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COMENTÁRIOS

O jardim dos caminhos que bifurcam

17 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Penso que não se deve dramatizar excessivamente em torno de tudo isto. As separações são situações normais e as barricadas podem ser úteis, desde que não se convertam em obstáculos intransponíveis que impeçam novos encontros e reencontros.  Estamos de saída, não porque um eucalipto tenha secado o solo mas, pelo contrário, porque as muito favoráveis condições deste jardim de inverno tornaram o canteiro pequeno para tantas e tão frondosas raízes.  Ocorreu um choque de ideias, percepções e posições no interior do 5 Dias e chegou-se à conclusão que seria melhor continuar noutros moldes o debate acerca desse choque.

Como referiu o , esse debate teve lugar aqui, em várias situações e a propósito de mais do que um tema, mas a dada altura começou a resvalar para questões laterais e a assumir formas que não apenas dificultavam a clarificação de posições como se substituíam a essa clarificação. Penso que houve responsabilidades várias nesse processo e não enjeito as minhas. Mas isso dificilmente será o mais importante neste momento.

O mais importante será continuar esse debate por outros meios, percorrendo a distância entre as várias barricadas, de maneira a que nenhuma delas fique isolada das outras. O problema, a existir um problema, não é que algumas pessoas deixem de escrever no 5 Dias. O problema seria sempre que as pessoas deixassem de escrever de todo ou, o que seria equivalente, que deixassem de escrever umas para as outras.

Felizmente a mundialização capitalista e a incessante necessidade de valorização do capital, a par do engenho de alguns formidáveis asiáticos, tornou relativamente fácil o acesso a ferramentas de edição on-line, o que permitirá que continuemos a divergir e a trocar insultos (polidamente), com o brilhantismo a que vos temos habituado. O um dividiu-se em vários, numa dialéctica de consequências imprevisíveis e própria de suaves bolcheviques.

Nada temam portanto. Como a de Manuela Moura Guedes, a nossa voz continuará a fazer-se ouvir. Bastará um pouco de zapping na barra de navegação do vosso browser  ou, o que é mais provável, uma polémica em que as questões candentes do nosso movimento  se vejam debatidas com minúcia para que, tendo mudado alguma coisa,  o fundamental permaneça idêntico. É certo que partir é morrer um pouco, mas eu saio desta tasca sem dor, sem rancor e sem remorsos. Com vontade de cá voltar para ruidosas polémicas, cuspidelas para o chão, vinho tinto e loucos que correm nus aos urros sob a chuva. Ao fim e ao cabo, como dizia o outro, nunca mais tão jovens beberemos.

Tod@s pela liberdade

12 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

“Carrinhas com polícias de choque às largas dezenas desceram em grande velocidade o Chiado, selando o alto da rua do Carmo, enquanto outras com igual força e os referidos polícias de choque subiam a rua do Carmo. Estes últimos desceram imediatamente dos carros, ainda antes destes travarem e começaram a correr em direcção aos manifestantes, agredindo-os à bastonada enquanto estes tentavam escapar desesperadamente. Os que estavam perto, meros espectadores ou pessoas que acompanharam o cortejo de lado, ficaram também encurralados por polícias agressivos, com ameaça física a toda a gente, mas que batiam selvaticamente e sem hesitação em alguém que tivesse «aspecto» de manifestante. Vi polícias em grupos de cinco ou mais «dar caça» na baixa a manifestantes ou outras pessoas. Uma rapariga que ia a fugir, estava diante da Pastelaria Suiça, quando foi agredida, imobilizada no chão e arrastada sob prisão a 500 metros de distância para ser encurralada nos carros celulares. O mesmo passou-se com outros (eles não fizeram nenhum gesto agressivo, a fuga era para os polícias o «motivo» para perseguirem e baterem selvaticamente nessas pessoas).”

“Na rua dos armazéns do chiado, 5 carrinhas de polícia de choque com armaduras carregaram sobre os manifestantes sem ter sido provocada (elementos à paisana no meio da manifestação começaram a distribuir porrada com cassetetes desdobráveis). Eu vi isto acontecer à minha frente, como transeunte. Arrearam a rua toda à porrada. Bateram em cães, turistas, pessoas que estavam a sair da Springfield e da h&m … Eu vi isto à minha frente e não sou anarquista. Nunca imaginei que a polícia num estado democrático se pudesse comportar assim. Alguns pareciam cães raivosos, desejando  mais confronto enquanto o pessoal fugia. Até é errado chamar confrontos porque ninguém ofereceu resistência, o que aquilo foi foi um massacre . Soube que há pelo menos 10 pessoas detidas, que foram espancadas ainda mais brutalmente na esquadra. Apareceu uma carrinha do INEM que levou uma rapariga de braço partido. Vi um casal de turistas italianos com marcas de bastonadas.”

Relatos da manifestação anti-autoritária de 25 de Abril de 2007,  disponíveis em Cravado no Carmo.

Está em curso um processo judicial contra as 12 pessoas detidas pela polícia. Temo pela saúde da nossa democracia e pela liberdade de quem se manifestava contra o fascismo. Acho que as patifarias cometidas por Sócrates através dos seus tentáculos no mundo da polícia, dos magistrados e dos tribunais, devem preocupar qualquer cidadão honesto e decente. Mas nada temo, porque imagino estar para breve uma vaga de indignação contra este atentado à liberdade. Da esquerda à direita, ninguém deve estar satisfeita.

Nuno, podes iniciar os contactos com os camaradas da moral majority? Um Darth Vader também dava jeito. Afinal de contas, também eles sabem o que é ser perseguido injustamente pela policia e prezam o valor da desobediência civil. Há princípios que estão acima das divergências políticas. Temos que ser uns para os outros. Proibido voltar atrás, viva a liberdade.

Much ado about nothing

12 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Não percebo o que levam tão a mal ao jovem e promissor administrador da Portugal Telecom. Se bem entendi, limitou-se a apelar “aos órgãos de soberania para que cumpram os deveres constitucionais que lhes foram confiados”, com os resultados que se sabe. Por alguma razão incompreensível, os órgãos de soberania têm-se revelado muito pouco soberanos. A liberdade também já teve melhores dias.

O Jornal do caso «Sol»

12 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Pelo-me por uma notícia escabrosa e adoro policiais. Tenho especial vontade de ficar a saber quem são os jornalistas «amigos».  Já estão organizados os turnos de venda, camaradas?

Queirosianos, demasiado queirosianos

12 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Estranhamente, ainda ninguém aproveitou para escrever qualquer coisa do género: “O governo não cairá porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa.”

Prefiro escorregar nos becos lamacentos

11 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio, Cântico negro

Suction with Aníbal

11 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

“O regime está a cair e chegou o tempo de os actores políticos reconhecerem isso”.

Henrique Raposo

“O eurodeputado social democrata Paulo Rangel afirmou hoje ter sentido a “responsabilidade nacional” de ser candidato à liderança do PSD devido às “circunstâncias excepcionalmente graves” do país.”

Paulo Rangel

“Arrumado isto, Paulo Rangel, à luz de ontem, merece que lhe prestem atenção. Apresentou-se como “solitário”, diz que não passou por encontros prévios nem almoços, daí tudo começar “aqui e agora”, e falou para lá dos partidos, para os portugueses. Sublinhou o irresistível apelo nacional, como todos os homens providenciais (e os pretendidos a tal) nunca se esquecem de dizer. Se queria falar diferente, conseguiu-o – sobretudo nesse partido esgotado por clãs que é o PSD. Rangel soube, ainda, descobrir a palavra: ruptura.”

Ferreira Fernandes

“O Presidente pode constitucionalmente demitir o governo e o primeiro-ministro quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas. Para tal, não está sujeito aos limites temporais previstos na Constituição para o exercício do poder de dissolução da Assembleia da República. [...] Se, por hipótese, o PS não quisesse ou não tivesse condições de indicar um novo primeiro-ministro e formar governo, ainda assim a Constituição permitiria que o Presidente da República procurasse, dentro do quadro parlamentar existente, outras soluções de governo susceptíveis de garantir estabilidade política.”

Pedro Lomba

“Sim, espanta-me o zelo e o cuidado, ou melhor, o esgotante esforço daqueles, imbecis, que nos querem mostrar que se J. Sócrates cair o poder fica nas mãos de Cavaco. E depois?”

Carlos Vidal

“Apesar de tudo, Sócrates tem uma virtude inestimável: conseguiu fazer despertar um amor pela liberdade de expressão em quem nunca mostrou que lhe tivesse sequer amizade. É bonito que o espírito antidemocrático seja um veículo de democratização. Confuso, mas bonito.”

Ricardo Araújo Pereira

Farsa oculta

10 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Escrevi em Novembro, a convite dos camaradas da «Política Operária», uma crónica acerca dos escândalos que abalam esta sereníssima república. À boleia das nossas últimas trocas de impressões, pareceu-me oportuno publicá-la também no 5 Dias. Aqui vai.

À hora a que escrevo é praticamente impossível antecipar o próximo escândalo que virá ensombrar a vida política portuguesa. Sobreiros, empresas fictícias, escutas telefónicas, pressões sobre a comunicação social, submarinos, malas pretas, fugas de informação, casinos, sucatas, contentores, parques de estacionamento  – que agradável surpresa nos reservará ainda esta coisa que se assemelha vagamente a uma república?

Fala-se incessantemente de fenómenos obscuros: judicialização da política, politização da justiça, negócios que condicionam jornalistas para que certos jornalistas não comprometem certos negócios. O destaque vai quase todo para a gritante incompetência e indiscrição revelada pelas pessoas envolvidas, cuja enumeração poderia ocupar todas as páginas de uma revista comunista sem por isso chegar a ser exaustiva. É mais do que evidente a escassez de políticos corruptos que correspondam aos padrões europeus mínimos de qualidade e que dêm aos investigadores da PJ um pouco mais de trabalho.

Como as coisas estão, parece bastar uma escuta telefónica ao acaso para surpreender o envolvimento do primeiro-ministro em tortuosas maquinações no sentido de silenciar a comunicação social e subordinar o interesse público aos seus intereses privados. O resto são os sumarentos pormenores que parecem envolver cada um destes episódios. Romancistas de indiscutível talento dificilmente conseguiriam imaginar um personagem com a densidade do «rei da sucata» ou um enredo que envolvesse um conselheiro de Estado com um traficante de armas libanês na aquisição de empresas fictícias num país da América Central.

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Com o rabo de fora

10 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

A ideia surgiu na discussão dos blogues: fazer um manifesto que expresse as inquietações de muitos acerca dos tiques ‘chavistas’ de Sócrates exibidos na sua cada vez mais desconfortável e azeda relação com a liberdade de expressão. O manifesto será entregue ao presidente da AR no próximo dia 11 de Fevereiro, às 13h30.
Partilho essas inquietações e por isso assinei – mas não creio que José Sócrates perca um só minuto a pensar no assunto. Primeiro, sente-se protegido – pode portar-se ainda pior do que já se sabe que nunca lhe será imputado o crime de ‘atentado ao Estado de Direito’. Depois, o PSD ainda não se encontrou. Ferreira Leite, a quem Sócrates deve a vitória, ainda jaz na liderança empatando qualquer alternativa capaz a esta pouca-vergonha.”

Carlos Abreu AmorimCorreio da Manha (tribuna da liberdade)

Num país livre

10 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.

Portugal dificilmente vai deixar de ser um país anémico, enquanto nos jornais moderados e, pasme-se, nos económicos, houver espaço para quem detesta as regras mais básicas do funcionamento dos mercados, e clama por aquilo que o mata.

Rodrigo Adão da Fonseca, um democrata que não gosta de Sócrates e se preocupa com a liberdade

Da justa resolução das contradições

9 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

O burburinho em torno do manifesto e manifestação contra Sócrates tem agitado a nossa tasca e outros estabelecimentos, compondo uma tragicomédia de proporções inéditas.  Acolho com algum cepticismo as denúncias apaixonadas, mas tardias,  do autoritarismo de Sócrates e da sua incapacidade de lidar com críticas.  Foi precisamente esse um dos atributos que lhe mereceu mais elogios quando se tratou de reunir o consenso em torno das «reformas difíceis», contra os «interesses corporativos» e as «resistências à mudança». Nunca faltou apoio a Sócrates para «arrumar a casa», mesmo quando isso implicou uma ofensiva generalizada contra o movimento sindical e contra todos os que se atreveram a denunciar o aprofundamento das desigualdades sociais que acompanhava a sua proposta de «modernização».  É verdade que não lhe foi então necessário «silenciar», «afastar» ou  «perseguir» pessoas que escreviam nos jornais. Pela simples razão de que os jornais foram há muito higienizados contra esse tipo de opiniões, arcaicas e teimosas, tendo ficado apenas meia dúzia de consciências de esquerda para compor uma duvidosa imagem de pluralismo.  Das limpezas de redacção e da caricatura de jornalismo que delas resulta, nem vale a pena aqui falar. Alguém sugeriu, a propósito desses  factos insólitos, que os jornalistas  se viam frequentemente chamados a desempenhar  a função de «ardinas da mentira». Há por isso um excesso de crespação neste debate.

Foi só a partir do momento em que as reformas efectuadas – a austeridade que recaiu sobre os sectores da população que pagam todas as crises a pretexto das necessidades de contenção orçamental – fizeram balançar para a esquerda o sentido de voto do eleitorado, reforçando o PCP e o Bloco e levando o primeiro-ministro a reforçar o «conteúdo social» da sua intervenção pública, que as críticas propriamente políticas por parte da direita começaram a surgir.  Palavras como «demagogia», «populismo», «despesismo» começaram então a ecoar e bastou um computador portátil em forma de tostadeira para que o espectro de Chávez se visse agitado na política doméstica.

Já havia, evidentemente, quem tivesse manifestado legítimas dúvidas acerca do carácter e idoneidade de Sócrates, por casos relacionados com a sua licenciatura e com a sua actividade profissional. Mas a denúncia insistente do seu autoritarismo só se começou expressar quando se tornou evidente que ele seria tão intransigente nas instituições como nas ruas, ou seja, que trataria as vozes críticas do  campo conservador e liberal com o mesmo desprezo que revelara perante as vozes críticas à esquerda. O episódio da ida de agentes da PSP à delegação da FENPROF na Covilhã, a par do processo disciplinar  na DREN a um militante do PSD, ilustram bem a diferença de estatuto conferida à liberdade de uns e de outros: a intimidação dos sindicatos e a consequente limitação do direito de manifestação mereceu uns parágrafos noticiosos, a anedota de Fernando Charrua veio revelar o potencial déspota que há dentro do primeiro-ministro.

No fundo,  este coro do «eu acho absolutamente inacreditável», esta  opinião pública respeitável que deseja  marchar sobre S. Bento, nunca teve grande apreço pela liberdade de expressão de quem resiste aos processos de engenharia social em curso. A sua simpatia está toda reservada para quem se propõe levá-los a cabo com maior eficácia. Entre uma manifestação e uma anedota, nunca tiveram qualquer problema em definir prioridades.

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Os progressos do atraso – contenção orçamental explicada às criancinhas

8 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

António Pereira, de 42 anos, calceteiro há 17, ganha 570 euros, tem uma horta com batatas, mas uma casa para pagar. E duas filhas, uma com oito anos outra com 14. Esta última é que é o problema. “Felizmente tem capacidades. Está no 9.º ano e daqui a três vai querer ir para a faculdade. Mas eu já lhe disse que, actualmente, não pode ir. Não tenho possibilidades”.

António tem seis irmãos. Trabalharam todos na agricultura, quando crianças. “Ela não sabe o que nós passámos”, diz ele. “Nós comíamos côdeas de pão. Elas agora é só Chocapic com leite. Que nós pelos filhos fazemos tudo. Nós fomos vividos na terra dos escravos. Elas foram vividas na terra das flores. Este é que é o meu maior problema. Porque a minha filha de hoje para amanhã vai dizer: “Eu não pude estudar, porque o meu pai foi um caralho”".

Mas ainda faltam três anos. “Até lá, as coisas podem mudar. Isto é uma luta. É por isso que estou aqui, com 500 quilómetros no papo, mais 500 para voltar. Também se a gente não luta…”

Reportagem de Paulo Moura para o Público, na manifestação da função pública realizada no passado dia 5.


Onde se fala de prisões

8 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

Eclodiu no estabelecimento prisional do Linhó, no dia 18 de Janeiro, um levantamento de rancho e  uma greve ao trabalho apoiada pelo conjunto dos 400 reclusos. Este protesto, que tinha como exigência imediata o afastamento de Norberto Fonseca Rodrigues (chefe dos guardas prisionais) foi a resposta colectiva dos presos, após a morte de um recluso na sua própria cela durante a noite. Paulo Alexandre Caeiro tinha estado nove meses em regime de segurança (solitária), por ter sido apanhado com uma faca. Regressou ao regime geral, com mais trinta quilos de peso, sendo encontrado morto na sua cela três dias depois. É possível acompanhar os comunicados da Associação Contra a Exclusão e pelo Desenvolvimento sobre o assunto, aqui.  Um excerto é particularmente revelador do ambiente no interior da prisão e do tipo de arbitrariedades contra as quais os presos se revoltaram:

“No imediato os grevistas reclamam, à cabeça, a substituição do chefe de guardas, Sr. Norberto Fonseca Rodrigues. Reclamam também por aquecedores e desumidificadores, tanto nas celas como nas salas de convívio. Querem ter o mesmo direito a duas visitas semanais, como ocorre nas outras cadeias, em vez de apenas a única visita a que estão autorizados actualmente. Querem a actualização e a verdade nos relatórios técnicos que informam os processos de liberdade condicional (o preso falecido, de nome Paulo Alexandre Caeiro, tinha cumprido o meio da pena fazia alguns meses sem que tivesse sido ouvido pelo juiz competente, como determina a Lei, precisamente por não estar disponível o relatório técnico que viabilizaria tal audiência. Noutro caso anteriormente relatado por nós, um detido queixou-se de haver arbitrariedade e mesmo falsidade no relatório técnico apresentado, redundando em seu prejuízo pessoal). Pedem finalmente o fim dos isolamentos arbitrários e dos espancamentos com que frequentemente são reforçados.”

Logo na noite do dia seguinte o Grupo de Intervenção dos Serviços Prisionais entrou na prisão e, segundo o Correio da Manhã, repôs a «normalidade». Entretanto, foram queimados três carros pertencentes a guardas prisionais e estacionados num bairro onde  residem vários funcionários do EPL. Foi ainda  distribuído um panfleto na estação de comboios da Portela de Sintra, em apoio à luta dos presos: “A prisão é toda esta sociedade de controlo, e uma ameaça a todos, fazendo pairar o medo sobre todos os que estão fora dos muros. Mesmo quando esse medo não é consciente, a prisão é a ameaça final, a espada que tanto ditaduras como democracias nos encostam aos pescoço. A prisão não é apenas o seu edifício num local distante e isolado. Ela é todo o mundo que a constrói e que dela necessita, e todas as empresas, instituições e pessoas que a apoiam e com ela colaboram de forma directa. Lutar contra a prisão é lutar contra o seu mundo.”

Após a repressão da revolta, os «cabecilhas» começaram a ser transferidos, sendo os mais «problemáticos» concentrados em Monsanto, prisão considerada de alta segurança. A ACED denuncia aliás a criação de cárceres dentro dos cárceres, acusando as políticas prisionais de criar “clandestinamente um novo regime de encarceramento (em alas de segurança e na prisão de alta segurança em Monsanto) como forma de gestão dos conflitos”, onde os direitos dos reclusos e as garantias próprias de um Estado de Direito foram reduzidas a ficção e a única regra é a violência quotidiana sobre os presos, por vezes na forma de tortura.

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Convém não confundir os comunistas com a CIA

2 de Fevereiro de 2010 por Ricardo Noronha

“O despacho da pronúncia afirma que visitei a China e, em contacto com os dirigentes do Partido Comunista da China, tracei a orientação da CMLP e da FAP. Isto levanta todo o problema da posição internacional dos comunistas portugueses que é preciso pôr a claro. Antes de mais, é preciso dizer que estive de facto na China, em missão do CMLP, (tal como estive na Albânia) e que tive de facto conversações com dirigentes do Partido Comunista da China. Mas não tracei nenhuma orientação «em contacto» com esses dirigentes, não recebi quaisquer directivas para a acção dos comunistas portugueses, como o despacho dá a entender. Os comunistas de todos os países auxiliam-se mutuamente sem restricções, mas não têm partidos chefes e partidos subordinados, nem promovem revoluções telecomandadas. Convém não confundir os comunistas com a CIA. Somos o partido político do proletariado português e sabemos que a nossa tarefa é preparar a classe operária para que ela própria faça a revolução.”

Declarações de Francisco Martins Rodrigues durante o seu julgamento no tribunal plenário da Boa-Hora, ocorrido entre 5 e 12 de Maio de 1970

Bater na avó

20 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

A propósito do espectáculo recentemente apresentado no Teatro Maria Matos, intitulado «Maria Mata-os» e encenado por Gonçalo Amorim e Bruno Bravo a partir de um texto de Miguel Castro Caldas, Rita Martins escreveu um apontamento no «Público», lamentando a opção pela sátira ao formato da revista e considerando que isso torna inconsequente o revisitar do género. A sua  crítica concluía desta forma: “Filhos do “Teatro Independente”, a revista é, tanto para os ensaiadores como para os actores e actrizes, uma velha avó que não conheceram, mas de quem ouviram falar. Apesar da pesquisa realizada, esquecem-se que a “avó” não queria ser disparatada, teria brio, uma razão de ser, uma construção sólida. Ou, então, seria preferível deixá-la descansar em paz.”

A isto respondeu o dramaturgo visado, num texto publicado em Viver na Alta de Lisboa, acentuando o carácter político das escolhas cénicas efectuadas e golpeando o processo de reabilitação em curso do formato aqui questionado: “E se para nós a revista é o revisteiro, se é isso que vemos na televisão e foi isso que vimos no parque Mayer (e este espectáculo não se compreende a não ser à luz de como encontrámos a revista no Parque Mayer), o ponto aqui é definir o que é ser revisteiro. Ser revisteiro por exemplo, é ser consensual, é fazer uma crítica social em relação à qual toda a plateia está de acordo. A revista fez sempre isso. A revista nunca pôs nada em causa. Até no tal tempo tão saudoso da ditadura em que se diz que a revista enganava a censura, isso era mentira. A censura deixava passar, desde que não «abusasse», porque a revista ocupava um espaço de descompressão que convinha bastante ao sistema que a sabia inofensiva e apolítica. E a revista nunca abusou. Aqui sim, não quisemos seguir as pisadas da revista. “

Os argumentos de um e de outro são tanto mais interessantes quanto ecoa neles parte do debate ocorrido em 2006, a propósito da ocupação do Teatro Rivoli, no Porto. Como faz questão de acentuar Miguel Castro Caldas: “Nós fugimos a sete pés de fazer uma «revista de qualidade». Isso seria um grande disparate. A meu ver foi uma oportunidade ganha porque de algum modo tocámos nesse grande constrangimento de que falei há pouco. Essa vergonha alheia. Foi uma oportunidade ganha no sítio certo, porque foi no coração da reflexão que neste momento se faz em Lisboa sobre a maneira de pensar e fazer teatro contemporâneo (e já vimos que contemporâneo também pode ser uma pressão), e no tempo certo, porque assistimos cada vez mais à pressão das programações com selo, ditas de «qualidade». Essas sim, sobre as quais os críticos só conseguem dizer dos actores que vão bem ou mal, e dos encenadores, que se afirmam ou desafirmam enquanto promessas que são ou enquanto pilares da «qualidade» e do «bom gosto». E é neste aspecto que o nosso projecto de fazer «uma revista» teve um carácter extremamente político. Porque é lógico que a programação de um teatro municipal não se devia reger pelos padrões de qualidade (tão enfadonhos que são) mas sim pelos padrões de pesquisa, experimentação, vontade de participar na cidade, porque a arte não é outra coisa senão isso.”


O capitalismo tem sete vidas

19 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

Corria o ano de 1974 e havia decorrido apenas uma semana  desde  o 28 de Setembro. O projecto de Spínola fracassara, Caxias enchia-se de contra-revolucionários, alguns empresários saboreavam já o pão amargo do exílio, o poder parecia ter caído nas ruas. Poucos dias depois, Kissinger comunicaria a Costa Gomes a preocupação do governo dos EUA, perante a facilidade com que se haviam erguido barricadas nos acessos a Lisboa e pela força revelada pelo PCP, dentro e fora do governo.

Por esta altura, começava a acentuar-se a oscilação para a esquerda do espectro político, bem traduzida no debate das questões económicas. Os problemas da economia portuguesa deixavam, progressivamente, de ser equacionados ao nível das soluções imediatas e a curto prazo, para ganhar alento o debate em torno das necessárias transformações estruturais. E foi nesse contexto que um jovem economista, comentador habitual nas páginas do «Expresso», desenvolveu as suas reflexões sobre o tema, num artigo publicado a 5 de Outubro e intitulado “O momento político e a economia”.  Se aqui transcrevo passagens desse texto é porque ele remete, quase como se se propusesse ilustrá-lo, para o tema do seminário que a unipop irá realizar na Casa da Achada (aproveito para vos informar que ele foi adiado para Março, devido a um problema de saúde do seu principal dinamizador, o João Bernardo), a «economia organizada».

Numa situação de crise, o nosso colunista identificava os dois problemas fundamentais com que se defrontava a generalidade das empresas: a crise de liquidez e a crise de autoridade. Muitas empresas estavam descapitalizadas e revelavam-se incapazes de fazer frente aos gastos necessários à sua laboração ou de liquidar os seus compromissos comerciais e bancários. E quase todas as empresas se viam confrontadas com a organização dos seus trabalhadores em assembleias e comissões, que rapidamente evoluíam para disputar o poder à entidade patronal e subverter o direito de propriedade.

Perante este cenário, a intervenção do Estado parecia ser a única solução viável para organizar a economia e enfrentar a crise, conferindo ao papel da tecnocracia uma legitimidade cada vez mais tingida de vermelho. Eis o que escrevia a esse respeito Fernando Ulrich, dando mostras de uma aguda consciência de classe, num momento em que importava  defender o essencial, ou seja, o processo de reprodução alargada do capital, fosse qual fosse a forma de propriedade a enquadrá-lo.  A produtividade, ora aí está. Nessa zona de sombra em que o capitalismo de Estado e o socialismo mal se distinguiam, parecia ter chegado a hora dos gestores.

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Um grande défice de conhecimentos históricos

18 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

“Um poder absoluto suprime tanto mais radicalmente a história, quanto tem de ocupar-se dos interesses ou das obrigações mais imperiosas, e principalmente conforme encontrou mais ou menos grandes facilidades práticas de execução. [...] O domínio da história era o memorável, a totalidade dos acontecimentos cujas consequências se manifestariam durante muito tempo. Era inseparavelmente o conhecimento que deveria durar e ajudaria a compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que aconteceria de novo: «uma aquisição para sempre», diz Tucídides. Por isso, a história era a medida duma novidade verdadeira; e quem vende a novidade tem todo o interesse em fazer desaparecer o meio de a medir. [...] É preciso porém acrescentar a esta lista de triunfos do poder, um resultado para ele negativo: um Estado em cuja gestão se instala, duravelmente, um grande défice de conhecimentos históricos, já não pode ser conduzido estrategicamente.

Guy Debord, Comentário sobre a sociedade do espectáculo

“Quando o comboio foi introduzido no século XIX, provavelmente as carroças que eram puxadas a cavalos caíram e, se calhar, na altura, os agentes económicos que estavam ligados à exploração das carroças, e que levavam as pessoas, ficaram extremamente tristes e todas as indústrias que estavam associadas, a indústria da palha, por exemplo. Reparem os industriais que estavam preocupados com o abastecimento da palha para os cavalos, ficaram preocupadíssimos porque, de facto, a sua indústria caiu.”

António Mendonça, Ministro das obras públicas

«A Economia Organizada»

13 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

A unipop organiza, a 5 e 6 de Fevereiro, na Casa da Achada/Centro Mário Dionísio, um seminário dedicado ao tema da «economia organizada», apresentado por João Bernardo. Será uma boa ocasião para debater questões relacionadas com o Estado, a economia, as crises  e o papel da tecnocracia na reconfiguração do modo de produção capitalista. O seminário é aberto a tod@s (mediante inscrição e em função do espaço disponível),  não sendo requerido qualquer tipo de habilitações ou grau académico. Eis o seu texto de apresentação:

“Na década de 1930, com o sistema financeiro em colapso, a indústria em crise e o comércio internacional em retracção, havia dois únicos lugares onde a economia crescia a alta velocidade, a União Soviética e a Palestina judaica. O caso da Palestina é pouco conhecido e o motivo do seu crescimento económico é muitíssimo interessante, mas de carácter estritamente político. Para o mundo eram os planos quinquenais soviéticos que importavam, numa demonstração cabal de que a organização centralizada da economia ultrapassava os problemas que o livre mercado era incapaz de solucionar. Enquanto os especuladores se punham em fuga ou se suicidavam e os patrões abriam falência, os burocratas e a tecnocracia mostravam como se podia dirigir com êxito a vida económica. Para quem o esqueça hoje, foi assim a década de 1930.”

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Daniel Bensaïd (1946-2010)

12 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

«Para Lenine, a história das revoluções é “sempre mais rica de conteúdo, mais variada, mais multiforme, mais viva, mais engenhosa do que pensam os melhores partidos, as vanguardas mais conscientes das classes mais avançadas”. Há uma razão profunda para isso: “As melhores vanguardas exprimem a consciência, a vontade, a paixão, a imaginação de dezenas de milhares de homens, enquanto a revolução é – nos momentos de exaltação e de tensão particulares de todas as faculdades humanas – a obra da consciência, da vontade, da paixão, da imaginação de dezenas de milhões de homens, aguilhoados pela mais áspera luta de classes”. [...]

A burocracia sonha ter o acontecimento sob seu controle. Espera sem surpresa a vinda do que foi anunciado, e não concebe que o que foi anunciado possa não chegar. O revolucionário espreita o acontecimento potencial na crise. No momento da decisão, o julgamento manifesta o presente de uma presença. Esta acontecimentalidade irrevogável inaugura situações radicalmente novas onde “a nossa herança não é precedida de nenhum testamento”, porque o próprio acontecimento esclarece as suas condições de aparição. É por isso que a revolução constitui, segundo Hannah Arendt, o “verdadeiro acontecimento, cujo alcance não depende da vitória ou da derrota”.»

in «Lenine ou a política do tempo partido»

Morreu Daniel Bensaïd, militante da 4ª Internacional e fundador da Ligue Communiste Révolutionnaire. Alguns dos seus textos estão disponíveis na página do Combate.  Francisco Louçã dedicou-lhe um curto obituário.

Actuando como especialistas

6 de Janeiro de 2010 por Ricardo Noronha

“A anedota dos revolucionários chegados nos últimos dias para destruir Notre-Dame e que tropeçam com o batalhão dos artistas da Comuna está cheia de sentido: é um bom exemplo de democracia directa.  Mostra também e sobretudo os problemas ainda por resolver na perspectiva do poder dos conselhos. Será que estes artistas tinham razão ao defenderem uma catedral em nome de valores estéticos permanentes e em última instância em nome do espírito de museu, enquanto outros homens pretendiam aceder à expressão precisamente nesse dia, traduzindo por meio da demolição o seu desafio total a uma sociedade que, na derrota iminente, lançava as suas vidas no nada e no silêncio? Os artistas partidários da Comuna, actuando como especialistas, encontravam-se já em conflito com uma manifestação extrema da luta contra a alienação. “

14 teses sobre a comuna,  Internationale Situationiste, n.º 7, Abril de 1962