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COMENTÁRIOS

Biografias políticas, nota final

1 de Fevereiro de 2010 por António Figueira

Nota - “Depois de publicada a 1.ª edição deste livro, pronunciou o professor Joaquim Fiadeiro, da Escola Superior de Medicina Veterinária, uma conferência na Casa do Alentejo, da qual extraio as tabelas seguintes:

Média da capitação do consumo de carne (não incluindo a de aves, coelhos e caça) nos seguintes países (1930-1934):

Argentina, 120,8kg
Inglaterra, 63,7kg
França, 43,5kg
Itália, 16,1kg
Portugal, 9,0kg

Média da capitação do consumo de leite (1936):

Suiça, 380lt
Inglaterra, 338lt
Alemanha, 150lt
Polónia, 95lt
Portugal, 11lt

Media da capitação do consumo de queijo nos seguintes países (1936):

Suiça, 8,7kg
França, 6,0kg
Alemanha, 6,0kg
Inglaterra, 4,0kg
Portugal, 0,1kg

Média da capitação do consumo de manteiga nos seguintes países (1936):

Nova Zelândia, 16kg
Inglaterra, 10kg
Alemanha, 7,4kg
França, 5kg
Portugal, 0,4

Média da capitação do consumo de ovos nos seguintes países (1936):

Canadá, 360 unidades
Inglaterra, 186 unidades
Alemanha, 135 unidades
França, 130 unidades
Portugal, 20 unidades”

Sérgio, António (1973, ed. crit.) Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal, Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora.

À chacun sa madeleine

30 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Acabado o almoço, acendi um Gauloises, e posso assegurar que senti nesse momento o odor do tabaco preto tal como primeiro o conheci, tinha treze anos, em Paris. Posso agora dizer: cancro de pulmão, não serás em vão (e a vida ganhou um novo mesmo que pequenino significado).

Vão ao cinema, outra vez (maintenant c’est le tourbillon de la vie)

29 de Janeiro de 2010 por António Figueira

A Jeanne Moreau já tinha aparecido aqui, apeteceu-me fazer colecção; juntei também o trailer do Jules et Jim e uma fotografia do Oskar Werner, que dá ares ao David Hemmings, mas esse não aparece (por agora).

Biografias politicas, anexo

27 de Janeiro de 2010 por António Figueira

“É muito plausível, ao que nós supomos, a hipótese de que o povo dos nossos campos, desde o final da Idade Média, tem levado uma vida da maior pobreza, obrigado a contentar-se com uma alimentação fraquíssima [nota], de que são efeitos imperfeições orgânicas que alguns vinculam à entidade ‘raça’. Ao depressor espectáculo de miséria última que é uma viagem pelas províncias de Portugal corresponde o facto de que as juntas militares têm chegado a rejeitar até dois terços dos mancebos que se apresentam aos exames de recrutamento, por inferiores ao mínimo de robustez exigida. A subalimentação devida à penúria é a circunstância básica que se não deverá esquecer, ao que a nós nos parece, sempre que se comprove a decadência da raça e a inferioridade sanitária da nossa gente. Ler o resto »

From Field of Orik, with love

24 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Nostalgia rossa

24 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Musicalmente, esta versão tem muito menos graça do que o Gioia e Revoluzione original, com a grande voz do grande Demetrio Stratos, mas o Youtube, embora também grande, não tem a outra (quero dizer, tem, mas sem video, só com umas fotozinhas muito mal escolhidinhas; se quiserem mesmo ouvir, que ainda assim vale a pena, basta clicarem aqui, percebem logo a diferença).

Vão ao cinema

22 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Hoje à noite, na Cinemateca, passa o India Song.

Biografias políticas, actualização

21 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Quem tenha visto “O laço branco” e julgado que se trata da história de crimes sem castigo, engana-se: há uns castigados, os de sempre, os pobres (a mulher que morre por acidente, o filho que é preso, o pai que se enforca, o resto da família que fica sem trabalho), que compõem uma história que por comparação é anódina, e a que falta a pungência de um incesto ou da repressão da masturbação de um púbere, mas que se infiltra eficazmente na história principal das perversidade locais. (Com os meus agradecimentos à minha amiga I., fina observadora).

Biografias políticas, problemas teóricos

19 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Como falar de miséria sem cair no miserabilismo? A miséria é sempre má conselheira: não faz de pessoa nenhuma uma boa pessoa, politicamente it’s a recipe for disaster (o lumpen proletariado insiste sempre em ser mais lumpen que proletariado) e, como ensinam os clássicos, a literatura da miséria é sempre uma miséria de literatura. O miserável não se liberta sozinho, tem de ser da lei da miséria libertado: por isso o miserabilismo literário, apesar da sua bondade e rebeldia aparentes, é um xarope conformista, no geral assaz ilegível; literatura verdadeiramente subversiva, só a dos factos enxutos, ou então do plano da sua transformação. A primeira quer-se brutal e impactante, a segunda económica de palavras, res non verba, mais eficaz que jactante. (Exemplos do primeiro tipo: o “Feliz Ano Novo”, do Rubem Fonseca, que quase toda a gente conhece, ou “Um caso sem importância”, dos “Contos Vermelhos”, do Soeiro Pereira Gomes, que quase ninguém conhece.)

Biografias políticas, corrigenda

19 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Onde se lia factfinders, leia-se antes factdiggers.

Alguém que me explique

17 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Quando a velha Colletts morreu, passei a abastecer-me na Bookmarks, uma livraria engraçadinha como o nome que tem, cinco minutos a pé da primeira e ao lado de uma outra loja que vende acessórios preciosos para as longas leituras do Inverno. Os gajos toparam-me, e por isso passaram a pôr livros em português naquelas cestas de livros ao desbarato que ficam à porta das livrarias. Eu topei que eles toparam e ao princípio joguei o jogo; e foi assim que em Setembro passado comprei por três modestas libras uma primeira edição d’”A revolução portuguesa: o passado e o futuro”, enriquecida com o autógrafo e a glosa profusa de Paulo Varela Gomes – glosa essa que enfeitava de tal forma a prosa austera de Álvaro Cunhal que quase me fez deitar fora o exemplar que eu antes tinha do mesmo livro (eu era um estudante muito menos aplicado que o PVG e as minhas anotações ressentiam-se desse facto). O problema é que a coisa entretanto se soube e a prática se espalhou, a ponto de na sexta-feira passada, tendo eu decidido castigar a Bookmarks pela sua inconfidência e ido antes à cata de esquisitices à Judd Books, já perto de King’s Cross, encontrar aqui a £1,90, em perfeito estado de conservação, um exemplar da edição portuguesa d’”O século soviético”, de Moshe Lewin, traduzido pelo meu colega de blogue Miguel Serras Pereira. Comprei-o, claro, mas não para o ler – apenas como corpo de delito e para apurar responsabilidades: afinal, quem é que anda a mandar lá para fora os tesouros artísticos nacionais?

Vamos divulgar

13 de Janeiro de 2010 por António Figueira

De um querido amigo brasileiro que conheci em Bruxelas recebi o e-mail seguinte:

VAMOS DIVULGAR: Carta do cineasta Silvio Tendler ao ministro Nelson Jobim

O cineasta Silvio Tendler enviou carta ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, defendendo que os envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser julgados e punidos por seus atos. Tendler critica a posição do ministro, contrária à punição aos torturadores. “Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a bandidos que desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que juraram defender. É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em risco para acobertar crimes praticados por bandidos”, escreve o cineasta.

Eis a carta: Ler o resto »

Biografias políticas, elucubrações

11 de Janeiro de 2010 por António Figueira

O meu lugar era na casa das máquinas de uma vasta powerhouse de produção de escrita, num subterrâneo de tectos altos com paredes de tijolo à vista, iluminado pela luz crua de enormes lâmpadas eléctricas, e organizado como uma fábrica oitocentista, onde o nosso exército de factfinders se ocupava febrilmente de desenterrar, dos registos infindáveis de factos sociais, as histórias verdadeiras dos Franciscos, Mateus, Domingos, Manoeis e Conceições, pequenos gatunos que dormiam nas escadas, ladrões de peixe que-não-te-metas-com-eles, putas bêbadas & baratas, que fizeram a história verdadeira e numerosa de Portugal, a história dos que nunca foram cantados nem sequer contados, e que outros depois, nos andares de cima (camaradas, nesta república das letras reinava a igualdade), transformavam em literatura, poderosa na sua inquestionável simplicidade: chamavam-lhe o neo-neo-realismo.

Porra, acabou

11 de Janeiro de 2010 por António Figueira

O João Villalobos escolheu o Ma nuit chez Maud, eu escolho a Collectionneuse: nenhum cineasta me deu tanto prazer como Rohmer, nada como todo o Rohmer; agora porra, acabou.

Biografias políticas, questionário

10 de Janeiro de 2010 por António Figueira

A partir da leitura das “Biografias políticas” 1, 2, 3 e 4, publicadas infra, imagine as respostas possíveis às seguintes perguntas: (fundamente)

1 – Descreva sumariamente o meio doméstico e familiar de que é proveniente Francisco (“Biografia política, 1″).
2 – Em função das variações que sofre o uso oficial do seu nome e a ausência de apelidos no mesmo, extrapole qual deveria ser a relação de Francisco (1) com os registos e com os diferentes serviços do Estado.
3 – Forneça uma descrição (pálida) dos usos & costumes vigentes na Casa de Detenção e Correcção de Lisboa em 1895.
4 – Elabore um texto curto, descrevendo o pequeno banquete de Mateus (2) em Sintra (que companhia tinha, que atitude exibia, que produtos consumiu, etc.).
5 – Em que condições calcula que tenha decorrido a sua viagem da Galiza até Lisboa?
6 – A quê ou a quem terá Manoel (3) atirado pedras?
7 – Quando terão Francisco (1), Mateus (2), Manoel e Domingos (3) usado pela primeira vez sapatos nas suas vidas (se é que alguma vez os usaram)?
8 – A “Biografia política, 3″ refere-se a factos ocorridos em 1910; qual seria a posição de Manoel e Domingos em relação à mudança de regime ocorrida nesse ano em Portugal?
9 – Qual seria, em seu entender, a profissão da mãe de Maria da Conceição (4)?
10 – Tendo em conta que Maria da Conceição (4) foi presa, entre 1895 e 1910, mais de cem vezes, estabeleça a frequência mensal das suas prisões.

Biografias políticas, pequeno léxico

10 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Sota – S. m. Boleeiro que vai montado no cavalo da sela: “Leva um sota que se mostra sempre ao lado esquerdo da parelha”, Luís Edmundo, “O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis”, 109; rapaz que conduzia a dianteira ou parelha de reforço, nos serviços de viação.

Assuada – S.f. (do lat. assunata) Desordem, briga, tumulto, alarido, vozearia: “O sucesso que motivara aquela assuada ou tumulto… excitava vivamente a cólera popular”, Herculano, “Lendas e Narrativas”, I, 56. (em Morais Silva, António [1949, 10ª ed.] Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Confluência)

Música sem palavras

9 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Para alguém que parte.

Le genou de Claire, revisited

8 de Janeiro de 2010 por António Figueira

Em português, um bocadinho menos sofisticado, temos as caras de Clara (e ficamos todos a saber quem é Pedro Palma, fotógrafo).

Biografias políticas, 4

8 de Janeiro de 2010 por António Figueira

“Embora o crime respeite sobretudo aos homens, surgem também mulheres com percursos de vida que permitem que a polícia as classifique também como ‘gatunas, vadias e desordeiras’. Apenas um exemplo: Antónia da Conceição é presa em Dezembro de 1910, por ter agredido com um banco um marinheiro inglês, nas escadas do seu prédio. Tem 32 anos, é natural de Luanda, afirma-se como meretriz e sofreu a sua primeira prisão em 1895. Em quinze anos, entre 1895 e 1910, foi presa mais de cem vezes pelas mais diversas razões: desordem, furto, vadiagem, embriaguês, agressão à polícia, ultraje à moral, entre muitas outras. Será julgada e condenada a 60 dias de prisão e a 10.000 réis de multa, sendo considerada vadia e, como tal e de acordo com a legislação, colocada à disposição do Governo Civil para se lhe dar trabalho.” - Vaz, Maria João (2006) Gatunos, vadios e desordeiros. Aspectos da criminalidade em Lisboa no final do século XIX e início do século XX, em “Lei e Ordem: Justiça Penal, Criminalidade e Polícia (séculos XIX-XX)”, coord. Pedro Tavares de Almeida e Tiago Pires Marques, Lisboa: Livros Horizonte

Biografias políticas, 3

8 de Janeiro de 2010 por António Figueira

“Em 1910, são presos pela Polícia Civil de Lisboa Domingos José Lopes e Manoel Pereira, acusados de pertencerem a uma quadrilha de gatunos que se dedicava a furtar peixe no mercado da 24 de Julho, e de ameaçar e agredir quem os repreendia ou lhes conseguia tirar o peixe que tentavam furtar. Manoel tem 12 anos, é natural de Lisboa e fora preso pela primeira vez aos 10 anos, em 1908. Em dois anos foi preso seis vezes por vadiagem ou por suspeita de vadiagem e uma vez por atirar pedras. Domingos tem 19 anos, é natural de Cabo Verde e foi preso pela primeira vez em 1903 por vadiagem. Desde então foi preso mais seis vezes por furto, três por vadiagem, uma por atirar pedras e uma por desordem. Ambos são julgados e condenados a trinta dias de prisão e a 10.000 réis de multa, devendo no final do cumprimento da pena ser colocados à disposição do Governo Civil para se lhes dar trabalho.” (continua)