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Fui

17 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

Este é o meu último post. Uma parte dos blogues políticos persegue uma identidade bastante definida. Outros adoptam estratégias multiculturais. Tem sido o caso do 5dias. O meu interesse por políticas multiculturais é o seguinte. Trata-se apenas e só de conseguir reunir condições mais favoráveis a que impere a confusão. E durante muito tempo a confusão foi rainha e senhora deste blogue. Ainda bem. Entretanto, os desentendimentos que temos tido perderam, no último mês e meio, uma boa parte da sua politicidade. E o que perderam em politicidade foram ganhando em autoridade. Neste filme, o que é menos relevante é saber quem são os bons e quem são os maus. Quando há uma separação, o historiador político mais convencional pergunta quem foi, quem foi mesmo, que teve a culpa, a culpa definitiva e verdadeira, e enche a boca com traição, génio, fé, carisma e outros pormenores. Mas o historiador das estruturas, por mais ou menos estruturalista que seja, jamais subirá a esse nível. E eu, que não sou um adepto do historiador das estruturas, menos serei do historiador político convencional.

Entretanto, o mais importante neste  post de despedida é escrever isto: quero brindar a todos e todas que aqui me acolheram, sem excepção, mas em particular ao Nuno Ramos de Almeida, amigo de razões e camarada do coração, pelo menos desde o longínquo ano de 1848. Deixo um abraço especial, também, ao Luís Rainha, ao Tiago Saraiva e ao António Figueira, os postadores mais habituais, que continuarei a seguir com toda a atenção. Ao Renato Teixeira deixo também uma saudação, certo de que poderei contar com ele para assinalar todos os meus desvios, as minhas traições, os meus pecados. Do Ricardo Noronha, por afazeres vários, de que não nos conseguimos livrar, não vale a pena despedir-me. O Miguel Serras Pereira já foi, mas pode ser que o encontre por aí… Quanto aos leitores e comentaristas, particularmente estes últimos, não há razão para grandes despedidas. Pode bem dar-se o caso de nos reencontrarmos brevemente noutra tasca. Haja vinho, haja pão. Por ora, deixo-vos com o Carlos Vidal. Boa noite e boa sorte.

Nem teoria da conspiração nem simples coincidência

10 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

Não estamos reduzidos a uma escolha entre Sócrates e quem se opõe a Sócrates. Como não nos deixámos reduzir a uma escolha entre eleger Ferreira Leite e não eleger Ferreira Leite. Devemos combater sempre esta lógica dicotómica. Pagaremos caro se assim não for. Se não amanhã, depois. Todas as lógicas dicotómicas devem ser abandonadas por quem não se encontra satisfeito com o actual estado das coisas porque a lógica dicotómica é o actual estado das coisas. Foi ela que imperou quando nos disseram que deveríamos votar Sócrates para não ter Ferreira Leite. É ela que impera quando nos dizem que o que interessa, antes de tudo o resto, é minar o governo de Sócrates. Mais: isto é tão mais importante na medida em que as últimas eleições legislativas, com a percentagem de votos alcançada pelo PCP e pelo BE, contribuíram para desenhar uma linha de escape à dicotomia de sempre. Para quem privilegia a intervenção política no terreno político-institucional, que não é o meu caso, creio que a opção mais interessante será trabalhar no sentido da tripartição do campo político. É um excelente sinal que tanto BE como PCP se tenham mantido afastados da manifestação de amanhã. Era aliás bom que os partidos à esquerda do PS, no actual quadro de aproximação do PS à sua direita, como sucede com o orçamento de Estado, tivessem a capacidade de apresentar conjuntamente um sinal mínimo de alternativa ao actual estado de coisas. É certo que há falta de capacidade de diálogo entre PCP e BE (não me interessa agora explorar as culpas, assumo, até porque acho que no futuro as coisas só podem melhorar) mas temos tido a CGTP a articular, num plano mais abrangente do que a esfera partidária autoriza, pelo topo e pela base, a hipótese de uma linha política (não necessariamente governativa!) alternativa ao PS. A manifestação de amanhã é uma manifestação política e, como tal, é político saber com quem estamos ou deixamos de estar. A questão não está em invocar teorias da conspiração – como já foi erradamente feito – ou em julgar os actos de amanhã pelos benefícios que trará a outros depois de amanhã – como também já foi feito neste debate. Importa sim não perder de vista que o principal motivo pelo qual não se deve apoiar a manifestação de amanhã não é de ordem táctica: a questão central, para mim (mas acho que isto é válido para quem, neste blogue, não apoia a manifestação de amanhã), é a impossibilidade de defendermos a liberdade de expressão apoiando-nos num manifesto que se preocupa com a ameaça do Estado e nada diz acerca da ameaça dos privados. Admito, é claro, e respeito, opções diferentes. Mas vale a pena ter noção de que, ao incluirmo-nos em algo, estamos sempre a excluir outro tanto. A conversa sobre os que agem e os que não agem, os que afirmam e os que se limitam a negar, os práticos e os téoricos, é por isso oca, vazia, pobre. Quando se faz uma coisa, não se faz outra. Quando se diz que o problema é Sócrates, descarta-se o problema dos privados. Quando se fala de expressão sem falar da expressão que está para lá da língua (a limitação física à entrada de delegados sindicais em sede de empresas, por exemplo), descarta-se a segunda em prol da primeira. Quando se fala da liberdade sem falar da igualdade, descarta-se a segunda. Dir-me-ão que é só uma manifestação. Mas uma manifestação não é só uma manifestação. Muito menos para quem valoriza a manifestação enquanto momento do político por excelência. E eu, sinceramente, já tenho a minha agenda militante demasiado preenchida para ter tempo de ir às manifestações dos outros. Quanto muito, vou pedir ao maradona que me autografe o portátil. Fui.

Porque espero que chova copiosamente na quinta-feira à tarde

10 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

Comecemos com um apontamento positivo, como diz o outro. A discussão à esquerda em torno da manifestação a favor da liberdade de expressão poderá vir a ter um efeito iluminador para o futuro: aqueles que foram classificados como sectários porque não apoiam Alegre são agora considerados como excessivamente unitários, e aqueles que eram considerados como demasiadamente unitários por apoiarem Alegre são agora acusados de atenderem mais ao acessório do que ao essencial. Boas novas, portanto, e talvez daqui para a frente possamos deixar para trás, de uma vez para sempre, palavras moles como unitarismo e sectarismo. Não digo que sejam palavras que devem ser atiradas de uma só vez para o caixote de lixo da História, mas convenhamos que, muitas vezes, são atalhos que não nos levam muito mais longe do que o ponto de início das discussões que começamos. Mas, antes de deitarmos aquele par de “ismos” para o caixote de lixo da história, talvez possamos ainda aproveitar o que ele nos tem para oferecer na análise do caso da manifestação dos bloggers.

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Liberdade, liberdade, liberdade, do trabalho contra o capital

9 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

Diz o dito manifesto que o “primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião”. Sim, é certo, mas não consta que outro qualquer primeiro-ministro tenha passado melhor com o facto. Quanto muito, podemos discutir o grau, mas mesmo isso… Ora, a partir daqui, se isto não implica que deixemos de combater a intolerância de um qualquer primeiro-ministro bem concreto e definido, aconselha porém a que não o façamos em nome de um outro primeiro-ministro qualquer, ou, pior ainda, de uma figura soberana como o actual Presidente da Junta. Apelar a um Presidente  da República, que, mais a mais, no caso concreto e bem definido pelo ano corrente deste país, não dá mostras de ter mais jeitinho para matéria de liberdade de expressão do que o actual primeiro-ministro, não é uma solução muito entusiasmante… Enfim, o mais importante será isto: não discutiremos a liberdade sem discutir o problema da igualdade, porque expressão não é apenas coisa de palavra, faz-se com o corpo (a própria palavra, diz-se, faz-se muitas vezes com a língua) e o corpo é aquilo que, entre muitas outras coisas, vive sob trabalho e o trabalho assalariado que temos é a negação da liberdade de expressão. A partir daqui, dificilmente se poderá encontrar pontos comuns entre a esquerda e o campo liberal para uma agenda em torno da liberdade de expressão. O condicionamento da liberdade de expressão é o condicionamento da capacidade de criação – seja sob que regime for – e enganam-se aqueles que entendem que os famigerados valores pós-materiais são coisa que diz respeito apenas e só a um bando de intelectuais. Tudo é inseparável, a liberdade e a igualdade, o intelectual e o manual. E não há como etapizar tudo isto.

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Quando a Política é Refém da Lei

8 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

No Jugular, João Pinto e Castro traz para cima da mesa o problema da forma e do conteúdo: diz que não devemos discutir o conteúdo das ditas escutas, na medida em que discordemos da forma. Eu não sei se discordo ou concordo com a forma, se a coisa devia ter permanecido em segredo ou se devia ter sido alardeada às claras, se o Sócrates é pior ou melhor que o Berlusconi, se a RTP de hoje é pior do que a do Cavaco, ou coisa que o valha. Não sei nem me interessa vir a saber. Mas sei que nunca devemos ficar reféns da lógica invocada pelo João Pinto e Castro. E o próprio João Pinto e Castro oferece-nos um bom argumento. É que, ao contrário do que Pinto e Castro sugere, a lei e o seu cumprimento formal nunca impediram um bom crime. Não foi o Estado estalinista tão cioso em fazer cumprir o seu ritual legalista, por exemplo? Não é verdade que, não só não lhes bastou matar Bukharine, como ainda tiveram que lhe “sacar” uma confissão de culpa? Enfim, não sejamos apanhados no erro de submeter a política ao imperativo do formalismo legal, porque isso seria submeter a política à esfera do Estado e há mais mundo para lá disso. Ninguém, que eu saiba, exige que Sócrates seja processado ou condenado em sede de lei. Trata-se de debate político, que não tem nenhuma obrigação diante do formalismo jurídico, mesmo se eu não concorde – e não concordo – quer com o tom quer com o contexto que dá tom ao abaixo-assinado que por aí corre. Vivemos num Estado de Direito, mas este não se sobrepõe ao debate político. Até porque há mais mundo para lá do respeito pela lei, mundo onde se tome partido a favor das lutas dos que caíram nas teias da lei, mundo de que o Ricardo Noronha dá conta no post aqui em baixo. E de cuja notícia era bom que, do Arrastão ao Jugular, passando pelo Mário Crespo, se fizesse mais eco. Enfim, num próximo post prometo-me ocupar de um tema mais candente, a saber: as técnicas incruentas de repressão e os famosos stewards.

Uma Judiciosa Combinação de Medo e Esperança

1 de Fevereiro de 2010 por Zé Neves

O João Rodrigues tem-nos alertado pacientemente para as virtuosidades da candidatura de Manuel Alegre. Em seu entender, aquela será uma batalha que valerá a pena travarmos, desde logo por uma razão que se desdobra: Manuel Alegre será o único candidato que permitirá a economia de uma dupla cajadada: a vitória sobre o candidato da direita, por um lado, e a afirmação de um mínimo de distanciamento crítico face ao centro, por outro lado. Este argumento do João – mas creio que as suas razões não distam das razões da direcção do BE e de alguns outros apoiantes de Alegre que se situam à esquerda do próprio Alegre – não é de somenos. Desde logo porque insinua um imperativo discutível, também caro ao Daniel: necessitaríamos, dirão ambos, se não de vitórias, pelo menos da possibilidade real de lutarmos por vitórias, pois de outro modo os nossos pés poderão ficar firmados numa outra terra que não esta. Eu, como já aqui escrevi noutras ocasiões, discordo desde logo do que o João e o Daniel entendem por vitória, por real e por mais uma série de outras coisas, incluindo esquerda e direita. Assim como discordo da facilidade com que, por vezes, sacam do argumento “os pés firmes na terra”. Além do imediato odor a chulé e a estrume (o segundo nem é assim tão mau, concedo), a imagem lembra-me demasiadas coisas ao mesmo tempo: o materialismo simplista criticado por Marx nas teses sobre Feuerbach, o mito chauvinista dos ossos dos mortos e enterrados na mãe-pátria irrigada pelo sangue dos seus idos filhos; e, last but not the least, embora deva confessar que me custa escrever isto, a ilusão ruralista-libertária de alguns soixante-huittards que queriam descobrir a praia sob a calçada (embora, em abono da verdade, tenha sido tudo muito mais interessante do que isto, já que se tratou de fazer a praia sobre a calçada). Mas, deixemos esta variação idiota cuja triplicidade não deixa de nos ajudar a situar Alegre em mais uma forma geométrica, além do seu quadrado e do rectângulo luso, e foquemos o essencial.

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Os Atalhos e a Bicicleta do Daniel Oliveira

25 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Não sei o que o Daniel Oliveira pretende com este tipo de argumento. Sei que não procura um debate. Pretenderá apenas vencer os que considera serem seus opositores? Se é isto, bem que pode ficar com a bicicleta.   Há quem, em nome de uma suposta génese “revolucionária” do Bloco de Esquerda, critique o Daniel Oliveira dizendo que o Daniel Oliveira defenderia propostas de conteúdo “reformista”. O meu problema é outro e aquele tipo de críticas não me interessa de todo. O meu problema não reside no facto do Daniel Oliveira defender isto ou defender aquilo mas sim o modo como tende a fazê-lo (nem sempre, por certo), procurando simplesmente naturalizar um seu ponto de vista subjectivo ao apresentá-lo como o ponto de vista objectivo, que só aqueles que não têm os pés assentes na terra é que poderão cair no erro de rejeitar. Atalhar o debate do modo que o fez implica privilegiar uma determinada forma de conhecer a “realidade”, em que só é possível reter o que é unívoco, permitindo-lhe  assim confirmar ou desmentir a sua posição. E é assim que, em lugar daqueles que, mostrando-nos a necessidade de nos atermos à “linha justa”, para tanto invocavam as leis de ferro da dialéctica da natureza, temos hoje o Daniel Oliveira, que, em seu apoio, invoca as justas percentagens dos estudos de opinião. Não creio que as coisas melhorem.

Alma e Razão em Daniel Oliveira

21 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Bem sei que o título parece mais coisa de livro da Imprensa Nacional – Casa da Moeda do que de um post de blogue. Mas vamos ao que interessa. Diz o Daniel: “Não voto com estados de alma. Voto com racionalidade.” E é então que voltamos ao mesmo de sempre. Tal como na última discussão, o Daniel Oliveira aparece aqui a reduzir a política – e a racionalidade – a uma questão instrumental. E o pior é que a única alternativa que concebe a esta via é a via da afirmação idealista de um mundo ilusoriamente puro - é com os pés assentes nesse mundo que ele nos fala quando insiste em reclamar a superioridade moral da não-violência.

A nossa sorte (minha e do Daniel, desde logo) é que haverá mais mundo além do que aquele que a falsa alternativa entre os que afirmam e os que negam Maquiavel faz por aparecer. Os que afirmam exaltadamente Maquiavel tendem a fazer recurso à ideia de maquiavelismo, dizendo-nos que é politicamente necessário o cálculo táctico-estratégico, porque os fins não seriam conseguidos sem recurso a meios contraditórios com esses fins. Os que negam pejorativamente Maquiavel tendem a recusá-lo em nome da ideia de que os fins não justificam os meios. O Daniel, que me perdoe o reparo paternalista, tende demasiadas vezes a duas de uma: ou afirma ou nega Maquiavel. Quando, possivelmente, não nos interessa embarcar nem uma nem noutra via. 

Três notas mais acerca do post do Daniel. Prometo ser breve. Leiam-me lá.

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Novo Elogio do Eduquês

18 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Há espécies que tendem a atrair as esperanças de quase toda a humanidade. Espécies que gostamos de adorar como se fossem a essência de todo o bem. Os bombeiros, por exemplo. Toda a gente gosta dos bombeiros e a humanidade descobre-se sempre um pouco mais falhada quando se sabe que, afinal, foi mesmo o bombeiro quem ateou o fogo. Semelhante descrença ocorre quando os fiéis descobrem que alguns padres tendem à criminalidade sexual, embora o padre, diga-se, tenha melhor sorte que o bombeiro e este possa legitimamente invejar a resistência da figura clerical às provas que dão conta da sua possível malignidade.

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Precisamos é de mais eduquês

14 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Durante os últimos anos, o conflito entre professores e ministra da educação monopolizou o debate em torno da escola. De um lado, os docentes revoltados; do outro, a ministra autoritária. Entre quem se revolta e quem exerce a autoridade do Estado, não preciso dizer que, em princípio, fico a torcer pelos primeiros. Mas não é por isso que esqueço que não é só a ministra que governa. Muitos são aqueles que governam: o presidente governa, o patrão governa, o chefe-de-família governa, o líder sindical governa, o padre governa, o professor governa. E espanta-me que quem tanto reclamou  (e bem) contra o autoritarismo da ministra possa dar como natural e desejável a figura de autoridade do professor. Enfim, o debate em torno da educação e o modelo de governo na sala de aula, apesar de ser das coisas mais sensíveis que se discute em Portugal, é não raras vezes marcado por desconhecimento histórico. Os críticos do eduquês, por exemplo, alguma vez olharam para a história da educação em Portugal? É que talvez descobrissem que as tais ideias que associam aos pós-modernos nem sequer nasceram no dia de ontem. Não são um “mal” parido por 1968, pelo PREC ou pela massificação do ensino. No prefácio que escreveu a uma obra incontornável da historiografia portuguesa, a tese de doutoramento de Jorge Ramos do Ó, o excelentíssimo reitor António Nóvoa retomava uma frase de Rosseau para nos relembrar justamente que era a ambição de um melhor governo - e não simplesmente um primeiro ensaio de autonomia, anarquia e comunismo – que imbuía o célebre suiço. Dizia o famigerado cultor do bom selvagem: “deixem que o vosso aluno acredite sempre ser ele o mestre, quando, na verdade, são sempre vocês que o são”. E acrescentava: “A criança só deve fazer aquilo que quer; mas deve querer apenas aquilo que vocês querem que ela faça”. Se olharmos apenas para o poder que se exerce através do chicote, provavelmente ignoraremos as outra formas de poder. E sabemos que são mais poderosas aquelas que captam a vontade do próprio dominado, tornando-o parte do processo de governo.

Alegrismos

11 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Aqueles e aquelas que tencionam votar em Alegre, sem que neste se revejam, não devem admitir sequer a hipótese de que a consciência lhes acabe por pesar sobre os ombros. A relação de representação, ao contrário do que dizem alguns dos seus apologistas, não é uma relação espelhada. Ninguém tem que se rever naquele em que vota. Era só o que nos faltava se, não ficando os representantes reféns dos representados, tivessem estes que ficar presos àqueles. O único sapo que eu, eleitor desta república, teria que engolir no dia em que fosse votar em Alegre seria o próprio gesto de ir votar em quem quer que fosse. No meu caso, porém, a questão é ainda mais fácil, porque, apesar de ser fiel à tese “prognósticos só no fim do jogo”, está-me cá a parecer que não votarei em Manuel Alegre. Nos últimos tempos, nos últimos anos, digamos antes, Alegre teve posições com as quais as minhas opiniões coincidiram por mais do que uma vez, é certo, mas parece-me hoje claro que toda a actuação de Alegre (planeadamente ou não, não me interessa) deu corpo a uma prática política inaceitável. Se é verdade que Alegre começou, e bem, por criticar tendências de fechamento, burocratização e autoritarismo por parte do sistema partidário (e nem me interessa se ele foi parte activa do sistema partidário que criticou), porém sucede que, desde cedo, a sua emancipação da tutela de Soares e de Sócrates se transformou numa autêntica aventura cavaleiresca, de gosto e sentido sempre muito duvidosos – e eu, tal como o Dr. Álvaro Cunhal, prefiro o Sancho Pança ao Dom Quixote. Que a generalidade da esquerda, com a excepção do PCP (cujas reservas podem ser entendidas como prova de sectarismo, mas que podem também ser vistas como sinal de moderação), tenha embarcado nesta aventura, e aí tencione continuar por mais algum tempo, é algo que me esmorece. É que não podemos passar horas a fio a criticar (e bem) o chavismo ou evismo ou o lulismo ou o obamismo (nestes dois últimos casos, infelizmente, não se vê muita crítica a andar por aí…) e nada dizermos em relação ao alegrismo. E, note-se bem, longe de mim a tentativa de comparar os processos sociais que o populismo consubstancia naqueles movimentos sul-americanos, merecedores do meu apoio, ou que inclusivamente consubstancia no caso norte-americano, com aquilo que se tem passado com o alegrismo. Este melhor poderia ser definido – caso isto não fosse um paradoxo – como uma espécie de “populismo” sem “povo”. A simples ideia, aceite e reiterada por tantos, de que o futuro da esquerda portuguesa passa pela figura de um homem é uma contradição insanável para quem admite que a esquerda deve alguma coisa a uma tradição em que se procura uma participação política cada vez mais alargada das “massas” e não o culto dos “grandes homens” que são eleitos (pelo povo ou por nosso senhor)  para decidir o que será pior ou melhor para a maioria da população de descamisados. Ir para o poder e ter poder não são a mesma coisa, já nos avisava, sensatamente, alguém tão insuspeito de simpatias esquerdistas como o historiador Eric Hobsbawm, num texto seminal escrito nos 50 anos da Frente Popular francesa. De tal modo que, no dia em que Alegre ganhar as eleições presidenciais, a esquerda portuguesa poderá dizer, com legitimidade, que tem alguém no poder; mas dificilmente poderá dizer, nesse dia, que nos aproximámos da tal “esquerda popular”, de que Francisco Louçã foi falando, de forma vaga mas enérgica, nos últimos anos. Não vale tudo para vencer a direita.

Para a História das Culturas Híbridas

8 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

«Aliás, Jesus Correia, como futebolista, foi um jogador extraordinário pelas características particulares originárias do hóquei. Não era em rigor um futebolista. Era, antes, um hoquista transplantado para o futebol. Talvez seja preferível dizer: era claramente um hoquista-futebolista… Mais de metade dos seus movimentos eram mais de hoquista do que de futebolista! As suas jogadas mais frequentes, no drible ou no remate ao golo, eram oriundas do hóquei… A sua prodigiosa rapidez de reflexos era apurada, para não dizer desenvolvida, pelos patins. E uma apreciável percentagem dos seus estudos à baliza, sobretudo quando se internava e surgia a avançado-centro ou a interior do lado contrário, não eram pontapés de futebolista mas autênticas sticadas de hoquista, tão semelhante era a utilização da perna e do pé, para atirar à baliza, contrariando as noções técnicas do futebol, ao movimento do stique – a empurrar, da esquerda para a direita, a bola para dentro da baliza. Por vezes, a cópia era perfeita: corria da ponta direita para o centro do terreno e, já em frente da baliza, em lugar de desferir remate ao jeito de um futebolista, utilizava a perna direita como se fora o stique, passando-a pela frente da perna esquerda, e no movimento de regresso batia a bola da esquerda para a direita, atirando para longe do alcance do guarda-redes.»

Cândido de Oliveira, em 1954.

O Outro Lado da Crítica

5 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

A política é a arte do possível, diz-se por estes dias. Cruzei-me com a ideia neste post do Miguel Vale de Almeida, a propósito da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da não-aprovação da adopção. Que dizer, para além do óbvio, isto é, que me alegra a sua alegria e que me anima a aprovação do casamento e que me desanima a não-aprovação da adopção? Dizer, talvez, que a ideia de que a política é a arte do possível não me pareça uma ideia nem muito radical nem muito sensata. É porque houve quem tivesse passado muitos anos, em tempos em que quase toda a gente dizia que o casamento homossexual não era possível, a insistir numa tal proposta, é por isso – não só, mas também – que o casamento é hoje possível. Limitarmo-nos ao que é possível é limitarmo-nos ao que é evidente e o nosso papel político não é apenas governar o possível, mas também ir além do que é evidente. Enfim, depreciamos demasiadamente o lugar da crítica, lugar que o Miguel seguramente valoriza, mas do qual está agora mais afastado, para pena nossa e destes tempos em que a crítica mais respeitada é a que desdenha os que criticam. Temos um primeiro-ministro que diz à oposição de esquerda que esta só sabe criticar, uma oposição de esquerda que diz à esquerda que corre por fora que esta só sabe criticar, e por aí adiante, até à vitória final do pragmatismo e do espírito positivo. Por cima do bolo, a cereja: o lugar dominante dos dias de hoje e que é dizer-se que não basta criticar, que é preciso também construir, e que o mal dos portugueses é só saberem criticar. Depois queixem-se que o pior livro do José Gil é o que mais vende ou que a Laurinda Alves acabe por ser eleita deputada.

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Para a História do Comunismo em Portugal e na Suécia

5 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Para desanuviar, e em ano de mundial, deixo excertos de uma crónica do ido Cândido de Olivera, publicada em A Bola. O jogo em causa é entre a URSS e a Inglaterra, estávamos no Mundial de 58, na Suécia. Cândido morreria pouco tempo depois. Esta era, se não estou em erro, a primeira vez que assistia ao vivo a um jogo da URSS. Nota de edição: quando Cândido refere “mormente quando não abundam os ensejos de a ver em acção!”, estará a referir-se, possivelmente, ao facto – noticiado pelo Avante! de então – da FPF recusar propostas de encontros com a sua congénere soviética. Sobre as questões tácticas, é favor soltarem o Luís Freitas Lobo que há dentro de cada um de vós e botarem comentário. (A foto presumo que seja do jogo com o Brasil, se não estou em erro no mesmo campeonato).

«Os jogadores soviéticos, com cinco ou seis bolas, dividiram-se em pequenos grupos e consumiam esses minutos correndo com elas, executando passes em alarde de virtuosismo técnico, “cortando” a bola, jogando-a com o calcanhar, num tipo de exibição de “circo”… E nesses momentos acudia-nos a ideia geralmente criada de que a sua equipa é, acima de tudo, um produto de excepcional preparação atlética e de uma cerrada e intransigente organização defensiva e, por isso mesmo, possuindo uma muito reduzida gama de esquemas de ataque. Mas, o jogo começou e afinal só houve motivo para pensarmos que cada um tem uma forma particular de interpretar o jogo das outras equipas, mormente quando não abundam os ensejos de a ver em acção!

Todavia, uma versão nos pareceu inteiramente cabida: trata-se de uma equipa com um excepcional ou, melhor dizendo, com uma tão invulgar capacidade atlética que lhe permite manter durante os noventa minutos uma toada de jogo que assenta, com efeito, numa muito cuidada preparação física para poder ser mantida durante quase todo o jogo: todos a defender e todos a atacar!

[…] um plano de defesa e de ataque que utiliza os dez jogadores: avançando todos, quando atacam, descendo todos à defesa, quando são atacados! A linha de ataque, em regra, não parte isolada, ou apoiada num ou nos dois médios. Não. É seguida pelos dois médios e pelos dois defesas laterais e o próprio defesa-central se adianta, até à linha de meio-campo, embora seja o jogador que se mantém sempre mais perto do guarda-redes.

[…] Os atacantes jogam preferencialmente pelo chão, em troca sucessiva de passes, e só por imposição do adversário recorrem ao passe por alto para o outro flanco. O jogo mais metodizado, porém, é o da defesa e, daí, a arguição de ser uma equipa que assenta o seu sistema de jogo num plano defensivo em que procuram sempre ter superioridade numérica»

Da Vida Ordinária

4 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

O Rui Bebiano concorda e discorda com o que ali postei. Vamos à discordância. Diz o Rui Bebiano: «Agora aquilo que não vislumbro é a possibilidade desse gesto refundador emanar naturalmente da vida de todos os dias, e das mãos de pessoas comuns, sem a intervenção de protagonistas organizados e mesmo de heróis que, como todos os heróis, ignoram a hesitação e a dúvida». Estou de acordo com a recusa da naturalidade do gesto refundador. Mas o oposto da naturalidade não tem que ser algo de artificial e sim algo surgido da própria naturalidade. O oposto da naturalidade não tem que passar pela intervenção de um “elemento vindo de fora”, de índole mais científica («protagonistas organizados») ou romântica («heróis»). Possivelmente, o problema não se colocará se formos capazes de, e para utilizar uma imagem que o historiador George Rudé um dia nos deixou, desenvolver formas de saber e poder em que não haja lugar para uma muralha da china a separar o que é considerado como inerente (dir-se-ia, também, espontâneo, natural) e o que seja derivado (organizado, artificial). Contra o heroísmo, talvez pudéssemos fazer uso do involuntarismo deleuziano, seguindo a pista lançada por alguns dos seus leitores, segundo os quais aquele faria a crítica ao vanguardismo e, simultaneamente, restabeleceria a esperança e a crença nas possibilidades de transformação acometidas na vida ordinária. Isto não significa, e pressuponho que seja para isto que o Rui Bebiano me queira alertar, que a ideia do comunismo como movimento anti-heróico possa ignorar que o movimento comunista não existe fora da história. John Holloway, aliás, é um autor particularmente atento a esse desdobramento “imanentista” e revolucionário (a-partir-contra-e-mais-além) do movimento. Ou não fosse no zapatismo, nas suas figuras contraditórias do comandante que é sub-comandante e do herói sem rosto, que ele se tivesse filiado ao longo dos últimos anos.

Ponto de Ordem à Mesa

4 de Janeiro de 2010 por Zé Neves

Diz o post do Carlos Vidal que, de há uns meses para cá, com a minha participação e do Ricardo Noronha, assim como as visitas regulares, nas caixas de comentário, do Viana e do Niet, este blogue estará a desviar-se do seu caminho providencial. Perante esta degenerescência moral, tão dramaticamente sentida pela comunidade que o Carlos Vidal decide não poupar nos insultos que dispara, quer-me parecer que se lhe colocam duas alternativas: ou o Carlos Vidal pega em armas e decide-se a correr com os elementos desviantes do blogue ou vai ter que continuar a engolir mais uns sapos aqui por estas bandas. Importante mesmo era não repetirmos este infeliz episódio. É que eu tenho paciência para muita coisa, tenho mesmo, mesmo, mas ainda sou demasiado inquieto para não me chatear com o facto de alguém, por ignorância ou estupidez, chamar-me fascistóide e outras coisas do género. Posto isto, considere-se o factor de degenerescência do blogue que tanto apoquenta o Carlos Vidal: diz ele que, de há uns meses para cá, anda por aqui muita verborreia, gerando-se apenas impasses e paralisias. Evidentemente, este é um argumento que se desdiz: se o Carlos Vidal recorre ao verbo para lutar contra a verborreia, é porque entende que o verbo é desde logo um meio de acção. O que incomoda o Carlos Vidal, parece-me, não é a verborreia em geral (até porque isso confrontá-lo-ia com a sua em particular), mas a verborreia de alguns que pensam diferentemente do próprio Carlos Vidal. Quem escreve contra a verborreia de outro – reclamando para si, ao invés, qualquer coisa que seria mais real do que o verbo, qualquer coisa que o Carlos Vidal designa por acção – está a deslegitimar os argumentos do outro sem ir de encontro ao seu conteúdo, antes deslegitimando a própria acção argumentativa. Trata-se de um artifício duplamente penoso: penoso porque desvia-nos do essencial que é o debate crítico; e é ainda mais penoso porque retoma o pior dos tiques do anti-intelectualismo. Com efeito, a tentativa de opor verbo e acção, de modo tão abrupto e grosseiro, faz uso de uma concepção simplista do que seja o materialismo, reduzindo este ao domínio das coisas e entendendo estas, acima de tudo, como aquilo que seria físico – seja isto o que for. O que me distancia do Carlos Vidal não é a importância ou não da acção ou do verbo. É antes a sua concepção reiteradamente estalinista do comunismo. Eu estou do lado de lá da barricada - tal como estão muitos comunistas, muitos anarquistas, muitos leninistas e, até, muitos marxistas-leninistas.

Ao Cair do Pano

31 de Dezembro de 2009 por Zé Neves

“O movimento do comunismo é anti-heróico. Os heróis mantêm-se afastados da comunidade, atraem para si mesmos a força comunitária da acção. A tradição revolucionária está repleta de heróis, pessoas que se sacrificaram pela revolução, pessoas que abandonaram esposas, filhos, amigos, para dedicar-se desinteressadamente a mudar o mundo, enfrentando privações e perigos físicos, muitas vezes até enfrentando a tortura e a morte. Ninguém negaria a importância dessas figuras e, no entanto, há algo muito contraditório na ideia de uma revolução heróica ou, inclusive, na ideia do herói revolucionário. O objectivo da revolução é a transformação da vida comum, quotidiana, e é certamente dessa vida comum e ordinária que a revolução deve surgir. A ideia da revolução comunista é criar uma sociedade em que não sejamos conduzidos, em que todos assumamos a responsabilidade, portanto, o nosso pensamento e as nossas tradições devem mover-se em termos de não-líderes e de não-heróis.”

To Stalin or not to Stalin

29 de Dezembro de 2009 por Zé Neves

A crise de legitimidade, representação, demarcação, whatever, por que passou recentemente (ontem) o 5 dias é para mim assunto encerrado. Sobra da refrega, no entanto, uma questão que gostaria de colocar ao Carlos. Perante a sua identificação como um estalinista empedernido, entre outros atributos diabólicos que lhe são inúmeras vezes imputados, o Carlos tende muitas vezes a reagir dizendo-lhes que sim, que claro que sim e mais sim ainda. Fá-lo, parece-me, mas não estou certo e por isso este post, porque não quer entrar num jogo de abstracção em relação a um passado que, independentemente de nele se rever ou não, de algum modo assume, recusando assim a posição pura e angélica de quem de tudo consegue lavar as mãos. Até aqui, mais coisa menos coisa, e assim sendo, compreendo perfeitamente o gesto do Carlos: é necessário não ficarmos reféns da chantagem que permanentemente é feita a todos e todas que entendam que tudo deve começar por dizermos “Não” ao actual estado das coisas. Essa chantagem diz que quem diz “Não” nada mais faz do que defender o horror estalinista e por aí adiante. A questão está em que aceitar o estereótipo e enfatizá-lo pode servir para subvertê-lo e caricaturá-lo, mas também para nos deixarmos enredar num debate que só confunde. Parece-me que o centro da questão é este: não é simplesmente a diabolização do passado comunista que deve ser rejeitada, é a ideia de que esse passado é um só e não um conjunto de tensões e contradições, com diabos, anjos e tudo o resto que entre estes se situa. E, a partir daqui, podemos então sim cuidar desse passado, retomar os debates que aí foram tidos, as clivagens que aconteceram, não para simplesmente repetir a história, mas para construir algo de novo. Rejeitar esse passado como se ele fosse uma coisa una e homogénea não é solução, mas herdar não é um gesto diferente – é simplesmente o contrário. Enfim, parece-me que quem critica as ideias de representação política, de democracia burguesa, de capitalismo (e deixo de lado o facto, em que todos estaremos de acordo, de nenhum destes conceitos poder ser facilmente manejado), não pode simpatizar – nem por caminhos irónicos – nem com os nacionalismos comunistas, nem com a ditadura sobre o proletariado, nem com o capitalismo de Estado (conceitos que também não são límpidos, reconheço). Para que seja claro para todos que o “estás marcado” utilizado pelo Carlos não tem nenhum tipo de ressonância policial.

ps: é evidente – mas convém dizer – que não está em causa o carácter mesquinho e obtuso do comentário do Ferreira Fernandes. Que não tem nada de novo: quando ele diz que o Nuno não pode – por dever de coerência – trabalhar para uma empresa capitalista e ser contra o capitalismo, está simplesmente a recorrer ao argumento estafado segundo o qual um trabalhador não pode fazer greve contra a “sua” própria empresa.

A Crise da Representação

28 de Dezembro de 2009 por Zé Neves

Não teria necessidade de me demarcar do que o Carlos Vidal escreveu aqui, caso o seu post não falasse em nome do blogue. Como parece que falava, demarco-me. A minha participação neste blogue deve-se ao seguinte: alegra-me a construção de um espaço que reúna pessoas de diversas tendências político-ideológicas situadas à esquerda do centro – valham estas referências geográficas o que valerem…. Este é, creio eu, o único blogue onde convivem leninistas (que não confundo com estalinistas), anarquistas, bloquistas, autonomistas, entre algumas outras espécies não identificáveis. Trata-se, da minha parte, de um convívio que só é possível na medida em que se assumam claramente as divergências – como se tem feito – e que se evite falar em nome da malta toda. As críticas ao 5dias como um todo facilitam que aceitemos a ideia de que o 5dias é um todo. É uma tentação, mas é um erro que não poderá ser cometido.

Ainda a Janela Indiscreta do Pedro Rolo Duarte

22 de Dezembro de 2009 por Zé Neves

O Pedro Rolo Duarte responde, nos comentários ao meu  post, à crítica que aí fiz ao seu programa. Entende que o insultei e responde-me na mesma moeda. Diz ainda que o programa não é jornalístico mas sim de opinião. Se o Pedro Rolo Duarte entende as minhas palavras como ofensivas, admito que a culpa possa ter sido minha. Mas gostava, ainda assim, que os alegados insultos não impedissem que o Pedro Rolo Duarte se centrasse nos dois pontos que eu referi no post anterior. Em primeiro lugar, é ou não incompetência que alguém que tem um programa (jornalístico, opinativo, humorístico, o que queiram) acerca de blogues, ao dedicar uma peça ao 5dias, diga que este é um blogue próximo do BE? Em segundo lugar, não será o preconceito, apenas e só o preconceito, que permite ao Pedro Rolo Duarte sugerir que o Daniel Oliveira, quando não defende o recurso à violência, fá-lo por oportunismo e não por convicção? O facto do Pedro Rolo Duarte não estar ao abrigo do estatuto de jornalista não legitima nem o erro nem o preconceito. Ou só os jornalistas é que podem almejar o céu?