiar. Toma como assunto o mais mediático e global atentado da última década e fá-lo parecer um filme sobre a queda do telhado da junta de freguesia local. O atentado é tratado de forma tão elíptica e recatada, e as suas consequências de forma tão restrita e intimista, que um extraterrestre que chegasse neste momento à Terra e assistisse ao filme para tentar perceber o que se passou, não lhe atribuiria mais importância que a um incidente local.</p>
<p>Curiosamente, é justamente essa contenção que acaba por dar força emocional ao filme, permitindo-lhe ziguezaguear pelo terreno minado do melodrama televisivo, para atingir o patamar de um filme de alguma intensidade emocional.</p>
<p>Politicamente, não é um filme neutro e agradará a muitos conservadores e apologistas da América de George W. Bush. Porém, este mesmo espectador, embalado pelos valores de família e defesa da invasão do Iraque, talvez não se aperceba da estranha caracterização que o filme faz do poder da América, dos americanos e das instituições americanas.</p>
<p>O enredo é curto: A 11 de Setembro de 2001 um grupo de polícias de Nova Iorque entra nas Torres Gémeas para tentar salvar vítimas, mas ficam soterrados sob escombros quando as torres desabam.</p>
<p>Um filme do género catástrofe, portanto, mas ao contrário dos seus filmes aparentados, o World Trade Center prima pela ausência de um herói, americano, bem entendido. Antes, o que sobressai nesta obra é a falta de preparação das autoridades americanas. Os polícias são levados para o local da catástrofe e pouco mais fazem que olhar horrorizados enquanto corpos tombam das torres. Nenhum deles parece fazer a mínima ideia do que deve fazer, nem tão pouco sabe o que se passa. Os seus líderes pouco mais preparados ou sabedores parecem, liderando mais por palpite e ouvir dizer que por autoridade. E nenhum exibe especial impulso para o heroísmo. Quando o sargento John McLoughlin pede voluntários entre os seus homens para entrar nas Torres e tentar salvar vítimas, apenas dois ou três se oferecem e, segundo diz mais tarde um dos voluntários, William Jimeno, só o fazem porque a recusa os faria sentir mal.</p>
<p>Já o próprio salvamento dos protagonistas é feito por um grupo muito heterogéneo e assaz subequipado de salvadores, alguns deles heróis de ocasião, mais motivados pela busca de auto-redenção – como é o caso da personagem de um paramédico – que por patriotismo ou solidariedade.<br />
E todo o salvamento é baseado no improviso, entrecortado de hesitações e de medo, por parte dos próprios salvadores, de se tornarem vítimas também.</p>
<p>Não importa se estes aspectos se baseiam em factos verídicos ou não, pois tornaram-se ficção a partir do momento em que foram escritos num guião e interpretados por actores, mas é notável a distância que as separa das imagens de hiperpotência  da América que os <em>media</em> nos vendem e das imagens de justiça infinita e heroísmo que George W. Bush proclama nos seus discursos.</p>
<p>Mas ao contrário dos discursos de George W. Bush, talvez seja esta mesma imagem de incompetência, ignorância, hesitação, cobardia, improviso e fragilidade que venha salvar a imagem da América perante o mundo e lhe dê uma face profundamente humana.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Direito por linhas tortas</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 21:34:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinto.jpg" width="75%" border="0"></p>]]></content:encoded>
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		<title>O blogueiro desasado</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 21:14:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
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		<description><![CDATA[Hoje foram os convidados a salvar a honra do convento. Temos logo aqui abaixo um belo texto do Jorge Palinhos sobre o tema central das segundas-feiras, os media. O Pedro Vieira contribuiu com um post radioactivo. O André Belo fez &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/o-blogueiro-desasado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje foram os convidados a salvar a honra do convento. Temos logo aqui abaixo <a href="http://5dias.net/2006/10/02/jorge-palinhos-blogs-e-traseiros/" target="_self">um belo texto do Jorge Palinhos sobre o tema central das segundas-feiras</a>, os <em>media</em>. O <a href="http://5dias.net/2006/10/02/20061002-pedro-vieira-olhos-nos-olhos/" target="_self">Pedro Vieira contribuiu com um post radioactivo</a>. O <a href="http://5dias.net/2006/10/02/andre-belo-de-como-me-tornei-anarquista/" target="_self">André Belo fez um balanço político-pessoal</a> (e uma coisa é a outra bem mais do que normalmente admitiremos) que muita gente assinará certamente por baixo. E eu — nada — nada de nada. Virão outras segundas-feira de chuva como esta, boas para ficar em casa a blogar. O 5dias ainda está só a aquecer. Resta-me agradecer ao André, ao Pedro e ao Jorge e prometer ser um anfitrião mais cooperante nas muitas semanas em que, espero, contaremos com as ideias deles.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Na bloga dos juncos ondulantes</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Oct 2006 10:27:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[porque o texto tinha de ter um título] Hoje temos dois novos servos da bloga, trabalhando de sol a sol às segundas-feiras. São eles o Pedro Vieira (do Irmão Lúcia), e o meu mano André Belo (ex-barnabé, Garedelest e nosso &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/10/02/20061002-na-bloga-dos-juncos-ondulantes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[porque o texto tinha de ter um título]
</p>
<p>Hoje temos dois novos servos da bloga, trabalhando de sol a sol às segundas-feiras. São eles o Pedro Vieira (do <a href="http://www.irmaolucia.blogspot.com/" target="_blank">Irmão Lúcia</a>), e o meu mano André Belo (ex-<a href="http://barnabe.weblog.com.pt/" target="_blank">barnabé</a>, <a href="http://garedelest.blogspot.com/" target="_blank">Garedelest</a> e nosso correspondente em Rennes). Do Pedro temos um post ilustrado e do André um <em>coming-out</em> — mas não é isso que estão a pensar.
</p>
<p>Hoje vai ser dia de bloga ligeira para mim, e tanto melhor — fica a ribalta cheia de luzes para os nossos craques. Fiquem vocês também e espero que gostem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Chico e Caetano: juntos e ao vivo</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 22:59:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Antes de fechar o meu dia e passar as chaves ao António Figueira, tempo para falar das eleições brasileiras, que são já este domingo. Se eu fosse brasileiro, não votaria em Lula; a naturalidade com que os líderes do PT &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/20060925-juntos-e-ao-vivo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de fechar o meu dia e passar as chaves ao António Figueira, tempo para falar das eleições brasileiras, que são já este domingo. Se eu fosse brasileiro, não votaria em Lula; a naturalidade com que os líderes do PT encararam a corrupção no seu próprio partido e no sistema político brasileiro não pode ser premiada com uma eleição à primeira volta. Tampouco votaria em Alckmin ou em Heloísa Helena. O meu voto iria para Cristóvam Buarque, ex-ministro da Educação nos primeiros tempos do governo Lula, que foi afastado à bruta, acusado de ser irrealista, pelos mesmos pragmáticos e realistas (desde logo, José Dirceu) que depois prestaram à democracia o belo serviço do &#8220;mensalão&#8221;.
</p>
<p>As declarações que se seguem pertencem a entrevistas de Chico Buarque e Caetano Veloso à Folha de São Paulo e à Carta Capital. O primeiro vai votar em Lula, o segundo talvez vá votar em Cristóvam, o &#8220;meu&#8221; candidato (percebe-se pelas entrelinhas quando Caetano diz que ainda é Brizola; Cristóvam é candidato pelo PDT, partido fundado por Brizola). No entanto, concordo com muito do que diz Chico Buarque, nomeadamente em relação à agressividade contra-producente com que Lula tem sido tratado pela &#8220;elite&#8221; brasileira (a <em>Veja</em>, único título brasileiro que é distribuído regularmente em Portugal, é o exemplo acabado). Enfim; na arte como na política, vale a pena ler Chico Buarque e Caetano Veloso em conjunto. Os estilos são diferentes, as conclusões também, mas os conteúdos iluminam-se um ao outro.
</p>
<p>Chico Buarque: <br />
<blockquote>«É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido, esse escândalo é desastroso. O outro lado da moeda é que disso tudo pode surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro (risos).<br />Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil é preciso dizer ‘espera aí’. Quando aquele senador tucano canastrão diz que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante – aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar as coisas, sim. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente ele, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover&#8230;<br /><strong>Preconceito de classe</strong><br />O preconceito de classe contra o Lula continua existindo – e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente para quem agride, porque o sujeito mais humilde ouve e pensa: ‘Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?’. Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! – até assassino eu já ouvi. Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram Lula assumir. ‘Agora sai já daí, vagabundo!’. É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu o luxo de ocupar a Casa Grande. ‘Agora volta pra senzala!’. Eu não gostaria que fosse assim.<br /><strong>Eu voto no Lula!</strong><br />A economia não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: ‘Tão cedo esses caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas’. Acho tudo isso muito grave.  Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: ‘Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos’. Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes dele tomar posse, num encontro aqui no Rio.<br /><strong>Sobre o PSOL [de Heloísa Helena]</strong><br />Percebo nesses grupos um rancor que é próprio dos ex: ex-petista, ex-comunista, ex-tudo. Não gosto disso, dessa gente que está muito próxima do fanatismo, que parece pertencer a uma tribo e que quando rompe sai cuspindo fogo. Eleitoralmente, se eles crescerem, vão crescer para cima do PT e eventualmente ajudar o adversário do Lula.<br /><strong>Papel da mídia</strong><br />Não acho que a mídia tenha inventado a crise. Mas a mídia ecoa muito mais o mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para ver quem bate mais.»</p></blockquote>
<p>Caetano Veloso:<br />
<blockquote>«&#8221;FOLHA &#8211; Ao contrário de Chico Buarque, você já disse que não votará em Lula. Por quê?
</p>
<p>CAETANO &#8211; Não vou. Não me arrependo de ter votado nele, mas sou contra a reeleição. Não votei pela reeleição de Fernando Henrique, que nos deu de presente oito anos de esquerda marxista da USP. E como eu já estou com 64 anos e ele e Lula são a mesma coisa, eu acho que seria demais 16 anos com essa turma.
</p>
<p>FOLHA &#8211; O sociólogo Gilberto Vasconcellos se referia a &#8220;essa turma&#8221;, que veio a se dividir entre PT e PSDB, como a coalizão CUT-USP-Fiesp&#8230;
</p>
<p>CAETANO &#8211; Eu acho essa expressão dele totalmente certa.
</p>
<p>FOLHA &#8211; Em quem você vota?
</p>
<p>CAETANO &#8211; Não sei em quem vou votar. Não gosto de votar nulo. Eu preferiria que Lula pelo menos não fosse eleito no primeiro turno.
</p>
<p>FOLHA &#8211; Como você vê o escândalo do mensalão?
</p>
<p>CAETANO &#8211; Eu acho que foi realmente vergonhoso e ruim. Há uma certa regressão no país -que fez o impeachment de Collor- quando se passa uma esponja no escândalo do mensalão. Lula e o PT afastaram os acusados, Lula se disse traído, mas a cada solenidade de despedida dos que cometeram delitos levantou a voz para dizer loas morais a essas figuras. E pôs a culpa num possível complô das elites através da mídia, o que eu acho completamente incongruente. Eu não sou burro, nem maluco, então não vou votar nele. Votei em Lula contra Collor no segundo turno, mas meu candidato não era ele. Era o Brizola. E continua sendo (risos). Na última eleição, eu achei que era a hora de um operário chegar ao poder, de o PT enfrentar a realidade e de se desmistificar tudo isso. Se o Serra tivesse ganhado, ele, que é um excelente candidato, seria massacrado por essa mitologia do Lula, da esquerda e do PT. Quando justifiquei meu voto em Lula, disse que esperava que ele fosse empossado, que governasse e que passasse a faixa para outro. Continuo pensando da mesma maneira.
</p>
<p>FOLHA &#8211; É como naquela canção: &#8220;Mamãe eu quero ir a Cuba e quero voltar&#8221;?
</p>
<p>CAETANO &#8211; Exatamente. E eu cantei isso em Cuba.
</p>
<p>FOLHA &#8211; Por que há essa leniência em relação ao escândalo?
</p>
<p>CAETANO &#8211; Eu acho que é por causa da esquerda. A esquerda é como torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela.»</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Dahrendorf: o &#8220;Novo Autoritarismo&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 18:15:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[11-setembro]]></category>
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		<category><![CDATA[Guerra-ao-terrorismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Este homem, como diria João Carlos Espada, é um sir. O problema é que, nos velhos tempos, João Carlos Espada e a direita portuguesa auto-proclamada de liberal não conseguiria alinhar duas palavras sem citar Ralf Dahrendorf. Hoje, sir Ralf anda &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/dahrendorf-o-novo-autoritarismo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este homem, como diria João Carlos Espada, é um <em>sir</em>. O problema é que, nos velhos tempos, João Carlos Espada e a direita portuguesa auto-proclamada de liberal não conseguiria alinhar duas palavras sem citar Ralf Dahrendorf. Hoje, <em>sir </em>Ralf anda mais desaparecido da prosa nacional, talvez por escrever coisas como <a href="http://www.project-syndicate.org/commentary/dahrendorf54" target="_blank">este artigo sobre &#8220;o 11 de Setembro e o novo autoritarismo&#8221;</a>. Algumas frases-chave:<br />
<blockquote><a href="http://www.project-syndicate.org/commentary/dahrendorf54" title="Ralf Dahrendorf, 9/11 and the new authoritarianism"><br />«Mas terá mesmo começado uma guerra a 11 de Setembro de 2001? Nem todos se contentam com esta definição americana. Na época alta do terrorismo irlandês no Reino Unido, sucessivos governos britânicos se esforçaram ao máximo para não conceder ao IRA a ideia de que se estava a travar uma guerra. &#8220;Guerra&#8221; teria significado a aceitação dos terroristas como inimigos legítimos&#8230;»
</p>
<p>«&#8230;os actos terroristas devem ser melhor descritos como actos criminosos. Ao chamar-lhes guerra&#8230; o governo dos EUA justificou políticas internas que, antes dos ataques de 11 de setembro, seria inaceitáveis em qualquer país livre.»
</p>
<p>«Desde cedo, o campo-prisão de Guantánamo em Cuba tornou-se o símbolo de uma coisa inaudita: a prisão sem julgamento de &#8220;combatentes ilegais&#8221; privados de todos os direitos humanos. Resta ao mundo imaginar quantos mais destes homens não-humanos permanecem neste momento em quantos outros lugares.»
</p>
<p>«As características fundamentais do Ocidente, a democracia e o estado de direito, sofreram mais às mãos dos seus defensores do que dos seus atacantes.»
</p>
<p>«&#8230;os nossos líderes devem procurar acalmar, ao invés de explorar, a ansiedade pública. Os terroristas com quem estamos em &#8220;guerra&#8221; não podem vencer, porque a sua visão feita de trevas nunca ganhará ampla legitimidade popular. Essa é mais outra razão para nos erguermos em defesa dos nossos valores — em primeiro lugar, e acima de tudo, agindo de acordo com eles.»</a></p></blockquote>
<p>O TPC para esta semana é: traduzir e divulgar este texto, insistir na sua publicação nos nossos jornais. Mostrar à nossa direita quão afastados e adversos andam dos valores que dizem defender.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Coluna social</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 17:37:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[lançamentos]]></category>

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		<description><![CDATA[Na quarta-feira, dia 27 de setembro, às 18h30: a Tinta-da-China lança Portugal Now (um espião comunista no Estado Novo), de Ralph Fox, jovem escritor inglês que morreu na Guerra Civil de Espanha. Eu tenho o livro, e recomendo-o como uma &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/coluna-social-2/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na quarta-feira, dia 27 de setembro, às 18h30: a Tinta-da-China lança <em>Portugal Now (um espião comunista no Estado Novo)</em>, de Ralph Fox, jovem escritor inglês que morreu na Guerra Civil de Espanha. Eu tenho o livro, e recomendo-o como uma introdução ao Portugal do primeiro salazarismo muito bem escrita, certeira nas suas intuições sobre o país, vista a partir de olhar estrangeiro. A tradução é de Rui Lopes, o prefácio de José Neves. Na apresentação, além de tradutor e prefaciador, vai estar o historiador Fernando Rosas. [Declaração de interesses: a Tinta-da-China é a editora dos meus livros, mas àparte esse deslize têm revelado muito bom gosto no resto do seu catálogo].
<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/unknown.gif" alt="Ralph Fox - Portugal Now" width="85%" border="0"></p>
<p>Na quinta-feira, dia 28 de setembro, às 18h30: no atelier O Marinheiro, Calçada Salvador Correia de Sá, 42, 2º Frente, em Lisboa (entrada faz-se pelo portão do Bar Noobai, no miradouro de Santa Catarina) a editora Livramento lança <em>Frases para ter na carteira</em>, colectânea de 22 autores portugueses, se não me engano todos da blogosfera.
<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/frases_capa.jpg" alt="Vários autores - Frases para ter na carteira" width="85%" border="0"></p>
<p>Nessa mesma quinta-feira, às 21h30: debate sobre romances históricos na Casa Fernando Pessoa, moderado por Carlos Vaz Marques. Vão estar os escritores Miguel Real e Pedro Almeida Vieira, autores de romances históricos; António Mega Ferreira e eu mesmo, como comentadores exteriores a esse género literário e o editor Zeferino Coelho da Caminho.
</p>
<p>[enviar info cultural para 5dias (e põe-se aqui uma arroba) yahoogroups.com]</p>]]></content:encoded>
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		<title>Napoleão ganhou em Waterloo</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 03:46:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[crónica]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[israel]]></category>
		<category><![CDATA[líbano]]></category>
		<category><![CDATA[uri-avnery]]></category>

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		<description><![CDATA[Como está o ambiente em Israel neste breve interregno das aberturas dos telejornais, agora que a guerra no Líbano terminou? Uma resposta possível é a de Uri Avnery, ex-terrorista nos tempos da fundação do estado de Israel, depois escritor, jornalista, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/20060924-napoleao-ganhou-em-waterloo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como está o ambiente em Israel neste breve interregno das aberturas dos telejornais, agora que a guerra no Líbano terminou? Uma resposta possível é a de Uri Avnery, ex-terrorista nos tempos da fundação do estado de Israel, depois  escritor, jornalista, fundador de títulos de imprensa e activista pela paz. Mas, principalmente, um dos melhores colunistas do mundo, aos seus 83 anos incapaz de uma única linha aborrecida ou pouco clara num texto de opinião. Este começa assim:</p>
<blockquote><p><a href="http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1157243723">Napoleão ganhou em Waterloo. O exército alemão ganhou a IIa Guerra Mundial. Os Estados Unidos ganharam no Vietname e os soviéticos no Afeganistão. Os zelotas ganharam contra os romanos e Ehud Olmert ganhou a Segunda Guerra do Líbano. Não sabiam? Bem&#8230;</a></p></blockquote>
<p>E depois é ler até ao final, delicioso e sacaninha, <a href="http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1157243723">aqui nesta versão inglesa</a>. E já que estamos aqui, aproveitem para ler <a href="http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1159094813">a opinião de Avnery sobre o Discurso de Ratisbona</a>.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O Paleólogo</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Sep 2006 03:24:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
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		<description><![CDATA[No Pobre e Mal Agradecido, o meu texto de sábado no Público sobre o célebre Discurso de Ratisbona do Papa. Começa assim: Quando no início do ano rebentou a polémica das caricaturas dinamarquesas, o Papa tomou uma posição clara: a &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/20060925-o-paleologo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No <em>Pobre e Mal Agradecido</em>, o meu texto de sábado no <em>Público</em> sobre o célebre <em>Discurso de Ratisbona</em> do Papa. Começa assim:</p>
<blockquote><p><a href="http://ruitavares.weblog.com.pt/2006/09/o_paleologo">Quando no início do ano rebentou a polémica das caricaturas dinamarquesas, o Papa tomou uma posição clara: a liberdade de expressão não inclui o direito a blasfemar. O Vaticano e toda a hierarquia católica foram unânimes em considerar que o jornal dinamarquês não deveria ter publicado as caricaturas porque, como disse então o Patriarca de Lisboa, &#8220;com o sagrado não se brinca&#8221;, ou melhor ainda, &#8220;o respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade&#8221;. Quando a maior parte dos intelectuais defendia que a liberdade de expressão é sagrada, a igreja católica veio pôr as coisas nos seus termos: nem pensar; o sagrado é que é sagrado.</a></p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Bom vento e bom casamento</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Sep 2006 23:02:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Bem-vindos para a segunda semana de 5dias, desta vez blogando ao vivo a partir de Lisboa Oriental. Este fim-de-semana descobrimos através do semanário Sol que &#8220;um quarto dos portugueses preferiam ser espanhóis&#8221;, conclusão a que se pode chegar se dispusermos &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/09/25/bom-vento-e-bom-casamento/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bem-vindos para a segunda semana de 5dias, desta vez blogando ao vivo a partir de Lisboa Oriental. Este fim-de-semana descobrimos através do semanário <a href="http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/">Sol</a> que &#8220;um quarto dos portugueses preferiam ser espanhóis&#8221;, conclusão a que se pode chegar se dispusermos dos dotes de interpretação imaginativa de sondagens do Arquitecto José António Saraiva. Ainda não caiu no esquecimento o título do Expresso, ainda no consulado do senhor Arquitecto, segundo o qual um décimo dos portugueses é homossexual. Juntando dois-mais-dois, é fácil concluir que pelo menos 1 em cada 30 portugueses preferia ser um homossexual espanhol. Ou mesmo mais do que 1 em 30, presumindo que desejem casar.</p>]]></content:encoded>
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