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	<title>cinco dias &#187; Rui Tavares</title>
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		<title>Ideias em tempo de crise</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Oct 2008 12:21:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Já estou habituado a nunca ter lido nada do Prémio Nobel da Literatura quando ele é anunciado. Invulgar é ter lido neste Verão o último livro do Nobel da Economia. The conscience of a liberal, de Paul Krugman (em português &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/10/16/ideias-em-tempo-de-crise/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já estou habituado a nunca ter lido nada do Prémio Nobel da Literatura quando ele é anunciado. Invulgar é ter lido neste Verão o último livro do Nobel da Economia.</p>
<p>The conscience of a liberal, de Paul Krugman (em português uma tradução seria &#8220;Uma consciência de esquerda&#8221;), é um ensaio sobre história política e as suas consequências económicas e sociais. A certa altura do seu livro, Krugman convida-nos a levar a sério algumas das políticas que F. D. Roosevelt seguiu para fazer face à Grande Depressão: &#8220;Enormes aumentos de impostos sobre os ricos, apoio a uma vasta expansão do poder dos sindicatos e um período de controlo dos salários para diminuir as diferenças entre extremos&#8221;, entre outras. Não duvido de que para um leitor de direita esta seja uma visão do inferno. Para Krugman, aquelas medidas &#8220;igualitárias&#8221; foram as grandes responsáveis por uma sociedade preparada para crescer e dar conforto a milhões de pessoas nos anos 50 e 60.<br />
<span id="more-7901"></span><br />
O reverso da história é também conhecido. Em final dos anos 60, por razões que têm principalmente a ver com a história dos conflitos raciais nos EUA, os republicanos tomaram os bastiões brancos do Sul e passaram a dominar a política americana. Este domínio consolidou-se partir dos anos 80 com Reagan (e Thatcher na Europa) e com o tempo contaminou até o próprio centro-esquerda (a Terceira Via de Clinton e Blair foi a aceitação tácita deste predomínio, com algumas medidas periféricas de suavização). As consequências são as que temos agora: extremos de desigualdade e pobreza, menos mobilidade social e uma sociedade fragilizada perante as crises.</p>
<p>O apogeu da crença no mercado omnisciente e omnipresente levou Krugman a escrever isto há dois anos: &#8220;O modo de vida dos americanos é agora vender casas uns aos outros, com dinheiro emprestado pelos chineses.&#8221; Estava correcto e o veredicto soou nas últimas semanas: passámos à beira da catástrofe e para evitar o pior vamos gastar muito do dinheiro que antes nos diziam que não tínhamos para a educação, a saúde ou os transportes públicos.</p>
<p>Um aspecto interessante da carreira de Krugman, para nós portugueses, é o facto de ele ser um observador à distância do nosso país desde que aqui trabalhou em 1976. Já como economista célebre e colunista no New York Times, foi entrevistado em 2004 pelo Semanário Económico e sugeriu que o nosso investimento público se deveria centrar na educação e, em menor medida, nas infra-estruturas. Especialmente interessante para mim, como imagina quem costuma ler esta coluna, foi esta sugestão de política urbana: &#8220;Promover a identidade cultural e económica de uma cidade ajuda se se conseguir vender a cidade como um bom sítio para viver e visitar, tornando-a num bom local para fazer turismo, mas também para localizar um negócio.&#8221;</p>
<p>A esquerda e o centro-esquerda estão mais próximos agora do que alguma vez estiveram nas últimas décadas. Ambos preconizam hoje um reformismo social em torno do combate às desigualdades, aposta na educação e na mobilidade social, defesa da qualidade de vida em meio urbano, apoio às energias renováveis e regulação do mercado. Pode parecer pouco, mas já é mais do que suficiente para nos dar trabalho no próximo par de décadas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>É preciso ter lata</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Oct 2008 08:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não tenho qualquer razão para defender os executivos, mas não &#8211; a culpa da crise não está na &#8220;ganância dos executivos&#8221;. Os executivos não são mais gananciosos do que qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. As suas empresas agem no &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/10/14/e-preciso-ter-lata/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não tenho qualquer razão para defender os executivos, mas não &#8211; a culpa da crise não está na &#8220;ganância dos executivos&#8221;. Os executivos não são mais gananciosos do que qualquer outra pessoa em circunstâncias semelhantes. As suas empresas agem no interior de um sistema legal. Quem fez as leis ou &#8211; mais exactamente &#8211; quem revogou as leis que nos protegiam? Políticos. Quem elegeu os políticos? Nós.</p>
<p>Quem convenceu a maioria dos eleitores de que regular o mercado era indesejável? Os mesmos que agora querem pôr as culpas na &#8220;ganância dos executivos&#8221;. Por sinal, os mesmos que durante anos proclamaram (por outras palavras) que a &#8220;ganância dos executivos&#8221; iria resultar na prosperidade de todos.</p>
<p>Já ouviram algum deles dizer: &#8220;Andei nos últimos anos a defender ideias que agora se revelaram desastrosas&#8221;? Bem me parecia. Falar da &#8220;ganância&#8221; é fácil e inconsequente, porque jamais se poderá abolir a ganância. Podemos no máximo taxá-la com um imposto fortemente progressivo. Isso é que era falar.<br />
<span id="more-7692"></span><br />
Em Portugal tivemos o nosso miniescândalo do BCP. Há uma eternidade foi noticiado que os seus administradores andavam a &#8211; parafraseio o Wall Street Journal &#8211; forrar os bolsos com o dinheiro dos accionistas. A nossa opinião publicada não achou que fosse um sintoma preocupante.</p>
<p>Mas era. Se a administração do BCP era opaca aos seus próprios accionistas, que mais poderia ela fazer? Um monte de coisas, entre as quais (suspeita-se) comprar as suas próprias acções com recurso a empresas fictícias sedeadas em paraísos fiscais.</p>
<p>Isto pode ser crime, mas também pode ser que nunca se venha a saber, porque os paraísos fiscais acrescentam mais uma camada de opacidade. E eu não quero que me digam que é um escândalo e que é muito chato. Quero que me digam se são a favor de abolir os paraísos fiscais, e se agora acham que tinham razão aqueles que à escala global nos últimos anos defenderam a abolição dos paraísos fiscais.</p>
<p>Os vencimentos dos executivos podem ser um sintoma, mas também são uma causa de muitos dos problemas que agora vivemos. Não vale a pena lamentar que os gestores tenham corrido riscos elevados pelos lucros de curto prazo, quando permitimos que os seus incentivos fossem todos para fazer isso mesmo. Há muito tempo que se defende uma solução fácil: indexar os incentivos aos resultados de médio e longo prazo, para desmotivar a prática de embarcar em estratégias suicidas e deixar a batata quente ao sucessor.</p>
<p>A convencionalíssima opinião publicada em Portugal, contudo, não quis ir por aí. Deu-nos antes a convencional opinião de que isto eram matérias do &#8220;foro interno&#8221; das empresas &#8211; em que nem o Estado nem a sociedade poderiam meter o bedelho. É nossa sina ter de ficar a defender o dogma da moda, quando já ninguém acredita nele. Quando o Presidente da República falou nos vencimentos dos executivos, foi atacado pelos seus próprios apoiantes como &#8211; tenho aqui os recortes em casa &#8211; &#8220;populista&#8221;, &#8220;demagogo&#8221; e &#8220;de esquerda&#8221;.</p>
<p>E agora, sem dar o mínimo sinal de que entendem finalmente o problema, muitos dos mesmos vêm repreender a esquerda por ter falado no casamento gay quando há uma crise financeira à escala global.</p>
<p>Desculpem lá, mas onde estiveram vocês enquanto a crise nascia?</p>
<p><small>13.10.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>À beira de um disparate</title>
		<link>http://5dias.net/2008/10/09/a-beira-de-um-disparate/</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Oct 2008 09:50:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aminha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os &#8220;direitos dos homossexuais&#8221;. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/10/09/a-beira-de-um-disparate/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aminha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os &#8220;direitos dos homossexuais&#8221;. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de princípio, para mim, está toda aqui. Escrevi essa crónica sem mencionar a palavra &#8220;partidos&#8221;. Hoje falaremos de táctica partidária e, em particular, de como o PS se prepara para cometer um grande disparate ao obrigar os seus deputados à disciplina de voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.<br />
<span id="more-7401"></span><br />
Sim, eu sei: este assunto não estava no seu programa eleitoral do PS.</p>
<p>Mas o facto é que o BE e Os Verdes apresentaram propostas de alteração da lei. Perante isto, o PS tem apenas duas formas de se manter fiel à sua promessa (ou não-promessa): dar liberdade de voto aos seus deputados ou, se fosse para escolher a disciplina de voto, abster-se em bloco.</p>
<p>Mas o que o PS vai fazer é o pior de dois mundos: obrigar à disciplina de voto e votar contra, por medo de perder votos ao centro. Isto poderia fazer sentido táctico, numa condição: se o PSD fizesse o mesmo. Acontece que o PSD decidiu dar liberdade de voto aos seus deputados e pelo menos alguns votarão a favor. Nesta situação, o raciocínio muda: o PS passa a ter de se preocupar mais com os votos que perderá à sua esquerda, e não ao centro.</p>
<p>Peguemos no último estudo da Eurosondagem. Onde estão os melhores resultados do PS? Geracionalmente: entre os 26 e os 35 anos. Geograficamente: em Lisboa e no Porto. O que têm em comum estes dados? Muito simples: maior porosidade com o eleitorado do BE e, supõe-se, menos oposição ao casamento &#8220;homossexual&#8221;. Abaixo dos 26 anos, por comparação, o PS já perde três por cento para o BE.</p>
<p>Pode defender-se que só para uma minoria de eleitores este é um tema prioritário. O que interessa é saber quantos destes eleitores eram do PS e para quantos este não é um tema de identidade mas de igualdade, o que para um eleitor de esquerda pode ser decisivo. Sei uma coisa: os votos perdidos vão aumentar com o tempo, à medida que mais jovens chegam à idade eleitoral e a polémica se prolonga.</p>
<p>Já vimos este filme. As contradições de António Guterres em relação ao aborto foram o factor decisivo para o nascimento do BE &#8211; que, logo nas primeiras eleições a que concorreu, impediu o PS de chegar à maioria absoluta.</p>
<p>Dando liberdade de voto aos seus deputados, o PS dispersaria as perdas e estaria mais defendido. Se a alteração não passasse, poderia pôr as culpas na &#8220;precipitação&#8221; do BE e de Os Verdes. Se a alteração passasse, poderia dizer que a proposta não foi sua e que alguns deputados do PSD também votaram a favor.</p>
<p>Para jogar seguro, o PS poderia abster-se. Mas, ao votar contra, o PS não garante apenas que o casamento &#8220;homossexual&#8221; seja chumbado.</p>
<p>Garante que este venha a ser um tema prolongado, tal como foi o aborto durante dez anos. Chegarão entretanto mais eleitores jovens e urbanos, ainda mais difíceis de disputar com o BE. Para estes, a história será simples: em Portugal, há discriminação legal contra homossexuais (ao contrário do que diz a Constituição e do que se passa em Espanha) e a culpa é do PS. Santo amadorismo.</p>
<p><small>08.10.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Que globalização é irreversível?</title>
		<link>http://5dias.net/2008/10/02/que-globalizacao-e-irreversivel/</link>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2008 08:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As palavras nunca são inteiramente claras nem constantes, mas ainda assim teimamos em sustentar anos de discussão em cima delas. Vejamos a palavra &#8220;globalização&#8221;, de que se falou estes anos todos. Tinha três características: era uma coisa; era recente; era &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/10/02/que-globalizacao-e-irreversivel/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As palavras nunca são inteiramente claras nem constantes, mas ainda assim teimamos em sustentar anos de discussão em cima delas. Vejamos a palavra &#8220;globalização&#8221;, de que se falou estes anos todos. Tinha três características: era uma coisa; era recente; era irreversível.</p>
<p>Em primeiro lugar, a globalização não é só uma coisa. Há a globalização financeira e a dos mercados, que é a de que se fala. E há outra, porventura mais importante, que é uma globalização comunicacional e tecnológica.</p>
<p>A globalização económica não é recente e muito menos irreversível. O mundo não é plano nem cada vez menor: basta aumentar o preço do petróleo e lá fica ele maior outra vez. Basta mudar a lei e lá fica ele proteccionista outra vez. No século XVIII era possível atravessar a Europa sem passaporte e demorámos duzentos anos até poder fazê-lo de novo. Antes da I Guerra Mundial o mundo era mais globalizado do que foi durante quase todo o século XX. Há um século havia mais emigrantes no mundo, proporcionalmente, do que há hoje em dia (só que eram europeus na América e África, e não o contrário).<br />
<span id="more-6892"></span><br />
A globalização cultural está para durar. O petróleo, o crédito e as tarifas alfandegárias não a detêm. A sua força propulsora é a das tecnologias da comunicação, que por sua vez assentam em códigos culturais partilhados e &#8211; em especial &#8211; num idioma comum. Aqui entra a importância, para nós, da língua portuguesa. Ela será sempre subaproveitada enquanto nos mantivermos numa atitude de rejeição e desconhecimento em relação ao resto do mundo lusófono. O cartão postal que Pedro Santana Lopes enviou ao escritor brasileiro Machado de Assis &#8211; que morreu há cem anos feitos esta semana &#8211; é a medida dessa ignorância. Que tal aproveitar o centenário para ensinar Machado de Assis nas nossas escolas, tal como os brasileiros ensinam Camões e Pessoa nas deles? Que tal aproveitar, aliás, para começar a respeitar o Brasil, uma potência regional emergente cujos emigrantes são uma boa parte da nossa força de trabalho?</p>
<p>Mas o português não basta, tal como não basta uma única língua estrangeira. Nenhuma medida seria mais importante agora do que generalizar o ensino do espanhol no quinto e sexto ano de estudos, como foi generalizado o inglês recentemente. Dois anos de espanhol são suficientes para formar uma geração de estudantes e diversificar o nosso potencial neste hemisfério. Pouco custo, muito benefício.</p>
<p>Esta é uma globalização do conhecimento, em particular de nível superior. Vejo o reitor da Universidade Católica defender o aumento das propinas na Universidade pública, e só penso: que tiro no pé.</p>
<p>Propinas altas diminuem a mobilidade social, aumentam as desigualdades e prejudicam a liquidez de que mais precisamos: na circulação de ideias.</p>
<p>Se há ensinamento a retirar da predominância dos EUA no século XX é que um país confiante e aberto é um país que absorve melhor as pessoas (exemplo: os intelectuais em fuga da Europa, judeus em particular, que Salazar não quis que ficassem por cá), as suas ideias &#8211; e as suas soluções. A mesma América que agora, sucumbindo ao medo, se fechou num buraco. A Europa deveria aprender com isso para esta globalização que não pára. Ao menos que aprendesse Portugal.</p>
<p><small>01.10.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Luz sobre Lisboa</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/30/luz-sobre-lisboa/</link>
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		<pubDate>Tue, 30 Sep 2008 09:03:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Segundo o UrbanAudit, serviço da UE, Lisboa é a cidade média/grande mais desvitalizada de toda a Europa a 27. Não há notícia, em toda essa Europa, de um parque habitacional tão fragmentado — excepto em pequenas cidades romenas que perderam &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/30/luz-sobre-lisboa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Segundo o UrbanAudit, serviço da UE, Lisboa é a cidade média/grande mais desvitalizada de toda a Europa a 27. Não há notícia, em toda essa Europa, de um parque habitacional tão fragmentado — excepto em pequenas cidades romenas que perderam a indústria mineira. Lisboa perdeu, em trinta anos, trinta por cento da população. Para os leitores do resto do país que podem estar fartos de ouvir falar da capital, pensem nisto como um caso extremo dos problemas que podem afligir também as vossas cidades.</p>
<p>Tal como uma cidade saudável pode ser o motor do renascimento de um país ou região, uma cidade encalhada é um obstáculo a mais para a sua recuperação. A criação de uma política urbana, sistemática e bem articulada, deveria estar na prioridade da agenda nacional. Mas a cultura política dominante tem sido exactamente a oposta: a do casuismo como forma de acção. Um caso recente é o emblema do que acabo de escrever.</p>
<p>A notícia de que a Câmara Municipal de Lisboa andou, durante sucessivas vereações, a distribuir casas de forma arbitrária, ao serviço da cunha e do episódio individual, é evidentemente um escândalo político. É até mais do que isso: o símbolo do tempo desperdiçado e dos recursos mal empregues que poderiam ter sido usados para benefício da cidade.<span id="more-6783"></span></p>
<p>António Costa tem de agir rapidamente nos dois planos.</p>
<p>Em primeiro lugar, interromper a prática não basta. Se for verdade que uma vereadora beneficiou dela, mesmo que em tempos de outro presidente, a própria vereadora tem que vir dar explicações a público.</p>
<p>Se as explicações não forem satisfatórias, terá de demitir-se. É tão simples quanto isso. Sem essa acção nunca a câmara se poderá credibilizar para o passo que se segue.</p>
<p>A utilização do parque habitacional da câmara pode — e deve — ser uma ferramenta ao serviço da revitalização da cidade. Mas esta é uma política pública por excelência: com património público, para benefício último do público, e de maneira a que tudo se passe em público.</p>
<p>Para dar um exemplo: sim, é verdade que os artistas são muitas vezes o primeiro motor do renascimento de um bairro. Não é raro — e não é mal pensado — que os poderes municipais, por esse mundo fora, se empenhem em cativar as classes criativas para certos pontos da cidade. Mas a única forma correcta de o fazer é através de concursos públicos para residências artísticas por prazo limitado a troco de projectos específicos. Exemplo: vinte ou trinta jovens artistas por ano, escolhidos pelos professores da Faculdade de Belas-Artes (de preferência da Universidade do Porto, para não haver confusões).</p>
<p>Também o caso do artista ou escritor de mérito a quem a cidade decide retribuir pela sua obra não me choca especialmente — desde que seja excepcional, se passe à luz do dia e traga benefícios para os munícipes como a utilização de uma biblioteca ou a constituição de uma fundação — e seja pensado como homenagem e não como favor.</p>
<p>A atribuição de casas a funcionários da câmara, jornalistas e políticos não é admissível — nunca, jamais, em tempo algum — e nada a pode justificar. Só nos permite saber que afinal havia recursos para uma política interessante que foram desviados e desperdiçados.</p>
<p>Tendo em conta o grave panorama urbano de Lisboa, é um duplo escândalo, tornado ainda mais deprimente por uma cultura municipal &#8220;histórica&#8221; que parece achar que tudo isto é normal. Nesse caso, é essa cultura que terá de ser mudada de alto a baixo, com carácter de urgência e sob o olhar de todos. A máxima a seguir é: o melhor desinfectante é a luz do Sol</p>]]></content:encoded>
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		<title>Não é defeito, é feitio</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/25/nao-e-defeito-e-feitio/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Sep 2008 08:34:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/25/nao-e-defeito-e-feitio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá dentro, a única questão era saber se o embate iria ser mais suave ou mais brutal.</p>
<p> </p>
<p>Explorando um pouco mais, encontraria economistas como Dean Baker, que escreveu sobre isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em todas as etapas da crise; ou o já falecido Hyman Minsky, que descreveu teoricamente o que se está a passar.</p>
<p>Então e os gestores dos grandes bancos de investimentos — os cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou mudaram de ramo nos últimos dias — não sabiam o que se estava a passar?</p>
<p>Não me cheira. Além de serem pagos a peso de ouro, trata-se de gente inteligentíssima. A questão é que não tinham incentivo para agir de outra forma; ou, conversamente, não havia punições adequadas para deixar de agir assim. Não — é pior ainda: tinham incentivos para agir como agiram.</p>
<p><span id="more-6364"></span><br />
Não é defeito; é feitio. Agora é comum dizer que os lucros foram privados e os prejuízos vão ser do público. Mas isso não é uma novidade nem se restringe à economia. Passar o risco para a sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado. O debate sobre a Guerra do Iraque foi assim; alguns enganaram-se, todos sofreram as consequências. Os que se tinham enganado, salvo honrosas excepções, não se deram por achados e passaram a exigir que se lhes fizesse a vontade no Irão.</p>
<p>Por isso há sempre este momento na dança &#8211; no Iraque, no Katrina, no imobiliário &#8211; em que se diz: &#8220;Ninguém podia prever o que se passou!&#8221;. Poupem-nos.</p>
<p>A economia tem crescido na última geração mas os cidadãos comuns são tratados como enteados &#8211; nas pensões, na educação, e por aí adiante. Os outros são tratados como filhos a quem se pagam todas as dívidas depois de terem estourado o dinheiro da família no casino. E, verdade seja dita, parece não haver outro remédio.</p>
<p>Há maneiras melhores e piores de o fazer, porém, e enquanto a fasquia do risco não for distribuída de forma mais justa &#8211; se a compra de dívidas não tiver como contrapartida uma mudança de regras -, haverá responsabilidades a pedir. Afinal, não foi por milagre que coisas que não são bancos puderam passar a comportar-se como bancos sem darem as garantias que os bancos têm por lei de dar. Foi por acção legislativa de alguns dos nossos representantes eleitos.</p>
<p>Digo &#8220;nossos&#8221; porque isto não se limita aos EUA. A cultura de passar os riscos para o público foi comum e partilhada por Governos de direita e de esquerda, americanos e europeus. O mesmo Nouriel Roubini que passámos a ter de escutar com atenção nesta crise escreve no Financial Times que os bancos europeus estão em risco por terem comprado muitos dos &#8220;produtos tóxicos&#8221; financeiros que estiveram na origem disto tudo. Os economistas Daniel Gros e Stefano Micossi avisam que se os bancos americanos eram demasiado grandes para os deixarmos falhar, os bancos europeus são demasiado grandes para os conseguirmos salvar país a país.</p>
<p>Onde está Durão Barroso? Quando o conhecíamos, era um dos mais dogmáticos sacerdotes do mercado. Hoje está desaparecido em combate. Esta crise financeira global vai precisar de regulação global; mas antes que ela chegue precisamos de nova (e melhor) regulação europeia. Eu não estou optimista. Os americanos, ao menos, têm uma escolha entre mudar de defeitos e mudar de feitio nas próximas eleições.</p>
<p><small>24.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Gestor Pangloss</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 07:11:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs &#8211; para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/23/gestor-pangloss/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merryl Linch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs &#8211; para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de &#8220;desregular&#8221;, ou que havia controlos demasiado &#8220;rígidos&#8221; sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado.<br />
<span id="more-6214"></span><br />
E no entanto há sempre crentes. Tal como havia membros do Politburo que se felicitavam pela robustez da RDA enquanto o Muro de Berlim caía. Alberto Gonçalves, no DN, supõe que as &#8220;falências sejam sintoma do perfeito funcionamento&#8221; do sistema. António Borges continua a defender a privatização da Segurança Social, alegando que as pensões privadas nos EUA não entraram em colapso, só perderam grande parte do seu valor. E o programa de John McCain diz que o sistema de saúde deve ficar mais parecido com o sistema financeiro.</p>
<p>A ideia é que as falências sucessivas são uma purga &#8220;natural&#8221; e que a seguir à desregulação temos de desregular mais ainda. Esta gente era capaz de viver na Idade Média e não só dizer que a peste negra era uma coisa óptima como defender que a cura era esfregar os abcessos bubónicos uns nos outros.</p>
<p>No século XVIII, Voltaire criou o Professor Pangloss, personagem que representava o filósofo dogmático que, por mais desgraças que visse &#8211; massacres, estupros, escravidão -, dizia sempre que &#8220;tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis&#8221;. Não seria difícil recriar, hoje em dia, a personagem do gestor Pangloss ou do político Pangloss. A tua empresa faliu e foste despedido? Isso é estupendo, porque o mercado se liberta espontaneamente das ineficiências. Os bancos deram cabo do jogo? É a purga necessária após um período de exuberância. Houve gente que perdeu casas, seguros de saúde, pensões de reforma? Wunderbar! Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Estás a morrer de uma infecção generalizada? Sim, mas repara que as bactérias gozam de excelente saúde.</p>
<p>Esta gente fala em desregulação e liberdade mas não percebe que viver sob o jugo destas empresas de sucesso é levar uma vida de regras leoninas, em letra miudinha, em que não resta liberdade alguma para o cliente, o empregado que lhes deu o tempo da sua vida ou o contribuinte que vai ter de lhes salvar o couro. Se há azar, chama&#8211;se-lhe ajustamento e espera-se que todos fiquemos saciados com a explicação. Pela mesma lógica, também o terramoto de 1755 foi só um ajustamento das placas tectónicas.</p>
<p>Aos sofistas de mercado falta-lhes entender o que dizia Protágoras: &#8220;o Homem é a medida de todas as coisas&#8221; &#8211; para si mesmo, naturalmente. Mas é de nós mesmos que estamos a falar. O maravilhoso funcionamento da teoria fez vítimas na prática. Esta é a medida última: não o mercado, não as empresas, não o sistema financeiro &#8211; mas as pessoas. </p>]]></content:encoded>
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		<title>Rendas congeladas e casas congeladas</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/18/rendas-congeladas-e-casas-congeladas/</link>
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		<pubDate>Thu, 18 Sep 2008 09:10:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na última crónica, vimos que no imobiliário não há apenas um mas dois mercados. O primeiro é o de investimento em imobiliário; o segundo é o de casas para habitar. O mercado do investimento em imobiliário &#8211; inteiramente legítimo, diga-se &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/18/rendas-congeladas-e-casas-congeladas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na última crónica, vimos que no imobiliário não há apenas um mas dois mercados. O primeiro é o de investimento em imobiliário; o segundo é o de casas para habitar. O mercado do investimento em imobiliário &#8211; inteiramente legítimo, diga-se &#8211; não se comporta de forma muito diferente de, por exemplo, o mercado de investimento em arte. Por muito importante que ele seja, o segundo mercado &#8211; o de casas para habitar &#8211; é mais importante. É de primeira necessidade para as pessoas, que precisam de casa para viver. E é de primeira necessidade para as cidades que, quando se esvaziam, se degradam e apodrecem por dentro.</p>
<p>Se caminharmos vinte minutos pelo centro da cidade, veremos que os prédios estão vazios, e que isto é um risco que não podemos correr. A semana passada ardeu mais um prédio devoluto na Rua da Madalena.</p>
<p>Recentemente apareceu o argumento de que as pessoas não querem viver na Baixa porque as casas não têm elevador nem lugar de estacionamento. Isto não faz sentido. </p>
<p>Amesterdão ou Paris estão cheias de casas sem elevador que são avidamente ocupadas. As casas aqui na Graça não têm elevador e vendem-se ou alugam&#8211;se rapidamente. Há muita gente que moraria na Baixa, mesmo sem elevador ou lugar para estacionar: estudantes, jovens casais, profissionais independentes, classe média urbana e educada. Não o fazem porque, apesar do mercado de casas para habitar ser mais importante, o mercado de investimento imobiliário é que manda nos preços.<br />
<span id="more-6034"></span><br />
Há várias maneiras de lidar com este problema. Uma delas &#8211; a criação de um segmento de rendas a custo controlado &#8211; já foi defendida nesta coluna, e hoje saltarei adiante. A câmara municipal pode ajudar colocando parte do seu património no mercado, em especial alugando&#8211;o. E é consensual que a burocracia municipal tem atrapalhado onde deveria ajudar na recuperação dos edifícios.</p>
<p>Porém: há alguém que tem em primeiro lugar responsabilidade sobre a propriedade. Esse alguém é o proprietário. Se os prédios vazios são um desperdício e um risco para todos, devem ser taxados por isso. Ter casas vazias por anos a fio deve ser taxado como o luxo que é (a lei permite duplicar o IMI para prédios devolutos; em Lisboa o PSD chumbou essa proposta na assembleia municipal).</p>
<p>Ah, mas os proprietários estão descapitalizados! Mais uma vez, estamos mais a falar de um mito do que de uma realidade. Segundo João Seixas, no seu estudo de 2004 sobre Lisboa (Estudos Urbanos Lisboa, vol. 4), dois terços das casas vazias do concelho de Lisboa estavam em boas ou óptimas condições de ocupação. Os proprietários têm pois capital, sob forma de imobiliário. O que se passa é que deixá-lo vazio sai mais barato do que deveria. E pior: deixá-lo cair parece não ser penalizado de forma dissuasora.</p>
<p>Se os prédios vazios são um desperdício, os prédios degradados são um verdadeiro delito contra a cidade.</p>
<p>A descapitalização não é desculpa &#8211; nunca é desculpa &#8211; para mais ninguém. Se eu for apanhado pela Brigada de Trânsito não posso dizer-lhes que estou descapitalizado e não pude fazer a inspecção periódica ou pagar o seguro obrigatório do meu carro. Se o meu rebanho destruir a seara do vizinho, quem se interessa se eu não pude pagar uma cerca? Os seus proprietários devem pagar pelas externalidades negativas dos prédios ao abandono, sem desculpas. Independentemente da burocracia municipal, das rendas congeladas, ou de qualquer outra justificação, a manutenção do edifício é obrigação moral e legal do proprietário. Está demasiado barato deixar prédios vazios a cair ou a arder nas nossas cidades. E está na hora de falar menos em rendas congeladas e olhar mais para as casas congeladas.</p>
<p><small>17.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Os dois mercados</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Sep 2008 09:02:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[A aliança que governa Lisboa ampliou-se para incluir Helena Roseta. Ao assumir a estratégia para a habitação, ela não é só uma vereadora qualquer; tornou-se num elemento crucial do poder na cidade, parte do problema e (esperemos) parte da solução. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/16/os-dois-mercados/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A aliança que governa Lisboa ampliou-se para incluir Helena Roseta. Ao assumir a estratégia para a habitação, ela não é só uma vereadora qualquer; tornou-se num elemento crucial do poder na cidade, parte do problema e (esperemos) parte da solução. É bom ter alguém com um perfil forte e responsabilidades políticas na área da habitação &#8211; provavelmente &#8220;o&#8221; problema que mais precisa de ser repensado agora.</p>
<p>Durante muitos anos o congelamento das rendas tem sido apresentado como um dos grandes culpados pelo esvaziamento do centro, e pela correspondente degradação dos prédios. É uma explicação plausível, e que aceito em grande parte.</p>
<p>Mas as rendas baixas já não podem ser explicação para todos os casos.</p>
<p>Há hoje, numa cidade como Lisboa, centenas de prédios vazios que não são vendidos nem alugados. E há alguns bons milhares de prédios com apenas um ou dois inquilinos e quatro, seis ou oito apartamentos por alugar ou vender. Assinalando que estou apenas a falar destes casos, a &#8220;canga&#8221; das rendas congeladas já não permite entender por que não aluga o senhorio os apartamentos que estão livres, ou por que não os vende.<br />
<span id="more-5800"></span><br />
Uma explicação adicional às &#8220;rendas congeladas&#8221; costuma ser a da burocracia autárquica. Ela explicará alguns casos, mas não explica todos. Como vimos no caso do prédio que ardeu na Avenida da Liberdade e que era propriedade de um grande banco, por vezes é o próprio proprietário que não tem pressa para fazer nada ao imóvel, apesar de ter os meios para o fazer.</p>
<p>Uma terceira explicação para o mistério só poderia ser esta: não há procura. Se levarmos os dogmas capitalistas a sério, teremos de admitir que ninguém quer morar no Rossio, e que só por isso o Rossio perdeu recentemente o seu único morador. Esta explicação é absurda por duas razões. A primeira é empírica: conhecemos muita gente que gostaria de morar no Rossio. A segunda é teórica: é suposto a procura e a oferta equilibrarem-se. Se pouca gente quer morar no Rossio, os proprietários baixariam os preços até encontrarem quem quisesse. Mas isto não acontece.</p>
<p>Poderíamos dizer que o mercado não está a funcionar, mas não irei por aí. O mercado funciona sempre. E neste momento está a funcionar &#8211; mas para manter o Rossio sem habitantes.</p>
<p>A resposta é que, para ser rigoroso, não há um, mas sim dois mercados. Há o mercado de investimento imobiliário, que serve para isso mesmo: investir em imobiliário. E há o mercado de casas para viver, no qual o objectivo é precisamente o de comprar ou alugar uma casa e depois conseguir viver &#8211; ou seja: também poder comprar comida e essas outras coisas depois de pagar a prestação da casa.</p>
<p>Estes dois mercados não são coincidentes. Caso fossem, o investimento imobiliário encontrar&#8211;se-ia a meio do caminho com a procura de casas para viver. A oferta ajustar-se-ia à procura. Só que apesar de falarmos do mesmo objecto &#8211; uma casa &#8211; aquilo que nos oferecem e aquilo que procuramos nesse objecto não é forçosamente a mesma coisa.</p>
<p>O mercado está, pois, a funcionar. Mas não da maneira que nós gostaríamos. A questão política é saber se é legítimo, para a comunidade, preferir o mercado das casas para viver ao mercado que deixa as casas vazias e a cidade degradada e oca. A questão económica é saber que tipo de intervenção política seria sustentável. A questão política não precisa da questão económica para provar a sua legitimidade &#8211; mas precisa dela para encontrar uma boa resposta. A próxima crónica será ainda sobre este tema.</p>
<p><small>15.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Interesses e valores</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/13/interesses-e-valores/</link>
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		<pubDate>Sat, 13 Sep 2008 01:19:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Na semana passada, em Berlim, realizou-se um debate sobre a Europa com a presença de Mário Soares, o ex-director-geral da UNESCO Federico Mayor Zaragoza e o ex-chanceler austríaco Wolfgang Schüssel, entre outros. Mas não pode haver um debate sobre a &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/13/interesses-e-valores/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada, em Berlim, realizou-se um debate sobre a Europa com a presença de Mário Soares, o ex-director-geral da UNESCO Federico Mayor Zaragoza e o ex-chanceler austríaco Wolfgang Schüssel, entre outros. Mas não pode haver um debate sobre a Europa que não seja também sobre os EUA, e assim foi.</p>
<p>Há qualquer coisa bizarra no senso comum sobre a União Europeia e os EUA. Por um lado, é comum enfatizar a União Europeia ter um interesse comum. Por outro lado, é costume dizer que a UE e os EUA têm os mesmos interesses. Isto é paradoxal: se a UE não é homogénea o bastante para ter interesses comuns, como pode a aliança ainda mais heterogénea com os EUA ter interesses comuns tão evidentes?<br />
<span id="more-5755"></span><br />
Mesmo à pequena escala, num país como Portugal, os nossos interesses são feitos de conflitos. Num país como os EUA pode haver interesses divergentes entre um estado produtor de etanol e um produtor de petróleo &#8211; mas existe uma única máquina política para interpretar e prosseguir estes interesses. Os interesses da União Europeia são muito mais difíceis de determinar. A geografia dá-nos algumas pistas, mas elas não confirmam as premissas tradicionais. Os EUA podem lançar-se em aventuras no Médio Oriente com um certo à-vontade; para a Europa, que tem o Médio Oriente à porta, as coisas não são tão simples. O mesmo se poderia dizer de uma nova guerra fria com a Rússia ou quente com o Irão.</p>
<p>É correcto dizer-se que a Europa não é homogénea nos seus interesses; mas, pela mesma medida, a ideia de que a Europa e os EUA têm os mesmos interesses já viveu melhores dias. Ninguém sabe disso melhor do que os republicanos no poder em Washington: os acólitos de Bush fizeram tudo por dividir a UE; entre os seus partidários o termo &#8220;europeu&#8221; é quase um insulto; os interesses europeus são tidos em pouca conta por ali.</p>
<p>Só os líderes europeus, curiosamente, parecem não se aperceber disso.</p>
<p>É talvez mais relevante discutir a questão dos valores. Aí, sim, a UE e os EUA partilham felizmente muitos valores, explícitos nas suas leis e documentos fundadores. Mas também partilhamos esses valores com muitos outros países democráticos pelo mundo fora. E na medida em que os valores são mais subjectivos do que os interesses, são também mais dispersos: conheço angolanos, japoneses, israelitas, argelinos e, sim, estado-unidenses que partilham mais dos meus valores do que muitos portugueses.</p>
<p>Talvez isto explique a surpresa do cronista Henrique Raposo, que no último Expresso verberava a ingenuidade dos europeus que apoiam Obama quando este é um símbolo do mundo &#8220;pós-europeu&#8221;. Ou seja, os europeus que apoiam Obama contra os seus &#8220;interesses&#8221;. Falando por mim, não me poderia ser mais indiferente o facto. Nas eleições mais importantes deste ainda curto século, prefiro os valores aos interesses.</p>
<p>É legítimo dizer, como lembrou Mário Soares, que se houve afastamento nos valores este ocorreu por causa da administração Bush: foram os republicanos que regrediram na tortura; que defenderam a guerra preventiva; uma minoria cada vez mais poderosa é equívoca na separação entre Estado e religião. Não vejo nenhuma razão para acompanhar esta regressão nos valores e todas as razões para apoiar quem a contrarie.</p>
<p>Que uma maioria de europeus coloque os valores partilhados à frente dos seus supostos interesses só diz bem dessa maioria de europeus.</p>
<p>[ O evento de Berlim serviu de lançamento à versão alemã do livro Um Diálogo Ibérico: a Europa como farol, de Mário Soares e Federico Mayor Zaragoza. Viajei e assisti ao debate a convite da Fundação Bertelsmann/Círculo de Leitores. ]</p>
<p><small>10.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Perguntem-lhe como se faz</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/10/perguntem-lhe-como-se-faz/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Sep 2008 22:34:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[  É cantora de R&#8217;nB. É directa no ataque: &#8220;quero ver o que Sarah Palin tem para dizer sobre economia e relações internacionais, e não o que escreveram para ela dizer&#8221;. O nome dela é Maryline Blackburn. É apoiante de Obama. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/10/perguntem-lhe-como-se-faz/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://assets.nydailynews.com/img/2008/09/09/amd_blackburn.jpg" alt="" width="216" height="372" /></p>
<p>É cantora de R&#8217;nB. É directa no ataque: <a href="http://www.nydailynews.com/news/politics/2008/09/08/2008-09-08_sarah_palin_congenial__calculating_says_.html">&#8220;quero ver o que Sarah Palin tem para dizer sobre economia e relações internacionais, e não o que escreveram para ela dizer&#8221;</a>. O nome dela é <a href="http://marylineblackburn.com/">Maryline Blackburn</a>. É apoiante de Obama. E é a Miss Alaska que derrotou Sarah Palin no concurso de 1984.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma coisa chamada realidade</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/09/uma-coisa-chamada-realidade/</link>
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		<pubDate>Tue, 09 Sep 2008 08:27:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na última crónica escrevi que &#8220;as ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências&#8221;. É bom explicar o que esta frase não é (repito: não é). Não se trata de uma qualquer sugestão de que as ideias, nomeadamente em política, não &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/09/uma-coisa-chamada-realidade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na última crónica escrevi que &#8220;as ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências&#8221;. É bom explicar o que esta frase não é (repito: não é). Não se trata de uma qualquer sugestão de que as ideias, nomeadamente em política, não precisem de ter qualquer relação com a realidade. Pelo contrário, as ideias são tanto melhores quanto encontram uma forma melhor de se relacionar com a realidade: uma forma mais interessante, ou inteligível, ou rica, ou simples. Mas nunca deixam de ter consequências. As ideias péssimas, é claro, também têm consequências: consequências péssimas. A esquerda passou boa parte do século XX a descobri-lo da pior maneira.<br />
<span id="more-5435"></span><br />
Nos dias de hoje é a vez da direita. Saídos da sua Convenção do Partido Republicano na semana passada, um comentador dizia que os republicanos estão convencidos de que a realidade é apenas o que eles disserem que é. Isto não é uma grande novidade: o lado mau da ideologia é convencer os militantes de qualquer partido a tomar os desejos pela realidade. A novidade, essa sim, e perigosa, é a imprensa &#8211; numa caricatura da sua suposta imparcialidade &#8211; ter de levar a sério essa ilusão. Vejamos a nomeação de Sarah Palin para candidata republicana a vice-presidente dos EUA. John McCain pode estar convencido de que falar com uma pessoa duas vezes é suficiente para a colocar a um passo da presidência, ou que ela viver no Alasca é o suficiente para que saiba de política internacional (argumento verídico!). Extraordinário é a imprensa validar esses argumentos absurdos.</p>
<p>Os exemplos são vários. É suposto os republicanos quererem baixar impostos e combater défices. Ninguém nota que Sarah Palin aumentou os impostos num estado que não precisa deles (porque tem petróleo) e deixou 22 milhões de dólares em dívida a uma cidade do tamanho de Celorico da Beira, que antes tinha uma dívida de zero. É suposto admirarmos o facto de ela ter tido um filho deficiente, que é uma decisão pessoal. No plano público, ninguém se incomoda com ela ter cortado sessenta por cento dos fundos para apoio escolar a crianças deficientes. Ninguém se incomoda? Ninguém o noticia, sequer. É suposto levar a sério o desprezo dos republicanos pelos &#8220;intelectuais&#8221;. Ao mesmo tempo, ninguém investiga a sério as notícias de que Sarah Palin pressionou a bibliotecária do seu município para censurar os livros do seu acervo.</p>
<p>Imaginamos todos o que aconteceria se Obama tivesse uma filha adolescente grávida, se a sua mulher tivesse pertencido durante dez anos a um partido radical independentista, se ele tivesse escolhido o seu vice-candidato após tê-lo visto, cara a cara, uma única vez durante quinze minutos. Cada um destes escândalos poderia destruir sozinho a sua campanha. Todos juntos e transcritos para os republicanos, todas essas bombas eleitorais passaram a ser maravilhosas qualidades.</p>
<p>A imprensa tem o dever de ser imparcial e equidistante. Isso significa tratar com a mesma frieza verdades e mentiras, de onde quer que venham &#8211; e não tratar verdades de um lado e mentiras do outro como se fossem a mesma coisa, o que apenas beneficia os infractores e degrada o espaço público.</p>
<p>Os republicanos podem achar que quando a realidade contradiz as nossas ideias, que se lixe a realidade. Mas não. Quando a realidade contradiz as nossas ideias, a realidade ganha. O problema é que todos perdemos com isso.</p>
<p><small>08.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Mais &#8220;novo progressismo&#8221; e uma campanha pouco séria</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/04/mais-novo-progressismo-e-uma-campanha-pouco-seria/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Sep 2008 11:05:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[As ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências. Em política, sobretudo as mais elementares têm consequências, pela facilidade com que se convertem em narrativas e se cristalizam no espaço público. As ideias dominantes dos últimas trinta anos têm sido estas: &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/04/mais-novo-progressismo-e-uma-campanha-pouco-seria/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências. Em política, sobretudo as mais elementares têm consequências, pela facilidade com que se convertem em narrativas e se cristalizam no espaço público.</p>
<p>As ideias dominantes dos últimas trinta anos têm sido estas: o mercado tende “naturalmente” para o equilíbro, o sector privado é sempre mais eficiente do que o público, a concorrência produz transparência, o governo só serve para atrapalhar, a prosperidade “pinga” do alto se diminuirmos os impostos aos mais ricos, etc. Todas, sem excepção, nos eram dadas como evidentes. Todas, sem excepção, estão hoje em dúvida, seja quando empresas privadas coleccionam (e perdem) dados privados de milhões de indivíduos, seja quando o estado gasta no salvamento de grandes bancos o dinheiro que não havia para a comunidade.</p>
<p>Em momentos assim, mudam as marés. Com as marés mudam as ideias e as histórias que as acompanham. Em plena Grande Depressão, Franklin Delano Roosevelt fez em 1932 o seu discurso do “Homem Esquecido”, que partia de uma ideia simples. Era também uma história: a desgraça de Napoleão, dizia ele, foi preocupar-se apenas com a cavalaria, que dava mais rendimento, e desprezar a infantaria — os homens comuns que o seguiam a pé e que eram, no fundo, o seu exército. Muita gente vai dizer coisas destas nos próximos tempos. A semana passada, Obama disse  que a economia não se resumia às empresas da Fortune 500 (a cavalaria) mas que era o conjunto de todas as casas e todas as pessoas comuns (a infantaria). Um dos espectadores chamados ao palco, um desempregado de sessenta anos chamado Barney Smith, disse “preciso de um governo que ponha o Barney Smith à frente do Smith Barney”. O “Smith Barney” é um grande banco de investimentos: foi o maior aplauso da noite.<span id="more-5200"></span></p>
<p>Será isto o regresso do intervencionismo, do socialismo, e de outras palavras assustadoras? Não há regressos. Ninguém vai voltar a acreditar na indústria pesada, no desenvolvimentismo estatal ou nos planos quinquenais. O mundo não parou à espera do Estado.</p>
<p>Para os problemas de hoje, a sociedade tem os recursos de que precisa: inteligência, criatividade, redes de conhecimento. Do que necessitamos, enquanto comunidade politicamente organizada, é de aproveitar essas fontes e orientá-las. Um exemplo dado por Obama: oferecer isenção de propinas na Universidade contra trabalho comunitário. Ninguém é obrigado a participar, mas o benefício mútuo é evidente, excepto talvez para os bancos que vivem de endividar estudantes. Os intelectuais em torno de Obama dizem que o estado não precisa de intervir quando basta dar um “empurrão” (“nudge”, em inglês) no sentido pretendido. Referem-se a isto como “paternalismo libertário”. Parece paradoxal, e não é por acaso; nos valores de esquerda, a fraternidade sempre foi mais difícil de definir do que a liberdade ou a igualdade.</p>
<p>Por que dou tanta atenção a Obama e tão pouca a McCain? A carreira de McCain tem aspectos louváveis (a oposição à tortura) e traços francamente assustadores (o belicismo). Mas a sua campanha pauta-se pela falta de seriedade. Já era patente na sua reacção imatura à popularidade e talento do seu adversário, atacando-o como uma “celebridade elitista”. Mas atingiu o cume com a sua candidata a vice-presidente, uma figura sem opiniões ou pensamento sobre nada, nomeada pelos exclusivos factos de ser mulher e religiosa. Houve imensa gente a aplaudir o “arrojo” e a “imaginação” da jogada. Escapou-lhes que foi uma aposta desesperada que pode destruir a campanha republicana.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O que é o &#8220;novo progressismo&#8221;</title>
		<link>http://5dias.net/2008/09/02/o-que-e-o-novo-progressismo/</link>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2008 08:07:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Vocês decidam-se, pá. Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/09/02/o-que-e-o-novo-progressismo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vocês decidam-se, pá. Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas em Berlim, como diz a direita americana. Ou Obama é um risco demasiado grande num mundo perigoso, ou não há risco, porque nenhum presidente consegue mudar a política internacional dos EUA (e como se explica Bush?). Ou Obama é um intervencionista ou um isolacionista (nenhuma das duas: em política internacional parece ser mais institucionalista e multilateralista do que é comum nos EUA). Ou o pessoal vota em Obama só por ser negro, ou por ele ser um intelectual com ideias a mais. Ou a esquerda europeia é cega no seu antiamericanismo, ou a esquerda europeia está cega na sua paixão por Obama. Não pode ser tudo verdade ao mesmo tempo.</p>
<p>Mas provavelmente a explicação para as contradições está nisto mesmo: a preocupação não é com o que está a acontecer, mas em reagir à reacção da esquerda europeia. É uma lástima, porque o que está a acontecer é mais interessante.</p>
<p>Obama é mais do que um candidato histórico por ser negro. O que ele fez na semana passada foi propor a reinvenção de uma tradição política: a do progressismo americano.<br />
<span id="more-5083"></span><br />
Mesmo neste curto espaço, sou forçado a precisar um pouco a terminologia. Na Europa, &#8220;progressista&#8221; significou em tempos um comunista que não queria dizer que era comunista. Não é disso que estamos a falar. No panorama americano o &#8220;progressivism&#8221; é uma tradição que tenta superar a polarização habitual em duas famílias: conservadores mais à direita e liberais mais à esquerda, com claríssimo ascendente dos primeiros na última geração.</p>
<p>O domínio ideológico conservador, que vem dos tempos de Reagan, trouxe consigo o triunfo da &#8220;trickle-down economics&#8221;: cuidar do topo da pirâmide onde estão as grandes empresas e os ricos e esperar que os seus investimentos acabem por &#8220;pingar&#8221; para quem está em baixo. Só que em tempos de crise não pinga nada, e a ideologia dominante diz que tudo o que o governo fizer para ajudar quem está em baixo é pernicioso. É o momento para virar esta narrativa do avesso.</p>
<p>Nenhum candidato presidencial democrata da última geração foi tão claro, como Obama na semana passada, ao denunciar a &#8220;sociedade de proprietários&#8221; (ownership society) como não passando da sociedade do &#8220;desenrasca-te a ti próprio&#8221; e ao defender que uma sociedade com justiça social resiste melhor às crises e as supera mais depressa. Coisa curiosa: o trecho onde ele expôs o seu ataque veio de um discurso feito há mais de três anos numa universidade americana, muito antes de ser candidato. Não o digo para lhe elogiar a coerência, mas para notar uma coisa muito mais importante. Ele acredita, com razão, que este discurso pode ganhar.</p>
<p>O entusiasmo da esquerda europeia explica-se então facilmente. Há muito tempo que ela vê os buracos na narrativa liberal-financeira dominante; mas não tem nada para propor em troca (a prestação de Ségolène Royal em França foi uma espécie de apogeu do vácuo). Pessoalmente, nem tudo me agrada no &#8220;novo progressismo&#8221; de Obama, a começar pelo seu genuíno paternalismo; digo também, desde a primeira crónica do ano, que nenhuma das suas propostas se concretizará sem forte oposição dos beneficiários da política dominante.</p>
<p>Mas confesso: é uma beleza ver surgir um discurso claro à esquerda, com o qual teremos muito a aprender na Europa. E uma beleza maior ainda ver que os seus adversários só lhe sabem reagir, mas não lhe conseguem dar resposta.</p>
<p><small>01.09.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>A sede tem destas coisas</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/28/a-sede-tem-destas-coisas/</link>
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		<pubDate>Thu, 28 Aug 2008 16:30:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[No blogue da ex-revista Atlântico, Miguel Morgado escreve um interessante post de resposta ao meu comentário &#8220;Roosevelt contra Roosevelt&#8221; aqui abaixo. Começa assim: «Aqui, Rui Tavares assume-se como um &#8220;obamaníaco&#8221;. O facto em si mesmo não merece qualquer comentário. Mas, para &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/28/a-sede-tem-destas-coisas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No blogue da ex-revista Atlântico, Miguel Morgado escreve um interessante <a href="http://atlantico.blogs.sapo.pt/1851631.html">post de resposta</a> ao meu comentário <a href="http://5dias.net/2008/08/28/roosevelt-contra-roosevelt/#more-4947">&#8220;Roosevelt contra Roosevelt&#8221; aqui abaixo</a>. Começa assim:</p>
<blockquote><p><a href="http://atlantico.blogs.sapo.pt/1851631.html">«Aqui, Rui Tavares assume-se como um &#8220;obamaníaco&#8221;. O facto em si mesmo não merece qualquer comentário. Mas, para dar um ar erudito, retrata o confronto entre McCain e Obama como um confronto entre os dois Roosevelts que ocuparam a Casa Branca. »</a></p></blockquote>
<p>Começo por um apontamento de estilo.</p>
<p><span id="more-4971"></span>Independentemente do número de ocasiões em que todos os colunistas conservadores ou liberais-de-direita portugueses usarem o bordão &#8220;o<a href="http://atlantico.blogs.sapo.pt/1851631.html"> facto em si mesmo não merece qualquer comentário</a>&#8220;, independentemente de esse bordão parecer jeitoso e prático e de bom gosto, e independentemente do facto de (por exemplo) João Pereira Coutinho ou (por exemplo) Diogo Mainardi também estarem viciados nesse tipo de expressões, não se deve dizer que &#8220;x <em>em si mesmo não merece qualquer comentário&#8221;</em> e depois escrever três mil caracteres de comentário a x, e ainda por cima chamar x para o título &#8220;A Obamania tem destas coisas&#8221;. Por exemplo: para mim merece comentário o facto de Miguel Morgado dizer que x não lhe merece comentário e depois comentar x. Se não merecesse comentário, não escreveria estas linhas; escrevendo-as, ficaria muito esquisito dizer que Miguel Morgado não merece comentário mas mesmo assim estou a escrever este comentário a uma coisa que não merece comentário. Miguel Morgado não deve ter medo de dizer que uma coisa merece comentário quando deseja comentá-la: o merecimento é diferente do mérito; uma coisa pode perfeitamente merecer comentário por ser inábil, ou incorrecta ou simplesmente mal enjorcada.</p>
<p>É esse o caso do que vem a seguir. Segundo Miguel Morgado, eu comparo os dois Roosevelts não para daí extrair um qualquer sentido mas &#8220;para dar um erudito&#8221;. Pois segundo Rui Tavares, Miguel Morgado descompara Roosevelt e Obama não &#8220;para dar um ar erudito&#8221; mas para deixar claro que não sabe o que é uma comparação — não como intenção, note-se, mas como resultado. Por exemplo: será que eu sei que no tempo de FD Roosevelt foram arrebanhados para  &#8221;<a href="http://atlantico.blogs.sapo.pt/1851631.html">campos de concentração de dezenas</a> [na verdade, centenas] <a href="http://atlantico.blogs.sapo.pt/1851631.html">de milhares de cidadãos americanos de ascendência japonesa</a> [na verdade, todos os imigrantes de nacionalidade japonesa — issei —, mais filhos e netos mesmo que de nacionalidade americana — nissei e sensei —, em todo o território dos estados de Washington, Oregon, Califórnia e metade do Nevada sob o comando do general De Witt "um japa é sempre um japa" — <a href="http://www.webboom.pt/ficha.asp?id=169248">neste livro</a> é capaz de encontrar alguma coisa sobre o assunto]&#8220;. E daí? Será que eu sei que Roosevelt andava de cadeira de rodas? Será que eu sei que Roosevelt viveu um romance com a secretária da mulher? Será que eu já reparei que o Roosevelt tem a pele mais clara do que o Obama?</p>
<p>Acontece que eu escrevi <em>em que plano</em> eu desejaria que a comparação entre Roosevelt e Obama se confirmasse, e é até um argumento bastante elementar:</p>
<blockquote><p><a href="http://5dias.net/2008/08/28/roosevelt-contra-roosevelt/#more-4947">«a liberdade não se pode resumir à não-interferência do Estado. Liberdade é também liberdade para construir uma vida. Quem vive na pobreza ou no medo do desemprego não vive em liberdade. Distribuir liberdade por todos implica lutar por justiça social e segurança económica»<br />
</a></p></blockquote>
<p>Apesar de elementar, é impressionante como muita gente acha que é esta questão que não merece comentário, mesmo quando é ela que está à frente dos nossos olhos, mesmo quando ela é apresentada como a conclusão inescapável do texto. Barack Obama, tal como Roosevelt, não foge a esta questão. Convido Miguel Morgado a comparar isto com o seguinte trecho de um discurso em que Barack Obama resume o seu pensamento geral:</p>
<p> </p>
<blockquote>
<p align="left"><a href="http://www.knox.edu/x9803.xml">«Like so much of the American story, once again, we face a choice. Once again, there are those who believe that there isn&#8217;t much we can do about this as a nation. That the best idea is to give everyone one big refund on their government—divvy it up by individual portions, in the form of tax breaks, hand it out, and encourage everyone to use their share to go buy their own health care, their own retirement plan, their own child care, their own education, and so on.</a></p>
<p align="left"><a href="http://www.knox.edu/x9803.xml">In Washington, they call this the Ownership Society. But in our past there has been another term for it—Social Darwinism—every man or woman for him or herself. It&#8217;s a tempting idea, because it doesn&#8217;t require much thought or ingenuity. It allows us to say that those whose health care or tuition may rise faster than they can afford—tough luck. It allows us to say to the Maytag workers who have lost their job—life isn&#8217;t fair. It let&#8217;s us say to the child who was born into poverty—pull yourself up by your bootstraps. And it is especially tempting because each of us believes we will always be the winner in life&#8217;s lottery, that we&#8217;re the one who will be the next Donald Trump, or at least we won&#8217;t be the chump who Donald Trump says: &#8220;You&#8217;re fired!&#8221;</a></p>
<p align="left"><a href="http://www.knox.edu/x9803.xml">But there is a problem. It won&#8217;t work. It ignores our history. It ignores the fact that it&#8217;s been government research and investment that made the railways possible and the internet possible. It&#8217;s been the creation of a massive middle class, through decent wages and benefits and public schools that allowed us all to prosper. Our economic dependence depended on individual initiative. It depended on a belief in the free market; but it has also depended on our sense of mutual regard for each other, the idea that everybody has a stake in the country, that we&#8217;re all in it together and everybody&#8217;s got a shot at opportunity. That&#8217;s what&#8217;s produced our unrivaled political stability.</a></p>
<p align="left"><a href="http://www.knox.edu/x9803.xml">And so if we do nothing in the face of globalization, more people will continue to lose their health care. Fewer kids will be able to afford the diploma you&#8217;re about to receive.</a>»</p>
</blockquote>
<p align="left">Também pode aproveitar e olhar para esta imagem:</p>
<p style="text-align: center;" align="left"><a href="http://media3.washingtonpost.com/wp-dyn/content/graphic/2008/06/12/GR2008061200193.gif"><img class="aligncenter" src="http://media3.washingtonpost.com/wp-dyn/content/graphic/2008/06/12/GR2008061200193.gif" alt="" width="70%" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Suponho que a conclusão a retirar é que o candidato mais parecido com Franklin Delano Roosevelt afinal é John McCain: também tem o cabelo branco.</p>
<p style="text-align: left;">***</p>
<p style="text-align: left;">Um nota final: Miguel Morgado escreve que «dizer que FDR, &#8220;tal como Obama&#8221;, &#8220;apareceu com um discurso moderado e unificador&#8221; é roçar o absurdo» porque FDR em 1936 pronunciou estas estupendas palavras:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><a href="http://www.fdrlibrary.marist.edu/od2ndst.html">«We had to struggle with the old enemies of peace — business and financial monopoly, speculation, reckless banking, class antagonism, sectionalism, war profiteering. (…) Never before in all our history have these forces been so united against one candidate as they stand today. </a><strong><a href="http://www.fdrlibrary.marist.edu/od2ndst.html">They are unanimous in their hate for me — and I welcome their hatred</a><a href="http://www.fdrlibrary.marist.edu/od2ndst.html">»</a></strong></p>
</blockquote>
<p style="text-align: left;">Basta notar o verbo &#8220;apareceu&#8221; e a data &#8220;1936&#8243;. Em 1936 Roosevelt não tinha acabado de aparecer com o discurso centrista que o caracterizou no início: já era presidente em fim de primeiro mandato. Vou cruzar os dedos — com pouca esperança — para que Obama diga coisas destas daqui a quatro anos. Entretanto vou também cruzar os dedos — com um pouco mais de esperança — para que Miguel Morgado perceba uma coisa: quando queremos refutar algo que alguém escreveu é melhor não usar argumentos que confirmam aquilo que esse alguém escreveu.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Roosevelt contra Roosevelt</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Aug 2008 08:29:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/28/roosevelt-contra-roosevelt/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo do reverendo Wright, sob a impressão geral de que a candidatura de Barack Obama acabara de ser destruída pelo seu desbocado pastor protestante, uma decisão do Partido Democrata sobre as primárias da Florida e do Michigan acabara (do meu ponto de vista) de lhe possibilitar a vitória. Pouco depois, houve um sobressalto geral com a ponta final de Hillary Clinton, numa altura em que me parecia que na verdade Obama já tinha essa vitória na mão.</p>
<p>Isso foi nas primárias democratas; agora estamos na campanha para as eleições gerais e o candidato republicano, John McCain, acabou de ultrapassar Obama nas sondagens. A percepção geral é a de que Obama está em queda quando deveria estar muito à frente. É mais uma vez o momento indicado para relançar o meu palpite: salvo escândalo ou guerra, continuo a apostar numa vitória de Obama.<br />
<span id="more-4947"></span><br />
Em primeiro lugar, não faz sentido esperar que os democratas ganhem por muito. Há trinta anos que eles não ganham eleições presidenciais “normais”. Bill Clinton ganhou na primeira vez com o voto adversário dividido (entre Ross Perot e George Bush pai) e na segunda vez já como presidente. Mas Al Gore e John Kerry ficaram a poucos votos de ganhar e é a partir desse pecúlio que Obama poderá construir uma vitória, ampliando o número de estados competitivos que poderão cair para o seu lado. Por isso não é de esperar uma grande distância nas sondagens nacionais, embora seja possível que ela venha a ocorrer depois nos votos do Colégio Eleitoral, que são distribuídos por estado.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Em segundo lugar, as diferenças entre candidatos. John McCain costuma dar como seu presidente ideal o republicano (e progressista) Theodore Roosevelt, cujo militarismo e voluntarismo aprecia e em cuja “obra” — o Canal do Panamá — ele próprio nasceu, literalmente. É duvidoso que o erudito e poliglota Theodore Roosevelt atacasse os seus adversários por serem “intelectuais e elitistas”, como McCain faz e é a moda da direita à escala internacional. Mas é verdade que John McCain é, ao menos, um político mais inspirador do que George W. Bush.</p>
<p>Mas não é de um Theodore Roosevelt que os americanos precisam agora. De quem eles precisam é de um Franklin Delano Roosevelt, seu sobrinho, o democrata que foi presidente quatro vezes depois da Grande Depressão. Tal como agora, Franklin Roosevelt apareceu numa altura em que a doutrina económica dominante se revelara disfuncional e os seus fundamentos morais aberrantes. Tal como Obama, Franklin Roosevelt apareceu com um discurso moderado e unificador, mas foi levado pelas circunstâncias a simplesmente refundar as estruturas do país. Foi ele que criou a Segurança Social nos EUA, e a criou de maneira a impedir que “um político qualquer a possa desmantelar”, como dizia e com razão (George W. Bush tentou e não conseguiu).</p>
<p>A Grande Depressão colocara a nu que a liberdade não se pode resumir à não-interferência do Estado. Liberdade é também liberdade para construir uma vida. Quem vive na pobreza ou no medo do desemprego não vive em liberdade. Distribuir liberdade por todos implica lutar por justiça social e segurança económica. Não precisamos de uma Grande Depressão para saber isso. Na verdade, o susto que já levamos deve chegar para os americanos perceberem que é preciso um caminho novo.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Para Marco Fortes</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/26/para-marco-fortes/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 Aug 2008 08:11:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/26/para-marco-fortes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão bem de manhã: “de manhã é para estar na caminha — eu queria esticar as pernas mas elas só queriam estar na caminha”. Que é isto?! Em toda a minha vida, só ouvi um português dizer que “de manhã não funciono”: Sousa Franco. E foi preciso ter sido ministro das finanças duas vezes, presidente do tribunal de contas — um homem sério, portanto — para poder afrontar esse tabu.</p>
<p>Mas Marco Fortes fez pior: ainda teve o descaramento de sugerir aos outros atletas que valia a pena trabalhar para ir a Pequim, aos Jogos Olímpicos, pela “experiência”. O ultraje, o ultraje! Quem se julga este badameco para sugerir que participar num belíssimo evento desportivo, com atletas de todo o mundo, é uma boa experiência? Algum apóstolo do espírito olímpico?</p>
<p>Não sabe ele que o importante é só ganhar, ganhar pela pátria e pelos contribuintes que lhe “deram” uma bolsa, honrar a pátria e os contribuintes, dizer banalidades pela pátria e pelos contribuintes, ter juizinho pela pátria e pelos contribuintes?<br />
<span id="more-4904"></span><br />
Se esteve demasiado distraído enquanto lutava pelos mínimos olímpicos para reparar que neste país toda a gente se levanta cedo, é o melhor das respectivas áreas e vive uma vida de sacrossanto respeito pelo contribuinte, os dias seguintes lho ensinaram, através de um coro escandalizado de comentadores, jornalistas e políticos, que não se pode — não se pode! — fazer humor com coisas sérias e apreciar o desporto e o mundo porque são simplesmente o desporto e o mundo. E se estava demasiado longe para ver toda aquela gente sisuda fazendo tsc-tsc-tsc com os músculos faciais bem espremidos, logo foi recambiado para Lisboa com um bilhete de avião suplementar — que o dinheiro dos contribuintes nunca é demais para dar lições a quem merece.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Pois bem, Marco Fortes, deixa-me tratar-te por tu: espero sinceramente que não consigam vergar-te, moldar-te, ajoelhar-te. Que neste país onde inventaram a lobotomia, não consigam lobotomizar-te: o resultado seria ver-te, como já vi na televisão, pedir desculpa pelas declarações “infelizes”. São agora declarações infelizes não culpar o árbitro mas a si mesmo, reagir como se não fosse o fim do mundo e sugerir que estar nos Jogos Olímpicos é, por si só, uma experiência fantástica? Que diz isso sobre nós como país, não desportivamente, mas moralmente?</p>
<p>Como muitos portugueses dei por mim emocionado com a medalha de ouro de Nelson Évora. Mas deixou-me desconfortável saber que, à mesma hora, não poderias estar ali para festejar com o teu colega. Não pensaram os senhores burocratas que para haver um Nelson Évora houve outros Marco Fortes que participaram nas mesmas provas, e que os Jogos Olímpicos são feitos de muitos não-campeões, e feitos para eles também? Não; tinham de condenar-te a um castigo inútil e sem objectivo que deveria estar reservado para quem faz batota ou recorre ao doping.</p>
<p>Quem te condenou, caro Marco, está já condenado: a uma vida sem humor, a ter de provar que é sério, mais sério do que toda a gente. É uma vida triste e seca. Como atleta, poderias só lhes dar ouvidos quando eles conseguirem chegar aos mínimos olímpicos. Eu sugiro outra opção: só ligar à indignação dos comentadores portugueses, dos jornalistas portugueses, dos portugueses portugueses, quando um dia eles conseguirem não estar sempre indignados por qualquer coisa.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Arcos dourados</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/21/arcos-dourados/</link>
		<comments>http://5dias.net/2008/08/21/arcos-dourados/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 21 Aug 2008 09:06:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[A guerra entre a Geórgia e a Rússia não destruiu só vidas, edifícios e esperanças. Destruiu também uma teoria &#8211; uma teoria tola, mas com muitos seguidores. Foi o colunista Thomas Friedman, do New York Times, que lhe deu o &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/21/arcos-dourados/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A guerra entre a Geórgia e a Rússia não destruiu só vidas, edifícios e esperanças. Destruiu também uma teoria &#8211; uma teoria tola, mas com muitos seguidores.</p>
<p>Foi o colunista Thomas Friedman, do New York Times, que lhe deu o nome de &#8220;Teoria dos Arcos Dourados da Prevenção de Conflitos&#8221;. Na sua forma caracteristicamente simplista, resumiu-a assim: &#8220;Nunca dois países onde há lojas de hambúrgueres da McDonald&#8217;s entraram em guerra.&#8221; Os arcos dourados que são o logótipo da marca seriam assim um símbolo de paz e prosperidade. Um símbolo de paz por causa da prosperidade, e um símbolo de prosperidade por causa da paz &#8211; mas mais a primeira do que a segunda.</p>
<p>Ora acontece que tanto Moscovo como Tbilissi têm restaurantes McDonald&#8217;s. Os arcos dourados das hamburguerias na Geórgia e na Rússia não impediram que os dois países entrassem em guerra.<br />
<span id="more-4741"></span><br />
A versão menos mas igualmente ingénua da teoria &#8211; e a razão porque ela tem tantos seguidores &#8211; acredita mais ou menos nisto: que a liberalização e a globalização económicas garantem crescimento e elevam os riscos dos conflitos para todas as partes. Acontece que o crescimento, como sabemos, não é garantido. Sabemos também que há muitos motivos não-económicos para se iniciarem guerras (nacionalismo, religiões, pressão ideológica). E para dar um exemplo importante: a I Guerra Mundial veio depois de uma época de globalização, que mais do que impedir a guerra talvez até a tenha apressado. Há muitas razões para desconfiar desta ideia em política internacional.</p>
<p>Surpreendentemente, voltamos a encontrá-la na política interna: demasiada gente argumenta que a abertura económica traz inevitavelmente abertura política. O problema está neste &#8220;inevitavelmente&#8221;.</p>
<p>Muitos dos seguidores destas teorias, formais ou informais, são vagamente neoliberais. Outros (e alguns dos mesmos) são ex-marxistas que transportaram o seu determinismo histórico para a defesa do capitalismo. Outros ainda são simplesmente não-ideológicos. Creio até que a força do hábito explica muita coisa: quem se habituou a viver num país que tem consumo e democracia julga que as duas coisas vêm sempre juntas. Mas não vêm. Um país ter supermercados e bolsa de valores &#8220;como nós&#8221; não significa que tenha eleições e liberdade de imprensa &#8220;como nós&#8221;.</p>
<p>Garantiram-nos, por exemplo, que a abertura económica na China iria apressar o fim da sua ditadura. Na realidade, pode dizer-se que a abertura económica tem promovido a longevidade da ditadura chinesa. Não só lojas, arranha-céus e bancos coexistem tranquilamente com presos, execuções e censura como descobrimos que uma ditadura feroz e nominalmente comunista pode ser muito jeitosa para os negócios.</p>
<p>Inversamente, os negócios podem ser óptimos para aguentar uma ditadura: veja-se a Arábia Saudita, a Indonésia de Suharto ou o Chile de Pinochet.</p>
<p>Isto não quer dizer, é claro, que o fechamento económico promova abertura política. Também não quer dizer que, apesar da ditadura, o crescimento económico não seja bom para os chineses.</p>
<p>Quer apenas dizer que liberalismo económico e liberalismo político não são a mesma coisa nem vão sempre para o mesmo lado. Na melhor das hipóteses, são compatíveis; muitas vezes nem por isso. A Grande Ilusão dos Arcos Dourados, em política externa como em política interna, é a de que basta fazer negócios para que o resto venha atrás.</p>
<p>Fazer negócios pode ser bom. Mas não se entusiasmem &#8211; nem nos enganem &#8211; proclamando que fazer negócios é por si só bom para os direitos humanos ou para a liberdade dos povos, ou para a paz entre eles. Tudo isso, que é mais básico e importante, tem de ser tratado à parte. Antes, durante e depois &#8211; e muitas vezes ao invés &#8211; de fazer negócios.</p>
<p><small>20.08.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Arbitrariedades de conveniência</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/19/arbitrariedades-de-conveniencia/</link>
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		<pubDate>Tue, 19 Aug 2008 09:01:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No Verão passado, o grande escândalo era se podia ou não vender-se bolos com creme nas praias sem refrigeração dos produtos. Seis meses depois, era a Lei do Tabaco que nos trazia o totalitarismo higiénico. Uma menção, por parte do &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/19/arbitrariedades-de-conveniencia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No Verão passado, o grande escândalo era se podia ou não vender-se bolos com creme nas praias sem refrigeração dos produtos. Seis meses depois, era a Lei do Tabaco que nos trazia o totalitarismo higiénico. Uma menção, por parte do Presidente da República, aos salários dos gestores privados foi “populista e demagógica”.</p>
<p>A semana passada, um agente da GNR baleou e acabou por provocar a morte a um rapaz de treze anos. Qual é a resposta dos mesmos comentadores que vêem em tudo a intromissão inadmissível do estado? Perguntar o que estava a fazer o rapaz no caminho das balas.</p>
<p>Faz sentido: afinal não saiu prejudicada a propriedade privada de ninguém. Pelo contrário, o pai e o tio do rapaz é que o levaram para roubar uns ferros de uma vacaria. Ferreira Fernandes, no DN, escreveu que “o que me preocupa mais no meu país é que haja um pai e um tio que levam um garoto de 13 anos para um assalto”. O editorial do DN considerou que a atitude dos parentes da criança “é que deveria ser tema de indignações e discussão”. A primeira pergunta que Helena Matos — que tanto se escandalizou com a opressão às bolas-de-berlim com creme — se lembrou de fazer num blogue foi esta: “independentemente de tudo, ninguém é responsabilizado por levar uma criança para um assalto?”<br />
<span id="more-4727"></span><br />
Compreendo. Independentemente de tudo — de a GNR ter disparado sete tiros, de dois desses tiros terem atingido a criança, de a criança ter morrido, — ninguém é responsabilizado pela criança? A resposta é sim. Há responsabilidade para estas coisas e geralmente leva à perda da tutela sobre a criança — mas deixa de fazer grande sentido discuti-la, não é verdade? Porque, independentemente de tudo, a criança morreu. Nada indica que venha a ressuscitar.</p>
<p>Mas, ah! O pai da criança era foragido! A família da criança tinha um mercedes! E, pormenor não de somenos, eram ciganos.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Há umas semanas escrevi sobre o preconceito anti-cigano, e como ele pode descambar para a indiferença e a desumanidade. João Miguel Tavares, no DN, acusou-me de ser demagógico; afinal os ciganos vivem do rendimento mínimo e têm playstations e ecrãs de plasma — apreciação que, por sua vez, nada tem de demagógica.</p>
<p>Pois aqui vai mais um pouco de “demagogia”: já chegámos à indiferença, falta pouco para a desumanidade. Um crime contra a propriedade não valida a morte de ninguém, incluindo uma criança filha de um criminoso. Um pouco de “esquerdismo”: se morreu desnecessariamente um miúdo, pouco me importa se o pai dele era foragido e conduzia um mercedes. E um pouco de “politicamente correcto”: os ciganos também não gostam quando os filhos deles morrem.</p>
<p>Mudando de assunto, sem mudar. Um electricista foi despedido por ter dito no Prós e Contras, programa de TV, que ganhava pouco e não era aumentado há anos. Eis o que Alberto Gonçalves tem para escrevinhar sobre o assunto, no DN: “uma simples ida a esse excepcional programa deveria constituir motivo para despedimento com justíssima causa”. Ih-ih-ih, ah-ah-ah. Oh-oh-oh.</p>
<p>Percebem? Se o estado se mete na higiene alimentar ou nos salários dos administradores, é totalitarismo. Se um agente do estado mata uma criança numa ocorrência trivial, a pergunta é “que estava ali a fazer a criança”. Se um patrão despede um empregado por este dizer em público que não é aumentado, é uma divertidíssima chalaça. O pessoal consegue ver o nazismo na lei do tabaco mas andar alegremente a demonizar uma minoria étnica — isso estranhamente não lhes lembra nada. Entretanto, a esquerda é demagógica, politicamente correcta e — o pior de todos os crimes, vejam lá — a esquerda é de esquerda. Eis tudo o que precisa de saber para botar opinião neste país.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Brasileiro salva TAP?</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/14/brasileiro-salva-tap/</link>
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		<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 08:37:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Na edição de ontem do PÚBLICO, nesta secção aqui ao lado onde se regista o &#8220;sobe e desce&#8221; quotidiano, a primeira referência levava uma foto com Fernando Pinto, da TAP, por causa de um estudo que considera que a companhia &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/14/brasileiro-salva-tap/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na edição de ontem do PÚBLICO, nesta secção aqui ao lado onde se regista o &#8220;sobe e desce&#8221; quotidiano, a primeira referência levava uma foto com Fernando Pinto, da TAP, por causa de um estudo que considera que a companhia que ele administra era uma das poucas que iriam sobreviver à crise, em meia centena de trasportadoras aéreas europeias.</p>
<p>O título não era &#8220;Brasileiro salva a TAP&#8221;. Seria absurdo. Fernando Pinto vem do estado do Rio Grande do Sul, mas não é por ser brasileiro que salva a TAP &#8211; se a salvar, evidentemtente &#8211; e, conversamente, não é qualquer brasileiro que consegue fazer o mesmo que ele faz.</p>
<p>Outros títulos possíveis: &#8220;brasileira traz café à mesa quatro!&#8221; &#8211; &#8220;paciente afirma que cárie foi tratada por brasileiro&#8221; &#8211; &#8220;brasileiro assenta tijolo em prédio novo&#8221;. Todos igualmente absurdos &#8211; verdadeiros enquanto facto, ridículos enquanto notícia. Talvez interessantes enquanto estória, mas absurdos enquanto explicação.<br />
<span id="more-4474"></span><br />
Toda a gente sabe fazer esta distinção. A questão é outra: há quem a não queira fazer.</p>
<p>Na noite em que o sequestro-assalto a um banco de Lisboa terminou com um assaltante morto e o outro ferido &#8211; e os reféns felizmente ilesos &#8211; uma porta-voz da Polícia leu um comunicado apresentando os factos da actuação policial, &#8220;sem direito a perguntas ou outros comentários&#8221;. Ao seu lado, um comandante sorria perante as perguntas dos jornalistas, e apesar do aviso da sua colega, fez questão de acrescentar num aparte que &#8220;eles falavam português mas tinham sotaque brasileiro&#8221;. O sotaque agora assalta bancos? Tanto como salva companhias aéreas, suponho eu.</p>
<p>Passados uns dias, apareceu uma coroa de flores na agência do banco assaltado, com os dizeres também absurdos: &#8220;Em memória de Nilton Souza, morto neste local por ser brasileiro.&#8221; Por ser brasileiro, ou por ter feito e ameaçado reféns? Lamento a morte do assaltante, mas estou certo de que a polícia teria agido da mesma forma caso ele fosse de outra nacionalidade.</p>
<p>Ambos sabem fazer a distinção necessária &#8211; o comandante da polícia como o autor da coroa de flores &#8211; mas não a querem fazer porque preferem injectar a desconfiança e incompreensão entre nacionalidades numa história que já de si triste o bastante.</p>
<p>Não estão sozinhos; e não falo sequer nos lamaçais das discussões anónimas na Internet onde qualquer frustrado com um trauma antibrasileiro (ou antiportuguês) aproveita a confusão para destilar o seu veneno. Muitos jornais, comentadores e políticos se lançam agora no exercício de sugerir que a nacionalidade é um factor explicativo essencial para compreender o que se passou.</p>
<p>Dados publicados ontem neste jornal dizem-nos o contrário. A taxa de criminalidade nas comunidades estrangeiras é exactamente a mesma que entre os portugueses: onze casos em cada mil homens. Os homens em idade activa têm uma maior taxa de criminalidade, e as comunidades imigrantes têm mais homens em idade activa &#8211; precisamos deles para trabalhar&#8230;</p>
<p>Suponhamos, por absurdo, que a taxa entre brasileiros era o dobro: 22 por mil. Mesmo assim, restavam os 978 que não são notícia: os que trazem o café para a mesa quatro, apanham o autocarro connosco, nos tratam as cáries e dirigem a nossa companhia aérea. São a brasileira de Goiás que, no dia após o assalto, me contava que tinha os dois filhos na faculdade, já com namorado e namorada portugueses, e que ela vai ficar em Portugal para ver os netos. Vêm do Paraná, de Minas Gerais, falam a nossa língua, esforçam-se para melhorar a vida, trabalham aqui e já merecem a nossa consideração e respeito por isso. A maior parte dos portugueses, acredito, reconhece isto mesmo.</p>
<p><small>13.08.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Um Cáucaso bicudo</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/12/um-caucaso-bicudo/</link>
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		<pubDate>Tue, 12 Aug 2008 09:02:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se há uma semana alguém perguntasse qual seria a melhor estratégia internacional da Geórgia &#8211; como da Arménia, sua vizinha &#8211; a resposta seria: esperar. Ainda há poucos meses, George W. Bush tinha proposto a entrada do país na NATO. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/12/um-caucaso-bicudo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se há uma semana alguém perguntasse qual seria a melhor estratégia internacional da Geórgia &#8211; como da Arménia, sua vizinha &#8211; a resposta seria: esperar. Ainda há poucos meses, George W. Bush tinha proposto a entrada do país na NATO. Os aliados europeus não aceitaram a ideia; se o tivessem feito, seriam agora forçados a entrar em guerra com a Rússia. Mas com tempo e persistência a Geórgia acabaria por se associar de alguma forma à NATO e à União Europeia. Teria então mais peso para uma solução que lhe fosse favorável na Ossétia do Sul, que declarara a sua independência sem reconhecimento internacional, na década de noventa.<br />
<span id="more-4349"></span><br />
A Ossétia é habitada por um povo de língua aparentada ao persa; metade vive no território da Rússia (a Ossétia do Norte) e o restante na Geórgia. Têm sido aliados dos russos, mas o território da Ossétia do Sul é georgiano desde as fronteiras desenhadas pelo Kremlin soviético no tempo de Estaline &#8211; que era georgiano de nascimento.</p>
<p>Do ponto de vista estritamente pragmático, nada aconselhava a uma acção militar. A Ossétia do Sul ser dominada pelos separatistas não era novidade. E olhando para o mapa dá para ver que a Geórgia tem muito mais a perder do que a montanhosa Ossétia do Sul: uma longa linha de costa na região da Abkházia, também independentista. Sem estas regiões, a Geórgia perde muita da importância estratégica que sempre teve, ontem como parte da Rota da Seda, hoje como zona de passagem para petróleo e gás natural.</p>
<p>Parto de alguns pressupostos. O primeiro é que ninguém ataca sem premeditação uma capital secessionista no dia de abertura dos Jogos Olímpicos por causa de uma situação que não mudou recentemente. O segundo é que, com razão ou sem ela, atacar os interesses de um colosso é o melhor presente que se pode oferecer a esse colosso. Cuba só decidiria atacar Guantánamo se desejasse ver o Exército americano desembarcar em Havana. Taiwan nunca atacaria um interesse da República Popular da China, a não ser que quisesse ser invadida.</p>
<p>Não há, neste momento, uma explicação clara para as razões que terão levado o Presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, a abrir a porta a um conflito com a Rússia no qual &#8211; basta voltar a olhar para o mapa &#8211; a Geórgia não tem a menor hipótese de sucesso.</p>
<p>Explicações externas possíveis: a Rússia provocou a Geórgia ou os EUA prometeram apoiar a Geórgia em caso de confronto. Há adeptos de ambas as teorias. Mas no primeiro caso, o papel do Presidente georgiano seria evitar ao máximo responder a provocações. No segundo caso, e apesar da visita de Condoleezza Rice à capital georgiana na véspera do ataque, é difícil acreditar que os EUA aceitassem entrar em conflito com a Rússia por causa da Geórgia.</p>
<p>Resta uma explicação interna: Saakashvili achou que uma aventura militar poderia reforçar o seu poder no país. O pedido de cessar-fogo por parte do Presidente georgiano parece sugerir que a explicação interna é que vale, e que este foi um enorme erro de cálculo da sua parte. Se foi assim, colocou em risco não só a integridade da Geórgia como a sua autonomia no futuro, uma vez que a Rússia agora se considera legitimada para não parar por aqui. Os EUA, pelo seu lado, podem tentar compensar a progressão russa. Ou seja, mesmo uma causa &#8220;interna&#8221; pode ter consequências &#8220;externas&#8221;.</p>
<p>Nos séculos XVIII e XIX &#8211; e até à I Guerra Mundial -, aquela região foi disputada entre os czares e os otomanos, com os ingleses e os persas em segundo plano. Já na época foram guerras medonhas. Uma repetição actualizada dessas guerras seria uma terrível notícia. </p>
<p><small>11.08.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Foi-se, não volta mais&#8221;</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/07/foi-se-nao-volta-mais-por-rui-tavares/</link>
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		<pubDate>Thu, 07 Aug 2008 10:29:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não adianta procurar a virgindade perdida debaixo da cama. É uma verdade universal e da política. Estranho que só o Bloco de Esquerda não saiba disto. Há um ano, o Bloco de Esquerda fez um acordo na Câmara Municipal de &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/07/foi-se-nao-volta-mais-por-rui-tavares/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não adianta procurar a virgindade perdida debaixo da cama. É uma verdade universal e da política. Estranho que só o Bloco de Esquerda não saiba disto.<br />
Há um ano, o Bloco de Esquerda fez um acordo na Câmara Municipal de Lisboa para possibilitar a colaboração entre António Costa e o vereador independente do BE José Sá Fernandes. Pessoalmente, acho que fizeram muito bem, mesmo tendo em conta que o PCP e a lista de Helena Roseta não quiseram entrar nesse acordo.<br />
Um ano depois, o acordo existe. Para o BE, esta já não deveria ser uma questão de &#8220;se&#8221; nem &#8220;quando&#8221; perder a virgindade política. Foi-se. Não volta mais.<br />
José Sá Fernandes nunca foi consensual; há neste momento gente a observar atentamente todos os seus movimentos e qualquer erro que ele cometa. Talvez fosse aconselhável o BE distanciar-se dele? Não, não é.<br />
Em primeiro lugar, José Sá Fernandes é um independente. Enquanto o Bloco de Esquerda constituía a sua personalidade, foi importante para demonstrar abertura e capacidade de diálogo com que se distinguisse o novo partido, por exemplo, do PCP. Pois bem: quem fica com os cómodos leva os incómodos. Se o BE se afastar de Sá Fernandes, será legítima a pergunta: os independentes só lhe interessariam enquanto não traziam problemas, ou não são verdadeiramente independentes?<span id="more-4227"></span><br />
Claro que, neste momento, é Sá Fernandes quem transporta o ónus de uma câmara municipal em que a única grande notícia é que acabou o caos e a corrupção anterior. Isso nunca basta e ainda bem; as pessoas querem ver a sua cidade a progredir. Para quem tenha tentações maquiavélicas, dir-se-ia que é Sá Fernandes quem tem mais a perder com uma ruptura. Errado. Um segundo depois de acontecer, o BE seria denunciado como calculista, e com razão.<br />
Mas parece que o PCP e especialmente Helena Roseta têm uma vida mais sorridente na oposição. Bom para eles; e bom para nós todos, se a oposição for bem feita. Mas ambos já perderam a virgindade política há muito tempo e o PCP até governou Lisboa durante uma década com o PS. O presidente da câmara dessa época, Jorge Sampaio, até foi candidato a primeiro-ministro pelo PS. E daí? O PCP encolhia os ombros e dava a resposta certa: estava a trabalhar para Lisboa e os lisboetas.</p>
<p>As pessoas podem respeitar um partido por estar na oposição; as pessoas podem respeitar um partido por estar no poder. Podem respeitar um partido que está no poder numa cidade e na oposição no país &#8211; que dificuldade há em entender isso? Mas nunca respeitarão um partido que está no poder como se estivesse na oposição. Num momento dirão, é certo, que Sá Fernandes não passa de uma muleta do PS em Lisboa; caso o BE sucumbisse a esse canto da sereia, no momento seguinte diriam que uma ruptura foi pura irresponsabilidade e desrespeito por um compromisso.<br />
Estas são apenas as razões negativas, assim alinhadas de forma um tanto cínica, para confrontar quem ande à procura da virgindade debaixo da cama. Mas há também razões positivas para não o fazer.<br />
Ou melhor, é uma só, mas bem grande: governar, ainda que sectorialmente, uma cidade e poder experimentar as suas ideias é uma das coisas melhores que um partido pode fazer. Aproveitem enquanto dura. Vão ver que até se divertem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Um país quase imaculado</title>
		<link>http://5dias.net/2008/08/05/um-pais-quase-imaculado/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Aug 2008 08:39:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo. Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/08/05/um-pais-quase-imaculado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo. </p>
<p>Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se que há muito racismo nos EUA, mas evita-se comparar a realidade dos negros em ambos os países. E Portugal, evidentemente, considera-se naturalmente não-racista: seremos talvez uma raça superior a quem falta o gene do preconceito?<br />
<span id="more-4101"></span><br />
Esta discussão pueril esquece duas coisas. A primeira, que o racismo pode andar na cultura e na sociedade, mas cabe ao indivíduo não ser racista. Não é coisa de povos; é responsabilidade de cada um. A segunda, que a coisa não é estática: uma comunidade profundamente racista pode deixar de sê-lo se indivíduos suficientes se forem levantando contra o racismo. Para que isso aconteça, ser não-racista é insuficiente; é mesmo preciso ser anti-racista.</p>
<p>Também nunca tive ilusões sobre outra coisa: em Portugal, a comunidade que é vista com mais preconceito, há mais tempo e de forma mais consistente, é a dos ciganos.</p>
<p>O preconceito anticigano agarra-se a tudo e pode fugir ao controlo. Uma sondagem no Expresso dá os ciganos como a comunidade mais detestada no país. No mesmo jornal, Miguel Sousa Tavares prega um sermão aos líderes da comunidade para que abandonem uma vida de crime e tráfico de droga. E claro: Paulo Portas logo veio sugerir que há um Portugal que trabalha para que os ciganos vivam do rendimento mínimo.</p>
<p>Neste país onde os bancos &#8220;arredondaram&#8221; os empréstimos à habitação e meteram ao bolso uma média de cinco mil euros por família, os ciganos são ladrões. Neste país onde a Operação Furacão encontrou fraude empresarial de grande escala mas não chegará a lado nenhum, os ciganos é que são os dissimulados. Neste país onde Paulo Portas ainda não explicou quem é o famoso Jacinto Leite Capelo Rego que generosamente deu dinheiro ao seu partido (nem explicou o &#8220;caso sobreiros&#8221;, nem o &#8220;caso submarinos&#8221;, nem o &#8220;caso casino&#8221;), os ciganos é que são os malandros.</p>
<p>Ainda se vai descobrir que os ciganos é que raptaram Maddie ou atrapalharam as brilhantes investigações policiais. Ainda se vai descobrir que, afinal, os ciganos estão por detrás do escândalo Casa Pia. Ainda se vai descobrir que são os ciganos quem monta as empresas manhosas onde os nossos jovens licenciados trabalham a recibos verdes. Ainda se vai descobrir que os ciganos é que estacionam os nossos carros em cima dos passeios.</p>
<p>Mas, até lá, tenhamos sentido das proporções. Ou então chegaremos ao ponto a que agora chegou a Itália. Em Itália, todos os ciganos e apenas os ciganos (estrangeiros ou italianos, menores ou adultos, meros suspeitos ou completamente inocentes) estão a ser identificados compulsivamente pela polícia, algo que não acontecia na Europa Ocidental desde o nazismo. No outro dia, duas meninas ciganas morreram afogadas numa praia de Nápoles e os seus corpos estiveram ali expostos sem que isso incomodasse os banhistas. A Itália dá-se a este luxo: está agora obcecada com os ciganos, como se de repente os seus políticos fossem incorruptos, já não houvesse italianos mafiosos nem pilhas de lixo para apanhar nas ruas.</p>
<p>Eu estou certo de que os italianos não são racistas; mas pelos vistos faltaram-lhes anti-<br />
-racistas em número suficiente no momento certo.</p>
<p><small>04.08.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Saber é poder</title>
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		<pubDate>Thu, 31 Jul 2008 10:01:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem houve em Lisboa um debate sobre o futuro da zona ribeirinha, com a presença de Manuel Salgado, número dois da câmara municipal. Até Setembro, estará em discussão pública um plano de intervenções; mas, tanto quanto entendi, não há um &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/31/saber-e-poder/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem houve em Lisboa um debate sobre o futuro da zona ribeirinha, com a presença de Manuel Salgado, número dois da câmara municipal. Até Setembro, estará em discussão pública um plano de intervenções; mas, tanto quanto entendi, não há um documento único sobre que nos pronunciarmos. Espero que não se corra o risco habitual com estas coisas: estão em discussão enquanto são vagas de mais para termos opinião e deixam de estar em discussão quando já foram decididas e é tarde de mais.</p>
<p>No curto espaço de que disponho escreverei apenas sobre a Praça do Comércio. Ela é, sem dúvida, a chave de qualquer solução para a zona ribeirinha &#8211; que descreve um arco &#8211; e para a Baixa que é a flecha desse arco. A Praça do Comércio é a intersecção entre os dois eixos principais da cidade. O peso simbólico do seu passado reflecte-se na forma como todos ainda lhe chamamos Terreiro de Paço, quando já não é um terreiro, o Paço foi destruído em 1755 e a praça mudou de nome há mais de 230 anos.<br />
<span id="more-3901"></span><br />
Após o Grande Terramoto, ela reforçou ainda o seu poder simbólico. Ela era, intencionalmente, a praça mais importante não só da cidade, nem do país, mas da coroa e seus domínios, do &#8220;império&#8221; &#8211; de qualquer forma mental que a ideia de Portugal assumisse.</p>
<p>Temo-la compreendido pouco e tratado mal. Esteve transformada em parque de automóveis. Santana Lopes quis lá fazer hotéis de charme para substituir os ministérios. Segundo Manuel Salgado, ela caminhará a prazo para ser libertada de trânsito (o que é bom) e poderá ver os seus pisos térreos ocupados por lojas.</p>
<p>Comecemos por desfazer este equívoco de que, como a Praça se chama &#8220;do Comércio&#8221;, ela foi pensada para ter comércio. Na verdade, ela tem esse nome porque foi paga pelos comerciantes (com recurso a impostos extraordinários) e não por que fosse destinada a eles. Mal ou bem, a praça foi feita tendo em mente o mais forte simbolismo público e nacional, e esse pressuposto terá de ser respeitado.</p>
<p>Nesse caso, que fazer com ela? Felizmente, parte da decisão foi tomada há quase duzentos e trinta e três anos.</p>
<p>No dia 2 de Outubro de 1775, o Marquês de Pombal ordenou em nome do rei que todo &#8220;o grande Edificio do Lado Occidental da Real Praça do Commercio&#8221; fosse destinado à construção da &#8220;Bibliotheca publica&#8221; do Reino, que começaria por contar com &#8220;sessenta mil volumes&#8221; (esta é a biblioteca que depois foi para o Rio de Janeiro com a corte). Pombal via a Praça do Comércio como o símbolo de uma ideia do país &#8211; a sua ideia ou a ideia do seu tempo. Por isso ela seria a praça do poder, mas também por isso mesmo, a praça do saber. As duas coisas eram a mesma coisa: saber é poder.</p>
<p>Hoje temos uma ideia diferente do país, do poder, e até do próprio saber. Ainda bem, acrescento eu. Até uma biblioteca pública central é hoje muito diferente &#8211; um lugar aberto até tarde, com recursos informáticos, Internet sem fios, obras em consulta directa para todos, estudantes, desempregados ou reformados (e não só para investigadores das 9 às 6 como na Biblioteca Nacional do Campo Grande). As lojas e os cafés também têm o seu papel; ele é importante, mas não principal.</p>
<p>Mas há coisas que se mantêm. Hoje, diz-se, vivemos na sociedade do conhecimento; a questão central é ter uma ideia de Portugal na sociedade do conhecimento. Pois bem, diria Pombal: se essa é a questão central, temos de voltar a colocá-la no centro. No centro simbólico, político &#8211; e no centro propriamente dito da cidade.</p>
<p><small>30.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Ideias perfeitas</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/29/ideias-perfeitas-por-rui-tavares/</link>
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		<pubDate>Tue, 29 Jul 2008 09:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/29/ideias-perfeitas-por-rui-tavares/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há quinze dias, ninguém gostava de bairros sociais. Sim, a longo prazo podem ser uma concentração de problemas. Os países e cidades que investiram neles já entenderam que não se deve alojar em bloco um ou mais bairros inteiros. Uma alternativa é alojar cada família para casas a custos controlados, em bairros comuns, e tratar com as mesmas responsabilidades quem tiver acesso a essas casas, sejam eles pobres, classe média ou jovens casais. Em vez de enfiar as pessoas em depósitos de pobres e as crianças em escolas para onde os professores não querem ir, os serviços, o comércio e as escolas que já existem servem toda a gente.</p>
<p>Naturalmente, há quem também não goste desta ideia, que apresentei numa crónica da semana passada. Rui Ramos, nas páginas deste jornal, ataca-a como “experimentalismo” que faz dos pobres “cobaias” e “carne para canhão”, colocando-os “à mercê dos funcionários” que exigem contrapartidas a quem usufruir das casas (manter os filhos na escola, cuidar das casas, pagar as rendas ou prestações, não armazenar armas ilegais) — isto como se alguém fosse obrigado a aceitar e alguma casa viesse sem contrapartidas.</p>
<p>Com Rui Ramos, tudo se passa como se houvesse vinte mil modelos disponíveis mas não tivéssemos de dizer qual defendemos. Eis afinal a única ideia perfeita neste país. Mas é bom que as pessoas — a começar por Rui Ramos — entendam que não ter nada para apresentar também tem custos.</p>
<p>Não saímos da estaca zero. Continuamos a poder optar pela mistura social na cidade, como fazem muitas cidades do mundo desenvolvido, com vantagens e inconvenientes. Ou prosseguir com o bairro social como fazem outras, sabendo que vamos ter de o acompanhar e nele investir durante décadas. Mas há mais opções. Podemos voltar ao modelo de uma cidade envolta por uma cintura de bairros de lata, onde havia os mesmos problemas de hoje e mais alguns. Ou evoluir para o modelo do Rio de Janeiro: condomínios de luxo no sopé do morro e favelas na encosta, onde teremos os mesmos problemas de hoje e muitos mais ainda.</p>
<p>Para Rui Ramos, pelo contrário, a única ideia genial para a pobreza é não fazer nada. Pensará ele que nunca foi experimentada?<span id="more-3859"></span></p>
<p>***</p>
<p>Já agora: depois do exercício, sobram umas linhas sobre “responsabilidade pessoal”. Pois bem, o que é a responsabilidade pessoal para Rui Ramos? É simples: a responsabilidade pessoal é uma coisa estupenda que o autor acha que deveria ser exigida aos outros.</p>
<p>Mas como descreveríamos, por exemplo, a responsabilidade pessoal de alguém que participa num debate público? A rectidão, a honestidade e a franqueza são a basezinha obrigatória e traduzem-se nisto: respeitar a inteligência do leitor e dar-lhe a informação suficiente para que ele possa decidir sozinho.</p>
<p>Manipular o leitor seria sempre mais fácil e, muito francamente, é o que Rui Ramos faz. Embora se ocupe exclusivamente da crónica que eu escrevi, nunca a cita nem refere directamente, vedando aos leitores uma simples comparação — nem sequer diz com quem fala, para lá de descrições nebulosas como “descendentes de Afonso de Albuquerque”. Com o jogo escondido, o que o deixaria a salvo de uma resposta, não há limites: o que eu escrevi pode ser retorcido e distorcido até onde lhe dá mais jeito.</p>
<p>É preciso ser o contrário disto, que é a forma mais velha do que passa por debate em território nacional e nos deixou em herança um panorama intelectual mesquinho, enfatuado e pouco corajoso. A nossa elite conservadora nunca gostou de jogar em terreno aberto e com argumentos à vista de todos.</p>
<p><a href="http://static.scribd.com/profiles/images/726xl00ochqte-full.jpg" target="_blank"><br />
</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Nem se vai dar por isso</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/24/nem-se-vai-dar-por-isso/</link>
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		<pubDate>Thu, 24 Jul 2008 08:16:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado, os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê. Quem tem &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/24/nem-se-vai-dar-por-isso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado, os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê.</p>
<p>Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre &#8220;estado&#8221; com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.</p>
<p>Dito isto, é natural que o acordo vá progressivamente entrando nos hábitos de escrita dos portugueses e outros lusófonos, e isto por uma razão que neste momento talvez provoque algum escândalo. Ele, de facto, simplifica-nos a vida.<br />
<span id="more-3773"></span><br />
No Brasil irão ocorrer duas mudanças fundamentais. A primeira é cair o trema em palavras como &#8220;seqüência&#8221; ou &#8220;lingüiça&#8221;. É até compreensível a resistência a esta mudança. Ela facilita no momento da escrita, mas pode dificultar a leitura. Algumas pessoas, dizem os opositores, podem passar a dizer &#8220;sekencia&#8221;, como se aquele &#8220;u&#8221; não fosse para pronunciar. Mas nós portugueses, que não usamos o trema, sabemos que esta confusão é rara: que me lembre, só na palavra &#8220;sequestro&#8221; há quem leia &#8220;secuestro&#8221; ou &#8220;sekestro&#8221;. E não só esta confusão é rara como não vem daí mal ao mundo, no sentido em que ninguém deixa de se compreender por ela.</p>
<p>A segunda é cair o acento que os brasileiros usam em &#8220;idéia&#8221; ou &#8220;assembléia&#8221;. Li uma entrevista de um poeta brasileiro (à revista Língua Portuguesa, que se edita naquele país) protestando contra o que neste caso seria uma &#8220;vitória&#8221; da pronúncia portuguesa. Segundo ele, os portugueses pronunciariam &#8220;idêia&#8221; e &#8220;assemblêia&#8221; com o &#8220;e&#8221; fechado, e a queda do acento consagraria isto, que nós sabemos que é um disparate. Os portugueses pronunciam o &#8220;e&#8221; aberto em ambas as palavras.</p>
<p>Estas misturadas dos oponentes do lado de lá do Atlântico ajudam-nos a entender melhor as misturadas que se fazem do lado de cá.</p>
<p>Em Portugal, a grande mudança é a queda das consoantes mudas. Já se falou muito sobre as suas desvantagens. Vejamos agora o outro lado da moeda. Frequentemente vejo escrito &#8220;contracto&#8221; (no sentido de &#8220;acordo&#8221; e não de &#8220;contraído&#8221;, claro) com um &#8220;c&#8221; a mais. E não é raro encontrar a forma &#8220;conductor&#8221; ou até &#8220;traducção&#8221;. Isso acontece porque, como as consoantes mudas não se lêem, acabamos por inventá-las no momento da escrita em palavras onde elas &#8220;poderiam&#8221; estar.</p>
<p>A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele &#8220;c&#8221;? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.</p>
<p>Sempre o disse: esta reforma ortográfica é relativamente modesta (quando comparada, por exemplo, com a que a língua alemã fez recentemente). Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência.</p>
<p><small>23.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Gosto deste &#8220;debate&#8221;</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/22/gosto-deste-debate/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Jul 2008 08:43:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[A direita comentadeira, em particular a portuguesa, é muito curiosa. Aqui há um ano, quando António Costa e José Sá Fernandes formaram uma aliança na Câmara de Lisboa, houve um sobressalto geral contra a proposta de introduzir uma cota para &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/22/gosto-deste-debate/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A direita comentadeira, em particular a portuguesa, é muito curiosa. Aqui há um ano, quando António Costa e José Sá Fernandes formaram uma aliança na Câmara de Lisboa, houve um sobressalto geral contra a proposta de introduzir uma cota para habitação a custos controlados. Denunciou-se que era uma ideia &#8220;cubana&#8221;, apesar de estar em prática de Nova Iorque a Amsterdão, por infringir o direito sagrado dos promotores imobiliários colocarem cem por cento das suas casas no centro da capital a preços irrealistas, contribuindo para que Lisboa se torne numa espécie de ovo com a gema esburacada.<br />
Passado um ano, descobre-se que essa medida seria talvez a melhor forma de evitar problemas como o da Quinta da Fonte. Em vez de continuar a fazer bairros sociais como depósitos de pobres, deve alojar-se por unidade familiar em bairros comuns, com rendas ou prestações apropriadas aos rendimentos.<br />
Sabe-se que a criminalidade e a violência são maioritariamente praticadas por homens jovens e adultos, entre os 18 e os 30 anos, e tanto mais quando concentrada localmente. Pois bem: uma família com filhos menores num bairro comum, frequentando uma escola comum (e com esta regra muito clara: só deve receber benefícios do Estado quem mantiver os filhos na escola até ao fim) e participando na vida desse bairro, é uma família que está mais afastada da criminalidade quando os filhos crescerem.<br />
<span id="more-3714"></span><br />
Mas há mais: o facto de as casas a custos controlados não serem só para pobres, mas também para a classe média e os jovens casais, afasta o estigma. O facto de os custos serem alterados conforme os rendimentos e modificados ano a ano diminui a fraude. E, como bónus, o centro da cidade fica mais povoado e activo.<br />
Os bairros sociais são francamente melhores do que os bairros de lata que os antecederam. Mas têm defeitos. Não têm comércio, porque são &#8220;bairros de pobres&#8221; e economicamente inviáveis. Às vezes não têm transportes, porque é preciso fazer linhas novas. Mas se promovermos a mistura social pela cidade, a mesma loja de rua serve toda a gente e é economicamente viável. As linhas de transportes são as que já existiam, etc.<br />
Em suma: a mistura social na cidade pode não ser uma ideia perfeita, mas é melhor do que o bairro social, que já era melhor do que o bairro de lata.</p>
<p>Se é difícil discutir a ideia de destinar casas para famílias de classe média ou de pobres nos bairros da Baixa ou &#8211; sacrilégio! &#8211; da Lapa, já é ridiculamente fácil descobrir a pólvora da semana passada: que há racismo entre negros e ciganos.<br />
No Expresso, Fernando Madrinha é característico: &#8220;O racismo não é só a preto e branco&#8221;, escreve ele, &#8220;o que baralha um pouco a esquerda bem pensante&#8221;. Mas, oh Madrinha!, alguém lhe prometeu que era impossível haver ciganos racistas, negros racistas, judeus ou árabes racistas? Alguma vez lhe garantiram que a pobreza é uma escola de virtudes da qual é impossível sair-se criminoso? Pensava eu que era ao contrário e que, por isso, era tão importante erradicar a pobreza. Sendo assim como diz, não sei que &#8220;esquerda bem pensante&#8221; tem andando a ler; se lhe quiserem vender a Ponte Vasco da Gama, desconfie.<br />
Mas a candura de Fernando Madrinha serve ao menos para revelar que a motivação particular do &#8220;debate&#8221; não é afinal mais elevada do que poder embaraçar a &#8220;esquerda bem pensante&#8221;. Não se iludam, amigos. Por mim, poderei passar tranquilamente o Verão a discutir a Quinta da Fonte: com sorte, pode ser que ainda os veja meditar um pouquinho sobre ideias que há um ano atacavam como &#8220;cubanas&#8221;.</p>
<p><small>21.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Um espasmo&#8221;</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/17/um-espasmo/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 18:24:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Vá lá, minha gente, isto não é nenhum mistério! Crime de racismo puro e simples: caso do Alcino Monteiro. Foi morto porque a) era mulato; b) vinha a subir a rua. Os assassinos não o conheciam, não eram vizinhos dele, &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/17/um-espasmo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vá lá, minha gente, isto não é nenhum mistério!</p>
<p>Crime de racismo puro e simples: caso do Alcino Monteiro. Foi morto porque a) era mulato; b) vinha a subir a rua. Os assassinos não o conheciam, não eram vizinhos dele, nunca tinham tido uma briga, ele não lhes tinha olhado para a namorada deles, etc. A motivação única era a racial. Ficou provado que num grupo com brancos e negros/ mulatos, os assassinos só batiam em mulatos e negros que, provavelmente, nunca tinham visto na vida. Nem sequer mataram Alcino Monteiro por &#8220;ser cabo-verdiano&#8221; (ele era português). Se ele fosse um cabo-verdiano branco ou um cabo-verdiano branco traficante de droga, ou um cabo-verdiano branco judeu (posso apresentar-vos alguns) não lhe teriam tocado, desde que fosse branco.</p>
<p>Agora outra hipótese. Uma briga num bar por motivos fúteis, como qualquer briga em bares por motivos fúteis. Um branco bate num negro, um negro bate num branco. Imaginemos que eu (branco) bato num negro porque o gajo me chamou filho da puta. É crime? Sim. É crime racista? Não.</p>
<p>Agora imaginemos que na mesma briga o pessoal se bate e cita Gil Vicente. O gajo diz-me: vai pró inferno, branco! Eu respondo-lhe: mija na agulha, preto! É crime? Sim. Teve motivação racial? É incerto. Foi agravado pelo racismo? É bastante provável. É possível que o tribunal determine que as agressões foram mais violentas, danosas, culposas por causa do racismo? É possível. Deve por isso agravar a pena: é o que diz a lei, e eu concordo.</p>
<p>Quinta da Fonte: o racismo é uma das dimensões? (sim, esta lá no texto) o preconceito, na medida em que não é estritamente a mesma coisa que o racismo, é uma das dimensões? (sim, está lá no texto) o facto de comunidades fechadas lidarem mal com a diferença é uma das dimensões? (sim, está lá no texto) os bairros sociais, a posse de armas, a criminalidade entre jovens, o controle de tráfico de droga? sim, sim, sim, sim, e provavelmente tanto ou mais do que o racismo<br />
<span id="more-3615"></span><br />
COMO MOTIVAÇÃO. isto é um palpite, e apenas um palpite, mas não creio que o tiroteio da quinta da fonte tenha tido por objecto os negros ou ciganos por serem negros ou ciganos (o pessoal não saiu a atirar sobre qualquer negro ou cigano da rua, mas sobre aqueles que moravam ali ao lado em particular, o que justifica o meu palpite) mas por desavenças que MUITO PROVAVELMENTE foram agravadas pelo racismo. Isto está lá no texto, caramba. Citar o racismo como uma das dimensões do caso não é a mesma coisa negar o racismo como uma das motivações. É o contrário.</p>
<p>Matar o vizinho com quem se teve uma briga não torna o assassinato menos grave. Matar um gajo qualquer na rua com quem nunca se teve contacto apenas porque ele é preto (ou branco, ou gordo, ou careca) é que torna o assassinato MAIS grave, sem de forma alguma desculpar o assassinato do vizinho com quem se teve uma briga.</p>
<p>Agora: fazer equivaler este caso ao do Alcino Monteiro é errado e, como é errado, não nos ajuda a pensar o assunto. Como não nos ajuda a pensar o assunto, vai ajudar-nos a cometer erros (erros políticos) no futuro.</p>
<p>Todos os que querem fazer equivaler ambos os casos, a começar pelo João Miranda que até sabe fazer umas tabelas, podem fazer o seguinte exercício:</p>
<p>pergunta? Alcino Monteiro / Quinta da Fonte</p>
<p>o conflito foi local? não / sim</p>
<p>havia uma desavença prévia com o agredido? não / sim</p>
<p>agrediu gente de outra raça / etnia que nada tinha a ver com o conflito? sim / incerto</p>
<p>tinha intenção de agredir qualquer pessoa de outra raça, mesmo que não tivesse desavença prévia? sim / incerto</p>
<p>concretizou essa intenção, ou seja, saiu do bairro e foi pela cidade agredindo qualquer pessoa de outra raça e deixando os da mesma raça em paz? sim / não</p>
<p>há um historial de conflitos no local por outras razões? não / sim rivalidade no tráfico de drogas? não / sim</p>
<p>há um historial de propaganda e organização política/criminosa sobre a inferiodade da outra raça? sim / não</p>
<p>e por aí adiante, até chegar a:</p>
<p>o conflito da quinta da fonte foi agravado pelo racismo? (meu palpite) sim</p>
<p>o conflito da quinta da fonte foi <b>motivado pelo racismo</b>? talvez, é indeterminado, mas não é certamente a única motivação nem a única causa.</p>
<p>o assassinato de Alcino Monteiro foi exclusivamente motivado pela raça? o tribunal provou que sim, e era evidente que sim.</p>
<p>o assassinato de Alcino Monteiro foi um crime racial em sentido estrito? sim.</p>
<p>o conflito da quinta da fonte foi um conflito racial em sentido estrito? foi um conflito entre raças mas não é claro se foi um conflito racial. &#8220;Em sentido estrito&#8221;, dificilmente será.</p>
<p>O conflito da Quinta da Fonte foi grave? Sim. O assassinato de Alcino Monteiro e &#8220;a caça ao negro&#8221; desse dia 10 de Junho foram muito mais graves? Sim. Quem pretende fazer equivaler os dois casos não pensou muito sobre o assunto? Sim.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pretos e ciganos</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/17/pretos-e-ciganos/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Jul 2008 08:56:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Surge em cada Verão interpolado uma história de violência e crime na Grande Lisboa que é suposto ter grandes leituras politicamente incorrectas. Num Verão,, foi Durão Barroso, à procura de um caminho para São Bento, que decretou que havia graves &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/17/pretos-e-ciganos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Surge em cada Verão interpolado uma história de violência e crime na Grande Lisboa que é suposto ter grandes leituras politicamente incorrectas. Num Verão,, foi Durão Barroso, à procura de um caminho para São Bento, que decretou que havia graves problemas com os imigrantes de &#8220;segunda geração&#8221; (ou seja, os que não são imigrantes).</p>
<p>Paulo Portas também está sempre à espera de um arrastão, falso ou verdadeiro, que faça o milagre de o extrair dos três por cento que tem nas sondagens. E uma série de comentadores considera-se vítima da &#8220;ditadura do politicamente correcto&#8221;, se a etnia dos implicados não for proclamada como explicação fundamental de todo o problema.<br />
<span id="more-3586"></span><br />
Durante o ano inteiro, há notícias de violência noutras cidades do país, ou até no campo. Quando há assassinatos na noite portuense, ninguém exige que se fale dos &#8220;problemas de integração dos portuenses&#8221;. Quando há um roubo numa estação de gasolina ou pancadaria numa discoteca de província, ninguém reclama por um debate sobre &#8220;inimizades entre gangs rurais&#8221;. E não se exige nem reclama esse debate porque ele seria desproporcionado. Toda a gente sabe que crime é crime, para ser tratado com a implacabilidade necessária, e que o Porto é o Porto e a província é a província. Um crime entre portuenses deve fazer-nos pensar sobre o crime mais do que sobre os portuenses.</p>
<p>Mas um crime em Lisboa quer dizer, em código, &#8220;pretos e imigrantes&#8221;. E isso é uma festa &#8211; para quem pretende falar, não do crime em si, mas de imigração e &#8220;politicamente correcto&#8221; e do falhanço das políticas sociais.</p>
<p>Toda a gente tem noção, num país como Portugal, de que a violência é a excepção e não a regra. Há mais violência doméstica do que violência urbana neste país: é porque os maridos são violentos e detestam as mulheres? Não: a excepção não é a regra.</p>
<p>Um jovem delinquente pode ser a prova de que a política de integração falhou para ele, mas não é a prova de que a integração falha sempre. À volta dele existem milhares de outros jovens que são nossos alunos, que são nossos colegas e nossos vizinhos, e que levam as suas vidas.</p>
<p>Se quiserem piorar as coisas, cedam à demagogia e declarem a falência do rendimento mínimo, dos assistentes sociais e da igualdade de oportunidades que serviram para esses. Se quiserem melhorar as coisas, reservem um pouco de espaço mental para as experiências que dão certo e apoiem a sua multiplicação &#8211; sabendo que elas jamais irão resolver todos os problemas.</p>
<p>Acima de tudo, não misturem o que não é para ser misturado. Crime trata-se como crime, armas ilegais como armas ilegais, integração como integração, imigração como imigração. Os ciganos da Quinta da Fonte, dependendo de que ciganos são, nem sequer são imigrantes: podem estar aqui neste país há quinhentos anos. Os negros da Quinta da Fonte, dependendo de que negros são, provavelmente nem são imigrantes: podem ter nascido aqui, ou ser oriundos de países onde nós andámos quinhentos anos.</p>
<p>Cada aspecto da realidade &#8211; o crime, as armas ilegais, o bairro social, o racismo e preconceito interétnico, as comunidades fechadas &#8211; pede uma discussão que merece ir longe. Mas o que nos propõe quem se queixa do &#8220;politicamente correcto&#8221; não só não vai muito longe como fica ridiculamente perto. Na sua ingenuidade, acham que basta poder dizer as palavras &#8220;pretos e ciganos&#8221; para as coisas se resolverem.</p>
<p>Pretos e ciganos. Pretos e ciganos. Pretos e ciganos. Já está resolvido?</p>
<p><small>16.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>A sombra das eleições</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/15/a-sombra-das-eleicoes/</link>
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		<pubDate>Tue, 15 Jul 2008 08:15:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Portugal tem uma funesta tradição de gente que desconfia das eleições. Chamemos-lhes democépticos. Não são forçosamente antidemocráticos, evidentemente, ou até pelo contrário. Simplesmente, consideram que nada é mais prioritário do que reformar o país segundo as reformas sempre urgentes do &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/15/a-sombra-das-eleicoes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Portugal tem uma funesta tradição de gente que desconfia das eleições.</p>
<p>Chamemos-lhes democépticos. Não são forçosamente antidemocráticos, evidentemente, ou até pelo contrário. Simplesmente, consideram que nada é mais prioritário do que reformar o país segundo as reformas sempre urgentes do consenso técnico. Nada é mais importante do que reformar o país &#8211; nem mesmo o próprio país.</p>
<p>E pouco nos damos conta de como o democepticismo pertence à nossa cultura. A ponto de se tornar discreto, quase invisível, como um hábito. A recente tomada de posição da Sedes sobre o estado da Nação estava impregnada desta desconfiança, às vezes passando como mera constatação de facto. A primeira frase da sua conclusão, com toda a tranquilidade do mundo, falava da &#8220;sombra das eleições&#8221;.<br />
<span id="more-3570"></span><br />
A sombra das eleições: nada é mais urgente do que fazer as reformas, mas as eleições, esse empecilho, podem pôr as reformas em risco. A sombra das eleições: o povo, o Governo, os partidos arriscam-se a perder a cabeça e deitar tudo a perder. A sombra das eleições: esta sensacional escolha de palavras deveria obrigar toda a gente sisuda e responsável deste país &#8211; e ela é tanta &#8211; a lembrar-se que é preciso ler com muito cuidadinho qualquer texto antes de lá escrever o nosso nome. Mesmo quando vem da Sedes.</p>
<p>Talvez o democepticismo da Sedes seja justificado, talvez ele seja impensado, mas a questão está precisamente aí. Não chegamos a saber.</p>
<p>Ele ali aparece, sem elaboração nem justificação nem consequência, pois não passa de um penduricalho dos tiques e manias nacionais. Não parece que os autores do documento queiram seguir o seu próprio raciocínio sobre &#8220;a sombra das eleições&#8221;. Nem sei se eles acham que as eleições de quatro em quatro anos atrapalham as coisas. Provavelmente não acham. Sei que se limitam a falar como se isso fosse verdade.</p>
<p>Em nenhuma outra área pode ser tão útil a opinião publicada como no questionar dos próprios pressupostos que nos regem. Os pressupostos são estes: as eleições são ruído, o povo escolhe quem lhe oferece facilidades, ninguém quer encarar a realidade, a geração actual é mais ignorante do que a anteriores, já gastamos muito em educação, o país está condenado à mediocridade, nada mudou desde os tempos do Eça, não há dinheiro não há vícios nem investimentos, o único caminho é a retracção, o cavalo do espanhol estava quase a ficar competitivo antes de morrer de inanição. Podemos achar tudo isto pouco nocivo: mas são pressupostos iguais aos de uma caridosa ditadura. Ouvem-se por todo o lado.</p>
<p>Pelo contrário, em nenhum lado se ouve: as eleições são um grande momento de definição de prioridades, o povo escolhe quem lhe oferece um discurso persuasivo, sem passar por isso nem as reformas estariam mandatadas democraticamente, país onde é preciso reformar tudo perdeu o sentido das proporções, para ultrapassar uma crise o primeiro passo é manter o que está bem, se retraímos as protecções sociais a crise bate mais forte e é mais duradoura.</p>
<p>Sabem que mais? Nenhuma reforma seria tão bem-vinda como a reforma das banalidades que nos regem. Banalidades sobre as reformas, banalidades sobre a crise, banalidades sobre o país. Repetimo-las tanto que elas se tornaram no nosso mundo.</p>
<p><small>14.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Teoria e prática da irracionalidade</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/10/teoria-e-pratica-da-irracionalidade/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Jul 2008 09:52:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Em qualquer negociação ou conflito muito depende da irracionalidade plausível do nosso adversário. Quando se fala em atacar o Irão diz&#8211;se que Ahmadinejad é louco, mas o mundo conviveu com as armas nucleares de Estaline e Mao, sobre os quais &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/10/teoria-e-pratica-da-irracionalidade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em qualquer negociação ou conflito muito depende da irracionalidade plausível do nosso adversário. Quando se fala em atacar o Irão diz&#8211;se que Ahmadinejad é louco, mas o mundo conviveu com as armas nucleares de Estaline e Mao, sobre os quais nenhum psiquiatra teria dúvidas, e acabámos de conseguir fechar o programa nuclear do norte-coreano Kim Jong Il, ele próprio um caso mental bizarro.</p>
<p>Vamos partir do princípio de que Ahmadinejad ameaçou Israel com a aniquilação directa (embora a frase que pronunciou, segundo tradutores independentes, fosse antes uma previsão do fim do regime &#8220;ocupante&#8221; israelita) e imaginar que ele determinasse a política externa do seu país (o que não se verifica: esse poder, incluindo o de declaração de guerra, é detido pelo ayatollah supremo, Khamenei). Por outro lado, os seus adversários têm como objectivo confessado a destruição do regime iraniano, e ocuparam os dois países vizinhos do Irão, o Afeganistão a leste e o Iraque a oeste. De um lado e de outro, ninguém está disposto a abandonar no início de negociações a maior alavanca de que dispõe.<br />
<span id="more-3546"></span><br />
No caso iraniano, essa alavanca corresponde ao programa nuclear. No caso do Ocidente, trata-se da ameaça do uso da força: mas uma coisa é a ameaça, que pode ou não ser explícita, e outra a noção clara, que os iranianos terão sempre, de que os EUA e Israel nunca deixam de ter capacidade militar para um ataque mesmo que não o coloquem ostensivamente em cima da mesa.</p>
<p>Contrariamente ao que se pensa, não houve ainda negociações com o Irão com a extensão daquelas que, usando a diplomacia multilateral, acabaram com o programa nuclear da Coreia do Norte. O objectivo das negociações deve ser o abandono do programa nuclear iraniano, mas a União Europeia impõe a suspensão como pré-condição para as negociações; ora, um objectivo não precisa de ser uma pré-condição. Os EUA, por outro lado, não têm diplomatas em Teerão e continuam a afirmar que mudariam o regime iraniano. Para quê negociar, então? Este estado de coisas não tem servido de nada. Não falar com o Irão tem sido inútil para os EUA e não impediu Teerão de enriquecer urânio.</p>
<p>A promessa de alterar uma estratégia que tem falhado nos últimos anos, e negociar directamente com o Irão, é provavelmente a medida mais corajosa e inovadora da campanha de Barack Obama. Saber se vai conseguir mantê-la é decisivo.</p>
<p>Aqui regressamos à questão da racionalidade, mas de outra forma. Querem os teóricos que as relações internacionais obedeçam às equações de força entre potências e regiões no globo terreste. Observam os práticos que elas obedecem, as mais das vezes, ao estado interno dos debates em cada país.</p>
<p>No Ocidente, uma corrente em decadência &#8211; a dos neoconservadores &#8211; sempre desejou um conflito com o Irão. Relatórios dos próprios serviços secretos americanos, que dão o Irão como muito longe de ter armas nucleares, foram desvalorizados pelos neoconservadores, que mantiveram a necessidade de atacar. Mas passaram por cima do facto de que, se os serviços secretos estão enganados, então ninguém sabe onde se localiza o programa nuclear num país grande como o Irão &#8211; e um ataque corre o risco de ser inútil, o que seria o pior de dois mundos.</p>
<p>Note-se que as operações secretas em curso de que fala agora um documento do Congresso americano, e que foi divulgado por Seymour Hersh da New Yorker, já não têm nada a ver com o programa nuclear: trata-se apenas de desestabilização de minorias étnicas no Irão, o que poderia criar um casus belli inteiramente novo. Na guerra a qualquer custo, o pretexto é menos importante do que o calendário, e o calendário neoconservador está a esgotar-se: resta o Verão e o Outono que aí vêm.</p>
<p><small>09.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Do vosso, Rui Hussein Tavares</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jul 2008 08:18:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hussein é um nome árabe, diminutivo de Hassan, que significa &#8220;bom&#8221; ou &#8220;bonito&#8221;. É muito popular entre os muçulmanos, por causa do neto de Maomé que tinha esse nome, mas creio que também aparece entre árabes cristãos. E é também &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/08/do-vosso-rui-hussein-tavares/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hussein é um nome árabe, diminutivo de Hassan, que significa &#8220;bom&#8221; ou &#8220;bonito&#8221;. É muito popular entre os muçulmanos, por causa do neto de Maomé que tinha esse nome, mas creio que também aparece entre árabes cristãos. E é também o nome do meio do candidato democrata às presidenciais americanas. Na rádio e na televisão, nos programas da direitona americana, não há demagogo que não goste de o tratar nome completo &#8211; Barack Hussein Obama -, puxando por aquele &#8220;Hussein&#8221; do meio que denuncia a sua herança &#8220;muçulmana&#8221; e supostamente assustará os ouvintes.</p>
<p>(Já agora: Barack também é um nome interessante, não somente árabe, mas comum nas línguas semitas. Aparece em hebraico como Baruch, quer dizer &#8220;bendito&#8221;, e pode ser traduzido como Bento ou Benedito.</p>
<p>Espinosa, filósofo de origem portuguesa e criado na religião judaica, usava todas as alternativas: era Baruch na sinagoga, mas Bento era o &#8220;nome português&#8221; com que era tratado em casa, e Benedictus o nome latino com que assinou os seus livros.)</p>
<p>Eis, em resumo, como o &#8220;gajo do nome esquisito&#8221; &#8211; é assim que Obama já se apresentou por vezes aos eleitores &#8211; compartilha afinal o seu primeiro nome com o Papa Bento XVI, o segundo com Saddam ditador do Iraque, e o terceiro rima com Osama. <span id="more-3529"></span>Mas é a repetição de &#8220;Hussein&#8221; para assustar os eleitores que tem causado um certo desconforto à sua campanha, o que permitia aos seus adversários uma resposta manhosa, mas de sucesso garantido: &#8220;Então vocês têm vergonha do nome do vosso candidato?&#8221;</p>
<p>Recentemente, entre os apoiantes jovens de Obama, alguém se lembrou deste ovo de Colombo que é ter sentido de humor: de repente, decidiram adoptar Hussein como nome do meio, e usá-lo mesmo como alcunha para os participantes na campanha deles. Uma Emily Nordling, nórdica-luterana, aparece como &#8220;Emily Hussein Nordling&#8221;, um nome irlandês-católico fica &#8220;Dan Hussein O&#8217;Malley&#8221;, e um nome euro-judaico resulta em &#8220;Sarah Hussein Frumkin&#8221;. A mensagem é dupla. &#8220;Não aceitamos que uma pessoa seja julgada pelo nome que calhou em sorte&#8221; é a primeira parte, mas talvez a mais importante seja a seguinte: &#8220;As vossas tácticas não nos intimidam.&#8221;</p>
<p>No seu melhor, a campanha de Barack Obama tem demonstrado isto: que não cede às chantagens emocionais dos seus adversários. Essa é uma das razões que é capaz de os levar à vitória. As anteriores campanhas democratas sucumbiram à tentação de tentar distanciar Al Gore e John Kerry da percepção pública que havia deles. Não só isso tem um preço a pagar na inconsistência da mensagem como é visto pelo eleitorado como um demonstração de insinceridade ou cobardia. Recentemente, o próprio Obama tem claudicado, moderando as suas posições sobre o Iraque ou a espionagem de chamadas telefónicas. É preciso cuidado: um eleitor prefere discordar mas respeitar um candidato, do que não saber se o pode respeitar nem concordar.</p>
<p>Já escrevi que Obama só não ganharia se Hillary se candidatasse como independente (hipótese entretanto excluída) ou na eventualidade de um escândalo com o próprio Obama (não com o seu pastor, nem com a sua mulher, nem nenhum dos escândalos menores que vão tentar criar à sua volta). Mantenho. Não incluí, e arrependi-me imediatamente, aquele que me parece ser o elemento decisivo dos próximos meses: a possibilidade de um conflito com o Irão (directa ou indirectamente através de Israel).</p>
<p>Nos últimos dias, a New Yorker publicou uma reportagem dando conta da existência de operações secretas americanas em território iraniano que poderão redundar num pretexto para esse conflito. Na próxima crónica exploraremos esse tema.</p>
<p><small>07.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Falsos gémeos</title>
		<link>http://5dias.net/2008/07/03/falsos-gemeos/</link>
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		<pubDate>Thu, 03 Jul 2008 08:40:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É opinião corrente que os dois maiores partidos portugueses, o PSD e o PS, são praticamente iguais. É uma opinião que dá jeito aos restantes partidos e que tem algum fundamento, sem dúvida, na percepção pública que existe de ambos. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/03/falsos-gemeos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É opinião corrente que os dois maiores partidos portugueses, o PSD e o PS, são praticamente iguais. É uma opinião que dá jeito aos restantes partidos e que tem algum fundamento, sem dúvida, na percepção pública que existe de ambos.</p>
<p>Devo dizer que, para meu gosto, PS e PSD são mais parecidos do que deveriam ser. Em parte, isso deve-se à contiguidade social entre parcelas das suas camadas dirigentes, principalmente fora dos grandes centros urbanos. Há também aquele fenómeno designado pela elegante palavra &#8220;desideologização&#8221; e a evidência de que um carreirista é parecido em todo o lado e mais ainda nos partidos que de vez em quando passam pelo Governo.</p>
<p>Mas tal como há diferenças de grau, há também semelhanças de grau. A sociologia de café &#8211; disciplina-base para a escrita de uma crónica de jornal &#8211; diz&#8211;nos que a contiguidade social entre PS e PSD não é igual em todo o país. Certos caciques do PS na província podem nunca ter visto um sindicalista na vida e serem compadres do cacique equivalente do PSD. Mas, nas grandes cidades, é bem possível que o colega de trabalho seja do PCP ou do BE. A urbanização crescente talvez favoreça esta proximidade no futuro, ao passo que a criação do BE e a actividade da &#8220;ala esquerda&#8221; do PS aumentam a porosidade entre os eleitorados dos partidos de esquerda.</p>
<p>A tal &#8220;desideologização&#8221; também não se declina da mesma forma em cada partido. O PS foi fundado por um homem, Mário Soares, apaixonado pela discussão ideológica primeiro e pragmático, muito pragmático até, mas só depois. O fundador do PSD, Sá Carneiro, era o contrário disto. Com o tempo, o PSD ganhou orgulho em não ter ideologia (um erro que tem pagado e continuará a pagar a preços consideráveis). Ao menos o PS, quando não tem pensamento político, sente alguma vergonha por isso.<br />
<span id="more-3477"></span><br />
Defini o PSD aqui há dias como um partido não de alternativas, nem sequer de poder, mas apenas um partido que sente que deveria estar no Governo. Não apreciando o debate filosófico, com um fundo anti-intelectual fortíssimo e com um preconceito contra a modernização cultural que considera &#8220;de esquerda&#8221;, o PSD está sempre infelicíssimo na oposição. Isto é especialmente notório entre os chamados &#8220;barões&#8221;. Para eles, a política, mesmo o partido, é uma maçada: só vale a pena sair do conselho de administração se houver a cadeira de um ministério para ocupar.</p>
<p>Já o PS suspeita muitas vezes de que teria mais qualidade de vida na oposição do que no Governo. O professor do ISCTE, depois de ter sido ministro, sabe que vai ter de aturar os colegas lá do departamento para que estes lhe expliquem, em teoria, como ele falhou na prática. Nos tempos de oposição, pelo menos, estava toda a gente de acordo.</p>
<p>Os tempos de oposição tem, assim, efeitos diferentes sobre o PS e o PSD. O PS sai mais rejuvenescido e com mais hipóteses de convencer o eleitorado de esquerda a optar pelo voto útil. O PSD definha na oposição, não sabe o que fazer, e muito menos onde encontrar novo eleitorado.</p>
<p>No Governo, por outro lado, o PS tem tendência a menosprezar as causas de esquerda e a afastar&#8211;se para o centro. Isso torna-o mais parecido com o PSD e pode fazê-lo pagar o mesmo preço no futuro. Com uma desvantagem: com a concorrência à sua esquerda no BE e no PCP, e a contiguidade e porosidade crescente de que falámos, os votos têm para onde ir depois de perdidos.</p>
<p><small>02.07.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Quem quer casar com a carochinha?&#8221; por Rui Tavares</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Jul 2008 08:06:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não é por acaso que Manuela Ferreira Leite precisou de reagir tão enfaticamente à hipótese de, após as eleições de 2009, se formar um governo de &#8220;bloco central&#8221; entre os dois maiores partidos nacionais, o PS de José Sócrates e &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/07/02/quem-quer-casar-com-a-carochinha-por-rui-tavares/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é por acaso que Manuela Ferreira Leite precisou de reagir tão enfaticamente à hipótese de, após as eleições de 2009, se formar um governo de &#8220;bloco central&#8221; entre os dois maiores partidos nacionais, o PS de José Sócrates e o seu próprio PSD. &#8220;Alianças com o PS?&#8221;, perguntou ela, &#8220;só se eu estivesse doida!&#8221;.<br />
A resposta é enfática no estilo porque não o pode ser no conteúdo.<span id="more-3475"></span><br />
Em primeiro lugar, era preciso matar o assunto, por razões externas. Seria muito desagradável, a um ano das eleições, dar já como comprometido o partido que supostamente deve competir pelo governo. Ao PSD cabe desempenhar aquele papel, por pouco que acredite nele, sob pena de tornar as eleições ainda menos competitivas do que elas ameaçam ser.<br />
E em segundo lugar, era preciso matar o assunto, por razões internas. Ninguém duvide de que, dentro do PSD, pouca gente se incomodaria com um governo de &#8220;bloco central&#8221;. O PSD não é um partido de alternativa, é simplesmente um partido que acha que deve estar no governo. Se for sozinho, óptimo; se for acompanhado, menos mal. Se der muito trabalho, lá terá de ser; se não der trabalho nenhum, melhor ainda. Ter de preparar a alternativa para chegar ao governo demora mais tempo e dá mais trabalho. O PSD tem muitas bocas para alimentar e boa parte delas prefere garantir meia-dúzia de ministérios já para o ano que vem do que sonhar com um governo inteiro quando o partido for capaz de voltar a ganhar eleições.<br />
E antes que a fome se juntasse à vontade de comer, Manuela Ferreira Leite precisava de matar o assunto, disparando uma bala de canhão e fazendo muito fumo uns metros ao lado de onde o assunto se encontrava.</p>
<p>Agora o conteúdo. Como já alguém notou, Manuela Ferreira Leite respondeu que nunca faria alianças com o PS &#8211; a não ser que estivesse louca -, mas o mais interessante é que a pergunta não era essa. &#8220;Alianças com o PS&#8221; significa os dois partidos concorrerem juntos às eleições. Um governo de &#8220;bloco central&#8221; significa os dois partidos governarem juntos após as eleições não terem dado uma maioria absoluta, meia-dúzia de comentadores sisudos decretarem que esta é a coisa mais &#8220;responsável&#8221; a fazer e o Presidente da República aparecer em público com um ar pesaroso. Na minha opinião, um governo que junte o bloco central dos interesses ao da política retirará o sentido que resta ao nosso sistema partidário e será desastroso para o país, mas quando chegar a altura não faltará quem garanta que loucura é não o fazer.<br />
Durante o próximo ano, enquanto for provável que o PS ganhe as eleições sem maioria absoluta, &#8220;quem quer casar com a carochinha&#8221; será a incógnita essencial do nosso futuro político. Precisamente por ser essencial, é de esperar que todos os políticos fujam do tema. Manuela Ferreira Leite foi só a primeira: as suas declarações, com mais ou menos ênfase, serão repetidas por Jerónimo de Sousa, Paulo Portas e Francisco Louçã &#8211; o que ajudará José Sócrates, de resto, a defender a necessidade de obter a maioria absoluta.<br />
Para nós seria muito melhor que cada um dissesse: no governo eu gostaria muito de fazer isto ou aquilo, o país precisa claramente da nossa acção, e segundo condições precisas e determinadas estaríamos disposto a chegar a um acordo com um ou mais partidos. Mas, se a memória não me falha, o primeiro pretendente a aceitar casar com a carochinha morreu dentro de um caldeirão. Deve ser essa sorte que os nossos políticos pretendem tanto evitar.</p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O referendo que poderia ter salvo Lisboa</title>
		<link>http://5dias.net/2008/06/26/o-referendo-que-poderia-ter-salvo-lisboa/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Jun 2008 10:16:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Os leitores são livres de achar que todas as minhas crónicas são inúteis. Eu acho que a de hoje é ainda um pouco mais inútil. Não muda nada, não há nada a fazer, o que passou passou. A crónica de &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/26/o-referendo-que-poderia-ter-salvo-lisboa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os leitores são livres de achar que todas as minhas crónicas são inúteis. Eu acho que a de hoje é ainda um pouco mais inútil. Não muda nada, não há nada a fazer, o que passou passou. A crónica de hoje é acerca do referendo que poderia ter salvo o Tratado de Lisboa. E esse referendo teria sido &#8211; nem mais nem menos &#8211; aquele que nós não fizemos aqui em Portugal.<br />
Aqui há uns meses, toda a gente pensava que a aprovação do Tratado de Lisboa no referendo irlandês era um risco controlado. O verdadeiro problema estava no Reino Unido, onde Gordon Brown poderia não escapar a um referendo que certamente chumbaria o tratado, e onde mesmo uma ratificação parlamentar estava longe de estar garantida.<br />
<span id="more-3431"></span><br />
Cada referendo a mais poderia colocar em risco a posição de Gordon Brown. E isto não foi apenas um dos argumentos alegados por José Sócrates para não ir a referendo. Foi &#8220;o&#8221; argumento: Angela Merkel e Nicolas Sarkozy foram bastante claros sobre como seria perigoso um referendo em Portugal. Os rumores davam conta de que Gordon Brown temia pela sobrevivência do seu governo e dizia-se que o embaixador britânico em Lisboa fazia horas extraordinárias para explicar isso mesmo a São Bento. O destino de Londres jogava-se em Lisboa. Pior: o destino da UE jogava-se em Lisboa. Se nós fizéssemos o referendo, o tratado não passava e aí vinha o directório. Não fizemos o referendo.<br />
Avancemos até Junho de 2008. Os irlandeses chumbaram o tratado. Logo depois, em Londres, a Câmara dos Pares concluiu a ratificação do Tratado de Lisboa no Reino Unido.<br />
Sempre achei bastante esquisita (e disse-o) esta história de Gordon Brown estar preso pela decisão que tomassem aqui os portuguesinhos. E agora vê-se quão esquisita era: o governo de Gordon Brown não está mais seguro do que antes, mas no entanto consegue aprovar sem espinhas o Tratado de Lisboa dias depois do &#8220;não&#8221; irlandês.<br />
Vamos então imaginar que, indiferentes à sorte de Gordon Brown, os portugueses tivessem mesmo podido referendar o Tratado de Lisboa. O primeiro-ministro teria cumprido com a sua promessa. Nós teríamos tido um debate &#8211; que nos faz muita falta &#8211; sobre Portugal, a Europa e a globalização. Esse debate não seria isento de sensacionalismos nem exageros de ambas as partes, mas ainda assim teria sido sempre melhor do que não o fazer. Finalmente, como ninguém sabe o que teria acontecido no dia da votação, limito-me a arriscar sem grande risco que o &#8220;sim&#8221; teria ganho esse referendo.</p>
<p>Agora vem o melhor: a União Europeia teria avançado sem a mancha de ter evitado todos os referendos possíveis (o irlandês era inevitável por ser um imperativo constitucional). E com um pouco de sorte, até seguiria para o referendo irlandês com uma vitória portuguesa na aljava, que poderia influenciar positivamente o debate naquele outro país pequeno e periférico da União.<br />
Como muitas crónicas inúteis, esta tem uma moral da história: abandonar o princípio do referendo por razões pragmáticas foi mau para os princípios e para o pragmatismo. Ter mantido o princípio teria sido bom para os princípios, é claro, mas poderia até ter sido bom em termos pragmáticos. Se todos os meus &#8220;ses&#8221; estivessem correctos &#8211; e nunca o saberemos -, o referendo português não teria posto em risco o Tratado de Lisboa. É bem possível que até o tivesse salvo.</p>
<p><small>25.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Assobiar e comer amendoins</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 13:08:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É uma expressão que os mexicanos costumam utilizar quando colocados perante uma falsa escolha: &#8220;olha lá, não podes assobiar e comer amendoins?&#8221; A resposta certa é, ao mesmo tempo não se consegue, mas ninguém fica impedido de assobiar por comer &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/24/assobiar-e-comer-amendoins/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É uma expressão que os mexicanos costumam utilizar quando colocados perante uma falsa escolha: &#8220;olha lá, não podes assobiar e comer amendoins?&#8221; A resposta certa é, ao mesmo tempo não se consegue, mas ninguém fica impedido de assobiar por comer amendoins e vice-versa.</p>
<p>Outra coisa que os mexicanos costumam dizer muito: &#8220;só neste país!&#8221; Só no México, senhores, é que acontece isto ou aquilo. Há até mexicanos que dizem que &#8220;só no México&#8221; é que se diz &#8220;só neste país&#8221;. Também já ouvi o mesmo a italianos, brasileiros, russos e estado-unidenses. O que não falta para aí são países onde se diz que &#8220;só neste país&#8221;.</p>
<p>Sei muito bem, pois, que não é só neste país que se tem esta conversa sobre se a atenção ao futebol nos impede de prestar atenção às &#8220;coisas importantes&#8221; e se as pessoas das &#8220;coisas importantes&#8221; no fundo detestam o futebol. Quando a Inglaterra falhou a qualificação para o Euro houve um suspiro de alívio de alguns jornalistas que não aguentavam mais ter de cobrir os delicados tendões dos companheiros de David Beckham, as compras das suas esposas, e o delírio dos seus adeptos. E garantiram-me em 2002 vários brasileiros, de esquerda e de direita, que se o Brasil ganhasse a &#8220;copa&#8221; nunca Lula da Silva chegaria à presidência.</p>
<p><span id="more-3418"></span><br />
***</p>
<p>Se bem entendo, há uma discussão entre Daniel Oliveira e Vasco Pulido Valente sobre estas coisas. Digo se bem entendo porque o primeiro escreveu um artigo em que deplorava a forma pouco profissional como os jornalistas se comportam durante o Euro. E o segundo não respondeu ao primeiro, coisa que é incapaz de fazer, mas chegou à conclusão de que &#8220;a esquerda&#8221; lançou &#8220;uma campanha contra o futebol&#8221; e que há uma &#8220;fúria da esquerda contra o futebol&#8221;. Qual fúria da quê? Qual quê da esquerda? Ou (presumo eu) Daniel Oliveira agora se transformou na esquerda inteira, ou Vasco Pulido Valente viu na derrota contra a Alemanha um sinal de que a esquerda &#8220;não percebe&#8221; nem &#8220;lhe ocorre&#8221; um monte de coisas, o que é sintomático nele. Imagino VPV vendo o jogo: &#8220;a esquerda ainda não percebeu que o árbitro não assinalou o empurrão de Michael Ballack&#8221;, &#8220;a esquerda recusa-se a entender que a defesa homem-a-homem tem problemas nas bolas paradas&#8221;, &#8220;a esquerda ainda não viu que Ricardo não sabe sair aos cruzamentos&#8221;.</p>
<p>Esta é uma discussão na qual se garante, de um lado e de outro, que quem assobiar não pode comer amendoins e vice-versa. Um tipo que pendura a bandeira à janela não pode ser cosmopolita. Uma feminista de esquerda não pode entregar-se a noventa minutos de futebol, o que deixa no limbo as amigas com quem vi os jogos. E finalmente, para VPV, há uma escolha a fazer entre a &#8220;egregia hipocrisia&#8221; de Scolari (qual?) e a &#8220;fúria da esquerda contra o futebol&#8221; (qual?).</p>
<p>Mas agora que fomos eliminados do Euro far-se-á a prova dos nove. Podemos finalmente falar dos assuntos sérios, em que Julho e Agosto costumam ser férteis. Um amigo de direita garante-me que Sócrates está acabado. A televisão continuará a ser o último lugar onde buscar informação.</p>
<p>E eu vejo a impossibilidade de ser pessimista, marxista ou de outra superstição religiosa. O sofrimento presente não me serve de consolo pelo futuro melhor. Continuando o mundo na mesma, a única diferença está em vir a morrer sem ter visto Portugal ganhar a taça.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Um incómodo chamado pessoas</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Jun 2008 10:24:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todos os anos celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (parece que é assim que se chama) e lembramos os milhões de portugueses que saíram do país, muitos deles &#8220;a salto&#8221; e sem documentos. Foram em &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/19/um-incomodo-chamado-pessoas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todos os anos celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (parece que é assim que se chama) e lembramos os milhões de portugueses que saíram do país, muitos deles &#8220;a salto&#8221; e sem documentos. Foram em busca de melhor vida, contribuíram para o progresso dos países onde se fixaram e ajudaram o nosso através das suas remessas. Na Europa de hoje estariam a caminho de se tornarem &#8220;criminosos&#8221;.</p>
<p>De acordo com a &#8220;Directiva do Retorno&#8221; que hoje é votada no Parlamento Europeu, esses imigrantes, suas famílias e até menores sozinhos poderiam ser detidos até 18 meses sem julgamento. Como convém nestas coisas, a linguagem utilizada é orwelliana. Os &#8220;centros de acolhimento&#8221; são, na verdade, centros de expulsão colectiva. E a directiva nem sequer é &#8220;do Retorno&#8221;, pois não garante a repatriação dos imigrantes e prevê que eles possam ser entregues a países terceiros sem avaliar os respectivos riscos. A Europa de hoje, com os líderes que tem, não está preocupada sequer em obedecer aos padrões mínimos dos Direitos do Homem.<br />
<span id="more-3382"></span><br />
Que digo? A Europa de hoje, com os líderes que tem, não está sequer interessada em regular a imigração. Podemos defender mais ou menos imigração, mas todos deveríamos defender que os imigrantes sejam encaminhados pela via legal, que a resposta lhes seja dada num prazo curto, que tenham direito de recurso, que os utilizadores de mão-de-obra ilegal sejam punidos e que seres humanos devam ser tratados, no mínimo dos mínimos, de acordo com os direitos humanos. Mas a Europa de hoje pretende harmonizar a expulsão antes de harmonizar as condições de legalização.</p>
<p>No século XVII, o Padre António Vieira disse que Inquisição era uma &#8220;fábrica de judeus&#8221; que servia apenas para alimentar o poder dos inquisidores, debilitando o próprio país. Para insuflar o oportunismo eleitoral de Sarkozy e Berlusconi, dificultamos hoje a legalização dos imigrantes para depois os podermos perseguir. Esta directiva fará da União Europeia uma fábrica de ilegais.</p>
<p>No seu artigo de ontem, Vital Moreira argumenta contra duas alternativas de saída para o impasse europeu, defendidas respectivamente por mim e por Miguel Gaspar nesta última página do jornal.<br />
Entendo as objecções contra o referendo pan-europeu, uma proposta com que simpatizo em teoria, e que também já vi defendida pelo Movimento Liberal Social. Mas a União é, na prática, um conjunto de Estados. Não pode entrar em vigor um tratado que foi aprovado pelos eleitores da Alemanha mas rejeitado pelos de Malta, ainda que os primeiros sejam muitos mais que os segundos. O máximo que podemos ter é uma série de referendos nacionais realizados no mesmo dia mas que contam separadamente.</p>
<p>Vital Moreira não tem razão, contudo, quando se opõe à proposta de mandatar o Parlamento Europeu para escrever o primeiro esboço de um novo texto. Por que razão não poderia o PE fazê-lo a pedido dos governos europeus, quando o projecto de Constituição foi redigido pela Convenção de Giscard d&#8217;Estaing ou se nomeia um &#8220;grupo de sábios&#8221; para decidir as futuras fronteiras da União? Que tem a menos o Parlamento Europeu? Ser eleito pelos cidadãos?</p>
<p>Se o texto final é da Conferência Intergovernamental (depois de começado pelo Parlamento Europeu e emendado pelos parlamentos nacionais), não vejo qual é a diferença material entre a redacção do Tratado Constitucional, do Tratado de Lisboa e a deste novo texto. Com uma grande vantagem política: os cidadãos estariam implicados no início do processo, escolhendo entre diversas propostas, e não apenas no fim do prato cozinhado.</p>
<p><small>18.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Foleiro, pá</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Jun 2008 09:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos próximos tempos vamos ouvir dezenas de explicações sobre o voto irlandês contra o Tratado de Lisboa. A minha teoria é a seguinte: as pessoas reagem mal a uma pergunta desonesta, uma pergunta para a qual lhes fazem sentir que &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/17/foleiro-pa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos próximos tempos vamos ouvir dezenas de explicações sobre o voto irlandês contra o Tratado de Lisboa. A minha teoria é a seguinte: as pessoas reagem mal a uma pergunta desonesta, uma pergunta para a qual lhes fazem sentir que só é admissível uma resposta. Nestes casos, corre-se o risco de ouvir a resposta inadmissível.<br />
<span id="more-3361"></span><br />
Eu teria votado &#8220;sim&#8221;; mas não lamento o que sucedeu aos líderes europeus, que merecem plenamente este sonoro &#8220;vão-se lixar&#8221; em gaélico. Pela milésima vez: num processo constituinte não há nada mais importante do que a maneira como se fazem as coisas. E eles tentaram tudo para não as fazer da maneira certa: desde a convenção constituinte nomeada e não eleita, ao esboço no qual Giscard d&#8217;Estaing interveio como lhe deu na real gana, ao &#8220;diálogo&#8221; que nos foi prometido após os &#8220;não&#8221; francês e holandês e ninguém viu, à promessa de um minitratado, tratado simplificado, tratado reformador, para acabar num tratado propositadamente ilegível para fugir aos referendos &#8211; este foi um caminho de hipocrisia e chantagem trilhado à vista de todos.</p>
<p>E é assim mesmo que vai continuar até à plena satisfação das altas esferas. O debate é agora entre seduzir os irlandeses para um novo referendo com um pacote mais bonito ou, em alternativa, o método Nicholas Sarkozy: empurrá&#8211;los até um canto e puni-los por terem feito a escolha errada.<br />
O excelente resultado está à vista. Mas haveria outra forma?</p>
<p>Declaração de interesses: Miguel Portas foi director do primeiro jornal no qual trabalhei e considero-me seu amigo. É também eurodeputado pelo Bloco de Esquerda (ao contrário de mim, defende o &#8220;não&#8221; ao Tratado de Lisboa). E, por último, é a pessoa a quem já ouvi a proposta mais razoável sobre como sair deste impasse. Tendo em conta tudo isto, aqui vai:</p>
<p>Os governos da União deveriam admitir que o processo nasceu torto e nunca se endireitou. Tomariam então uma decisão simples: dar ao próximo Parlamento Europeu poderes de natureza constituinte para um esboço de novo texto. Em Junho de 2009 os europeus vão às urnas para as eleições europeias, nas quais os partidos se candidatariam com as suas ideias: nenhuma constituição, uma constituição, mais social, mais liberal, um tratado simplificado ou consolidado, o que seja.</p>
<p>Após as eleições, o Parlamento Europeu prepararia um primeiro esboço do novo texto. Este seria enviado aos parlamentos nacionais, para ser emendado. Depois subiria ao Conselho Europeu, onde estão todos os governos, e que funcionaria como um senado onde cada país vale o mesmo (para compensar a composição &#8220;demográfica&#8221; do Parlamento Europeu). Finalmente, este novo texto seria ratificado pelos parlamentos e/ou votado em referendos nacionais, mas realizados nos vários países europeus ao mesmo tempo.</p>
<p>Pode falhar? Pode sim. Mas, para variar, seria um caminho honesto.</p>
<p>Em território espanhol, o Presidente da República comentou o fim do bloqueio dos camionistas. Subitamente, ao perguntarem-lhe por que razão tinha chamado ao 10 de Junho o &#8220;dia da raça&#8221;, escusou-se alegando que &#8220;aqui não faço comentários sobre política interna&#8221;. Isto não é apenas uma contradição em poucos segundos, chega a ser gozar com as pessoas. Cavaco Silva deveria ter mais cuidado: os presidente usufruem de um respeito generalizado na medida em que tratam com respeito os cidadãos, e assim se dão ao respeito.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Da politicagem à política</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 09:22:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em tudo aquilo que um político faz há sempre uma parte de &#8220;politicagem&#8221; &#8211; prático brasileirismo que designa as manobras de curto prazo contra rivais, adversários e às vezes companheiros de partido. O ritmo do ciclo noticioso dá mais atenção &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/12/da-politicagem-a-politica/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em tudo aquilo que um político faz há sempre uma parte de &#8220;politicagem&#8221; &#8211; prático brasileirismo que designa as manobras de curto prazo contra rivais, adversários e às vezes companheiros de partido. O ritmo do ciclo noticioso dá mais atenção à politicagem do que à política, e mais atenção a alguns efeitos da politicagem do que a outros. Foi assim que, na semana passada, quando Manuel Alegre participou num comício do Bloco de Esquerda, o efeito imediato foi pensar na irritação que isso provocaria a José Sócrates &#8211; o que foi favorecido pelas reacções de dois políticos que devem pouco à subtileza, Vitalino Canas e José Lello.<br />
<span id="more-3314"></span><br />
Menosprezou-se o efeito sobre os outros partidos da oposição. O PSD acabara de eleger o seu líder, pela primeira vez uma mulher, Manuela Ferreira Leite. Três dias depois, de que se falava? A agenda jornalística oscilou completamente para a esquerda do PS, esvaziando o fôlego que o PSD trazia do seu debate interno. E atenção: nas próximas eleições vai haver um eleitorado flutuante que o PSD vai ter de disputar com a oposição à esquerda do PS &#8211; e neste momento, as sondagens dão ao PSD pouca distância sobre o conjunto PCP+BE.</p>
<p>Mas há um aspecto de política (por oposto a politicagem) que dá relevância de longo prazo àquele evento. Agora que passou algum tempo, demos-lhe a devida importância.</p>
<p>A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças, que para segurar votos apresentam as respectivas diferenças como inultrapassáveis. À esquerda do PS, por exemplo, faz-se sempre um grande alarido à volta dos &#8220;desvios de direita&#8221; do governo. Não é que eles não existam: mas o alarido serve para disfarçar as mudanças por que passaram os próprios desde os tempos em que defendiam a colectivização revolucionária.</p>
<p>A verdadinha é que toda a gente é hoje mais ou menos reformista e social-democrata. Na mente do povo de esquerda, que é uma porção considerável do eleitorado, estão acima de tudo a equidade e justiça, a qualidade dos serviços públicos, a protecção social na saúde e na velhice, a aposta na educação. Este povo de esquerda português (ao qual &#8211; já agora &#8211; me orgulho de pertencer) quer ver estes temas no centro do debate político. As linhas de fractura partidária e as rivalidades entre lideranças dizem-nos pouco, às vezes nada. A imagem do país que gostaríamos de ter, e do papel activo que toda a esquerda deve ter nele, dizem-nos muito mais.</p>
<p>Não há, ainda, um discurso articulado de combate às desigualdades. Manuel Alegre e o Bloco estiveram longe de o apresentar. Mas refutaram ao menos o preconceito de que não podiam falar em conjunto. Serão premiados por isso &#8211; o que dará às outras lideranças a lição de que a abertura compensa. O problema é que, a seguir, deixam de ter pretextos para continuar a não falar. Até porque, esquecendo as lideranças, há outras iniciativas na calha: o povo de esquerda quer mais.</p>
<p>O Presidente da República tem a obrigação de ser rigoroso quando fala e de pedir desculpas quando falha. Mais vergonhoso do que enganar-se no nome de um feriado é não admitir comentar e corrigir o erro. Ontem não foi dia de lembrar a &#8220;raça&#8221;, como disse Cavaco Silva com encantadora ignorância. Ontem comemorou-se o Dia de Portugal, no aniversário da morte de Luís de Camões, sozinho e abandonado por todos, menos por um estrangeiro da ilha de Java, que era o seu mais fiel amigo. Onde estava então a &#8220;raça&#8221; portuguesa?</p>
<p><small>11.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma estratégia simples</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jun 2008 11:09:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há poucos anos contava-me um colega que tinha chegado lá ao departamento universitário um diploma brasileiro com um pedido de equivalência. Na reunião em que se falou do assunto alguém olhou para o processo e reagiu: &#8220;Universidade de Campinas?! Os &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/10/uma-estrategia-simples/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há poucos anos contava-me um colega que tinha chegado lá ao departamento universitário um diploma brasileiro com um pedido de equivalência. Na reunião em que se falou do assunto alguém olhou para o processo e reagiu: &#8220;Universidade de Campinas?! Os brasileiros inventam com cada uma &#8211; eheheh &#8211; não sei que universidade é esta&#8221;.<br />
<span id="more-3299"></span><br />
Suponho que hoje fosse mais fácil explicar aos colegas de que universidade se tratava, talvez com a simples frase: &#8220;É uma que está centenas de lugares acima de nós no ranking&#8221;. Efectivamente, essa universidade também conhecida por UniCamp foi das que mais subiram no ranking mundial do Times Higher Education Supplement, passando da 448.ª posição para a 177.ª, imediatamente atrás da melhor universidade de língua portuguesa que é, como seria de imaginar, a Universidade de São Paulo [USP]. Nenhuma universidade portuguesa aparece nos duzentos lugares deste ranking.</p>
<p>No ranking elaborado anualmente pela Universidade de Xangai, as Universidade de Lisboa (Clássica) e a do Porto conseguiram entrar na tabela de 500 lugares, atrás de cinco universidades brasileiras: as já referidas UniCamp e USP, mais a Federal do Rio de Janeiro, a Estadual Paulista e a Federal de Minas Gerais. Mas a atitude depreciativa que relatei acima subsiste sem dúvida, porque todos a reconhecemos bem em Portugal. É que a inferioridade com que nos fustigamos em relação aos países ricos tem de ser compensada por alguma coisa, e a sobranceria em relação aos países que imaginamos estarem abaixo na escala do desenvolvimento serve esse propósito, fornecendo apenas a pura satisfação psicológica da demissão: nem compara, nem compete, nem coopera. É talvez a mesma absurda razão por que, como lembra o blogger Ivan Nunes, os brasileiros estudam Eça de Queirós na escola mas nós não estudamos Machado de Assis.</p>
<p>Vasco Graça Moura, em novo texto contra o acordo ortográfico de novo aprovado pelo Parlamento português, alerta para o risco de estarmos perante &#8220;uma Ota linguística&#8221;. É uma comparação absurda mas curiosa: a referência à localização abortada para um novo aeroporto na região de Lisboa vai direitinha para o Presidente da República, que teve um papel crucial nesse processo, e em quem os opositores do acordo ortográfico depositam agora as últimas esperanças.</p>
<p>Se a ideia é dar a entender que o acordo ortográfico seria um erro estratégico como presumivelmente a má localização de um aeroporto, haveria então algo a ganhar em que o Presidente Aníbal Cavaco Silva vetasse agora um acordo ortográfico (que foi em primeiro lugar assinado por um primeiro-ministro cujo nome era: Aníbal Cavaco Silva).</p>
<p>Ao contrário da inconstância e amadorismo que daria aos opositores do acordo esta alegria de última hora, há uma razão para que a estratégia portuguesa em relação ao Brasil tenha sido sempre a mesma. Porque é a estratégia correcta, e tão simples que se resume numa frase: consiste em envolver o Brasil num esforço colectivo de promoção da língua, em que cada país lusófono conta institucionalmente o mesmo.</p>
<p>E tem ainda isto a seu favor: é realmente uma estratégia. Como tal, não se detém no acordo ortográfico. O exemplo das universidades com que comecei demonstra que há muito a fazer. Desde logo, abrir as nossas universidades (reconhecendo por exemplo os graus secundários brasileiros) e usando o prestígio que algumas lá têm, como Coimbra, e os diplomas europeus que elas podem conferir. Vem aí a presidência portuguesa da CPLP, e é preciso pensar o futuro pós-acordo.</p>
<p><small>09.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Abertura</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 10:05:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No outro dia chamaram-me para discutir a &#8220;crise na Europa&#8221;, por causa do petróleo, e eu lá fui pensando que há sempre uma crise na Europa, real ou imaginária. E no entanto, a crise do petróleo não tem origem na &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/05/abertura/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No outro dia chamaram-me para discutir a &#8220;crise na Europa&#8221;, por causa do petróleo, e eu lá fui pensando que há sempre uma crise na Europa, real ou imaginária. E no entanto, a crise do petróleo não tem origem na Europa, que até fez algum trabalho de casa no consumo dos seus automóveis e no uso do transporte público (Portugal atrasado no segundo ponto, infelizmente). E no entanto, se pegarmos em alguns livros recentes, vemos que os norte-americanos mais informados, de Fareed Zakaria a Parag Khanna (não por acaso imigrantes), nutrem uma franca admiração pelo que a Europa tem conseguido, nomeadamente pela sua forma de resolver conflitos através do alargamento.</p>
<p>Se há crise na Europa ela está nesta ideia crucial: abertura. E há dois campos onde a crise de abertura é ainda mais alarmante do que no alargamento: democracia e imigração.<br />
<span id="more-3246"></span><br />
O primeiro está à vista de todos. A forma como os líderes europeus trataram do processo constitucional e estão a tratar da nomeação do presidente do Conselho Europeu, com Sarkozy sempre à cabeça das manobras, é pouco menos do que humilhante para a opinião pública europeia. O que nos resta é seguir com inveja a energia das eleições primárias nos EUA &#8211; ou, vá lá, esperar pelas eleições para o Parlamento Europeu, as únicas em que temos voz directa.</p>
<p>O verdadeiro título de crise na Europa é este: Sarkozy quer endurecer o combate à imigração &#8220;ilegal&#8221; através de uma política comum. É assim: primeiro dificultamos a legalização, depois combatemos os &#8220;ilegais&#8221;, a quem alguns propõem encerrar em centros de deportação até dezoito meses sem terem cometido crime algum, e aos quais o novo Governo italiano propõe criminalizar e prender até quatro anos (bela ideia: em vez de os imigrantes trabalharem para pagar os nossos impostos, vamos nós trabalhar para pagar os custos de encerrar mão-de-obra na prisão).</p>
<p>Sarkozy, que exigiu fugir ao eleitorado no Tratado de Lisboa, tem a sua popularidade em baixa. Solução: vender aos franceses a ideia de que vai combater a imigração na Europa. Como é hábito, sempre que se vê em dificuldades, Sarkozy está a falar em código para o seu eleitorado envelhecido e xenófobo. O resultado seria fazer os seus parceiros europeus pagar pelas falhas na integração da comunidade árabe em França &#8211; obrigando-nos por exemplo em Portugal a prescindir de imigrantes com os quais partilhamos em geral a língua, os hábitos, e que podemos integrar com relativa facilidade. E de caminho, fazer os imigrantes pagar pelo aumento dos combustíveis e pela descida na popularidade dos políticos.</p>
<p>Mas nós precisamos de políticos com coragem para dizer que precisamos de imigrantes: não só para trabalhar, não só para pagar a nossa segurança social e impostos, não só para rejuvenescer o país, mas porque ninguém conseguirá preparar-se para o mundo do futuro se não tiver um pouco de globalização à porta de casa. Voltando aos livros de Fareed Zakaria e Parag Khanna: felizmente para os EUA, dizem eles, a Europa não é competitiva na imigração &#8211; apesar de o dólar baixo ser menos atractivo para os imigrantes. Alívio: afinal, vinte e cinco por cento das patentes americanas são assinadas por imigrantes indianos ou chineses (sem contar com os cérebros europeus que para lá continuam a fugir).</p>
<p>Mas não se iludam: não dá para atrair o engenheiro indiano e expulsar o pedreiro indiano ou o comerciante indiano &#8211; os imigrantes, principalmente os &#8220;qualificados&#8221;, vão para onde sentem abertura. E se o medo da democracia e o medo da imigração nos provam alguma coisa, é esta: a Europa vive numa crise de abertura.</p>
<p><small>04.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Investir na crise</title>
		<link>http://5dias.net/2008/06/03/investir-na-crise/</link>
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		<pubDate>Tue, 03 Jun 2008 10:05:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Salvo encontrar petróleo em abundância nas Berlengas, o que faria de Portugal um país próspero? Mudar o país de lugar, ou melhor, tê-lo mudado aqui há uns séculos. Só com muito talento se conseguiria permanecer pobre no vale do Reno, &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/03/investir-na-crise/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salvo encontrar petróleo em abundância nas Berlengas, o que faria de Portugal um país próspero? Mudar o país de lugar, ou melhor, tê-lo mudado aqui há uns séculos. Só com muito talento se conseguiria permanecer pobre no vale do Reno, rodeado de países ricos por todo o lado.</p>
<p>Aqui onde estamos, qualquer produto nosso tem de atravessar a Espanha para chegar aos consumidores do Centro europeu, e a um preço mais baixo, conseguido à custa dos nossos salários. A crise do petróleo não nos diz nada de novo. Apenas agrava o que já sabíamos.<br />
<span id="more-3230"></span><br />
Se a economia espanhola estava em cima aqui há uns tempos, e isso era visto como um mau sinal para nós, esperem para ver quando a economia espanhola estiver em baixo. A crise espanhola é que é um mau sinal, mas eles têm uma vantagem: dinheiro em caixa, que vão usar para investir na crise, durante a crise, e para sair dela por cima. É o mais inteligente a fazer, e para nós também.</p>
<p>A primeira coisa a fazer é agir como se o aumento do petróleo fosse permanente &#8211; provavelmente até é &#8211; e agir com conformidade. Nesta crónica e nos próximos tempos vamos chutar umas ideias avulsas, pensadas e picadas de coisas lidas por aí, e algumas que até já estão a ser feitas. Nem são particularmente novas. Mas, como dizia um escritor de ficção científica, o futuro já está aí &#8211; está é mal distribuído.</p>
<p>Diz-se que a subida do petróleo afecta todas as actividades da mesma forma. Não é verdade: as indústrias do conhecimento, da criatividade, da cultura e &#8211; em menor escala &#8211; do meio ambiente, do lazer ou do turismo escapam parcialmente ao garrote do combustível. O combustível serve para deslocar coisas e pessoas; nestas outras indústrias o que se vende é, em larga medida, imaterial.</p>
<p>Além de continuar a investir nas energias alternativas, tudo o que seja imaterial e possa ter valor de troca nos interessa (na verdade, já deveria interessar-nos há muito tempo, dada a nossa posição periférica). Eu sei, esta conversa está na moda. Pois bem, é uma moda que para nós faz sentido.</p>
<p>Há hoje muitas actividades que são independentes do lugar. O criativo que trabalha para as indústrias do vale do Reno não tem obrigatoriamente de viver lá. Mas pode viver aqui, onde o clima, a segurança e a comida ajudam. Para seduzir esta gente, Portugal terá de aumentar a qualidade de vida nos centros urbanos, onde as pessoas vivem mais perto umas das outras, querem ter vida cultural e usam mais os transportes públicos. Ganhamos todos com isso, e de várias formas.</p>
<p>Somos fracos em matemática, e vamos demorar para ficar mais fortes, mas há coisas em que já somos bons ou podemos vir a sê-lo rapidamente.</p>
<p>Uma delas: línguas. Portugal deve ser um pólo de aprendizagem de línguas, para nós e para os estrangeiros, aproveitando a proximidade com a lusofonia, o mundo espanhol e até o mundo árabe. O inglês é só o primeiro degrau da globalização: os mais competitivos serão poliglotas. Além disso, os espanhóis não competem bem neste campo e as indústrias imateriais precisam de línguas.</p>
<p>Nestas indústrias a matéria-prima é: educação, educação, educação. Sim, a velha paixão, de Passos Manuel a António Guterres, sempre escarnecida pelos cépticos! Que se lixem os cépticos. Os cépticos gostam de alegar que já gastámos muito em educação (como se fosse uma opção desistir a meio do caminho) e que a Inglaterra fez a revolução industrial com um exército de analfabetos. Pois é: mas os tempos que aí vêm são muito diferentes da revolução industrial. Mesmo nesse tempo, Passos Manuel já tinha razão.</p>
<p>Hoje teria mais ainda.</p>
<p><small>02.06.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>A coligação PPD-PSD</title>
		<link>http://5dias.net/2008/06/02/a-coligacao-ppd-psd/</link>
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		<pubDate>Mon, 02 Jun 2008 19:20:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando ouvi o PSD discutir a questão das coligações (presumivelmente com o CDS), a minha primeira reacção foi: tomara eles coligarem o PSD. Estas eleições consagram o PSD precisamente como coligação. Não é novidade; o PSD já era uma coligação &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/06/02/a-coligacao-ppd-psd/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ouvi o PSD discutir a questão das coligações (presumivelmente com o CDS), a minha primeira reacção foi: tomara eles coligarem o PSD. Estas eleições consagram o PSD precisamente como coligação. Não é novidade; o PSD já era uma coligação não-ideológica entre um temperamento autoritário e a personalidade do self-made man, entre o antimodernismo nos costumes e a modernidade nas infra-estruturas. O resultado de ontem é três PSD cada um com cerca de um terço. Manuela Ferreira Leite, que tem um pouco mais, vai precisar do segundo terço para dominar o terceiro. Haverá concessões e conversões. Essas são as consequências internas e talvez permitam uma acalmia até 2009. Derrotado da noite:  Rui Rio. Tem agora Passos Coelho à sua frente na fila. As consequências externas serão diminutas excepto para o CDS.<br />
<span id="more-3225"></span><br />
Comparativamente, o CDS aparece como um partido estático, sem debate e sem alternativas. A falhada ala liberal do CDS, para a qual Pires de Lima nem conseguiu arranjar assinaturas, passa para o PSD, onde fará o seu papel de novidade velha. Essa é a razão principal porque estão errados aqueles que pretendem que o PSD vire à direita para se distinguir do PS. Onde estão e para que servem os poucos votos que restam à direita? Por razões de contexto, o debate político em Portugal está neste momento à esquerda, onde não faltam opções. Temos a esquerda tradicional do PCP, mais a do Bloco, a de Alegre, a de Soares e a de Sócrates. Cada uma fez a sua evolução deitando fora o inevitável para manter o resto. É à direita portuguesa que falta agora fazer o mesmo. Perdeu o músculo e mantém o que sobra como mobiliário, ilusões de credibilidade por um lado, ideologia de mercado por outro, e providencialismo folclórico com Santana Lopes. Vejamos as coisas pelo lado positivo: é, apesar de tudo, mais do que tinham aqui há uns meses. Dêem-se bem e cuidem disso.  </p>]]></content:encoded>
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		<title>O ano da desigualdade</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/29/o-ano-da-desigualdade/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 May 2008 09:38:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Outrora, Portugal não precisava de desculpas para não se preocupar com a desigualdade e a pobreza. Durante gerações ela estava ali, e era um mero adereço da realidade. As nossas elites nunca se distinguiram por grandes realizações; distinguiam-se apenas pela &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/29/o-ano-da-desigualdade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Outrora, Portugal não precisava de desculpas para não se preocupar com a desigualdade e a pobreza. Durante gerações ela estava ali, e era um mero adereço da realidade. As nossas elites nunca se distinguiram por grandes realizações; distinguiam-se apenas pela pobreza dos outros.</p>
<p>Somente após o grande susto da revolução essas elites aceitaram a contragosto uma série de coisas &#8211; salário mínimo, escolarização de massas, subsídio de desemprego &#8211; que em muitos outros países eram já banais.</p>
<p>Em tempos era estranho, quase desagradável, o filho do caseiro chegar a doutor. Passámos directamente daí para a fase do &#8220;há doutores a mais&#8221; e &#8220;já gastamos muito com a educação&#8221;. Ou seja, uma geração depois da revolução a grande diferença está na indiferença: antes não nos interessávamos pela desigualdade, agora precisamos de boas desculpas para continuar a não ter interesse.<br />
<span id="more-3182"></span><br />
A desculpa mais à mão, nas últimas décadas, tem sido esta: a desigualdade é um preço a pagar pela competitividade e pelo crescimento económico. O resultado dessa desculpa foi: nem crescimento, nem competitividade, nem menos desigualdade.</p>
<p>Se cuidarmos da economia (diziam-nos em código, o que significa, se cuidarmos das grandes empresas), a economia cuida de nós todos. E agora apresenta-se uma dúvida: e se tivéssemos cuidado primeiro de nós? Se nos tivéssemos dotado de bons instrumentos públicos, se tivéssemos usado os impostos para redistribuir riqueza e recursos, se tivéssemos combatido activamente a desigualdade? Se cuidássemos primeiro de nós, não teríamos sido melhores a cuidar depois da economia?</p>
<p>A dúvida é mais do que legítima: ao ver que Portugal, um dos países mais desiguais da Europa, perde nas comparações com os outros países ano após ano, chegou o momento de entender que a desigualdade não é apenas um efeito dos nossos problemas. A desigualdade é uma das causas dos nossos problemas. Só por isso ganharíamos todos em combatê-la.</p>
<p>O combate à desigualdade deveria ser também um combate pragmático. Mas fazer esse discurso apenas &#8211; o de que temos a ganhar com o combate à desigualdade &#8211; não basta. Parece apenas uma inversão retórica em relação à situação anterior: em vez de procurar desculpas para não nos preocuparmos com a desigualdade (a economia, o crescimento, o défice), procuramos uma desculpa para nos preocuparmos (pessoal, reparem que ganhamos todos com isso).</p>
<p>Não. Há razões de princípio para combater a desigualdade e a pobreza, que justificariam esse combate, mesmo que todos perdêssemos um pouco com isso. As famílias que não têm dinheiro para comida a meio do mês, os idosos que não compram os remédios, os jovens que não podem pagar explicações &#8211; não são apenas potencial por cumprir, são pessoas a quem deixamos que aconteça o que não gostaríamos que nos acontecesse a nós.</p>
<p>E a beleza da democracia é que há condições para tornar este problema num debate maioritário, num país como Portugal em que a maioria é feita de uma classe média-baixa com memórias da pobreza, e de muitos que ainda são pobres. Se nos deixarmos de desculpas, as próximas eleições poderão ser uma decisão entre quem quer combater a desigualdade e quem quer &#8211; como dizê-lo? &#8211; continuar a inventar desculpas.</p>
<p><small>28.05.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Um mundo ou o outro</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/27/um-mundo-ou-o-outro/</link>
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		<pubDate>Tue, 27 May 2008 20:45:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando posso, gosto de ir ao primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa. Este ano não pude. Estive na Bienal do Livro de Minas Gerais, no Brasil, onde o escritor Moacyr Scliar perguntava: &#8220;Qual feira do livro de Lisboa? &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/27/um-mundo-ou-o-outro/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando posso, gosto de ir ao primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa. Este ano não pude. Estive na Bienal do Livro de Minas Gerais, no Brasil, onde o escritor Moacyr Scliar perguntava: &#8220;Qual feira do livro de Lisboa? cancelaram!&#8221; A notícia do tumulto chegou mais longe do que eu pensava.</p>
<p>À distância, vejo que em Portugal o assunto da feira adquiriu rapidamente dignidades de interpretação ideológica. É preciso escolher uma abordagem &#8211; ser &#8220;a favor do mercado&#8221; ou &#8220;contra o mercado&#8221; &#8211; para depois optar por um mundo contra o outro, APEL contra UEP, barraquinhas coloridas contra &#8220;praça Leya&#8221;.<br />
<span id="more-3173"></span><br />
Esta dicotomia &#8220;mercadológica&#8221; já cansa. Uma feira é um mercado, os editores e os autores estão ali &#8220;no mercado&#8221;, se para lá foram sempre estiveram &#8220;no mercado&#8221; e isso é bom. Ao mesmo tempo, uma feira é uma forma particular de mercado &#8211; sim, um mercado tão igualitário quanto possível &#8211; que se organiza melhor em certos espaços físicos como praças e parques, onde se pode oferecer as mesmas condições a todos.</p>
<p>As formas têm a sua lógica própria. A feira é uma forma. O parque onde ela se realiza também &#8220;pede&#8221; uma certa forma. O que essas formas &#8220;pedem&#8221; &#8211; e não as teimosias ideológicas de cada um &#8211; é uma coisa como a que lá se tem feito. Aquele aspecto primaveril, provincial e, mais uma vez, igualitário &#8211; mas será isso um problema assim tão grande 15 dias por ano? &#8211; tem servido muito bem. A prova é que tanta gente gosta tanto de lá ir.</p>
<p>Mas o que me encanzina mesmo nisto é que parece haver obrigação de escolher. É um mundo ou o outro. Isso poderia justificar-se, se houvesse falta de público. Mas não há. O que impedirá os lisboetas, que vão alegremente à feira do livro em Maio, de voltar a outro evento com livros no Outono?</p>
<p>Em vez de ter uma feira ou outra coisa diferente, deveríamos ter a feira e mais outra coisa. Consagraríamos a prática &#8211; que já foi experimentada &#8211; de realizar um &#8220;salão do livro&#8221;, ou &#8220;festa do livro&#8221;, ou o que lhe quiserem chamar, num espaço fechado, na segunda metade do ano. Cada editor ou grupo de editoras &#8211; compradas ou não pelo mesmo dono &#8211; poderia aí ocupar os metros quadrados que desejasse pagar, com o pavilhão que quisesse imaginar, e o fogo-de-artifício que lhe aprouvesse, desde cafezinho de graça a música ao vivo. Nos espaços comuns, haveria uma programação de debates, leituras de livros e presenças de autores convidados por uma curadoria independente.</p>
<p>Mas esperem, há mais: os livreiros também têm umas ideias. Jaime Bulhosa, da livraria Pó dos Livros e (declaração de interesses) meu amigo, defendeu no seu blogue um terceiro modelo, o de uma semana do livro com descontos e eventos nas livrarias de toda a cidade.</p>
<p>Qual é o problema? É mais arriscado inovar em eventos novos do que ter sucesso em cima de um modelo que já funciona bem? Mas é para isso mesmo que servem os empresários com visão e a vitalidade do mercado (bem, dizem-nos que servem para a primeira coisa, mas aparentemente têm mais jeito para a segunda).</p>
<p>Pelo que vi a semana passada em Minas Gerais, onde vigora o segundo modelo, a coisa resulta, e com muito público. Em Amesterdão vigora com muito sucesso o terceiro, o da semana dos livreiros. E sabem que mais?</p>
<p>Faz sentido. No fundo, toda a gente que lê livros gosta de ter um mundo e o outro, e mais outro ainda.</p>
<p><small>26.05.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Dogmas em fim de carreira</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/22/dogmas-em-fim-de-carreira/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 May 2008 09:44:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui há uns tempos Pacheco Pereira escreveu uma crónica sobre o desemprego em Portugal e como ele afectava especialmente as mulheres, percorrendo uma lista dos efeitos secundários do desemprego sobre a auto-estima, a autonomia pessoal, o futuro dos filhos &#8211; &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/22/dogmas-em-fim-de-carreira/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aqui há uns tempos Pacheco Pereira escreveu uma crónica sobre o desemprego em Portugal e como ele afectava especialmente as mulheres, percorrendo uma lista dos efeitos secundários do desemprego sobre a auto-estima, a autonomia pessoal, o futuro dos filhos &#8211; entre outros muitos exemplos desses efeitos sobre a vida de pessoas, famílias e comunidades inteiras.<br />
<span id="more-3133"></span></p>
<p>Foi uma das suas melhores crónicas de sempre. No fim, porém, revelava um certo fatalismo: o de saber que muitas das empresas onde antes trabalhavam estas mulheres não eram viáveis e teriam mesmo de fechar. Ainda assim, reconhecendo a centralidade que o emprego tem ainda na vida de muita gente, Pacheco aconselhava o PSD a dar atenção às fábricas e às empresas. Dar atenção não é o mesmo que dar solução, mas é sempre melhor do que nem ligar ao assunto.</p>
<p>No início da campanha eleitoral do PSD, aquele comentário era também uma forma de se demarcar do discurso do principal adversário ideológico do momento, Pedro Passos Coelho, modernizante na doutrina &#8220;liberal&#8221;, mas sem atenção às pessoas concretas. Manuela Ferreira Leite, que Pacheco apoia, tem perfil conservador, mas preocupa-se. Não há nada a fazer, mas ao menos preocupa-se. A escolha seria assim entre alguém que nem sequer se preocupa e alguém que não pode fazer nada.</p>
<p>Falta reconhecer que não havendo talvez solução &#8211; não havendo A Solução no singular &#8211; para aquelas fábricas e empresas, há soluções &#8211; no plural &#8211; para aquelas mulheres e para aquelas pessoas, que afinal são quem importa. Se os efeitos do desemprego são tão terríveis e contagiosos como eram descritos naquela crónica &#8211; e são mesmo -, se eles se reflectem na vida daquelas mulheres, na da filha que já não vai para a faculdade, da própria cidade de onde desaparecem pequenos negócios e lojas &#8211; bem, se isto é assim mesmo, talvez seja melhor intervir com medidas sociais que suavizem os efeitos do desemprego.</p>
<p>As formas mais conhecidas dessas medidas são: subsídios, gabinetes de apoio, assistência social, formação, animação cultural, investigação sociológica para acompanhar isto tudo e &#8211; já sei, já sei: o leitor de direita está prestes a lançar um grito. Acha que tudo isto é desperdício de dinheiro e conversa fiada que não traz os empregos de volta. Nem mais. O problema está aí: aquilo que se pode fazer para debelar os sintomas que Pacheco Pereira reconhece já ele próprio (e o leitor) excluiu ideologicamente à partida.</p>
<p>Ninguém pode acreditar que as &#8220;políticas sociais&#8221;, principalmente estas meramente paliativas, sejam solução para tudo. Mas a intenção delas não é resolver tudo. No início é mera contenção de danos: não se trata de trazer os empregos de volta, mas de não deixar alastrar os efeitos do desemprego. No meio é não deixar enfraquecer a comunidade e prepará-la melhor para poder recuperar. E no fim, nos melhores casos, a possibilidade seria substituir empregos intensivos, às vezes poluentes e pouco produtivos, por empregos novos e de tipo novo: mais diversificados, mais autónomos, com mais valor acrescentado.</p>
<p>A maior parte das &#8220;medidas sociais&#8221; poderá até não resultar para lá da emergência, o que já é importante. Mas as que se prolongam e resultam têm sempre impactos muito positivos para as comunidades e a economia como um todo. Isto, se não forem mortas à partida pelo preconceito cego contra os subsídios e os assistentes sociais e o dogma de que o governo não pode fazer nada para ajudar.</p>
<p>Abandonar esses dogmas implica que o PSD tem de virar à esquerda? Se quiser fazer mais do que preocupar-se, sim.</p>
<p><small>21.05.2008, Rui Tavares</small></p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Falta fazer</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/19/falta-fazer/</link>
		<comments>http://5dias.net/2008/05/19/falta-fazer/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 19 May 2008 22:19:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda aí estão todos? O país intacto? Não se abriu no Atlântico um buraco em forma rectangular, mais umas ilhas às avessas? Nada disso? É que da última vez que falámos a nova ortografia ainda não tinha passado no Parlamento, &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/19/falta-fazer/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda aí estão todos? O país intacto? Não se abriu no Atlântico um buraco em forma rectangular, mais umas ilhas às avessas? Nada disso? É que da última vez que falámos a nova ortografia ainda não tinha passado no Parlamento, e só Endovélico &#8211; deus dos lusitanos &#8211; sabe o que pode ter acontecido entretanto.<br />
<span id="more-3099"></span><br />
Garantiram-me que a nossa identidade multissecular estava em risco se os deputados aprovassem a coisa, o &#8220;segundo protocolo modificativo ao acordo ortográfico da língua portuguesa&#8221;, ufa, só escrever o nome já cansa. Foi prometido; espero para ver como será a &#8220;perspectiva do desastre&#8221; que nos profetiza Vasco Graça Moura num livro cuja capa escolheu ilustrar &#8211; qual Padre Malagrida das consoantes mudas &#8211; com uma imagem do Grande Terramoto de Lisboa.</p>
<p>Boa parte dos meus amigos jura nunca deixar de escrever como lhes foi ensinado. E eu gostaria que assim fosse, juro também, por eles e por mim. Em memória do tempo em que também eu &#8211; pois é &#8211; era contra o acordo.</p>
<p>É para vocês, meus amigos, que agora falo. Isto não foi nada: nem um desastre, nem um milagre. Nem o português vai morrer; nem por isto apenas se vai guindar à glória. Enfim, vocês admitirão que nós não amamos menos a nossa língua e a nossa pátria, vá lá, façam um esforço. E é justo reconhecer que do vosso jeito possessivo, com a vossa retórica tremendista, com o vosso nacionalismo que &#8211; ponham a mão na consciência &#8211; às vezes passa o limite do desagradável, vós tendes um raio de uma admirável paixão assolapada por ela. Saravá por isso!</p>
<p>O importante vem agora. E falta fazer tanto, mesmo naquela pequena parte em que, como comunidades politicamente organizadas, temos deveres particulares perante o idioma.</p>
<p>Para dar um exemplo: os ossos. Os nomes dos ossos mudaram aqui há tempos, felizmente em Portugal e no Brasil ao mesmo tempo e da mesma forma. Caso contrário, imaginem as consequências para a edição médica, para a comunidade científica, ou (por exemplo) para os médicos africanos formados num país ou noutro. Em suma: despachem-se lá com o vocabulário técnico-científico comum que está prometido há mais de quinze anos, e com que até Vasco Graça Moura concorda.</p>
<p>Falta criar uma Academia Lusófona ou, pelo menos, dar meios decentes ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa para que promova estudos e documentos de trabalho (por exemplo) que sirvam de referência para palavras do quimbundo, transliteração do russo, nomes próprios geográficos. Só referência, sem força de lei: os tradutores e revisores agradecem.</p>
<p>E aproveitem agora, que os brasileiros julgam ter sido tão céleres a aprovar o acordo, para os convencer a dar mais dinheiro para a causa. Faça-se um plano de acção para as universidades estrangeiras. Agora já não há desculpas (diga-se) para não ensinar a terceira língua mais falada do Ocidente, e muito menos para nos encafuarem nos departamentos de espanhol. Com ortografia comum, e duzentos e tal milhões de falantes, e uma ajuda dos interessados, vamos lá a multiplicar os departamentos de língua portuguesa no mundo.</p>
<p>Isto é apenas o que nos compete enquanto comunidades politicamente organizadas. É uma parte ínfima da língua, felizmente. O resto é connosco e não com o Estado: o resto é a vida lá fora e isto que estamos fazendo. Falar, escrever e gemer, protestar por tudo e por nada, polemizar interminavelmente, resmungar uns com os outros. E para tais coisas, meus amigos &#8211; deixai-me pecar também -, não há língua melhor do que a nossa.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma boa decisão</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/15/uma-boa-decisao/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 May 2008 23:41:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do &#8220;p&#8221; pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/15/uma-boa-decisao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do &#8220;p&#8221; pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o &#8220;p&#8221; em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita.</p>
<p>Aproxima-se um dia decisivo para a questão ortográfica e a confusão, voluntária ou involuntária, é geral. A confusão, acima de tudo, dá jeito. No meio disto, até há quem pense que o que está em discussão é Portugal ratificar ou não o Acordo Ortográfico. Mas não é.</p>
<p><span id="more-3043"></span><br />
Portugal já ratificou o Acordo Ortográfico. Há mais de 15 anos. Aquilo que na sexta-feira se votará no Parlamento português é uma modificação que se introduziu, entretanto, para permitir a entrada de Timor-Leste e aceitar que o acordo entre em vigor depois de ratificado por três países.</p>
<p>O Brasil, que se tinha atrasado a ratificar o acordo, fê-lo já com esta modificação, tal como Cabo Verde e São Tomé. Lembro-me como, do lado brasileiro, também não faltavam vozes escandalizadas alegando que o acordo era uma cedência aos portugueses.</p>
<p>Durante quase todo este tempo, aliás, o grande receio por parte do Governo português era que esse antilusitanismo levasse a melhor na sociedade brasileira. E tinham razão os nossos políticos e diplomatas: na verdade, não é do interesse português que o maior país da lusofonia fique fora do barco. Sem acordo ortográfico, o mundo acabaria por seguir naturalmente a norma brasileira, considerando o crescente peso demográfico e económico do Brasil. Agora que o Brasil aceitou uma norma comum, e que alguns países africanos já a adoptaram e outros a vão adoptar, seria um enorme erro estratégico fazer com que Portugal ficasse de fora.</p>
<p>O nacionalismo tem vistas curtas. Uma das petições contra o acordo diz que esta situação &#8220;fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular&#8221;. Será possível exagerar mais?</p>
<p>Vejamos a realidade. Um livrinho que contém as alterações do novo acordo e que está à venda por todo o lado tem 30 páginas em letra grande. Lê-se em dez minutos e toda a sua informação caberia facilmente num único cartaz. Há mudanças em ambas as normas, mas são reduzidas e estão longe de ser inaceitáveis. Nós perdemos as consoantes mudas e isso faz-nos uma grande confusão. Os brasileiros perdem o trema, que usam para pronunciar o &#8220;u&#8221; em lingüiça, e admito que lhes faça grande confusão, mas nós sabemos que se passa bem sem o trema. Noutros casos, teremos duas formas de escrever, o que também não é novidade: afinal, aqui em Portugal já usamos loura e loira, bêbedo e bêbado. Qual é o grande problema?</p>
<p>Há quem clame que o Estado não se deve meter na ortografia e que estamos (de novo) perante uma tentação totalitária. No entanto, usam sem pestanejar uma ortografia determinada pelo Estado, e que já passou pelas reformas de 1911, 1943, 1945, 1971 e 1986, entre outras.</p>
<p>Este sensacionalismo não é amigo de uma boa decisão. Este nacionalismo não é amigo de uma boa decisão. A retórica do &#8220;inaceitável&#8221; pode impedir-nos de fechar um bom negócio &#8211; e que nos convém muito especialmente a nós. Uma boa decisão pede cabeça fria, avaliação dos nossos interesses e visão de longo prazo &#8211; esperemos que, na sexta-feira, os deputados demonstrem estas qualidades. </p>]]></content:encoded>
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		<title>Democracia à la carte</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/13/democracia-a-la-carte/</link>
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		<pubDate>Tue, 13 May 2008 09:49:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de gerações de guerra e ditaduras, estamos hoje perante a opinião pública mais livre e informada que o continente europeu &#8211; ainda há pouco dividido &#8211; jamais conheceu. E no entanto o potencial democrático da União continua por aproveitar. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/13/democracia-a-la-carte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de gerações de guerra e ditaduras, estamos hoje perante a opinião pública mais livre e informada que o continente europeu &#8211; ainda há pouco dividido &#8211; jamais conheceu. E no entanto o potencial democrático da União continua por aproveitar. Pior ainda, a maneira como os grandes líderes europeus lidam com o seu eleitorado é puramente oportunista.</p>
<p>E não é só no que diz respeito ao Tratado de Lisboa ou ao nome do próximo presidente do Conselho. Veja-se a discussão em França sobre a entrada da Turquia na União.</p>
<p><span id="more-3014"></span><br />
Desde os tempos de Chirac que o Governo francês deseja realizar referendos sobre a entrada de cada novo país na União Europeia. Recentemente, Nicholas Sarkozy parecia preparar-se para prescindir da obrigatoriedade desse referendo, mas levantam-se vozes no seu partido propondo que este se faça apenas para países cuja população ultrapasse os cinco por cento do total da UE (ou seja, a Turquia) ou cujo território europeu seja menor do que o território não-europeu (ou seja, a Turquia). Para países menores, como por exemplo a Croácia, os franceses não precisariam de se pronunciar. Mas para a Turquia, de que Sarkozy não gosta, a opinião do povo já volta a contar. E segundo o secretário-geral do seu partido, o Presidente francês apoia a ideia.</p>
<p>O que está em jogo é saber que tipo de clube é a União Europeia. Trata-se de um clube onde os membros entram &#8211; e permanecem &#8211; pelo cumprimento de certas formalidades ou de um clube onde se entra pelo capricho dos membros que já estão lá dentro?</p>
<p>Se o critério for o primeiro, a Turquia ainda tem muito caminho para percorrer &#8211; em respeito pelos direitos humanos, tratamento das minorias étnicas, liberdade de expressão e equilíbrio entre laicismo e liberdade de crença, pelo menos. Mas se cumprir esse caminho, sabe o que tem a ganhar. Se o critério for o segundo, passa a estar dependente de que no fim do processo qualquer dos outros membros do clube diga simplesmente que não gosta da sua cara: porque é um país maioritariamente muçulmano e porque é um país populoso (por &#8220;populoso&#8221; entenda-se mais populoso do que a França: a entrada da Ucrânia, maioritariamente cristã, também padece do mesmo pecado).</p>
<p>Isto é desonesto, por duas razões.</p>
<p>Por um lado, a Turquia já está em negociações para aceder à União e as regras foram estabelecidas de forma clara. Como se pode agora determinar, no decurso do jogo, que as regras são aquelas e mais uma, a obrigação de agradar aos franceses?</p>
<p>Por outro lado, não há nada de democrático em referendar a entrada de um país terceiro na União Europeia. Os franceses podem apenas falar por si: se desejarem, poderão votar a própria saída da França de uma União Europeia de que faça parte a Turquia. Mas esse é o limite da sua voz.</p>
<p>Recapitulemos: este é o mesmo Nicolas Sarkozy que prometeu não fazer um referendo sobre um &#8220;tratado simplificado da União&#8221; e depois não apresentou nem tratado &#8220;simplificado&#8221; nem referendo. E é o mesmo Sarkozy que veio propor Tony Blair, desacreditado perante milhões de europeus pela sua participação na guerra do Iraque, para ser o primeiro presidente do Conselho da UE. Nicolas Sarkozy, pelos vistos, só se lembra da democracia quando lhe dá jeito.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Vai uma aposta?</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/08/vai-uma-aposta/</link>
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		<pubDate>Thu, 08 May 2008 15:27:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Meu caro leitor do futuro próximo: escrevo-lhe do passado recente. A separar-nos, temos apenas poucas horas. Mas aqui onde eu vivo, ninguém sabe qual foi o resultado das eleições primárias democráticas em dois estados dos EUA, a Carolina do Norte &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/08/vai-uma-aposta/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Meu caro leitor do futuro próximo: escrevo-lhe do passado recente. A separar-nos, temos apenas poucas horas. Mas aqui onde eu vivo, ninguém sabe qual foi o resultado das eleições primárias democráticas em dois estados dos EUA, a Carolina do Norte e o Indiana. No que a previsões diz respeito, não há melhor altura para as fazer do que quando a incerteza é grande. É então chegado o momento de eu lançar o meu palpite: Obama vai mesmo ser o candidato democrata às presidenciais e, excepto condições que adiante exporei, será ele o próximo presidente dos EUA.</p>
<p>Há muito tempo que as coisas não parecem tão más para Barack Obama. É possível até, caro leitor, que aí no seu futuro possam parecer ainda um pouco piores, sobretudo se ele tiver perdido ambas as eleições de hoje (aqui no passado diz-se que ele vai ganhar uma e perder outra). Durante o último mês, a sua campanha tem estado debaixo de um temporal. Ora é a chuva miudinha das críticas (elitista! intelectual!), ora a rajada de vento dos escândalos (pelo menos de cada vez que o pastor da sua igreja, Jeremiah Wright, abre a boca).</p>
<p><span id="more-2976"></span><br />
O meu raciocínio é o seguinte: o momento decisivo desta corrida foi quando Obama ganhou uma dezena de primárias seguidas, no mês de Fevereiro, e se distanciou de Hillary Clinton. O assunto não ficou fechado: a persistência de Hillary Clinton e &#8220;o escândalo do pastor&#8221; impediram uma vitória rápida. Mas a distância conquistada é suficiente para aguentar Barack Obama. E uma vitória após um processo prolongado, até Junho ou mesmo até Agosto, não deixa de ser uma vitória.</p>
<p>As dificuldades actuais ocultam o caminho notável de Obama. Um candidato pouco experiente, sem rede clientelar, e de uma minoria étnica, que concorreu contra uma candidata &#8220;do aparelho&#8221;, que aqui há um ano era considerada &#8220;inevitável&#8221; e em cuja campanha pontifica o mais popular presidente do partido. Bill e Hillary Clinton, juntos ou por si só, são adversários de respeito. Barack Obama conseguiu levar a melhor, contra os dois, a maior parte do tempo.</p>
<p>Da mesma forma, se Obama for nomeado (no meu palpite: quando ele for nomeado) a admiração pelo seu feito permitirá ver a uma escala correcta as dificuldades por que passou, e que agora parecem enormes. E ficará então claro que Obama escolheu a estratégia correcta: ser paciente. O próprio comando de uma campanha eleitoral americana, tarefa descomunal e esgotante, revelou que Obama possui excelentes capacidades de liderança, leitura dos ritmos políticos e gestão do esforço.</p>
<p>Diz-se que, de qualquer forma, Barack Obama e Hillary Clinton se andam desgastando mutuamente de uma forma que coloca em risco a vitória de qualquer candidato democrata em Novembro. </p>
<p>Aqui entram as minhas precauções: uma candidatura independente de Hillary Clinton, levando ao extremo a rivalidade interna, bem como um escândalo envolvendo directamente Barack Obama e não apenas um dos seus próximos, são as excepções que me farão retirar a segunda parte do meu palpite. Em todas as outras situações, Obama partirá em excelentes condições para ganhar em Novembro.</p>
<p>Há muita gente, à esquerda e à direita, que afirma serem poucas as diferenças reais entre quaisquer candidatos republicanos ou democratas. Não concordo. McCain e Obama têm mais do que programas diferentes. Eles vêm de mundos diferentes. Daqui até Novembro teremos muitas ocasiões para ver como é Obama quem encarna essa diferença com mais coragem e coerência, e como isso será importante para nós.</p>
<p>07.05.2008, Rui Tavares</p>]]></content:encoded>
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		<title>Só faz falta quem cá está</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/06/so-faz-falta-quem-ca-esta/</link>
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		<pubDate>Tue, 06 May 2008 07:48:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Acho sempre um piadão quando ouço que é importante o PSD ultrapassar esta crise porque &#8220;faz falta à democracia portuguesa&#8221;. Faz-me lembrar a descida do Belenenses à 2.ª divisão do Campeonato Nacional: o clube não podia ser despromovido porque &#8220;fazia &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/06/so-faz-falta-quem-ca-esta/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acho sempre um piadão quando ouço que é importante o PSD ultrapassar esta crise porque &#8220;faz falta à democracia portuguesa&#8221;. Faz-me lembrar a descida do Belenenses à 2.ª divisão do Campeonato Nacional: o clube não podia ser despromovido porque &#8220;fazia falta ao futebol português&#8221;. A democracia precisa de partidos, evidentemente, e precisa de muito mais do que apenas partidos, ou precisa de mais do que apenas um ou dois partidos. Mas nenhum (repito: nenhum) partido em particular faz falta à democracia se estiver quieto. E nisto incluo não só o PSD e o CDS, que estão evidentemente em letargia, mas também o PS, o BE e o PCP, que estão de momento saudáveis. Caso os três partidos da esquerda venham a lidar irresponsavelmente com o resultado das eleições de 2009, como os da direita lidaram com a sua última passagem pelo poder, a frustração e descrença dos seus eleitores pode mandá-los pelo cano abaixo e depois não se queixem.</p>
<p><span id="more-2957"></span><br />
Como se diz tantas vezes, só faz falta quem cá está. Quando escrevo sobre a crise do PSD, tento sempre pensar nas pessoas que gostariam de poder votar naquela área política e não conseguem votar no PSD. É com esse eleitorado, ideologicamente diverso de mim, mas feito de gente como eu, que eu consigo estabelecer empatia. Agora com o partido em si, entendido enquanto a soma dos seus dirigentes, estruturas e trajectórias de uns e outras &#8211; desculpem a franqueza, mas não sinto pena. Raras vezes um partido fez tanto por merecer o estado de descrédito em que se encontra.</p>
<p>Triste não é um partido desaparecer. Triste é querer votar e não haver ninguém que represente minimamente as nossas ideias &#8211; ou até quaisquer ideias. Triste não é as facções do PSD falarem línguas diferentes. É falarem as mesmas línguas sem conteúdo algum. Triste não é desentenderem-se. Triste é ninguém se dar ao trabalho de criar o seu próprio partido, se o desentendimento é assim tão grande.</p>
<p>O PSD tem duas maldições. Uma é que de vez em quando chega ao poder, por uma questão de oportunidade mais do que de trabalho, e isso vai-lhe permitindo empurrar com a barriga a necessidade de pensar e transmitir ideias. A segunda é a de ter um reservatório eleitoral cada vez mais reduzido, principalmente constituído de votos conservadores, mas a que é forçado a recorrer em situações de escassez. (Já que perguntam: o PS tem o primeiro problema, mas não o segundo &#8211; além de uma série de outras diferenças entre os dois maiores partidos que normalmente são descuradas.)</p>
<p>Em consequência: o espaço é exíguo e só há possibilidade de oxigénio num erro clamoroso do PS.</p>
<p>Numa entrevista de Pedro Passos Coelho ao Correio da Manhã, notava-se este dilema. Pedro Passos Coelho parece entender que não dá para ser só liberal na economia e não o ser na sociedade. Numa conclusão natural, admite que não lhe repugna o casamento homossexual. Logo a seguir, porém, não diz se isso significa apoiar o casamento homossexual. A tentativa é interessante, mas em que ficamos? É preciso mais coragem e liderança para extrair o PSD do beco em que está metido.</p>
<p>Quanto a Manuela Ferreira Leite, ouvi-a lamentar-se sobre &#8220;a falta de respeito com que nos tratam&#8221;. Mas fiquei muito seriamente na dúvida de se ela está disposta a fazer o que é necessário para ganhar esse respeito, ou se quer simplesmente um tratamento à Belenenses quando está prestes a descer de divisão.</p>
<p>Só faz falta quem cá está &#8211; neste país e neste tempo &#8211; e o PSD não tem estado.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Tempo e utilidade</title>
		<link>http://5dias.net/2008/05/01/tempo-e-utilidade/</link>
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		<pubDate>Thu, 01 May 2008 10:47:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[(texto de Rui Tavares, publicado no Público) Vamos ser justos. Não foram os jovens que elegeram Salazar como o &#8220;maior português de sempre&#8221; num programa de TV. Nunca ouvi nenhum jovem dizer que precisamos de &#8220;um salazar em cada esquina&#8221;.Vamos &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/05/01/tempo-e-utilidade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(texto de Rui Tavares, publicado no Público)</p>
<p>Vamos ser justos. Não foram os jovens que elegeram Salazar como o &#8220;maior português de sempre&#8221; num programa de TV. Nunca ouvi nenhum jovem dizer que precisamos de &#8220;um salazar em cada esquina&#8221;.Vamos ser justos. Não foram os jovens que elegeram Salazar como o &#8220;maior português de sempre&#8221; num programa de TV. Nunca ouvi nenhum jovem dizer que precisamos de &#8220;um salazar em cada esquina&#8221;.</p>
<p><span id="more-2915"></span><br />
Os jovens não sabem quem foi o primeiro Presidente eleito após o 25 de Abril? A ignorância dos jovens não precisa de grandes teorias. Há uma explicação simples: os jovens são ignorantes porque nascemos ignorantes. A informação adquire-se com o tempo, e durante um tempo é cumulativa: houve um tempo em que eu não sabia que havia países, ou não sabia quem foi Leonardo da Vinci, e agora um tempo em que não sei quem é o Presidente da Estónia (foi antes de acabar este parágrafo: agora já sei como se chama, mas como o facto tem pouca utilidade para mim, é possível que até acabar a crónica já o tenha esquecido).</p>
<p>Os jovens não são virtuosos por não dizerem &#8220;no meu tempo é que era bom&#8221;- eles não conheceram outro tempo &#8211; e também não são viciosos por não saberem quem foi Ramalho Eanes. São apenas jovens. É uma doença que se cura sozinha.</p>
<p>Não quero com isto dizer que Cavaco Silva estava errado nas conclusões que retirou do estudo da Universidade Católica sobre Os jovens e a política que citou no seu discurso do 25 de Abril. Como se depreende do que escrevi acima, se achamos que saber coisas sobre o 25 de Abril é importante e útil, devemos ensinar essas coisas &#8211; e essa foi a principal conclusão do Presidente.</p>
<p>Mas a sua surpresa com a ignorância dos jovens impediu-o de ver outras coisas que são bem mais interessantes no estudo da Católica. Três exemplos: os jovens são menos insatisfeitos com a política do que o resto da população portuguesa, os jovens são menos cépticos em relação à participação política e &#8220;os índices de participação social dos jovens são mais elevados&#8221;. No entanto, os jovens são mais desconfiados em relação à eficácia do voto.</p>
<p>Combinando tudo isto, o que dá? Uma conclusão inesperada: estes dados sugerem que se comece a pensar em dar direito de voto aos jovens entre os 16 e os 18 anos.</p>
<p>Reparem nisto: a &#8220;ignorância&#8221; revelada pelos jovens em certas perguntas diminui de dois terços para metade quando estes chegam à idade de voto. Isto confirma algo que sabemos sobre a aquisição de conhecimento: ela ganha sentido quando esse conhecimento pode vir a ser utilizado. E se os jovens acreditam mais na política e na participação e menos na eficácia do voto, isso sugere que ainda não tiveram ocasião de observar em primeira mão os efeitos desse mesmo voto.</p>
<p>Até recentemente eu não via vantagens em dar direito de voto aos jovens de 16 e 17 anos, e até hoje considero que é mais justo e importante dar esse direito aos imigrantes residentes há mais de cinco anos, que paguem impostos e contribuam para a Segurança Social (quem financia um Estado deve ter uma palavra a dizer sobre o seu governo, e isto é um princípio básico da democracia desde a Revolução Americana).</p>
<p>Mas o estudo da Católica convenceu-me que se pode fazer ambas as coisas, com uma diferença em relação ao resto da população: o recenseamento deve ser facultativo &#8211; para quem está mesmo interessado em exercer o direito de voto &#8211; e não obrigatório, para excluir aqueles que não vêem utilidade no voto nem necessidade de adquirir conhecimentos para o usar melhor.</p>
<p>A aquisição de conhecimentos depende do tempo, e depende da utilidade que vemos nesses conhecimentos. Tempo só o tempo pode dar. Mas utilidade podemos dar nós.</p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Força, companheiro Vasco</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/29/forca-companheiro-vasco/</link>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 23:38:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[No filme A Vida de Brian, dos Monthy Python, uma das personagens mais estúpidas pergunta “mas afinal, que fizeram os romanos por nós?”. Alguém sugere: “o aqueduto”, “os esgotos”, “as escolas”, “as estradas”, e por aí adiante. O primeiro vai &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/29/forca-companheiro-vasco/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No filme A Vida de Brian, dos Monthy Python, uma das personagens mais estúpidas pergunta “mas afinal, que fizeram os romanos por nós?”. Alguém sugere: “o aqueduto”, “os esgotos”, “as escolas”, “as estradas”, e por aí adiante. O primeiro vai ficando irritado até que finalmente se vê forçado a responder: está certo, mas tirando os aquedutos, os esgotos, as escolas, as estradas, o direito, o comércio, e essas coisas todas — que fizeram os romanos por nós?</p>
<p>Na sua crónica de sábado sobre “O 25 de Abril”, Vasco Pulido Valente [VPV] garante-nos que “tirando as leis que instituíram a democracia, o PREC não deixou uma única reforma necessária e durável”. Com os termos definidos por VPV, em que 25 de Abril e PREC são tratados como intermutáveis, eis de novo a questão de A Vida de Brian: “mas afinal, que fez o 25 de Abril por nós?”.</p>
<p><span id="more-2874"></span>Só que a resposta de VPV é mais divertida: “tirando as leis que instituíram a democracia”, nada. Por outras palavras: tirando eleições livres e justas, imprensa sem censura, extinção da polícia política, partidos políticos, fim da tortura e dos presos de opinião, liberdade de manifestação e associação, que fez o 25 de Abril por nós? Nada.</p>
<p>Alguém diz: então e a guerra? Eu não sei se o fim da guerra é uma “reforma”: para mim, é melhor do que isso. Ora, diz VPV, o “abandono de África não provocou nenhuma resistência interna, provando a artificialidade do imperialismo indígena”. Pois tirando o fim da guerra, que foram treze anos de “nenhuma resistência interna” mais a “artificialidade” de uns milhares de mortos, temos o quê? Nada.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>E que reformas nos deixou o PREC? Três ao acaso: universalização das pensões de reforma, generalização das férias pagas e Serviço Nacional de Saúde. Mas não sei se cabem  na definição de “necessárias” e “duráveis” de VPV. Terá sido a extraordinária diminuição da mortalidade infantil “durável”? Para os interessados, parece que sim. Terão sido necessárias as pensões adicionais? Para o milhão que passou a usufruir delas em poucos anos, sim. E as férias? Essas, como diz toda a gente, são muito necessárias mas pouco duráveis.</p>
<p>Recapitulemos: tirando os recém-nascidos que sobreviveram, os velhos que recebem pensões, os jovens que não foram à guerra e lotaram as universidades, os adultos que gozaram férias e o pessoal todo que viajou para o estrangeiro sem ser “a salto” e nem precisar de passaporte, que fez o 25 de Abril por nós? Nada.</p>
<p>Vasco Pulido Valente tem no entanto razão se pensarmos que em qualquer revolução há sempre coisas que já vinham de antes e outras que ocorrem depois, que a história é uma coisa atrás da outra, e que o resto é conversa. Um exemplo: a entrada na UE não é o 25 de Abril. Mas é muito duvidoso que chegássemos a uma coisa sem a outra. A não ser, é claro, para as mentes retroactivas da direita portuguesa, que ainda lamentam Marcelo Caetano porque nunca deixaram de acreditar que a única maneira de nos aproximarmos das democracias teria sido sempre dar mais tempo aos nossos regimes autoritários.</p>
<p>Em suma: tirando esse pormenor da democracia, tirando a descolonização e tirando o desenvolvimento, que fez o 25 de Abril por nós? Ridiculamente pouco, pelo menos se comparado com Vasco Pulido Valente, que só nos últimos meses já nos garantiu, para além desta pérola, que Menezes  chegaria a primeiro-ministro e Mitt Romney seria o próximo presidente dos EUA.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Lembrar em conjunto</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/23/lembrar-em-conjunto/</link>
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		<pubDate>Wed, 23 Apr 2008 21:54:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem não se corrigiu uma injustiça. Mas fez-se uma coisa bela e digna na cidade. Foram lembrados os lisboetas assassinados por outros lisboetas no massacre de 1506, também conhecido por Matança da Pascoela, por ter ocorrido naquele ano nessa data &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/23/lembrar-em-conjunto/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem não se corrigiu uma injustiça. Mas fez-se uma coisa bela e digna na cidade. Foram lembrados os lisboetas assassinados por outros lisboetas no massacre de 1506, também conhecido por Matança da Pascoela, por ter ocorrido naquele ano nessa data do calendário litúrgico. Os primeiros destes lisboetas eram tidos por judeus, e os outros tinham-se na conta de bons cristãos. O número de vítimas é incerto, mas pode ter ido até quatro milhares. Foi o pior momento da história da Lisboa portuguesa (talvez apenas superado pela própria conquista da cidade, quando os cruzados passaram a fio de espada muçulmanos, judeus e cristãos que viviam dentro da cerca moura).<br />
<span id="more-2823"></span><br />
Durante séculos, a matança de 1506 foi esquecida, apesar de ter sido cruamente relatada pelos cronistas da época. Mas foi enterrada sob as camadas de vergonha, indiferença e mentira que compõem o mito português dos brandos costumes. De tal forma que, de cada vez que alguém referia a matança de 1506, quase era preciso voltar aos livros e documentos para confirmar que, sim, tinha ocorrido.</p>
<p>A partir de ontem, será mais difícil fingir que não aconteceu. Foi inaugurado no Largo de São Domingos o monumento evocativo da matança de 1506. Ao invés de ocultar, a cidade mostra, dá a ver, o lado mau do seu passado. E isso é uma coisa corajosa.</p>
<p>Um acto corajoso de todos os intervenientes. Da Câmara Municipal de Lisboa, através do presidente da Câmara, António Costa, e do vereador Sá Fernandes, que tinha proposto este monumento nos quinhentos anos do massacre, em 2006, sem sucesso junto da vereação anterior. Um acto corajoso do cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, cujas palavras de perdão público ficam agora ali gravadas: &#8220;A Igreja Católica reconhece profundamente manchada a sua memória&#8221; pelo massacre. Um acto corajoso da Comunidade Israelita de Lisboa, a quem só séculos depois foi permitido voltar a ter presença pública no nosso país, e que agora pede: &#8220;Ó terra, não ocultes o meu sangue e não sufoques o meu clamor!&#8221;, usando palavras do livro de Job. Não ocultes o sangue: um pedido à terra daqueles que morreram que temos obrigação de honrar.</p>
<p>Seria mais cómodo continuar a esquecer. Se não fosse tão cómodo, não teríamos esquecido durante mais de quinhentos anos. Seria cómodo dizer que um monumento não muda nada. Seria cómodo dizer que é &#8220;só&#8221; simbolismo ou politicamente correcto, e passar ao lado deste dever.</p>
<p>Lembrar em conjunto (&#8220;comemorar&#8221;) a matança de 1506 é incómodo mas faz de nós melhores cidadãos. Em primeiro lugar, porque nos lembra das coisas terríveis que nós humanos somos capazes de fazer, e assim serve de aviso para que não voltem a ocorrer. Em segundo lugar, porque ficamos a conhecer melhor o lugar onde vivemos, e isso nos ajuda a entendê-lo e melhorá-lo. E em terceiro lugar, porque os nossos antepassados nos passaram isto: corre misturada nas veias de muitos lisboetas a memória genética dos lisboetas de 1506, do lado das vítimas e dos assassinos. E quanto àqueles que não descendem desses lisboetas antigos: são hoje novos lisboetas a quem devemos hospitalidade, se aprendermos com os nossos erros.</p>
<p>23.04.2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>Aceitar a mudança</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/23/aceitar-a-mudanca/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Apr 2008 23:46:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Na última crónica aconselhei o dr. Menezes a tirar umas férias de Verão antecipadas e levar consigo o circo que permitiu (e até promoveu) à sua volta. Inesperadamente, foi mesmo isso que ele fez, demitindo-se. Ou talvez não. Talvez volte. &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/23/aceitar-a-mudanca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na última crónica aconselhei o dr. Menezes a tirar umas férias de Verão antecipadas e levar consigo o circo que permitiu (e até promoveu) à sua volta. Inesperadamente, foi mesmo isso que ele fez, demitindo-se. Ou talvez não. Talvez volte. Talvez não volte. Nunca se sabe, e isso é o que tem de bom políticos como ele e Santana Lopes. Com eles, só se pode prever a imprevisibilidade.</p>
<p>Estão errados, porém, os comentadores que pensam que basta trazer ao PSD gente sisuda para que as coisas se componham. Apelar aos “notáveis” que sejam humildes e dêem o corpo ao manifesto não basta. Não basta sequer pedir um programa pontualmente distinto do PS, nas auto-estradas, na RTP ou na Caixa Geral de Depósitos. É preciso mais do que isso: reconhecer que o PSD não tem uma maneira estruturada de ver este tempo e este país. Os comentadores da vossa área, meus caros eleitores do PSD, nunca o reconhecerão porque isso significaria admitir que eles próprios vos têm andado a servir gato por lebre.<span id="more-2808"></span></p>
<p>A visão do mundo que em tempos funcionou foi: nós servimos para governar, a esquerda não serve. Na sua versão mais sofisticada: a esquerda não serve porque é “politicamente correcta”, “modernaça” e “anti-mercado”. A primeira destas queixas é meramente reactiva, a segunda não tem mal nenhum, e a terceira já teve melhores dias.</p>
<p>Depois da fuga de Durão, a estrela de Santana e cometa Menezes, a maioria dos portugueses já não vê o PSD como o “partido de governar”. Mas isso é uma estrela que não volta assim. Enquanto o PSD continuar a falar para um país que não mudou, enquanto reciclar preconceitos que já perderam a validade, enquanto continuar pensando que o Cavaquistão mais uns pózinhos de Norte, Madeira e Cascais faz o país real, estará condenado a não saber para quem fala e a não ser entendido por quem o escuta.</p>
<p style="text-align: center;">***</p>
<p>Quando nos encontramos numa situação assim, há dois passos para uma solução. O primeiro consiste em ver em que pontos a nossa ideologia já não vale. O segundo é convencer a maioria das pessoas de que partes da nossa ideologia continuam a valer como antes, ou ainda mais. Quem não tem humildade para o primeiro passo não será levado a sério no segundo.</p>
<p>Não é pois uma questão de o PSD escolher se quer ser conservador, liberal ou social-democrata, mas de entender que deixou aviltar o que lhe resta dessas correntes. Hoje o PSD não é conservador mas atávico, liberal mas oportunista, social-democrata mas clientelista.</p>
<p>Por um lado, foi a prática que aviltou a teoria: é ridículo ver o PSD combater no parlamento a reforma do divórcio em nome dos valores da família ao mesmo tempo que usa a vida pessoal dos opositores (e até a dos seus dirigentes) na praça pública.</p>
<p>Mas é mais verdade ainda que a própria teoria já não funciona. Para dar o mesmo exemplo, no Portugal de hoje a maioria das pessoas não acham que a liberdade individual seja um papão que vai destruir os laços entre as pessoas, e as pessoas que têm grande afeição pelos valores tradicionais são cada vez menos e têm cada vez menos peso eleitoral.</p>
<p>E a teoria sobre a teoria também está errada: para dar o mesmo exemplo, a ideia de que “estas coisas só interessam à esquerda intelectual e à classe média”. Hoje os portugueses são mais classe média e mais informados do que eram, e o que vêem é uma direita menos preocupada com a liberdade das pessoas do que, por exemplo, com a liberdade das empresas.</p>
<p>Os comentadores e os “notáveis” da vossa área não querem reconhecer isto, e nesse sentido são mais parte do problema do que da solução.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Como destruir um partido</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/17/como-destruir-um-partido/</link>
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		<pubDate>Thu, 17 Apr 2008 10:17:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Conselho para o dr. Menezes: evite as enormidades, no sentido próprio e no pejorativo. Pelo menos nos próximos tempos. Os seus adversários internos têm o anseio natural de derrubá-lo até ao Verão, prazo após o qual será difícil impedi-lo de &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/17/como-destruir-um-partido/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Conselho para o dr. Menezes: evite as enormidades, no sentido próprio e no pejorativo. Pelo menos nos próximos tempos. Os seus adversários internos têm o anseio natural de derrubá-lo até ao Verão, prazo após o qual será difícil impedi-lo de chegar às eleições. Menos natural é o comportamento dos seus partidários, que parecem exceder-se para cumprir com o calendário dos opositores. Propor mudar a Constituição, como fez há uns tempos, não é uma enormidade no sentido pejorativo, mas é pelo menos uma coisa enorme. Principalmente para um partido cujas intenções de voto andam abaixo de um terço. Após as próximas eleições, há a possibilidade de o PS nem precisar do PSD para mudar a Constituição. Essa correlação de forças aconselharia o dr. Menezes a não mencionar o assunto. E no entanto, fala. Por outro lado, Rui Gomes da Silva é uma enormidade política &#8211; no mau sentido. A pátria lembrá-lo-á como alguém que oscilava entre a insignificância e a falta de vergonha e, como um pêndulo, oscilou duas vezes. Por duas vezes na vida foi Rui Gomes da Silva notável. Da primeira vez tentou silenciar Marcelo Rebelo de Sousa e o resultado foi o descrédito do seu governo, o ridículo generalizado e o escárnio na via pública. Depois desapareceu. E regressou agora à consciência pública, para contestar que a jornalista Fernanda Câncio possa colaborar com a RTP por, segundo ele, esta ter &#8220;um relacionamento com o primeiro-ministro&#8221;. Por uma questão de justiça, convém lembrar que o primeiro companheiro de partido a entrar neste território escorregadio foi Agostinho Branquinho. Mas Rui Gomes da Silva reapareceu para provar que ninguém como ele sabe concitar o enxovalho colectivo. E como não há duas sem três, há uma nova estrela nesta constelação da bizarria: Ribau Esteves.</p>
<p>Estranho partido este: uma semana depois de querer mudar a Constituição, vive agora obcecado com a carreira e a vida pessoal de uma jornalista. Sobre a carreira, posso falar: já eu era um admirador do jornalismo de Fernanda Câncio muito antes de saber &#8211; tempos felizes! &#8211; quem eram estas três inexistências do PSD. Rui Gomes da Silva, pelo seu lado, só está interessado na vida pessoal de Fernanda Câncio e até legitimamente se duvida que alguma vez tenha aprendido alguma coisa com uma das suas reportagens. Até porque Rui Gomes da Silva, como a chefia do seu partido, não está interessado em aprender. Rui Gomes da Silva não aprendeu nada com o &#8220;Caso Marcelo&#8221; &#8211; e demonstrou-o agora com o &#8220;Caso Câncio&#8221;. E o PSD não aprendeu nada com Rui Gomes da Silva &#8211; e demonstra-o deixando-o falar em nome do partido. É um ciclo de inaprendizagem, uma espécie de eterno retorno do disparate, mas em espiral descendente. Rui Gomes da Silva repete os disparates de Agostinho Branquinho, e Ribau Esteves insiste nos disparates de ambos, e a Comissão Política oferece &#8220;total solidariedade e apoio&#8221; aos disparates dos três. De cada vez que isto acontece, eleitores do PSD decidem que não podem votar neste partido. Conselho para o dr. Menezes: se quer sobreviver, marque férias de Verão antecipadas. Para si, e para os três estarolas também.</p>
<p>16.04.2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>O y do rey</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/15/o-y-do-rey/</link>
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		<pubDate>Tue, 15 Apr 2008 10:35:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Na década de 1770, o Marquês de Pombal pediu aos censores do rei que tomassem uma decisão entre as várias propostas de ortografia que então surgiam &#8211; a de Luís António Verney, a de António José dos Reis Lobato e &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/15/o-y-do-rey/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na década de 1770, o Marquês de Pombal pediu aos censores do rei que tomassem uma decisão entre as várias propostas de ortografia que então surgiam &#8211; a de Luís António Verney, a de António José dos Reis Lobato e a de João Pinheiro Freire da Cunha, entre outras &#8211; para que a coroa a pudesse utilizar nos seus documentos oficiais. Depois de dois anos em discussão, os censores discordavam de quase tudo e baixaram os braços. Havia apenas uma decisão tomada: uma vez que a letra y não tem, em português, uma pronúncia diferente da letra i, poderia com vantagem ser abolida. Até que alguém se lembrou: não podemos! Não podemos, porque el-rey se escreve com ípsilon&#8230; e sua majestade &#8220;assim escreve na sua real firma&#8221;.</p>
<p>E ora aí está como nem o Marquês de Pombal, no auge da monarquia absoluta, conseguiu chegar a um acordo ortográfico. E porquê? Por causa de alguma dificuldade intrínseca à língua? Não &#8211; por causa de uma dificuldade política. A dificuldade política era esta: colocados perante uma decisão, os decisores mal chegaram a perguntar-se o que podia fazer-se, porque estavam obcecados com o que não se podia fazer. A obsessão com o que não se pode fazer, em Portugal em geral e em particular, ganha sempre à ideia do que se pode fazer.</p>
<p><span id="more-2685"></span></p>
<p>Por esse mundo fora, as universidades correm para abrir departamentos de inglês e, também, de espanhol. Quanto aos departamentos de português temos de pedinchar para abrirem novos e rezar para não fecharem os que existem. Mas não lhes facilitamos a vida: o professor brasileiro vai ensinar na aula da manhã que o professor português, na aula da tarde, está errado &#8211; e vice-versa. O Instituto Cervantes, tal como a Alliance Française, tem meios ao seu dispor com que o Instituto Camões só pode sonhar. Mas se um dia quiséssemos juntar dinheiro e esforços com os brasileiros para tentar dar um pouco mais de luta, a primeira pergunta seria: sim, mas em que ortografia? Passei os últimos dias no &#8220;Letras em Lisboa&#8221;, a versão portuguesa do excelente Fórum das Letras de Ouro Preto. Como é natural, toda a gente &#8211; portugueses, brasileiros e africanos &#8211; se entendeu perfeitamente. Mas se os respectivos governos quisessem emitir um comunicado sobre o evento, teriam de emitir dois comunicados &#8211; um em cada ortografia. Com esses dois comunicados oficiais, dirigir-nos-iamos às Nações Unidas para pedir que o português fosse língua de trabalho, com duplicação de custos, incerteza sobre a norma a utilizar e mais trabalho em geral. Para quê fazer fácil, quando se pode fazer difícil? Como em 1770, estamos obcecados com o que não podemos fazer. Os brasileiros não podem perder o trema em lingüiça, com medo de não saber pronunciar a palavra e morrerem à fome. E os portugueses não podem perder as consoantes mudas, para saberem que têm de abrir a vogal anterior. Porém, mostrem-me um português que pronuncie actividade com a primeira vogal aberta, e eu mostrar-lhes-ei dez que pronunciam &#8220;âtividade&#8221;. E, por último, temos Vasco Graça Moura prevendo que as famílias portuguesas terão de inutilizar milhares de livros quando o acordo for aprovado. Quero daqui lançar um apelo público a Vasco Graça Moura: não deite no lixo os seus livros na velha ortografia quando ela caducar. Não deite fora os seus livros oitocentistas que escrevem pharmacia com ph, nem os setecentistas que escrevem el-rey com ípsilon. Não lance esses livros no lixo: ofereça-mos.</p>
<p>14.04.2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>As duas chaves</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/09/as-duas-chaves/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Apr 2008 12:57:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Salvo imprevisto, falta um ano e meio para as próximas eleições legislativas. O panorama é o seguinte. O PS deve ganhar as eleições abaixo da maioria absoluta, embora não seja impossível lá chegar. À direita do governo, PSD e CDS &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/09/as-duas-chaves/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salvo imprevisto, falta um ano e meio para as próximas eleições legislativas. O panorama é o seguinte.</p>
<p>O PS deve ganhar as eleições abaixo da maioria absoluta, embora não seja impossível lá chegar. À direita do governo, PSD e CDS estão em queda, o primeiro com votações em torno dos trinta por cento e o CDS em torno dos cinco por cento. À esquerda do governo, PCP e BE estão em subida, em torno dos nove e oito por cento, respectivamente. Enquanto a direita PSD+CDS tem pouco mais de um terço das intenções de voto, PCP e BE começam a aproximar-se dos vinte por cento, históricos. Se lhes juntarmos o PS, o total dos partidos de esquerda está acima dos sessenta por cento.</p>
<p><span id="more-2635"></span><br />
Tudo isto aparece confirmado nas duas sondagens telefónicas da Eurosondagem mais recentes, mas vinha também muito claro na sondagem presencial da Católica do passado mês de Fevereiro. Não são dados surpreendentes, muito menos de última hora. Em termos gerais, era possível ver sinais deles nas eleições de Lisboa, no referendo do aborto, e nas últimas legislativas. A base eleitoral de direita permanece reduzida. Perde em quase todas as regiões do país e especialmente nas mais urbanas e populosas. Pior: a direita não só está em crise como não compreende a sua própria crise.</p>
<p>E pode não ficar por aqui. Diz-se que Paulo Portas tenciona candidatar-se às europeias para evitar os casos suspeitos (casino, sobreiros, fotocópias e submarinos) que afligem o seu partido. Essa seria uma suprema demonstração de cobardia e destruiria as hipóteses do CDS nas legislativas.</p>
<p>O PSD está em apuros; a liderança bicéfala de Menezes e Santana prova que duas cabeças podem pensar pior do que nenhuma. Mas os protagonistas das guerras internas, sejam eles Marcelo, Pacheco ou Borges, tampouco parecem ter qualquer noção de como o país mudou e de como o PSD terá de encontrar nele um novo lugar. O vazio é aflitivo e o anti-intelectualismo de que o partido (incluindo os seus poucos intelectuais de bandeira) sempre padeceu não tem equivalente em algo que tenha afligido o PS nos seus tempos de oposição.</p>
<div align="center">***</div>
<p>A primeira chave das próximas eleições é, ironicamente, o péssimo desempenho do PSD. Se este partido tiver menos de trinta por cento, isso pode querer dizer que os seus últimos eleitores do centro decidiram que o mal menor seria garantir uma nova maioria absoluta a Sócrates.</p>
<p>É pois inútil à direita esperar pelos erros do governo ou pela impopularidade do primeiro-ministro. Os beneficiados por ambas serão o PCP e o BE, que detêm uma mensagem constante, reconhecida e clara (concorde-se ou não) e um auditório bem definido.</p>
<p>A segunda chave está portanto nestes partidos, nomeadamente no BE. Até agora a sua subida tem-se dado sem esforço aparente, mas só poderá ser mantida se os eleitores sentirem que há propósito nessa subida, ou seja, se ela servir para alguma coisa. Só isso poderá transformar intenções em votos, principalmente no eleitorado que antes votou PS. Ora o voto no PCP serve para dar força ao PCP: isso facilita-lhe a vida.</p>
<p>Já o BE apareceu como novidade e prometeu mudança. Em consequência, o voto no BE só compensa se a mudança for um horizonte plausível. Caso contrário, ser um partido da resistência não chega: para isso já havia o PCP. Para o BE ter mais votos, tem de começar por querer ser mais.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Prezados tartufos</title>
		<link>http://5dias.net/2008/04/01/prezados-tartufos/</link>
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		<pubDate>Tue, 01 Apr 2008 12:01:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[1. Prezada Constança Cunha e Sá: havia sempre uns coleguinhas na sala de aula tão bem-comportados que só atiravam bolas de papel quando o professor estava de costas. Isto na minha turma apenas, é claro. Mas lembrei-me desses colegas quando &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/04/01/prezados-tartufos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1. Prezada Constança Cunha e Sá: havia sempre uns coleguinhas na sala de aula tão bem-comportados que só atiravam bolas de papel quando o professor estava de costas. Isto na minha turma apenas, é claro.</p>
<p>Mas lembrei-me desses colegas quando li a sua crónica de passada sexta-feira. Nela pega em excertos de texto meu, faz o que tem a fazer (e eu não me queixo) mas sempre com o cuidado de não dizer a proveniência. Entrar em diálogo franco, isso é que não nem nunca! — não vá o leitor à fonte para entender. Não dizer nomes é que fica bem e é mais português.</p>
<p>Falta-me essa diplomacia. Presumo que as pessoas lêem jornais para saber coisas. Coisas por vezes simples, como “de quem se está a falar”. Outras pessoas — como a Constança — preferem deixar o leitor numa neblina de dissimulações. Na minha opinião, é um desagradável tique de outro tempo e de outro país.</p>
<p>2. Prezado Bispo Carlos Azevedo: em Outubro do ano passado pedi-lhe que explicasse porque induzira deliberadamente em erro o público no caso da assistência religiosa hospitalar. Desde então não houve direito a esse esclarecimento.</p>
<p>Passámos uns meses sem notícias suas, mas agora a imprensa faz eco do seu pedido ao Primeiro-ministro para que controle o laicismo de alguns membros do PS, sugerindo-lhe “uma vigilância coordenadora” por causa de uns zunzuns sobre acabar com o divórcio litigioso (a que, sejamos justos, o PS chegou com um ano de atraso sobre o BE).</p>
<p>Estamos — deixa lá ver o calendário — em 2008 e eu também não esperava de ainda ter de dizer isto: duas pessoas só devem continuar casadas se as duas o quiserem. Menos esperava ter de discutir o casamento civil com um bispo da Igreja Católica, cujos casamentos têm as suas leis próprias para quem as deseje seguir. Mas o que não me passa mesmo pela cabeça é pedir ao Cardeal que exerça uma “vigilância coordenadora” sobre o catolicismo do Bispo para eu não ser forçado a ter de debater isto com ele.</p>
<p>3. Prezado José Pacheco Pereira: a primeira parte da sua revisitação ao Iraque, com tantas queixas acerca da turba anti-guerra, gerou curiosidade pelo que na segunda parte se diria sobre as “mentiras” (entre aspas) da Guerra do Iraque.</p>
<p>Afinal o que veio foi uma teorização sobre a “mentira”, e qual é a importância disso uma vez que todos mentem, e a conclusão de que “a convicção de que havia armas de destruição maciça não era mentira”.</p>
<p>Não pergunto, se a convicção era tão grande, por que o memorando de Downing Street revela que “os factos iam ser amanhados para justificar a política” quase um ano antes da invasão. Nem para que foram então os cépticos acusados de apoiarem Saddam, isto para não falar dos que foram chantageados, como descreve o embaixador do Chile à ONU num novo livro, ou que sofreram retaliações e pressões como nos casos Valerie Plame e David Kelly — tudo de forma pouco turbulenta, suponho eu.</p>
<p>Pergunto-me apenas se a convicção não era mesmo mentira, ou se esta é apenas a sua convicção sobre a convicção dos outros. Adicionalmente: a sua teoria é absurda ou deixa de ser absurda por nos querer convencer dela?</p>
<p>Assina-se, com o devido respeitinho, um elemento da turba.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Autoridade, autoridade</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Mar 2008 11:54:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho uma ideia. Pegamos naquela aluna indisciplinada da escola do Porto que brigou com a professora por causa de um telemóvel, fazemos um círculo em torno dela com todos os comentadores, políticos, espectadores e treinadores de bancada, e apedrejamo-la. Assim &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/03/26/autoridade-autoridade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-family: Helvetica; font-size: 12px; line-height: normal" class="Apple-style-span"></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Tenho uma ideia. Pegamos naquela aluna indisciplinada da escola do Porto que brigou com a professora por causa de um telemóvel, fazemos um círculo em torno dela com todos os comentadores, políticos, espectadores e treinadores de bancada, e apedrejamo-la. Assim uma coisa de Antigo Testamento, mas com um toque moderno: em vez de pedras, usamos os nossos telemóveis. Depois filmamos tudo, e pomos no youtube. Que tal vos parece? Um pouco exagerado, talvez?</span><span id="more-2502"></span></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Se não resultar, fazemos o mesmo à professora, depois aos pais e finalmente à ministra. Estou apenas a tentar acompanhar a tendência do debate. Como sabemos, este caso de indisciplina é um sinal do fim dos tempos. Mas se arranjarmos uns bodes expiatórios talvez a coisa se endireite.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Antigamente, claro que não era assim. Pelo menos antes do século IV d.C., quando São Cassiano de Ímola, mártir dos professores, foi apunhalado pelos seus próprios alunos com os estiletes de metal que eram usados para tirar notas (em tabuletas de madeira cobertas com uma pelicula de cera, porque o pergaminho era caro e o papiro raro).</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Dos estiletes de metal aos telemóveis, os novos </span></font><em><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">media</span></font></em><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"> têm sido inimigos dos professores, pelo menos até estes aprenderem a usá-los a seu favor. E porquê? Porque o professor precisa da atenção dos alunos, una e indivisa, na sala de aula. Essa é a melhor maneira de dar aulas e mesmo a única: ainda não inventaram outra. O pesadelo de um professor é “perder” uma turma, aluno a aluno, fila a fila, quando todos se distraem e não há maneira de estancar aquela vaga. Hoje há mais motivos de distração, e amanhã haverá mais ainda, valha-nos São Cassiano.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; text-align: center; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">***</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">A mente autoritária, essa, só precisa de uma coisa e sempre a mesma: gritar por mais autoridade, mesmo que isto não lhe garanta mais autoridade. Gritar por mais autoridade apaga todas as contradições, sossega todas as inseguranças.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">O problema é o seguinte: a autoridade é, em si, uma coisa contraditória. Há duas autoridades: a do medo (medo da violência, nomeadamente) e a do reconhecimento. Ambas estão mais difíceis, por boas razões.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">A autoridade pelo medo, “responder bofetada a bofetada” como sugere Vasco Pulido Valente, é precisamente o que falhou no episódio do Porto: a professora tentou puxar mais do que a aluna, que tinha o dobro do seu tamanho. O programa pulido-valentiano não aguenta hoje dois minutos numa sala de aula, e no passado só funcionava integrado numa cadeia com vários elos: tinha-se medo do professor, do pai, do marido, da tropa e da PIDE.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">A autoridade pelo reconhecimento está também em maus lençóis. O mundo exige-nos atenção de demasiados lados e o professor está no lado mais fraco. Mas isto não é o fim dos tempos. É apenas o princípio de tempos novos.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Esses tempos novos exigem turmas menores, não ultrapassando 20 alunos. Cacifos para deixar os telemóveis à entrada. Mais professores e funcionários. Intercomunicadores nas salas. E para os alunos indisciplinados? Puni-los com a única coisa que hoje em dia mete medo: o aborrecimento. Proponho aborrecê-los em turmas ainda menores, orientadas por dois professores, até que prestar atenção seja a única coisa interessante a fazer naquela sala.</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; min-height: 15px"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span"></span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal"><font class="Apple-style-span" size="4"><span style="font-size: 16px" class="Apple-style-span">Voltar à escola de elite não é opção, quando precisamos de toda a gente qualificada que pudermos formar. A opção que resta é dar às massas uma escola de elite. Custa mais dinheiro. Sim, ainda mais dinheiro, e dos seus impostos. Não foi você que pediu medidas impopulares?</span></font></p>
<p style="margin: 0px; font-family: Cochin; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 13px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal">&nbsp;</p>
<p></span></p>]]></content:encoded>
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		<title>Capacidades desperdiçadas</title>
		<link>http://5dias.net/2008/03/20/capacidades-desperdicadas/</link>
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		<pubDate>Thu, 20 Mar 2008 02:34:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[Se falarmos com um jovem enfermeiro, ele (ou ela) é bem capaz de nos dizer o seguinte: há cinco anos, ao sair do curso, podíamos escolher o hospital em que queríamos trabalhar, o serviço e até a equipa desejada. E &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/03/20/capacidades-desperdicadas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se falarmos com um jovem enfermeiro, ele (ou ela) é bem capaz de nos dizer o seguinte: há cinco anos, ao sair do curso, podíamos escolher o hospital em que queríamos trabalhar, o serviço e até a equipa desejada. E agora, segundo os dados mais recentes, Enfermagem é (tal como Psicologia) um dos dois cursos com mais diplomados no desemprego. E garanto que se for a um hospital não vai achar que há enfermeiros a mais.</p>
<p>O senso-comum sobre estas coisas diz-nos que a Universidade não prepara as pessoas para o mercado de trabalho e que não investe nos cursos que os empregadores desejam. O senso-comum está errado.<br />
<span id="more-2433"></span>É um erro prático, como nos sugere o caso da Enfermagem. Um curso demora anos a fazer e redireccionar a universidade para os cursos que o mercado deseja demora mais ainda. E nem sempre compensa, porque o mercado entretanto já mudou de ideias.</p>
<p>Mas é um erro também de princípio. O senso-comum culpa a Universidade por &#8220;deitar cá para fora&#8221; gente dos cursos que o mercado &#8220;não quer&#8221;. E culpa a Universidade porque acha que não pode culpar o mercado — assim lho disseram esta espécie de sofistas modernos que se dedicam a explicar quais são os desejos do mercado, e depois a falhar previsões sobre quais são os desejos do mercado, e finalmente a dizer-nos como todos os que não acreditaram nessas previsões erradas é que estavam errados.</p>
<p align="center">***</p>
<p>E se, por uma vez na vida, pudéssemos culpar o mercado? Veríamos que os sessenta mil diplomados no desemprego não são excesso nem desperdício, a não ser no sentido em que estão a ser desperdiçados. O mesmo vale para as dezenas de milhares de diplomados que estão no subemprego desqualificado. Alguém não está a aproveitar esta gente: os empregadores, e a sociedade no seu conjunto.</p>
<p>A experiência universitária não traz só o conhecimento específico do curso escolhido, e isso é algo que os bons empregadores reconhecem. Num artigo da Chronicle of Higher Education um &#8220;caçador de cabeças&#8221; explicava como não lhe interessava saber se a pessoa que procurava vinha de Gestão, Filosofia ou Física, mas antes saber se ela tinha adquirido as capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade ou autonomia pretendidas. A conclusão de uma licenciatura ou, melhor ainda, de um mestrado ou doutoramento em qualquer área (e sublinhe-se este &#8220;em qualquer área&#8221;) era um indício forte dessas capacidades. Para muitos trabalhos, a informação pragmática a dominar acaba por ser dada in loco e de forma relativamente rápida — mas as capacidades que já se trazem é que são inestimáveis.</p>
<p>Lembrei-me disto há exactamente uma semana, ao participar num debate organizado na Faculdade de Letras pelos &#8220;Precários Inflexíveis&#8221;, um dos grupos que tem vindo a surgir para reagir contra o sub-emprego (outro é o FERVE — Fartos d&#8217;Estes Recibos Verdes). Os futuros diplomados estavam ansiosos. Um dos sofistas do mercado dir-lhes-ia, é claro, que a culpa é deles por terem &#8220;investido&#8221; no curso errado e também da Universidade deles por não ter extinguido o curso que provavelmente mais os motivou. Nunca lhe passaria pela cabeça que a culpa pode ser de quem não &#8220;investe&#8221; neste recursos humanos disponíveis ou acha que aproveitar um licenciado ou mestre é pô-lo a atender telefonemas.</p>
<p>O senso-comum tem sido duro com as universidades e mole com o mercado de trabalho. E assim revela não compreender uma coisa nem a outra.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A política da língua</title>
		<link>http://5dias.net/2008/03/18/a-politica-da-lingua/</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Mar 2008 19:40:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[O diabo está nos detalhes. Aqui há uns tempos, grande escândalo por causa da lei do tabaco: “fascismo higiénico!”, “totalitarismo!”, etc. Esse escândalo acompanhou o que já existia por causa da ASAE, que alguns não hesitaram em comparar a uma &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/03/18/a-politica-da-lingua/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O diabo está nos detalhes. Aqui há uns tempos, grande escândalo por causa da lei do tabaco: “fascismo higiénico!”, “totalitarismo!”, etc. Esse escândalo acompanhou o que já existia por causa da ASAE, que alguns não hesitaram em comparar a uma tropa de choque ou um polícia política.</p>
<p>E agora um deputado do PS pretende proibir — por razões de “saúde pública” — qualquer cidadão de qualquer idade de fazer um piercing na língua ou qualquer cidadão menor de se tatuar ou fazer piercings onde quer que deseje, mesmo com autorização dos pais. Admiravelmente, os mesmos cronistas alarmados não dizem nada, talvez por acharem que não é nada com eles. E a imprensa trata a coisa como digna de notícia mas apenas por ser um pouco ridícula.</p>
<p>Mas uma questão de saúde pública é precisamente o que esta proposta não é. Também não é apenas ridícula e muito menos insignificante. A proposta do deputado Renato Sampaio cruza uma linha fundamental, e se o PS pensar dois minutos no assunto, não se mete nisto.<span id="more-2416"></span></p>
<p align="center">***</p>
<p>Para começar, vejamos como esta ideia não se compara com a lei do tabaco ou a acção da ASAE. É verdade que, entre os defensores médicos da lei do tabaco, houve sempre quem desejasse dizer-nos como devemos levar a nossa vida — o tipo de conselho que eu tenho o direito de dispensar. Mas a lei do tabaco poderia — e do meu ponto de vista, deveria — ser melhor defendida como aquele exemplo clássico da minha liberdade que acaba onde começa a dos outros. E a acção da ASAE poderia ser melhor defendida como um exemplo de segurança alimentar e informação ao consumidor (ambos mais antigos do que pensamos: era um dos trabalhos dos almotacés e almoxarifes, funcionários medievais que os nossos municípios herdaram dos muçulmanos).</p>
<p>Pois bem, ao passo que o fumo passivo prejudica a liberdade e a saúde de terceiro, e uma intoxicação num restaurante é um perigo invisível para os consumidores, que mal me pode fazer o piercing na língua de terceiros? E quem sou eu para dizer que, mesmo com autorização dos pais, a filha dos vizinhos não pode fazer uma tatuagem?</p>
<p>A fronteira que aqui se cruza é aquela que separa a maior liberdade possível de todos das lições de moral acerca de como nos devemos comportar no estrito usufruto da nossa liberdade individual. Essa fronteira sempre separou o liberalismo de esquerda — que é social e não económico — do liberalismo de direita — que, na hora da verdade, é ferozmente conservador nos costumes. O silêncio dos cronistas, precisamente, talvez se explique porque entre eles há muitos mais a apreciarem uma bela cigarrada no restaurante do que — à excepção do José Luís Peixoto, que estudou comigo na faculdade — a usarem piercings ou fazerem tatuagens. Mas essa é mesmo a pior das razões para não dizerem nada agora, principalmente depois de terem andado a gritar “olha o lobo” durante o resto do tempo.</p>
<p>Como fazer para não cruzar a fronteira? Muito simples: o estado tem o dever de dar informação aos cidadãos sobre os perigos do piercing ou das tatuagens, deve licenciar e inspeccionar os estabelecimentos que desejem prestar esses serviços, e pode até taxá-los mais para cobrir os seus potenciais custos públicos de saúde (se os houver). Mas não pode, nunca, neste mundo onde os meus impostos pagam os erros dos gestores bancários e os custos das mentiras de Bush, Blair e Barroso, usar os meus impostos como uma desculpa mesquinha para se meter onde não é chamado.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Contentes, agora?</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Mar 2008 10:32:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>

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		<description><![CDATA[10.03.2008, Rui Tavares Quem crucifica os ministros da Educação? Nós, do taxista ao Presidente. Entregámos à actual ministra um claríssimo caderno de encargos: afronte os professores. Caso contrário, não vale a pena. Ela engoliu o isco, o anzol e a &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/03/11/contentes-agora/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>10.03.2008, Rui Tavares</em></p>
<p>Quem crucifica os ministros da Educação? Nós, do taxista ao Presidente. Entregámos à actual ministra um claríssimo caderno de encargos: afronte os professores. Caso contrário, não vale a pena. Ela engoliu o isco, o anzol e a linha, chegando a declarar que cumprira a missão: &#8220;Perdi os professores, mas ganhei a opinião pública.&#8221;</p>
<p>Agora precisa dos professores, mas ainda lhe resta alguma opinião pública. Vejamos exemplos. Emídio Rangel: &#8220;Tenho vergonha destes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista.&#8221; Pedro Norton: &#8220;O eduquês é uma tralha ideológica mais pestilenta que os estábulos de Augeias.&#8221; Henrique Raposo: &#8220;Os alunos acabam o secundário sem saber escrever&#8221; (cinco linhas abaixo, já é o ensino superior e não o secundário). Miguel Sousa Tavares: &#8220;A queda de Maria de Lurdes Rodrigues teria o efeito de um toque a finados por qualquer futura tentativa de reformar o Estado e mudar o país.&#8221; Tudo muito enfático. Mas pouco prático.<span id="more-2314"></span></p>
<p>Durante anos, o discurso catastrofista sobre a educação e o ensino público foi variando os alvos: a culpa era dos professores, dos sindicalistas, dos burocratas, do ministério. Às vezes eram todos o mesmo, outras vezes uns vítimas e outros carrascos. Esperem: afinal, a culpa é do eduquês, que ninguém sabe se é uma ideologia ou um mero exemplo de linguagem burocrática, tão perniciosa ou inócua como qualquer outra linguagem burocrática. Quando não sobra mais nada, a culpa é da falta de autoridade, essa particular obsessão de gente insegura. E agora Vasco Pulido Valente diz-nos que os professores não precisam de avaliação, mas de &#8220;um ethos de excelência&#8221;. Como é que ninguém se lembrou desta? Se conseguirmos que os professores respirem excelência como quem respira oxigénio, temos o problema resolvido.</p>
<p>Vivemos estes anos sob a retórica das &#8220;reformas impopulares&#8221;. Precisamos de reformas impopulares! Se não forem impopulares, não são reformas! E reformas impopulares, claro está, só se conseguem com maioria absoluta. Ninguém quis ver o lado perverso desta lógica: com maioria absoluta não é preciso que as reformas sejam boas, basta dizer que elas são impopulares e que quem se lhes opõe é contra as reformas.<br />
Funciona, pelo menos no início. E quando precisamos da colaboração dos seres humanos lá em baixo? O problema é mesmo esse: as reformas fazem-se com as pessoas que temos, não com as que fabricamos. Insistir numa reforma apenas porque é &#8220;impopular&#8221; é uma desculpa fácil. Difícil é fazer uma reforma compreensível e motivadora para quem vai ter de participar nela. Mas às vezes é possível, e nesses casos é essencial.</p>
<p>Um discurso que nos diz que todo o ensino público está mal não é nem nunca será reformista. O verdadeiro reformismo é realista: quer concentrar as suas forças no que está mal e não disparar em todas as direcções. E no ideal, o reformismo é progressista: só funciona quando dá às pessoas um horizonte de expectativas atingível e honesto. Quem quer um governo reformista não pode consegui-lo aliando-se à opinião mais pessimista e destrutiva, ainda que tacticamente. Se o fizer, começa com demonstrações de autoridade vácuas e acaba batendo com a cabeça no muro. Que isto sirva de lição ao PS.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Viva Obama 2008</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Feb 2008 20:22:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[democratas]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>
		<category><![CDATA[obama]]></category>
		<category><![CDATA[primárias]]></category>

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		<description><![CDATA[High quality video at www.AmigosdeObama.com Featuring: Mariachi Aguilas de Mexico Translation: To the candidate who is Barack Obama I sing this corrido with all my soul He was born humble without pretension He began in the streets of Chicago Working &#8230; <a href="http://5dias.net/2008/02/22/viva-obama-2008/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="425" height="355"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/0fd-MVU4vtU&#038;rel=1"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/0fd-MVU4vtU&#038;rel=1" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="355"></embed></object></p>
<p>High quality video at <a href="http://www.AmigosdeObama.com">www.AmigosdeObama.com</a><br />
Featuring: Mariachi Aguilas de Mexico<br />
Translation:</p>
<p>To the candidate who is Barack Obama<br />
I sing this corrido with all my soul<br />
He was born humble without pretension<br />
He began in the streets of Chicago<br />
Working to achieve a vision<br />
To protect the working people<br />
And bring us all together in this great nation<br />
Viva Obama! Viva Obama!<br />
Families united and safe and even with a health care plan<br />
Viva Obama! Viva Obama!<br />
A candidate fighting for our nation<br />
It doesn&#8217;t matter if you&#8217;re from San Antonio<br />
It doesn&#8217;t matter if you&#8217;re from Corpus Christi<br />
From Dallas, from the Valley, from Houston or from El Paso<br />
What matters is that we vote for Obama<br />
Because his struggle is also our struggle, and today we urgently need a change<br />
Let&#8217;s unite with our great friend<br />
Viva Obama! Viva Obama!<br />
Families united and safe and even with a health care plan</p>
<p>Viva Obama! Viva Obama!<br />
A candidate fighting for our nation</p>]]></content:encoded>
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		<title>Adeus, Iracema</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 20:55:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a Blitz, e que eu deixo aí abaixo. É também o meu último &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/adeus-iracema/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há uns tempos deixei aqui um vídeo de Adoniran Barbosa e Elis Regina com um pequenino comentário. Esse textinho acabou por germinar numa crónica que escrevi para a <i>Blitz</i>, e que eu deixo aí abaixo.</p>
<p>É também o meu último contributo como editor para o 5dias. Como vocelências devem ter reparado, não bloguei com a quantidade e a qualidade que este sítio merecia, muito menos como mereciam os meus colegas dos outros dias que estiveram uns furos acima em ambas as categorias. Orgulho-me, contudo, de ter contado com a colaboração de três excelentes <i>bloggers</i> em texto e imagem: o Jorge Palinhos, o Pedro Vieira e o André Belo. O Jorge, o Pedro e o André são três valores seguros em qualquer projecto e poderão continuar a colaborar aqui no 5dias, se eles e os outros amigos o desejarem. Eu também não me desligarei do projecto. Tenho aqui amigos e bastante confiança na ideia com que fundámos este espaço e nas suas possibilidades. Mas, pelo menos para já, <a href="http://ruitavares.weblog.com.pt">o meu blogue pessoal</a>, mesmo em jeito modesto, chega-me e sobra-me.</p>
<p>As segundas-feiras passarão a ser editadas por uma nova e fulgurante contratação, que será revelada na próxima semana. Continuem a passar por aqui nos dias úteis.</p>
<p>E agora, <b>Paciência Iracema</b>.</p>
<p align=center><object width="425" height="350"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/qG_hKeFtSF8"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/qG_hKeFtSF8" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"></embed></object></p>
<p>É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. A musiquinha é uma curta obra-prima ternurenta e macabra. Isso mesmo: ternurenta e macabra ao mesmo tempo. É, também, uma letra supremamente equilibrada: nem excessivamente piegas nem maldosa, apesar de ser uma das raras músicas da história da humanidade — talvez a única — que tenta responder filosoficamente à seguinte pergunta: que fazer quando a nossa noiva é atropelada mortalmente a vinte dias do casamento?</p>
<p>Para quem não conhece, aqui vai uma descrição abreviada. No início, o cantor dirige-se a uma mulher chamada Iracema, chamando-lhe o “grande amor” da sua vida, como em qualquer banal música romântica. Logo notamos que há qualquer coisa de estranho quando o cantor recorda o aviso que costumava dar a Iracema, “cuidado ao atravessar essas ruas”, um tema inesperado numa declaração de amor. “Cuidado ao atravessar essas ruas, eu falava, mas você não me escutava não; Iracema, você &#8216;travessou contramão”. Aí entendemos a segunda coisa bizarra nesta música: Iracema já morreu, e toda a letra é o diálogo imaginário entre o cantor e a sua — como diria Tim Burton — noiva-cadáver. Mas para quem acha que a história já é estranha que chegue, vem agora outro pormenor absurdo: o cantor dirige-se à sua amada para pedir desculpas porque, como homem descuidado e trapalhão que é, perdeu o retrato dela. Restam-lhe então, como lembranças do grande amor da sua vida, apenas as meias e os sapatos recuperados no lugar do acidente (“Guardo somente suas meias e seus sapatos. Iracema, eu perdi o seu retrato.”). As meias e os sapatos?! Mas então esta música é para rir ou para chorar? Precisamente, nem uma coisa nem outra. Quando nos damos conta da profunda tristeza da história, a letra dá uma guinada absurda. E quando a ridícula referência às meias e aos sapatos quase nos dispara uma gargalhada, o cantor pede desculpa à amada morta por ter perdido o retrato dela, e aí quem consegue rir de um homem que no futuro terá dificuldade em lembrar-se do rosto do grande amor da sua vida? A coisa perde a piada, apesar de toda a história ser divertidíssima. É tão desconcertante quanto isto.</p>
<p>***</p>
<p>Com a combinação certa de palavras-chave, é fácil encontrar na internet — vocês sabem do que eu estou a falar — essa gravação de 1978 em que Adoniran Barbosa e Elis Regina cantam Iracema no bar da Carmela, no bairro italiano da maior cidade brasileira. A cena também em si é absurda, porque esta música de fazer chorar as pedras da calçada é acompanhada por uma roda de samba saltitante como de costume, isto à volta de uma mesa e dos seus copos de cerveja de uma alegre noite de bar. Mas Adoniran Barbosa olha em direcção nenhuma com ar seríssimo e absorto, à espera da deixa para a sua parte falada — e não cantada — da música, pronunciada num sotaque paulistano com exagerados erros de português, também para chamar a atenção e o rídiculo sobre a sua pobre personagem. E diz:</p>
<p>(Iracema, fartavam 20 dias Pra o nosso casamento Que nóis ia se casá Você atravessô a São João Vem um carro te pega E te pincha no chão O chofer não teve curpa, Iracema. Você &#8216;travessou contramão Paciência, Iracema, paciência!)<br />
Haverá coisa mais incoerente? No início, parece que a letra toma uma direcção melodramática (“fartavam 20 dias pra o nosso casamento”), mas logo descamba para os detalhes mórbidos, brutais e exagerados (“vem um carro te pega e te pincha no chão”). Para mim, no entanto, nada é mais absurdo e, ao mesmo tempo, mais encantador do que a referência ao “chofer” que “não teve curpa”: que tipo de homem seria capaz de, evocando a amada morta, estar preocupado em explicar-lhe se o condutor do automóvel que a matou teve ou não culpa do acidente? Talvez o mesmo tipo de homem que perdendo o retrato dela guarda como recordação as suas meias e os sapatos&#8230;</p>
<p>***</p>
<p>Chegado a este ponto, é já evidente que Adoniran Barbosa, actor, cantor e compositor que nasceu em 1912 e morreu em 1982, dominava como poucos todas as manhas do efeito cómico: as suas mudanças de ritmo, as súbitas viragens na narrativa, o efeito de acumulação de absurdos. Mas esse embrulho cómico nas suas músicas traz consigo uma atitude profundamente filosófica a que eu me referia no início. Essa é a que aparece na última frase do seu monólogo. Perante a brutalidade absurda da existência, que lhe rouba a noiva e lhe faz perder o seu retrato, qual é a resposta que Adoniran dá à adversidade? Raiva? Revolta? Rebeldia? Não: apenas paciência. “Paciência, Iracema, paciência”.</p>
<p>A este tipo de atitude chama-se por vezes de fatalismo, e tem pouco de surpreendente na cultura portuguesa uma vez que é um sentimento dominante no género musical do fado, cujo nome tem precisamente essa origem do fatum latino, o destino. Mas tal como por vezes há fados melodramaticamente absurdos e divertidos em Portugal (o Fado da Mãezinha Tuberculosa&#8230;) também aqui encontramos um samba fatalista em ambiente brasileiro. Poderíamos explorar as correntes subterrâneas que ligam estes dois géneros musicais e a cultura dos seus respectivos países, mas parto do princípio de que este tema já está bastante explorado. Prefiro antes chamar a atenção para a longa história do fatalismo de que, de certa forma, encontro ecos naquela música de Adoniran Barbosa.</p>
<p>***</p>
<p>Um filósofo grego antigo, Pirro de Eleia, era fatalista porque achava que nada se podia saber. Diz-se que o seu cepticismo era tão radical que, ao saber que Sócrates tinha dito “só sei que nada sei”, respondeu “pois eu nem isso sei”. Mais tarde um dos seus discípulos, que tinha o belo nome de Sexto Empírico, resumiu a filosofia pirronista numa fórmula sucinta:</p>
<p>Nada se pode saber — nem sequer isto.</p>
<p>Os pirronistas defendiam que, uma vez que nada se podia saber, o melhor era não acreditar em nada. A via mais sensata consistiria então em ir abandonando todas as crenças e até todas as opiniões forte sobre as coisas até chegar a um estado em que nada nos provoque inquietação alguma. A esse estado chamavam de imperturbabilidade, ou seja, a capacidade de não nos perturbarmos com nada. O nome em grego era ataraxia e há quem o compare a uma espécie de nirvana budista. Eu comparo-o antes à atitude de Adoniran Barbosa na sua música: não culpar o chofer do carro, recolher as meias e os sapatos da noiva, e conversar calmamente com ela através de um sambinha, como quem diz, é preciso levar a vida. A noiva atravessou em contra-mão. Já&#8217;não volta mais. Paciência.</p>
<p>***</p>
<p>Há muitos fatalismos diferentes, e não temos aqui espaço para todos. Um consiste em dizer, como vimos, que é tudo tão absurdo e incerto que não adianta tomar decisões. Outro fatalismo, porventura mais conhecido, consiste em dizer que tudo está pré-determinado e que, portanto, também não adianta tomar decisões. Conta-se que, na Antiguidade, certos guerreiros fatalistas andavam descuidados pelo campo de batalha, achando que não valia a pena protegerem-se uma vez que morreriam apenas no momento predestinado e não antes. Para quê usar armadura? Hoje, todavia, não se leva a filosofia tão a sério, até porque todos estes fatalismos têm uma coisa em comum: as suas raízes são muito antigas, sempre de um tempo em que não havia automóveis nem avenidas largas. E os automóveis são um argumento importante contra uma atitude de imperturbabilidade fatalista, como lembrou o físico Stephen Hawking quando escreveu:</p>
<p>“Reparo que mesmo as pessoas que afirmam que tudo está predestinado e que não há nada a fazer contra isso não deixam de olhar antes de atravessar a rua”</p>
<p>Ou seja, precisamente aquilo que deveria ter feito Iracema.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: apocalypto</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 19:39:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, México [clique para aumentar numa nova janela]"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/mexico.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;jornalismo, profissão de alto risco no méxico&#8221;.</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>E se contarmos com os gatos? Como o &#8220;Não&#8221; ainda pode vir a ganhar</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 19:36:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No Blogue do Não, no artigo de Luís Delgado no DN, na reacção de Luís Filipe Menezes, nas respostas do CDS e do &#8220;Não&#8221; (mas, vá lá, o PSD e Marques Mendes evitaram esse caminho) aparece timidamente um tema: o &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/e-se-contarmos-com-os-gatos-como-o-nao-ainda-pode-vir-a-ganhar/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No Blogue do Não, no artigo de Luís Delgado no DN, na reacção de Luís Filipe Menezes, nas respostas do CDS e do &#8220;Não&#8221; (mas, vá lá, o PSD e Marques Mendes evitaram esse caminho) aparece timidamente um tema: o de que se juntarmos os abstencionistas ao voto do &#8220;Não&#8221;, há uma maioria de pessoa que se opõe à despenalização do aborto. A ideia é tão hilariamente absurda e desajeitada que está para lá de qualquer comentário. Mas os cenários ainda vão mais longe: Luís Filipe Menezes e Pedro Picoito contam com aqueles que não poderão nunca vir a votar, porque não nascerão: os fetos&#8230; Bagão Félix poderia até aduzir que se trata do voto do nascituro não concebido, que garantiria naturalmente a vitória do &#8220;Não&#8221;. E porquê parar por aí? Não viriam esses fetos a ter filhos (eleitores do &#8220;Não&#8221;, pois claro)? E os netos dos fetos?</p>]]></content:encoded>
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		<title>E subitamente Portugal perdeu a graça</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 13:58:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/e-subitamente-portugal-perdeu-a-graca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um gajo acorda um dia e, tirando um abalo sísmico, não há contrariedades. Os mais fanáticos dos religiosos são, como é normal serem, minoria. Os eleitores decidiram que não é crime uma coisa que, efectivamente, não é crime. Abre-se um jornal e vê-se, como vencedores, toda a esquerda uma parte da direita liberal que ainda tem alguma consequência no seu liberalismo. Perdedores: a Igreja Católica, o PSD, o CDS, Marcelo Rebelo de Sousa (este em grande), Bagão Félix, Paulo Portas.</p>
<p>E se o nosso trabalho tiver acabado? Resta emigrar para a Polónia.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: channel 4 madras</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Feb 2007 13:57:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;. [nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/12/pedro-vieira-channel-4-madras/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira, Madras [clique para abrir numa nova janela"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/madras.jpg" width="80%"></a><br/><br/><i>Público: &#8220;actriz indiana alvo de insultos racistas vence big brother famosos britânico&#8221;.</i></p>
<p><i>[nota: as ilustrações do Pedro Vieira não foram publicadas na semana por causa de um erro de comunicação. Serão publicadas hoje. Ao Pedro e aos leitores as minhas desculpas.]</i></p>]]></content:encoded>
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		<title>Transistor</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 23:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/transistor/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?</p>
<p>Seria errado dizer que o rádio iluminava a noite, mas antes que se infiltrava pela escuridão encontrando pequenos clarões de sons compreensíveis, retraindo momentaneamente o vasto ignoto, como um par de faróis num carro solitário. Passavam programas para camionistas acordados na estrada. O rádio de onda média apanhava estações espanholas com flamenco, relatos de touradas, noticiários. Espanha: havia um lugar chamado fronteira e depois dela as pessoas falavam outra língua — todas! — das crianças aos velhos. Mas havia mais. Havia Marrocos. Com sorte, nas noites favoráveis, encontrava-se uma daquelas estações com sumptuosa música oriental sinfónica, instrumentos de arco sinuosos, descendo e subindo languidamente as escalas. Depois um locutor interrompia a emissão para dizer umas palavras em árabe, não sei se eu já sabia que havia uma língua chamada assim, aquelas articulações guturais e vogais bruscamente interrompidas, uma espécie de regato brotando e dimanando por uma paisagem seca e acidentada. Mas às vezes — e isto era completamente diferente — ouvia-se falar a mesma língua por uma voz velosa de mulher, balsâmica e sedante, antes de entrar na noite sem estrelas com mais uma daquelas orquestras douradas. Eu adormecia.</p>
<p>Marrocos era um reino. O rei chamava-se Hassan II. Tinha cidades chamadas Casablanca, Fez, Tânger. Isso vinha na enciclopédia em três volumes, comprada às prestações. O atlas universal tinha as bandeiras de todos os países do mundo; alguém tinha assinalado com um pontinho os países comunistas e com um traço os países capitalistas, para fazer as contas à guerra fria e às medalhas nos jogos olímpicos.</p>
<p>A televisão foi muito tempo a preto e branco e, seja como for, tinha só dois canais. Tinha horário: começava ao fim da tarde e desligava-se depois do hino nacional. Eu às vezes implorava-lhe que me desse mais qualquer coisa; carregava em todos os botões e percorria UHF acima e VHF abaixo nessa vã busca de um surpresa. Uma noite, com todos já deitados, consegui apanhar a Radiotelevisión Española, por detrás de uma névoa de pontinhos brancos. Não voltou a aparecer.</p>
<p>Não havia comparação possível com a telefonia. Em casa de não sei qual tia havia uma enorme, com nomes de cidades dispersos pelo mostrador. Aquilo sim era o mundo: Johannesburg – Cairo – Leningrad. De regresso a casa no automóvel, pela Estrada Nacional nº 1, eu encostava a cabeça ao vidro do carro e via as luzes ao longe. O que eu via nem sempre eram cidades mas terreolas somente. E cada uma daquelas tremeluzindo na distância devia ser como essas cidades do mostrador da telefonia. Cada uma delas deveria cintilar contra o negrume à força da luz eléctrica, e certamente com várias vezes mais força do que Castanheira do Ribatejo ou Vila Nova da Rainha. Algumas delas teriam forçosamente de ser clarões enormes, estelares, belos quando vistos de cima com fieiras infindas de candeeiros nas ruas como gotículas de humidade numa teia de aranha. Essas cidades teriam prédios grandes e elevadores com muitos botões; e desses prédios grandes sairia gente para entrar nos automóveis; essa gente seria também ela grande, homens adultos com chapéus e sobretudos, mulheres com casacos de peles e os lábios pintados. E por vezes famílias inteiras, com cães de estimação.</p>
<p>E a questão então era a seguinte: poderia numa dessas famílias acabadas de entrar agora para o seu automóvel ir um miúdo com a testa encostada ao vidro embaciado de vapor, e poderia esse miúdo estar a pensar em cidades grandes do outro lado do mundo? E poderia ele imaginar a hipótese de numa dessas cidades haver um miúdo como ele? Quem seria esse miúdo que ele imaginava existir — conseguiria descobrir que era eu mesmo? — ou inventaria um terceiro? E se havia um terceiro porque não haveria um quarto? A propósito: um em cada quatro humanos era chinês. Poderia então haver um outro rapaz igualzinho a mim na China, um irmão gémeo de mim mas em chinês, e teria ele consciência da possibilidade da minha existência? E se em vez de um miúdo fosse uma miúda, quer dizer: não poderia antes acontecer que do outro lado do mundo eu fosse o meu exacto oposto de tudo quanto eu aqui era? Teria eu essa irmã chinesa do outro lado do mundo? Estaria ela a pensar no mesmo que eu neste preciso momento? Viria eu a conhecê-la? E se sim — agora é levemente embaraçoso — poderíamos vir a casar?</p>
<p>Tenho hoje a certeza que muitas crianças estavam ao mesmo tempo perguntando-se as mesmas coisas, e se não eram exactamente as mesmíssimas, a verdade é que talvez sempre se tenham feito perguntas que não são em si muito diferentes destas. O que me intriga agora é saber quantos desses meus companheiros e companheiras se lembram de um dia as terem feito. O que farão eles agora? Terão certamente morrido alguns; e quantos dos sobreviventes terão já tido filhos? Quais desses filhos já se terão perguntado as mesmas coisas? Quantos serão na proporção total das crianças de olhos esbugalhados?</p>
<p>Quando penso que bastava um rádio de pilhas para tudo isto, vejo que tão certo como ter tido um irmão gémeo chinês, é termos ambos tido um irmão mais velho no Japão. Porque foi lá que começaram a substituir-se as rádios antigas dos velhos tubos de vácuo por novíssimas, agora de transístores, e por um momento conhecidas apenas por esse nome. Os transístores aguentavam-se bem com baterias apenas. Eram pequenos e poupados, passado pouco tempo começaram também a ser baratos, e não deixariam nunca mais de se tornar cada vez mais baratos e pequenos e poupados. Hoje imprimimo-los aos milhões em cada bolacha de silicone dos circuitos integrados, junto com díodos e condensadores e resistências. Vistos de cima parecem cidades carregadas de prédios e casas e estradas paralelas, como as nossas cidades que cresceram juntando os tentáculos umas às outras, futuramente envolvendo o mundo inteiro, perpetuamente acesas num dia constante.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O fiasco do milénio</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 23:25:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/o-fiasco-do-milenio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.</p>
<p>Olho para os rodapés da minha casa. Que dificuldade haveria em instalar-lhes umas dobradiças oscilantes para, no momento certo, deixarem passar os ratóides? Eu chegaria a casa esvaziando os bolsos, deixando cair moedas, papéis diversos, poeiras submilimétricas, parafusos encontrados na rua. Os ratóides levam tudo para dentro, separam o lixo do resto, sabem que facturas se declaram aos impostos, arquivam-nas no lugar certo, colocam o material indeciso num tabuleirinho, para minha consideração, que guardam depois inobservado. Transcrevem os números de telefone anotados em bilhetes de cinema. Deixam as chaves no prego da porta. Aquelas paredes têm espaço que chegue para um exército de ratóides e mais ainda: eles podem trazer-me de lá dentro o que eu quiser. Chinelos. Jornal. Preservativos. Corta-unhas.</p>
<p>Meus amigos, eu li as Crónicas Marcianas de Ray Bradbury. Li até o livro se desfazer. Li até me mandarem apagar a luz. Várias vezes. E li “Virão Chuvas Suaves”, o melhor conto do livro, vezes incontáveis, em leitura mental, ou em voz alta, ou imaginando uma versão cinematográfica, ou gravando um programa de rádio caseiro. E, tudo contado, sei perfeitamente que em 2006 já deveria haver ratóides que me limpassem a casa. E já nem sequer teimo que tudo isto se passaria em Marte, depois de um cataclismo nuclear, terrível mas necessário, que levara todos os gajos chatos do liceu, mas também algumas das miúdas bonitinhas e doces, memoráveis ao meu coração sofrido.</p>
<p>No fundamental, quero dizer que o milénio é a grande desilusão da minha vida. Fui dolorosamente envergonhado: o milénio é a fraude do milénio.</p>
<p>Consideremos o dia em que fui para o hospital com uma apendicite. O augustus imperator do Ocidente era um homem  chamado Bush. O primeiro-ministro de Portugal chamava-se Cavaco Silva, professor de educação física — ou moral e religiosa, ou trabalhos oficinais — se a memória não erra. O ditador da Líbia chamava-se Muhammar Kadhafi, ou Gadhdhaffyi (há mais de trinta alternativas). A questão era saber se Bush devia bombardear  Kadhafi, e que cara, no seu registo fisionómico limitado, deveria Cavaco fazer quando apoiasse o ataque. Passaram os anos. Bush foi substituído por um filho que é uma cabal refutação à teoria de Darwin. Ninguém sabe o que foi feito de Cavaco Silva. Kadhafi continuou a sua carreira a solo, mas perdeu credibilidade como vilão, e já foi substituído por dois ou três gajos diferentes — o último ainda à experiência.</p>
<p>Tenho, como troféu de batalha, a cicatriz destes anos. Está numa posição rara em apendicites, dois ou três centímetros acima do lugar normal. Quando acordei da anestesia, pedi que me trouxessem livros de ficção científica: Stanisław Lem, Karel Čapek, Ray Bradbury, Robert Heinlein, os irmãos Strugatski, Harry Harrison, John Wyndham. E um ou outro policial para desenjoar. Os pais, os irmãos e os primos corresponderam. Um professor do Técnico, que tinha sido operado à vesícula, emprestou-me um dos seus Isaac Asimov. Nas camas em frente à minha, um comunista e um saudosista da ditadura discutiam política sem conseguirem ver-se, intercalados por um homem em coma, ou talvez já morto, que supúnhamos encontrar-se por detrás daquela cortina de plástico verde-claro. No canto oposto um militar da Guarda Nacional Republicana, em severa privação alcoólica, atirava as pantufas contra a janela, tentando atingir gatos invisíveis para a restante enfermaria. Um açoriano mostrava com orgulho a sua cicatriz, grossa como uma corda, que ia da traqueia até à bexiga: “foi revisão geral”, dizia.</p>
<p>Eu ia lendo os meus livros, que narravam acontecimentos que viriam a passar-se no futuro, especialmente em torno do ano 2000. À beira do fim, de Harry Harrison [no original, Make Room! Make Room!]: 9 de Agosto de 1999, vivem trinta e cinco milhões de pessoas em Nova Iorque, sem água potável, sem comida e sem papel. Para comunicar, usam tésseras de ardósia distribuídas por um exército de crianças de rua. Regresso das Estrelas, de Stanisław Lem [no original Powrót z gwiazd]: as bibliotecas são colecções de cristais que se copiam de graça e inserem num visor de plástico. A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [no original The Door into Summer]: as pessoas guardam o seu pé-de-meia no banco, congelam-se, e acordam no ano 2000 milionárias, mas potenciais vítimas ingénuas de esquemas preparados pela população acordada, que trata os ressuscitados mais ou menos como nós tratamos os imigrantes. No que diz respeito ao trabalho doméstico — oh, meus amigos — não se preocupem: o Flexible Frank rega o jardim, muda as fraldas do miúdo e prepara cocktails [em português: cacharoletes] com vermute.</p>
<p>É certo que Heinlein escreveu em 1957, Lem em 1961 e Harrison em 1966. O milénio ainda vinha lá longe. Na altura em que eu recuperava da apendicite o tempo já começava a ser apertado. Tínhamos cerca de uma década. Não daria para colonizar Alfa-Centauro mas, que diabo, não se admitia chegar ao ano 2000 sem um robot doméstico.</p>
<p>Nada me preparou, porém, para o que se passou recentemente. Vi uma antologia de Ray Bradbury na livraria, e trouxe-a para casa, mais por nostalgia do que por empenho. Recolhi a minha colecção de Lem quando o autor morreu, em Março passado, para lhe prestar o melhor tributo que um leitor pode prestar. Reli A Porta para o Verão, de Heilein, talvez pela décima vez mas a primeira desde a adolescência, em menos de duas tardes.</p>
<p>E a evidência fulgurante impõe-se: estes livros estão escritos no passado.</p>
<p>Já não posso ler estes livros e projectar-me satisfatoriamente no futuro porque as datas estão lá, aquelas datas, e atrapalham-me. Como ler futurologia passada em 1999? Lembro-me perfeitamente de 1999: não foi assim tão mau. E também não foram assim tão bons dois mil e um, dois mil e dois e por aí adiante.</p>
<p>Tudo bem: tenho a internet, que me faz perder tempo em vez de escrever. Mas quando escrevo, ainda tenho de me sentar a uma cadeira, ainda tenho de premir teclas com dedos. As articulações queixam-se, os músculos exigem levantar-se, preciso de urinar. E onde está o eléctrodo implantado na nuca, mais o transmissor sem fios, que registasse directamente os meus pensamentos? Se precisar de rever o texto, onde está o monitor na lente dos óculos, controlado pelo mover brando da retina?</p>
<p>Lembro-me de ter seis anos e fazer contas para saber que idade teria no ano 2000. Não posso aceitar esta desfeita. Quero saber onde está o estéreo-tanque, televisor tridimensional que me permite contornar o apresentador do telejornal e vigiar a progressão da sua calvície. Onde está a noiva mecânica? Onde está o organizador de matéria e o teletransportador? Onde estão as cidades rotativas, itinerantes e suspensas? Onde estão as cúpulas de controle meteorológico? Onde está calster, a impressora portátil de dinheiro? Onde está o levitador magnético ou o seu rival, o elevador de repulsão gravítica? Onde está a electricidade sem fios?</p>
<p>Estamos prontos.</p>
<p>http://ruitavares.weblog.com.pt</p>
<p>[com um agradecimento especial a João Macdonald pela tradução portuguesa de cocktail.]</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos:Crença e ilusão – O referendo ao aborto</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 23:14:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na semana passada falei de três técnicas usadas pelos charlatães para nos fazerem ver e acreditar aquilo que nos tentam impingir: a indefinição de métodos e resultados, o controlo da nossa visão, o jogo com o nosso egocentrismo. Estes métodos &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/jorge-palinhoscrenca-e-ilusao-%e2%80%93-o-referendo-ao-aborto/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na <a href="http://5dias.net/2007/01/29/jorge-palinhos-a-ilusao-e-a-crenca/">semana passada</a> falei de três técnicas usadas pelos charlatães para nos fazerem ver e acreditar aquilo que nos tentam impingir: a indefinição de métodos e resultados, o controlo da nossa visão, o jogo com o nosso egocentrismo.</p>
<p>Estes métodos são também frequentes na manipulação da opinião pública. Aproveitando o próximo referendo ao aborto, vou tentar demonstrar estes três princípios num caso prático.</p>
<p>O <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Abortion">aborto</a> é uma questão de elevada complexidade, que implica questões antropológicas, sociais e éticas.</p>
<p>A capacidade feminina de procriar sempre foi um tema crucial em todas as sociedades humanas. Tal fertilidade explica porque é que as primeiras sociedades terão sido matriarcais, mas também explica porque é que a sociedades patriarcais posteriores “objectificaram” as mulheres, isto é, as transformaram num bem valioso, que justificava guerras e conflitos sociais e poderia ser trocado e vendido. A capacidade de multiplicação da tribo e de assegurar a descendência eram factores vitais para a sobrevivência da sociedade, que tinham de ser vigorosamente legislados e controlados através de casamentos combinados, dotes e imposição da castidade feminina. O aborto, neste contexto, assumia um papel decisivo: para a sociedade era uma forma de controlo populacional em tempos de crise. Mas ao mesmo tempo era uma arma de afirmação da mulher – uma mulher com a liberdade de abortar poderia rejeitar o esperma de parceiros que não lhe interessassem ou escapar à imposição da castidade sexual.</p>
<p>Contudo, como a maioria das sociedades assenta também no respeito da vida humana, coloca-se a questão ética de se o aborto implica a terminação de uma vida humana ou não. Aqui as respostas são muito variáveis e nada fáceis, desde a proposta de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Singer">Peter Singer</a>, de que só é ser vivo aquele com capacidade autónoma de sobrevivência, até à Igreja Católica, que se opõe ao preservativo, à pílula anticoncepcional e à masturbação por constituírem formas de controlo da fertilidade feminina. Entre os extremos, há quem defenda que a vida começa com o nascimento, com o surgimento do sistema nervoso do feto (por volta dos três meses) e com a fecundação do óvulo e início da multiplicação celular.</p>
<p>Estes dilemas mantêm-se ainda hoje e traduzem-se no actual referendo: de um lado quem se opõe à despenalização do aborto usa como argumentos a possibilidade de este ser usado como contraceptivo (isto é, de a mulher poder controlar a fecundação masculina e escapar assim à obrigação da castidade) e do número de abortos aumentar caso seja despenalizado (o que pressupõe que a gravidez é um fardo para a mulher de que esta se quer livrar-se rapidamente); do lado do sim, verifica-se a defesa do direito da mulher ser senhora exclusiva do seu corpo (isto é, da sua capacidade de procriar).</p>
<p>De um lado e de outro verifica-se o deslizar frequente para demagogia, mas do lado do <em>Não</em> parecem-me perfilar-se com mais clareza algumas das técnicas que falei acima e que vou passar a explorar.</p>
<p>Lendo os cartazes e folhetos dos opositores da despenalização do aborto, verifica-se que as suas propostas são altamente indefinidas. Quase todos eles afirmam <em>defender a vida</em> e querer <em>impedir a morte de inocentes</em>. Porém dados da <a href="http://www.who.int/reproductive-health/publications/safe_abortion/safe_abortion.pdf">Organização Mundial de Saúde</a> indicam que haverá cerca de 46 milhões de abortos em todo o mundo, ou seja, 26% das gravidezes terminam em aborto provocado, 26 milhões dos quais em países onde este é legal e 20 milhões onde é ilegal.</p>
<p>Estes números por um lado revelam que a legalização ou não do aborto não tem grande relevância no incremento da sua prática ou não. Aliás, sendo os países que toleram o aborto dos mais populosos do mundo (China, Rússia, grande parte da Ásia, toda a América do Norte e quase toda a Europa), verifica-se que, proporcionalmente, o aborto parece ser mais frequente nos países onde é ilegal.</p>
<p>Acrescente-se as estes números as 70 000 mulheres que morrem anualmente em todo o mundo devido a abortos ilegais mal feitos e as centenas de milhar de mulheres que ficam inférteis. Ou seja, o provável é que a despenalização cause muito menos mortes e impeça muito menos nascimentos que a penalização.</p>
<p>A mesma campanha tenta também desviar-nos o olhar acenando com a possibilidade de o aborto ser usado como contraceptivo se for despenalizado. Porém, segundo estimativas da <a href="http://www.who.int/reproductive-health/publications/safe_abortion/safe_abortion.pdf">OMS</a>, se todas as relações sexuais utilizassem correctamente os anticoncepcionais existentes, ainda assim haveria seis milhões de gravidezes acidentais em todo o mundo, o que torna inevitável a aplicação do aborto com anticoncepcional.</p>
<p>Analisando-se a campanha do <em>Não</em>, também não é evidente que a despenalização abranja apenas as mulheres que pretendem fazer aborto, continuando a penalizar médicos e enfermeiros que façam abortos ilegais. A posição deste movimento torna-se ainda mais confusa quando alguns dos seus participantes defendem que as mulheres que abortam não devem ser penalizadas, ao mesmo tempo que defendem que se deve manter a penalização das mulheres que abortam.</p>
<p>Outro aspecto que os defensores do <em>Não</em> parecem querer escamotear é a legalidade de abortar noutros países da Europa, nomeadamente em Espanha, o que facilita extraordinariamente a prática abortiva para quem disponha de meios financeiros para tal. Neste contexto, só é prejudicado pela penalização do aborto quem não tem meios para fazer a operação noutro país, ou seja, as classes mais desfavorecidas, que são justamente as classes onde há menor informação sobre meios anticoncepcionais e uma maior sujeição da mulher ao poder físico, económico e sexual masculino.</p>
<p>Mas dentro das técnicas de manipulação do olhar, a mais clara talvez seja a de chamar “liberalização do aborto” à sua despenalização. “Liberalização” é uma palavra com conotações pejorativas em Portugal, mas que em termos técnicos consiste apenas na desregulamentação de uma dada prática ou mercado. Ironicamente, a situação do aborto ilegal em Portugal é o verdadeiro protótipo do mercado liberal: clientes e fornecedores do serviço fazem as suas trocas comerciais sem pagar impostos, sem fiscalização, sem garantias de competência, qualidade ou segurança e sem qualquer controlo estatal. Talvez seja por isso que liberais como Pedro Arroja e João César das Neves apoiem o Não ao referendo, pois, de facto, a despenalização do aborto implicaria um muito maior envolvimento do Estado na situação e uma maior responsabilização de quem aborta e de quem ajuda a abortar. As clínicas de aborto teriam de se sujeitar a declarar rendimentos, garantir a higiene e a competência dos médicos e seriam impedidas de fazerem abortos após as 10 semanas; as mulheres que abortavam seriam acompanhadas por médicos de família, psicólogos e assistentes sociais que ajudariam na tomada de decisão positiva ou negativa e poderiam melhorar o sistema de planeamento familiar ou identificar casos de abortos múltiplos derivados de problemas psicológicos ou sociais específicos.</p>
<p>Por último, o <em>Movimento do Não</em> apresenta várias características que permitem aos seus apoiantes sentir uma experiência colectiva emocionante. Apresentando-se como “defensores da vida”, numa luta épica contra “a morte de inocentes”, os defensores do <em>Não</em> vêem-se assim inseridos numa epopeia de fácil defesa, ambiguidade moral mínima e danos inexistentes em caso de derrota. Funciona assim como uma “Grande Narrativa”, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jean-Fran%C3%A7ois_Lyotard" target="_blank">Lyotard</a>, necessária à psicologia humana e social como exemplo de comportamento e definição de identidade.</p>
<p>Como disse antes, a demagogia existe de ambos os lados do referendo, mas, como julgo ter demonstrado, a aplicação das técnicas do charlatanismo é mais óbvia e mais completa por parte da campanha do <em>Não</em> como forma de ofuscar a realidade e criar um mundo ficcional perfeito onde as vítimas dessa ilusão podem imaginar que vivem.</p>
<p><strong>Jorge Palinhas </strong></p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma pergunta directa para uma resposta honesta</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Feb 2007 01:14:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 3 de Fevereiro] Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/02/05/uma-pergunta-directa-para-uma-resposta-honesta/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 3 de Fevereiro]
</p>
<p><strong>Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua.
</p>
<p></strong>A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.
</p>
<p><strong>“Concorda com a despenalização&#8230;”</strong>.  A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo de próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bébés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.
</p>
<p>Numa pergunta que começa com aquele “concorda com a despenalização”, os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e anti-aborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem “Sim” à pergunta são “pró-despenalização”. Os que respondem “Não” são “pró-penalização” (ou “anti-despenalização”, o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso.
</p>
<p><strong>“&#8230;da interrupção voluntária da gravidez&#8230;”. </strong>Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão “interrupção voluntária da gravidez” por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo. Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos de aborto. Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta.
</p>
<p><strong>“&#8230;se realizada, por opção da mulher”. </strong>No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que “o aborto foi despenalizado”, precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher.
</p>
<p>No mundo do “Não”, porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. “Por opção da mulher”? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado. Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante “por opção da mulher” ali está.
</p>
<p><strong>“&#8230;nas primeiras dez semanas&#8230;”. </strong>Aborto livre, grita o “não”! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas!  Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre&#8230; Ou o facto de só se poder andar até cinquenta quilómetros por hora dentro de uma localidade significa “velocidade livre”? Não faz muito sentido, não é verdade?<br />Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do “Não” mudam de estratégia. Então o que acontece às onze semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema?
</p>
<p><strong>“&#8230;em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”</strong> Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um “estabelecimento de saúde” quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e “legalmente autorizado” quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse. Mas vale a pena notar o que “legalmente autorizado” não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa.
</p>
<p>Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a “segunda pergunta” de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco. Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde “legalmente autorizado” significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio.
</p>
<p>Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto.
</p>
<p>Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada. É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei “Sim”. Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A ilusão e a crença</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 18:32:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/29/jorge-palinhos-a-ilusao-e-a-crenca/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/curandeiro1.JPG" border="0"></p>
<p>A foto acima foi tirada o ano passado na rua onde moro, no centro do Porto. Convencidos de que vivemos na era e no mundo da ciência e da racionalidade, julgamos que este é o género de cartazes só passíveis de existir no terceiro mundo ou nas zonas mais remotas e atrasadas da Europa, mas parece que a crendice e o charlatanismo imperam ainda, fora dos focos dos nosso olhar.<br/><br/>É curioso notar que, apesar das afinidades de que falei no artigo anterior, o ilusionismo e a charlatanice são, normalmente, os piores inimigos. O primeiro ilusionista da era moderna, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Jean_Eug%C3%A8ne_Robert-Houdin'>Jean-Eugène Robert-Houdin</a>, foi contratado em meados do séc. XIX pelo Governo francês para desacreditar imãs que, através de truques e falsos milagres, atiçavam a população argelina contra os colonizadores franceses. Robert-Houdin, recorrendo a truques como deixar que disparassem sobre ele e apanhar a bala com os dentes (um truque que surge em “O Terceiro Passo”) ou fazer crescer uma laranjeira de forma acelerada (um truque que surgiu noutro filme recente, “O Ilusionista”), conseguiu aterrorizar de tal forma a população que os imãs perderam toda a sua influência.<br/><br/>Ehrich Weiss, um dos seus sucessores, e que em homenagem ao ilusionista francês adoptou o pseudónimo de <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Harry_Houdini'>Harry Houdini</a>, optou por combater o charlatanismo desmistificando-o. Membro influente da comissão americana de combate aos fenómenos paranaturais, tinha por hábito desmascarar os falsos espíritas – muito em voga na década de 20 , reproduzindo todos os seus “poderes” de forma natural, ao ponto de ter ganho a feroz inimizade do seu antigo amigo Arthur Conan Doyle, crente fervoroso nos fenómenos paranormais. Um dos seus casos mais famosos foi o de “<a href='http://skepdic.com/ectoplasm.html'>Margery</a>”, uma alegada espírita que “produzia” ectoplasma a partir de cavidades corporais, graças aos bons ofícios do seu marido, um cirurgião.<br/><br/>Outro ilusionista mais recente que se dedicou a desmascarar “paranormais” famosos, como <a href='http://www.uri-geller.com/http:/www.uri-geller.com/'>Uri Geller</a>, foi <a href='http://video.google.com/videoplay?docid=-3396869920557391806'>James Randi</a>, que em vários episódios do programa <em>Tonight Show</em> desmistificou vários “curandeiros espirituais” e “psíquicos”.<br/><br/>Mas, apesar de tanto cepticismo e denúncias, parece que os mesmos truques continuam a surtir efeito. Randi pode ter desmascarado os curandeiros, mas eles ainda existem, e continuam a ter os mesmos artifícios. Há anos o conhecidíssimo (e <a href='http://aspirinab.weblog.com.pt/2007/01/pior_que_o_diabo_na_terra.html'>rico</a>) Professor Bambo exercia o seu “ofício” num canal de televisão, em que o público ligava para ouvir o Professor “adivinhar” os seus problemas e dar conselhos. Não é difícil perceber que, antes de falar com o Professor Bambo, o espectador conversava com um assistente que, de forma discreta, colocava perguntas vagas ou simplesmente lhe dizia “com tantos espectadores a ligar não sei se pode falar com o professor Bambo, se não puder, que mensagem gostaria de lhe deixar?” Como humano que é, o espectador falaria imediatamente dos seus problemas de uma forma ou de outra. Depois era questão de, através de um micro-auscultador, o assistente transmitir as informações ao Professor e este concentrar-se para fazer a sua “adivinhação”.<br/><br/>O mesmo acontece com a astrologia. Esta pode ser uma bela metáfora para nos analisarmos a nós próprios, mas como forma de adivinhar o futuro é, simplesmente, uma balela, assentando em pressupostos cósmicos há muito desacreditados.<br/><br/>Foi a partir do Renascimento que a astrologia se popularizou. O mais famoso astrólogo da época foi <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Nostradamus'>Nostradamus</a>, cujas profecias ainda hoje são lidas por alguns como guia dos tempos vindouros. E como é que são as profecias de Nostradamus? São da seguinte lavra:<br/><br/>“Dois reais irmãos farão feroz guerra um ao outro.Tão mortal será a luta entre cada um deles,Que tomarão cada um para si um forte contra o outroE o seu reino e a sua vida serão a sua batalha.”<br/>(Tradução minha a partir da versão inglesa)<br/><br/>Que diria o leitor se lhe dissesse que esta quadra prevê a guerra civil portuguesa entre D. Miguel e D. Pedro IV? Ficaria surpreendido, até levemente lisonjeado? E se lhe dissesse que a mesma quadra também pode prever a luta entre D. Afonso VI e D. Pedro II? Ou se lhe dissesse que, em retrospectiva, também se aplica à luta entre D. Sancho II e D. Afonso III? Ou à luta entre D. João I e os seus meios-irmãos D. João e D. Beatriz de Castela? E, metaforicamente, que até prevê as divergências políticas entre os irmãos Miguel Portas e Paulo Portas? Talvez o leitor comece a achar que lutas fratricidas pelo poder são a coisa mais corriqueira do mundo e que prever uma delas é como prever que um dia destes há-de chover.<br/><br/>As profecias de Nostradamus popularizaram-se em meados do séc. XV, mas quinhentos anos depois os seus sucessores continuam a escrever “<a href='http://astrologia.sapo.pt/Xz22011?prev=diaria&#038;signo=gemeos'>Proteja-se do frio; está sujeito a problemas nas vias respiratórias</a>”, uma profecia dificílima de fazer no pico do Inverno.<br/><br/>Em 2004 folheei o livro de profecias para 2003 de um <a href='http://www.paulocardoso.com/'>famoso astrólogo português</a>. Fi-lo porque queria saber quantas coisas acertara no meu caso e a resposta foi: algumas. De início fiquei especialmente surpreendido por o livro falar de um problema de saúde no primeiro trimestre do ano que, efectivamente, tinha acontecido. Mas depois fiz as contas: havendo quatro trimestres no ano, havia 25% de hipóteses de o astrólogo acertar. Sendo que haverá provavelmente mais de um milhão de portugueses com o meu signo astrológico é quase certo que a profecia estará certa para várias centenas de milhar de nós. <br/><br/>É certo que muitas das outras profecias do mesmo livro estavam rotundamente erradas, no entanto o meu olhar deteve-se naquelas que estavam certas e relativizou as falhadas, num processo que os cientistas chamam a “ilusão do pequeno efectivo”: a tendência para empolar um sucesso insignificante. Detentor apenas da minha experiência pessoal, um problema de saúde é para mim algo de significativo, mas esqueço-me que todos os dias os hospitais estão cheios de problemas de saúde, facílimos de prever de forma vaga. Se eu prever que neste preciso instante está uma pessoa a dar entrada nas urgências de um hospital do país, tenho quase a certeza de não falhar. Se meter 12 signos na equação, a probabilidade desce ligeiramente, mas entre as várias dezenas de hospitais públicos e privados do país, é quase impossível não acertar em alguns casos.<br/><br/>Este é, de forma geral, o método de ilusionistas e charlatães: vagos quanto ao que vão fazer, desviam o nosso olhar daquilo que não querem que vejamos, contam com o nosso egocentrismo e com a nossa experiência limitada para empolarmos os seus resultados e, acima de tudo, contam com o nosso profundo desejo de mistério e de deslumbramento, com o desejo de fazermos parte de algo que nos transcende.<br/><br/>Esta é, em parte, também a metodologia dos escritores, realizadores, pintores e artistas em geral: fazem-nos ver aquilo que querem, não ver aquilo que não querem e interpretar segundo a nossa experiência pessoal aquilo que nos mostram. Só que tal como os ilusionistas, os artistas enganam-nos para nos deleitarem e despertarem em nós questões e experiências adormecidas. Mas quando os artistas nos enganam para nos manipularem e extorquirem são também charlatães, que usam a sua técnica para nos fecharem dentro do seu mundo.<br/><br/>Na próxima semana vou falar destas técnicas aplicadas a um caso da actualidade.<br/><br/>P. S, &#8211; Quanto ao nosso miraculoso homem falante sem língua, pergunto-me se será muito difícil arranjar uma tinta preta não-tóxica com que se possa pintar a língua. Depois, é só aprender a manter a língua na parte inferior da boca enquanto se aponta com a lanterna para a parte de cima.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: marés vivas</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 03:35:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/borda.jpg" alt="Pedro Vieira: Borda d'Água" width="85%" border="0"></a><br/>Público: “vendas do borda d&#8217;água continuam a subir“.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Da vontade de não ser levado a sério</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jan 2007 03:17:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 28 janeiro] Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize. &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/29/da-vontade-de-nao-ser-levado-a-serio/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público </em>de 28 janeiro]<br/><br/> <strong>Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize.</strong><br/><br/> No meu tempo de faculdade, a única maneira de ainda ter aulas com o professor José Mattoso era inscrevermo-nos numa cadeira opcional de História das Religiões na Idade Média. Eu fui um dos sortudos que assistiu a essas aulas — e uma em particular é o ponto de partida para esta crónica. Naquele dia o professor comentava um catecismo medieval irlandês e, de passagem, notou como muitas das suas interdições sobre alimentação e sexualidade eram praticamente impossíveis de cumprir, seja pelo seu grau de pormenor, seja pela profusão de dias sagrados (e respectivos interditos) que quase chegavam a ocupar um terço do ano. Tal não nos devia espantar, dizia o professor, pois o cristianismo medieval tem uma relação que se poderia chamar de “dialógica” com o Ideal da lei. O Ideal era para ser aclamado, consagrado, glorificado; não tanto para ser cumprido. Quanto mais próximo do ideal, melhor. Porém, todos nascemos em pecado e vivemos em pecado, tendo a doutrina margem suficiente para cobrir a lacuna entre esse Ideal que está escrito e as práticas de nós todos pecadores aqui em baixo. Aliás, se pensássemos bem, essa relação “dialógica” com a lei sobrevivera muito mais no catolicismo e muito menos no protestantismo, sendo especialmente visível em países como a Irlanda (de que tinhamos ali um vestígio antigo naquele catecismo) e Portugal, onde a relação com a lei era fluida e cheia de folgas. <br/><br/>Espero ter sido fiel ao pensamento do professor Mattoso, e devo desde já deixar muito claro que não faço ideia se ele concordaria com o resto do que vou escrever. Mas o facto é que me tenho lembrado muitas vezes dessa sua lição sobre a natureza “dialógica” da nossa relação com a lei, e nunca tantas vezes como desde que a campanha do referendo sobre o aborto entrou a todo o vapor. <br/><br/>Reparem se grande parte do debate que temos tido não é a tal relação “dialógica” — aqui dúplice, elástica, acomodatícia — em toda a sua glória. Sabemos que a actual lei não diminui o número de abortos; no entanto, há quem sendo contra o aborto insista em ela continuar como está. Sabemos que a lei não é cumprida nem respeitada; no entanto, há quem ache que o grande escândalo social seria mudá-la. Sabemos que a lei prevê penas de prisão até três anos para as mulheres que abortarem; no entanto, os mesmos que defendem a lei parecem estar aliviados por não haver nenhuma mulher presa (apesar de haver mulheres condenadas à prisão com pena suspensa). Note-se, porém, que muitos destes são os mesmos que equiparam o aborto ao homicídio; ora, pergunta-se, como é possível esta intermitência da lógica? Acaso se regozijam quando não se prende os homicidas? <br/><br/>Na verdade, por detrás de tamanha falta de clareza, tem havido uma evolução. Arriscaria dizer que, na prática, já ninguém acha que o aborto de um embrião até às dez semanas é equivalente ao homicídio (e, no entanto, o pároco de Lordelo do Ouro diz que é pior do que o infanticídio&#8230;). Enfim, praticamente ninguém acha que uma mulher deva ser presa por três anos por ter abortado. Chegou até o momento em que grande parte do movimento do &#8216;não&#8217; começa a perceber que a despenalização é uma coisa boa. O bispo de Viseu diz que votaria “só” pela despenalização. O próprio Cardeal Patriarca fala de uma solução política e demonstra abertura para deixar a fórmula definitiva aos juristas — despenalização, descriminalização ou legalização. <br/><br/>Temos então consenso? Ainda não. Ainda não, e mais uma vez teremos de nos socorrer da nossa relação dialógica com a lei, que por vezes desce a caminhos verdadeiramente tortuosos. Somos todos contra a prisão, desde que a prisão continue na lei. Somos todos pela despenalização, desde que a lei penalize. Somos todos compreensivos com as mulheres que abortam, desde que a lei as criminalize. <br/><br/>É precisamente pela sua participação dual neste caminho que vai da mesquinhez política portuguesa à maleabilidade da lei que ninguém mais do que Marcelo Rebelo de Sousa, nos vídeos com que tem intervindo no debate do referendo, tão bem sabe compor o discurso mais adequado às suas circunstâncias. Em primeiro lugar, eu até ia a escrever “uma posição”, mas a verdade é que não Marcelo Rebelo de Sousa não tem uma posição: tem uma série delas, mutuamente exclusivas entre si, e crescentemente elaboradas em contradição. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não precisa de uma posição; precisa apenas da aparência de uma posição. Não precisa que ela seja clara; pelo contrário, ela é obscuríssima mas envolta numa aparente facilidade, num mecanismo típico de sofista. O seu principal efeito é confundir; mas também não faz mal porque a confusão é precisamente o seu valor acrescentado. <br/><br/>Não sei se Marcelo sabe, ou se é apenas o seu instinto natural que lho diz, que a “confusão” era no início um termo militar (que depois passou para a retórica), sinónimo de “desbaratar os adversários” e “desmobilizar”. Que a intenção é desmobilizar fica evidente ao ver um vídeo de Marcelo em que ele apela à desconfiança crónica dos portugueses para insinuar algo como “esta lei não é cumprida, a próxima também não vai ser, é o costume”. O efeito é claro: assim sendo, para quê dar-se ao trabalho de ir votar? <br/><br/>Mas há mais: acaba por passar a impressão de que neste referendo há, além do “sim” e do “não”, uma espécie de “não de Marcelo” que seria um “assim não”. Para confusão mais perfeita, essa posição seria pela despenalização total (sem limites de tempo!) mas, por uma série encalacrada de pretextos, votaria contra a despenalização. E o que aconteceria se esta atitude vingasse? A prisão continuaria na lei. E o que diríamos quando um juiz (ou juíza) condenasse uma mulher por aborto? Que a intenção não era essa, meretíssimo? E o que diríamos a uma mulher que quisesse abortar em condições de segurança? Que abortasse clandestinamente, sem limites de tempo (nem de preço, nem de risco), porque combinmos todos fazer vista grossa? E quando a lei doesse, — o que como vimos recentemente inevitavelmente acontece —, viríamos chorar-nos por não a ter mudado? Alegaríamos que a lei não quer dizer aquilo que ela literalmente diz? Ou diríamos apenas que, tal como Marcelo, temos uma irresistível pulsão para que não nos levem a sério? <br/><br/>Simplesmente, não existe um “não de Marcelo”. Não existe um “assim não” que seja favorável à despenalização mas que vote contra a despenalização. Nada de confusões: existe apenas uma pergunta “Concorda com a despenalização (por opção da mulher, até às dez semanas, em estabelecimento legalmente autorizado)?”. Quem é pela despenalização vota sim.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Impossible is writing</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:52:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Público: “bbc lança site de treino jornalístico“.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/ginasio.jpg" alt="Pedro Vieira: Impossible is writing" width="85%" border="0"><br /><br/><br />Público: “bbc lança site de treino jornalístico“. </p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A arte da ilusão</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 23:47:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/jorge-palinhos-a-arte-da-ilusao/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho o peculiar hábito de só ler críticas a filmes depois de ver os próprios filmes. Não porque tenha preconceitos contra a crítica cinematográfica – que é tão válida e tão subjectiva como qualquer outra actividade de opinião , mas porque prefiro ver as obras com o mínimo de ideias feitas possível e só depois confrontar as minhas opiniões com as dos críticos.
</p>
<p>Quando vi o filme <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">O Terceiro Passo</a>, de Christopher Nolan, sabia apenas três coisas: quem era o realizador; que tratava de rivalidades no mundo do ilusionismo profissional de finais do séc. XIX; que o David Bowie tinha um pequeno papel.
</p>
<p>Saí do filme com mais algumas ideias, que me dediquei a comparar com <u>as críticas nacionais e estrangeiras</u>. Surpreendeu-me, no entanto, que o que mais via escrito nelas é que o filme era “um entretenimento agradável sem pretensões a profundidade”.<br />É certo que <em>O Terceiro Passo</em> não tem as mesmas implicações perturbadoras sobre memória e identidade que tinha <a href="http://www.imdb.com/title/tt0209144/">Memento</a>, o filme que lançou Christopher Nolan para a ribalta. Mas no filme pareceu-me identificar várias linhas de força tudo menos desprezíveis: a necessidade que temos de acreditar em algo que não conseguimos explicar, a necessidade de alguns darem aos outros essa ilusão e o desejo desmedido que move muitos a acreditarem e tornarem aquilo que sabem mero truque e ilusão em modo de vida e justificação para todos os crimes.
</p>
<p>De um lado havia a personagem Borden, disposto a sacrificar a sua família, o seu corpo, a sua própria identidade, em prol de uma ilusão. Do outro, a personagem Angier, que atravessou meio mundo e desbaratou a sua fortuna e a sua ética para tornar possível uma ilusão. E, contudo, ambas as personagens são ilusionistas profissionais, plenos conhecedores de que por de trás de cada coelho fora da cartola está uma verdade simples. Tão simples que, uma vez revelada, todo o encantamento do ilusionismo se perde, pelo que o segredo dessa verdade deve ser protegido como se pedra preciosa fosse. Porém, estarem na posse desse segredo não torna as personagens cínicas, mas antes mais idealistas, fazendo-as ansiar por que a ilusão que constroem deixe de ser truque e se torne verdadeira magia.
</p>
<p>Esta situação surpreendeu-me. Robert Louis Stevenson, entre outros, escreveu, a propósito da literatura, que quem apreciasse a sua magia deveria tentar saber o menos possível das suas roldanas e contrapesos, pois nada estraga mais o encantamento de uma ilusão do que saber como funciona. E, de facto, o senso comum indica que é mais cínico e desencantado em relação a toda a arte ou mistério quem está no seu interior.
</p>
<p>Por outro lado, paradoxalmente, também é o senso comum que diz que os praticantes de qualquer arte são também os mais fervorosos defensores da sua importância. Tal poderá dever-se a puro pragmatismo, mas também é difícil acreditar que alguém devote a sua vida a uma causa sem crer profundamente nela.
</p>
<p>Estes pensamentos erráticos levaram-me para uma arte muito próxima do ilusionismo e, em grande parte, sua antecessora: o charlatanismo, também conhecido por divinação, espiritismo, curas de fé, e muitas, muitas outras coisas, de que falarei nas próximas semanas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O enguiço nacional</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 15:12:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[da Blitz de outubro 2006] Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/o-enguico-nacional/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[da <em>Blitz</em> de outubro 2006]
</p>
<p>Para contextualizar: vivemos num país onde supostamente não se consegue encontrar um clássico da literatura nacional em lado nenhum. Ninguém quer ler, ninguém quer comprar, ninguém quer vender. O país está a morrer, é um coio de ignorantes, aliás sempre foi. É o que dizem senhores e senhoras de ar severo. Não se consegue encontrar um clássico — em lado nenhum — muito menos uma obra menor, como por exemplo <em>O Mandarim</em>. E no entanto. Outro dia comprei <em>O</em> <em>Mandarim</em>, de Eça de Queirós, por um euro. Lá estava ele, um eurinho somente, na banca de jornais. Segundo parece, fizeram uns cem mil e desapareceram todos em poucos dias. Eu fiquei com um.
</p>
<p>Enquanto esperava pela <em>pita shoarma </em>sem salada, de pé em frente ao balcão, fui lendo o resumo na contra-capa. Além de um excerto longo da obra, as informações básicas: novela publicada pela primeira vez em 1880, de estilo fantasioso, foi criticado pelos companheiros realistas de Eça de Queirós, etc. E depois acrescenta-se isto: &#8220;Cento e vinte seis anos depois, Portugal continua lá, mordazmente retratado&#8221;.<br />Já cá faltava esta.
</p>
<p>***
</p>
<p>Cinco segundos de pausa para vos fazer subir três linhas. Reparem naquela maravilha do lugar-comum: dois pelo preço de um. Para começar: &#8220;não sei quantos anos depois, Portugal continua lá&#8221;. Evidentemente. Portugal continua. Como poderia não continuar, sempre o mesmo século após século após século? O que valia para 1880 também vale certamente para 2006. Portugal vê-se uma vez e está visto.
</p>
<p>Depois vem este &#8220;mordazmente retratado&#8221;, que não poderia faltar tratando-se de Eça de Queirós, mas poderia ser um &#8220;genialmente satirizado&#8221; ou um &#8220;friamente analisado&#8221;, como poderia ser &#8220;um duro retrato&#8221; ou &#8220;uma pintura sarcástica&#8221;. Parte-se do princípio que Eça de Queirós não fazia outra coisa senão:
</p>
<p>1. retratar. O termo não cai ali por acaso: tudo o que está em Eça deve ser considerado realidade objectiva, como numa fotografia.<br />2. mordazmente. Porque o objecto do seu retrato, evidentemente, não mereceria outra coisa, nem outro tipo de retrato poderia ser feito dele.<br />3. Portugal. E que outro tema poderia haver? A única coisa que merece a atenção de um escritor português é Portugal, o pai, a mãe e a tia de todos os portugueses.
</p>
<p>Tudo bem. Vamos admitir que este é um ponto de partida. Mas não teria Eça nada mais para fazer senão consumir-se pelo seu país natal, onde aliás passava pouco tempo, e isto sem intervalo, sem respiração, sem descanso? Nunca tiraria Eça de Queirós umas férias de Portugal?
</p>
<p>***
</p>
<p>Já agora, há outra coisa notável naquela frase: não ter nada a ver com o bendito livro. <em>O Mandarim</em> não é especialmente mordaz sobre Portugal. Tampouco é um retrato do país, na medida em que não basta a acção decorrer num lugar para o livro ter pretensões a retrato desse lugar. Se assim fosse, <em>O Mandarim</em> seria também um &#8220;retrato mordaz&#8221; da China, porque metade do livro se passa nesse grande país asiático, &#8220;do Norte ao Sul e do Oeste a Leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do Mar Amarelo&#8221;, onde Eça de Queirós nunca pôs os pés.
</p>
<p>Quem for ler <em>O Mandarim </em>à procura de Portugal não chega muito longe. Pior ainda: perderá uma excelente pequena obra de literatura, uma das melhores novelas do século XIX (apesar de alguns defeitos evidente, por exemplo uma perda progressiva de objectividade do meio para a frente). <em>O Mandarim</em> conta a história de Teodoro, também conhecido por &#8220;Enguiço&#8221;, um triste funcionário público que vive com outros solteirões na casa de hóspedes de uma certa Dona Augusta, à Travessa da Conceição. Uma certa noite, enquanto lê à luz da vela, aparece-lhe o Diabo. O Diabo aponta-lhe uma campainha (que imaginaremos redonda, como as dos balcões de hotéis antigos) e diz-lhe que se tocar nela matará nos confins da China um mandarim &#8220;mais rico que todos os homens&#8221;; em troca, será Teodoro o herdeiro da sua fortuna. Que fazer?
</p>
<p>***
</p>
<p>A passagem em que o Diabo tenta Teodoro com a fortuna do mandarim Ti-Chin-Fú é, para mim, o melhor momento da novela:
</p>
<p>«Aqui está o seu caso, estimável Teodoro. Vinte mil réis mensais são uma vergonha social! Por outro lado, há sobre este globo coisas prodigiosas: vinhos de Borgonha, como por exemplo o Romanée-Conti de 58 e o Chambertin de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze mil réis; e quem bebe o primeiro cálice, não hesitará, para beber o segundo, em assassinar o seu pai&#8230;». «Não lhe falarei, Teodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais Royal, o baile Laborde, o Café Anglais&#8230; só chamarei a sua atenção para este facto: existem seres que se chamam Mulheres — diferentes daqueles que conhece, e que se denominam Fêmeas. Estes seres, Teodoro, no meu tempo, a páginas 3 da Bíblia, apenas usavam exteriormente uma <em>folha de vinha</em>. Hoje,Teodoro, é toda uma sinfonia, todo um um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins, flores, jóias, caxemiras, gazes e veludos&#8230; Compreende a satisfação inenarrável que haverá, para o cinco dedos de um cristão, percorrer, palpar estas maravilhas macias; — mas também percebe que não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins&#8230;». «De resto as suas pupilas já rebrilham&#8230; Ora todas estas coisas, Teodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus vinte mil réis por mês&#8230;».
</p>
<p>***
</p>
<p>Eça de Queirós estava no seu direito inalienável de escrever sobre um país que não conhecia, a China. E também tinha o direito de iniciar a acção da novela na Travessa da Conceição sem estar obrigado a fazer o retrato mordaz e perpétuo da Travessa da Conceição ou do país onde ela se encontra. Mas a nós ninguém obriga a uma leitura claustrofóbica de tudo quanto o homem escreveu, muito menos proclamar a sua eterna validade<em>.</em>
</p>
<p>Temos de reconhecer isto: chega o momento, na obra de um grande escritor, em que o país de origem se torna instrumental. Mesmo que aparentemente o autor viva obcecado com ele. Mesmo que nos garanta que não pensa noutra coisa e que não escreve sobre mais nada. Na verdade, o grande escritor está principalmente ocupado em ser (em tornar-se) um grande escritor. Aliás, é por ele ser um grande escritor que nos reconhecemos naquilo que lemos; não por esse disparate de Portugal ser diferente de tudo o resto e continuar sempre o mesmo. Ou não haveria amanuenses solteirões e tristonhos na São Petersburgo de Nikolai Gogol? Na Nova Iorque de Herman Melville? No Rio de Janeiro de Machado de Assis?
</p>
<p>Mesmo que não se tenha dado conta, o grande escritor estendeu a mão para a campainha, deu-lhe um toque seco, e fez desaparecer o seu país. Sem remorsos: fê-lo para ganhar uma fortuna maior do que a de um mandarim do outro lado do mundo. Todos saíram a ganhar. Tu que me lês e és mortal, tocarás a campainha?</p>]]></content:encoded>
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		<title>Mais medo, incerteza e dúvidas</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Jan 2007 15:01:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 20 janeiro 2007] Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/22/mais-medo-incerteza-e-duvidas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 20 janeiro 2007]
</p>
<p>Numa paróquia da encantadora cidade alto-alentejana de Castelo de Vide exerce um cónego que decidiu esta semana ameaçar com a “excomunhão automática” a todos os cristãos que votarem “sim” no referendo de dia 11 de Fevereiro. O nome do cónego é Tarcísio Fernandes Alves, e reparem num pormenor curioso: se em condições semelhantes um patrão ameaçasse despedir os seus empregados ou uma associação expulsar os seus associados, ninguém teria dificuldade em identificar ali um caso claro de chantagem, intimidação e constrangimento da liberdade de voto. Ora não é de excluir que para muitos paroquianos de Castelo de Vide e do país inteiro seja igualmente grave a ameaça de ser expulso da comunidade dos fiéis, com todas as suas implicações terrenas e celestes, que aliás o cónego faz questão de também desenvolver, avisando já que pretende excluir da missa os abstencionistas e anunciando para mais tarde uma interdição de enterros religiosos. Colocadas no seu contexto, são ameaças sérias — caso contrário, a chantagem não funcionaria — além de ilegais se forem repetidas em período oficial de campanha.<br />(Já agora, note-se a má-fé do cónego: o que o Código Canónico diz sobre a excomunhão “automática” pode apenas aplicar-se a quem estiver envolvido num aborto — “Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommunicationem latae sententiae incurrit”, diz o cânone 1398 — e não tem absolutamente nada a ver com votar “Sim” no referendo, até porque muitos cristãos votarão “Sim” precisamente porque acham que essa é a melhor maneira de combater o aborto clandestino e tentar fazer diminuir o número de interrupções da gravidez, — com as suas consequentes excomunhões automáticas. E digo apenas má-fé, porque não se pode supor tão oportuna ignorância por parte de um doutorado em Direito Canónico por Salamanca.)<br />Algures em Coimbra, um grupo chamado “Acção Família” mandou imprimir uns milhares de folhetos ornados com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima chorando por causa do referendo. “Nossa Senhora chora”, diz o texto, “e Ela chora por milhares de inocentes que podem perder a vida”, pelo que “é indispensável você ir às urnas&#8230; dizer que NÃO está de acordo com o assassinato brutal de inocentes ainda no ventre materno!”.<br />Quando na semana passada escrevi sobre o FUD — “Fear, Uncertainty and Doubt” na abreviatura inglesa para a utilização do Medo, da Incerteza e das Dúvidas como armas de propaganda cujo objectivo é desmobilizar e confundir o público — estava a pensar em exemplos menos caricatos do que estes. Mas a simples razão de serem caricatos não deve desobrigar-nos de os levar a sério. Desde logo, por uma questão de equidade: se todo o movimento do “Sim” tem sido fustigado pela fortuita razão de alguém, há oito anos atrás, ter decidido escrever “aqui mando eu” na barriga, como se justifica esta complacência quando autoridades religiosas e grupos organizados fazem da coacção e da violência psicológica uma forma de propaganda?<br />Mas é principalmente ao movimento do “Não” que cabe tomar uma posição oficial sobre estes métodos de pressão. Como é evidente, caso não haja uma demarcação clara do movimento e uma declaração sobre a total inadmissibilidade destas atitudes junto dos seus apoiantes, será legítimo inferir que o movimento do “Não” se permite beneficiar delas. Ou seja, é preciso saber se as lideranças do “Não” calam, consentem, saem incólumes e ainda esperam lucrar com propaganda desta.<br />Enquanto isso, no discurso oficial do “Não” vai aparecendo outro tipo de Medo, Incerteza e Dúvidas, em exemplos elaborados para um público-alvo diferenciado. E a campanha do “Sim” até colabora na desconversa, com alguma moleza, parecendo não se aperceber de que nestas coisas cada lado só faz o que o outro deixa fazer. Dou um exemplo da semana passada. O “Não” organizou uma conferência na qual se afirmava que as sequelas psicológicas a que estão sujeitas as mulheres que abortam são medonhas. O “Sim” respondeu entrando num debate sobre se elas não estariam sobreavaliadas e assim contribuiu para desviar mais uma vez o assunto da pergunta a referendo, perdendo a oportunidade de devolver a pergunta ao “Não”: se as sequelas psicológicas a que está sujeita uma mulher que aborta são assim tão terríveis, então como se justifica abandonar as mulheres ao aborto clandestino? Mais ainda: se uma mulher que aborta corre riscos de saúde psíquica (não sei se corre ou não, nem compete a este referendo deslindar a questão), como se justifica manter uma lei que a criminaliza? Se esse sofrimento é tão mau, como podem defender que a mulher ainda por cima continue sujeita a uma pena de prisão prevista até três anos? Os apoiantes do “Não” tem de nos dizer se acham correcto que seja perseguida judicialmente uma mulher que eles próprios afirmam estar sujeita a grave sofrimento psíquico.<br />Por vezes, são até os próprios convidados do “Não” que melhor põem o dedo nas contradições do seu discurso. Esta semana uma autora espanhola convidada falar de casos de abortos forçados respondeu assim quando informada da lei portuguesa: “Discordo completamente. Não serve de nada castigar as mulheres.” Mas não podemos andar dependentes destas demonstrações ocasionais de clareza.<br />Chegou o momento de o “Não” começar a responder a algumas perguntas. Uma delas até deveria ser simples para quem demonstra tanto ardor na condenação: afinal de contas, quantos abortos terá evitado a lei que defendem? Alguma mulher deixa de abortar por causa da lei que temos? A criminalização resulta em menos abortos, ou em mais abortos?<br />O tempo urge, e o “Não” tem andado a evitar explicar-nos que a lei actual funciona. Talvez se tenham esquecido, mas é essa lei que defendem e cabe-lhes por inteiro a demonstração das suas virtudes. Caso contrário, talvez seja melhor mudá-la.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: bedtime for pinocchio</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 23:08:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Público: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" title="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio [clique para aumentar]" target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/pinocchio.jpg" alt="Pedro Vieira: bedtime for pinocchio" width="85%" border="0"></a><br/><br /><em>Público</em>: “bélgica quer medidas de prevenção a notícias falsas“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Medo, incerteza e dúvidas</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 15:31:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[Aborto]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Público de 13 de janeiro 2007] Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/15/medo-incerteza-e-duvidas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 13 de janeiro 2007]</p>
<p>Qualquer aprendiz de propaganda sabe o que fazer quando a mensagem do adversário parece ter boa aceitação entre o público: lançar FUD — a abreviatura em inglês para Fear, Uncertainty and Doubt. O Medo, Incerteza e Dúvida é uma arma poderosa na luta pela opinião pública. Por isso os defensores do “Não” no referendo de 11 de Fevereiro sobre a descriminalização do aborto não parecem muito preocupados com as sondagens que dão grande vantagem ao “Sim” nas intenções de voto. Em primeiro lugar, porque já no primeiro referendo sobre o assunto, em 1998, o quadro era semelhante e o “Não” conseguiu uma vitória surpreendente, embora curta e pouco participada. Mas principalmente porque o “Não” tem a sua campanha construída em torno do medo, das incertezas e das dúvidas, e conta com essa campanha para desmobilizar o campo do “Sim” e repetir 1998. Não é ilegítimo, embora possa ser reprovável; é certamente muito eficaz e já está a dar efeitos.<br />
Considere-se o cartaz do “Não” onde se lê: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”. Eis um exemplo básico da utilização do FUD, que consiste em pôr as pessoas a discutir uma incerteza  para as desmobilizar da questão que vai efectivamente a referendo, que é saber se o aborto até às dez semanas deve deixar de ser crime. O cartaz destina-se a suscitar dúvidas às muitas pessoas que acham que o aborto até às dez semanas deveria deixar de ser crime (que é aquilo que vai a referendo) e confundi-las com uma questão de gestão dos dinheiros públicos que pertence a um debate mais geral. A formulação é intencionalmente vaga para dar a ideia de que o dinheiro (público) dos “meus” impostos poderia servir para financiar clínicas (privadas), desmobilizando também quem ache que o dinheiro público deve ir apenas para o Sistema Nacional de Saúde.<br />
Mais uma vez, não é nada disto que está em causa. Cada governo terá certamente a sua opinião sobre como devem ser utilizados os dinheiros dos impostos, e cada parlamento sucessivo legislará em conformidade, na área da saúde pública como na da economia ou das artes. Mas é certamente muito útil para o campo do “Não” que as pessoas se ponham a discutir incertezas em vez de certezas, porque essa é sempre a maneira mais eficiente de evitar que qualquer coisa mude. Basta perguntar a quem se quiser mudar se a casa nova não tem goteiras (ainda que a casa velha as tenha em maior quantidade): atiram-se as dúvidas para um futuro que ainda não existe e escondem-se os defeitos do presente que existe.<br />
Para contrariar o espírito e responder à letra bastaria ao campo do “Sim” fazer algumas perguntas simples. A diferença está em que nenhuma delas remete para possibilidades vagas num futuro incerto, mas todas dizem respeito à realidade e à lei que hoje em dia temos. São elas:<br />
“Contribuir com os meus impostos para financiar a perseguição de mulheres que abortaram?” — afinal de contas, de quem são os impostos que pagam as investigações policiais, as escutas telefónicas, os interrogatórios? Terá esse dinheiro caído do céu? Em Aveiro, mulheres que tinham acabado de abortar foram detidas na rua e obrigadas a fazer um exame ginecológico sob alçada da polícia. Quem pagou esse acto de violência e humilhação? Os “meus” impostos. Os “seus” impostos. Os “meus” impostos pagaram àqueles agentes que teriam certamente melhores coisas para fazer. Os “meus” impostos pagaram a papelada. Os “meus” impostos pagaram aos inspectores, aos procuradores e aos funcionários.<br />
Mas há mais perguntas para entreter os nossos amigos do “Não”: “Contribuir com os meus impostos para financiar julgamentos a dezenas de mulheres?” é um exemplo. Outra: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a entupir os tribunais com uma decisão que os próprios juízes dizem ser política?”. Melhor ainda: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar clínicas de aborto (em Espanha)?”. E que tal: “Contribuir com os meus impostos para ajudar a financiar o aborto (clandestino)?”. E contribuir com os meus impostos para atender mulheres em risco após abortos improvisados? E contribuir com os meus impostos para perpetuar um problema de saúde pública?<br />
Poderia estar aqui a coluna inteira com estas perguntas, que não são possibilidades vagas ou a discutir no futuro mas realidades indiscutíveis que existem com a lei que temos hoje — e que os partidários do “Não” querem manter.<br />
Esse é outro aspecto revelador que a táctica do medo, da incerteza e das dúvidas permite esconder. Afinal de contas, o campo do “Não” é favorável à lei actual, mas faz tudo o que pode para evitar referir-se a ela, chegando ao cúmulo de nunca citar a lei que defende, nomeadamente a parte que é a mais visada pela pergunta do referendo: “A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos” (sugestão para uma campanha que não seja de “Medo, Incerteza e Dúvidas”: colocar este artigo da lei ao lado da pergunta do referendo e deixar as pessoas decidir).<br />
Mais uma vez, trata-se de substituir a certeza da lei que existe pelas incertezas na sua aplicação, e preconizar mesmo o seu desrespeito, nem que para isso o “Não” tenha que rever periodicamente o seu discurso. Lembrem-se que durante anos eles nos garantiram que não havia “mulheres julgadas por aborto” (embora houvesse). Depois aconteceram os primeiros julgamentos divulgados pelos media, e os partidários do “Não” passaram a dizer que não havia “mulheres condenadas por aborto”, como se a investigação policial e a suspeita não fossem já uma forma social de condenação. Mas entretanto houve mulheres efectivamente condenadas em tribunal por terem abortado, e agora os partidários do “Não” agarram-se à última réstia de credibilidade para dizer que “não há mulheres presas por aborto”, embora saibam perfeitamente que a prisão até três anos está prevista pela lei que defendem.<br />
Um dia, se esta lei não for mudada, poderemos sempre vir a ter mulheres presas por terem abortado. Adivinhem de onde virá o dinheiro para pagar as suas celas na penitenciária? Dos impostos de Ribeiro e Castro ou de Maria José Nogueira Pinto? Seria justo. Mas terá de vir dos “meus” impostos também.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Na cova dos lobos</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Jan 2007 02:36:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[[do Blitz de novembro] Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/15/na-cova-dos-lobos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Blitz</em> de novembro]
</p>
<p>Estava eu posto em sossego quando vejo uma entrevista de António Lobo Antunes na televisão. Perguntam ao escritor o que pensa ele da religião e se acredita em Deus. O escritor responde que não gosta de falar de tais coisas, que são para ele demasiado pessoais, mas que no entanto pode aproveitar para citar um provérbio húngaro. E o provérbio diz assim: &#8220;na cova dos lobos não há ateus&#8221;.
</p>
<p>Houve ali qualquer coisa que me deixou desconfiado. Não digo na religiosidade de Lobo Antunes, de que não vou falar uma vez que o próprio não gosta de falar dela. Mas no provérbio húngaro. Naquela ideia de que, quando colocados perante uma situação de vida ou de morte, um ateu manda a sua filosofia às urtigas e, em vez de fugir dali a sete pés, chega à conclusão de que o universo foi criado por (digamos) um senhor de barbas. É uma ideia talvez rebuscada demais, a deste provérbio húngaro, embora a culpa não seja dos húngaros nem da língua húngara, esse mistério.
</p>
<p>Há outras versões, entre as quais uma anglo-saxónica, que diz &#8220;não há ateus em trincheiras&#8221;, embora a origem talvez seja comum, porque &#8220;trincheira&#8221; em inglês americano é <em>foxhole</em>, buraco de raposa. E, de novo, é uma ideia esquisita, essa de os ateus não se meterem em trincheiras, e portanto supostamente não estarem interessados na segurança dos seus compatriotas. É como quem diz, mais uma vez, numa questão de guerra ou de paz, é melhor não teres um ateu ao teu lado mas antes um gajo que acredita na vida eterna. Não só há aqui qualquer coisa que não cola, como a história também não encaixa: nesse caso, porque deram os anarquistas tanta luta na Guerra Civil de Espanha? E porque foi uma brigada deles a primeira a entrar em Paris, a seguir à libertação?
</p>
<p>***
</p>
<p>Mas o que verdadeiramente me chamou a atenção, no fim de contas, é que aquela frase — ou aquele tipo de frase — era algo que eu aqui há tempos seria capaz de dizer. Lembrou-me de mim, aqui há anos, falando com amigos religiosos, e explicando-lhes como eu não era religioso, mas que também me sentia capaz de &#8220;sentir&#8221; a espiritualidade. Ou que não tinha fé mas que gostaria de ter. Ou — como no provérbio húngaro — que talvez não tivesse fé porque nunca tinha passado por uma situação que me levasse &#8220;a esse caminho&#8221; (não era bem verdade, e o estilo também não era o melhor). Ou ainda — coisa que o provérbio húngaro também sugere — que no fundo todos precisamos de acreditar em alguma coisa, talvez até todos nas mesmas coisas.
</p>
<p>Que enorme disparate. Mas era a minha maneira de ser simpático e compensar o ar desconsolado de quem me perguntava se eu não tinha fé. E nessas ocasiões em que nos fazem sentir que temos qualquer coisa a menos, a tendência de qualquer um é dizer &#8220;não tenho olfacto, mas a minha audição é bastante apurada&#8221;. Demora alguns anos até se conseguir dizer: &#8220;não tenho olfacto, e ainda bem, isso evita-me alguns embaraços&#8221;. E demora ainda mais alguns anos até se dizer &#8220;não olhe para mim como se eu tivesse qualquer coisa a menos, a fé não é como o olfacto, já muita sorte é quando não é como a congestão nasal&#8221;.
</p>
<p>Mais uma vez, os anglo-saxónicos são especialmente sacanas na maneira como tratam os descrentes. Para além de lançaram o boato de que eles são maus companheiros de trincheira, chamam-lhes &#8220;godless&#8221; como quem lhes chama órfãos (&#8220;fatherless&#8221;) ou zarolhos (&#8220;eyeless&#8221;). O nome é quase ofensivo e em particular os ateus americanos fazem tudo o que podem para lhe escapar, inclusive inventar novos nomes para se designarem (o último foi &#8220;brights&#8221;). Compreendo a preocupação, porque a história nos diz que é mais fácil o eleitorado dos EUA eleger um mentiroso irresponsável para a Casa Branca do que qualquer &#8220;godless&#8221;. Mas acho que, como em tantos insultos, o melhor seria assumi-lo com orgulho. E agora vou contar-vos uma coisa que se passou comigo.
</p>
<p>***
</p>
<p>Um dia, preso dentro do carro num engarrafamento, olhando para o céu cor-de-laranja do fim da tarde e os bandos de estorninhos em frente à ponte sobre o Tejo, deixei vaguear os pensamentos até pessoas minhas conhecidas que acreditam na vida eterna. Ora, a vida eterna é um desafio difícil. Mais difícil do que Deus. No mundo que temos, quase não se dá pela diferença de Deus existir ou não. Mas quem não gostaria da vida eterna?
</p>
<p>Aliás, é pela vida eterna que a religião melhor nos pega. Blaise Pascal, matemático do século XVII e um dos homens mais inteligente de sempre, percebeu-o quando imaginou a experiência a que chamamos a &#8220;aposta pascaliana&#8221;. A aposta é simples: se eu achar que Deus não existe, e ele existir, perco; se eu acreditar em Deus e ele não existir, também perco; mas se eu acreditar em Deus e ele existir, ganho a vida eterna. Dito assim, que mal me faz acreditar mesmo que as hipóteses de ganhar sejam ínfimas? Blaise Pascal respondeu à pergunta largando a matemática e entrando num convento, o que prova que os homens, por mais inteligentes que sejam, não se devem meter em apostas.
</p>
<p>Ninguém de bom senso apostaria a sua casa, se tivesse uma só. Apostar a vida num convento, na hipótese de ganhar uma vida eterna, é como apostar a nossa única casa, na hipótese de ganhar um palácio. Ganhar um palácio seria excelente, mas o mais certo é ficarmos sem nada.
</p>
<p>De caminho, isto ajudou-me a perceber porque razão andam infelizes muitas das pessoas que eu conheço e que acreditam na vida eterna. Se temos a vida eterna, podemos desperdiçar esta com queixinhas e queixumes (até porque se diz que as queixinhas e os queixumes pesam na hora de ganhar a vida eterna). Se não se acreditar na vida eterna, as queixinhas e o queixumes são piores do que uma perda de tempo. São uma perda de vida. E foi assim que o semáforo abriu e eu disse baixinho para mim: &#8220;só tenho uma vida&#8221;, e sorrindo, &#8220;só tenho uma vida, é óptimo, é a melhor notícia que me podiam dar&#8221;.
</p>
<p>E antes que alguém note que isto se parece com uma experiência religiosa (os religiosos, quando um ateu fala da sua filosofia, gostam de vingar-se dizendo que, afinal, &#8220;parece um religião&#8221;), devo dizer que, apesar do pôr-do-Sol e dos passarinhos, não senti esta conclusão como uma experiência religiosa.  Foi mais como se me dissessem que este ano não preciso de pagar os impostos. Ou que é feriado e não preciso de me levantar da cama. Foi mais assim: olha, não há vida eterna, menos uma coisa com que me preocupar.
</p>
<p>***
</p>
<p>Em tempos gostei de citar Umberto Eco e dizer: &#8220;sou um optimista trágico&#8221;, ou seja, alguém que é um optimista a longo prazo mas um pessimista no imediato. Vocês sabem: alguém que acha que vai haver guerras e sofrimento, mortandades terríveis, mas que a humanidade vai sair delas mais sábia. No fim do caminho, a capacidade dos humanos para a linguagem, para conversarem e se entenderem, levará finalmente a melhor.
</p>
<p>Hoje vejo como estava errado. O optimismo a longo prazo não faz sentido. É a curto prazo que há razões para optimismo, ou melhor, uma grande razão que contém todas as outras. A curto prazo, estaremos vivos. A curto prazo só faz sentido ser optimista: acredito que estarei vivo durante os próximos dias. A longo prazo, há uma grande razão para pessimismo e uma enorme probabilidade de não estarmos vivos.
</p>
<p>Aliás, é por isso que, na cova dos lobos, raras ou nenhumas são as pessoas que se deixam ficar rezando à espera que os lobos se decidam. Deixem cair um suicida, um crente na vida eterna e uma pessoa altamente espiritualizada na cova dos lobos, e vejam se eles não gritam, não esperneiam e não correm o mais que podem. É que, na cova dos lobos, ninguém se lembra de provérbios húngaros nem fica à espera da salvação. Na cova dos lobos, só há ateus.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Leave the kids alone</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:57:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" title="Pedro Vieira, Leave the kids alone. Clique para aumentar." target="_blank"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/bbc.jpg" alt="Pedro Vieira: Leave the kids alone" width="85%" border="0"></a></p>
<p>“bbc põe crianças a cuidar de crianças em reality show“</p>]]></content:encoded>
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		<title>Ops, lá foi um país pelo cano</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 22:53:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 6 dezembro 2006] Na Aljazira árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/ops-la-foi-um-pais-pelo-cano/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 6 dezembro 2006]
</p>
<p>Na <em>Aljazira</em> árabe, transmitida a partir do Golfo Pérsico, dois senhores discutem acaloradamente. A milhares de quilómetros de distância, um grupo de intelectuais de um país magrebino assiste a isto sem perder pitada, com um sorriso nos lábios e um ou outro comentário, enquanto estão sentados a uma mesa de café. A meu pedido, concordam com simpatia em traduzir porções do debate, mas é difícil chegar a acordo sequer sobre os pontos mais básicos. Quem são os contendores? Diz um dos meus companheiros de mesa: são dois iraquianos, um sunita e outro xíita. Interrompe alguém para dizer: não, um deles é um <em>verdadeiro</em> iraquiano e outro um falso, um tipo que viveu anos no Irão e se faz passar por iraquiano. E de facto, a certo momento na televisão, um dos adversários mostra as fotocópias do passaporte do outro e diz-lhe: você não é iraquiano! este documento não vale nada! você não passa de um agente iraniano! O outro está para se levantar e ir embora, mas o debate continua. Discutem a execução de Saddam Hussein. Pergunto aos meus generosos tradutores: quais são as posições de cada um? “O xíita é a favor e o sunita é contra” — nada disso, explica outro — “o sunita acha que o Saddam Hussein merecia a pena de morte mas não concorda com a data da execução”.<br />A data da execução, para quem se lembra da coluna de sábado passado, foi a do Aid al Adha ou Dia do Sacrifício (chamado pelos magrebinos de Aid el Quebir, Dia do Carneiro). Quando então escrevi sobre o Aid al Adha estava longe de imaginar que Saddam Hussein seria enforcado neste dia, o mais sagrado do ano para milhões de muçulmanos. Mas mesmo depois da notícia ter sido divulgada e de as célebres imagens obtidas por telemóvel já passarem por televisões de todo o mundo (e constatemente no mundo árabe, depertando grande interesse em todo o lado, de mercados a casas particulares) ignorava qual seria o impacto desta coincidência. O próprio primeiro-ministro iraquiano Nuri al&#8217;Maliki, se referiu ao assunto, dizendo que fora desejado que Saddam Hussein morresse “num dia especial”. A referência, além de um tanto macabra, parece destinada a constituir uma provocação.<br />Terá isto alguma importância? O editorial do <em>Le Monde</em> sobre a execução de Saddam Hussein defendia que os opositores à pena de morte não deveriam sequer discutir os detalhes deste julgamento. Ser contra a pena de morte é ser contra a pena de morte, ponto final, sem discutir os pormenores. Na minha opinião, isto é um equívoco. Há a questão geral da pena de morte, mas há também a questão das circunstâncias de cada execução em particular, cujas implicações não devem ser desprezadas.<br />Para ver essa distinção, façamos um exercício: imaginemos que, no Chile, um tribunal tivesse tido o poder (e a vontade) de não só julgar como condenar à morte o ex-ditador Augusto Pinochet. Isto por si já seria mau para todos os que se opõem à pena de morte, mesmo aqueles que (como eu) acham que Pinochet era monstruoso em tudo o que fazia. Mas imaginemos o que sucederia se a actual presidente do Chile, sabendo como Pinochet era um devoto católico, — tal como a sua família e grande parte dos seus apoiantes —,  tivesse decidido que a execução da pena teria lugar no Natal ou na Páscoa? Isto significaria que estaríamos perante um poder incendiário num país em que nenhuma parte da sociedade faz um esforço de conformação com a restante.<br />É isso que se passa hoje no Iraque. A execução de Saddam Hussein, com as suas circunstâncias que lhe dão o significado mais completo e precisam por isso de ser avaliadas, é em primeiro lugar uma demonstração de força dos xíitas que estão no governo, e uma forma de conformar a maior e mais irrequita das suas facções, a comandada por Moqtada al&#8217;Sadr, cujo pai terá sido assassinado a mando de Saddam Hussein. Os xíitas no poder tiveram a sua justiça. Não só justiça como vingança. E não só vingança como humilhação.<br />Mas há mais. Os xíitas provaram que podem fazer tudo isto sozinhos. E deixaram pelo caminho os curdos, que foram as piores vítimas de Saddam Hussein no Iraque, com centenas de milhares de mortes por armas químicas que nunca chegarão a ser esclarecidas em tribunal. Por isso, a maior ofensa deste linchamento vai provavelmente para os curdos, — e em especial para um deles, o presidente Talabani, que sempre declarou ser contra a pena de morte. Que Saddam seja condenado pela morte de quarenta homens na repressão a um atentado do partido Dawa, de que o primeiro-ministro hoje no poder faz parte, e nunca venha ser julgado pelos massacres de Al Anfal que foram dos piores na história da humanidade, define a hedionda caricatura desta justiça privativa e mesquinha a que assistimos.<br />Na origem de tudo isto está o governo dos EUA, que nunca quis entregar o ditador iraquiano a um tribunal internacional, que teria certamente de julgar por inteiro estes e outros crimes do tempo em que Saddam Hussein tinha a cumplicidade dos antecessores de George W. Bush. Desde logo, salta à memória a invasão do Irão, em que Saddam Hussein utilizou tranquilamente as armas de destruição em massa que mais tarde viriam a justificar a sua queda, para tentar mudar o regime iraniano cuja queda é ainda hoje o grande objectivo externo dos EUA, sob o mesmo pretexto das armas de destruição em massa.<br />Há mais ironias nesta guerra do que é possível listar num artigo de jornal.<br />Entrentanto, já morreram mais iraquianos desde a invasão do que aqueles que mataria Saddam Hussein no mesmo período, mesmo no auge da sua actividade sanguinária. Entretanto, as tropas ocidentais repetiram em Fallujah os métodos de punição colectiva de que Saddam Hussein era um símbolo, com utilização de armas de fósforo branco e o massacre de milhares de homens adultos. Entretanto, as próprias tropas americanas já perderam mais soldados nesta ocupação do que vítimas houve no atentado às torres gémeas usado (e principalmente abusado) para a justificar. E no entanto, a criança grande que é George W. Bush planeia enviar mais tropas para o Iraque, pelos vistos ignorando que a guerra civil vai ali sofrer uma mutação terrível que os próprios países vizinhos terão dificuldade em enfrentar. É que há uma enorme diferença entre uma guerra civil na qual as partes lutam pelo poder no país, e uma guerra civil na qual as partes não querem saber do que poderá acontecer ao país. O que isto quer dizer não precisa de tradução.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (final)</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 10:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-final/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>[A seguir, a última parte da série “A literatura dos cucos”, por Jorge Palinhos, uma sumarenta viagem especulativa em torno dos textos e da sua autoria, no tempo da internet. Vale a pena recuperar toda a série. Para quem quiser lê-la ou relê-la, aqui está <a href="http://5dias.net/2006/11/20/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-1ª-parte/" target="">a primeira parte</a>, <a href="http://5dias.net/2006/11/27/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-2ª-parte/" target="">aqui a segunda</a>, <a href="http://5dias.net/2006/12/05/jorge-palinhos-a-literatura-dos-cucos-3ª-parte/" target="">aqui a terceira</a>, e <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4ª-parte/" target="">aqui a quarta</a>. Bom proveito.]</strong>
</p>
<p>Na sua obra <em>O prazer do texto</em> Roland Barthes declara: “Como instituição, o autor morreu: a sua pessoa civil, passional, biográfica, desapareceu; desapossada, já não exerce sobre a sua obra a formidável paternidade que a história literária, o ensino, a opinião tinham por função estabelecer e renovar a narrativa; mas no texto, de um certo modo, eu desejo o autor: tenho necessidade da sua figura (que não é nem a sua representação nem a sua projecção), tal como ele tem necessidade da minha&#8230;”
</p>
<p>Que diz Barthes neste fragmento? Que não importa a biografia, a vivência, <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Death_of_the_Author'>a ideia do autor</a> por trás de um determinado texto, visto que este será sempre interpretado segundo o enquadramento do leitor e da sociedade que o lêem. Posso, n’ <em>O</em> <em>Mercador de Veneza</em>, ler uma defesa da dignidade dos judeus, mesmo que a época em que foi escrita e o próprio autor da peça pudessem estar pejados de preconceitos anti-semitas.
</p>
<p>Barthes defendia a autonomia da interpretação do sentido do texto, independentemente da intenção ou psicologia do respectivo autor. Fazia-o com o objectivo de promover o papel da leitura individual e crítica literária na interpretação do texto, em detrimento da investigação biográfica ou histórica.
</p>
<p>Mas, de uma forma algo perversa, também se pode interpretar este excerto à luz dos ciberapócrifos que temos analisado nas últimas semanas. Pois que o aspecto singular destes textos é o de “desejarem um autor”. Mais concretamente, para os seus verdadeiros autores e leitores é absolutamente vital que aqueles tenham uma autoria atribuída. É essa autoria que faz existir o texto pois é ela que justifica a sua existência e a sua divulgação. Porém, é o conteúdo do texto que se torna popular e “deseja o autor”. Ou seja, se “Instantes”, “A Marioneta”, “Morre lentamente”, “História de dois aeroportos” não tivessem o conteúdo que têm, provavelmente não seriam reenviados de <em>e-mail</em> em <em>e-mail</em>, como tentei demonstrar no último artigo; mas se não tivessem o autor que se propõem ter, provavelmente nem seriam lidos.
</p>
<p>Gera-se assim a simbiose perfeita: o autor faz o texto ser lido, o seu conteúdo faz com que seja divulgado, num fenómeno inverso ao que é frequente no mundo editorial, onde um livro pode ser vendido pela força do nome do seu autor, mas é o conteúdo que determina se é lido ou não – basta olharem para as vossas estantes e contarem o número de livros de autores famosos que nunca leram ou abandonaram a meio.
</p>
<p>Curiosamente, o fenómeno dos ciberapócrifos parece demonstrar a teoria que <a href='http://en.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault'>Michel Foucault</a> defendia na sua obra <em>O que é um autor</em>, onde propunha que as obras literárias são produtos culturais colectivos, não cabendo ao autor mais do que uma função de legitimação institucional. Essa legitimação traduz-se, nos ciberapócrifos, na atribuição da autoria à mais alta autoridade (leitores atentos notarão aqui uma significativa proximidade morfológica e etimológica) reconhecida dentro do contexto sociocultural da sua produção: Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez, no meio literário latino-americano; Millôr Fernandes e Luis Fernando Veríssimo num contexto brasileiro de humor, Miguel Sousa Tavares e Eduardo Prado Coelho no âmbito do comentário político-social português.
</p>
<p>Apesar desta explicação, o caso encerra em si um paradoxo: textos de origem anónima lidos por pessoas anónimas precisam da assinatura dos que se ergueram acima do anonimato para garantir a sua divulgação. E textos genuínos destes mesmos autores não têm uma fracção da popularidade e perdurabilidade que os apócrifos demonstram no mundo virtual.
</p>
<p>Porque será? Para esta questão, não tenho ainda resposta cabal. Mas, tendo em conta o que foi dito no anterior artigo desta série,  talvez a demagogia não seja apenas uma estratégia política mas antes revele o enorme desejo que as pessoas anónimas têm de ver legitimado e proferido pelos não-anónimos aquilo em que acreditam e desejam ouvir. De forma grossa, as massas precisam das elites para delas escutarem o que já sabiam à partida.
</p>
<p>Não tenho provas do que digo, mas sugiro que vejam o filme <em>A Rainha</em>, de Stephen Frears. Quando, no final, Isabel II e o marido chegam ao Palácio de Buckingham rodeados da população que faz luto por Diana Spencer, é quase inevitável sentir que naquele momento, e provavelmente em todos os outros, a rainha é a pessoa com menos poder em toda a Grã-Bretanha, joguete da vontade e caprichos dos seus súbditos.
</p>
<p>Quem sabe se o autor não é também o mais impotente dos leitores, incapaz até de escrever os textos que lhe atribuem.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O dia do carneiro</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 03:10:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[[do Público de 30 dezembro 2006] Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/o-dia-do-carneiro/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <em>Público</em> de 30 dezembro 2006]
</p>
<p>Um recurso universal de qualquer narrativa típica consiste em criar um momento de tensão crescente e levá-lo até ao limite, para no fim aliviá-la de uma vez só, para descompressão geral do público. Nos filmes de acção é quando o herói desarmadilha a bomba no último segundo. No Antigo Testamento é quando Abraão, obedecendo a uma ordem directa de Deus, se prepara para sacrificar o seu próprio filho. O joelho segura firmemente o rapaz ao altar e a faca está já encostada ao seu pescoço quando a voz do Senhor (em off) revela que aquela ideia de ter de Abraão sacrificar o filho não passava afinal de um teste para ver até que ponto Abraão era afinal um homem devoto. Mais: em vez de se matar o menino, Abraão tem permissão para sacrificar um carneiro, o que provoca o tal grande alívio da plateia (e até nos permite concluir que o público-alvo do autor do texto é humano e não ovino).
</p>
<p>A superioridade estilística do Antigo Testamento sobre os filmes de aventuras está em que todos os filmes de aventuras têm sempre, mas sempre, uma cena destas. O Deus do Antigo Testamento, pelo contrário, habituou-nos a cumprir com as suas ameaças, das Pragas do Egipto à destruição de Sodoma e Gomorra, pelo que o efeito-surpresa é muito maior quando o pior não ocorre. De momento, lembro-me de duas excepções importantes, das quais a segunda é a minha história favorita da Bíblia (está até guardada para uma crónica futura): quando Deus poupa Niníve, no Livro de Jonas. Esta parcimónia faz com que os momentos-chave fiquem guardados na memória colectiva. A cena de Abraão, do seu filho e do carneiro, ao apresentar-nos um Deus misericordioso (para os humanos) impressionou judeus, cristãos e muçulmanos até à época contemporânea. Woody Allen refere-se várias vezes a esta história, sempre estupefacto por Abraão estar mesmo até ao último momento seriamente decidido a matar o seu filho, prova de que “um homem cumpre com qualquer ordem estúpida desde que lhe seja transmitida por uma voz grave e bem colocada”. Os vestígios desta história encontram-se no cerne do cristianismo, pois é o próprio Filho, Jesus Cristo, que é o “cordeiro de Deus” sacrificado pelos pecado de todos os humanos. Também os muçulmanos preservam esta história fundadora do judaísmo, e de que maneira, uma vez que ela é comemorada todos os anos com uma festa importantíssima que cai (se a memória não me falha) quarenta e oito dias depois do fim do Ramadão, e que tem o nome de Aid Al Adha ou Aid El Quebir, o Dia do Carneiro — este ano, dadas as errâncias dos anos lunares e solares, coincide exactamente com a passagem do ano 2006 para 2007, de Domingo para Segunda-feira próximos.
</p>
<p>Vamos imaginar o que sucederia se o leitor, em vez de se encontrar por exemplo em Lisboa, capital da República Portuguesa, se encontrasse antes seiscentos quilómetros mais ao Sul.  De que falariam então os jornais que se vendem em Rabat, capital do Reino de Marrocos? Em geral, dos preparativos para o Dia do Carneiro. O diário <em>Libération</em>, cuja redacção se situa em Casablanca e me parece ser de tendência mais pessimista, informa-nos que a aproximação da festa levou a uma subida dos preços da carne de carneiro até limites pouco comportáveis para as famílias marroquinas. Numa secção de inquéritos de rua, pergunta-se mesmo se será aceitável que os agreados familiares se endividem para pagar os custos destes festejos. O patriótico <em>L&#8217;Opinion</em> assegura-nos que a oferta de carneiro no mercado satisfará amplamente a procura, e dá-nos conta das medidas de segurança rodoviária especiais no quadro da “Operação Aid Al Ahda”. O solícito e profissional <em>Le Matin</em> tem um caderno com os horários dos comboios especiais para todos aqueles que se deslocam para passar a quadra com a família. Há de tudo sobre o tema, desde conselhos culinários a um dossier especial sobre como lidar com as expectativas das crianças quando passar a meia-noite do Aid el Quebir. A impressão geral é a de que, se os jornalistas marroquinos se quisessem poupar ao trabalho, bastar-lhes-ia ter traduzido os jornais portugueses da semana passada, substituindo o nome da festa e alguns detalhes, porque de resto o tom é o mesmo, incluindo — sim! — os textos dos religiosos e conservadores lamentando-se de que os festejos do Dia do Carneiro têm vindo a perder o seu carácter sagrado e de que há uma importação crescente de hábitos novos e estrangeiros, como o de substituir a comemoração cristã do Natal pela sua versão pagã, com a venda de pinheiros e figurinhas do Pai Natal em certas lojas. E isto sem fazer o resumo da imprensa em árabe, que terá de esperar pela aquisição das competências linguísticas adequadas.
</p>
<p>Há no entanto diferenças assinaláveis. Sendo o carneiro um animal manso, é possível comprá-lo no mercado, trazê-lo para casa e sacrificá-lo na data certa. Esta é uma grande vantagem que os marroquinos possuem sobre os portugueses, a quem é pouco prático trazer um bacalhau da Terra Nova ou da Noruega e alimentá-lo durante uns dias num aquário instalado no meio da sala para depois proceder à respectiva salga e cozinhá-lo na consoada. Assim sendo, e ao contrário do que sucede no <em>L&#8217;Opinion</em>, os nossos jornalistas não precisam de incluir no dossier “crianças” uma entrevista com um psicólogo sobre como evitar traumatizar os filhos à vista da degolação do carneiro (os pais com um sentido de humor arrevesado podem sempre dizer aos miúdos que ou se calam ou Deus pode voltar a mudar de ideias).
</p>
<p>O Dia do Carneiro é então uma ocasião para os muçulmanos confraternizarem com a família em torno de uma refeição, mas também de cederem ao consumismo, de se endividarem, de passarem horas presos nos engarrafamentos das grandes cidades e de arriscarem a vida nas estradas. Não sei se isto vos lembra alguma coisa. A mim, dada a minha grande afeição pessoal e gastronómica pelo carneiro, torna-me nostálgico. De tal forma que vou suspender a reserva pessoal e contar aos leitores que em tempos, eu também vivi no campo, e logo numa casa com carneiros. Mais ainda, que cheguei a pastoreá-los uma vez ou outra e que tenho grande orgulho em ter lido <em>As Aventuras</em> de Mark Twain em algumas dessas ocasiões. Quando criança, também eu me lembro de implorar aos meus pais que poupassem um dos carneiros de quem eu mais gostava. Uma das vezes terei até chorado e berrado enquanto a faca se aproximava do pescoço do bicho, tanto que a mão (do meu pai ou da minha mãe?) hesitava e voltava a avançar, hesitava e voltava a avançar, sempre mudando de ideias, num momento de tensão quase insuportável.
</p>
<p>Se não me engano, comêmo-lo no dia em que os futuros sogros do meu irmão foram jantar lá a casa.</p>]]></content:encoded>
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		<title>De regresso</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Jan 2007 03:01:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[As duas últimas segundas-feiras foram feriado, de forma que há três semanas praticamente não contribuo com nada para o 5dias. Hoje há alguns textos em atraso. Começo por pôr em linha o meu penúltimo artigo do Público (o último virá &#8230; <a href="http://5dias.net/2007/01/08/de-regresso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As duas últimas segundas-feiras foram feriado, de forma que há três semanas praticamente não contribuo com nada para o 5dias. Hoje há alguns textos em atraso. Começo por pôr em linha o meu penúltimo artigo do Público (o último virá mais no fim do dia). Regressarão algumas das colaborações habituais. Tenho duas ou três recomendações de leitura. E com tempo ou inspiração talvez uma ou outra daquela blogagem de raiz a que eu não tenho feito jus.</p>
<p>Uma boa segunda segunda-feira do ano para todos vós, e força nesse 2007.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Feliz Natal, ó excelências!</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/25/feliz-natal-o-excelencias/</link>
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		<pubDate>Mon, 25 Dec 2006 23:29:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
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		<category><![CDATA[rabanadas]]></category>
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		<description><![CDATA[[do Público de 23 de dezembro 2006] Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/25/feliz-natal-o-excelencias/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <i>Público</i> de 23 de dezembro 2006]</p>
<p align=center><b>Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.</b></p>
<p>Quando o leitor do Público estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal. Ao chegar, feche as janelas para ocultar as luzes compradas na loja dos chineses, e para que ninguém veja a avozinha enquanto ela frita os filhoses.
</p>
<p>Por todo o país e em todo o mundo ocidental, não deve haver questão mais premente do que a dos cristãos perseguidos por comemorarem o Natal. Basta consultar este vosso jornal, na edição de ontem, e ver como lhe foram dedicadas as duas páginas do “destaque” da autoria de António Marujo (na sua segunda incursão pelo tema: a primeira chamava-se “quando o Natal é proibido”), o editorial de Nuno Pacheco, e os artigos de opinião de Esther Mucznik e Constança Cunha e Sá. E creio que não são os únicos nem serão os últimos, à medida que a data se aproxima.
</p>
<p>Pode ser que a leitora, perdida entre as iluminações natalícias, o trânsito e os horários alargados dos centros comerciais, não se tenha dado conta de que o Natal está para acabar, não sabemos se por decreto. Talvez ao lisboeta lhe tenha escapado isso enquanto fazia o trajecto da “maior árvore de Natal da Europa” (oferta de um banco), atravessando uma Rua Augusta coberta de anjinhos, até um Rossio patrocinado por outro banco, comprando pelo caminhos os seus presentes em cada loja e cadeia comercial. Mas é precisamente para dar este alerta que o jornalismo de referência e a opinião informada aqui estão. Para lhe dizer que, este ano, não se vê outra coisa senão uma sanha persecutória contra o Natal, movida por perigosos secularistas e pelo grande capital, que morre de medo de ofender as outras religiões. É a “Guerra contra o Natal”.
</p>
<p>É irónico que no artigo de António Marujo o professor da Católica António Teixeira se queixe da importação de festividades, como o Halloween, que “nada têm a ver com a nossa cultura”. Isto porque a própria “Guerra contra o Natal” que lhe pediram para comentar, longe de existir, é uma importação da agenda americana do ano passado, quando o canal FoxNews e a sua coligação de evangélicos decidiram que, no país mais cristão do mundo desenvolvido, havia uma ofensiva contra os cristãos. Tudo isto já foi ridicularizado que baste pelos restantes americanos, que não deixariam de olhar com condescendência para esta reciclagem em terras lusitanas, com um ano de atraso.
</p>
<p>Como nos EUA, a nossa “Guerra contra o Natal” é uma amálgama de histórias contadas pela metade, lendas urbanas, inversões retóricas e interpretações extravagantes. Mas como, se no Editorial do Público nos é dito que “em Birmingham a câmara decidiu mudar Christmas (Natal) para Wintervall (intervalo de Inverno)”? Ora, não só a história vem com quase dez anos de atraso (o Wintervall ocorreu em 1997 e 1998), como nem sequer é verdadeira. A Câmara de Birmingham não “substituiu” o Natal por coisa nenhuma; limitou-se a fazer um festival de inverno, como fazem milhares de cidades por esse mundo fora, e incluiu nele as celebrações dos feriados religiosos. A própria sede do município estava iluminada com a frase “Happy Christmas Birmingham”. Mas cuidado, senhores autarcas, se fizerem para o ano um “Festival da Primavera”, ainda podem daqui a dez anos ser acusados de apoiar uma “Guerra contra a Páscoa e a Ressureição”.
</p>
<p>Outras são insufladas até ao limite do inconcebível, como se vê quando o professor da Católica entrevistado por António Marujo declara que se pode caminhar “para sociedades assépticas e controladas a partir de um big brother, como as descritas em Admirável Mundo Novo e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro”. Sério, senhor Professor? Esta guerra fictícia feita em torno de não-notícias vai levar-nos a um pesadelo orwelliano? E que dizer quando se lê que “o Fórum Andaluz da Família concedeu o Prémio Herodes 2006 à directora de uma escola pública em Mijas (Málaga, Espanha) que colocou no lixo um presépio feito por alunos da disciplina de Religião”? O Prémio Herodes! O Prémio Herodes — do nome do rei que (segundo o Evangelho de Mateus) mandou matar todas as crianças menores de dois anos — para a professora de Mijas! Não terá o bom Deus dado o sentido das proporções aos professores da Católica, ou feito a graça do bom-gosto ao Fórum Andaluz da Família?
</p>
<p>A regra destas coisas é: qualquer algo que um alguém tenha dito pode ser usado na espiral pirotécnica do sensacionalismo. Assim Constança Cunha e Sá escreve que, se alguém sugeriu substituir o perú (se bem me lembro, bicho que não constava na Terra Santa) por um frango, então “bolo-rei, rabanadas, sonhos e fatias douradas deviam, com maioria de razão, abandonar o menu da consoada”, como se <br />alguém cogitasse proibir essas iguarias. Coma rabanadas, Constança! Olhe que para mim não há maior metafísica no Natal senão comer rabanadas.
</p>
<p>O problema é que, no meio de tanta sofreguidão vitimizada, ficamos sem perceber qual é afinal&#8230; o problema. Falta de liberdade ou excesso dela? Constança Cunha e Sá lamenta que o consumismo tenha substituído o sentido do sagrado. Mas se as pessoas são livres, afinal, tanto podem comemorar o Natal numa orgia consumista como os comentadores conservadores numa orgia de paranóia e mania da perseguição. O dizer-se “Boas Festas” em vez de “Bom Natal”, como alega o Editorial de Nuno Pacheco? Ora, eu desejo Bom Natal aos meus amigos cristãos e Boas Festas a todos os outros, e ainda não me lembro de alguém se ter queixado da minha intolerância.
</p>
<p>Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? Ë que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.
</p>
<p>Há muita gente que se lamenta do regime de “felicidade obrigatória” desta quadra a que chegamos quase sempre cansados, endividados e a tiritar de frio. Mas algo de muito estranho se passa — talvez qualquer coisa que puseram na água canalizada — quando um ateu anarquista vai desfrutar tranquilamente da quadra com a família de várias crenças e filosofias, ao passo que religiosos e conservadores parecem preferir passá-la mergulhados numa atmosfera de frenicoques, resmunguices e vibrações negativas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pedro Vieira: Manneken Slice</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/18/pedro-vieira-manekken-slice/</link>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 22:35:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><a href="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" target="_blank" title="Pedro Vieira: Manneken Slice (clique para aumentar)"><img src="http://homepage.mac.com/ruitavares/.Pictures/aux/manneken.jpg" alt="Pedro Vieira: Manneken Slice" border="0" width="85%"></a></p>
<p><br/>
</p>
<p><em>DN: “programa da tv pública belga anuncia fim do país”</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: A literatura dos cucos (4.ª parte)</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 21:52:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[(Nota: Os links no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade) Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de e-mail em e-mail, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/a-literatura-dos-cucos-4%c2%aa-parte/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Nota: Os <em>links</em> no texto correspondem a versões dos textos analisados e foram escolhidos por mera questão de comodidade)
</p>
<p>Olhe-se mais demoradamente para alguns dos textos que viajam de <em>e-mail </em>em <em>e-mail</em>, entre leituras mais ou menos atentas. Algo deve haver neles que leva cada homem ou mulher desta cadeia de transmissão a achar que o clique de reenvio, a selecção dos destinatários, o <em>send</em> e a espera pelo aviso de boa recepção não são tempo perdido.
</p>
<p>Como se mencionou num dos artigos anteriores, estes ciberapócrifos versam maioritariamente dois temas: a auto-ajuda e a política, com predominância da primeira. Vou por isso debruçar-se sobre a análise deste género.
</p>
<p>De que fala o texto <a href='http://www.revista.agulha.nom.br/jlb02e.html'>Instantes</a>? Parece ser um texto escrito por um idoso “de oitenta e cinco anos” e “morrendo” que nos diz o que faria se “pudesse viver novamente” a sua vida. O texto abre com uma declaração aparentemente paradoxal: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros”. O senso comum diz-nos que devemos lamentar os erros cometidos e tentar evitá-los no futuro. Esta frase, ao enunciar o contrário, desperta a atenção do potencial leitor.
</p>
<p>Os ditos “erros” – actividades e características que o narrador teria ou faria – são enumerados: menos perfeito, mais relaxado, mais tolo, levar as coisas menos a sério, menos higiénico, mais aventureiro, mais contemplativo e mais apreciador das sensações.<br />À lista segue-se a explicação: “fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria”.
</p>
<p>Esta passagem é muito interessante. Por um lado gera empatia com o destinatário, que obviamente também se considerará uma pessoa “sensata” e “produtiva” e com “momentos de alegria”. Por outro, é intrigante a adversativa implícita na frase “claro que tive momentos de alegria”. Será que viver de forma sensata e produtiva não dá alegria? Não, segundo o senso comum, para o qual felicidade é não fazer nada, não ter preocupações, estar com amigos e família, estar de férias. Mesmo que estudos neuro-comportamentais apontem maiores índices de felicidade nas pessoas com excesso de trabalho…
</p>
<p>Ou seja, é neste ponto que o texto mergulha no senso comum, quando apela a uma vida mais emocional, mais dedicada à (suposta) auto-satisfação de sentidos e instintos, que se conclui de forma dramática: “Mas, já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo”. Deste modo, ao invocar-se a inevitabilidade da morte, e tendo antes criado empatia com o leitor, força-se este a reflectir na sua própria mortalidade e a ponderar com cuidado os conselhos inscritos no texto.
</p>
<p>A texto atribuído a <a href='http://missdevil.blogs.sapo.pt/arquivo/777533.html'>Pablo Neruda</a> recorre a uma estrutura estilística menos subtil e, diria mesmo, ridiculamente bombástica. O texto está construído sobre paralelismos de construção sintáctica e semântica repetitivas, levados ao limite do suportável, que lhe conferem um tom apocalíptico. A “morre lentamente quem” sucedem-se condições desta “morte lenta”, numa estrutura aberta, que se presta a acrescentos infinitos de todo género.
</p>
<p>No entanto, a maioria das condições que o texto condena dizem respeito a um estilo de vida mais passivo, racional, conformado e desprovido de curiosidade intelectual: “não viaja”, “não lê”, “escravo do hábito”, “televisão o seu guru”, “evita uma paixão”, “os pontos sobre os iis”.
</p>
<p>Neste caso, a identificação com o leitor faz-se também através do senso comum, visto que ninguém se vê a si próprio como conformado e acomodado, mas inclina-se a heroicizar o seu quotidiano, justificando como inevitável o próprio comodismo. Mas, ao mesmo tempo, o texto finge ignorar que um certo grau de adaptação e rotina é também necessário para uma vida em sociedade. Deste modo, o texto prefigura-se como um texto moralista, destinado a alimentar uma imagem idealizada da vida, sendo fácil para o leitor aplicá-lo parcialmente a si próprio, mas cabalmente à massa dos “outros”.
</p>
<p>O terceiro e quarto textos desta série – há outros, mas estes serão suficientes –apresentam maior complexidade e subjectividade que os anteriores.
</p>
<p>No caso da <a href='http://www.naweb.info/alvo/blogger.php?page=news_photo&#038;id=1091549244'>Marioneta</a>, há mais empenho na liricização dos conselhos, que se tornam menos imediatos e mais subjectivos: “escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse”.
</p>
<p>Pelo contrário, os conselhos de <a href='http://www.davidpbrown.co.uk/poetry/mary-schmich.html'>Sunscreen</a> são de tal modo pragmáticos que o texto ganha um certo humor: “Sing”, “Floss”, “Stretch”.
</p>
<p>No entanto, ambos fazem a apologia do momento, das sensações, da natureza e da vida sem planos, constrangimentos ou preocupações: “Enjoy your body”, “viveria enamorado do amor”.
</p>
<p>Aqui assenta, julgo eu, o que faz correr e perdurar estes textos: a imagem idílica e despreocupada da vida que proporcionam. Para um enervado trabalhador ou para um entediado doméstico que abre os seus <em>e-mails</em>, estes textos funcionam como escapismo, espelho e sensação de superioridade. Ao descreverem uma vida despreocupada, fazem o leitor sentir que essa vida é possível, existe e traz felicidade. Ao admitir que alguns dos conselhos seriam bons para si, o leitor considera o texto importante para si próprio, mas ao não se reconhecer a si próprio em algumas das condições condenadas e reconhecer “o outro” sente-se superior e o comprazimento samaritano leva-o a reenviar o texto para amigos e conhecidos para que eles aprendam.
</p>
<p>Deixem-me reforçar a questão do reenvio. Ao sermos nós a revelar o texto a outrem, sentimo-nos um pouco autores daquele, sentimos que somos nós que estamos a dizer aquelas palavras “sábias” a quem nos rodeia. Ao mesmo tempo, sendo o texto assinado por outro, evitamos o sermão directo e não nos expomos como pregadores e moralistas.
</p>
<p>Aqui assenta o grande trunfo dos textos reenviados: agradam duplamente. Porque dizem o que já conhecíamos, e logo não nos ameaçam. Porque nos permitem partilhar com os outros o “saber” que é nosso, mas que preferimos não admitir como nosso.
</p>
<p>Julgo que este mecanismo é verdadeiro para grande parte dos textos que continuam a circular na <em>internet</em>: tanto os de auto-ajuda, como os politizados, os anúncios de vírus, os pedidos de ajuda, os casos verídicos e, de uma forma mais básica e óbvia, as promessas de dinheiro ou prémios grátis.
</p>
<p>Na próxima semana concluo esta série com uma análise do papel do autor.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O menino nas palhas deitado</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 14:58:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Já é pouco caridoso que um partido Democrata-Cristão como o CDS/PP aproveite o seu jantar de natal para achincalar o actual líder com uma cena piegas de saudades pelo ex-líder. Foi um jantar de natal que, para dizer o mínimo, &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/o-menino-nas-palhas-deitado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já é pouco caridoso que um partido Democrata-Cristão como o CDS/PP aproveite o seu jantar de natal para achincalar o actual líder com uma cena piegas de saudades pelo ex-líder. Foi um jantar de natal que, para dizer o mínimo, não fez grande coisa pela paz entre os homens de boa vontade. Mas nada justifica a resposta que Ribeiro e Castro deu a esta ofensiva, dizendo que estava preocupado “com o aborto”. Nós compreendemos a irritação, mas não é aceitável lançar um insulto destes, nem sequer a Paulo Portas.</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 03:29:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/andre-belo-a-tlebs-a-plebs-e-a-mao-na-massa-2/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na semana passada anunciei para hoje um post sobre tudo e mais alguma coisa que tenha a ver com pedagogia. Mas o tema é tão vasto e complicado que o melhor é reduzir já as (exclusivamente minhas) expectativas. Entretanto, pus-me ao ler um pouco mais de informação e opiniões sobre a questão da TLEBS (o <a href="http://ciberduvidas.sapo.pt/">Ciberdúvidas da Língua Portuguesa</a> tem bons <i>links</i> para perceber melhor a questão, com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/php/resposta.php?id=18678'>documentos legais que criaram esta experiência pedagógica</a> e com os <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/index.html'>artigos de opinião que têm saído nos jornais</a>). E decidi partilhar convosco, depois da dobra, alguns <i>links</i> e impressões sobre o assunto.
</p>
<p>No momento em que escrevo, parece-me, há um sério problema pedagógico em curso, prioritário até em relação à avaliação que se faça da nova terminologia. É o de saber se se pode levar ao fim a própria experiência pedagógica em que ela aparece (que deve, por lei, decorrer até ao ano lectivo de 2007-2008). O fogo sobre a TLEBS tem sido tão cerrado que se criou hoje uma situação difícil de sustentar pedagogicamente, a não ser que o Ministério da Educação clarifique imediatamente a sua posição sobre o assunto, como deveria fazer e não tem feito. <a href=“<a href='http://dn.sapo.pt/2006/11/23/tema/governo_admite_recuar_novos_termos_g.html'>Tem dado sinais contraditórios</a> que não satisfazem nenhuma das posições em confronto e afectam, evidentemente, a credibilidade da experiência pedagógica no próprio momento em que ela está a ser feita. 
</p>
<p>Por outro lado, parece a um leigo como eu — apesar de tudo, professor de língua portuguesa para estrangeiros e não mais leigo do que outros que têm participado no debate — que existem esclarecimentos importantes dados por alguns dos autores da TLEBS (por exemplo <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_13.html'>neste</a>, <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_14.html'>neste</a> e <a href='http://ciberduvidas.sapo.pt/controversias/311006_9.html'>neste</a> artigos). E que sublinham, com razão, a confusão mediática entretanto criada em relação ao estatuto da experiência pedagógica, destinada a actualizar e normalizar parte da (muitas vezes incoerente) terminologia linguística actual. É claro que os propositores dos novos termos linguísticos e o Ministério não foram claros a passar a sua mensagem e por isso têm responsabilidades na criação dessa confusão. Mas os críticos da TLEBS, ao satirizarem a sigla (tornando-a pejorativa, sinónimo de mau português vindo dos próprios professores de português) e ao transformarem um instrumento pedagógico destinado a orientar os professores e os documentos do Ministério (é o que diz <a href='http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/Portaria1488%2024Dez2004.pdf'>a portaria do governo do PSD/PP</a> que instituiu a TLEBS) numa nova ortodoxia gramatical pronta a ser decorada pelas criancinhas portuguesas, pobres coitadas abandonadas, lá deram o seu contributo para mistificar e muito a questão. 
</p>
<p>(Acho graça que <a href='http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html'>quem se opõe à nova terminologia</a> exija o “fim das experiências pedagógicas <i>não autorizadas</i> em crianças“ e “um ensino de<strong> </strong>qualidade, científica e pedagogicamente <i>válido e validado</i>“ (itálico meu). “Não autorizadas“ por quem? “Válido e validado“ por quem? Pelos pais? E por que mais outras figuras tutelares? Os professores têm a obrigação de fazer experiências pedagógicas com as nossas criancinhas, é para isso que lhes pagam. Não sabiam?)
</p>
<p>A elaboração da nova terminologia foi iniciada em 1997 e teve, ao que parece, ampla participação de professores de português pelo país inteiro. Estes professores deveriam merecer um bocadinho de mais confiança da nossa parte, tanto mais que têm manifestado abertura para reavaliar a experiência, ao fim dos três anos que ela deve durar, em função das críticas que têm sido feitas. Seria bastante estúpido deitar abaixo todo o trabalho de anos por causa de uma má sigla e de uma colecção de citações reduzidas a uma caricatura.</p>]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>As cidades</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Dec 2006 03:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
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		<description><![CDATA[[do Público de 16 dezembro 2006] Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. Na Grécia antiga, os &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/18/as-cidades/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>[do <i>Público</i> de 16 dezembro 2006]</p>
<p align=center><b>Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas.</b></p>
<p>Na Grécia antiga, os cidadãos que governavam o dia-a-dia das cidades democráticas como Atenas, onde tinham o nome de <em>buleutas</em>, eram escolhidos por sorteio. Não é um método que eu defenda. Mas é um método que dá que pensar: imaginem que alguém abria ao acaso uma lista telefónica da capital e punha o dedo em cima do nome da senhora Maria da Conceição Silva, de São Domingos de Benfica, ou do senhor Manuel Ferreira, de Marvila. Alguém acredita francamente que seriam piores presidentes da Câmara Municipal de Lisboa do que Carmona Rodrigues?
</p>
<p>Muitos lisboetas devem ter sentido o mesmo, esta semana, durante a emissão daquela maratona televisiva que dá pelo nome de <em>Prós-e-Contras</em>. Só ali, na mesa em frente, estavam quatro vereadores da oposição — por ordem crescente de votação, Maria José Nogueira Pinto, José Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e Manuel Maria Carrilho — e pelo menos três desses quatro parecem passar como mais sérios e consequentes do que o Presidente da Câmara. Pior ainda para Carmona Rodrigues, os “seus” vereadores na Câmara também não estão longe de andar convencidos que são melhores do que o chefe, e pareciam olhá-lo com cara de quem o considera um mero pretexto para que cada um deles se mantenha no seu respectivo pelouro.  A presidente da Assembleia Municipal, Paula Teixeira da Cruz, também já fez questão de demonstrar que tem vida própria. Nada disto pode ser bom para a “liderança” de Carmona Rodrigues, caso não fosse este um termo demasiado caridoso: desconfio que parte da sua equipa não desdenharia fazer o mesmo que fez Maria José Nogueira Pinto, e fugir ao primeiro pretexto desta presidência em torpor radioactivo.
</p>
<p>Carmona Rodrigues sabe que deve a sua eleição a ter-se mantido inodoro, insípido e incolor perante dois termos de comparação que eram as personagens mais escarnecidas do Portugal do momento: Pedro Santana Lopes (de quem ele foi braço-direito) e Manuel Maria Carrilho. No início era importante não ser o primeiro, com cujos desastres colaborou, e no fim teve a sorte de não ser o segundo, queimado numa campanha suicida. Com essas comparações, Carmona Rodrigues consegue parecer menos um produto da imagem do que efectivamente ele é. Carmona Rodrigues tem imagem de engenheiro tecnocrata mas não consegue acabar um túnel. Tem imagem discreta mas não há condomínio que ele não aprove. Tem imagem de “independente” mas veta o nome de um administrador em obediências ao líder de um partido. Tem imagem de não ser “político profissional” mas quando acossado recorre a todas as manhas da cartilha politiqueira (incluindo trazer uma claque organizada para o aplaudir). E finalmente, tem uma imagem de eficiência absoluta conquistada a fazer rigorosamente nada.
</p>
<p>A gravidade de tudo isto em Lisboa seria menor no tempo em que o estado-nação era a unidade quase exclusiva da política, cuja acção determinava por arrasto a evolução das capitais. Então o presidente de uma cidade não precisaria de ser mais do que um regedor, e talvez Carmona Rodrigues chegasse para isso. Hoje, com as fronteiras nacionais diluídas (por causa da “globalização”, da concorrência intra-europeia e até da emergência de certas regiões), as escalas misturaram-se e o papel das cidades sofreu uma mutação notável. Há poucos anos, Londres não tinha sequer um <em>mayor</em>; hoje em dia não será propriamente uma cidade-estado como a Atenas do tempo dos buleutas mas aparece aos olhos contemporâneos como uma realidade autónoma, uma cidade-mundo que possui uma identidade particular ao mesmo tempo que é um motor do seu próprio país. Isto — que não começou ontem — não vale só para uma <em>cosmopolis</em> como Londres.
</p>
<p>Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas. O deficiente que não consegue contornar o carro estacionado no passeio, a mãe que não passa com o carrinho de bébé, o filho de imigrantes que não sai do subúrbio, o idoso que está preso no centro — é aqui que se jogam os conflitos futuros. É nas cidades que se sente a primeira exclusão e injustiça (ou é nelas que, se as políticas forem boas, nos é dada a primeira oportunidade — que se entra na primeira biblioteca pública — que se participa num torneio desportivo).
</p>
<p>Nada disto deixa de ser banal; inquietante é que Carmona Rodrigues não tenha sabido cumprir com nenhuma das estratégias possíveis e evidentes. Não tem servido para competir globalmente (tirando a ideia vaga — e lenta, lenta, lenta — de imitar Bilbao, sem pensar que Bilbao não chegou lá pela imitação). Mas o pior é que não tem sequer servido para tapar buracos no passeio.
</p>
<p>(Olhando em torno, o panorama não é melhor. No Porto governa um populista que elegeu como principais adversários, não os especuladores, não a precariedade, mas os artistas. Braga parece ter passado directamente do feudo do Arcebispo para o feudo de Mesquita Machado. Coimbra curte ainda e sempre a sua crise de personalidade.)
</p>
<p>Se passarmos cinco anos — os mesmos cinco anos que Carmona Rodrigues já leva de responsabilidade política na capital — sem visitar uma qualquer cidade europeia, as mudanças saltam imediatamente à vista. Em Lisboa é preciso puxar muito pela cabeça para lembrar algo que Carmona tenha feito (começado e acabado) ou que vá melhorar a cidade para o futuro. E não faltam coisas para fazer: de ano para ano Lisboa é cada vez mais dura para os seus habitantes, mais infestada de automóveis, entupida até à asfixia, com quartéis vazios a ocuparem espaços nobres na zona antiga (à espera do imobiliário?) e uma rede de transportes sem soluções. O potencial de Lisboa é grande e reconhecido, mas a cidade está hoje mais longe de o cumprir do que de tornar-se insustentável. Carmona Rodrigues não tem unhas para esta guitarra.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Paciência, Iracema</title>
		<link>http://5dias.net/2006/12/11/paciencia-iracema/</link>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 21:49:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos Iracema, da autoria do primeiro. Para quem não conheça a letra, aqui fica &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/paciencia-iracema/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align=center><object width="425" height="350"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/V66d47KUPCc"></param><param name="wmode" value="transparent"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/V66d47KUPCc" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="350"></embed></object></p>
<p><br/><br />É 1978, no bar da Carmela, bairro do Bexiga, São Paulo. Adoniran Barbosa, de laço-borboleta, e Elis Regina, com um colarzinho de pérolas ao pescoço, interpretam juntos <em>Iracema</em>, da autoria do primeiro. Para quem não conheça a letra, aqui fica esta pequena obra-prima de ternurento humor macabro, sobre uma noiva que morreu atropelada — “veio um carro, te pega e te pincha no chão” — isto na Avenida São João, a poucos dias do casamento. “O chófer não teve culpa, você &#8216;travessou contra a mão. Paciência, Iracema.” Paciência.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Uma questão de glândula</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 21:23:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Num comentário da semana passada, um leitor queixava-se de ter de ler aqui os meus textos já repetidos do Público. Aparte a imprecisão e as justificações técnicas (ninguém “tem” que ler nada e se ponho aqui os textos é para &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/uma-questao-de-glandula/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num comentário da semana passada, um leitor queixava-se de ter de ler aqui os meus textos já repetidos do <em>Público</em>. Aparte a imprecisão e as justificações técnicas (ninguém “tem” que ler nada e se ponho aqui os textos é para aproveitar os comentários que estão avariados no meu blogue) o leitor está com a razão, porque mereceria um cardápio mais variado da minha parte. Eu poderia justificar-me com a falta de tempo e com o excesso de trabalho em outras coisas, mas para quê? A verdade é que, como dizia o Fernando Pessoa numa carta à Ophelinha, tenho desculpas mas não tenho desculpa. E, pior ainda, acho que já usei esta citação em ocasiões anteriores.
</p>
<p>Isto da bloga funciona como uma glândula que segrega textos como outras segregam as secreções delas. Chamemos-lhe a glândula blogácea. Quando lhe dá na bolha ao hipotálamo, segrega que é uma maravilha, em quaisquer condições, mesmo com falta de tempo ou excesso de trabalho. Às vezes vai lá com um empurrãozito e alguma prática. Outras vezes, não há nada a fazer, e esta é uma dessas vezes. A glândula pode estar entupida, pode estar com falta de uso, pode ter atrofiado, pode ter perdido o apetite, pode até ter morrido. Não há transplante que lhe valha.
</p>
<p>Aquilo de que o leitor se queixa, também eu me queixo: estou sem glândula blogácea. Não sei se, nem quando, voltará. Felizmente, esse não é o meu único papel aqui: como mostra lá em cima, eu sou editor às segundas-feiras, e em termos espirituais uma espécie de <em>medium </em>através do qual o Jorge Palinhos, o André Belo e o Pedro Vieira encarnam para benefício de vossas excelências (para evitar mal entendidos: os três espíritos que eu aqui canalizo estão vivos e em localizações concretas em Matosinhos, Rennes e Lisboa; o Pedro só voltará ao nosso convívio na semana que vem porque está com o computador avariado e isto ainda não funciona com mesa de pé-de-galo).
</p>
<p>E é assim que depois de, para me justificar, vos ter passeado por estes agradáveis <em>similes</em> de secreções, incorporações espíritas e canalizações em mau estado, me despeço do meu dia com aquilo que para o trabalhador da bloga com problemas na glândula é um verdadeiramente abono de família: um vídeo antigo, apropriadamente em tons de humor negro e tendo por tema noivas atropeladas nas vésperas do casamento.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Jorge Palinhos: Gramática para principiantes</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 15:51:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da pen-drive com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana. Todo o português &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/jorge-palinhos-gramatica-para-principiantes/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Nota: devido problemas técnicos causados por dificuldades neuro-espaciais (i.e. esqueci-me da </em>pen-driv<em>e com os respectivos ficheiros num local momentaneamente inacessível), esta semana haverá uma interrupção na série “A Literatura dos Cucos”. A mesma continua na próxima semana.</em>
</p>
<p>Todo o português está dominado por uma nova terminologia. Todo? Não, um grupo acérrimo de polemistas, <em>opinion-makers</em>, pais consternados e escritores enfurecidos luta ainda e sempre contra a invasão.
</p>
<p>De um lado afirma-se estar a antiga terminologia desactualizada e errónea, sendo necessário actualizá-la e corrigi-la, pois não conhecendo os “advérbios disjuntos reforçadores da verdade da asserção“ é impossível pedir um quilo de carne de novilho no talho. Do outro lado, acena-se com pais baralhados, com o “ódio dos linguistas à literatura”, com a impossibilidade de se compreender um relato de futebol sem se ter identificado os argumentos de catorze sermões eclesiásticos do séc. XVII, com o fim da língua portuguesa em geral e da civilização cristã do Ocidente em particular.
</p>
<p>Nesta guerra sangrentas batalhas se travam entre o “complemento circunstancial” e o modificador”, com inúmeras baixas a registarem-se entre “pronomes” e “quantificadores” de ambos os lados.
</p>
<p>Passa-se isto na Gália?<br />Não. <br />Em Portugal.
</p>
<p>Noutras paragens, o respectivo governo encomenda um estudo a especialistas sobre a reforma e melhoramento do ensino da gramática.<br />Estes produzem um relatório onde se recomenda que a gramática seja ensinada à margem do ensino da literatura e se esboça uma escala de progressão do ensino da gramática: no infantário ensinar a ver uma frase como um “palco”, onde há “actores”, “acções” e “cenários”; no nível seguinte aprender a distinguir as partes da frase e para que servem; no segundo ciclo a distinguir as classes de palavras; no terceiro aprender a identificar as classes de palavras e suas funções na frase; no secundário descobrir os mecanismos com que se constroem textos.
</p>
<p>O relatório faz a apologia da redução ou eliminação do jargão nos níveis iniciais, para que os pais possam ajudar os filhos nos primeiros passos, e constata que o objectivo das aulas de gramática não é formar linguistas nem fossilizar o ensino, mas permitir que os alunos aprendam a usar a língua, a expressar-se e a compreender os discursos e textos que os rodeiam, para o que, entende o relatório, mais proveitoso é o estudo da gramática que a decomposição métrica de cantigas de amor medievais.
</p>
<p>Acontece isto em Portugal? Não, na França.
</p>
<p>Estes gauleses são todos malucos.
</p>
<p>P.S. – Eis o relatório: <a href='http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf'>http://media.education.gouv.fr/file/68/3/3683.pdf</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Quatro frases e uma admiradora desconsolada</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 03:16:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[-“No se mueve ninguna hoja en este país si yo no la estoy moviendo. ¡Quiero que quede claro!“. Revista Ercilla, octubre de 1981 - “Si el senador Kennedy resulta elegido presidente de los EE.UU., el gobierno de Chile tomará las &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/cinco-frases-de-pinochet/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>-“No se mueve ninguna hoja en este país si yo no la estoy moviendo. ¡Quiero que quede claro!“. Revista Ercilla, octubre de 1981
</p>
<p>- “Si el senador Kennedy resulta elegido presidente de los EE.UU., el gobierno de Chile tomará las medidas necesarias“. Revista Hoy, 11 septiembre de 1979</strong>
</p>
<p>- “Yo me voy a morir. El que me suceda también tendrá que morir. Pero elecciones no habrá“ . La Segunda, 17 junio de 1975
</p>
<p>- “El país está tranquilo, porque disponemos de un buen servicio de inteligencia“. Las Ultimas Noticias, septiembre de 1974
</p>
<p>São citações de Augusto Pinochet (podem ver mais <a href="http://www.lanacion.cl/prontus_noticias/site/artic/20041207/pags/20041207144254.html" target="_blank">aqui</a>). É por causa da morte deste homem que a baronesa Thatcher se declarou, ontem, <a href="http://www.timesonline.co.uk/article/0,,3-2498310,00.html">&#8220;profundamente triste&#8221;</a>.</p>]]></content:encoded>
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		<title>André Belo: A TLEBS, a plebs e a mão na massa</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 02:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[convidado]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>
		<category><![CDATA[globalização]]></category>

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		<description><![CDATA[Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da &#8230; <a href="http://5dias.net/2006/12/11/andre-belo-a-tlebs-a-plebs-e-a-mao-na-massa/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda a sigla está em aberto. Toda a sigla pede da parte do leitor um desenvolvimento das iniciais que pode ser uma interpretação livre e não coincidir com o que a sigla mandaria ler. Assim, se, para o Ministério da Educação, a TLEBS é a Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, ela transforma-se, quando vituperada pelo grupo dos <a href="http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/017735.html">Convencidos da Vida</a> (não vou dar nomes, são as siglas do costume), em Tremenda Ladaínha sobre a Educação que nos Brutaliza e Satura. TLEBS também rima com <a href="http://www.livius.org/pi-pm/plebs/plebs.html"><i>plebs</i></a>, a massa pobre e ignara dos que estão de fora, aqueles com quem os Patrícios da opinião recusam partilhar a cidadania deste quinhão. Tudo isto é uma longa história, com muitas barbas em Portugal.
</p>
<p>Longe de mim querer dizer que o único discurso legítimo sobre a educação é o dos especialistas (a ditatura tecnocrática de que o Rui falava <a href=”http://5dias.net/2006/12/04/uma-proposta-salomonica/”>nesta crónica</a>). Mas quem bota discurso sobre educação tem pelo menos de fazer um esforço para se informar, para aprofundar o assunto, para fazer propostas, para ajudar. Numa palavra, para meter a mão na massa. Mas para isso é preciso acreditar minimamente numa tarefa educativa comum, o que me parece estar claramente longe dos horizontes dos Convencidos da Vida. É muito mais fácil afunilar tudo numa uma discussão ácida sobre terminologia e siglas. Fica tudo na mesma, e no fim a culpa é do ministério e dos professores.
</p>
<p>Para meter a mão na massa, é preciso ir além das siglas e falar de pedagogia, um assunto que me parece urgentíssimo, em qualquer país ou geração, e que raramente se discute em concreto, mesmo (sobretudo?) entre os professores. Um assunto que dá (ou devia dar) imenso trabalho. Um assunto que vai desde o pré-escolar à universidade. Um assunto em que nunca nada está adquirido. Um assunto que tem a ver com planos curriculares (como defendeu o Rui no texto citado), com métodos de avaliação, mas também, e talvez sobretudo, com perceber, de forma prática e inteligente, como aprendem hoje os alunos, como é que eles entendem o que lhes transmitimos, de que modo é que podemos ajudá-los a serem mais cultos e de que modo é que, com isso, ficamos nós próprios mais cultos.  Para a semana, com a vossa paciência, vou tentar desenvolver um pouco isto.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Sentido do timing</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Dec 2006 01:18:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[cinco dias]]></category>
		<category><![CDATA[Rui Tavares]]></category>

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		<description><![CDATA[Pinochet morreu no Dia Internacional dos Direitos Humanos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pinochet morreu no <a href="http://www.un.org/events/humanrights/2004/" target="">Dia Internacional dos Direitos Humanos</a>.</p>]]></content:encoded>
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