Hoje ao almoço, explicava a alguém que estava fora do país, o caso Casa Pia.
Em 2003 descobre-se que, a partir de uma casa de acolhimento de crianças na dependência do Estado, havia uma rede de pedofilia. Numa autêntica deriva noticiosa, inúmeras figuras públicas, aparecem ligadas ao processo, sobretudo, políticos e detentores de altos cargos no Estado. Um autêntico mundo de terror sobre crianças que viviam sob o tecto de uma instituição pública.
Seis anos passados ainda não houve uma sentença e a rede pedófila viu-se transformada num grupo de sete acusados – o director da escola, o denunciante e motorista das vítimas, a gerente de uma casa para onde alegadamente os meninos eram levados, um advogado, um apresentador de televisão, um embaixador e o médico que dava apoio à rede pedófila.
Perguntam-se quem será o Carlos Guimarães Pinto. Boa pergunta. Pelo que sei, é um rapaz economista que acha que se Maria João Pires cumprir a sua suposta ameaça e abandonar a nacionalidade portuguesa será «uma parasita a menos».
Isto porque o sonho de levar um projecto pedagógico inovador a Belgais redundou em arrestos, processos, despedimentos esquisitos e outras confusões meio sórdidas.
O pecado, para o ilustre CGP, foi que a pianista «acabou por optar pela forma menos digna, embora mais usual entre os seus colegas de profissão, de se financiar: extorquindo dinheiro aos restantes contribuintes.» Aparentemente, «prostituindo-se ou mendigando» haveria mais dignidade no processo. E isso da «profissão», suponho que diga respeito aos mais repugnantes de todos os cravas: os tais artistas.
O que começa por ignorar que havia originalmente patrocinadores para o projecto; e que Maria João Pires não precisava de todo de se financiar. Acabando por sugerir a dúvida: mas serão então parasitas todas as escolas privadas que recebem dinheiro do ministério da Educação? Já agora, como lançar investimentos educativos no interior esquálido só com mecenas? Em que mundo viverá CGP?
Eu respondo: num mundo onde não interessa nada que uma da meia-dúzia de artistas portugueses reconhecidos mundialmente passe a ser brasileira. Num mundo onde também Camões seria um parasita a expulsar bem depressa, já que recebia uma tença real no valor de quinze mil réis anuais. Num mundo de grunhos, em suma.
«Era bom que os restantes parasitas lhe seguissem o caminho», conclui o bravo contabilista, se calhar até educado numa universidade estatal, parasita até mais não. Por mim, que siga; gente que não consegue ver para lá das contas de merceeiro, desprezando o que desconhece ou não compreende, não faz grande falta: morcões com dinheiro já cá temos às carradas. Grandes pianistas é que nem por isso.
A notícia da ruptura, em termos de nacionalidade, de Maria João Pires com Portugal (e eu coloco-me incondicionalmente do lado da pianista), foi, creio, a notícia mais comentada no “Público” online desde ontem com setecentos e dezoito comentários (718!!), muitos deles, a maioria (não tive para os ler todos, evidentemente), a esmagadora maioria, desfavoráveis à pianista. E porquê?
É simples: porque Portugal deve ser o único país da Europa (sei lá se é da União Europeia, da zona Euro, ou lá o que é), o único ou dos únicos, onde um artista é automaticamente visto como chulo, vigarista, sobrevivendo das esmolas do Estado; devemos ser o único país que cunhou mesmo a expressão “subsidiodependente”, e muitos usam-na alegremente. Somos pobres e burros com prazer.
Ora num dos comentários do “Público” li mesmo que Maria João Pires estava habituada a viver do Estado, e agora isso acabou-se (deve ser mais uma famosa “reforma” socratista). Acabemos pois com esta peculiaridade “portuguesa”: oh inclassificáveis comentadores saibam que Maria João Pires tem, desde 1989, um contrato exclusivo com a Deutsche Grammophon [página da artista], o mais importante catálogo da clássica – desde 1989, faz este aninho de 2009, portanto, vinte anos. Certo?
Esta polémica é inútil, porque, em Portugal ou noutro sítio qualquer, o número de “chulos” não há-de parar. Habituem-se.
Aqui, no Mosteiro dos Jerónimos, com Boulez e a Filarmónica de Berlim. Mozart, claro, o nº 20 (KV 466), andamentos segundo e último (Romance e Allegro assai).
Enquanto os patéticos jugulentos se vão divertindo com homonímias (acho que há por lá uma pessoa com nome parecido), os assuntos sérios vão desfilando à nossa frente. Sintomaticamente:
Recibos Verdes foi ontem o tema do ‘Consultório’, da TVI24. Myriam Zaluar, dos Precários Inflexíveis, foi a convidada.
Recomendo que vejam, e espero que este tipo de programas sirva para cada vez mais pessoas perceberem a barbaridade que são os recibos verdes, além de todas as implicações éticas e económicas que esse sistema traz.
Hoje haverá mais um acto eleitoral no Benfica. Os sócios e ferrenhos adeptos (nos quais me incluo) apenas pedem que ganhe alguém que não estrague muito mais. De resto, subscrevo o essencial deste texto do Ricardo Araújo Pereira.
Pinho foi demitido pelos motivos errados. O que interessa um gesto ordinário perante uma faena de políticas desastrosas? Pinho foi o ministro que declarou que Portugal não seria afectado pela crise ou que Portugal era um excelente país para os empresários chineses investirem pois era dos que tinha salários mais baixos na Europa. Sempre que Pinho dizia que uma empresa estava bem, ela falia no dia a seguir. Mas Pinho, como representante do BES no governo, distribuiu dinheiro. Fez uma política de cheque-na-mão, a todos os amigos do governo e amigos de amigos do governo. Um péssimo ministro no governo dos interesses.
Diz-se agora que o ministro era inábil e que não era “político”, porque político parece ser todo o ser que aldraba as suas emoções e ideias.
A risível máquina de guerra russa que não intimida o nosso homem com a terefa de mudar o mundo.
Eu estou fascinado com o Partido Socialista, por duas razões: primeiro, porque ataca a crise nacional e internacional ao mesmo tempo, ou seja, tenta mudar Portugal e o mundo – repito, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo caramba!
A crise em que estamos atolados é, como todas as pessoas de bom senso e boa vontade sabem, da responsabilidade do exterior, do mundo exterior. Apenas ou sobretudo do mundo lá fora. “Lá”, a terra do mal e das campanhas negras (sobretudo, as ilhas britânicas e o seu império).
Logo, o mérito maior do PS é atacar também os nossos problemas lá fora. Leio no site do PS que essa tarefa coube a José Lello. Com a sua experiência na área do futebol planetário, não podemos querer mais. Este homem, na Geórgia, já enfrentou balas e ameaça de balas russas (se não estou em erro, e venceu-as!, mas não me lembro de grandes pormenores).
Vão pois ao site do PS, e, por favor, calem-se se não entendem a importância disto:
Reportagem da correspondente vanguard da Current TV: Mariana Van Zeller.
Uma hora de estórias, que não conseguem ser vistas em mais lado nenhum, e que versam sobre as vidas, as esperanças e os sonhos e medos de jovens que arriscam a vida para se fazerem ouvir.
Este programa especial inclui um olhar exclusivo sobre ser jovem no Irão, quer quando vão a festas alternativas/underground de dança, quer como polícia cultural/de costumes do Irão (Basij – Iran’s culture cops).
(a introdução é da Current TV e foi traduzida por mim. há também um trailer.)
Que insuportável pseudo-higiene da linguagem. Tomar cornos por chifres?
Chifres vem a ser coisa mais complexa,
Teria exigido, pelo menos, a articulação simultânea das braçadas de Pinho, Lino e Jaime Silva. Um elevado grau de concentração. E, certamente, uma coreografia arriscada.
Tem sido difícil. Estes meses foram mortais. A escolha do candidato das europeias foi um tiro de bazuca. Como de costume, contratam-me tarde e a más horas. Os cartazes já melhoraram, mas o resto é um desastre. O episódio da PT foi mais um tiro no navio almirante. O que vale é que a necessidade aguça o engenho. Depois do episódio do Pinho no parlamento decidi tomar medidas radicais. Está a ser um verdadeiro calvário. Foram horas intermináveis de media training, quase partia o mobiliário a ver tanta falta de jeito. Mas valeu a pena: A Maria Lurdes Rodrigues, o Jaime Silva e até o Mário Lino já conseguem fazer corninhos com os dedinhos. O governo está salvo, estamos mais perto de ganhar as eleições. Por via das dúvidas, já convenci aquele gajo que veste a versão Prada dos fatinhos Maconde do Pedro Silva Pereira a ensaiar o gesto.
O vídeo da reacção do ministro Manuel Pinho, em plena Assembleia da República, quando a bancada do PCP questionava o que Sócrates dizia sobre as minas de Aljustrel.