Pesquisa

SUBSCREVER

RSS iconSubscrever em leitor RSS

Add to Google Reader or Homepage
Receba por e-mail


serviço via FeedBurner

AUTORES

Ana Matos Pires António Figueira ezequiel Fernanda Câncio Filipe Moura Ines Meneses Ivan Nunes João Galamba João Pinto e Castro Joana Amaral Dias Jorge Palinhos José Pedro Barreto Luis Rainha Maria João Pires Marta Rebelo Nuno Ramos de Almeida Palmira Silva Paulo Pinto pedro vieira, o irmaolucia Rogério da Costa Pereira Rui Tavares zenuno
  • a cultura dos maus tratos

    16 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Quis o acaso que aquando dos acontecimentos da Quinta da Fonte, que tiveram como mais visíveis protagonistas uma dúzia de ciganos e relançaram o sempiterno debate sobre integração das minorias, os bairros sociais, e o rendimento social de inserção, entre outras coisas, estivesse a trabalhar num documentário sobre ciganos. Na tarde em que alguém filmava os tiros no bairro social de Loures, eu filmava um almoço/entrevista com uma série de famílias ciganas. Falou-se de racismo – o da ‘maioria’, que os ciganos presentes chamavam “a vossa raça entre aspas”, contra os ciganos e o dos ciganos contra quem não é cigano. Falou-se da escola e do baixo nível de instrução da maioria dos ciganos, falou-se de realojamentos, de impostos e de subsídios e do rendimento mínimo, de direitos e deveres, da lei portuguesa e da ‘lei cigana’. Falou-se também de casamentos “prometidos” e da “tradição” de tirar as meninas da escola antes da puberdade. Ler o resto »

    somos todos fitz quintela

    15 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Não conhece este nome, pois não? É o de um jovem advogado morto em 1977 por um agente da PSP. Ia a passar de carro em Monsanto, o agente confundiu-o com alguém, ou deu-lhe ordem de parar e ele não parou - uma coisa assim. À época, a Ordem dos Advogados protestava: “O direito à vida de um cidadão foi banalmente destruído por um equívoco que nada ou ninguém poderá desculpabilizar ou aligeirar no seu significado. [...] Reclama-se, com peremptoriedade, que as autoridades saibam usar responsavelmente a força que lhes é conferida e que nunca subalternizem a vida e a integridade física e moral dos cidadãos. E espera-se que o governo tome, de imediato, as adequadas providências. ” O agente foi condenado a quatro meses de prisão com pena suspensa. Era o princípio da democracia e do Estado de direito. Estávamos a aprender. Ler o resto »

    ainda os danos colaterais*

    13 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Coliseu Micaelense, Ponta Delgada, 26 Setembro 92

    São 22.30h. As portas fecham-se. Cá fora, a multidão protesta.Estão ali para ver o concerto dos Resistência, têm bilhetes, não arredam pé. Alguém bate com um capacete nas velhas portas de madeira, há pontapés, gritos. João Paulo Aguiar, os primos e os amigos ficaram a dois metros da entrada, mesmo em frente. Está bem que os bilhetes foram de graça, oferecidos pela campanha do PS, arranjados pelo pai do João Paulo. Mas desistir tão cedo? Com impaciência, alguém agarra na grade anti motim e martela a porta com ela. As almofadas de madeira caem, já há dois buracos, um de cada lado. Vê-se de dentro para fora e vice-versa. Os bonés da PSP agitam-se, a polícia quer que as pessoas dispersem, as pessoas querem que a polícia abra a porta, empurram, gritam PSD. Ler o resto »

    o direito à vida do vitor hugo

    13 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    O Vítor Hugo morreu. Levou um tiro no pescoço às duas da manhã de terça-feira, no Porto. Tinha 21 anos e, dizem os amigos, vinha de “uma noite de copos”.

    Eram quatro no carro, entre os 17 e os 21 anos. À uma da manhã, a polícia mandou-os parar. Não pararam. Porquê? O condutor diz que o seguro do carro não estava em dia, que tinham umas pedras de haxixe e talvez álcool a mais. Ao fim de uma hora de perseguição, a polícia abriu fogo. Cinco tiros de metralhadora direitos aos ocupantes do banco de trás. Um acertou no pescoço do Vítor Hugo, dois no Bruno, de 18 anos, que sobreviveu. Ler o resto »

    dano colateral, agora em loures (ou revisitar os clássicos)

    12 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    um assalto a uma vacaria, a gnr intervém, assaltantes tentam o clássico atropelamento de um guarda, gnr persegue carro dos assaltantes, gnr dispara (para o chão? para o ar? para matar?) e morre um miúdo de 11 ou 12 anos. tudo normal. a culpa, claro, é do assaltante, parece que ainda por cima cigano, que levou o filho com ele ao assalto, para o iniciar de pequeno na senda do crime. a valorosa gnr está de parabéns: para que servem as armas senão para usar, mais a mais se ainda agora o país todo aplaudiu os tiros em cheio da psp em campolide?

    actualização: afinal parece que não houve perseguição e que a justificação para os tiros (plural, já que parece que o miúdo foi atingido por 2, um na omoplata, outro no abdómen) foi ‘um objecto que surgiu à janela’ em vez da ‘tentativa de atropelamento’. note-se que, como sempre, os gnr queriam atingir os pneus e foram os ‘os solavancos da estrada’ que terão levado as balas a atingir o ocupante.

    segunda actualização: testemunha ocular diz que ouviu 6 ou 7 tiros. e a gnr fala em perseguição. imagens recolhidas por telemóvel mostram vários carros da gnr, assim como um jeep, e um corpo no chão. o veículo dos assaltantes era uma carrinha de caixa fechada.

    a pegada na peugada

    11 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Sabe o que é uma pegada ecológica? É uma espécie de projecção dos estragos que cada um de nós inflige no planeta. A “pegada ecológica” média de um cidadão da Europa Ocidental corresponde, em termos de poluição, a 8,35 toneladas de CO2/ano. É, portanto, a sua. Se se está a questionar sobre a dimensão, fique sabendo que é, como dizem os putos e até o dicionário Houaiss, “bués”. E assim sendo, era bom que diminuísse – dar cabo do sítio onde se vive não é exactamente uma grande ideia.

    Donde vem a pegada e o seu belo tamanho? Ler o resto »

    medidas para o lixo

    11 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    parece que vem aí uma medida revolucionária de recolha de lixo. a recolha diferenciada, porta a porta, do lixo orgânico, que deverá servir para adubo.

    eu ia jurar que era suposto ser assim há anos. a malta punha os desperdícios orgânicos à porta e o resto (papel, cartão, esferovite, plástico, metal, vidro) no ecoponto. parece que não, afinal. ou isso ou as medidas anteriores foram mal aplicadas e mal fiscalizadas — e talvez merecesse a pena explicar porquê.

    reminiscência

    10 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    não sei se sou só eu, mas ao ver o governante da geórgia — sei tão pouco da geórgia que nem me lembro se o senhor é pm ou presidente — a apelar, desesperado, à intervenção da comunidade internacional, ouvi o eco do desespero dos checoslovacos e dos húngaros, há 40 anos e 52 anos, respectivamente. e o eco do silêncio do lado de cá (sim, porque há lado de lá e lado de cá, e coisas como esta clarificam-no muito bem).

    que isto, este horror imperial, suceda enquanto na brutal china decorrem os jogos olímpicos e bush, de lá, apela docemente à paz, é a cherry on top.

    a morte no bes

    9 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    joão miranda levanta uma série de questões interessantes sobre a actuação da polícia no caso bes. chama, por exemplo, a atenção para o facto de a actuação dos snippers que ‘neutralizaram’ (é assim que se diz, certo?) os dois assaltantes ter dependido, em parte, e de acordo com esta notícia do dn, da sorte e de o papel dos negociadores poder ser comprometido em situações futuras. daniel oliveira chama a atenção para o clima de quase euforia de algumas reacções e considera, ao contrário de muita gente, que a operação não foi um êxito porque foi morta uma pessoa e ferida outra com gravidade.

    confesso que tenho dificuldade em escrever sobre este caso por falta de elementos, mas do que vi na noite de anteontem na sic, antes de novas imagens do ocorrido estarem disponíveis, ficaram-me algumas perplexidades. uma é mencionada por joão miranda: que estavam os sequestradores a fazer junto à montra do banco, numa posição em que não podiam ignorar ser alvos fáceis? teriam sido convencidos por alguém — os negociadores, como uma notícia do dn diz — a fazê-lo? outra é a do rasto de um projéctil que sai do banco — o terceiro tiro? disparado por quem?

    claro que o uso da arma pela polícia numa situação como é esta é text book. ou seja, estão perfeitamente preenchidas as condições necessárias para a sua legitimação: afastar perigo/ameaça de morte para terceiros. pistolas apontadas à cabeça de reféns são necessariamente perigo de morte, independentemente das contas de cabeça que se possam fazer. ao contrário, de resto, do que se passa em muitas situações frequentemente mortais e que não têm merecido a atenção que esta, pelo seu mediatismo, atrai. Ler o resto »

    suck my dick, dizem elas

    8 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Lembram-se de Joana d’Arc? Entre os 16 e os 19 anos, no século XV, chefiou exércitos, ganhou batalhas, foi ferida em combate. Capturada numa escaramuça, quando, ao dar ordem de retirada aos seus guerreiros, ficou para trás para lhes cobrir a retaguarda, acabou queimada como herege. Uma das acusações era a de se vestir “à homem”. Nenhuma forma de saber, a esta distância, se tinha ou não “a emotividade de uma mulher” ou se a espada que empunhava e a armadura que envergava lhe pesavam em demasia. Mas o almirante Vieira Matias, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, não tem dúvidas: as mulheres não devem participar em situações de combate porque a sua “emotividade” o desaconselha (podem desatar a chorar, imagina-se, borrar o rímel, falhar os alvos e despenhar o helicóptero) e “o esforço, até mesmo o peso do equipamento, poder ser excessivo” (o almirante terá já dado à luz durante 13 horas sem anestesia ou andado de saltos agulha na calçada lisboeta com sacos de supermercado?).

    Ao reagir, para o DN, ao despacho do ministro da Defesa no sentido de acabar com a discriminação das mulheres no acesso a “tropas de elite” como os fuzileiros navais, Matias foi, digamos, menos hábil que os generais Garcia Leandro e Loureiro dos Santos, que consideram deverem elas, “em nome da igualdade”, poder candidatar-se, mas insinuam que a exigência do treino se encarregará de as pôr no lugar. Ler o resto »

    porra, tou feita

    6 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    acabo de saber pela rtp que murat foi constituído arguido por “excesso de curiosidade”.

    qualquer coisinha

    5 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    A gorjeta é uma instituição fascinante. Existe mais ou menos por todo o lado, estando até oficializada em alguns países: nos restaurantes americanos, por exemplo, é incluída na conta, em percentagens que variam entre os 10 e os 15 por cento. No resto do mundo é necessário examinar a factura para perceber se é preciso deixar “alguma coisa” ou se alguém já decidiu por nós não só se fomos bem servidos como o quanto valorizámos monetariamente o facto. Sendo os EUA apontados como um dos expoentes do liberalismo, a obrigatoriedade de premiar o serviço pode parecer um paradoxo mas, afinal, a gorjeta à força tem a ver com o facto de o ordenado dos empregados de mesa ser quase inexistente – e, diga-se de passagem, é raríssimo apanhar num restaurante americano com as carantonhas de enfado e o descuido que tantos empregados de mesa portugueses ostentam, pelo que o acrescento obrigatório parece resultar no contrário do esperado. Ler o resto »

    Andrey, Natasha, Pierre

    5 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    Bem sei que é suposto só recomendar livros que já se leu. Recomendar por capas, títulos, autores e texto de badana, dentro do critério “novidade” é para programas de TV e quejandices. Mas e se for um livro que estamos a ler? Um livro em que estamos a viver?

    Vive-se num livro como se vive numa casa. Ler o resto »

    a çili cizane no seu esplendor, ou será apenas a çili tivi?

    4 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    na tvi, uma reportagem sobre ‘o último enramador de cajados’. escusado será dizer que, na redacção do dn, várias foram as cabeças que se levantaram de espanto e clamaram, em uníssono e em tom interrogativo, uma palavra muito muito parecida com enramador. mas é bom de ver que tal seria, senão impossível, altamente improvável. embora eu já não diga nada. ultimamente tenho visto e lido cada coisa. ainda agora acabei de ler um texto que classifica este blogue ‘na blogosfera socrática’. ai, isto do çili quando nasce é para muita gente, lá isso é. oremos.

    o horror, o horror

    4 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    estou um bocadinho saturada, para não dizer mesmo completamente, de ‘reportagens’ sobre a crise que a provam com a desgraça ‘das férias dos portugueses que este ano coitados não podem ir para fora e ficam só pelo algarve’. tenham dó: andar pelas praias a perguntar aos banhistas se têm ou não férias no estrangeiro e se isso é ou não sinal de bancarrota é um bocado gozar com os pobres, que os há de facto.

    ainda a resposta de pacheco pereira e a pergunta do dn e a minha resposta às perguntas e respostas sobre a pergunta (uff)

    4 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    na caixa de comentários deste texto, um comentador (luis m jorge) faz menção a este post de daniel oliveira (cujo título é desde logo um programa — quem disse que as perguntas, e mais ainda as perguntas jornalísticas, devem ser ‘inocentes’? que raio será isso de uma pergunta ‘inocente?) e pergunta ‘que diabo levou o Diário de Notícias a formular e a publicar aquela pergunta? Não lhe parece um exercício miserável, f.? Ou, para parafrasear o Daniel Oliveira, um tristíssimo frete? O que irão fazer a seguir — edições especiais sobre o computador Magalhães?

    porque parece que há quem, perante a resposta, prefira só olhar para a pergunta (também sucedeu aqui, com o nuno ramos de almeida), trouxe ‘cá para fora’ a resposta (adaptada) que coloquei nos comentários:

    a mim cansa-me sobremaneira a teoria dos fretes. não que não os haja, mas porque são, felizmente, muitíssimo menos que aquilo que os profissionais da conspiração certificam. chamar ‘um exercício miserável’ à pergunta é não só insultar o meu colega joão céu e silva, coisa que certamente não farei e que me parece bastante pouco elegante (para ser eu própria elegante) alguém convidar-me a fazer, como o próprio pacheco pereira, que respondeu, ao que parece, muito calmamente e sem nenhuma surpresa à pergunta, chegando mesmo ao ponto de confirmar-lhe a premissa. sendo o pacheco pereira, como é público no público e em muitos outros fora, um especialista em identificar e denunciar ‘fretes’, é muito curioso que aquilo que parece a alguns tão gritantemente óbvio não o seja para ele. a não ser, claro, que seguindo a senda da conspiração e da suspeição metódicas, tenhamos então de concluir que o pacheco pereira, ao esconder a sua indignação e ao responder com bonomia à pergunta, resolveu fazer ele próprio um frete — ao jornalista, ao dn, sei lá eu.

    no mundo delirante dos teorizadores do frete, não só todas as notícias do público contra o governo e o pm são escritas pelo próprio belmiro, que se imagina decerto a dar ‘ordens’ a pacheco pereira e aos outros colunistas e a passar ‘dossiers’ aos jornalistas, como a pergunta do joão céu e silva veio directamente do gabinete do primeiro ministro.

    ora o que o joão céu e silva perguntou foi uma coisa muito simples: se pacheco pereira acha, como muita gente acha, que o público faz uma cruzada declarada contra o pm. e ele, pacheco pereira, respondeu que sim. parece que isto custa muito a compreender a certas pessoas, de tal modo que preferem assestar as baterias contra o o perguntador, insinuando que a pergunta nunca devia ter sido formulada por isto e por aquilo. é de facto extraordinário.

    é sobretudo extraordinário que perante a extraordinária resposta de pacheco pereira, que a mim, pessoalmente, me deixou de boca aberta, e por muitíssimas razões além das que aqui e no meu texto para o dn aduzi — e uma delas é porque eu não acho que se deva dizer que o público como jornal tenha declarado guerra santa a josé sócrates, mesmo que a generalidade da opinião nele contida, incluindo a do director, e algumas linhas de investigação tenham adquirido uma tonalidade de obsessão persecutória — haja quem desvie o olhar para a pergunta, sem se dar conta que ao fazê-lo está a adoptar exactamente o mesmo princípio dos que vêem, em todas as notícias que o público publicou sobre o percurso académico do pm ou a sua actividade como engenheiro, uma linha de questionamento inaceitável. há decerto perguntas que se não fazem — mas a pergunta de céu e silva não é uma delas. quanto a quem, como o meu amigo daniel oliveira, insinua que o dn é um jornal ‘vendido’ ao governo (ou lá o que é que o daniel insinua) só posso responder que isso é obviamente fruto de parca leitura do jornal onde trabalho, para além de ser um insulto a muito boa gente na qual eu me incluo.

    perplexidade

    3 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    de cada vez que ocorre um crime contra um taxista, a ‘classe’ vem exigir ‘apoios’. deve ser burrice minha, mas nunca consegui perceber por que motivo devo eu contribuir para os separadores, os gps e a vídeovigilância e não sei mais o quê que os senhores dos táxis querem instalar (eu coloquei um sistema de alarme na minha casa e não pedi subsídio, como imagino que as pessoas que moram em rés-do-chão colocam grades sem ‘apoios’). como não entendo por que motivo uma das associações representativas, a antral, assegura que os separadores não servem para os táxis portugueses ‘por causa do tamanho dos carros’. eu, que ando de táxi todos os dias, estou farta de andar em táxis portugueses com separadores, como estou farta de andar em táxis, por exemplo, italianos, com separadores — e os carros são normalíssimos. mas o mais difícil mesmo de entender é como é que se anda nesta conversa há décadas, e de cada vez que surge não há, nas notícias, qualquer enquadramento,  como se o assunto tivesse surgido pela primeira vez e fosse óbvio que tem de ser o estado, portanto nós todos, a pagar. deus nos dê paciência.

    cavaco e os açores

    2 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    por acaso, estava nos açores no dia da célebre comunicação de cavaco ao país. não a ouvi, por não estar numa zona com boa captação de rádio, e no dia seguinte, de regresso ao continente, já não passava nas tvs. acho, como me parecem achar a generalidade das pessoas, que o suspense criado foi uma tontice — se cavaco queria falar sobre o estatuto dos açores, por que raio não disse ser esse o caso, em vez de, como não ignorava, alimentar especulações que incluíram até o seu estado de saúde? quanto ao assunto, não me parece sem importância, embora não entenda a necessidade de uma comunicação televisiva ao país — parece-me que um veto, que não existiu, e respectiva justificação, seriam mais curiais. lendo vital moreira agora e em maio de 2008 e tendo tido ocasião de, aquando da ‘crise’ suscitada pela oposição de alberto joão jardim à nova lei do aborto, ouvir o também constitucionalista gomes canotilho a propósito das autonomias, formulei a ideia de que já se foi longe de mais. gostava, claro, como aliás já escrevi, que o presidente tivesse mostrado ter dado por isso antes e feito uso dos seus poderes e autoridade no caso da madeira. mas mais vale tarde que nunca.

    o jornalismo de josé manuel fernandes

    2 Agosto 2008 | por Fernanda Câncio

    escrevi uma coluna sobre uma frase de pacheco pereira. a frase, inserta numa resposta a uma entrevista feita pelo dn, foi publicada no domingo passado. escrevi a coluna na quarta-feira. havia já, nessa altura, uma série de menções em blogues a essa frase. o que não havia era qualquer reacção à mesma, nem por parte do seu alegado autor — josé pacheco pereira — nem por parte do jornal público, nomeadamente do seu director. não havia desmentidos nem sequer ‘clarificações’. a transcrição da frase surgia, portanto, pacífica.

    que diz a frase? a frase diz ’sim, escrevo num jornal onde há uma cruzada declarada contra josé sócrates, com que eu na maioria dos casos concordo’. é indesmentível que é isso que se retira da resposta de pacheco pereira à pergunta sobre a alegada existência de uma ‘cruzada declarada contra josé sócrates por parte do público’.

    quase uma semana após a publicação desta frase, o director do público reage. não à frase, que claramente não o terá incomodado, mas à minha coluna. e que diz? em post scriptum à sua coluna de hoje, o seguinte: Ler o resto »

    cohen

    25 Julho 2008 | por Fernanda Câncio
    When it all comes down to dust
    I will kill you if I must
    or help you if I can.
     
    When it all comes down to dust
    I will help you if I must,
    kill you if I can. 

    (story of isaac)

    não vi o concerto. estava no porto. se estivesse em lisboa, teria tido de escolher entre lou reed e cohen — infinita burrice a dos programadores. mas como vi lou reed em 1980 (ou 81?) em cascais num concerto memorável (o primeiro da minha vida) teria decerto optado por cohen. à espera de ouvir dizer — ele di-las mais do que as canta– as duas estrofes acima. de todo o cohen, é isto sobretudo que eu retive: a reversibilidade tremenda das deliberações e dos sentimentos, a crueldade desalentada do coração humano, e esta voz de magoada perversidade, a voz de um profeta doloroso, sem redenção, maldito.

    ajudar-te-ei se puder, matar-te-ei se tiver que ser, e depois, logo a seguir: ajudar-te-ei se tiver que ser, matar-te-ei se puder.