Com este post encerro a minha colaboração com o blogue Cinco Dias. Continuarei a blogar no meu estaminé, no Klepsýdra, e tentarei colaborar com mais frequência com o blogue de divulgação científica do NUCLIO no site do Expresso.
Michel Houellebecq e Bernard-Henri Lévy tiveram honras de uma emissão especial do excelente programa de literatura Café Littéraire dedicado em exclusivo ao livro “Ennemis publics“, objecto da minha entrada anterior. Para os meus fiéis leitores aqui fica o programa na integra, dividido em dois vídeos Daily Motion .
Um programa de literatura dedicado a apenas um livro, escrito por dois dos maiores escritores da actualidade é certo, com 20 minutos de publicidade ininterrupta antes do início da emissão é algo verdadeiramente extraordinário que só acontece em França. Estavam ali jornalistas de vários países europeus que atestaram esta fabulosa singularidade francesa.
“Ennemis publics” é o resultado da troca de correspondência ocorrida de Janeiro a Julho de 2008 entre o escritor Michel Houellebecq e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Na origem da publicação conjunta de tão diferentes personagens estão os ataques pessoais de que ambos são alvo e que vão muito para lá da sua escrita, chegando ao ponto de envolver a mãe de Houellebecq e no caso de Lévy, atingindo a actriz Arielle Dombasle, a sua companheira. Na primeira carta, Houellebecq classifica os dois correspondentes como individus assez méprisables. No entanto, apesar de alguma vitimização menos interessante depressa a troca de correspondência toma contornos de um verdadeiro e vivo debate, onde as partes se irritam, para se acalmarem a seguir, voltando a irritar-se, sobrepondo-se a este ritmo emocional uma reflexão aberta digna de diálogos de filósofos da Grécia antiga. Houellebecq gosta da Rússia, das “sumptuosas louras russas”, mas Lévy, irritado, lembra que a Rússia é também Putin, as oligarquias e a mão de ferro sobre os adversários políticos e as minorias étnicas. Ambos atravessam aleatoriamente a história do pensamento político dos dois últimos séculos e da literatura europeia (onde há referências a Pessoa). O debate atinge a sua fase mais interessante quando se aborda o tema da espiritualidade. Lévy, embora ateu, prefere Jerusalém a Atenas, prefere os escritos dos profetas e dos velhos rabis aos dos filósofos da Grécia antiga. Com uma certeza e uma clarividência surpreendentes, Houellebecq confessa-se desprovido de espiritualidade, assentando o seu pensamento exclusivamente na ciência. Estas reflexões vão sendo intercaladas ao longo da troca de correspondência com revelações pessoais em geral interessantes, onde os autores se expõem mais do que é comum, sobretudo Lévy. Ler o resto »
No meu resumo de “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas” do post anterior dei mais ênfase às passagens em que Charpak se lamenta do distanciamento entre filosofia e ciência, citando autores que apesar de tudo ele elogia. Charpak deixa bem claro que a ciência só tem a ganhar se conseguir estreitar esse fosso com a filosofia, não é de modo nenhum sua intenção criar clivagens estéreis entre as duas disciplinas.
Na obra “La subjectivité à venir” (Flammarion, 2006), Slavoj Žižek tem várias passagens sobre a ciência que ajudam a estreitar esse fosso (tal como no artigo citado pela Palmira Silva), formulando o problema identificado por Charpak quase nos mesmo termos:
“… l’impasse réside simplement aujourd’hui dans le fait que le savoir scientifique ne nous sert plus de “grand autre” symbolique. Le fossé entre la science moderne et le bon sens aristotélicien de l’ontologie philosophique est ici insurmontable: si un premier signe de ce fossé se repère avec Galilé, il se creuse de manière extrême avec la physique quantique, lorsque nous avons affaire à des lois et des règles qui fonctionnent dans le réel bien qu’elles ne puissent plus être retraduites dans notre expérience de la réalité représentable“, pag. 103.
Também sobre Heidegger, Žižek refere-se de uma forma semelhante às considerações de Charpak, classificando algumas das suas posições como “totalmente ambíguas”, embora ressalvando que existe muita crítica simplista para tentar desacreditar o filósofo (pag. 57).
Georges Charpak (Nobel da Física em 92) e Roland Omnès são autores do livro de título irónico “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas“. Este livro surge na sequência de “Feiticeiros e Cientistas“, uma publicação conjunta entre Charpak e Henri Broch, onde ensina o leitor a identificar através da matemática, da estatística e da lógica, os truques e as artimanhas de astrólogos e de outros charlatães. Neste “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas“, Charpak parte da história da conhecimento e do método científico para analisar a relação da filosofia e da religião com a ciência. Charpak analisa a resposta da filosofia e da religião aos novos desafios colocados pela física moderna, pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas.
Charpak analisa as reflexões de Hume, de Kant e de Nietzsche sobre a ciência. Curiosamente, apesar de estar entre os que mais rapidamente a percebem a importância do método científico, Nietzsche é um dos primeiros a contestar o desenvolvimento da teoria atómica realizada por Dalton e Thompson e critica fortemente o darwinismo. Mais tarde, a aceitação da mecânica quântica sofreu grande resistência de filósofos que deram valiosos contributos para clarificar o significado do conhecimento da científico como Russell, Husserl ou Wittgenstein. Charpak dedica uma secção a Heidegger onde transcreve algumas passagens obscuras que revelam um considerável afastamento entre a sua filosofia e a ciência.
Nesta obra pouco divulgada entre nós, Charpak lança algumas pistas que poderão ajudar a perceber o que está na origem de alguns dos casos de pseudo-ciência apontados por Boghossian na obra recomendada pela Palmira Silva, que já está na minha lista de próximas aquisições.
Na passada semana encerrou definitivamente a Universidade Moderna sob o silêncio do xôtor Paulo Portas. Concordo em grande parte com o Luís Januário. Entre as privadas há mais universidades que deveriam fechar. E se fossemos mais rigorosos apenas uma merece o título de universidade: a Católica. No entanto, mesmo a Universidade Católica no contexto europeu é uma universidade coxa onde a produção científica é fraca e se resume praticamente apenas às ciências sociais e humanas. A maior parte das universidades privadas não tem sequer produção científica. Estas instituições deveriam perder o estatuto de universidade e ser designadas mais correctamente como escolas ou institutos de ensino superior, tal como é prática noutros países da OCDE. Existem vários casos de politécnicos no país que produzem trabalho científico e que mereciam bem mais o estatuto de universidade. Apesar de algumas das privadas ainda prestarem serviços à sociedade civil, elaborando sondagens ou estudos técnicos, as restantes dedicam-se apenas à cobrança de propinas e de inscrições nos exames, por vezes, utilizando estratagemas que indignam profundamente os estudantes.
É por estas e por outras que sou pouco sensível ao choradinho das universidades privadas quando se queixam de falta de financiamento do estado. As privadas, tal como as públicas, podem concorrer a projectos europeus e nacionais que financiam a investigação, mas curiosamente o que se verifica é que essas oportunidades são pobremente aproveitadas, especialmente nos domínios das Engenharias e das Ciências Exactas. No entanto, tal como a Moderna algumas das privadas não dispensam um parque de automóveis de luxo adquiridos ou alugados. Por exemplo, um Jaguar custa mais de 100 mil euros, o que corresponde a uma quantia superior ao orçamento médio dos projectos a três anos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Pelo preço de duas ou três viaturas destas é possível equipar um laboratório capaz de produzir trabalhos científicos com qualidade aceitável. É tudo uma questão de prioridades…
É curiosa a história da moeda oficial da Eslováquia desde a independência do Império Austro-Húngaro. A coroa checoslovaca foi a moeda oficial enquanto durou a união da Rep. Checa e da Eslováquia, mas durante os 6 anos de anexação da Rep. Checa pelos nazis a Eslováquia teve a sua própria coroa. A coroa eslovaca voltou depois da separação definitiva da Checoslováquia em 1993 para mais 15 breves anos de existência. Desde 1 de Janeiro, os Eslovacos voltam a ter uma moeda partilhada com outras nações mas desta vez os imperadores que chamavam Pressburg a Bratislava já não são coroados na Catedral de São Martinho e as lagartas dos tanques do Império do outro lado da Europa já não rasgam o alcatrão da estrada em frente à Universidade Comenius.
Mas a história não acaba aqui. Após o recente afundanço económico da Hungria e do impacto económico negativo da crise nos países fora da eurozona, o atlantismo populista que emanava da Polónia para o resto dos países de leste perdeu muito da sua chama. Uma sondagem recente realizada na Rep. Checa dá 65% da população a favor do euro. Ironia, das ironias, em breve checos e eslovacos voltarão a ter a mesma moeda.
Durante a minha vida de nómada europeu convivi com refugiados israelitas católicos, israelitas palestinianos ateus, com libaneses muçulmanos, libaneses ateus, palestinianos muçulmanos e sei lá que mais! Amizades duradouras, amizades fugazes, colegas de trabalho e co-autores de artigos científicos ouvi-os durante anos sobre a questão israelo-palestiniana. Algumas das histórias eram duras e deixaram sequelas físicas. As opiniões sobre o conflito eram diversas, mas eram comuns num ponto: a solução não passava pela disputa da fronteira ao centímetro e só poderia ser de cariz diplomático.
Até hoje, a única ocasião em que essa solução foi conseguida deve-se ao esforço quer da esquerda palestiniana quer da esquerda israelita. Por muito criticáveis que sejam, o que é certo é que Rabin ou Arafat conseguiram (com ajuda, mas a diplomacia é assim mesmo) o que mais ninguém conseguiu. Desde então, Rabin foi assassinado por extremistas fanáticos cujo objectivo de boicotar o processo de paz foi plenamente conseguido e Arafat morreu deixando caminho livre à extrema-direita e aos fanáticos do Hamas (preferia não ter razão, caro Francisco). Com a direita dura, a extrema-direita e os fanáticos quase todos no poder em Israel e na Palestina, a guerra a meio-gás é a solução ideal para se perpetuarem no poder. E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e à extrema-direita israelita. Ler o resto »
Temo que a quantidade de pin-ups que aqui foi debitada recentemente tenha atraido aquele tipo de leitores que assombram as nossas vielas vestidos de gabardine, um par de sapatos e um par de meias em decomposicao, afastando lamentavelmente as nossas leitoras mais interessantes.
Contra as pin-ups aqui vai um Clooney para o sapatinho ou para imaginar a sair todo farrusco da chamine. E fica a promessa de riposta a mais pin-ups com um Pierce Brosnan, um Johnny Depp, um Vitor Baia, um Didier Drogba, um Brad Pitt, um Daniel Auteuil ou um Alain Delon (nao me pecam um Orlando Bloom).
Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends e autor do livro “O Sonho Europeu” que ganhou actualidade com a presente crise, apela neste artigo a uma revolução verde para combater a actual crise. A solução proposta por Rifkin tem a virtude de responder igualmente ao problema levantado pelo Relatório Stern, que alerta para os custos consideráveis para a economia resultantes dos efeitos directos e indirectos do aquecimento global. Rifkin propõe a massificação da utilização de novas tecnologias mais limpas no sector automóvel, em particular a banalização da utilização de tomadas para veículos eléctricos nas paragens das auto-estradas e nos parques de estacionamento, onde a associação estratégica entre empresas do sector automóvel e a indústria de produção de electricidade poderia ter um papel importante na aceleração do processo. Rifkin ilustra o seu discurso citando os exemplos actuais de associação entre a Toyota e a EDF e a Daimler e RWE.
Relembro que o insucesso de anteriores projectos de automóveis eléctricos se deveu em grande parte à diversidade e à incompatibilidade de sistemas utilizados, bem como à rapidez com que os referidos sistemas se tornavam obsoletos, desvalorizando os automóveis eléctricos usados a níveis preços que impossibilitavam a sua revenda por parte dos particulares.
Le Maître. Era desta forma que o director do cinema Odyssée de Estrasburgo – cidade onde vivi quatro anos – se referia a Manoel de Oliveira. O Odyssée fazia questão de apresentar as estreias nacionais do Mestre, convidava actores, realizadores, críticos e a première de um Oliveira era sempre uma soirée especial. Foi nessa altura que percebi a verdadeira dimensão internacional da obra de Manoel de Oliveira, que só tinha paralelo entre os autores portugueses no cinema de João César Monteiro. Na prática, para o resto do mundo estes são os únicos realizadores portugueses que existem. É uma pena, mas espero que as carreiras de João Botelho, de Joaquim Sapinho ou de Pedro Costa me desmintam um dia.
Para além da qualidade do cinema de Manoel de Oliveira, há outra característica que aprecio no autor: a sua permanente capacidade de deslumbramento. Ler o resto »
Este fim-de-semana o nosso serviço público radiofónico transmitiu durante quase uma hora a entrevista de Fernando Alvim a Alexandra Solnado, autora do livro “Mais Luz”. Dentro do género a entrevista nem foi das piores, o tom jocoso do apresentador tentou transmitir algum cepticismo sobre a cavaqueira que Alexandra Solnado entretém com Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, o problema reside na frequência com que personagens como a dita entrevistada aparecem no nosso espaço público e pior é quando se atribui a essas personagens absoluta credibilidade por defeito. Lembram-se da astróloga do programa Praça da Alegria da RTP?
Vivi em países em que existe algum espírito crítico no espaço público e por isso habituei-me a ver essas personagens que contactam com o além restringidas às prateleiras das livrarias dedicadas ao esoterismo, aos yogas e às medicinas placebo. Quando muito tinham o seu espaço mais mediático em canais de televisão especializados onde vendiam diariamente a sua banha da cobra. Geralmente, nas ocasiões em que essas personagens tentavam conquistar o espaço público eram cilindradas imediatamente por especialistas (médicos, astrónomos, psicólogos, historiadores, etc.), davam meia volta e regressavam ao seu habitat natural! Em Portugal raramente é assim. Estamos mal habituados, estamos habituados a tolerar a asneira, toda a asneira, desde a asneira do astrólogo até à asneira do típico xico-esperto lusitano.
Como se pode verificar neste comunicado da NASA, o Sol entrou no seu novo ciclo de aproximadamente 11 anos, o ciclo 24, em Janeiro quando foram detectadas as primeiras manchas solares com polaridade invertida em relação à polaridade das manchas do ciclo 23. Apesar deste mínimo ter sido um dos mais calmos registados, os mínimos de 1933, 1954 tiveram um número de dias sem manchas que será comparável ao do corrente ano e o mínimo de 1913 foi bem mais tranquilo com mais de 300 dias sem manchas solares. O corrente ciclo 24 é um ciclo normal que já registou cerca de 18 manchas solares com a nova polaridade, um valor normal em ano de mínimo, e cujo fluxo de radiação emitida tem sido também o esperado. Aqui algumas imagens do Sol que registei no Observatório de Coimbra durante um eclipse parcial de 96, ano de mínimo, onde apenas se observam duas pequenas manchas. Como é hábito em anos de mínimos e máximos a comunidade científica reuniu-se para debater os dados resultantes das observações e curiosamente já em Julho deste ano a NASA deu-se ao trabalho de prevenir o público contra as habituais especulações pseudo-científicas, explicando porque não havia nada de errado na actividade do Sol.
Mas, como o João Miranda nem a NASA ouve, não resistiu e debitou um texto de pura desinformação, errado de uma ponta à outra, onde reina a especulação ignorante e pseudo-científica com o único intuito de tentar negar o aquecimento global, uma obsessão ideológica recorrente do autor. Mas a melhor passagem é aquela em que o autor insinua que se deveria especular sobre um novo mínimo de Maunder. Ler o resto »
Teve hoje início o Conselho de Ministros da Agência Espacial Europeia que deverá decidir qual será o orçamento para os próximos anos. Temo muito que a actual crise financeira contribua para que o orçamento da ESA continue a encolher, até porque esta seria uma má resposta à crise. A Europa é hoje líder em vários sectores da tecnologia espacial, temos a melhor rede de observatórios terrestres e espaciais, do rádio aos raios gama, temos o melhor veículo de lançamento de satélites, o foguetão Ariane, e em breve o melhor sistema de posicionamento global será europeu, o sistema Galileu. Apesar do PIB dos EUA não diferir muito do PIB da Europa, actualmente a NASA tem um orçamento cinco vezes superior ao da ESA. A Europa arrisca-se assim a perder liderança nas áreas mencionadas e isso não deixará de ter impacto na nossa economia. Apostar na expansão da ESA garantiria essa liderança e abriria a porta a áreas como as missões tripuladas, sector em que temos andado sistematicamente à boleia de russos e de americanos, numa altura em que até a China já tem as suas próprias missões. Apostar mais no espaço é também uma forma eficaz de combater a crise, dado que este é um domínio que gera sub-produtos de alta tecnologia que estimulam a indústria dos países que os inventam e cujos lucros frequentemente ultrapassam em muito os custos de investigação e desenvolvimento, gerando riqueza e emprego. Ler o resto »
Neste interessante artigo publicado no Financial Times é realçado o euro-entusiasmo emergente fora da zona euro após o desespero gerado pela actual crise financeira. Na Polónia, o mais atlantista dos países europeus, o euro é agora considerado como uma forma de protecção contra a crise financeira, cerca de 70% dos islandeses desejam a adesão ao euro, em recente sondagem realizada na Suécia 47% dos cidadãos declararam-se favoráveis à moeda única contra os 42% do SIM no último referendo e na Dinamarca pela primeira vez a maioria da população deseja o euro. Neste país discute-se já a organização de um referendo após um ataque especulativo sofrido pela coroa dinamarquesa em Outubro que obrigou o banco central a aumentar as taxas de juro de 5 para 5,5% (1,75% acima do valor da eurozona) para evitar futuros ataques.