Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma alternativa é alojar cada família para casas a custos controlados, em bairros comuns, e tratar com as mesmas responsabilidades quem tiver acesso a essas casas, sejam eles pobres, classe média ou jovens casais. Em vez de enfiar as pessoas em depósitos de pobres e as crianças em escolas para onde os professores não querem ir, os serviços, o comércio e as escolas que já existem servem toda a gente.
Naturalmente, há quem também não goste desta ideia, que apresentei numa crónica da semana passada. Rui Ramos, nas páginas deste jornal, ataca-a como “experimentalismo” que faz dos pobres “cobaias” e “carne para canhão”, colocando-os “à mercê dos funcionários” que exigem contrapartidas a quem usufruir das casas (manter os filhos na escola, cuidar das casas, pagar as rendas ou prestações, não armazenar armas ilegais) — isto como se alguém fosse obrigado a aceitar e alguma casa viesse sem contrapartidas.
Com Rui Ramos, tudo se passa como se houvesse vinte mil modelos disponíveis mas não tivéssemos de dizer qual defendemos. Eis afinal a única ideia perfeita neste país. Mas é bom que as pessoas — a começar por Rui Ramos — entendam que não ter nada para apresentar também tem custos.
Não saímos da estaca zero. Continuamos a poder optar pela mistura social na cidade, como fazem muitas cidades do mundo desenvolvido, com vantagens e inconvenientes. Ou prosseguir com o bairro social como fazem outras, sabendo que vamos ter de o acompanhar e nele investir durante décadas. Mas há mais opções. Podemos voltar ao modelo de uma cidade envolta por uma cintura de bairros de lata, onde havia os mesmos problemas de hoje e mais alguns. Ou evoluir para o modelo do Rio de Janeiro: condomínios de luxo no sopé do morro e favelas na encosta, onde teremos os mesmos problemas de hoje e muitos mais ainda.
Para Rui Ramos, pelo contrário, a única ideia genial para a pobreza é não fazer nada. Pensará ele que nunca foi experimentada? Ler o resto »
Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a Blitz, e que eu deixo aí abaixo.
É também o meu último contributo como editor para o 5dias. Como vocelências devem ter reparado, não bloguei com a quantidade e a qualidade que este sítio merecia, muito menos como mereciam os meus colegas dos outros dias que estiveram uns furos acima em ambas as categorias. Orgulho-me, contudo, de ter contado com a colaboração de três excelentes bloggers em texto e imagem: o Jorge Palinhos, o Pedro Vieira e o André Belo. O Jorge, o Pedro e o André são três valores seguros em qualquer projecto e poderão continuar a colaborar aqui no 5dias, se eles e os outros amigos o desejarem. Eu também não me desligarei do projecto. Tenho aqui amigos e bastante confiança na ideia com que fundámos este espaço e nas suas possibilidades. Mas, pelo menos para já, o meu blogue pessoal, mesmo em jeito modesto, chega-me e sobra-me.
As segundas-feiras passarão a ser editadas por uma nova e fulgurante contratação, que será revelada na próxima semana. Continuem a passar por aqui nos dias úteis.
E agora, Paciência Iracema.
É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. A musiquinha é uma curta obra-prima ternurenta e macabra. Isso mesmo: ternurenta e macabra ao mesmo tempo. É, também, uma letra supremamente equilibrada: nem excessivamente piegas nem maldosa, apesar de ser uma das raras músicas da história da humanidade — talvez a única — que tenta responder filosoficamente à seguinte pergunta: que fazer quando a nossa noiva é atropelada mortalmente a vinte dias do casamento?
Para quem não conhece, aqui vai uma descrição abreviada. No início, o cantor dirige-se a uma mulher chamada Iracema, chamando-lhe o “grande amor” da sua vida, como em qualquer banal música romântica. Logo notamos que há qualquer coisa de estranho quando o cantor recorda o aviso que costumava dar a Iracema, “cuidado ao atravessar essas ruas”, um tema inesperado numa declaração de amor. “Cuidado ao atravessar essas ruas, eu falava, mas você não me escutava não; Iracema, você ‘travessou contramão”. Aí entendemos a segunda coisa bizarra nesta música: Iracema já morreu, e toda a letra é o diálogo imaginário entre o cantor e a sua — como diria Tim Burton — noiva-cadáver. Mas para quem acha que a história já é estranha que chegue, vem agora outro pormenor absurdo: o cantor dirige-se à sua amada para pedir desculpas porque, como homem descuidado e trapalhão que é, perdeu o retrato dela. Restam-lhe então, como lembranças do grande amor da sua vida, apenas as meias e os sapatos recuperados no lugar do acidente (“Guardo somente suas meias e seus sapatos. Iracema, eu perdi o seu retrato.”). As meias e os sapatos?! Mas então esta música é para rir ou para chorar? Precisamente, nem uma coisa nem outra. Quando nos damos conta da profunda tristeza da história, a letra dá uma guinada absurda. E quando a ridícula referência às meias e aos sapatos quase nos dispara uma gargalhada, o cantor pede desculpa à amada morta por ter perdido o retrato dela, e aí quem consegue rir de um homem que no futuro terá dificuldade em lembrar-se do rosto do grande amor da sua vida? A coisa perde a piada, apesar de toda a história ser divertidíssima. É tão desconcertante quanto isto.
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Com a combinação certa de palavras-chave, é fácil encontrar na internet — vocês sabem do que eu estou a falar — essa gravação de 1978 em que Adoniran Barbosa e Elis Regina cantam Iracema no bar da Carmela, no bairro italiano da maior cidade brasileira. A cena também em si é absurda, porque esta música de fazer chorar as pedras da calçada é acompanhada por uma roda de samba saltitante como de costume, isto à volta de uma mesa e dos seus copos de cerveja de uma alegre noite de bar. Mas Adoniran Barbosa olha em direcção nenhuma com ar seríssimo e absorto, à espera da deixa para a sua parte falada — e não cantada — da música, pronunciada num sotaque paulistano com exagerados erros de português, também para chamar a atenção e o rídiculo sobre a sua pobre personagem. E diz:
(Iracema, fartavam 20 dias Pra o nosso casamento Que nóis ia se casá Você atravessô a São João Vem um carro te pega E te pincha no chão O chofer não teve curpa, Iracema. Você ‘travessou contramão Paciência, Iracema, paciência!)
Haverá coisa mais incoerente? No início, parece que a letra toma uma direcção melodramática (“fartavam 20 dias pra o nosso casamento”), mas logo descamba para os detalhes mórbidos, brutais e exagerados (“vem um carro te pega e te pincha no chão”). Para mim, no entanto, nada é mais absurdo e, ao mesmo tempo, mais encantador do que a referência ao “chofer” que “não teve curpa”: que tipo de homem seria capaz de, evocando a amada morta, estar preocupado em explicar-lhe se o condutor do automóvel que a matou teve ou não culpa do acidente? Talvez o mesmo tipo de homem que perdendo o retrato dela guarda como recordação as suas meias e os sapatos…
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Chegado a este ponto, é já evidente que Adoniran Barbosa, actor, cantor e compositor que nasceu em 1912 e morreu em 1982, dominava como poucos todas as manhas do efeito cómico: as suas mudanças de ritmo, as súbitas viragens na narrativa, o efeito de acumulação de absurdos. Mas esse embrulho cómico nas suas músicas traz consigo uma atitude profundamente filosófica a que eu me referia no início. Essa é a que aparece na última frase do seu monólogo. Perante a brutalidade absurda da existência, que lhe rouba a noiva e lhe faz perder o seu retrato, qual é a resposta que Adoniran dá à adversidade? Raiva? Revolta? Rebeldia? Não: apenas paciência. “Paciência, Iracema, paciência”.
A este tipo de atitude chama-se por vezes de fatalismo, e tem pouco de surpreendente na cultura portuguesa uma vez que é um sentimento dominante no género musical do fado, cujo nome tem precisamente essa origem do fatum latino, o destino. Mas tal como por vezes há fados melodramaticamente absurdos e divertidos em Portugal (o Fado da Mãezinha Tuberculosa…) também aqui encontramos um samba fatalista em ambiente brasileiro. Poderíamos explorar as correntes subterrâneas que ligam estes dois géneros musicais e a cultura dos seus respectivos países, mas parto do princípio de que este tema já está bastante explorado. Prefiro antes chamar a atenção para a longa história do fatalismo de que, de certa forma, encontro ecos naquela música de Adoniran Barbosa.
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Um filósofo grego antigo, Pirro de Eleia, era fatalista porque achava que nada se podia saber. Diz-se que o seu cepticismo era tão radical que, ao saber que Sócrates tinha dito “só sei que nada sei”, respondeu “pois eu nem isso sei”. Mais tarde um dos seus discípulos, que tinha o belo nome de Sexto Empírico, resumiu a filosofia pirronista numa fórmula sucinta:
Nada se pode saber — nem sequer isto.
Os pirronistas defendiam que, uma vez que nada se podia saber, o melhor era não acreditar em nada. A via mais sensata consistiria então em ir abandonando todas as crenças e até todas as opiniões forte sobre as coisas até chegar a um estado em que nada nos provoque inquietação alguma. A esse estado chamavam de imperturbabilidade, ou seja, a capacidade de não nos perturbarmos com nada. O nome em grego era ataraxia e há quem o compare a uma espécie de nirvana budista. Eu comparo-o antes à atitude de Adoniran Barbosa na sua música: não culpar o chofer do carro, recolher as meias e os sapatos da noiva, e conversar calmamente com ela através de um sambinha, como quem diz, é preciso levar a vida. A noiva atravessou em contra-mão. Já’não volta mais. Paciência.
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Há muitos fatalismos diferentes, e não temos aqui espaço para todos. Um consiste em dizer, como vimos, que é tudo tão absurdo e incerto que não adianta tomar decisões. Outro fatalismo, porventura mais conhecido, consiste em dizer que tudo está pré-determinado e que, portanto, também não adianta tomar decisões. Conta-se que, na Antiguidade, certos guerreiros fatalistas andavam descuidados pelo campo de batalha, achando que não valia a pena protegerem-se uma vez que morreriam apenas no momento predestinado e não antes. Para quê usar armadura? Hoje, todavia, não se leva a filosofia tão a sério, até porque todos estes fatalismos têm uma coisa em comum: as suas raízes são muito antigas, sempre de um tempo em que não havia automóveis nem avenidas largas. E os automóveis são um argumento importante contra uma atitude de imperturbabilidade fatalista, como lembrou o físico Stephen Hawking quando escreveu:
“Reparo que mesmo as pessoas que afirmam que tudo está predestinado e que não há nada a fazer contra isso não deixam de olhar antes de atravessar a rua”
Ou seja, precisamente aquilo que deveria ter feito Iracema.
No Blogue do Não, no artigo de Luís Delgado no DN, na reacção de Luís Filipe Menezes, nas respostas do CDS e do “Não” (mas, vá lá, o PSD e Marques Mendes evitaram esse caminho) aparece timidamente um tema: o de que se juntarmos os abstencionistas ao voto do “Não”, há uma maioria de pessoa que se opõe à despenalização do aborto. A ideia é tão hilariamente absurda e desajeitada que está para lá de qualquer comentário. Mas os cenários ainda vão mais longe: Luís Filipe Menezes e Pedro Picoito contam com aqueles que não poderão nunca vir a votar, porque não nascerão: os fetos… Bagão Félix poderia até aduzir que se trata do voto do nascituro não concebido, que garantiria naturalmente a vitória do “Não”. E porquê parar por aí? Não viriam esses fetos a ter filhos (eleitores do “Não”, pois claro)? E os netos dos fetos?
Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um jornal e vê-se, como vencedores, toda a esquerda uma parte da direita liberal que ainda tem alguma consequência no seu liberalismo. Perdedores: a Igreja Católica, o PSD, o CDS, Marcelo Rebelo de Sousa (este em grande), Bagão Félix, Paulo Portas.
E se o nosso trabalho tiver acabado? Resta emigrar para a Polónia.
Público: “actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico”.
[nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas desculpas.]
Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?
Seria errado dizer que o rádio iluminava a noite, mas antes que se infiltrava pela escuridão encontrando pequenos clarões de sons compreensíveis, retraindo momentaneamente o vasto ignoto, como um par de faróis num carro solitário. Passavam programas para camionistas acordados na estrada. O rádio de onda média apanhava estações espanholas com flamenco, relatos de touradas, noticiários. Espanha: havia um lugar chamado fronteira e depois dela as pessoas falavam outra língua — todas! — das crianças aos velhos. Mas havia mais. Havia Marrocos. Com sorte, nas noites favoráveis, encontrava-se uma daquelas estações com sumptuosa música oriental sinfónica, instrumentos de arco sinuosos, descendo e subindo languidamente as escalas. Depois um locutor interrompia a emissão para dizer umas palavras em árabe, não sei se eu já sabia que havia uma língua chamada assim, aquelas articulações guturais e vogais bruscamente interrompidas, uma espécie de regato brotando e dimanando por uma paisagem seca e acidentada. Mas às vezes — e isto era completamente diferente — ouvia-se falar a mesma língua por uma voz velosa de mulher, balsâmica e sedante, antes de entrar na noite sem estrelas com mais uma daquelas orquestras douradas. Eu adormecia.
Marrocos era um reino. O rei chamava-se Hassan II. Tinha cidades chamadas Casablanca, Fez, Tânger. Isso vinha na enciclopédia em três volumes, comprada às prestações. O atlas universal tinha as bandeiras de todos os países do mundo; alguém tinha assinalado com um pontinho os países comunistas e com um traço os países capitalistas, para fazer as contas à guerra fria e às medalhas nos jogos olímpicos.
A televisão foi muito tempo a preto e branco e, seja como for, tinha só dois canais. Tinha horário: começava ao fim da tarde e desligava-se depois do hino nacional. Eu às vezes implorava-lhe que me desse mais qualquer coisa; carregava em todos os botões e percorria UHF acima e VHF abaixo nessa vã busca de um surpresa. Uma noite, com todos já deitados, consegui apanhar a Radiotelevisión Española, por detrás de uma névoa de pontinhos brancos. Não voltou a aparecer.
Não havia comparação possível com a telefonia. Em casa de não sei qual tia havia uma enorme, com nomes de cidades dispersos pelo mostrador. Aquilo sim era o mundo: Johannesburg – Cairo – Leningrad. De regresso a casa no automóvel, pela Estrada Nacional nº 1, eu encostava a cabeça ao vidro do carro e via as luzes ao longe. O que eu via nem sempre eram cidades mas terreolas somente. E cada uma daquelas tremeluzindo na distância devia ser como essas cidades do mostrador da telefonia. Cada uma delas deveria cintilar contra o negrume à força da luz eléctrica, e certamente com várias vezes mais força do que Castanheira do Ribatejo ou Vila Nova da Rainha. Algumas delas teriam forçosamente de ser clarões enormes, estelares, belos quando vistos de cima com fieiras infindas de candeeiros nas ruas como gotículas de humidade numa teia de aranha. Essas cidades teriam prédios grandes e elevadores com muitos botões; e desses prédios grandes sairia gente para entrar nos automóveis; essa gente seria também ela grande, homens adultos com chapéus e sobretudos, mulheres com casacos de peles e os lábios pintados. E por vezes famílias inteiras, com cães de estimação.
E a questão então era a seguinte: poderia numa dessas famílias acabadas de entrar agora para o seu automóvel ir um miúdo com a testa encostada ao vidro embaciado de vapor, e poderia esse miúdo estar a pensar em cidades grandes do outro lado do mundo? E poderia ele imaginar a hipótese de numa dessas cidades haver um miúdo como ele? Quem seria esse miúdo que ele imaginava existir — conseguiria descobrir que era eu mesmo? — ou inventaria um terceiro? E se havia um terceiro porque não haveria um quarto? A propósito: um em cada quatro humanos era chinês. Poderia então haver um outro rapaz igualzinho a mim na China, um irmão gémeo de mim mas em chinês, e teria ele consciência da possibilidade da minha existência? E se em vez de um miúdo fosse uma miúda, quer dizer: não poderia antes acontecer que do outro lado do mundo eu fosse o meu exacto oposto de tudo quanto eu aqui era? Teria eu essa irmã chinesa do outro lado do mundo? Estaria ela a pensar no mesmo que eu neste preciso momento? Viria eu a conhecê-la? E se sim — agora é levemente embaraçoso — poderíamos vir a casar?
Tenho hoje a certeza que muitas crianças estavam ao mesmo tempo perguntando-se as mesmas coisas, e se não eram exactamente as mesmíssimas, a verdade é que talvez sempre se tenham feito perguntas que não são em si muito diferentes destas. O que me intriga agora é saber quantos desses meus companheiros e companheiras se lembram de um dia as terem feito. O que farão eles agora? Terão certamente morrido alguns; e quantos dos sobreviventes terão já tido filhos? Quais desses filhos já se terão perguntado as mesmas coisas? Quantos serão na proporção total das crianças de olhos esbugalhados?
Quando penso que bastava um rádio de pilhas para tudo isto, vejo que tão certo como ter tido um irmão gémeo chinês, é termos ambos tido um irmão mais velho no Japão. Porque foi lá que começaram a substituir-se as rádios antigas dos velhos tubos de vácuo por novíssimas, agora de transístores, e por um momento conhecidas apenas por esse nome. Os transístores aguentavam-se bem com baterias apenas. Eram pequenos e poupados, passado pouco tempo começaram também a ser baratos, e não deixariam nunca mais de se tornar cada vez mais baratos e pequenos e poupados. Hoje imprimimo-los aos milhões em cada bolacha de silicone dos circuitos integrados, junto com díodos e condensadores e resistências. Vistos de cima parecem cidades carregadas de prédios e casas e estradas paralelas, como as nossas cidades que cresceram juntando os tentáculos umas às outras, futuramente envolvendo o mundo inteiro, perpetuamente acesas num dia constante.
Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.
Olho para os rodapés da minha casa. Que dificuldade haveria em instalar-lhes umas dobradiças oscilantes para, no momento certo, deixarem passar os ratóides? Eu chegaria a casa esvaziando os bolsos, deixando cair moedas, papéis diversos, poeiras submilimétricas, parafusos encontrados na rua. Os ratóides levam tudo para dentro, separam o lixo do resto, sabem que facturas se declaram aos impostos, arquivam-nas no lugar certo, colocam o material indeciso num tabuleirinho, para minha consideração, que guardam depois inobservado. Transcrevem os números de telefone anotados em bilhetes de cinema. Deixam as chaves no prego da porta. Aquelas paredes têm espaço que chegue para um exército de ratóides e mais ainda: eles podem trazer-me de lá dentro o que eu quiser. Chinelos. Jornal. Preservativos. Corta-unhas.
Meus amigos, eu li as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Li até o livro se desfazer. Li até me mandarem apagar a luz. Várias vezes. E li “Virão Chuvas Suaves”, o melhor conto do livro, vezes incontáveis, em leitura mental, ou em voz alta, ou imaginando uma versão cinematográfica, ou gravando um programa de rádio caseiro. E, tudo contado, sei perfeitamente que em 2006 já deveria haver ratóides que me limpassem a casa. E já nem sequer teimo que tudo isto se passaria em Marte, depois de um cataclismo nuclear, terrível mas necessário, que levara todos os gajos chatos do liceu, mas também algumas das miúdas bonitinhas e doces, memoráveis ao meu coração sofrido.
No fundamental, quero dizer que o milénio é a grande desilusão da minha vida. Fui dolorosamente envergonhado: o milénio é a fraude do milénio.
Consideremos o dia em que fui para o hospital com uma apendicite. O augustus imperator do Ocidente era um homem chamado Bush. O primeiro-ministro de Portugal chamava-se Cavaco Silva, professor de educação física — ou moral e religiosa, ou trabalhos oficinais — se a memória não erra. O ditador da Líbia chamava-se Muhammar Kadhafi, ou Gadhdhaffyi (há mais de trinta alternativas). A questão era saber se Bush devia bombardear Kadhafi, e que cara, no seu registo fisionómico limitado, deveria Cavaco fazer quando apoiasse o ataque. Passaram os anos. Bush foi substituído por um filho que é uma cabal refutação à teoria de Darwin. Ninguém sabe o que foi feito de Cavaco Silva. Kadhafi continuou a sua carreira a solo, mas perdeu credibilidade como vilão, e já foi substituído por dois ou três gajos diferentes — o último ainda à experiência.
Tenho, como troféu de batalha, a cicatriz destes anos. Está numa posição rara em apendicites, dois ou três centímetros acima do lugar normal. Quando acordei da anestesia, pedi que me trouxessem livros de ficção científica: Stanisław Lem, Karel Čapek, Ray Bradbury, Robert Heinlein, os irmãos Strugatski, Harry Harrison, John Wyndham. E um ou outro policial para desenjoar. Os pais, os irmãos e os primos corresponderam. Um professor do Técnico, que tinha sido operado à vesícula, emprestou-me um dos seus Isaac Asimov. Nas camas em frente à minha, um comunista e um saudosista da ditadura discutiam política sem conseguirem ver-se, intercalados por um homem em coma, ou talvez já morto, que supúnhamos encontrar-se por detrás daquela cortina de plástico verde-claro. No canto oposto um militar da Guarda Nacional Republicana, em severa privação alcoólica, atirava as pantufas contra a janela, tentando atingir gatos invisíveis para a restante enfermaria. Um açoriano mostrava com orgulho a sua cicatriz, grossa como uma corda, que ia da traqueia até à bexiga: “foi revisão geral”, dizia.
Eu ia lendo os meus livros, que narravam acontecimentos que viriam a passar-se no futuro, especialmente em torno do ano 2000. À beira do fim, de Harry Harrison [no original, Make Room! Make Room!]: 9 de Agosto de 1999, vivem trinta e cinco milhões de pessoas em Nova Iorque, sem água potável, sem comida e sem papel. Para comunicar, usam tésseras de ardósia distribuídas por um exército de crianças de rua. Regresso das Estrelas, de Stanisław Lem [no original Powrót z gwiazd]: as bibliotecas são colecções de cristais que se copiam de graça e inserem num visor de plástico. A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [no original The Door into Summer]: as pessoas guardam o seu pé-de-meia no banco, congelam-se, e acordam no ano 2000 milionárias, mas potenciais vítimas ingénuas de esquemas preparados pela população acordada, que trata os ressuscitados mais ou menos como nós tratamos os imigrantes. No que diz respeito ao trabalho doméstico — oh, meus amigos — não se preocupem: o Flexible Frank rega o jardim, muda as fraldas do miúdo e prepara cocktails [em português: cacharoletes] com vermute.
É certo que Heinlein escreveu em 1957, Lem em 1961 e Harrison em 1966. O milénio ainda vinha lá longe. Na altura em que eu recuperava da apendicite o tempo já começava a ser apertado. Tínhamos cerca de uma década. Não daria para colonizar Alfa-Centauro mas, que diabo, não se admitia chegar ao ano 2000 sem um robot doméstico.
Nada me preparou, porém, para o que se passou recentemente. Vi uma antologia de Ray Bradbury na livraria, e trouxe-a para casa, mais por nostalgia do que por empenho. Recolhi a minha colecção de Lem quando o autor morreu, em Março passado, para lhe prestar o melhor tributo que um leitor pode prestar. Reli A Porta para o Verão, de Heilein, talvez pela décima vez mas a primeira desde a adolescência, em menos de duas tardes.
E a evidência fulgurante impõe-se: estes livros estão escritos no passado.
Já não posso ler estes livros e projectar-me satisfatoriamente no futuro porque as datas estão lá, aquelas datas, e atrapalham-me. Como ler futurologia passada em 1999? Lembro-me perfeitamente de 1999: não foi assim tão mau. E também não foram assim tão bons dois mil e um, dois mil e dois e por aí adiante.
Tudo bem: tenho a internet, que me faz perder tempo em vez de escrever. Mas quando escrevo, ainda tenho de me sentar a uma cadeira, ainda tenho de premir teclas com dedos. As articulações queixam-se, os músculos exigem levantar-se, preciso de urinar. E onde está o eléctrodo implantado na nuca, mais o transmissor sem fios, que registasse directamente os meus pensamentos? Se precisar de rever o texto, onde está o monitor na lente dos óculos, controlado pelo mover brando da retina?
Lembro-me de ter seis anos e fazer contas para saber que idade teria no ano 2000. Não posso aceitar esta desfeita. Quero saber onde está o estéreo-tanque, televisor tridimensional que me permite contornar o apresentador do telejornal e vigiar a progressão da sua calvície. Onde está a noiva mecânica? Onde está o organizador de matéria e o teletransportador? Onde estão as cidades rotativas, itinerantes e suspensas? Onde estão as cúpulas de controle meteorológico? Onde está calster, a impressora portátil de dinheiro? Onde está o levitador magnético ou o seu rival, o elevador de repulsão gravítica? Onde está a electricidade sem fios?
Estamos prontos.
http://ruitavares.weblog.com.pt
[com um agradecimento especial a João Macdonald pela tradução portuguesa de cocktail.]
Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua.
A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.
“Concorda com a despenalização…”. A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo de próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bébés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.
Numa pergunta que começa com aquele “concorda com a despenalização”, os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e anti-aborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem “Sim” à pergunta são “pró-despenalização”. Os que respondem “Não” são “pró-penalização” (ou “anti-despenalização”, o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso.
“…da interrupção voluntária da gravidez…”. Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo. Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos de aborto. Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta.
“…se realizada, por opção da mulher”. No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.
No mundo do “Não”, porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. “Por opção da mulher”? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado. Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante “por opção da mulher” ali está.
“…nas primeiras dez semanas…”. Aborto livre, grita o “não”! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas! Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre… Ou o facto de só se poder andar até cinquenta quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade? Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do “Não” mudam de estratégia. Então o que acontece às onze semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema?
“…em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?” Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um “estabelecimento de saúde” quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e “legalmente autorizado” quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse. Mas vale a pena notar o que “legalmente autorizado” não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.
Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a “segunda pergunta” de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco. Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde “legalmente autorizado” significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio.
Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto.
Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada. É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei “Sim”. Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.
A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.
É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, Jean-Eugène Robert-Houdin, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.
Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de Harry Houdini, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “Margery”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.
Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como Uri Geller, foi James Randi, que em vários episódios do programa Tonight Show desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.
Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e rico) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.
O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.
Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi Nostradamus, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:
“Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.” (Tradução minha a partir da versão inglesa)
Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.
Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um famoso astrólogo português. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós.
É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.
Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.
Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.
Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.
P. S, – Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.
Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.
No meu tempo de faculdade, a única maneira de ainda ter aulas com o professor José Mattoso era inscrevermo-nos numa cadeira opcional de História das Religiões na Idade Média. Eu fui um dos sortudos que assistiu a essas aulas — e uma em particular é o ponto de partida para esta crónica. Naquele dia o professor comentava um catecismo medieval irlandês e, de passagem, notou como muitas das suas interdições sobre alimentação e sexualidade eram praticamente impossíveis de cumprir, seja pelo seu grau de pormenor, seja pela profusão de dias sagrados (e respectivos interditos) que quase chegavam a ocupar um terço do ano. Tal não nos devia espantar, dizia o professor, pois o cristianismo medieval tem uma relação que se poderia chamar de “dialógica” com o Ideal da lei. O Ideal era para ser aclamado, consagrado, glorificado; não tanto para ser cumprido. Quanto mais próximo do ideal, melhor. Porém, todos nascemos em pecado e vivemos em pecado, tendo a doutrina margem suficiente para cobrir a lacuna entre esse Ideal que está escrito e as práticas de nós todos pecadores aqui em baixo. Aliás, se pensássemos bem, essa relação “dialógica” com a lei sobrevivera muito mais no catolicismo e muito menos no protestantismo, sendo especialmente visível em países como a Irlanda (de que tinhamos ali um vestígio antigo naquele catecismo) e Portugal, onde a relação com a lei era fluida e cheia de folgas.
Espero ter sido fiel ao pensamento do professor Mattoso, e devo desde já deixar muito claro que não faço ideia se ele concordaria com o resto do que vou escrever. Mas o facto é que me tenho lembrado muitas vezes dessa sua lição sobre a natureza “dialógica” da nossa relação com a lei, e nunca tantas vezes como desde que a campanha do referendo sobre o aborto entrou a todo o vapor.
Reparem se grande parte do debate que temos tido não é a tal relação “dialógica” — aqui dúplice, elástica, acomodatícia — em toda a sua glória. Sabemos que a actual lei não diminui o número de abortos; no entanto, há quem sendo contra o aborto insista em ela continuar como está. Sabemos que a lei não é cumprida nem respeitada; no entanto, há quem ache que o grande escândalo social seria mudá-la. Sabemos que a lei prevê penas de prisão até três anos para as mulheres que abortarem; no entanto, os mesmos que defendem a lei parecem estar aliviados por não haver nenhuma mulher presa (apesar de haver mulheres condenadas à prisão com pena suspensa). Note-se, porém, que muitos destes são os mesmos que equiparam o aborto ao homicídio; ora, pergunta-se, como é possível esta intermitência da lógica? Acaso se regozijam quando não se prende os homicidas?
Na verdade, por detrás de tamanha falta de clareza, tem havido uma evolução. Arriscaria dizer que, na prática, já ninguém acha que o aborto de um embrião até às dez semanas é equivalente ao homicídio (e, no entanto, o pároco de Lordelo do Ouro diz que é pior do que o infanticídio…). Enfim, praticamente ninguém acha que uma mulher deva ser presa por três anos por ter abortado. Chegou até o momento em que grande parte do movimento do ‘não’ começa a perceber que a despenalização é uma coisa boa. O bispo de Viseu diz que votaria “só” pela despenalização. O próprio Cardeal Patriarca fala de uma solução política e demonstra abertura para deixar a fórmula definitiva aos juristas — despenalização, descriminalização ou legalização.
Temos então consenso? Ainda não. Ainda não, e mais uma vez teremos de nos socorrer da nossa relação dialógica com a lei, que por vezes desce a caminhos verdadeiramente tortuosos. Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.
É precisamente pela sua participação dual neste caminho que vai da mesquinhez política portuguesa à maleabilidade da lei que ninguém mais do que Marcelo Rebelo de Sousa, nos vídeos com que tem intervindo no debate do referendo, tão bem sabe compor o discurso mais adequado às suas circunstâncias. Em primeiro lugar, eu até ia a escrever “uma posição”, mas a verdade é que não Marcelo Rebelo de Sousa não tem uma posição: tem uma série delas, mutuamente exclusivas entre si, e crescentemente elaboradas em contradição. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de uma posição; precisa apenas da aparência de uma posição. Não precisa que ela seja clara; pelo contrário, ela é obscuríssima mas envolta numa aparente facilidade, num mecanismo típico de sofista. O seu principal efeito é confundir; mas também não faz mal porque a confusão é precisamente o seu valor acrescentado.
Não sei se Marcelo sabe, ou se é apenas o seu instinto natural que lho diz, que a “confusão” era no início um termo militar (que depois passou para a retórica), sinónimo de “desbaratar os adversários” e “desmobilizar”. Que a intenção é desmobilizar fica evidente ao ver um vídeo de Marcelo em que ele apela à desconfiança crónica dos portugueses para insinuar algo como “esta lei não é cumprida, a próxima também não vai ser, é o costume”. O efeito é claro: assim sendo, para quê dar-se ao trabalho de ir votar?
Mas há mais: acaba por passar a impressão de que neste referendo há, além do “sim” e do “não”, uma espécie de “não de Marcelo” que seria um “assim não”. Para confusão mais perfeita, essa posição seria pela despenalização total (sem limites de tempo!) mas, por uma série encalacrada de pretextos, votaria contra a despenalização. E o que aconteceria se esta atitude vingasse? A prisão continuaria na lei. E o que diríamos quando um juiz (ou juíza) condenasse uma mulher por aborto? Que a intenção não era essa, meretíssimo? E o que diríamos a uma mulher que quisesse abortar em condições de segurança? Que abortasse clandestinamente, sem limites de tempo (nem de preço, nem de risco), porque combinmos todos fazer vista grossa? E quando a lei doesse, — o que como vimos recentemente inevitavelmente acontece —, viríamos chorar-nos por não a ter mudado? Alegaríamos que a lei não quer dizer aquilo que ela literalmente diz? Ou diríamos apenas que, tal como Marcelo, temos uma irresistível pulsão para que não nos levem a sério?
Simplesmente, não existe um “não de Marcelo”. Não existe um “assim não” que seja favorável à despenalização mas que vote contra a despenalização. Nada de confusões: existe apenas uma pergunta “Concorda com a despenalização (por opção da mulher, até às dez semanas, em estabelecimento legalmente autorizado)?”. Quem é pela despenalização vota sim.
Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas porque prefiro ver as obras com o mínimo de ideias feitas possível e só depois confrontar as minhas opiniões com as dos críticos.
Quando vi o filme O Terceiro Passo, de Christopher Nolan, sabia apenas três coisas: quem era o realizador; que tratava de rivalidades no mundo do ilusionismo profissional de finais do séc. XIX; que o David Bowie tinha um pequeno papel.
Saí do filme com mais algumas ideias, que me dediquei a comparar com as críticas nacionais e estrangeiras. Surpreendeu-me, no entanto, que o que mais via escrito nelas é que o filme era “um entretenimento agradável sem pretensões a profundidade”. É certo que O Terceiro Passo não tem as mesmas implicações perturbadoras sobre memória e identidade que tinha Memento, o filme que lançou Christopher Nolan para a ribalta. Mas no filme pareceu-me identificar várias linhas de força tudo menos desprezíveis: a necessidade que temos de acreditar em algo que não conseguimos explicar, a necessidade de alguns darem aos outros essa ilusão e o desejo desmedido que move muitos a acreditarem e tornarem aquilo que sabem mero truque e ilusão em modo de vida e justificação para todos os crimes.
De um lado havia a personagem Borden, disposto a sacrificar a sua família, o seu corpo, a sua própria identidade, em prol de uma ilusão. Do outro, a personagem Angier, que atravessou meio mundo e desbaratou a sua fortuna e a sua ética para tornar possível uma ilusão. E, contudo, ambas as personagens são ilusionistas profissionais, plenos conhecedores de que por de trás de cada coelho fora da cartola está uma verdade simples. Tão simples que, uma vez revelada, todo o encantamento do ilusionismo se perde, pelo que o segredo dessa verdade deve ser protegido como se pedra preciosa fosse. Porém, estarem na posse desse segredo não torna as personagens cínicas, mas antes mais idealistas, fazendo-as ansiar por que a ilusão que constroem deixe de ser truque e se torne verdadeira magia.
Esta situação surpreendeu-me. Robert Louis Stevenson, entre outros, escreveu, a propósito da literatura, que quem apreciasse a sua magia deveria tentar saber o menos possível das suas roldanas e contrapesos, pois nada estraga mais o encantamento de uma ilusão do que saber como funciona. E, de facto, o senso comum indica que é mais cínico e desencantado em relação a toda a arte ou mistério quem está no seu interior.
Por outro lado, paradoxalmente, também é o senso comum que diz que os praticantes de qualquer arte são também os mais fervorosos defensores da sua importância. Tal poderá dever-se a puro pragmatismo, mas também é difícil acreditar que alguém devote a sua vida a uma causa sem crer profundamente nela.
Estes pensamentos erráticos levaram-me para uma arte muito próxima do ilusionismo e, em grande parte, sua antecessora: o charlatanismo, também conhecido por divinação, espiritismo, curas de fé, e muitas, muitas outras coisas, de que falarei nas próximas semanas.
Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um coio de ignorantes, aliás sempre foi. É o que dizem senhores e senhoras de ar severo. Não se consegue encontrar um clássico — em lado nenhum — muito menos uma obra menor, como por exemplo O Mandarim. E no entanto. Outro dia comprei OMandarim, de Eça de Queirós, por um euro. Lá estava ele, um eurinho somente, na banca de jornais. Segundo parece, fizeram uns cem mil e desapareceram todos em poucos dias. Eu fiquei com um.
Enquanto esperava pela pita shoarma sem salada, de pé em frente ao balcão, fui lendo o resumo na contra-capa. Além de um excerto longo da obra, as informações básicas: novela publicada pela primeira vez em 1880, de estilo fantasioso, foi criticado pelos companheiros realistas de Eça de Queirós, etc. E depois acrescenta-se isto: “Cento e vinte seis anos depois, Portugal continua lá, mordazmente retratado”. Já cá faltava esta.
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Cinco segundos de pausa para vos fazer subir três linhas. Reparem naquela maravilha do lugar-comum: dois pelo preço de um. Para começar: “não sei quantos anos depois, Portugal continua lá”. Evidentemente. Portugal continua. Como poderia não continuar, sempre o mesmo século após século após século? O que valia para 1880 também vale certamente para 2006. Portugal vê-se uma vez e está visto.
Depois vem este “mordazmente retratado”, que não poderia faltar tratando-se de Eça de Queirós, mas poderia ser um “genialmente satirizado” ou um “friamente analisado”, como poderia ser “um duro retrato” ou “uma pintura sarcástica”. Parte-se do princípio que Eça de Queirós não fazia outra coisa senão:
1. retratar. O termo não cai ali por acaso: tudo o que está em Eça deve ser considerado realidade objectiva, como numa fotografia. 2. mordazmente. Porque o objecto do seu retrato, evidentemente, não mereceria outra coisa, nem outro tipo de retrato poderia ser feito dele. 3. Portugal. E que outro tema poderia haver? A única coisa que merece a atenção de um escritor português é Portugal, o pai, a mãe e a tia de todos os portugueses.
Tudo bem. Vamos admitir que este é um ponto de partida. Mas não teria Eça nada mais para fazer senão consumir-se pelo seu país natal, onde aliás passava pouco tempo, e isto sem intervalo, sem respiração, sem descanso? Nunca tiraria Eça de Queirós umas férias de Portugal?
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Já agora, há outra coisa notável naquela frase: não ter nada a ver com o bendito livro. O Mandarim não é especialmente mordaz sobre Portugal. Tampouco é um retrato do país, na medida em que não basta a acção decorrer num lugar para o livro ter pretensões a retrato desse lugar. Se assim fosse, O Mandarim seria também um “retrato mordaz” da China, porque metade do livro se passa nesse grande país asiático, “do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo”, onde Eça de Queirós nunca pôs os pés.
Quem for ler O Mandarim à procura de Portugal não chega muito longe. Pior ainda: perderá uma excelente pequena obra de literatura, uma das melhores novelas do século XIX (apesar de alguns defeitos evidente, por exemplo uma perda progressiva de objectividade do meio para a frente). O Mandarim conta a história de Teodoro, também conhecido por “Enguiço”, um triste funcionário público que vive com outros solteirões na casa de hóspedes de uma certa Dona Augusta, à Travessa da Conceição. Uma certa noite, enquanto lê à luz da vela, aparece-lhe o Diabo. O Diabo aponta-lhe uma campainha (que imaginaremos redonda, como as dos balcões de hotéis antigos) e diz-lhe que se tocar nela matará nos confins da China um mandarim “mais rico que todos os homens”; em troca, será Teodoro o herdeiro da sua fortuna. Que fazer?
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A passagem em que o Diabo tenta Teodoro com a fortuna do mandarim Ti-Chin-Fú é, para mim, o melhor momento da novela:
«Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar o seu pai…». «Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais… só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres — diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje,Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos… Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para o cinco dedos de um cristão, percorrer, palpar estas maravilhas macias; — mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins…». «De resto as suas pupilas já rebrilham… Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês…».
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Eça de Queirós estava no seu direito inalienável de escrever sobre um país que não conhecia, a China. E também tinha o direito de iniciar a acção da novela na Travessa da Conceição sem estar obrigado a fazer o retrato mordaz e perpétuo da Travessa da Conceição ou do país onde ela se encontra. Mas a nós ninguém obriga a uma leitura claustrofóbica de tudo quanto o homem escreveu, muito menos proclamar a sua eterna validade.
Temos de reconhecer isto: chega o momento, na obra de um grande escritor, em que o país de origem se torna instrumental. Mesmo que aparentemente o autor viva obcecado com ele. Mesmo que nos garanta que não pensa noutra coisa e que não escreve sobre mais nada. Na verdade, o grande escritor está principalmente ocupado em ser (em tornar-se) um grande escritor. Aliás, é por ele ser um grande escritor que nos reconhecemos naquilo que lemos; não por esse disparate de Portugal ser diferente de tudo o resto e continuar sempre o mesmo. Ou não haveria amanuenses solteirões e tristonhos na São Petersburgo de Nikolai Gogol? Na Nova Iorque de Herman Melville? No Rio de Janeiro de Machado de Assis?
Mesmo que não se tenha dado conta, o grande escritor estendeu a mão para a campainha, deu-lhe um toque seco, e fez desaparecer o seu país. Sem remorsos: fê-lo para ganhar uma fortuna maior do que a de um mandarim do outro lado do mundo. Todos saíram a ganhar. Tu que me lês e és mortal, tocarás a campainha?
Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 de Fevereiro. O nome do cónego é Tarcísio Fernandes Alves, e reparem num pormenor curioso: se em condições semelhantes um patrão ameaçasse despedir os seus empregados ou uma associação expulsar os seus associados, ninguém teria dificuldade em identificar ali um caso claro de chantagem, intimidação e constrangimento da liberdade de voto. Ora não é de excluir que para muitos paroquianos de Castelo de Vide e do país inteiro seja igualmente grave a ameaça de ser expulso da comunidade dos fiéis, com todas as suas implicações terrenas e celestes, que aliás o cónego faz questão de também desenvolver, avisando já que pretende excluir da missa os abstencionistas e anunciando para mais tarde uma interdição de enterros religiosos. Colocadas no seu contexto, são ameaças sérias — caso contrário, a chantagem não funcionaria — além de ilegais se forem repetidas em período oficial de campanha. (Já agora, note-se a má-fé do cónego: o que o Código Canónico diz sobre a excomunhão “automática” pode apenas aplicar-se a quem estiver envolvido num aborto — “Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit”, diz o cânone 1398 — e não tem absolutamente nada a ver com votar “Sim” no referendo, até porque muitos cristãos votarão “Sim” precisamente porque acham que essa é a melhor maneira de combater o aborto clandestino e tentar fazer diminuir o número de interrupções da gravidez, — com as suas consequentes excomunhões automáticas. E digo apenas má-fé, porque não se pode supor tão oportuna ignorância por parte de um doutorado em Direito Canónico por Salamanca.) Algures em Coimbra, um grupo chamado “Acção Família” mandou imprimir uns milhares de folhetos ornados com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima chorando por causa do referendo. “Nossa Senhora chora”, diz o texto, “e Ela chora por milhares de inocentes que podem perder a vida”, pelo que “é indispensável você ir às urnas… dizer que NÃO está de acordo com o assassinato brutal de inocentes ainda no ventre materno!”. Quando na semana passada escrevi sobre o FUD — “Fear, Uncertainty and Doubt” na abreviatura inglesa para a utilização do Medo, da Incerteza e das Dúvidas como armas de propaganda cujo objectivo é desmobilizar e confundir o público — estava a pensar em exemplos menos caricatos do que estes. Mas a simples razão de serem caricatos não deve desobrigar-nos de os levar a sério. Desde logo, por uma questão de equidade: se todo o movimento do “Sim” tem sido fustigado pela fortuita razão de alguém, há oito anos atrás, ter decidido escrever “aqui mando eu” na barriga, como se justifica esta complacência quando autoridades religiosas e grupos organizados fazem da coacção e da violência psicológica uma forma de propaganda? Mas é principalmente ao movimento do “Não” que cabe tomar uma posição oficial sobre estes métodos de pressão. Como é evidente, caso não haja uma demarcação clara do movimento e uma declaração sobre a total inadmissibilidade destas atitudes junto dos seus apoiantes, será legítimo inferir que o movimento do “Não” se permite beneficiar delas. Ou seja, é preciso saber se as lideranças do “Não” calam, consentem, saem incólumes e ainda esperam lucrar com propaganda desta. Enquanto isso, no discurso oficial do “Não” vai aparecendo outro tipo de Medo, Incerteza e Dúvidas, em exemplos elaborados para um público-alvo diferenciado. E a campanha do “Sim” até colabora na desconversa, com alguma moleza, parecendo não se aperceber de que nestas coisas cada lado só faz o que o outro deixa fazer. Dou um exemplo da semana passada. O “Não” organizou uma conferência na qual se afirmava que as sequelas psicológicas a que estão sujeitas as mulheres que abortam são medonhas. O “Sim” respondeu entrando num debate sobre se elas não estariam sobreavaliadas e assim contribuiu para desviar mais uma vez o assunto da pergunta a referendo, perdendo a oportunidade de devolver a pergunta ao “Não”: se as sequelas psicológicas a que está sujeita uma mulher que aborta são assim tão terríveis, então como se justifica abandonar as mulheres ao aborto clandestino? Mais ainda: se uma mulher que aborta corre riscos de saúde psíquica (não sei se corre ou não, nem compete a este referendo deslindar a questão), como se justifica manter uma lei que a criminaliza? Se esse sofrimento é tão mau, como podem defender que a mulher ainda por cima continue sujeita a uma pena de prisão prevista até três anos? Os apoiantes do “Não” tem de nos dizer se acham correcto que seja perseguida judicialmente uma mulher que eles próprios afirmam estar sujeita a grave sofrimento psíquico. Por vezes, são até os próprios convidados do “Não” que melhor põem o dedo nas contradições do seu discurso. Esta semana uma autora espanhola convidada falar de casos de abortos forçados respondeu assim quando informada da lei portuguesa: “Discordo completamente. Não serve de nada castigar as mulheres.” Mas não podemos andar dependentes destas demonstrações ocasionais de clareza. Chegou o momento de o “Não” começar a responder a algumas perguntas. Uma delas até deveria ser simples para quem demonstra tanto ardor na condenação: afinal de contas, quantos abortos terá evitado a lei que defendem? Alguma mulher deixa de abortar por causa da lei que temos? A criminalização resulta em menos abortos, ou em mais abortos? O tempo urge, e o “Não” tem andado a evitar explicar-nos que a lei actual funciona. Talvez se tenham esquecido, mas é essa lei que defendem e cabe-lhes por inteiro a demonstração das suas virtudes. Caso contrário, talvez seja melhor mudá-la.
Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O Medo, Incerteza e Dúvida é uma arma poderosa na luta pela opinião pública. Por isso os defensores do “Não” no referendo de 11 de Fevereiro sobre a descriminalização do aborto não parecem muito preocupados com as sondagens que dão grande vantagem ao “Sim” nas intenções de voto. Em primeiro lugar, porque já no primeiro referendo sobre o assunto, em 1998, o quadro era semelhante e o “Não” conseguiu uma vitória surpreendente, embora curta e pouco participada. Mas principalmente porque o “Não” tem a sua campanha construída em torno do medo, das incertezas e das dúvidas, e conta com essa campanha para desmobilizar o campo do “Sim” e repetir 1998. Não é ilegítimo, embora possa ser reprovável; é certamente muito eficaz e já está a dar efeitos.
Considere-se o cartaz do “Não” onde se lê: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”. Eis um exemplo básico da utilização do FUD, que consiste em pôr as pessoas a discutir uma incerteza para as desmobilizar da questão que vai efectivamente a referendo, que é saber se o aborto até às dez semanas deve deixar de ser crime. O cartaz destina-se a suscitar dúvidas às muitas pessoas que acham que o aborto até às dez semanas deveria deixar de ser crime (que é aquilo que vai a referendo) e confundi-las com uma questão de gestão dos dinheiros públicos que pertence a um debate mais geral. A formulação é intencionalmente vaga para dar a ideia de que o dinheiro (público) dos “meus” impostos poderia servir para financiar clínicas (privadas), desmobilizando também quem ache que o dinheiro público deve ir apenas para o Sistema Nacional de Saúde.
Mais uma vez, não é nada disto que está em causa. Cada governo terá certamente a sua opinião sobre como devem ser utilizados os dinheiros dos impostos, e cada parlamento sucessivo legislará em conformidade, na área da saúde pública como na da economia ou das artes. Mas é certamente muito útil para o campo do “Não” que as pessoas se ponham a discutir incertezas em vez de certezas, porque essa é sempre a maneira mais eficiente de evitar que qualquer coisa mude. Basta perguntar a quem se quiser mudar se a casa nova não tem goteiras (ainda que a casa velha as tenha em maior quantidade): atiram-se as dúvidas para um futuro que ainda não existe e escondem-se os defeitos do presente que existe.
Para contrariar o espírito e responder à letra bastaria ao campo do “Sim” fazer algumas perguntas simples. A diferença está em que nenhuma delas remete para possibilidades vagas num futuro incerto, mas todas dizem respeito à realidade e à lei que hoje em dia temos. São elas:
“Contribuir com os meus impostos para financiar a perseguição de mulheres que abortaram?” — afinal de contas, de quem são os impostos que pagam as investigações policiais, as escutas telefónicas, os interrogatórios? Terá esse dinheiro caído do céu? Em Aveiro, mulheres que tinham acabado de abortar foram detidas na rua e obrigadas a fazer um exame ginecológico sob alçada da polícia. Quem pagou esse acto de violência e humilhação? Os “meus” impostos. Os “seus” impostos. Os “meus” impostos pagaram àqueles agentes que teriam certamente melhores coisas para fazer. Os “meus” impostos pagaram a papelada. Os “meus” impostos pagaram aos inspectores, aos procuradores e aos funcionários.
Mas há mais perguntas para entreter os nossos amigos do “Não”: “Contribuir com os meus impostos para financiar julgamentos a dezenas de mulheres?” é um exemplo. Outra: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a entupir os tribunais com uma decisão que os próprios juízes dizem ser política?”. Melhor ainda: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar clínicas de aborto (em Espanha)?”. E que tal: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar o aborto (clandestino)?”. E contribuir com os meus impostos para atender mulheres em risco após abortos improvisados? E contribuir com os meus impostos para perpetuar um problema de saúde pública?
Poderia estar aqui a coluna inteira com estas perguntas, que não são possibilidades vagas ou a discutir no futuro mas realidades indiscutíveis que existem com a lei que temos hoje — e que os partidários do “Não” querem manter.
Esse é outro aspecto revelador que a táctica do medo, da incerteza e das dúvidas permite esconder. Afinal de contas, o campo do “Não” é favorável à lei actual, mas faz tudo o que pode para evitar referir-se a ela, chegando ao cúmulo de nunca citar a lei que defende, nomeadamente a parte que é a mais visada pela pergunta do referendo: “A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos” (sugestão para uma campanha que não seja de “Medo, Incerteza e Dúvidas”: colocar este artigo da lei ao lado da pergunta do referendo e deixar as pessoas decidir).
Mais uma vez, trata-se de substituir a certeza da lei que existe pelas incertezas na sua aplicação, e preconizar mesmo o seu desrespeito, nem que para isso o “Não” tenha que rever periodicamente o seu discurso. Lembrem-se que durante anos eles nos garantiram que não havia “mulheres julgadas por aborto” (embora houvesse). Depois aconteceram os primeiros julgamentos divulgados pelos media, e os partidários do “Não” passaram a dizer que não havia “mulheres condenadas por aborto”, como se a investigação policial e a suspeita não fossem já uma forma social de condenação. Mas entretanto houve mulheres efectivamente condenadas em tribunal por terem abortado, e agora os partidários do “Não” agarram-se à última réstia de credibilidade para dizer que “não há mulheres presas por aborto”, embora saibam perfeitamente que a prisão até três anos está prevista pela lei que defendem.
Um dia, se esta lei não for mudada, poderemos sempre vir a ter mulheres presas por terem abortado. Adivinhem de onde virá o dinheiro para pagar as suas celas na penitenciária? Dos impostos de Ribeiro e Castro ou de Maria José Nogueira Pinto? Seria justo. Mas terá de vir dos “meus” impostos também.
Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: “na cova dos lobos não há ateus”.
Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.
Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz “não há ateus em trincheiras”, embora a origem talvez seja comum, porque “trincheira” em inglês americano é foxhole, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?
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Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de “sentir” a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse “a esse caminho” (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.
Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer “não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada”. Demora alguns anos até se conseguir dizer: “não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços”. E demora ainda mais alguns anos até se dizer “não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal”.
Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes “godless” como quem lhes chama órfãos (“fatherless”) ou zarolhos (“eyeless”). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi “brights”). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer “godless”. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.
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Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?
Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a “aposta pascaliana”. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.
Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.
De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: “só tenho uma vida”, e sorrindo, “só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar”.
E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, “parece um religião”), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa. Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.
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Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: “sou um optimista trágico”, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.
Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.
Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.