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  • Arquivo 'Nuno Ramos de Almeida'

    Muito, muito estranho

    17 Junho 2008 | por João Pinto e Castro

    Luís Amado, que literalmente nunca tem opinião sobre nada, resolveu abrir a boca para emitir alvitres sobre a oportunidade de a Irlanda promover um novo referendo. Não tarda, temo-lo Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Europeia.

    A última Batalha de Fidel Castro

    9 Dezembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Há alguns meses, traduzi, com ajuda de um amigo, este artigo da New Yorker. Parece-me muito interessante, para quem quer entender o que se pode passar em Cuba. Esclareço as habituais criaturas que salivam cada vez que ouvem falar sobre Cuba, que não sou obrigado a concordar com todas as palavras desta excelente reportagem. Lee Anderson é um profundo conhecedor de Cuba e autor de umas das melhores biografias de Che Guevara, nesta reportagem feita para a New Yorker, 24/7/2006, anterior a hospitalização de Fidel, faz um retrato do momento que se vive na ilha. Ler o resto »

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    Reunião de criativos pelo sim

    20 Novembro 2006 | por Rui Tavares

    O comandante Ramos de Almeida pede para transmitir aos criativos de entre vocelências (certamente muitos) a seguinte mensagem:

    «O esquerda.net promove uma reunião para trocar algumas ideias sobre a campanha da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O encontro será na quinta-feira às 21.30 na Rua Febo Moniz número 13, R/C Esquerdo.»

    [Nota: o esquerda.net pertence ao Bloco de Esquerda e esta mensagem é da responsabilidade do Nuno Ramos de Almeida. A própria reunião, aliás, será num rés-do-chão esquerdo. Que tudo fique bem claro.]

    O regresso do espectro

    10 Novembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Há uma anedota, que se contava no tempo da União Soviética, que relata a visita da mãe de Brejnev à residência oficial do filho Leónidas. O dirigente soviético mostra à mãe a gigantesca casa, as pratas, as loiças preciosas, a fabulosa colecção de carros. No fim da visita, a mãe olha Brejnev com bastante orgulho, misturado de algum receio, e sussurra-lhe: “meu filho, tudo isto é maravilhoso, mas se vêm os comunistas, tiram-te tudo”.
    A história aplica-se como uma luva a determinados participantes da reunião de partidos comunistas que se realiza em Lisboa, a convite do PCP. Partidos como o dos “comunistas” chineses têm de facto uma relação especial com o proletariado: passaram da defesa da sua libertação à sua exploração e aquilo que mais temem é que algum dia os operários se levantem e se libertem deles. Neste mundo global, os capitalistas estão em todo o lado e os seus polícias em Washington; grande parte da classe operária vive na China, sem sindicatos e sem liberdade, com um governo que usurpa a sua ideologia e o nome de “comunista”. Estranhamente, o partido dos resistentes anti-fascistas, o partido de tantos operários portugueses, vira a cara para o lado e nega a sua solidariedade aos trabalhadores chineses.
    Este texto de Marshall Berman, autor de um dos livros mais brilhantes sobre o modernismo, cujo título é uma frase do Manifesto Comunista (“Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar”), fala-nos no texto que reproduzo das condições do renascimento do marxismo na China. Naturalmente, refere-se a um marxismo longe da ideologia do Estado/partido opressor, e próximo da liberdade dos operários. Leiamos então, sobre a criatura mitológica que renasce das cinzas da opressão.
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    Brevíssima meditação sobre a escatologia do poder e dos media

    3 Novembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    A secção mais esclarecedora da imprensa portuguesa encontra-se na Pública. Chama-se “O Lixo dos Famosos” e consiste em mostrar , para deleite dos leitores, o conteúdo do lixo de uma pessoa “conhecida”. Embora quase toda a imprensa se tenha transformado num revelador de intimidades e excreções, é natural que tenha sido o diário de Belmiro o primeiro a destapar a tampa e a ir directamente ao lixo, em si. O hábito faz o público, e os leitores desse diário já estão habituados a esse tipo de eflúvios: lêem a sua secção editorial e têm acesso ao telúrico universo mental do director. Enquanto a imprensa sensacionalista oficial se concentra na roupa interior e no luxo dos ricos, o “jornal de referência” inova e com um toque de José Manuel Fernandes transforma, num passe de mágica, o “luxo” em “lixo” e coloca a populaça ignara a prestar vassalagem aos despojos dos poderosos. Estamos perante o último degrau do domínio ideológico. Os cientistas sociais criaram o conceito de empowerment para falar de práticas que concedem mais poder a determinados grupos e populações, podemos dizer que a acção do Público tem o efeito contrário: é um completo ‘enlixerment’ (num inglês do Casaquistão) dos leitores: a ideia que os compradores de um jornal devem adorar os excrementos dos ricos, para além de determinadas taras sexuais entre adultos consentâneos, transforma-os literalmente em gente abaixo da merda dos ditos.
    Um dos aspectos mais geniais neste processo é que o sistema tornou rentável esta abjecção: as revistas e os jornais que vendem a vida maravilhosa dos muito ricos, do casamento até ao caixote de lixo, têm imensos pobres a comprar. Estamos perante uma submissão muito lucrativa. Não só exploram, não só criam um sistema económico que atira 80% da população do mundo para a miséria, como ainda lhes vendem a vida fantástica dos ricos, em fascículos.
    O lugar dos jornalistas neste processo é um dos maiores achados: antigamente, pedia-se aos profissionais da comunicação social que noticiassem aquilo que de importante aconteceu no mundo; hoje pede-se que escrevam, gravem, filmem aquilo que vai “vender” e que o público quer, supostamente, conhecer. Num dos grupos de media em que trabalhei, o proprietário explicou-me que ‘a maioria das pessoas tem vidas horríveis e que não querem ver a sua situação retratada ou denunciada, o que as pessoas querem é sonhar’. Para isso devemos mostrar-lhes os ricos e famosos. Por um passe de mágica entramos no eugenismo jornalístico, em grande parte das revistas portuguesas, ditas de informação, está proibido, pelas direcções editoriais, aparecerem “pobres, velhos, negros e feios”. Toda a gente sabe que não vendem. Há, obviamente, excepções: uma negra voluptuosa e famosa pode ter fotografia e um multimilionário parecido com uma abóbora tem de ser publicado. Mas são excepções que confirmam o espírito da regra.
    Nem o mais horrível dos totalitarismos conseguiu fazer isso às suas vítimas, por muito que tentasse, duvido que Hitler conseguisse impingir aos judeus que iam para os campos de concentração as crónicas sentimentais dos chefes das SS.
    Digamos que para quem vê, chegámos a um momento profundamente esclarecedor: no fundo, tanto do ponto de vista do conteúdo, como do ponto de vista da propriedade a maioria da nossa comunicação social não passa de “lixo dos ricos”.

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    Žižek em pastilhas

    3 Novembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

    Brevemente os sacropantas europeus vão voltar a discutir o processo constitucional. Aqui fica um texto de um reputado pensador esloveno sobre a matéria. Junto deixo um link para um programa do ARTE, colhidos no Klepsydra, em que uma duzia de pensadores europeus discute o continente.

    Um fantasma ronda o Ocidente
    Por Slavoj Žižek

    As comunidades amish dos EUA praticam a instituição do “rumspringa” (do alemão “herumspringen”, que significa saltar aleatoriamente): aos 17 anos, os seus filhos (até então submetidos a uma estrita disciplina familiar) são libertados; recebem permissão e até são incentivados a sair para aprender e experimentar os hábitos do mundo “inglês” que os rodeia - guiam carros, escutam música pop, assistem à televisão, envolvem-se com bebidas, drogas, sexo desenfreado… Depois de alguns anos, precisam decidir: vão tornar-se membros da comunidade amish ou vão deixá-la e transformar-se em cidadãos norte-americanos comuns?
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    Falhados da Nação

    27 Outubro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

    Vivíamos no século passado. Estava desempregado. Tinha trabalhado mais de 16 horas por dia no semanário “Já”. As duas dezenas de trabalhadores tinham dado o máximo, durante um ano, mas apesar do esforço o jornal acabou. Tentámos fazer um jornal de esquerda, com 100 mil contos, e falhámos. Durante a ressaca do “Já”, tinha lido numa revista um artigo sobre um novo programa escândalo num canal de televisão norte-americano. Parecia que um tal de Michael Moore fazia uma emissão chamada “TV Nation” que encurtava as fronteiras entre ficção e realidade: fazia acções estranhas, tinha candidatado um ladrão, vindo da prisão, a presidente dos Estados Unidos da América, no Estado do governador George W. Bush.
    Não me apetecia voltar para a redacção da SIC. O Sérgio Figueiredo propôs-me a editoria de Cultura no Diário Económico, mas eu tinha uma ideia fisgada. Não me saia da cabeça o texto do Moore e mandei a proposta de um formato ao Emídio Rangel. A SIC ficou interessada, falei com o Luís Rainha a quem tinha “cravado”, muitos anos antes, para imaginar com o Armando Lopes a campanha inicial e o símbolo do SOS Racismo. E fizemos o guião de vários programas. Rangel tinha visto o espanhol “Caiga quien Caiga” e os debates do “Moros y Cristianos”. A nossa proposta, que era uma espécie de um telejornal alternativo, transformou-se num programa de debate com reportagens algo especiais. Os “factoídes” alimentavam o debate sobre questões polémicas. Começámos a rodar o programa sabendo que a partir do momento que ele fosse para o ar , seria muito difícil passar despercebido.
    Tentámos “atirar-nos” a todos os nossos alvos ao mesmo tempo. Forjámos uma manifestação de loiras que diziam contestar “os mecanismos de imposição do machismo na cultura popular e nas anedotas de loiras”, para provar que agendas noticiosas estavam cada vez mais sensacionalistas: não houve órgão de comunicação que não desse um grande destaque, maior do que dão a qualquer manifestação de dezenas de milhar de professores; candidatámos um jovem cigano à Câmara Municipal de Vila Verde, para demonstrar que continuávamos num país racista; e criámos uma Igreja que atraiu uma centena de fieis à nossa missa em Beja, para demonstrar como este é um Portugal à espera de milagres fáceis.
    Armámos uma verdadeira tempestade. Passámos rapidamente a inimigos públicos de uma série de bem pensantes, mal pensantes e assim-assim. Acusavam-nos de levar à prática a ideia de querer “vender presidentes como pastas de dentes”, diziam que preparávamos a candidatura de Pinto Balsemão à Presidência da República, o presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas inventou que tínhamos despedido uma figurante da manifestação das loiras. Como cantava Brassens em “La Mauvaise Réputation” : “Tout le monde me montre du doigt sauf les manchots, ça va de soi”. Apesar de termos tido um milhão de duzentos mil espectadores por noite, a pressão era muito grande. Rangel não temia o confronto e “aguentou-nos” durante 23 programas até acabar com os “Filhos da Nação”. Conseguimos perceber à nossa custa, que um hoax feito dentro da televisão é muito difícil. As pessoas pensam que tudo o que vêem na televisão é real, tanto a telenovela como o telejornal. De nada servia denunciar as falsidades no meio da falsidade. Provavelmente, Michael Moore safou-se disso, porque já tinha uma grande reputação como activista. O contexto é grande parte da leitura. A ingenuidade e a culpa foi sobretudo nossa. O programa estava a léguas das nossas ideias. Mas a imprensa mais imbecil da Europa ajudou ao disparate. Vejamos, por exemplo, os nossos comentadores: há mais de 30 anos que são os mesmos. Já na altura estes “jovens turcos”, eram “jovens” comentadores com 20 anos de serviço. Só podia dar raia. A maior parte desses tipos faz a mesma crónica há dezenas de anos e não conseguiam ver uma notícia mesmo que ela lhes caísse ao colo.
    Temos de facto, uma cultura de subserviência, como dizia, num outro contexto, Steven Colbert na gala dos Correspondentes em Washington: ‘a administração é quem manda, envia-vos os textos, vocês corrigem os erros ortográficos e depois vão para casa ter com as vossas mulheres e escrever aqueles romances sobre o intrépido jornalista que afronta a corrupção e os poderosos, livros de ficção”.
    Num dos últimos “Filhos da Nação” refizemos, numa rádio em Monsanto, uma versão da emissão da “guerra dos mundos” de Orson Welles, a população foi para a rua de noite, pensando ter aterrado uma nave espacial. Há coisas que resultam sempre.

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    A directiva comunitária VIVA ESTALINE!

    20 Outubro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Há experiências enternecedoras. Recentemente, estive na Hemeroteca para folhear alguns jornais e tropecei no “Independente” de 27 de Janeiro de 1995. Abrilhantavam as páginas do finado semanário um artigo do camarada “Abel” (Durão Barroso), retirado do “Luta Popular” de 2 de Maio de 1975.
    A singela peça tem como título: “A Vida e Obra de Estaline”. É preciso notar que o texto foi escrito há 30 anos, na altura José Manuel Durão Barroso tinha mais de cinco anos de idade e uma formação que ultrapassava largamente a infantil. E, embora, a redacção deste escrito teórico o pareça indiciar, não está provado que Durão Barroso tenha escrito o texto depois de ir a Amesterdão tomar conhecimento com os cogumelos alucinogénicos.
    Feitas estas advertências aos leitores, cá ficam alguns excertos deste documento histórico que espelha algumas das características intelectuais do actual presidente da Comissão Europeia.
    “Onde quer que estejamos mal se pronuncie a palavra ESTALINE logo um poderoso campo magnético isola à direita toda a espécie de oportunistas, unindo ferreamente à esquerda os verdadeiros comunistas e os autênticos revolucionários.
    Esta é uma das teses fundamentais da directiva do nosso movimento “QUE VIVA ESTALINE!”. Essa directiva é uma contribuição enorme ao património científico do Marxismo-Leninismo-Maoismo. (Nota minha: não consigo ver mesmo nenhuma maior, talvez os Himalaias…)
    O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético (NM: uma espécie de “o algodão não engana”); mal se falou em ESTALINE começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva. (…)
    E isso acontece porque a camarada Gina (NM: parece que não é a das revistas malandrecas) não ama Estaline (NM: talvez seja a das revistas!) e está contra a linha política do MRPP.
    E isso porque na sua crítica não toma as posições face a ESTALINE; fala dos “erros” de forma aparentemente correcta mas não diz que o camarada ESTALINE não cometeu erros estando implícito que admite que os cometeu. A camarada Gina não resistiu também à prova do campo magnético. Tentou cair no meio e foi cair ao lado dos oportunistas. E é talvez por isso que na sua crítica não se refere a esta questão, não diz que a questão de ESTALINE é a pedra de toque que demarca os Comunistas dos oportunistas.
    A CAMARADA Gina faz a crítica por descargo de consciência. Não se “lembrou” que quando criticamos os outros não podemos cair nos mesmos erros que eles e por isso não estudou pacientemente a directiva “QUE VIVA ESTALINE!”.
    A posição da camarada Gina é a posição (NM: é definitivamente a das revistas!) daqueles que erguem a bandeira de ESTALINE para partir a cabeça dos que defendem Estaline, daqueles que sob a capa de defenderem ESTALINE, atacam-no. E Gina ataca-o porque não defende (NM: seria a imortal Lili Caneças, com o famoso “estar vivo é o contrário de estar morto”). (…)
    Devemos varrê-las do nosso seio (NM: o do Barroso) implacavelmente, “agarrar o touro pelos cornos” e não fazer tentativas hesitantes pelo flanco, tal é a posição dos Comunistas (NM: Fica por explicar qual é a posição do touro em relação aos comunistas e aos “deserdados” do campo magnético: os comunistas agarram os cornos e os outros seguram o rabo? ou pelo contrário empurram o touro? e “no meio” onde é que fica a camarada Gina?).
    Dizer que ESTALINE foi um eminente dirigente proletário e não cometeu erros e não dizer que há erros de 1ª espécie e erros de 2ª tal é a nossa posição.” (…)
    “Eu próprio não ousei criticar o camarada Saldanha Sanches, não dei à directiva “Que Viva Estaline” a enorme importância que ela tem, o que é uma manifestação oportunista e cobarde de quem não ama Estaline, de quem não defende intransigentemente os princípios do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Por tudo isto, desde já me autocritico (NM: as chibatadas e flagelações eram à quarta-feira) manifestando o desejo de ir contra a corrente e defender a vida, a obra e a actividade do grande Estaline não pactuando com todos os ataques - directos ou camuflados - que foram feitos ao grande Estaline.”

    Publicado originalmente no AspirinaB

    Ciberpontapé na boca

    6 Outubro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Há um fenómeno que me intriga na internet e nos blogues: as transformações psicológicas que os seus autores sofrem. Lendo amigos e desconhecidos, verifiquei que se dá uma metamorfose similar aos condutores de carro quando protegidos pela quentinha armadura do carro ganham palavrão fácil. Tenho estimáveis amigos que rompem o casulo habitual das pacíficas criaturas e aparecem com ademanes de Rambo. Ligados à rede, não há violência verbal ou possível violência física que não sejam capazes. Quando leio, nos blogues, textos que prometem tabefes e bengaladas penso sempre num velho professor de judo que tive, o mestre Vasco.

    Certo dia, estávamos à espera dele, já tinham passado 20 minutos da hora do início do treino. O mestre chegou afogueado e bastante alterado como se tivesse corrido a maratona. Perguntamos preocupados: “mestre o que sucedeu!”. Contou-nos que tinha discutido com um homem numa paragem de autocarro, palavra puxa palavra e o sujeito tentou-lhe dar um murro. E nós ainda mais preocupados: “mestre o que é que fez?”. “Projectei-o sobre o ombro e atirei-o ao chão”, disse o experimentado judoca. E nós todos em coro: “e a seguir?”, “A seguir”, respondeu o mestre serenamente, “dei-lhe um pontapé e fugi, não fosse o gajo levantar-se”.

    Publicado originalmente no Aspirina B

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    Tim Burton é um profundo conhecedor da política portuguesa

    6 Outubro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Reparem (da direita para a esquerda): Paulo Portas, Cavaco Silva e Mário Soares. Os seguintes são para despistar.

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    As mamas para a família cristã

    29 Setembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    (Isto não é o Ferreira Fernandes)

    O Correio da Manhã publicou, 27 anos depois da sua fundação, o seu estatuto editorial. O documento reza (a palavra é propositada) o seguinte: “O Correio da Manhã apoiará de forma firme a instituição Família, o direito à Vida e assume o seu apreço pelas raízes cristãs da sociedade portuguesa”. Ficamos sem saber quem elaborou estas pias letrinhas e quem as aprovou: o proprietário? o director? a redacção? o antigo revolucionário Ferreira Fernandes, hoje convertido em carmelita descalça?
    Para reflexão dos proprietários do Correio da Manhã (o jornal diário mais vendido em Portugal), aqui fica uma historinha sobre a imprensa do Reino Unido. Na genial série “Yes minister” definiram, um dia, os jornais britânicos da seguinte forma: “O Times é lido pela as pessoas que pensam que ainda mandam no Reino Unido; o Guardian é comprado pelas pessoas que julgam que deviam mandar no país; o Financial Times é adquirido pelas pessoas que de facto mandam na Grã-Bretanha; o Sun é levado pelas pessoas que se estão nas tintas para quem manda aqui, desde que tenha mamas”.
    Amiguinhos, já bastam os colunistas de extrema-direita, não dêem cabo da galinha dos ovos de ouro com gargarejos de água benta.

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    Arroja, a Toupeira Vermelha

    29 Setembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    Tenho a íntima certeza que o professor Pedro Arroja é um intrépido revolucionário infiltrado nos interstícios da direita mais cavernosa. Aquilo que faz só tem um desígnio em mente: conseguir apressar a revolução socialista, através da completa ridicularização do liberalismo. Um esforço, particularmente difícil, não por causa das dificuldades de fazer uma revolução em tempo de saldos, mas sobretudo pela quase impossibilidade de ultrapassar, pelo ridículo, muitos dos arautos desta corrente de pensamento.
    Até agora, esta convicção era apenas um sentimento difuso, embora alicerçado em muitas declarações do esforçado professor. Neste momento, consegui as provas.
    Estavam depositadas nos arquivos do YES MEN.
    Quem são os YES MEN e o que têm de ver com o sobredotado professor Arroja, perguntarão vocês com muita acuidade.
    YES MEN é a designação atrás da qual se escondem dois activistas norte-americanos, que dão pelo nome de baptismo de Mike Bonanno e Andy Bichalbaum, e - volto a insistir - a quem se devem somar o herói desconhecido da revolução: o português Pedro Arroja.
    O colectivo YES MEN utiliza como arma aquilo a que chama “a rectificação de identidades”. Faz-se passar por determinadas organizações e aparece a representá-las em conferências internacionais e na comunicação social, dizendo aquilo que normalmente estas poderosas organizações pensam, mas não dizem. A sua primeira acção foi a troca da voz, em centenas de brinquedos, do Action Men pela da Barbie. Pedro Arroja é a voz desta organização.
    Vamos por partes: umas das acções mais conhecidas deste grupo foi o registo do domínio gatt.org (coincide com a sigla do General Agreement on Tariffs and Trade) e a construção de um site neste endereço com o aspecto gráfico do da Organização Mundial do Comércio (OMC).
    A partir daí, a aventura dos YES MEN acelerou-se, em 1999 (reparem que coincide com o desaparecimento público do professor em Portugal), duas semanas antes da célebre cimeira do milénio da OMC, que se realizou em Seattle. Estes activistas criaram um site da OMC em que propunham, entre outras coisas, o reaproveitamento “dos aspectos positivos da escravatura”, a “venda de votos no mercado livre” e a “reciclagem de macdonalds, comidos e defecados, para serem posteriormente reutilizados nos países pobres, como forma de combater a fome”. É de notar, que tirando a mastigação de hambúrgueres previamente defecados, todos estes itens constam já da célebre entrevista de Arroja à jornalista Fernanda Câncio.
    Mas, concentremo-nos nas provas. Pedro Arroja confessou, na citada entrevista, defender a venda de votos. “É precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados?”, afirmou. Fernanda Câncio, suponho que meio atarantada, ainda conseguiu perguntar que significado cívico tinham esses votos transaccionados. Arroja não se encolheu e explicou: “produzia votos, esses sim, em consciência, porque eu para comprar três votos para um partido tinha de ter grande apreço por ele”.
    Numa conferência internacional sobre regulamentação de serviços, realizada na Áustria, o YES MEN, disfarçado de dirigente do OMC, com o suposto nome de Bichlbauer, defendeu o ponto de vista de que é preciso acabar com os estrangulamentos ao mercado, no campo político, e permitir a venda livre de votos em bolsa, concretizando: “é um sistema que permite aos eleitores vender o seu voto pela melhor oferta. (…) Isto permite racionalizar o conjunto do processo eleitoral e, como todos os mercados, isto permite maximizar a satisfação dos consumidores e claro da empresas que lhe estão na origem”.
    Sobre a escravatura, um dos YES MEN pronunciou uma defesa cerrada das virtudes da escravatura, que embora seja “um modelo moralmente pouco ético”, tinha excelentes resultados económicos. Nesse sentido - defendeu o orador numa conferencia internacional sobre têxteis realizada na Finlândia -, seria necessário meditar sobre a experiência e inventar uma força de trabalho “mais própria” que os actuais trabalhadores, com demasiadas liberdades. Por sua vez, o nosso professor afirmou o seguinte na já célebre entrevista: “o trabalhador escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador negro. (…) Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê…, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico! (…) Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos”.
    É por tudo isto que posso revelar com orgulho que Pedro Arroja é um agente do comunismo internacional infiltrado nas fileiras do liberalismo.
    Foi certamente a sua sábia liderança nos YES MEN que levou o antigo director-geral da OMC Mike Moore a qualificar a acção desta organização como “deplorável”, e o presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, a dizer literalmente o seguinte: “há limites, limites à…, euhhh, à liberdade. Mas, bom, euhhh… Nós conhecemos perfeitamente a existência deste site, estes tipos são uns merdosos, é o que eles são. E claro que eu não gosto deles, vocês também não gostarão”. Que maior elogio poderia desejar um revolucionário?

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    Reportagem com uma morta

    29 Setembro 2006 | por Nuno Ramos de Almeida

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    A filmagem eternizava-se, a realizadora olhava para o operador de câmara, como quem faz uma interrogação muda: ‘o que é que ele tem? está doente?”. O operador respondia com um encolher de ombros. No plateau - numa sala de um castelo nos arredores de Roma em que se gravavam três filmes de Mario Salieri – estava o actor porno Don Fernando e uma partenaire húngara. Por mais que ela fizesse, da cena não saia nada. Nos filmes pornográfico é suposto haver o chamado cumshot (o plano em que o actor se vem), para provar a verdade da mercadoria. E aqui estávamos, há mais de meia hora à espera e a cena continuava mole. Já em desespero, a realizadora, Nicky Ranieri, e mulher de Salieri via chegar as 13 horas. Na sala toda a gente estava farta. Era necessário fazer alguma coisa. A realizadora tomou uma decisão e gritou: “ou te vens já ou vamos almoçar!”. Nada feito. O actor agitou as ancas mais cinco minutos, mas nada. Fomos mesmo almoçar.
    Numa sala do castelo, equipa técnica, actores e actrizes comiam pasta. Cinquenta minutos depois, o castelo voltava-se a agitar. Don Fernando tentava de novo e nada. No meios das filmagens, surge o patrão. Toma conta da ocorrência e dá a sentença salomónica: “Don Fernando fez-nos perder meio dia de filmagens, vai pagar a cena à rapariga, ela volta a gravar a cena com outro actor”.
    As filmagens continuam até às duas da manhã. No castelo gravam-se os três filmes. Numa sala pequena dormitam actores e actrizes nus, à espera das ordens da produção. Um rapaz dá uma festa a uma rapariga, sem reparar na equipa de reportagem que filma este estranho momento de carinho. Aproveito um dos intervalos e faço umas perguntas. Não sei o que fazer. Digo uma coisa estúpida do género: “isto é um trabalho agradável?”. O jovem actor italiano Francesco Malcom diz-me: “é muito agradável, mas é só sexo. Amor é o que fazemos no leito com a nossa mulher”. As cenas sucedem-se. O produtor garante-me que são todos “uma grande família”. Na sala grita-se “acção”. As actrizes arfam esforçadamente. Acaba-se a cena. Todos se calam. Encontro uma actriz francesa (Karen Bach que veio a participar no filme escândalo “Baise-moi” e suicidou-se no seu apartamento em Abril de 2005), sai-me mais uma pergunta moralista, sobre como tinha vindo para esta profissão, o que pensavam os familiares. Olha-me nos olhos e responde-me que ninguém gosta que a filha faça isto. A rodagem do “Racconti dall’oltretomba”, de Salieri, continua. Passo a gravar sem parar. Vem-me à memoria uma história com um camarada da SIC (Paulo Varanda) que foi fazer a reportagem sobre o “Fim de Semana Lusitano” e a quem o produtor, no fim, brinda com uma VHS com a sequela “O Fim de Semana Lusitano 2”. O meu colega agradece educadamente e faz-lhe notar que teme não poder compreender o filme, porque não viu a fita anterior. O produtor sorri e diz-lhe: “gravamos tudo no mesmo dia, e dividimos em duas cassetes, é tudo a mesma coisa”. Eu lembro-me da história e começo-me a rir.

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