Pesquisa

Sou pela resistência ao Inverno

23 de Fevereiro de 2010 por Morgada de V.

Extra! Extra!

12 de Fevereiro de 2010 por Morgada de V.

Nenhum dos meus agentes em Portugal (gente noctívaga) conseguiu até agora encontrar o Sol. Parece que há uma edição extra esta tarde, mas já deve haver fila nos quiosques e eu preferia a primeira edição (coisa de coleccionadora). Seja, já estou por tudo: fotocópias, manuscrito de monges copistas, exemplares d’occasion… Ou PDFs (aqui – descobertos numa caixa de comentários do 31 da Armada).

Cilícios & flagelos

29 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.
Depois de ter visto aquela reportagem sobre os terços do Cristiano Ronaldo e lido o post do Luis Rainha sobre as penitências de João Paulo II, e na expectativa da visita do Papa a Portugal, dei por mim a pensar que bom, bom para o negócio era criar, para lixar a marca CR7 junto do público católico, a marca BXVI (pronuncie-se “bê-xis-vê-i”), e vender, para os mais aficcionados, cintos griffés para uso íntimo. Os nossos empresários podem inspirar-se no know-how desta empresa inglesa, que distribui “a range of cilice belts (…) produced by Italian nuns” e outros acessórios para estimular a fé, tudo enviado por correio “in discreet packaging”.

First things first

29 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

O meu irmão deixou de acreditar em Deus no dia 23 de Maio de 1990 (uma quarta-feira), aos 23 minutos da segunda parte do jogo que decorria precisamente nesse momento no Praterstadion de Viena, perante um argumento filosófico irrefutável de Frank Rijkaard. Ao contrário do meu irmão, poucas pessoas se lembram do instante exacto em que perderam a fé, e eu não sou excepção; o que sim posso garantir é que desde a altura remota em que percebi que não acreditava em Deus, algures na transição da infância para a puberdade, tenho dado provas de uma carreira ateísta sem história nem mácula. Até ao dia em que “The God Delusion” se cruzou no meu caminho: durante a leitura desta “majestically maladroit adventure in the realm of abstract ideas”, tive várias vezes vontade de me converter aos adventistas do sétimo dia por pura pirraça anti-Dawkins. Enfim, acabei “The God Delusion” a repetir, com grande maturidade intelectual, “talk to the hand, the head is not listening”. Hoje dei por mim a concordar com os argumentos um tudo nada mais articulados de um teólogo que descobri n’A Causa Foi Modificada, onde pelo mesmo preço fiquei a saber que o maradona foi o herói da carreira 58.

Ortodoxia

28 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.
Acho que estou mesmo a perder muita coisa por não ter televisão. Através deste blogue, cheguei a um programa da RTP chamado “30 minutos”* e fiquei a saber que há uma fábrica portuguesa que produz terços iguaizinhos ao do Cristiano Ronaldo, garante a irmã do jogador, mas com o logo CR7 (existe em branco e preto). Há já quem proponha outras cores para o Verão – “lilás, vermelho” –, mas a irmã de Cristiano, primeiro tentada pelas perspectivas de expansão da fé, acaba por torcer o nariz à blasfémia: “Já não é o tradicional, se for com cores já não é o tradicional”.
 
* A reportagem sobre o terço CR7 começa aos 7′52”, a seguir ao pequeno Saúl que já não é pequeno.

De quando uma pessoa percebe que as notícias que lhe chegam da pátria via blogosfera são manifestamente insuficientes to keep up with world affairs, ou talvez eu devesse comprar uma televisão

28 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Moi (trying to sound knowledgeable): – E aquela cena entre o Sá Pinto e o Liedson [Li-dson], ahn?
Amigos expatriados: – Liédson!!!

Postal de férias

23 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Mao, Maria… Há tempos foi o FF com o trabalho, agora há quem se insurja contra o descanso de alguns camaradas. O Luís Rainha já tentou mandar este insurgente para o Brasil, mas a tolice não vai de férias. Enfim, alguém que lhe explique que a revolução pode não ser um piquenique, mas os revolucionários, como as outras pessoas, também jantam (shocking, I agree).

Voltei do exílio comunista

23 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.


Obrigada, também senti muito a vossa falta.

(Foto: Walker Dawson)

Olhem quem também chegou à Índia

11 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

“Gandhi was more violent than Hitler.”

Zizek

(Assim de cromos de que o 5dias gosta para já é tudo – continuo sem notícias da ex do Salman Rushdie, Nuno).

Disclaimer: o termo “5dias” foi usado abusivamente. Há malta que não gosta e malta que não leu (e malta que pela amostra vai continuar sem ler)

Não baixeis os braços, portugueses

9 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Quando hoje me disseram que em Ourique o dirty talk já alinhava em cochoncetés, temi o pior, prevendo que qualquer dia, no Alentejo profundo, estaríamos a comer “porc à la façon d’Alentejo” ou “riz aux petits-enfants”. Era ter pouca fé nas virtudes pátrias: este neologismo que o Pedro Ferreira em boa hora nos deu a conhecer veio salvar a balança de exportações nacional da temida bancarrota, e acredito que, com o apoio dos patriotas que combatem ainda e sempre o invasor napoleónico, voltaremos em breve a ter saldo positivo.

Divergências insanáveis

8 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Até hoje tenho escrito no 5dias considerando que, independentemente das divergências que tenho com o Nuno, que não reconhece as virtudes do slow-blogging e acha que eu posto pouco, este era um espaço de gente do meu lado da barricada. O comentário de hoje do António Figueira ao meu post sobre o acordo ortográfico, se outras vantagens não lhe reconheço, levou-me a perceber que isso já não seria bem assim. Parafraseando um grande pensador, infelizmente não editado entre nós, essa pessoa de má índole veio aqui desmentir-me, usando, à falta de melhor, argumentos (maradona, obra citada). Eu lido bem com palavras fortes e um ou outro insulto no calor da discussão, mas que um colega de blogue tenha a baixeza de vir atacar-me com argumentos, barricando-se do lado da razão, atinge um novo mínimo histórico que demonstra bem a que ponto este blogue desceu.

Eu tenho lido calada os disparates que o António regularmente regurgita sobre o Benfica e o menino Jesus, e pensava beneficiar de igual tolerância para com as minhas extremamente defensáveis opiniões. Vejo que me enganei. Sendo assim, proponho que se adopte a regra base (que eu julgava já em vigor por fonte consuetudinária) de que eu tenho sempre razão. A menos que queiram realmente acabar com o blogue, dando razão a Ferreiras Fernandes & afins (a propósito, que mal fiz eu ao FF para ele não falar de mim?).

Adenda: Tenho a certeza de que não deixarão de responder com falinhas mansas & tácticas de appeasement, mas agora é tarde.

Alas, poor William, they knew him too well

7 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Eu nunca fui muito à bola com o réveillon, e como já não tenho idade para andar em festas contra a minha expressa vontade, este ano recusei impiedosamente todos os convites para poder ficar, at last, a sós com o Hamlet no meu sofá, depois de vários tête-à-tête adiados por indisponibilidade das partes. Estava tudo bem até à página 138, passado o foguetório só um ou outro bêbedo me interrompe a leitura, já dobrámos o III acto e avançamos cansados mas felizes para o final, quando o príncipe da Dinamarca diz “I wrote this song in 1601, some of you might remember the lyrics, I’d like you to sing along. This is for you, Yorick”, ouvem-se aplausos de reconhecimento, A-LAS, POOR YO-RICK! I KNEW HIM, HO-RAAAAAA-TIO!, toda a gente canta a uma só voz excepto os que cantam I knew him well (a common mistake); felizmente ninguém sabe o resto da letra, mas batem palmas e agitam isqueiros, disparam telemóveis e não deixam ouvir o homem, “Thank you for being such a lovely audience”, exit, perseguido por aplausos; eu aproveito para tentar sair de fininho e ser das primeiras a chegar ao parque de estacionamento, mas levanta-se tudo ao mesmo tempo e bloqueiam-me a passagem, “To be or not to be!”, pede-se da plateia aos camarotes, TO BE! TO BE! TO BE!, milhares de pés calcam o chão em fúria, se o gajo volta ou não, eis a questão, e se é mais nobre sofrer a espera ou partir para a porrada, etc. WoooooooHHHOOOOOOOOOOOOOHHHHOOOOOOOOOOOooo, Hamlet regressa para um encore, toca duas músicas do novo álbum e um tema antigo, as pessoas dão as mãos, “Good night, Portugal!”, and the rest is silence. Quer dizer, sort of: à saída ainda há quem assobie “The slings and arrows of outrageous fortune”, formam-se filas para os autógrafos, eu louca por repor os níveis de nicotina, tão cedo não me apanham em Badajoz. “Só foi pena ele não ter cantado o ‘Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow’”, lamenta uma tia à minha frente. “Essa não é dele, corrige o marido sem tirar os olhos do meu decote, “é do Gilberto Gil”. Eu não quero impedir ninguém de reduzir o fosso cultural, e assim, mas acho que tirando os primeiros álbuns e uma ou outra cena da fase madura, o bardo é uma estuchada com groupies aos gritos por todo o lado. Isto dito, a caveira esteve muito bem.

O marcador

5 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

 
Há pancas para tudo. A deste blogger, alfarrabista na vida real, é coleccionar marcadores encontrados em livros usados. A dos leitores, marcar a página com o que têm mais a mão: fotos, dinheiro, bilhetes da lotaria, facturas do supermercado,  recortes de jornais, cartazes “Do Not Disturb” desviados de hotéis, mapas, uma serra circular… E uma extensa epistolária esquecida entre as páginas: rascunhos de cartas de amor, recados herméticos, um pedido de perdão por copiar nos testes – de um cábula convertido ao Senhor –, poemas, missivas à la Rimbaud, notas suicidas, apelos revolucionários, postais. A minha preferida é uma carta a recusar os avanços de um certo David, uma “forma palavrosa de quebrar corações”. O autor do blogue dá-se ao trabalho de decifrar a caligrafia e transcrever as cartas, sempre fotografadas com os livros em que foram encontradas, o que facilita o voyeurismo. Bafiento, but worth a visit.

Ah, pobre português, eu conheci-o

3 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.

Descubro que o Público vai boicotar o acordo ortográfico e encho-me de gratidão, a mesma que sentimos pelos amigos que ficam do nosso lado nas causas perdidas. É escusado: mais cedo ou mais tarde (mais tarde, por favor), a marcha do progresso há-de “adotar” estas ”correções” ortopédicas (apesar de quanto a mim o doente não mancar e de a muleta não ser firme), e os que ficarem para trás serão a “exceção” (desculpem, esta merda é inestética). Durante algum tempo, leremos os jornais com alarme & susto, sofrendo as dores-fantasma das consoantes amputadas, mas dentro de alguns anos seremos nós os esdrúxulos: os livros que hoje se alinham na estante acordarão um dia ilegíveis, subitamente obsoletos, derrotados por reedições espúrias de Camilo e Eça ”já com o acordo ortográfico”, há-de dizer a badana, reduzidos ao charme vetusto das farmácias com PH, objecto da curiosidade arqueológica de netos e sobrinhos.

Gratos pela preferência

1 de Janeiro de 2010 por Morgada de V.
O Corta-Fitas elegeu o 5dias ”blogue de esquerda do ano” e pede que o fuzilemos com estilo. Assim que o Guronsan actuar, enviamos alguém. 

Dirty talk

31 de Dezembro de 2009 por Morgada de V.

A coisa começou de forma inocente, minha puta, palavrinhas torpes, petits noms obscenos, enfim, les tendresses et les cochoncetés habituais entre lençóis, quando, sem que nada o pudesse prever, ele lhe chamou
– Gorda.
– Gorda?
– Gorda.
– Mas tu não és gorda – tento consolá-la –, tens formas, e quem diabo se julga esse tarado para te chamar uma coisa dessas?!
– Era conversa de cama consentida, quando ele perguntou se me podia insultar eu concordei alegremente, não podia imaginar que…
– Monstro!
Ela baixa os olhos com o pudor das vítimas, eu ponho-lhe a mão no ombro, e ficamos ali ao frio, cigarros acesos, duas refugiadas do país da adolescência.

O Deus saído da máquina

20 de Dezembro de 2009 por Morgada de V.

Uma sucessão de azares conduziu-me àquele duelo desigual: de um lado eu, armada de dois comandos e um manual de instruções; do outro, a televisão, um mastodonte de 127 cm a olhar-me com a frieza das coisas inanimadas. Arrisquei desviar os olhos do aparelho para espreitar as instruções: o ponto 5 dizia “keep calm”, o suficiente para um calafrio me gelar a espinha e eu perceber a merda em que estava metida. Ler o resto »

Dia sem Pachorra

27 de Novembro de 2009 por Morgada de V.

Recebi um email a anunciar que esta sexta-feira era “No e-mail Friday”, um apelo ao jejum do correio electrónico inspirado no dia de abstinência cristão e um belo exemplo da máxima “do as I say”. Já havia o Dia sem Carros, o Dia sem Electricidade, o Dia sem Sacolas Plásticas (no Brasil), o Dia sem Compras (que Portugal assinala amanhã), o Dia sem Fumar, o Dia sem Música (para protestar contra a má música) ou o Dia sem a Megan Fox (embora não se lhe conheçam más fotografias), e apesar de não saber exactamente que efeitos práticos terão estes apelos à renúncia por um dia (além de apaziguarem a consciência do jejuador), decidi juntar-me ao movimento e propor o Dia sem os Chatos dos Dias Sem Coisas – e não vejo razão nenhuma para limitar o escopo a esta categoria de chatos, nem a privação a um dia só.

Sempre quis poder dizer isto

16 de Novembro de 2009 por Morgada de V.

 “De súbito sabe[r] de todos os papéis / ou outra eternidade que não essa”

(não há é ainda notícias da tampa da lata do café).

Depois é que iam ver

13 de Novembro de 2009 por Morgada de V.

Desde o final da tarde que não sei da tampa da lata em que guardo o café (uma embalagem turco-germano-bósnia substancialmente mais memorável que o conteúdo original que vinha nela). Já a procurei no lixo, no frigorífico, na mesinha de cabeceira e na máquina de lavar roupa (não, a sanita provou ser superior às minhas forças), e só não a procurei no meio da papelada porque isso me obrigaria a enfrentar o monstro dos papéis, tarefa para a qual, sozinha, me sinto de todo impreparada. Em desespero, contei o caso a Sir T. “Aliens”, disse-me ele. “There’s a big shortage of lids from where they come from”. Ninguém me leva a sério, mas eu gostava de os ver tentar, um dia que fosse, ser eu (a considerar muito seriamente dizer ao fisco que o meu cão comeu os papéis, se conseguir arranjar um até segunda-feira).