Estou cansado. Estou zangado. Bardamerda para a política das prioridades.
O Parlamento fede, e a lógica eleitoral despolitiza. Estou farto de partidos e de políticos profissionais e da sua (i)lógica quando se trata das vidas das minorias. Não é importante para quem? E nós, somos parte do país?
17 de Dezembro – Dia Internacional contra a Violência sobre os Trabalhadores do Sexo
17 de Dezembro de 2009 por Sérgio Vitorino
O MILK derramado ou o casamento de segunda do PS
16 de Dezembro de 2009 por Sérgio VitorinoQuando o primeiro-ministro anunciou que o Partido Socialista (PS) proporia nesta legislatura o alargamento do acesso ao casamento civil a casais do mesmo sexo, citou o filme MILK, sobre a vida de um activista histórico. Mas não terá entendido uma frase que diz muito sobre o legado de Harvey Milk: ‘Tragam-me activistas, não políticos’.
À beira de nova votação parlamentar sobre o tema, com o PS agora a favor, a frustração deste desabafo podia ser a de muitos/as activistas do movimento LGBT (Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero) português, em contraste com a posição da associação ILGA Portugal e do primeiro deputado gay assumido, Miguel Vale de Almeida (MVA).
Nos últimos cinco anos, este sector – minoritário no movimento mas com grande visibilidade mediática – tem defendido uma estratégia de afunilamento do conjunto da agenda LGBT à reivindicação do casamento, apresentado como absolutamente prioritário, isoladamente da restante agenda e mesmo do conjunto dos ‘direitos familiares’. Esta ideia foi repetidamente refutada pela esmagadora maioria do movimento associativo, sem prejuízo de todo ele defender activamente a alteração legal. É duvidoso isolar ‘bandeiras’ de forma asséptica num país que, ao contrário de outros que alargaram o casamento, ainda não encara os problemas mais urgentes da discriminação, nem reconhece realmente a homofobia ou a transfobia como problemas sociais, como está claro na inexistência de medidas preventivas face a casos como o assassinato da transexual Gisberta, em 2006. De choque e espanto está o inferno cheio: na ausência do combate à discriminação, os problemas de base permanecem.
O quanto vai custar ao movimento nos próximos anos a imposição de um foco exclusivo no casamento, está claro na já certa exclusão da adopção por casais do mesmo sexo. O PS argumenta esta opção cobarde com a resistência criada pela mobilização em defesa de um referendo – fraca justificação, à luz dos sectores ultra-minoritários que a têm promovido.
Ao atribuir direitos com uma mão e, com a outra, legislar contra eles, o governo fará de Portugal o único país no mundo “com casamento” mas “sem adopção”; criará uma bizarria legal pela qual gays e lésbicas, casados/as ou não, podem adoptar crianças, mas não como casal; permitir-lhes-á casar, mas deixando no limbo legal a relação entre os filhos existentes ou eventuais e um dos seus pais. A obsessão geral com o tema ‘adopção’ oculta que o conjunto de direitos que está realmente em causa é tudo o que respeita a reprodução e parentalidade, como acesso legal à inseminação artificial por mulheres solteiras não inférteis, ou o reconhecimento de co-parentalidade para os muitos casais de gays e lésbicas com filhos, que naturalmente não esperam aprovação social e legal para os terem. Gays e lésbicas sempre foram pais e mães nas relações heterossexuais com que se defendiam, ocultando a sua verdadeira orientação sexual. Hoje, estamos apenas a fazê-los em liberdade.
É claro que ‘casamento’ não implica ‘reprodução’. Mas, negar a possibilidade de existência de crianças, e o interesse superior dessas crianças, não é um reconhecimento real das várias formas de família. Nem uma nem outra perspectiva parecem estar a impedir o executivo de ponderar unir num só projecto-lei os temas ‘casamento’ e ‘adopção’, forçando a restante esquerda parlamentar – mesmo a favorável à adopção por casais do mesmo sexo – a votar favoravelmente a discriminação na adopção se não quiser impedir o alargamento do casamento. O PS evitaria assim assumir sozinho à esquerda a introdução explícita de uma nova discriminação em função da orientação sexual em Lei do século XXI, a primeira desde que a Constituição a previne. Mas, ao colocar o conjunto do Parlamento a dizer ao país, em uníssono, que “podemos casar, mas não se nos pode confiar uma criança”, qualquer citação de Zapatero sobre “uma sociedade que não humilha os seus membros” fica mal na boca do primeiro-ministro: não concebo maior humilhação. É esta a “legitimação social” que o casamento trará às famílias de gays e de lésbicas, a discriminação onde o preconceito é mais danoso e mais se tenta deslegitimá-las: reprodução e parentalidade?
A proposta do PSD de uma união civil é a de um “casamento de terceira”. “De segunda”, é o que o Parlamento se prepara para aprovar. E a responsabilidade do PS não dilui a do sector do movimento que há muito lhe diz que a “igualdade pela metade” seria aceitável.
Em entrevistas recentes, MVA defende o separar de legislações e diz esperar que o tema ‘adopção’ possa resolver-se na actual legislatura. Porém, o deputado sabe que a “esperança” carece de fundamento, desde logo porque as contradições internas do PS que impõem esta via parcial não têm solução à vista. E sabe que contribuiu para o oposto: ao tentar convencer as restantes opiniões a calarem o tema da adopção, MVA chegou a brandir, em reunião associativa pouco antes de ser candidato, “garantias pessoais” de José Sócrates de que esta seria simultaneamente viabilizada “pela surra”. Além de já então não ser credível – ou desejável – que assim fosse, o silenciar dos temas parentais abandonou-os, sem resposta adequada, à argumentação terrorista do temor de “entregar crianças a homossexuais”, e vai adiá-los sine die e por muitos mais anos do que permitiria uma abordagem de conjunto aos direitos familiares.
É muito pouco, mesmo para uma “política do possível”. Não questiono o valor da eleição de um gay assumido com intervenção pública de longa data em favor da causa. Mas questiono o acordo geral do movimento LGBT com a sua estratégia minoritária.
Valorizo que o primeiro-ministro exprima vergonha pública pela forma com têm sido tratadas “as pessoas homossexuais”, e sei que MVA fez parte dessa ‘abertura de espaço’. Mas a votação parlamentar que se aproxima vai confirmar que pouco mudou na forma como nos trata o poder político: a igualdade não estará na ordem do dia.
STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS 2012 – II
18 de Setembro de 2009 por Sérgio Vitorino




Página da Campanha Internacional: http://stp2012.wordpress.com/
STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS 2012
15 de Setembro de 2009 por Sérgio Vitorino
A campanha internacional Stop Trans Pathologization-2012, sobre a qual se realizam este fim de semana duas sessões de esclarecimento, em Lisboa e no Porto, é uma campanha pela despatologização das identidades trans (transexuais e transgéneros) e a sua retirada dos catálogos de doenças (o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), da American Psychiatric Association, cuja versão revista surgirá em 2012, e o ICD (International Classification of Diseases), da Organização Mundial de Saúde, que sairá em 2014).
Assumida, até ao momento, por mais de 100 organizações e 4 redes internacionais em África, na Ásia, na Europa e na América do Norte e do Sul, a campanha coordena, a 17 de Outubro, uma mobilização internacional simultânea em mais de 30 cidades de 17 países europeus e no continente americano. A data será também assinalada com uma concentração em Lisboa.
- Exigimos a retirada da transexualidade dos manuais de doenças mentais (DSM-TR-IV e CID-10). No auge da polémica internacional sobre a intersexualidade da atleta sul-africana Caster Semenya, exigimos o fim dos tratamentos a bebés intersexo.
- Reivindicamos o direito a alterar o nosso nome e sexo em todos os documentos oficiais sem ter que passar por nenhuma avaliação médica, nem psicológica, ou por tratamento obrigatório ou diagnóstico. O Estado não deve ter qualquer jurisdição sobre os nossos nomes, os nossos corpos e as nossas identidades.
Fazemos nossas as palavras do movimento feminista na luta pelo direito ao aborto e o direito ao próprio corpo: reivindicamos o nosso direito a decidir livremente se queremos ou não modificar os nossos corpos, sem impedimentos burocráticos, políticos, económicos, ou qualquer tipo de coerção médica. Queremos que os sistemas de saúde reconheçam que a classificação da transexualidade como doença mental, é transfóbica. Queremos que repensem o programa de “tratamento da transexualidade”, fazendo do acompanhamento psicoterapêutico uma opção voluntária e da avaliação psiquiátrica um passo desnecessário. Defendemos o acesso à assistência médica e tratamento hormonal e cirúrgico pelos serviços públicos de saúde às pessoas trans que o procurem.
Exigimos também o fim das operações a recém-nascidxs intersexo.
Denunciamos as dificuldades no acesso ao mercado laboral das pessoas transexuais e transgéneros. Exigimos que se garanta o acesso ao mundo laboral, e a adopção de políticas específicas para acabar com a marginalização e a discriminação destas pessoas.
Exigimos, além disso, condições dignas de saúde e segurança para trabalhadorxs sexuais e o fim do assédio policial a que estão sujeitxs, bem como do tráfico sexual.
Exigimos a concessão imediata de asilo político às pessoas trans imigradas que chegam ao nosso país fugindo de situações de violência extrema. Reivindicamos para as pessoas migrantes a equiparação plena de direitos. Denunciamos os efeitos da política actual de imigração sobre os sectores socialmente mais precarizados.
Queremos também recordar todas as agressões, assassinatos e os suicídios das pessoas trans causados pela transfobia. Não somos vítimas, somos seres activos e com capacidade de decisão sobre a nossa própria identidade. A transfobia mata. O silêncio também.
Portugal ainda se lembra do assassinato transfóbico da transexual Gisberta, há três anos, no Porto, às mãos de um grupo de adolescentes, e do assassinato da transexual Luna, em Lisboa, dois anos depois.
Ainda assim, as pessoas trans continuam inteiramente desprotegidas perante a discriminação social e um sistema médico-legal que as discrimina e precariza.
Em Portugal, o processo médico e legal das pessoas transexuais é longo e penoso, contribui para a vulnerabilização das suas vidas. A mudança de nome e sexo nos documentos de identificação tem como pré-condição ter-se feito o processo cirúrgico de “mudança de sexo” e passado pela psiquiatrização obrigatória ao longo de anos.
Mas isso não basta. Mesmo após o tratamento hormonal e cirúrgico, a alteração do nome e do sexo nos documentos de identificação só é permitida após uma longa verificação da “mudança de sexo”. Não basta o relatório redigido pelos médicos e cirurgião, por exemplo, do Hospital Santa Maria – este ainda tem de ser aprovado pela Ordem dos Médicos, sem qualquer contacto directo com a pessoa, um caso único na Europa. Mas também não basta o parecer da Ordem dos Médicos: o tribunal exige a violência de uma verificação dos genitais reconstruídos pelo Instituto de Medicina Legal. Não bastando tudo isto, ainda tem que haver uma decisão judicial.
Assim, em Portugal, exigimos ainda:
- A inclusão da “identidade de género” no artigo 13º da Constituição da República.
- Uma Lei da Identidade de Género.
- Fim do parecer obrigatório da Ordem dos Médicos sobre os processos de transexuais.
- Direito à mudança de nome e sexo nos documentos de identificação sem tratamento obrigatório ou diagnóstico, ou qualquer avaliação médica ou judicial.
- Fim da esterilização obrigatória de transexuais masculinos, recentemente abolida em Espanha.
- Educação e protecção contra a Transfobia.
Página da Campanha Internacional: http://stp2012.wordpress.com/
CRENÇAS E VALORES, ou o que nós ainda temos de aturar
10 de Maio de 2009 por Sérgio VitorinoReproduzo a segunda parte da crónica de Daniel Sampaio na Pública de hoje:
“CRENÇAS E VALORES
(…)
Às vezes desaparecem os valores (como no exemplo anterior) e surgem as crenças. O Público de 2 de Maio continha um artigo intitulado “Tratamentos para alterar orientação sexual não são uma coisa do passado”. Tudo começou com a petição online de um homem de trinta anos que reclama “um comprimido, uma injecção”, para fazer face ao “enorme desgosto por sofrer de tendências homossexuais”. Na pesquisa do jornal, destacam-se pela negativa declarações de psiquiatras portugueses que surgem na tradição homofóbica de alguma psiquiatria, que felizmente o conhecimento científico há muito condenou. Dezenas de anos depois da homossexualidade ter deixado de ser considerada doença pela comunidade internacional, alguns dos nossos psiquiatras (com responsabilidades!) falam de “homossexualidade primária”, com “cunho biológico marcado” e de “homossexualidade secundária”, ou desenvolvem a possibilidade de “re-enquadrar a identidade de género e as opções de relacionamento sexualizado”.
O problema não é saber se os psiquiatras podem tratar homossexuais, a questão é que não devem. É certo que muitos homossexuais revelam sintomas psicopatológicos, mas a análise cuidada dessas manifestações demonstra que elas são devidas à discriminação sofrida: quem não se sentirá mal se for alvo sistemático de troça ou de humilhação? O papel dos terapeutas, perante um eventual pedido, deverá ser o de capacitar para a luta contra a homofobia, ajudando a que sejam capazes de afirmar a sua orientação sexual primeiro junto de pessoas próximas, depois (se o desejarem) em contextos mais alargados.
Quando psiquiatras portugueses admitem “tratar” a homossexualidade (alinhando, portanto, na velha e ultrapassada ideia da “doença homossexual”), estão também a manifestar intolerância contra quem é diferente. As declarações são ainda mais graves quando já se iniciou entre nós a discussão sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, porque não faltarão referências a estas posições como justificativas da não alteração da legislação sobre o casamento, embora elas não possuam qualquer justificação. O caso é ainda mais sério quando a posição ideológica provém de alguém com responsabilidade na Ordem dos Médicos, mas serve para todos: mais uma vez as vozes de alguma Psiquiatria portuguesa continuam ao lado da ideologia mais retrógrada, em vez de se colocarem no sentido do avanço da ciência.”
Mais disto, não.
9 de Maio de 2009 por Sérgio Vitorino«(…)D já nem pensa na transexual (…) que agrediu.
Sérgio tem dificuldade em adormecer com o tráfico que a cada noite renasce em frente ao seu quarto.
Ana quer ser traficante.
Carolina foge da comunidade terapêutica e seduz “velhos” para comprar droga.
Numa pensão manhosa, uma menina espera pela mãe que bate o passeio à espera de clientes.
António e Idalino levantam-se cedo para mendigar – como fizeram os irmãos, que entraram em filmes pedófilos.
Rita já abortou três vezes e já teve uma filha do namorado que a maltrata.
Meia dúzia de miúdos troca história de terror numa casa-abrigo.
Manuel é empurrado da mãe para o pai, do pai para a avó, da avó para o avô, e posto a trabalhar numa sucata.
Celso tomou uma atitude. (…)
Ruben, que roubava com gozo, mudou de rumo, parece outro.
Dezoito histórias de miúdos para despertar graúdos.”
“Meninos de Ninguém”, da jornalista Ana Cristina Pereira, da redacção do Público na Invicta, é apresentado hoje às 18h, na Praça Principal da Feira do Livro, em Lisboa. Postfácio de Luís Fernandes.
Percorro-o, mas concentro-me no primeiro e no último testemunho do livro. É-me emocional.
Um calafrio… Encontrar-me com o outro lado de um crime que conheci tão bem, do lado da transexual, prostituta, toxicodependente, doente, degradada, maltratada, abandonada, torturada e morta Gisberta. Talvez pela primeira vez, agora, eu veja com nitidez os rostos do outro lado, que buscara, e não estão menos degradados do que o dela. Vejo rostos de crianças e os rostos de adultos que permitiram rostos de crianças assim e que também já foram crianças. Vejo rostos, e esse é o poder nas palavras escritas da Ana Cristina Pereira, e o que nelas mais faz doer em nós.
Um arrepio na espinha. Com o que ficou da morte da Gisberta, das vidas destes rapazes, da consciência colectiva do que se passou, do que se passa, do que se continuará a passar. Com a indiferença, ela mata. Com um país de desigualdades em que juízes acham que é uma brincadeira de crianças matar, um país que ensinou a matar como quem brinca, ou que simplesmente, deixou de ensinar. A não ser a discriminar. A excluir, uns e outros, a Gi como os meninos e as meninas de ninguém, tantos… Estes e os outros que esta jornalista conheceu, e todos os outros de que não falamos. Continuaremos a olhar para o lado, desde que não nos forcem a cheirar bem perto do rosto aquilo que é demasiado e não queremos ver. Como quando um corpo é encontrado num poço de mãos atadas atrás das costas.
Um sentimento de espelho, revejo realidades que me são tão próximas só pela maldição de andar pela vida de olhos abertos. Revê-las pelo olhar de uma jornalista, um jornalismo, humano, honesto. Confrontador, como deve ser. Um choque violento. Já não sabemos nada. Já sabíamos e ainda assim não queremos acreditar. Um murro no estômago. Vários. Outra vez. Obrigado. Repensar, aprender. Não fechar os olhos, não baixar os braços, não descarregar para os outros o que é responsabilidade de todos e de todas. Mudar e fazer acontecer a mudança. Mais disto, não. As Gisbertas, queremo-las vivas e a viver. As crianças, não as queremos a matar. Não queremos mais meninos de ninguém.
Este é o primeiro livro de Ana Cristina Pereira. O livro tem um BLOG e uma pré-história, pedaços dele já têm andado a ser lidos, anda “a escancarar a dura realidade de crianças que crescem em territórios críticos deste Portugal do princípio do século XXI.” Dói aquela dor que acorda.
Eu fumo o que eu quiser
7 de Maio de 2009 por Sérgio VitorinoEscrevo enquanto enrolo a ganza que vou fumar assim que der por terminado o dia de trabalho. Conheço, fumo, aprecio, e só não planto porque a minha gata daria rápida e ligeiramente cabo dos meus esforços agrícolas, ou a cannabis é mesmo boa e ela sabe, ou simplesmente é uma planta porreira para bolsar uma bola de pelo de vez em quando. A minha gata, como eu, é adulta, toma as suas decisões em consciência, e sabe melhor do que o Estado o que é melhor para si.

Depois do Porto, é já este sábado que a Marcha Global da Marijuana, da qual sou mandatário, sai à rua em Lisboa, Braga e Coimbra. A marcha realiza-se, desde 1999, no primeiro sábado de Maio, em mais de 200 cidades, e denuncia em primeiro lugar que o facto de a cannabis ser considerada uma substância ilegal tem consequências sociais e sanitárias bem mais gravosas do que se fosse um produto legal. A Marcha parte do Largo do Rato às 16h00, com destino ao miradouro de Stª Catarina (Adamastor), onde alguns mandatários e convidados vão fazer intervenções pela legalização.
Na verdade, a Marcha da Marijuana, concentrando-se na mais inofensiva das drogas ilegais (e mesmo se o não fosse, a decisão continua a ser minha de consumi-la), é uma denúncia mais vasta das políticas proibicionistas que à escala global têm não só entregue o negócio das drogas às máfias do narcotráfico; como misturado, com consequências terríveis, os mercados de drogas duras e leves; precarizado e marginalizado as condições de acesso dos consumidores às substâncias; sido pretexto para guerras e acções militares imperialistas; corrompido sistemas políticos inteiros; comprometido a economia e a independência de nações, veja-se a importância do cultivo da folha de coca na América Latina, ou a importância para a economia marroquina do charrinho que vou fumar daqui a pouco; atrasado ou impedido o desenvolvimento de políticas de redução de danos e riscos sérias e comprometido políticas de prevenção informadas; criminalizado um consumo consciente e socialmente inofensivo; enchido as prisões de consumidores de drogas leves; negado os benefícios da produção da cannabis, da sua utilização médica para algumas das doenças mais graves e até algumas das que não têm cura, do seu potencial como fonte de fibra ou de produção de pasta de papel e de substâncias convertíveis em energias renováveis; diabolizado uma planta em função de um ideal erradicador das drogas que além de tonto, utópico e, no que me toca, indesejado (quero mesmo fumar a ganzinha), tem o perigo evidente de achar que uma planta, ou as substâncias, são o “mal”, em vez de se concentrarem, para mais nesta sociedade de consumo e da ideologia do prazer imediato, no razonamento do uso que delas fazemos (coisa que aliás faria bem à taxa de alcoolismo).
Despenalização da posse, consumo e cultivo de cannabis e de todos os produtos derivados desta planta, bem como a criação de regulamentação para o fornecimento, comércio e compra legal por adultos e uma regulamentação para estabelecimentos públicos onde o consumo por adultos seja permitido, tudo isto eu subscrevo. E nem sequer apenas para a cannabis, que os problemas mais sérios estão nas drogas mais duras e nas novas drogas sintéticas, seguramente não no meu charrinho.
Petição à Assembleia da República solicitando a legalização da canábis para auto-cultivo (cultivo para consumo próprio) e a sua venda em estabelecimentos autorizados a maiores de idade. Aqui
TRABALHO SEXUAL: NÃO FINJA QUE NÃO VÊ
2 de Maio de 2009 por Sérgio Vitorino
Ontem foi bom e foi importante. Foi também uma estreia, e nem a passagem de Vital Moreira pelo desfile da CGTP o fez passar despercebido ao jornalista que escreveu o artigo de abertura do Público de hoje. Um grupo de trabalhadoras do sexo do Intendente foi por sua iniciativa própria ao 1º de Maio. Umas levaram as filhas, aquelas que a segurança social retira não necessariamente com mais do que o critério único da profissão da mãe. Outras levaram voz e garra. Sem grandes teses ou reivindicações sobre a profissão. Não é que não as vão já debatendo, e que não digam “queremos direitos”. Não, mas antes disso e antes de mais, colocar o dedo na ferida do estigma e da violência, quer aquela a que se sujeitam nas ruas, quer a do preconceito social que fez pesados os olhares do público à sua chegada à Alameda. O estigma. A forma como são tratadas pelo Estado e pelos comuns de nós. Quanto mais não seja quando olhamos para o lado todos os dias, aqueles que não somos seus clientes, e não vemos realidades duras, muito duras, que não podem continuar a ser ignoradas. “Prostituição: Não ao preconceito, Sim, à pessoa”, era o que queriam dizer, e que também são trabalhadoras.
A mim fez-me lembrar as primeiras presenças de homossexuais, enquanto tal, nos desfiles da CGTP no 1º de Maio. 1992, a primeira vez, com embaraço público da central, hoje com outros olhos para a questão. Mas não conseguiram fazer-nos sentir ‘aliens’ totais, e os olhares foram mudando.
Um pequeno grande passo, o destas mulheres. Que os seus passos ecoem. Que consigam um dia destes fundar a associação de que falam. Contem comigo.
Na Europa “civilizada”, para aprofundar ainda mais o policiamento anti-emigrantes, o tempo é de alterações legais restritivas, persecutórias e precarizantes das trabalhadoras do sexo que enfrentam piores condições de vida, curiosamente a pretexto da luta contra as redes de exploração de mulheres. No Portugal do sexo insistentemente tabú e mal vivido, da discriminação, uma aliança – alguns dirão contra-natura outros bizarra – entre um grupo lgbt (panteras rosa), uma instituição católica, (irmãs oblatas), PROJECTO IR (CEM – Centro Em Movimento) e um conjunto de trabalhadoras do sexo de uma das mais degradadas zonas de Lisboa, ajudou a trazer à rua a denúncia da hipocrisia sobre a existência da prostituição. Essa profissão quer voluntária, quer recurso extremo, quer de mulheres, quer de homens, quer de transexuais, em tantos e variados contextos e diferentes situações, mas com tanta experiência comum. Uma aliança natural, digo eu, quando leio declarações da responsável das oblatas ao Público que “se Jesus fosse vivo andaria a distribuir preservativos às prostitutas”. As minhas alianças são também as de quem intervém de forma humana e progressista na área das ’sexual politics’. Sobretudo em Portugal. Eu não diria melhor.
Tiro o chapéu a estas mulheres auto-organizadas que ontem passaram desfilando frente ao seu local de trabalho e cumprimentaram colegas a partir da marcha, enquanto cantavam junto com as pessoas que se manifestaram no MAYDAY 2009 “hoje, 1º de maio, há precárias a trabalhar!”. Confio que no próximo ano sejam também, se não ainda muitas, certamente mais, porque esse é o efeito dos primeiros exemplos quando são corajosos.

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tags: 1º de Maio, 2009, CGTP, prostituição, Sexo, Vital Moreira
O Precariado rebela-se… e festeja a luta!
16 de Abril de 2009 por Sérgio Vitorino“Somos Muitos +” :: Festa MayDay Lisboa 2009
O MayDay Lisboa 2009 já está a divulgar aquela que será a grande iniciativa antes da parada do 1º de Maio: “Somos Muitos +” é a Festa MayDay, para acumular energia para o dia 1 de Maio, que se aproxima.
Nesta Festa, há concertos e muita animação, mas também um espaço para construir materiais para utilizar durante a manifestação do 1º de Maio; há bancas de várias associações e movimentos; e há, claro, copos e conversas para partilhar, num convívio que quer juntar energia para fazer mais uma grande parada de precários e precárias.
É já na próxima 6ª feira, no Ateneu Comercial de Lisboa (ao lado do Coliseu). A tua presença é muito importante. Este é um ponto alto da mobilização do precariado e toda a gente está convocada! E esta será certamente mais uma imperdível grande Festa MayDay!!
A exploração está na moda entre patrões e governos, somos cada vez mais aqueles e aquelas que vivem vidas permanentemente precárias. Somos muitos mais do que dizem as estatísticas. Somos mais do que números, somos pessoas. E lutamos para que as nossas vidas não sejam assim para sempre. Estamos a meio de um percurso que junta diversidade na recusa, com a força e energia de cada um de nós. Queremos ser muitos e muitas mais, para fazer uma grande parada no 1º de Maio!
Vem festejar a recusa da precariedade! Contamos contigo!
17 de Abril, 6ª feira :: a partir das 22h
Ateneu Comercial de Lisboa
Rua das Portas de Santo Antão, 110 (perto do Coliseu)
Metro: Restauradores 
CONCERTOS de As Tucanas e Pedro e Diana
DJ’s Crew Hassan :: JOGOS :: FILMES :: Music battle*
Construção de materiais para o 1º de Maio :: BANCAS
O PRECARIADO DÁ LUTA!
* traz o teu leitor de música portátil com as tuas músicas para também fazeres a festa! Na “Music battle” cada pessoa que queira pode escolher uma música com a ajuda do DJ e levar a festa ao rubro!!
Um homem é um falo, uma mulher um receptáculo
13 de Abril de 2009 por Sérgio Vitorino
Um artigo de Sara Gamito, no DN de ontem, lembrava que a “Lei portuguesa proíbe que transexuais engravidem”.
Ou seja, “Portugal obriga qualquer mulher que se queira tornar num homem a apresentar documentos a provar que retirou os ovários e o útero”. O mesmo acontece, aliás, mesmo que o artigo não o refira, no caso das transexuais femininas, que no fim do longo, moroso e obstaculizante pesadelo médico-judicial a que têm de submeter-se todas as pessoas que pretendam “mudar de sexo”, só obtêm documentos de identificação de acordo com o género escolhido e vivido após comprovação da faloplastia, ou seja, de que não possuem já o membro viril que, naturalmente, não pode ser tolerado num corpo de mulher. “Naturalmente”, porque a moral que determinou tanto o discurso e a prática médica, como a legislação actual sobre transexualidade, não parte de outra base senão a da “naturalidade” das coisas, a “naturalidade” do padrão maioritário versus a aberração do que escapa à norma, a mesma moral que confunde sexo biológico (corpo, hormonas, genes, genitais) com género (identificação pessoal face aos conceitos socialmente construídos de masculino e feminino), uma moral machista baseada num sacrossanto e intocável binarismo de género a partir do qual, entre os humanos, só existiriam homens e mulheres, e que entre um e qualquer outro ser humano a combinação entre genes, hormonas e genitais seja irrepetível, é uma verdade que ameaçaria o dogma inquestionável de que homens e mulheres são coisas claramente definidas pela natureza, que um homem não pode ter uma vagina ou um útero, e uma mulher não pode ter um falo, cruz credo, ai que nos levam as poucas certezas que ainda tínhamos. Ler o resto »
Segurança Selectiva
10 de Abril de 2009 por Sérgio VitorinoEste meu amigo tem vinte e poucos anos, é cidadão sueco, de origem iraniana, vive entre nós. Para ele até agora, Lisboa era um local pacífico. A orientação sexual do meu amigo não vem à baila, mas o facto de há uma semana atrás, noite de quinta-feira, ele ir para casa vindo de uma festa, e ir de olhos pintados, isso sim. Pior, levava umas flores na mochila. Para qualquer instinto mais… automático, “um paquistanês ‘quéfrô’ e além disso paneleiro”?
Foi esse o provável instinto do grupo de polícias que encontrou praticamente à porta de sua casa. Eram 4h de quinta para sexta, está a chegar a casa, desce a Rua das Escolas Gerais vindo da Graça, e passa por cerca de 10 agentes com coletes à prova de bala e ‘shotguns’, coisa grossa portanto… paravam um automóvel que aparentemente haviam perseguido e interpelavam os ocupantes.
A cena estava já montada, e o meu amigo passava. Foi interpelado por uns dos agentes, a querer averiguar dos seus pertences. Um agente manda-os para o chão, outro começa a gritar com ele.
O meu amigo não entendeu o que lhe diziam, fala muito pouco português, mas perguntou ao agente porque o tratava daquela forma, para ser atingido com um soco no rosto.
Desorientado e magoado, apela à calma. Um agente puxa-lhe pela mochila, e descobre… flores. Então cai o Carmo e a trindade de galhofa, não sabemos o que diziam mas imaginamos, florzinhas e olhos pintados, olha o paquistanês!
O gozo homofóbico e racista depois da agressão. Mandam-no embora – desaparece daqui-, e quando começa a andar um outro agente tenta derrubá-lo passando-lhe uma rasteira, perante o riso do conjunto do bando. Pergunto-me se a violência policial conta para as estatísticas do crime violento…
Lábio rebentado, dirigiu-se a casa, ligou ao 112, disseram que mandavam uma viatura, mas não apareceu. Na manhã seguinte, foi à esquadra de polícia, no Rossio, a dos turistas, onde registou uma queixa. Sem tradutor, para quê um tradutor, não fala português? E não sem ser de novo gozado – alguma fizeste… – quando diz que os agressores eram polícias. Ou eram bandidos?
Acho que sim. Temos um sério problema de segurança em Portugal.

