As notícias do Correio da Manhã provocaram na blogosfera uma certa incomodidade. Muita gente vem falar de questões laterais – o papel político dos assessores, a naturalidade de se recorrer a eles para argumentário de campanha eleitoral – esquecendo-se do essencial. O essencial é que não é normal que um gabinete de um primeiro-ministro organize um blog de assessores anónimos para atacar os bloggers que lhe são antipáticos na blogosfera.
O Pedro Correia colocou a questão de uma forma brilhantemente clara num post:
“Compreenderás que a real identidade das pessoas [que fazem o Câmara Corporativa] é protegida por motivos de segurança e da própria viabilidade do projecto. É, aliás, extraordinário que passado este tempo todo ainda não se saiba quem o Miguel Abrantes é, o que mostra que o cuidade que existe tem resultado. (…) O Câmara Corporativa é feito por várias pessoas que contribuem com regularidade variada. O Miguel Abrantes é o… Miguel Abrantes. E depois há outras pessoas.”
Excerto de um e-mail de Hugo Mendes, assessor de Almeida Ribeiro, secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, divulgado ontem no CM
Aquilo que todos já sabiam foi ontem confirmado pelo Correio da Manhã, ao longo de duas páginas assinadas por Eduardo Dâmaso, Tânia Laranjo e Manuela Teixeira: assessores e adjuntos do Governo alimentam um blogue que se especializou na calúnia, na injúria e no servilismo histérico a José Sócrates. Sempre sob a capa do anonimato: a sigla Miguel Abrantes, como surge agora confirmado no e-mail de Hugo Mendes tornado público, é uma espécie de franchising que agrupa um grupo de boys que fazem no Executivo o mesmo que o confrade Rui Pedro Soares fazia na comissão executiva da PT: fretes ao primeiro-ministro. Com o acréscimo de comodidade, para os “cooperativos”, de o fazerem a coberto do anonimato.
A partir de agora, diz-nos o Correio da Manhã, em cada post “cooperativo”, onde se lê “Abrantes” deverá ler-se Hugo Mendes. E Tiago Antunes, outro boy do gabinete de Almeida Ribeiro, entretanto promovido a chefe de gabinete. E André Figueiredo, assessor de Socrates no partido. E talvez o próprio Almeida Ribeiro lá faça uma perninha, reforçando os turnos de fim de semana.
Sobre a “questão Galamba” , noticiada hoje, confesso-me incomodado. Não sou amigo do João Galamba. Convidei-o para o 5 dias e ele fez o favor de ir pregar para outra freguesia sem uma palavra, mas a noticia chateia-me. Dizer que o Galamba recebeu 32 mil euros por ajuste directo, para fazer um trabalho, de poucos meses, e que parte desse tempo esteve de férias, em campanha eleitoral e em licença de casamento parece-me o comum entre os boys, mas nada de ilegal. O João Galamba, em sua defesa, afirma ter produzido um relatório desse trabalho que, diz, é público. Acho que o jornalista devia ter procurado esse relatório e avaliar com especialistas o trabalho que foi feito, antes de deixar no ar a ideia que o Galamba recebeu esse dinheiro para poder fazer campanha do PS ou, pior, que se vendeu por essa quantia.
Volto a repetir, acho este governo um total nojo, implicado em muitos casos, mas defendo que se deve investigar, com tanto cuidado como se fosse a nossa avozinha.