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Arquivo 'Nuno Ramos de Almeida'

O J’accuse do Lopes da Mota

12 de Maio de 2009 por Nuno Ramos de Almeida

Para poupar novos arremedos estilísticos, em defesa do senhor que parece, segundo as vozes do costume, que não fez pressão nenhuma, nem aqui nem em Felgueiras. O mesmo que não está, segundo me dizem, às ordens do senhor que não fez pressão nenhuma em Macau, que, por sua vez, não estaria às ordens do senhor que, miraculosamente consegue ser sempre apanhado pelas revistas de coração, mas que também não teve nenhuma influência no licenciamento do Freeport… como dizia, para poupar novas vergonhas. Escrevo eu, desta vez, o  accuse cá do burgo. Ler o resto »

O socratismo é tóxico e contagioso

9 de Abril de 2009 por Luis Rainha

O Zé que tanta falta fazia à malta já tratou de vasculhar os canhenhos da lei em busca de forma de esconjurar a insidiosa propaganda dos adversários.
Domingos Névoa deve também ter apanhado a bactéria oportunista: agora, atirou com um processo por difamação ao toutiço do mesmíssimo Zé.

E quem defende a honra de Cicciolina?

5 de Abril de 2009 por Luis Rainha

pinochio
Já não é a primeira vez que me vejo obrigado a defender publicamente a honra de Ilona Staller, vulgo “Cicciolina”. Agora, a pobre parece ter-se visto associada à figura dúbia de um político menor num país manhoso. Mas quem será o tal Tavares para se dar ao luxo de perorar sobre a visão que a camarada Ilona hoje tem ou não sobre a monogamia? E como ousa ele associar uma artista conhecida a um senhor que se licenciou sabe lá Deus como e depois disso só se meteu em negócios polémicos? Uma actriz com centenas de títulos editados em DVD posta ao nível de um canastrão que só há dias teve o primeiro DVD emitido na TV? A mulher que inspirou um artista do gabarito de Jeff Koons equiparada a uma criatura que nada suscita para lá de j’accuses de pacotilha?
Processa o Tavares, brava e esforçada Ilona. Processa o Pinóquio! E, de caminho, permite-me a veleidade de imaginar que a tua resposta a estes gabirus seria sempre algo bem explícito e improcessável. Como isto.

Estranhos mundos

22 de Março de 2009 por Nuno Ramos de Almeida


Mulheres da (segunda) vida / Women of (second) life from Paulo Frias on Vimeo.
Um documentário sobre a prostituição no Second Life, realizado em âmbito curricular por um grupo alunos do 3º Ano da Licenciatura em Ciências da Comunicação da Universidade do Porto.

Much Ado About Nothing

7 de Fevereiro de 2009 por Luis Rainha

Tanto tempo perdido com negações inflamadas, acusações difusas, buscas, cartas rogatórias, manchetes, taquicardias nos nossos bravos magistrados. Tanta agitação para nada. Afinal, era tão fácil resolver o “caso” Freeport: bastava perguntar ao suposto corruptor se tinha mesmo corrompido. Já que o seu porta-voz em Portugal garante que não e o suposto corrupto também nega tudo, o caso está resolvido. Porque se terá alguma vez a polícia britânica interessado por semelhante disparate? Who cares?! Porque haverá tanto nevoeiro e tanta figura embuçada em redor desta fossa? Coincidências. Parem lá com o chavascal, que já foi tudo bem explicado.

IGESPAR, IGESPOU ou IGESPARIA?

3 de Janeiro de 2009 por Tiago Mota Saraiva

A notícia de capa do Expresso declarando que um terço do património da UNESCO em Portugal ameaça derrocada é mais uma prova da inexistência do IGESPAR (que há mais de anos que mudou de nome e ainda nem se quer se deu ao trabalho de tratar do site de internet). A prática de nomear boys sem critério e, ainda que haja bons quadros na sua estrutura, liquida qualquer organismo público.
Ao IGESPAR primeiro fundiram-no e depois…

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Grécia: A explosão de cólera em Atenas tem não uma, mas muitas causas

14 de Dezembro de 2008 por Tiago Mota Saraiva

http://www.lemonde.fr/europe/portfolio/2008/12/13/manifestations-dans-le-calme-en-grece_1130974_3214.html

A média capitalista, como de costume, omite a compreensão de todo o contexto desta explosão insurreccional na Grécia.
Lá como cá existe uma insatisfação cada vez maior da juventude, confinada entre empregos precários e mal pagos e o desemprego.
A juventude é cada vez mais culta, mais instruída; é inevitável que se politize e que adopte as tendências de esquerda libertárias, pois são as que lhes oferecem garantias de não comprometimento com um poder cada vez mais corrupto.

Por isso, não admira que exista um eco e solidariedade activa em Itália, em Espanha, em França ou na Dinamarca e em muitos países onde a situação dos jovens se torna cada vez mais destituída de esperança.
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Violência de Estado

13 de Dezembro de 2008 por Tiago Mota Saraiva

Liguei o computador para escrever sobre a situação na Grécia. Contudo, em tempos de globalização, começo por Portugal.
A primeira página do Público e a notícia online, informam sobre as multas que as Finanças estão a aplicar aos trabalhadores a recibo verde e que já havia lido ontem no blog da Ferve.
A história conta-se rapidamente. Os trabalhadores independentes estão a receber notificações de multas pela falta de entrega de uma declaração anual do IVA. Esta declaração duplica a informação já prestada nas declarações trimestrais ou mensais. Não se trata de uma tentativa de burla, o dinheiro do IVA foi todo entregue, o contribuinte apenas revela não ter tido conhecimento da necessidade de entrega desta nova declaração. A novidade da lei apenas motivou que os trabalhadores que não foram informados, caíram na armadilha.
Assim sendo, as Finanças, estão a notificar os contribuintes com esta declaração em falta, para pagarem 248,00 € (dois anos de multa), ameaçando que a contestação poderá aumentar a multa para uns módicos 2500,00 €/ano. Caso os duzentos mil contribuintes que estão com a arma apontada à cabeça paguem, o Estado encaixará 50 milhões de euros, até ao final do ano.
À priori, diria que não é fácil identificar socialmente os trabalhadores independentes, como um todo. Nem todos são trabalhadores precários, nem todos têm rendimentos baixos. Contudo parece-me não ser muito arriscado afirmar que nestes 200 mil contribuintes estarão integrados praticamente todos aqueles que, embora mantendo os recibos verdes, não tem qualquer rendimentos de categoria B (preenchendo trimestralmente a declaração do IVA a zeros) e os trabalhadores com baixo rendimento e trabalho ocasional/temporário com maiores dificuldades de obtenção de apoio contabilístico. Portanto, parece-me justo afirmar, que esta potencial receita extraordinária de 50 milhões de euros, caso tudo corra bem ao pior Ministro da Finanças, conseguirá ser retirada a uma parte dos portugueses mais pobres e carenciados. Julgo que, nem a figura mais vesga ou inocente deste país, terá dúvidas sobre qual o destinatário destas receitas de final de ano: a banca.
A pouco expressiva contestação social de classe, apesar do aumento da conflituosidade social sectorial, leva a que o governo, em tempos de crise, ainda consiga aumentar mais o fosso entre ricos e os pobres, numa acção muito mais violenta que o incendiar de uma agência bancária.

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Os imitadores lusos

9 de Dezembro de 2008 por Nuno Ramos de Almeida

O Obama está para a política como Artur Jorge estava para o futebol. Há décadas, não havia treinador, da liga dos últimos à primeira divisão, que não falasse que queria “fazer coisas bonitas”. Até se percebia a cópia: Artur Jorge tinha estado na universidade e até escrevia versos. Os treinadores tinham arranjado um homem que falava sem escarrar no chão e que conseguia andar e mascar pastilha elástica ao mesmo tempo. Infelizmente, livrados da chusma de treinadores com fatinhos Maconde, floresceu, em Portugal, a resma dos políticos, os de sempre, a copiar Obama e a prometer “change” (em português, trocos). Com a crise das ideias, é sempre mais fácil imitar as frases do que pensar. Não há bicho careta que não “fale da audácia da mudança” e que não pregue que “sim, é possível!”.
Não se pode exterminá-los?

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A última Batalha de Fidel Castro

9 de Dezembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Há alguns meses, traduzi, com ajuda de um amigo, este artigo da New Yorker. Parece-me muito interessante, para quem quer entender o que se pode passar em Cuba. Esclareço as habituais criaturas que salivam cada vez que ouvem falar sobre Cuba, que não sou obrigado a concordar com todas as palavras desta excelente reportagem. Lee Anderson é um profundo conhecedor de Cuba e autor de umas das melhores biografias de Che Guevara, nesta reportagem feita para a New Yorker, 24/7/2006, anterior a hospitalização de Fidel, faz um retrato do momento que se vive na ilha. Ler o resto »

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Reunião de criativos pelo sim

20 de Novembro de 2006 por Rui Tavares

O comandante Ramos de Almeida pede para transmitir aos criativos de entre vocelências (certamente muitos) a seguinte mensagem:

«O esquerda.net promove uma reunião para trocar algumas ideias sobre a campanha da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O encontro será na quinta-feira às 21.30 na Rua Febo Moniz número 13, R/C Esquerdo.»

[Nota: o esquerda.net pertence ao Bloco de Esquerda e esta mensagem é da responsabilidade do Nuno Ramos de Almeida. A própria reunião, aliás, será num rés-do-chão esquerdo. Que tudo fique bem claro.]

O regresso do espectro

10 de Novembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Há uma anedota, que se contava no tempo da União Soviética, que relata a visita da mãe de Brejnev à residência oficial do filho Leónidas. O dirigente soviético mostra à mãe a gigantesca casa, as pratas, as loiças preciosas, a fabulosa colecção de carros. No fim da visita, a mãe olha Brejnev com bastante orgulho, misturado de algum receio, e sussurra-lhe: “meu filho, tudo isto é maravilhoso, mas se vêm os comunistas, tiram-te tudo”.
A história aplica-se como uma luva a determinados participantes da reunião de partidos comunistas que se realiza em Lisboa, a convite do PCP. Partidos como o dos “comunistas” chineses têm de facto uma relação especial com o proletariado: passaram da defesa da sua libertação à sua exploração e aquilo que mais temem é que algum dia os operários se levantem e se libertem deles. Neste mundo global, os capitalistas estão em todo o lado e os seus polícias em Washington; grande parte da classe operária vive na China, sem sindicatos e sem liberdade, com um governo que usurpa a sua ideologia e o nome de “comunista”. Estranhamente, o partido dos resistentes anti-fascistas, o partido de tantos operários portugueses, vira a cara para o lado e nega a sua solidariedade aos trabalhadores chineses.
Este texto de Marshall Berman, autor de um dos livros mais brilhantes sobre o modernismo, cujo título é uma frase do Manifesto Comunista (“Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar”), fala-nos no texto que reproduzo das condições do renascimento do marxismo na China. Naturalmente, refere-se a um marxismo longe da ideologia do Estado/partido opressor, e próximo da liberdade dos operários. Leiamos então, sobre a criatura mitológica que renasce das cinzas da opressão.
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Brevíssima meditação sobre a escatologia do poder e dos media

3 de Novembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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A secção mais esclarecedora da imprensa portuguesa encontra-se na Pública. Chama-se “O Lixo dos Famosos” e consiste em mostrar , para deleite dos leitores, o conteúdo do lixo de uma pessoa “conhecida”. Embora quase toda a imprensa se tenha transformado num revelador de intimidades e excreções, é natural que tenha sido o diário de Belmiro o primeiro a destapar a tampa e a ir directamente ao lixo, em si. O hábito faz o público, e os leitores desse diário já estão habituados a esse tipo de eflúvios: lêem a sua secção editorial e têm acesso ao telúrico universo mental do director. Enquanto a imprensa sensacionalista oficial se concentra na roupa interior e no luxo dos ricos, o “jornal de referência” inova e com um toque de José Manuel Fernandes transforma, num passe de mágica, o “luxo” em “lixo” e coloca a populaça ignara a prestar vassalagem aos despojos dos poderosos. Estamos perante o último degrau do domínio ideológico. Os cientistas sociais criaram o conceito de empowerment para falar de práticas que concedem mais poder a determinados grupos e populações, podemos dizer que a acção do Público tem o efeito contrário: é um completo ‘enlixerment’ (num inglês do Casaquistão) dos leitores: a ideia que os compradores de um jornal devem adorar os excrementos dos ricos, para além de determinadas taras sexuais entre adultos consentâneos, transforma-os literalmente em gente abaixo da merda dos ditos.
Um dos aspectos mais geniais neste processo é que o sistema tornou rentável esta abjecção: as revistas e os jornais que vendem a vida maravilhosa dos muito ricos, do casamento até ao caixote de lixo, têm imensos pobres a comprar. Estamos perante uma submissão muito lucrativa. Não só exploram, não só criam um sistema económico que atira 80% da população do mundo para a miséria, como ainda lhes vendem a vida fantástica dos ricos, em fascículos.
O lugar dos jornalistas neste processo é um dos maiores achados: antigamente, pedia-se aos profissionais da comunicação social que noticiassem aquilo que de importante aconteceu no mundo; hoje pede-se que escrevam, gravem, filmem aquilo que vai “vender” e que o público quer, supostamente, conhecer. Num dos grupos de media em que trabalhei, o proprietário explicou-me que ‘a maioria das pessoas tem vidas horríveis e que não querem ver a sua situação retratada ou denunciada, o que as pessoas querem é sonhar’. Para isso devemos mostrar-lhes os ricos e famosos. Por um passe de mágica entramos no eugenismo jornalístico, em grande parte das revistas portuguesas, ditas de informação, está proibido, pelas direcções editoriais, aparecerem “pobres, velhos, negros e feios”. Toda a gente sabe que não vendem. Há, obviamente, excepções: uma negra voluptuosa e famosa pode ter fotografia e um multimilionário parecido com uma abóbora tem de ser publicado. Mas são excepções que confirmam o espírito da regra.
Nem o mais horrível dos totalitarismos conseguiu fazer isso às suas vítimas, por muito que tentasse, duvido que Hitler conseguisse impingir aos judeus que iam para os campos de concentração as crónicas sentimentais dos chefes das SS.
Digamos que para quem vê, chegámos a um momento profundamente esclarecedor: no fundo, tanto do ponto de vista do conteúdo, como do ponto de vista da propriedade a maioria da nossa comunicação social não passa de “lixo dos ricos”.

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Žižek em pastilhas

3 de Novembro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

Brevemente os sacropantas europeus vão voltar a discutir o processo constitucional. Aqui fica um texto de um reputado pensador esloveno sobre a matéria. Junto deixo um link para um programa do ARTE, colhidos no Klepsydra, em que uma duzia de pensadores europeus discute o continente.

Um fantasma ronda o Ocidente
Por Slavoj Žižek

As comunidades amish dos EUA praticam a instituição do “rumspringa” (do alemão “herumspringen”, que significa saltar aleatoriamente): aos 17 anos, os seus filhos (até então submetidos a uma estrita disciplina familiar) são libertados; recebem permissão e até são incentivados a sair para aprender e experimentar os hábitos do mundo “inglês” que os rodeia – guiam carros, escutam música pop, assistem à televisão, envolvem-se com bebidas, drogas, sexo desenfreado… Depois de alguns anos, precisam decidir: vão tornar-se membros da comunidade amish ou vão deixá-la e transformar-se em cidadãos norte-americanos comuns?
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Falhados da Nação

27 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

Vivíamos no século passado. Estava desempregado. Tinha trabalhado mais de 16 horas por dia no semanário “Já”. As duas dezenas de trabalhadores tinham dado o máximo, durante um ano, mas apesar do esforço o jornal acabou. Tentámos fazer um jornal de esquerda, com 100 mil contos, e falhámos. Durante a ressaca do “Já”, tinha lido numa revista um artigo sobre um novo programa escândalo num canal de televisão norte-americano. Parecia que um tal de Michael Moore fazia uma emissão chamada “TV Nation” que encurtava as fronteiras entre ficção e realidade: fazia acções estranhas, tinha candidatado um ladrão, vindo da prisão, a presidente dos Estados Unidos da América, no Estado do governador George W. Bush.
Não me apetecia voltar para a redacção da SIC. O Sérgio Figueiredo propôs-me a editoria de Cultura no Diário Económico, mas eu tinha uma ideia fisgada. Não me saia da cabeça o texto do Moore e mandei a proposta de um formato ao Emídio Rangel. A SIC ficou interessada, falei com o Luís Rainha a quem tinha “cravado”, muitos anos antes, para imaginar com o Armando Lopes a campanha inicial e o símbolo do SOS Racismo. E fizemos o guião de vários programas. Rangel tinha visto o espanhol “Caiga quien Caiga” e os debates do “Moros y Cristianos”. A nossa proposta, que era uma espécie de um telejornal alternativo, transformou-se num programa de debate com reportagens algo especiais. Os “factoídes” alimentavam o debate sobre questões polémicas. Começámos a rodar o programa sabendo que a partir do momento que ele fosse para o ar , seria muito difícil passar despercebido.
Tentámos “atirar-nos” a todos os nossos alvos ao mesmo tempo. Forjámos uma manifestação de loiras que diziam contestar “os mecanismos de imposição do machismo na cultura popular e nas anedotas de loiras”, para provar que agendas noticiosas estavam cada vez mais sensacionalistas: não houve órgão de comunicação que não desse um grande destaque, maior do que dão a qualquer manifestação de dezenas de milhar de professores; candidatámos um jovem cigano à Câmara Municipal de Vila Verde, para demonstrar que continuávamos num país racista; e criámos uma Igreja que atraiu uma centena de fieis à nossa missa em Beja, para demonstrar como este é um Portugal à espera de milagres fáceis.
Armámos uma verdadeira tempestade. Passámos rapidamente a inimigos públicos de uma série de bem pensantes, mal pensantes e assim-assim. Acusavam-nos de levar à prática a ideia de querer “vender presidentes como pastas de dentes”, diziam que preparávamos a candidatura de Pinto Balsemão à Presidência da República, o presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas inventou que tínhamos despedido uma figurante da manifestação das loiras. Como cantava Brassens em “La Mauvaise Réputation” : “Tout le monde me montre du doigt sauf les manchots, ça va de soi”. Apesar de termos tido um milhão de duzentos mil espectadores por noite, a pressão era muito grande. Rangel não temia o confronto e “aguentou-nos” durante 23 programas até acabar com os “Filhos da Nação”. Conseguimos perceber à nossa custa, que um hoax feito dentro da televisão é muito difícil. As pessoas pensam que tudo o que vêem na televisão é real, tanto a telenovela como o telejornal. De nada servia denunciar as falsidades no meio da falsidade. Provavelmente, Michael Moore safou-se disso, porque já tinha uma grande reputação como activista. O contexto é grande parte da leitura. A ingenuidade e a culpa foi sobretudo nossa. O programa estava a léguas das nossas ideias. Mas a imprensa mais imbecil da Europa ajudou ao disparate. Vejamos, por exemplo, os nossos comentadores: há mais de 30 anos que são os mesmos. Já na altura estes “jovens turcos”, eram “jovens” comentadores com 20 anos de serviço. Só podia dar raia. A maior parte desses tipos faz a mesma crónica há dezenas de anos e não conseguiam ver uma notícia mesmo que ela lhes caísse ao colo.
Temos de facto, uma cultura de subserviência, como dizia, num outro contexto, Steven Colbert na gala dos Correspondentes em Washington: ‘a administração é quem manda, envia-vos os textos, vocês corrigem os erros ortográficos e depois vão para casa ter com as vossas mulheres e escrever aqueles romances sobre o intrépido jornalista que afronta a corrupção e os poderosos, livros de ficção”.
Num dos últimos “Filhos da Nação” refizemos, numa rádio em Monsanto, uma versão da emissão da “guerra dos mundos” de Orson Welles, a população foi para a rua de noite, pensando ter aterrado uma nave espacial. Há coisas que resultam sempre.

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A directiva comunitária VIVA ESTALINE!

20 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Há experiências enternecedoras. Recentemente, estive na Hemeroteca para folhear alguns jornais e tropecei no “Independente” de 27 de Janeiro de 1995. Abrilhantavam as páginas do finado semanário um artigo do camarada “Abel” (Durão Barroso), retirado do “Luta Popular” de 2 de Maio de 1975.
A singela peça tem como título: “A Vida e Obra de Estaline”. É preciso notar que o texto foi escrito há 30 anos, na altura José Manuel Durão Barroso tinha mais de cinco anos de idade e uma formação que ultrapassava largamente a infantil. E, embora, a redacção deste escrito teórico o pareça indiciar, não está provado que Durão Barroso tenha escrito o texto depois de ir a Amesterdão tomar conhecimento com os cogumelos alucinogénicos.
Feitas estas advertências aos leitores, cá ficam alguns excertos deste documento histórico que espelha algumas das características intelectuais do actual presidente da Comissão Europeia.
“Onde quer que estejamos mal se pronuncie a palavra ESTALINE logo um poderoso campo magnético isola à direita toda a espécie de oportunistas, unindo ferreamente à esquerda os verdadeiros comunistas e os autênticos revolucionários.
Esta é uma das teses fundamentais da directiva do nosso movimento “QUE VIVA ESTALINE!”. Essa directiva é uma contribuição enorme ao património científico do Marxismo-Leninismo-Maoismo. (Nota minha: não consigo ver mesmo nenhuma maior, talvez os Himalaias…)
O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético (NM: uma espécie de “o algodão não engana”); mal se falou em ESTALINE começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva. (…)
E isso acontece porque a camarada Gina (NM: parece que não é a das revistas malandrecas) não ama Estaline (NM: talvez seja a das revistas!) e está contra a linha política do MRPP.
E isso porque na sua crítica não toma as posições face a ESTALINE; fala dos “erros” de forma aparentemente correcta mas não diz que o camarada ESTALINE não cometeu erros estando implícito que admite que os cometeu. A camarada Gina não resistiu também à prova do campo magnético. Tentou cair no meio e foi cair ao lado dos oportunistas. E é talvez por isso que na sua crítica não se refere a esta questão, não diz que a questão de ESTALINE é a pedra de toque que demarca os Comunistas dos oportunistas.
A CAMARADA Gina faz a crítica por descargo de consciência. Não se “lembrou” que quando criticamos os outros não podemos cair nos mesmos erros que eles e por isso não estudou pacientemente a directiva “QUE VIVA ESTALINE!”.
A posição da camarada Gina é a posição (NM: é definitivamente a das revistas!) daqueles que erguem a bandeira de ESTALINE para partir a cabeça dos que defendem Estaline, daqueles que sob a capa de defenderem ESTALINE, atacam-no. E Gina ataca-o porque não defende (NM: seria a imortal Lili Caneças, com o famoso “estar vivo é o contrário de estar morto”). (…)
Devemos varrê-las do nosso seio (NM: o do Barroso) implacavelmente, “agarrar o touro pelos cornos” e não fazer tentativas hesitantes pelo flanco, tal é a posição dos Comunistas (NM: Fica por explicar qual é a posição do touro em relação aos comunistas e aos “deserdados” do campo magnético: os comunistas agarram os cornos e os outros seguram o rabo? ou pelo contrário empurram o touro? e “no meio” onde é que fica a camarada Gina?).
Dizer que ESTALINE foi um eminente dirigente proletário e não cometeu erros e não dizer que há erros de 1ª espécie e erros de 2ª tal é a nossa posição.” (…)
“Eu próprio não ousei criticar o camarada Saldanha Sanches, não dei à directiva “Que Viva Estaline” a enorme importância que ela tem, o que é uma manifestação oportunista e cobarde de quem não ama Estaline, de quem não defende intransigentemente os princípios do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Por tudo isto, desde já me autocritico (NM: as chibatadas e flagelações eram à quarta-feira) manifestando o desejo de ir contra a corrente e defender a vida, a obra e a actividade do grande Estaline não pactuando com todos os ataques – directos ou camuflados – que foram feitos ao grande Estaline.”

Publicado originalmente no AspirinaB

Ciberpontapé na boca

6 de Outubro de 2006 por Nuno Ramos de Almeida

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Há um fenómeno que me intriga na internet e nos blogues: as transformações psicológicas que os seus autores sofrem. Lendo amigos e desconhecidos, verifiquei que se dá uma metamorfose similar aos condutores de carro quando protegidos pela quentinha armadura do carro ganham palavrão fácil. Tenho estimáveis amigos que rompem o casulo habitual das pacíficas criaturas e aparecem com ademanes de Rambo. Ligados à rede, não há violência verbal ou possível violência física que não sejam capazes. Quando leio, nos blogues, textos que prometem tabefes e bengaladas penso sempre num velho professor de judo que tive, o mestre Vasco.

Certo dia, estávamos à espera dele, já tinham passado 20 minutos da hora do início do treino. O mestre chegou afogueado e bastante alterado como se tivesse corrido a maratona. Perguntamos preocupados: “mestre o que sucedeu!”. Contou-nos que tinha discutido com um homem numa paragem de autocarro, palavra puxa palavra e o sujeito tentou-lhe dar um murro. E nós ainda mais preocupados: “mestre o que é que fez?”. “Projectei-o sobre o ombro e atirei-o ao chão”, disse o experimentado judoca. E nós todos em coro: “e a seguir?”, “A seguir”, respondeu o mestre serenamente, “dei-lhe um pontapé e fugi, não fosse o gajo levantar-se”.

Publicado originalmente no Aspirina B

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