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SOBRE UM DEBATE EM COIMBRA (OU NO PAÍS?)

21 de Fevereiro de 2008 por Joana Amaral Dias

 

SOBRE UM DEBATE EM COIMBRA (OU NO PAÍS?)

 

AUTOR: José Manuel Pureza

Há um Presidente de Câmara que diz que nunca se investiu tanto em cultura porque há obras na calha para um centro de congressos e está para abrir um teatro que está pronto há mais de três anos. Há um vereador da cultura que reclama nos jornais que os protocolos com agentes culturais lhe custam “uma pipa de massa”. E há gente que não se fica e vem à rua dizer que isto é uma vergonha. “É amiguismo”, reage o Presidente, “querem é subsídios para os amigos”.

Há amigos da cultura, sim senhor. A tal ponto que se põem a imaginar, em vozes plurais, onde os leva essa amizade. Como pode a cultura ser motor do desenvolvimento das cidades?, tão simples como isto. Que papel terá a cultura na cidade prometida e como o vamos materializando na cidade concreta? 

Pensarmos isto em Coimbra é pensarmos o país e percebermos, magoados, como somos tão pouco europeus: desde a total ausência de uma rede de cidades médias substituída por uma bipolarização territorial que eucaliptiza o país, até à natureza avulsa da intervenção pública (central e autárquica) no domínio cultural, passando pelo desbaratar aviltante de capital instalado na diferenciação (cultural, claro) das concentrações urbanas ou pela repetição preguiçosa da ladainha do pecado da subsidiodependência – tudo nos mostra que a Europa está desgraçadamente longe daqui.

Pensarmos isto é também interrogarmos o desenvolvimento que temos. É reclamarmos que o lugar da cultura não é “um” lugar, acantonado e insular, nesse desenvolvimento mas os lugares todos, aqueles em que a sociedade respira, se revitaliza e se transforma a cada momento (não é isto o desenvolvimento?). É percebermos que a criatividade é a irmã gémea dessa respiração colectiva, mas que criatividade sem estratégia é fogo fátuo. É, enfim, darmos rosto político à consciência de que verdadeiramente é a cultura a única possibilidade de pôr o travão da solidez à deriva de liquefacção que marca crescentemente a nossa esfera pública.

 Não sei se os “Amigos da Cultura” (www.amigosdacultura2008.blogspot.com), em Coimbra e no país, conseguirão impor como inevitável nas próximas eleições locais o slogan “It’s culture,stupid!”. Mas, diante da grandeza das tarefas que este debate nos exige, respira-se por aqui um irreprimível “Yes, we can!” 

Armas Para Civis (II)

13 de Junho de 2007 por Joana Amaral Dias

Performance de Alberto Pimenta
Filme de Edgar Pêra
Legendas de Joana Amaral Dias

Armas para Civis (Introdução) aqui.

A mulher do Vasco

13 de Junho de 2007 por Joana Amaral Dias

Autora: Violeta Salgado

Ele olhava-me estarrecido e insistia: “A mulher do Colombo! Ó pá. A mulher do Colombo, não estás a ver de quem é que eu estou a falar?”. Eu não estava a ver, realmente. Não me lembrava com quem tinha casado o Colombo. Será que era suposto saber? Seria assim uma lacuna tão profunda na minha “cultura geral”? Envergonhada, lá acabei por acenar, num daqueles gestos que tanto pode significar uma mesma coisa como o seu contrário. Ele acabou por cabecear de volta, nitidamente mais vencido pelo cansaço do que movido pela ambivalência.

Nunca mais me lembrei do tropeção. Até que noutro dia, estava no café com um colega que, a meio da conversa, disse: “E pronto, essa tipa do Vasco da Gama é demais”. Confesso que já não estava particularmente atenta. Mas depois dessa deixa fiquei surda. “A mulher do Vasco da Gama?!”. Caraças. Outra vez. Não tinha a mais pálida ideia de quem era esposa do senhor. Devia ser uma Filipa ou Catarina. Foi o máximo que consegui concluir. Acabei por seguir umas dez horas mais tarde para casa, desanimada e recordando, com culpa, as palavras do outro: “Só sobram os livros”. O problema é que nunca gostei de restos. Mesmo assim entendi que, de uma vez por todas, tinha que fazer um esforço sério e sistemático para ler mais. Andei assim uns dias, a acordar bem cedo. Às oito já tinha o jornal visto e revisto e, depois de jantar, ficava em casa, na forreta poltrona do candeeiro. Nem uma semana tinha passado e eu já esquecera o episódio, voltando à minha vida de ignara.

Passaram-se meses. Pelo menos uma vez fui ao Colombo. Não dei conta de nada.

Até que ontem, estava na pastelaria e diz a senhora para o marido: “Ó Manuel, passou cá a rapariga do Apolo…”. Eu já estava para recomeçar a minha auto-flagelação – uma musa qualquer, seria? – quando fui salva por um 70: “A rapariga do Apolo 70”. Ok. Vi a luz. Tudo fez sentido. Suspirei e sai sem ler o jornal. Passei pela menina da mercearia, pelo homem da padaria, pelo senhor da livraria e pelo puto da esquina. Senti que dominava a expressão. Achei-me vitoriosa. Doravante (apus mesmo esta palavra para mim própria, de molde a sentir-me mais douta), revelarei como domino a língua sem piedade. Ao advogado chamarei senhor da firma e ao engenheiro o tipo da ordem. É que se não há lojistas, empregados de balcão, merceeiros, livreiros e padeiros, também não há doutores e etc. Afinal, se o talhante sabe que é o homem do talho, porque é que o médico não consegue entender que é o gajo do hospital?

Até que a morte os separe.

13 de Junho de 2007 por Joana Amaral Dias

Autora: Violeta Salgado.

 

Finalmente ela mudou-se para sua casa. Sem que a nova inquilina soubesse, ele decidiu instalar câmaras de videovigilância em todas as divisões. Gravou todos os momentos que aí passaram. Filmou, com o seu consentimento, todas as viagens, muitos dos jantares fora, quase todas as idas ao cinema, os encontros com os amigos, as festas de família, as idas à praia, às livrarias, ao supermercado e ao café. A relação terminou, claro. Ou não. Nos anos que se seguiram ele passou todo o seu “tempo livre” a ver as imagens. Depois, morreu.

Armas Para Civis (Introdução)

6 de Junho de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor(es): Alberto Pimenta (performance clássica) Joana Amaral Dias (legendas) Edgar Pêra (film)

Rui Tavares: O brilharete

6 de Junho de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Rui Tavares

(Público, 4 de Junho 2007)

O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois. 

Uma das melhores maneiras de conseguir que se leve a cabo uma tarefa ingrata, ou mesmo indecorosa, é convencer alguém de que ao cumpri-la fará um “brilharete”. Esta técnica funcionará melhor com um sujeito que passe por insignificante mas não deixe de ter a sua vaidade. Como país, Portugal é um inabalável candidato ao óscar do brilharete.

É curioso que não raramente é o próprio que sai prejudicado, embora não o tenha previsto enquanto escutava a lisonja e o encorajamento dos maiores interessados. Nesse caso, chama-se-lhe um “trouxa” – mas discretamente, para não ferir os sentimentos de uma pessoa tão útil.

Aproxima-se agora uma nova ocasião para demonstrarmos os nossos dotes nesse papel, sob a forma da presidência da União Europeia. O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois. Mas já foi há muito tempo – 29 de Maio e 1 de Junho de 2005 – e franceses e holandeses tinham acabado de votar não à Constituição europeia. Jurou-se que nunca mais a UE se faria longe dos seus cidadãos e que os seus líderes nunca mais se fechariam no “quarto mais alto da torre”, nas palavras do inimitável Tony Blair.

São coisas que se dizem no calor do momento, como explicaria recentemente Cavaco Silva: “às vezes, avança-se para essas coisas sem pensar bem nas consequências e, depois, discute-se é como corrigir”.

Como corrigir, então? Sarkozy tem uma ideia: faça-se um mini-tratado com três características fundamentais. A primeira é referir-se sempre a ele como “mini”, um abre-te sésamo para muita gente. A segunda é chamar-lhe tratado em vez de “constituição”, o que deverá funcionar com os restantes. A terceira – e única que tem a ver com actos e não palavras – é nunca o referendar.

Tirando isto, não se sabe nada sobre o mini-tratado, a não ser que será um conjunto de regras fundamentais sobre a maneira como as coisas se fazem na UE – pensando bem, não é isso mesmo que costumam ser as constituições? E na maneira como as coisas se fazem encontramos já duas regras fundamentais. Uma é fugir ao referendo. A outra é caminhar para o directório dos países grandes, solução que permitirá vencer com facilidade as objecções da Espanha e da Polónia. Esta reincidência em fazer as coisas “no quarto mais alto da torre” tem o seu custo, que nenhum líder gosta de pagar sozinho. Mas é preciso dar o passo decisivo a tempo de se ratificar tudo antes das eleições para a única instituição em que os europeus votam – o Parlamento Europeu, onde verdadeiramente se deveria discutir a constituição. Felizmente, agora só é preciso arranjar alguém para fazer um brilharete.

Perante uma bateria de jornalistas portugueses, perguntou-se a Durão Barroso se era por patriotismo que gostaria de ver o “mini-tratado” decidido durante a presidência portuguesa. Durão respondeu logo que não, mas depois de olhar em torno para ver se não havia por ali algum jornalista estrangeiro sorriu e acrescentou que “sim, um bocadinho”. Ora aí está: Durão é um mestre na arte do brilharete, como se viu na Cimeira das Lajes, antes de começar a Guerra do Iraque. Mas hoje, cada aniversário dessa ocasião é lembrado em todo o mundo como um momento vergonhoso de desrespeito pela vontade dos cidadãos.

Ao ouvi-lo, lembrei-me de que também eu teria um mini-tratado a propôr aos nossos líderes. É a citação de Tucídides que estava no preâmbulo da Constituição, e mais curto não me parece que seja possível. É uma frase apenas: “A nossa constituição é chamada de democracia porque nela o poder está nas mãos, não da minoria, mas do maior número.” 

Ai, coisa linda. É só saúde!

30 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

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Tal como já tinha ocorrido no Brasil, em Angola e na China, nesta visita oficial de Sócrates à Rússia, lá circulou o jogging. Ontem, a segurança moscovita encerrou a Praça Vermelha para que o Primeiro-ministro português performasse a sua joggada. Face aos acontecimentos relativos às medidas de segurança, que se verificaram desde o primeior dia desta deslocação, a polícia russa foi especialmente arregimentada. Mas para Sócrates foram só 30 minutos de produção das glândulas sudoríparas.

Um velho cauto e manso médico, volta e meia cruzava-se com um familiar meu no regresso do ténis. Observa-o fardado, com bandas no pulso a prevenir lesões, afogueado e estafado. Um dia o senhor doutor pigarreou: “Ah….vejo que faz muito desporto. Deve ter muita saúde, para andar por aí a desbaratá-la”. Mal sabia o antigo (ou talvez não) que o corpo passou a ser estatuto e o principal sugadouro narcísico. Que vivemos na era da somatização. Não, Sócrates não é o único governante a utilizar a contemporânea obsessão pela forma como (é triste, mas aqui vai) propaganda política. Bush e Sarkozy (nem mencionando o famoso mergulho de Marcelo no Tejo), por exemplo, também praticam o “pernas para que vos quero”. Escusado será dizer que esta coisa, de espontâneo, tem raspas. Caso contrário, a comunicação social podia ficar a esticar as pernas.

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Na China a grande marcha tornou-se num espectáculo ainda mais burlesco porque o senhor-quase-engenheiro-quase-desportista (portanto, quase ídolo), depois de se ter apressado em Pequim abaixo de zero (qual demonstração suplementar da capacidade sacrificial da carne), envergou em Macau uma camisola com a marca de um pronto-a-vestir-pronto-a-despir. Bem escarrapachada nos peitorais. Na altura, alguns “especialistas” no artifício consideraram esta situação como uma falha dos assessores, já que uma pessoa com este cargo nunca não pode vender marcas. Errado. Alguém que é PM deverá ter cabeça suficiente (e não só gâmbias) para concluir sozinho que não é uma sublime ideia feirar ferretes. À borla (dou de barato que não houve patrocínio). Como dizia um desses senhores “O que choca é que entra no limite do bom senso porque estamos a falar de uma viagem oficial”. E aproveitava para indagar: “Por que é que o Papa não pode usar sapatos X se são bons, confortáveis e ainda por cima italianos?”. (Boa pergunta até porque, como é do conhecimento geral, o Papa tem milhares de indumentárias faustosamente ornamentadas, algumas concebidas, para gáudio tacanho de alguns, por uma estilista de origem portuguesa. Adiante. Isso agora é outra história que só concorre em comicidade com aquele memorável cortejo de trajes para padres, bispos e quejandos no Roma de Fellini.)

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Claro que a marca garrida por Sócrates regozijou-se com esse momento de democracia musculada. A responsável da dita defendeu até que “o acaso” é sinal de que José Sócrates tem uma vida saudável. Ora bem.

Houve uma outra parte desta história menos badalada, ainda quem muito linda: o aquecimento (certamente menos necessário que em Pequim), acompanhado por um forte dispositivo policial, esteve sob as ordens de um professor que também coordenava os estudantes da Escola Portuguesa (como se pode lêr no site oficial).  No final do treino, o primeiro-ministro pediu desculpas por lhes ter “estragado a manhã de sábado” já que, para compor a comitiva, os alunos foram convocados para as sete da manhã. Pimpão. Os joggers, habitualmente, andam sozinhos e até isolados com auscultadores. Alguns escolhem marginais e ruas muitíssimo poluídas, e não “ar puro”, como seria de esperar se o motivo fosse a saúde. Mas é de ostentação que se trata. Logo é necessário público, muita gente como a que passa nas grandes avenidas. Contudo, Sócrates não corre sozinho. E, como ilustra a história dos colegiais (fora os ministros que lá colaboram conforme o cardíaco lhes consente), não é apenas a polícia que o acompanha. Sócrates vai em jeito de treino militar porque a imagem de um homem sozinho, não passará. Mas essa é a única diferença. O PM também dá show como os joggers-do-tubo-de-escape. Os cenários são bem escolhidos (Calçadão do Rio, Marginal de Luanda, Parque de Beihai), a televisão regista e o público multiplica-se. Tudo tão maravilhosamente orquestrado que nem se percebe como foi possível o lapso da marca da camisola.

É evidente que o Primeiro-Ministro pretende passar uma imagem “cá dentro” e outra “lá fora”. Trata-se de um exercício de força, de uma mostra de vigor, concreta e metaforicamente. Num país que, quando comparado com os EUA, é cordeiro no que toca à obcecação pelo ginásio, existir um Sócrates que pompeia a sua capacidade física não é dar o exemplo. É de fazer inveja. Especialmente à imensa maioria que se inscreve nestes pavilhões do suor (que crescem como cogumelos na tal humidade) e desistem ao fim dos três primeiros meses (infelizmente não sem um leve travo a culpa mas, na verdade, numa restituição da sua sanidade mental). Já para não falar do luso pícnico para o qual o deslumbramento pelos gémeos de Sócrates pode dar uma sensação parecida à do dopping.

Não chegaria ao ponto de afirmar que é a correria matutina que explica a misteriosa divergência descontentamento/boas sondagens. Mas pode ser muleta (não, não pretendo recordar nenhum antigo entorse). Outros dos supra-citados “peritos” consideram que ” jogging em Angola foi mais eficaz do que 30 discursos ou 20 conversas institucionais“. Confesso que a parte que mais gosto desta escultural análise é quando se diz que ”o governante também transmite a imagem de que não engordou no primeiro ano de poder”. Gordos é que não. Tudo menos isso. Ainda por cima dá direito a discriminação.

Lá fora, o PM tenta combater, qual ALLgarve, o postal do portugalzinho atardado e patego.

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Só tenta. Para quem tem dois de testa, mais do um palminho de cara e não necessariamente perna longa, o provincianismo deste adestramento é pé-chato. E Sócrates consegue ainda um outro efeito. Esta sua maratona do em-grande-forma obriga os Estados calcorreados a trancar ruas, aferrolhar praças, avisar as populações (ora aí está uma boa maneira dos russos ouvirem falar de Portugal), mobilizar forças policiais e dinheiro. O anfitrião vê-se no dever de atender às cismas do seu hóspede. Um capricho é um capricho e muitos banqueteadores cedem, solicitamente, às madames castafiores deste mundo. O país visitado obedece e subjuga-se. Para uma nação com uma política externa tão tísica como a nossa, afinal, Sócrates tem razão. É o máximo de exibição de músculo que Portugal pode dar. E ainda bem.

Peregrinação (em dias de azar)

23 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

 Texto de Joana Amaral Dias

Filme de Edgar Pêra

Repórter: João Trindade

Câmara: Francisco Castor

O consumo, enquanto actividade sistemática, global, base do nosso sistema cultural, acompanhada pela celebração permanente dos objectos, atinge todo o seu esplendor nos centros comerciais (CC). Estes espaços não são apenas locais para comprar. São a aliança da mercadoria com os serviços, lazer e cultura. Locais onde o cliente tanto pode comprar como divertir-se. Consumir, “socializar”, “culturalizar-se”, passear. Tudo no mesmo sítio. Tudo a valer o mesmo.
Nos centros comerciais, os locais onde, por excelência, se consome não por necessidade mas por status, e de modo a maximizar a alienação e o fetichismo, nada é deixado ao acaso. A localização é sempre cuidadosamente escolhida, a disposição das lojas meticulosamente pensada. Os folgados e polidos corredores, para além de facilitarem a circulação (mas sem grandes velocidades), são todos semelhantes, confundindo como um labirinto. Uma perdição. Para encontrar a escada rolante há que atravessar meio centro, para chegar ao consumo mais essencial -a comida – é necessário passar por toda a outra abundância e panóplia. A luz e a temperatura artificiais permitem uma primavera constante e tornam a passagem do tempo imperceptível. Ao contrário das principais artérias das cidades, cujos marcos são as horas electrónicas, relógios é coisa que não existe num CC.  Não há tempo. Não há orientação espacial e temporal. Os cheiros são controlados e o barulho também. Geralmente “músicas” “adaptadas às circunstâncias”. Nem mesmo dinheiro circula. Só cartão. De preferência de crédito, de forma a que a sublimação do real seja mais conseguida. As vitrinas tendem a desaparecer. A “tentação” é mais directa. A montra, que exibe e esconde simultaneamente, e que representa a glorificação dos bens antes da transacção, vai entrando em desuso. Já nem é necessário mimar os objectos. As áreas de alimentação imitam as praças urbanas, do mesmo modo que esses centros vão conjugando o comércio “tradicional” com o novo comércio e o ritmo dos nossos dias com “a antiga passeata”. Não raras vezes, os CC têm fontes de água, plantas e rochas. Tudo bem misturado com o vidro, o betão e o aço. Uma natureza esterilizada. Em épocas de festa, a decoração adapta-se à emoção barata, pois é sempre de “felicidade” que se trata.


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Os shoppings apresentam-se como lugares de conforto, portanto. Mas também de segurança. Garantem sempre que não há azar. Os sistemas de videovigilância são sofisticados e a diferença entre as fontes, as praças e as ruas de um CC e as das cidades é que nas primeiras não existem mendigos, sujidade e “poluição”. Não há tumultos e confusões. Está-se longe do caos urbano e os consumidores têm “as condições materiais que as nossas cidades anárquicas lhes recusavam” (Baudrillard).
Mas a segurança tem um preço. Aumenta a construção de gigantescos CC nas periferias. À medida que crescem os bairros de lata (nas suas múltiplas variantes “favelares” ou “sociais”) e diminuem os espaços verdes, surge a necessidade de criar zonas de segurança  nesses “arredores”. Quais? Centros comerciais e condomínios fechados. Aliás, existem, cada vez mais, os shoppings para ricos e os shoppings para pobres. Os capangas à porta e os preços dos produtos determinam, com facilidade, a clientela. Existem mesmo CC com dress code. Aqueles do tipo “sem a indicação do valor nas vitrinas”. Não tem cartão, não entra. O preço desta segurança é mais do que o aumento das desigualdades sociais. É a invisibilidade social.
A arena do objecto-espectáculo responde à diminuição dos espaços públicos nas grandes cidades de uma forma particular. Os CC são um espaço privado com características de uso público. No shopping, as pessoas podem fazer o “isolamento em conjunto” de que falava Debord. Podem resgatar – numa experiência artificial- a sensação de colectividade em vias de extinção. E podem viver na assepsia e dormência: “este lazer é uma droga popular tão repugnante quanto o turismo ou compras a crédito (…) todos estes detalhes participam de uma ideia burguesa de felicidade, ideia mantida por um sistema de publicidade que engloba tanto a estética do Malraux, como os imperativos da Coca-Cola”.
Rudy Rucker dizia que os CC eram balões de ensaio para o futuro. Uma experiência de como viver no espaço, em planetas inóspitos e sem outras formas de vida que não a nossa. Uma perspectiva cujo optimismo faz do ser humano o salvador do cosmos. Afinal, seria através da destruição da Terra e do consequente imperativo de colonizar outros planetas, que o universo – aparentemente infértil– passaria a ser habitado. Ficções à parte, aproveito para informar o leitor que a bibliografia referida neste texto foi adquirida num enorme loja (com um café lá dentro- cheio de sumos, bolos e bicas) de livros, discos, revistas, computadores, telemóveis, pilhas, baterias e gadgets, no piso intermédio de um ciclópico centro comercial que inclui montanhas russas, centros de massagem e relaxamento, estabelecimentos para deixar de fumar, tabacarias, casas de hambúrgueres, livrarias especializadas, cinemas, ginásios e lojas de porcelanas. Só não há elefantes.

A semelhança é coincidência.

16 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

Com excertos do filme “Os Homens-Toupeira” (2002), remontados por Edgar Pêra.

Ontem, o jornal Público relatava a história de duas famílias que participaram num reality show, o Extreme Makeover: Home Edition (passa também em Portugal no desconexo People & Arts). Nesse concurso- supostamente um espectáculo positivo porque baseado na caridade – os participantes recebem uma casa nova, em troca da exposição das suas vidas. Numa das edições, um casal acolheu na casa oferecida pela produção, cinco irmãos adolescentes órfãos. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger – ele próprio um reality fiction- foi à inauguração da habitação. Passadas algumas semanas, os irmãos saíram da casa, deixando para trás todos os “luxos” oferecidos pelo programa: mansão, carros, dispendiosos sistemas de som e televisão. Queixam-se que o casal “adoptante” tinha uma “campanha orquestrada para os degradar e insultar”, que os chamavam de estúpidos e preguiçosos, que eram racistas. Os órfãos apresentaram também uma queixa contra a ABC. Alegam que o canal obteve de forma fraudulenta os direitos sobre a sua história e que os enganou relativamente aos direitos sobre a casa. Os irmãos vivem agora separados em casa de amigos. A vivenda ficou para o casal. A ABC ficou com meio milhão de euros em receitas publicitárias. Robert J. Thompson garante que “as cadeias de televisão não trabalham para ser filantropas”. E remata: “O preço de uma casa é uma ninharia em comparação com o sucesso que uma série destas tem”. O Correio da Manhã convidou-me para escrever uma série de nove artigos sobre o reality show A Bela & O Mestre. Alguns desses textos foram republicados aqui. O último saiu ontem e o artigo que se segue é uma versão “revista e aumentada”.




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Nos big brothers & Cª há um detalhe revelador. Cada excluído provoca tristeza nos que ficam “na casa” e alegria na claque “lá de fora”. Quem perde torna-se numa celebridade que dá entrevistas e relata a suas proezas. Estes concursos aspiram à “imitação da vida”, com pessoas e acções comuns, mas ficam-se pelo real light, o real sem substância. O mercado dos produtos sem as suas principais propriedades, de que fala Zizek, da cerveja sem álcool ao sexo virtual, tem a sua melhor expressão nos reality shows. A realidade não mora aí. Os espectadores são convidados a excluir alguém de um acontecimento no qual não participam.
Passou-se do culto da personalidade para o culto da imagem. Agora vive-se no culto da pornografia. Começou-se por mitificar os génios e os self made man, depois glorificaram-se as estrelas e hoje festejam-se as celebridades, um número crescente de pessoas anónimas que têm a oportunidade de comunicar com milhões e milhões de pessoas. Os anónimos não representam nem deixam de representar. A indústria cultural ensinou-lhes, desde o berço, a espectacularização da vida quotidiana. E nesta ânsia do comum não se suporta nada de diferente. Quem assiste a um reality show, assiste ao tédio da sua própria vida. Como se só se pudesse desejar o semelhante. Gera-se uma sociedade indivisível. E promíscua. É o culto da pornografia porque estes participantes não são mais nem menos reais do que os “actores” de pornografia. Esta foi apenas pioneira. Nos filmes pornográficos, os participantes também se podem divertir, zangar, gozar ou enojar. Mas sabem bem que é um negócio. And the show must go on.
Nos reality shows pretende-se que nada seja secreto. Nada é escondido, reprimido, proibido, oculto. Quanto mais obscenidade, melhor. Aliás, como se não bastasse a constante celebração da vulgaridade, os concorrentes deste tipo de programas, habitualmente, são convidados a “ir ao confessionário”. A contar à câmara, num suposto momento de intimidade, os seus sentimentos e emoções. A confissão que foi passando da religião para a pedagogia, depois para a psiquiatria e para a literatura, chegou agora aos meios de comunicação. Porém, há uma diferença fundamental. A confissão em segredo não é o mesmo do que uma transmissão pública e publicitária do desejo.
  “O Big Brother assegura a todos uma glória virtual justamente em função da falta de mérito. (…) É a concretização de uma democracia radical, com base na beatificação do homem sem qualidade. Um grande passo rumo ao niilismo democrático” (Baudrillard). Mas esse mesmo Big Brother é o “espelho e o desastre de uma sociedade inteira, atolada na corrida ao insignificante”. Os reality shows são uma metáfora da nossa sociedade. Vivemos constantemente, e cada vez mais, no regime da vídeo-vigilância e vivemos progressivamente mais enclausurados em gaiolas douradas, cujo paradigma são os condomínios fechados com um centro comercial bem central. Porque o exterior (cada vez mais indistinto do interior, num outro sentido) é vivido como ameaçador e perigoso. Os concorrentes dos BigBrothers só caricaturam: sujeitam-se à vigilância e à monitorização contínuas e ao internamento voluntário numa casa.




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Há quem diga até que o século XX só teve um crime pior que Aushwitz: a celebração da banalidade. Nos reality shows não há ficção ou abstracção. É proibido pensar. Espectacular é antónimo de especular. Quem vê considera-se senhor do destino dos concorrentes. Espia a vida alheia “em tempo real”. Acha que tudo vê. Acha que tudo sabe. Sente-se omnipresente e omnisciente. Na sociedade televisivamente modificada, já não há super-heróis. Só pseudo-super-espectadores.
Entre estes concursos e a vida, qualquer semelhança é coincidência. Uma coincidência que se tornou no culto da simulação. Mas o que acontecerá se começarmos por acreditar que o circo é real e depois tomarmos o real por virtual? Há quem pense que isso já aconteceu. Que já extremámos a virtualização. Que observámos as explosões das Torres Gémeas como um cena dejá vu em centenas de filmes e alguns livros, como uma realidade virtual. Que se diluem as fronteiras entre o interno e o externo. E se assim é, o espectador passa a ser, ele próprio, simulado pelos acontecimentos televisivos. Não é o espectador que vê televisão, mas a televisão que o vê. Não nos esqueçamos que a frase é “Big Brother is watching you”.

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Em triplicado: não há tempo a perder.

16 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Rui Tavares(Público, 15 Maio 2007)

1. Uma vez que Helena Matos precisou de arrastar o pingue-pongue  sobre Sarkozy e a França para esta semana, aproveito para lhe  responder a esta bola puxada mais em força do que em jeito. Escreve  Helena Matos: “Deve ser muito tranquilizante ver o mundo assim a  preto e branco, como o vê Rui Tavares: dum lado a direita má e do  outro a esquerda boa. Dum lado os inteligentes e do outro os estúpidos”.

A única resposta possível é dizer-lhe que deve ser reconfortante  viver num mundo em que o principal argumento contra a esquerda é  apenas um, é sempre o mesmo, e ainda por cima está errado. Desde há  meses que, no Público e na RTP-N, prevejo a vitória de Sarkozy e digo  que ele a merece. A seguir à primeira volta escrevi aqui que “Sarkozy  é sem dúvida o mais brilhante dos dois candidatos que passam à  segunda volta, e dificilmente será derrotado”.

Como se vê, e ao contrário do que alega Helena Matos, eu tenho todo o  prazer em reconhecer inteligência à direita. Só ponho uma condição:  que a direita seja de facto inteligente. Caso contrário, a  choraminguice não me comove. Muito menos, ironicamente para quem se  queixa de estereótipos, a reciclagem até à náusea das banalidades  sobre os “intelectuais de esquerda”. Os complexos de inferioridade  não dão direito a pontos extra.    

2. Antes de ser eleito, um estudante brasileiro disse-lhe que deveria  aprender português para quando fizesse a primeira visita oficial ao  Brasil. Ele respondeu: “ah, no Brasil falam português?”. No seu  discurso de despedida, ouvi-o chamar aos EUA os “nossos mais velhos  aliados”, como se não houvesse Tratado de Westminster assinado entre  Inglaterra e Portugal em 1373. Para nós, Tony Blair sai como entrou:  superficial. 3. Não há tempo a perder. As eleições para Lisboa são a 1 de Julho e  o prazo para apresentação de coligações já terminou.

A esquerda apostou forte. Até demais. Todos os nomes que se anunciam  (Helena Roseta, Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e, segundo parece,  António Costa) dariam bons presidentes da Câmara de Lisboa. O  problema é o de sempre. A dispersão de votos à esquerda vai acabar  por premiar quem deveria ser punido pelo que fez a Lisboa. Será  premiado o PSD, que apresenta uma escolha de segunda linha  complementada pelo aparelho local, e o CDS, que não encontra ninguém  à altura do desafio.  

Podem dizer-me que na esquerda há diferenças, que há estratégias dos  partidos e dos indivíduos, que há factos consumados. Eu direi: pensar  assim não é pensar em Lisboa. E comigo estarão certamente muitos  eleitores. A frustração será grande se não aproveitarmos esta oportunidade. É preciso uma equipa que saiba complementar duas  visões. Em primeiro lugar, defender a cidade: arrumar a casa, exigir  transparência, combater a corrupção. Em segundo lugar, projectar a  cidade: fazê-la mais humana, mais inovadora, mais solidária.

Isto não é tarefa para uma só pessoa ou um só partido. As  candidaturas de José Sá Fernandes e Helena Roseta são quem melhor  representa estas duas visões. Ambos nos disseram que a cidade é mais  importante do que qualquer projecto de poder pessoal. Agora chegou a  altura de provarem que é verdade. Chegou o momento de criarem uma  candidatura independente, comum e aberta às ideias dos lisboetas,  porque ninguém sabe tudo. Se forem capazes de o fazer, já estarão  dando um exemplo de como são capazes de se sacrificar pela cidade e,  ao mesmo tempo, mudar a política local. Nestas eleições, estou  convencido que os eleitores serão generosos com quem souber ser  generoso.

David B.

9 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Edgar Pêra

David B. é muito provelmente o nome mais interessante da banda desenhada francesa de hoje. O seu trabalho, obsessivamente dedicado seu epilético irmão e à sua família, vive de uma estética pesadélica, onde os negros invadem as páginas e os desenhos irrompem como luz vinda de um túnel. Mais ou menos.

David B. participou no o III Festival Internacional de Bd de Beja e deu uma conferência no Instituto Franco-Português, onde o entrevistámos. A primeira parte da entrevista debruçou-se sobre Babel, uma enciclopédia de narrativa visual da época, retratada na sua obra emblemática: L’Ascention du Haut-Mal.
Babel encontra-se ainda em fase de publicação seriada. Procurámos saber qual a relação dessa obra com a Guerra. E com o “Rei do Mundo”.

A segunda parte desta cine-entrevista aborda alguns aspectos relacionados com L’Ascention du Haut-Mal. De que forma se vive a Normalidade numa “família epilética”?

Os nossos agradecimentos vão para para a tradutora-relâmpago Susana Mântua, João Trindade, Margarida Silva/Instituto Franco-Português e para o autor, que para além de ter renovado, ao longo da década passada, o interesse pela banda desenhada francesa, disponibilizou-se a dar esta entrevista mal chegado do aeroporto, almoçando à pressa – sob o escrutínio do entrevistador, e sem tempo sequer para comer a sobremesa!

É à chapa.

9 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

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As matrículas “personalizadas” são um hábito nos EUA. Nem todos têm vanity plates, evidentemente. Mas os que escolhem terem um nick, um dito, um cognome ou uma boca na chapa, geralmente escolhem mal. Um infortúnio. Percebe-se. Dar-se ao trabalho de individualizar a matrícula do seu carro já é muito mau sinal. O resultado só pode ser ainda pior. da_plate_girlcab.jpgthanks-yahoo.jpg

 

As alcunhas de eleição conseguem ultrapassar as excelsas preferências para tatuagens e, por vezes, conseguem mesmo suplantar os denominações dos programas da TVI. Belas & Perigosas, por exemplo, é, para estes designadores encartados, um título para copinhos de leite. Há de tudo e muito mais. Há quem dê o e-mail, quem jure ter os maiores testículos do condado, quem ofereça sexo, quem dê loas ao yahoo ou quem procure ter piada mandando gravar na matrícula “hahahahah”.

 

vanityhaha.jpgOk. Isto coloca um problema que os serviços do registo civil deveriam analisar com toda a seriedade e em toda a sua exaustão. Será que faz sentido impedir que os pais registem a sua prole com determinados nomes, digamos, menos ortodoxos? É que há muito boa gente, maior de idade que, perante a oportunidade de seleccionar um segundo nome, uma alcunha, uma antonomásia (?), elege o nome que os pais mais carrascos dariam aos seus filhos. E não falo de madrastas. Adiante. Cada vez que me deparo com os nicks nos fóruns na net, nos e-mails, nos chat rooms (!!!), imagino-me sempre a redigir uma missiva ao tais bons do registo civil, aclarando com afinco a realidade que por aí tresanda. E já nem quero referir as passwords que muitos escolhem e das quais eu, por mero acidente, tenho conhecimento. Essas chaves são, comummente, compostas pelas mais estapafúrdias designações. É o que acontece quando se dá a possibilidade às pessoas de terem segredos. Não farei comentários sobre as projecções no secondlife. Nesta altura, já parecem desnecessários. A verdade é que aquela anedota do tipo que mudou o nome de João Merda para António Merda não é nada.

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O império das Barbies

9 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

07-bjork.jpgNa passada semana o jornalista Mário Lopes pediu-me uma entrevista para o Ípsilon (Público) sobre a Bjork, que saiu com o respectivo dossier (4 de Maio). Fica aqui a versão integral.

- Qual a sua relação com a música de Bjork? Aprecia-a? Porquê?

Tenho alguns álbuns. Mas estou longe de ser uma fã ou uma ouvinte fiel, sequer. O que aprecio no seu trabalho é ter sempre procurado desafiar convenções, caracterizando-se por uma espécie de experimentalismo retro-avant-garde. Consegue mudar e surpreender, juntar elementos improváveis e uni-los através da sua voz contorcionista. O que acho mais graça em Bjork é encarnar paradoxos actuais. Não pertence a nenhum mainstream mas, ao mesmo tempo, é uma diva do pop. E é uma “celebridade” que aparenta um compromisso com o lado mais humano e comum. É global mas excêntrica e até algo apátrida. Bjork consegue, de algum modo, sincronizar-se e simbolizar o sujeito contemporâneo plural e sem identidade. E pronto a consumir.

- O que pode ter trazido de novo à música popular urbana e à sua estética, quando surgiu em inícios da década de 90?

Acho que trouxe algumas coisas novas, mas não uma outra direcção. Bjork é uma variante, não uma revolução. Bjork também soube sempre aliar a sua excentricidade, talento e pesquisa à imagem, ao marketing e às suas parcerias. Tem escolhido muito bem os seus convidados, associados e encontros, mantendo continuamente um certo rasgo. Esse lado multifacetado de Bjork é também interessante. Mas, ao mesmo tempo, previsível.

- O que julga ser responsável por esta quase unanimidade que existe em seu redor, esta aceitação e devoção perante obras mais difíceis e vanguardistas como “Medulla”?

Não sei se há unanimidade. Acho é que é difícil ser indiferente. O álbum Medulla não apenas foi o seu trabalho mais político, coincidindo com uma certa atmosfera pós 11 de Setembro, como é um trabalho tocante e rigoroso, baseado na voz humana e nas suas infindáveis variantes, combinando doçura e violência. Mas acho que a Bjork faz mais rapsódias sofisticadas a partir do que há de mais comum entre os povos, do que trabalhos difíceis e vanguardistas, onde se procura a criação de linguagens verdadeiramente novas.

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- Como definiria a feminilidade de Bjork, mulher que deu “dignidade” a um fato de ganso carnavalesco, na passadeira dos Oscars, mulher que encarnou a martirizada Selma de “Dancer In The Dark”?

Parte do sucesso da Bjork é a sua dualidade, que aparece tanto na voz como na sua imagem. Tanto é criança, como é deusa. Consegue parecer, simultaneamente, cândida e sofisticada. Natural e artificial, bruta e terna, bucólica e hiper-urbana, intuitiva e maquinal. A sua voz ora aparece ameninada, ora erótica, ora límpida ora rouca. O seu rosto parece meio oriental, meio ocidental. Faz lembrar o Homem Duplo do P. K. Dick – que inspirou um filme que passou neste Indie.
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Não gosto das canções do Dancer In the Dark. Quanto ao fato de ganso que usou nos Óscares, faz parte da elaborada e conseguida construção da imagem que Bjork tece, pretendendo que o seu uso radical da moda seja mais uma forma de expressão do que uma exibição de poder. Ela própria afirmou que se tratava de uma “piada conceptual”. É uma piada, mas uma piada de haute-couture. Uma piada cara, portanto.

- Parece-lhe que a projecção de uma identidade feminina é algo que interesse a Bjork explorar musical e esteticamente, ou trata-se antes de uma construcção feita por público e imprensa?

Parece-me que a projecção de uma imagem onde a feminilidade aparece de uma forma menos estereotipada interessa a Bjork, sim. Ela própria diz que jamais usaria jeans e t-shirt por serem “símbolos do imperialismo branco norte-americano”. Mas não deixa de ser uma consumidora de moda radical, recorrendo a estilistas de topo. De resto, nada no seu trabalho parece acidental.

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Rui Tavares: As palavras que merecemos

9 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Rui Tavares

 (Público, 7 de Maio)

O “respeito” de Sarkozy vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade. 

1. Dizem os brasileiros que cada país usa como lema não aquilo que mais tem, mas aquilo de que mais precisa. No Brasil é “Ordem e Progresso”. Na França é “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Uma palavra sozinha pode querer dizer tudo, o que faz com que o seu conteúdo seja nulo, o que faz com que toda a gente concorde. É no meio dos gestos e das outras palavras que ela ganha sentido. Quando Sarkozy disse, no seu primeiro discurso após a vitória de ontem, que seria o presidente “do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito” pouca gente poderá discordar da presença do “respeito” naquela lista. Mas não é por acaso que se a palavra “respeito” viesse em primeiro lugar ela quereria dizer uma coisa completamente diferente. O “respeito” de Sarkozy, pelo contrário, vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade (que não estava na lista). Entre o respeito que o estado deve aos cidadãos e o respeito que o estado exige que os cidadãos lhe devam, Sarkozy opta pelo segundo. E não o esconde.

Mitterrand dizia, ao contrário da opinião geral, que a França não é um país de esquerda. A França é um país conservador, cuja administração é arrogante e onde o temperamento fundamental é pouco conciliador. São os bloqueios do sistema que, ciclicamente, abalam este edifício autoritário – e estes abalos, vistos do exterior, parecem maiores do que o edifício. E assim Sarkozy é visto de fora como uma ruptura e não como a continuação do culto presidencial que já vem de Chirac, de Gaulle e mais atrás ainda. Na cabeça de Sarkozy, como na de Napoleão ou de Luís XIV, o estado é ele, a França é o estado, e a Europa começa e acaba onde a França disser.

2. Parece que quando Sarkozy conheceu Sócrates ficou impressionado. Se a história é verdadeira, não foi certamente com os seus dotes de comandante eleitoral do PS. Aparte a sua maioria absoluta, Sócrates já conseguiu fazer o PS passar por três humilhações: nas autárquicas, nas presidenciais e agora nas regionais madeirenses, onde o PS local deixou de existir. Sócrates tem jeito para ganhar eleições sozinho e para abandonar os seus soldados à má fortuna; num dia mau estes fantasmas voltarão para atormentar o general.

Alberto João Jardim ganhou uma batalha retumbante. Mas agora resta-lhe uma guerrilha constante com o governo central, feita com todas as manhas que se lhe conhece, mas que esbarrarão na impassividade de Sócrates e Cavaco Silva. Os madeirenses e os restantes portugueses desistiram de tentar entender-se e infelizmente não podemos contar com a oposição no arquipélago para fazer a síntese. Por uma razão simples: não há oposição no arquipélago. Os próximos anos serão de ressentimento, mesquinhez e, na melhor das hipóteses, indiferença. Nada a que não estejamos habituados.

Nós só usamos como lema as palavras “República Portuguesa”, e faz sentido. Mais uma vez, não é o que temos mas aquilo de que mais precisamos.

É anónimo e é mau.

2 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

 O tal blog a defender Carmona nem devia merecer comentários porque é anónimo. Mas isso não o tem impossibilitado de ser notícia, não tem impedido que se dê eco aos que defendem um político sem dar a cara. Espero que a esses não escapem pérolas como estas: 

Pérola matemática pura: 

“Isto não é uma “teoria da conspiração”, criada por um espírito distorcido. Há, sim, uma constatação de factos, uma análise a uma sucessão de acontecimentos, que se desejam apresentar como aparente coincidência, mas sobre os quais se pode estabelecer uma correlação clara, posso mesmo dizer matemática pois, estatisticamente, a probabilidade estatística da sua sequência, do seu teor e da sua distribuição, serem aleatórios, é tão pequena, que a podemos ignorar.” 

Pérola literatura pesada 

“E mais: (Sá Ferandes) continuará a atrasar obras; mas não conseguirá demolir o betão. Especialmente quando a massa do betão é a dignidade e a honra das gentes dignas e honradas.” 

Pérola sensibilidade e bom-gosto

 

“Veremos se Marques Mendes tem uma dimensão além do seu tamanho ou se é um político vulgar sem coragem de ir contra a corrente.”

Rui Tavares: Sinal aberto

2 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Rui Tavares

(Público, 1 Maio de 2007)

O PSD dá por adquirido que se deveria privatizar a RTP; pois resta-lhe agora defender a nacionalização da TVI. 

Teoricamente, todos gostaríamos que o mundo fosse justo. Na prática, ninguém protesta se ele for injusto a nosso favor. Eis o meu resumo do caso Pina Moura em duas frases.

Sobra bastante espaço para comentar os dados adquiridos deste debate.

Os partidos de direita mostram-se escandalizados por Pina Moura, um ex-ministro socialista, ter sido contratado pelos donos do canal televisivo mais visto em Portugal. Este escândalo é tanto maior quanto revela os limites ideológicos desses mesmos partidos. Defendem eles a intervenção do estado nas empresas? Não. Têm apoiado legislação contra a concentração na área dos media? Ninguém se lembra. Favorecem uma entidade reguladora forte? Valha-nos Zeus! Em alternativa, admitem devolver aos conselhos de redacção os poderes de confirmar nomeações? Se sim, então porque foram eles que lhos retiraram? O PSD dá por adquirido que se deveria privatizar a RTP; pois resta-lhe agora defender a nacionalização da TVI.

Pina Moura, por seu turno, desenvolve uma impecável retórica segundo a qual tudo é político e tudo é ideológico, e em consequência tudo o que é político e ideológico na sua nomeação é “normal”. Isto para não dizer que é “nobre” ou “um exemplo a seguir”. Logo, será até normal que após a sua nomeação se siga o nobre exemplo da imprensa estrangeira, e ninguém deve espantar-se se um dia a TVI vier a apelar ao voto num candidato da sua preferência. Pina Moura dá por adquirido que a redacção da TVI terá automaticamente a opinião que ele próprio tiver; de facto, para quê dominar a clonagem quando já se domina a chefia?

Do lado oposto, dá-se por adquirido que ele vai controlar a TVI em nome do governo. O mesmo disse o seu partido aqui há uns anos, quando Fernando Lima saiu directamente do gabinete de Durão Barroso para o Diário de Notícias, motivando respostas indignadas do PSD. Dito assim, até parece que as empresas são simples vítimas e não desejam tais contratações, como tão claramente desejaram então e desejam agora. Fica então por explorar a hipótese de que a intenção seja antes controlar o governo a partir dos media e não o contrário. Em Portugal, ninguém é mais dependente do estado do que as empresas; os pobres estão habituados a desenrascar-se sozinhos.

Aqui nesta coluna, Helena Matos dá por adquirido que “a neutralidade não existe” e que nos resta apenas salvar a “diversidade”. Mas qual diversidade? Só existem dois canais privados de sinal aberto em Portugal, e esta escassez não se deve a nenhum limite físico. Estando a diversidade limitada artificialmente para benefício dos dois canais de televisão, o mínimo que os seus donos nos devem em troca é neutralidade. A neutralidade não existe? Talvez não, mas existe a obrigação de tentar. E a comparação com a imprensa aqui não vale, uma vez que não há nenhum limite legal para a criação de novos jornais. Enquanto a TV de sinal aberto existir neste modelo (e não vai ser muito tempo) as regras de conduta política não podem ser as mesmas.

Em tempos, um governo PSD entregou uma licença de TV ao seu militante número um e outra à igreja católica, e garantiu que o estado ficaria a segurar o portão do curral publicitário para que as respectivas empresas fossem lucrativas. Não há nada que uma grande empresa deteste mais do que o risco. A diferença é que, ao contrário de nós, é-lhes fácil contar com o estado para o evitar – e essa é uma injustiça de que não as ouviremos queixarem-se.

Quieta & caladinha, sff.

2 de Maio de 2007 por Joana Amaral Dias

 (Correio da Manhã, 1 de Maio 2007) Era certinho. Mais cedo ou mais tarde, surgiria um pontapé tipo primeiro Big Brother. Agora, no A Bela e o Mestre, um dos concorrentes agrediu a parceira e o par foi expulso.           

Em relação ao agressor, tudo a lamentar. E o ambiente dos reality shows é terreno fértil para estes comportamentos. Estar enjaulado, enquanto o público espreita e atiça, não é para qualquer mamífero. Não, ninguém os obrigou. Mas qual o grau de “publicidade enganosa”? Duvido que alguém os tenha advertido para o stress que se gera quando uma dúzia de pessoas está presa na mesma casa 24 horas/sete dias; a tensão produzida quando se é espiado ininterruptamente; as defesas necessárias para lidar com a exposição súbita e vazia ou com a humilhação pública diária.            

Claro que a produtora aplaude. São enredos artificiais que resultam em audiências bem reais. Já o mestre quer processar a Endemol. Portanto, o concorrente atribui a responsabilidade à produtora que, por sua vez, sorri e lava daqui as suas mãos. A bela que levou porrada, cala a boca e vai para casa. Pois é. Se há reflexo da nossa sociedade neste concurso, está aqui.

Rui Tavares: O ideal universitário

11 de Abril de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Rui Tavares

(Público, 11 de Abril)

Quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por  importante que seja, corre mal. Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de  explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário é as  ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre  como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas  dessas ideias  são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior  parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos,  ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes  (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo,  na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o  resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom  emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa  importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos,  ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de  y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas  chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e  de empregos.

Isto parece idealista, e é. Não poderia deixar de sê-lo, porque a  razão de ser da Universidade é precisamente o idealismo, e não falo  da doutrina filosófica do mesmo nome mas do projecto e da experiência  histórica de haver um lugar inventado pelas ideias e só para as  ideias. O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa  do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Esta é uma das razões pelas quais o episódio da Universidade  Independente nos enche de vergonha alheia. Sabemos que foram  defraudadas pessoas que queriam o seu diploma e pessoas que queriam  uma carreira académica, que alunos ficaram sem aulas e professores  sem salários. Mas se ouvirmos os autores da fraude, como não esperar  este resultado? Desde há semanas nos media só os ouvimos falar de  andares e piscinas, lutas pelo poder e diamantes, acções e hipotecas.  Nunca por uma vez sequer nos disseram para que queriam uma  universidade. Que gostariam de fazer com ela. Que diferentes  concepções defendia cada facção em confronto, se é que pensavam em  tal coisa.

Infelizmente, estão longe de ser caso único. Os sinais de degradação  do Ensino Superior Privado no nosso país são claros: as instituições  esquecem-se que antes de serem privadas têm de ser universidades. O  relaxamento geral em que viveu a UnI não é, ao contrário do que  pretendeu o Ministro, coisa recente nem isolada. O que é preciso  explicar é como se deixou atingir este ponto, o que não coloca apenas  em causa o seu ministério. Por exemplo: como podem ter leccionado  tantos jornalistas importantes na UnI sem a imprensa ter investigado  aquele ninho de mafiosos? O ideal universitário pode vingar em  qualquer ambiente – público, privado, cooperativo, livre, há  excelentes universidades para todos os gostos. Mas é um ideal frágil.  Tem de ser protegido sem ser asfixiado: pelo estado, pela sociedade,  pelas próprias instituições.

Por mero acaso, Portugal tem algumas condições para se sair bem no  mercado universitário, à escala global e a longo prazo. Um país  pequeno, agradável e seguro com uma língua falada por duzentos  milhões, uma universidade das mais antigas do mundo, uma capital com  potencial cosmopolita e meia-dúzia de cidades históricas ou com  razoável vida cultural, integração à escala europeia e laços em todo  o mundo. Neste contexto, as universidades podem ser boas para o  desenvolvimento e para a economia. Mas em primeiro lugar, se não  quisermos as universidades para aquilo que elas servem, elas não  servirão para mais nada.

O Mundo está Desbotado

11 de Abril de 2007 por Joana Amaral Dias

Autor: Edgar Pêra

Existem momentos em que se sente que somos quase cegos, que a realidade nos escapa. Muitas vezes olhamos para o Outro como um Alienígena, um ser de outro mundo, ao qual temos um acesso restrito, de percepção rarefeita. Doutras vezes olhamos para Aqueles-que-determinam-o-Destino-dos-Outros como seres extra-terrestres, desprovidos dos mais básicos sentimentos humanos. Aqueles viram por exemplo o filme Eles Vivem! (They Live) saberão do que estou a falar.
Como sentir o que os outros sentem? Em 1995 a associação de estudantes do I.S.P.A convidou-me para discursar sobre “os sentidos e o sentir”. Para fugir à prosápia, acabei por fazer este pequeno filme auto-financiado, inspirado na narrativa “O Mundo Sobre O Outro Desbotado”, de Maria Isabel Barreno. Todos colaboraram em regime de voluntária escravatura. A Ana Bustorff leu o texto num esquema aqua-fotográfico desenhado por José Tiago e o Nuno Rebelo musicou o filme. O Mundo Desbotado circulou pelos festivais e mais tarde foi revisitado sob a forma de cine-concertos “Visões, Equações, Radyações!!!”. Segue-se remix inédito deste filme, que obviamente não tem rigorosamente nada a ver com Eles Vivem de Carpenter. No entanto, existem algumas coincidências entre esse filme (1988) e algumas das frases do livro de Isabel Barreno (1986): “Eles Sempre Aí Estiveram!” “Nós é que não os víamos…”. Pistas para seguir o rasto dos outros que somos nós que são os outros etc etc.

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Vampiras & Frankensteins

11 de Abril de 2007 por Joana Amaral Dias

 (Sobre A Bela & o Mestre, Correio da Manhã, 10 de Abril)

Li neste mesmo jornal que uma das concorrentes é licenciada

em Gestão Hoteleira e que dá aulas nessa mesma área. Ok, se calhar as belas não são assim tão burras, da mesma foram que os mestres estão longe de serem águias. Mas foi essa mesma concorrente que não reconheceu Camões e que não sabia que a Islândia é na Europa. Ok, as escolas por onde passou podem ter sido muito más (não faço ideia). Mas, apesar de tudo, tirou uma licenciatura. E a sua ignorância até podia ter sido encenada. Porém, já depois de ter saído do programa, reconheceu que, efectivamente, estava a zero. A questão é que a capacidade de reconhecer Camões não mede cultura alguma. O que mede é o grau de alienação a que se pode chegar. Mesmo com uma licenciatura e por mais fraca que ela seja. E essa alienação é, em grande medida, produzida pela televisão que transborda lixo a maior parte do tempo. Mas que, depois, é a primeira a gozar e a lucrar com o resultado. Como uma pescadinha de rabo na boca, num circuito fechado com o seu quê de canibal.